Sukiyaki Western Django

Espaguete, sushi e sashimi
Uma das bandeiras do movimento modernista da literatura brasileira foi o antropofagismo, que preconizava a absorção de elementos alienígenas à nossa cultura para dar uma forma totalmente nova e nacional à eles. Podemos extrapolar isso para o cinema, cujos países produtores costumam saciar sua sede de ideias entre si. E o cinema japonês já ofereceu muito sashimi e sushi conceitual aos colegas ocidentais. E um dos mais apreciados é a obra de Akira Kurosawa, que teve inspiração ocidental em alguns de seus filmes, como “Ran”, diretamente baseado em “Rei Lear”, de Shakespeare. E dois de seus filmes acabaram tendo suas histórias transplantadas do universo dos samurais para as planícies desertas do Western. Quem é fã do gênero já assitiu à “Sete Homens e Um Destino”, cuja história é praticamente uma refilmagem de “Os Sete Samurais”, de Kurosawa, que é retomada quase como paródia no filme de ficção de Roger Corman “Mercenários das Galáxias”, e é homenageada também em “Vida de Inseto”, da Pixar.
Mas um dos filmes de Kurosawa que mais renderam homenagens e referências foi “Yojimbo – O Guarda-Costas”, na qual um samurai chega a uma cidade na qual dois clãs rivais lutam, e o samurai ora luta de um lado, ora de outro, procurando levar vantagem do antagonismo dos clãs e manipulando os eventos. O pai do Western Spagethi Sérgio Leone reproduziu a história no filme “Por um Punhado de Dólares”, com Clint Eastwood fazendo o papel de “estranho sem nome” ao qual voltaria várias vezes. Mas veremos esta história se repetir em outros filmes, como “O Último Matador”, com Bruce Willis, e “Inferno”, com Jean-Claude Van Damme. Pois é, os brutos também amam Kurosawa.
E toda essa mistura acaba tomando o trem-bala de volta à Ilha de Sipango nas mãos do diretor Takashi Miike, que importou os elementos do faroeste italiano e os misturou com os filmes de samurai, adicionando figurino absurdo e um panteão de personagens bizarros e cenas de ação absurdas, além da participação de Quentin Tarantino com espécie de narrador dessa história. O Fugu que é servido com esta receita é o filme “Sukiyaki Western Django”. A história tem como ponto de partida o filme do Leone, e um pistoleiro sem nome chega a um povoado onde dois clãs, os Minamotos (brancos) e os Heike (vermelhos), lutam e procuram por um tesouro enterrado. Mas, ao contrário da história original, o roteiro não se concentra no personagem central do “pistoleiro sem nome”, havendo vários personagens em histórias paralelas, incluindo drama e comédia. As duas gangues já são uma referência a um episódio da história do Japão Feudal, a Batalha de Danno-ura, em 1185, a qual é mencionada pelo personagem de Tarantino na introdução do filme. Mas se vê de tudo um pouco: chefes de gangue com ilusões de grandeza citando Shakespeare, xerifes com distúrbios de personalidade, viúvas em busca de vingança, uma lendária pistoleira escondida entre os cidadãos, ação e violência exageradas, situações bizarras e uma pá de referências ao faroeste, não só à “Por Um Punhado de Dólares”, mas também a “Django”, como entrega o título, com direito a duelo em cemitérios e metralhadores Gatling escondidas em caixões arrastados – mas com tanta bizarrice não estranharia se aparecesse no caixão um vampiro ao invés da metranca. E nos créditos finais, uma versão da música-tema do filme “Django”. E quando eu falo de exagero, não estou brincando, já que os absurdos deixam “Rápida e Mortal” do Sam Raimi no chinelo, com katanas detendo e cortando balas no ar ou flechas atravessando enormes buracos de tiro no meio dos peitos de algum infeliz.
Admito que é uma mistura para poucos, e que talvez exija uma garrafa de saquê para melhorar a digestão. Mas ao menos consegui convencer um amigo a me acompanhar nessa empreitada no último fim-de-semana. Para quem quer ver algo diferente e divertido é uma boa dica. Mas caso esteja mais habituado a dieta de fastfoods americanos, esse prato japonês pode dar uma congestão em seu juízo. Leve o saquê, ou na falta desse, algumas cervejas podem ajudar.
Nenhuma bebida alcoolica foi consumida durante a elaboração deste texto ou exibição do filme. Infelizmente
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