Archive for abril 2010

Se Meu Fusca (não) Queimasse

Pra variar, meio ocupado com as tarefas ex-blodega, passo a palavra aos frequentadores deste balcão virtual. Esta aventura é um dos relatos que costumo ouvir por aqui. Seu protagonista certamente deve se lembrar dela ao lê-la aqui. Reproduzo seu “relato” para deleite dos clientes.

Quando somos jovens, nossas prioridades hedonistas nos direcionam a beber e fornicar de forma alucinada. E a falta de dinheiro não é necessariamente um empecilho. Se falta dinheiro pra cerveja, tomemos cachaça ou vodca barata. Se não temos carro, alguém da turma consegue um fusquinha. E se não há dinheiro para o motel, usemos o fusquinha de forma comunitária.

Toda esta enrolada é só para lembrar de um episódio de minha juventude. Eu e um amigo de farra estávamos em seu fusquinha à caça de carne fresca. E encontramos duas amigas- uma loira e uma morena, ambas tomando sol na beira da praia. Conversa vai, conversa vem, cerveja para lá, cerveja para cá, o por do sol, aquele papo beleza. Em suma, estavam no papo. Pagamos a conta do bar e fomos aos finalmente. E resolvemos fazer no fusca, mesmo, já que não tinha muita grana para bancar um motel. Fora que ainda tínhamos uma garrafa de rum no carro.

Nós quatro paramos o fusquinha em um local meio ermo e começou a “seção de gala”. Eu fiquei na frente, ensinando os fundamentos do câmbio do Volkswagen para a morena, que depois da terceira dose de rum, engatou uma terceira e estacionou em cima de mim. No banco de trás, meu amigo e sua loira praticavam contorcionismo sexual, já que espaço é um luxo dentro de um fusca. E o negócio tava indo bem.

“Tá ficando quente”, diz a loira. E tava, mesmo, já que os dois estavam mandando brasa. Mas me concentrei em minha parceira, que me mostrava suas habilidades orais. Mas não me furtei a escutar a loira dizendo entre gemidos “tá ficando quente!”, com a concordância orgulhosa de meu amigo, ciente de estar cumprindo competentemente com suas funções.

“Mas tá ficando quente mesmo, porra! E é minha bunda!”. O grito me chama a atenção, e meu amigo apenas pensa alto: “Oba! Hoje é cu!”. A ideia de comer lombo na manteiga (ou no KY, que é o que tinha a mão) me agradou bastante, e se a loira liberasse, era um bom argumento para a morena me fazer esta caridade.

“Tá saindo fumaça, cacete! Tá pegando fogo!”. Saindo fumaça? Imaginei por dois segundos o tamanho da fricção entre as partes para produzir fumaça. Mas me lembrei de um pequeno detalhe da engenharia do fusca. Certamente o alemão que projetou este carro deveria ser do partido nazista e queria honestamente que pobre de explodisse. Como alguém forra um banco com palha e o coloca justamente em cima da bateria e do relé desta?

Pois isso que você está pensando aconteceu. Com o sobe-e-desce do banco, acabou ocorrendo um curto-circuito no relé, produzindo faíscas. Pois é, o banco estava pegando fogo, e obviamente esquentando a bunda da loira. Quando o casal percebeu que estavam prestes a virarem tochas humanas, esqueceram a atividade recreativa rapidamente. Minha morena ficou segurando meu cacete e começou a gritar fogo, como se meu pinto tivesse uma linha direta com o Corpo de Bombeiros. E o que é pior, não saía do canto nem largava meu dito-cujo.
- Joga o banco fora! Joga o banco fora!
E eles até que estavam tentando. Mas fica meio difícil fazer isso quando se está sentado no banco. A morena estava entrando em pânico e quase arranca meu pau fora. Mas sequer saía do seu lugar. E o diálogo que se seguiu foi algo bem edificante:
- Nós vamos morrer!
- Solta meu pau e abre a porta, porra!
- Saiam da frente vocês dois, caralho!
Aquela cena de cinema burlesca durou o suficiente até eu me soltar, sair do fusca e arrancar a morena do carro. A loira tentava fugir pela fresta do quebra-vento.  Meu amigo conseguiu tirar o banco traseiro, jogou-o no chão e sacudiu areia sobre ele. O fogo deixou um imenso buraco no estofado. Eu e meu amigo passamos cinco minutos rindo, e as duas mulheres ficaram putas da vida. Para uma noite de sexo interrompido, até que foi divertido.

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Blodegueiro, Por que Choras?


Além de hoje ser Dia Internacional do Livro e Dia de São Jorge, hoje também se comemora o Dia do Choro, e nada mais oportuno do que este dia cair em uma sexta-feira, pois um Choro bem tocado logo evoca um ambiente de boteco e uma cerveja gelada sobre uma mesa cercada por seres sedentos de música e bebida. E se for ao vivo, com os chorões mandando brasa no virtuosismo de seus instrumentos, aí é que a sede aumenta. Ouvir ao por-do-sol “Pedacinho do Céu” tocado em bandolins, violões de 7 cordas, flautas e saxofones é muito próximo de um fragmento do paraíso, como sugere a música.A data de 23 de Abril é uma homenagem à Pixinguinha, cujo aniversário é nessa data, também dia de São Jorge e feriado no Rio de Janeiro. Ou seja, hoje ninguém tem motivo para não beber.

Pixinguinha, pelo que se registra, era um doce de pessoa, além de ser um excelente músico e daqueles indivíduos cujo folclore o precede. Ao menos deve ter muitos que já ouviram aquela história de que, ao ser abordado de madrugada por assaltantes, estes o reconheceram e se desculparam, mas o músico os convida para uma cervejinha em sua casa, e quando os meliantes saem no fim da madrugada, Pixinguinha ainda lhes dá uns trocados e os aconselha a tomar cuidado com a malandragem.Quiça este fosse um país sério, Pixinguinha seria um ícone da música instrumental tão ou mais famoso do que um Louis Armstrong ou Charlie Parker, e o Choro seria um ritmo mundialmente difundido, tal qual o Jazz.

Obviamente que o Choro é mais do que Pixinguinha e seus clássicos, como “Ingênuo”, “Generoso”, “1×0” , “Lamento” ou “Carinhoso”. Temos um panteão de chorões e uma obra vasta. Luperce Miranda, Jacob do Bandolim, Altamiro Carrilho, Guinga, Edgar Duvivier e um longo etc. Além dos clássicos como “Espinha de Bacalhau” e “André de Sapato Novo”, os novos nomes do gênero mantém viva a tradição e criam novas músicas.

Para não falar muito deixo vocês com “Rosa”, de Pixinguinha, executada pelo quarteto de saxofones JPSax. A todos um bom Dia do Choro e uma boa sexta-feira regada à cerveja.

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Transmetropolitan – De Volta às Ruas

Acabei de queimar uma graninha com os recentes encadernados da Panini. Um deles é “Transmetropolitan – De Volta às Ruas”, que reúne o início dessa série, uma das obras-primas de Warren Ellis, também culpado por coisas como “Planetary” e “Frequência Global” e certamente uma das melhores coisas que surgiram nos insípidos quadrinhos dos anos 90. Já havia falado um pouco sobre a série em outro texto, mas para os que ainda não sabem do que se trata, é sobre o jornalista misantropo, junkie e gonzo Spider Jerusalem e sua luta patológica pela verdade num futuro cyberpunk, uma mistura das histórias do William Gibson e a persona de jornalistas como Hunter S.Thompson, com uma forte carga de crítica social e as situações e diálogos deliciosamente incorretos que Ellis costuma proporcionar sem apelar tanto quanto seu colega de ofício Mark Millar.

Os primeiros números de Transmetropolitan chegaram a ser publicados aqui no Brasil, mas não os comprei, já que a editora pelo qual a série foi lançada (e que mudava de nome toda semana) tinha uma distribuição nada regular, e essa pérola – bem como outras – raramente chegava lá nos cafundós onde morava, e acabei lendo via scans, mesmo. De qualquer forma a série não durou muito. Aliás, a editora não durou muito, e os fãs do Spider Jerusalem ficaram órfãos.

Esse encadernado da Panini, saindo quentinho do forno, trouxe os seis primeiros números da série, e é intitulado “De Volta às Ruas”, mesmo título do arco de três histórias que abre o encadernado e apresentam o personagem saindo do isolamento e buscando um emprego na imprensa após 5 anos sumido, e em busca de garantir sua coluna semanal, o trampo e o apartamento imundo com seu sintetizador viciado, ele se mete em um confronto entre humanos transientes vivendo em um  gueto e as autoridades locais, devidamente aditivado com todo tipo de droga disponível, e sem se preocupar com sequelas, já que nesta época os remédios garantem sua qualidade de vida e longevidade, mesmo que fume 5 maços de cigarro diariamente ou se entupa de drogas.

Os outros três números seguintes contém histórias avulsas. As séries de Warren Ellis costumam ter histórias que podem ser lidas isoladamente, mas que estão relacionadas a série como um todo, trazendo alguma informação ou elemento relevante. No caso de “Transmetropolitan”, normalmente estas histórias isoladas apresentam algum aspecto característico do universo de eventos da série, que se passa no século 23 em uma metrópole simplesmente chamada de “A Cidade”.  Na quarta história, Spider ganha – ou melhor, lhe é imposta pelo seu editor – uma assistente, a estudante de jornalismo, ex-stripper e ex-guarda-costas Channon Yarrow, personagem que se tornará constante na série. Nessa história aparece pela primeira vez o atual presidente, conhecido como “A Besta” por obra e graça de Spider, e o “disruptor intestinal”, a arma capaz de causar homéricas caganeiras em quem sofrer o disparo. Na penúltima história, Spider resolve passar o dia diante da TV zapeando os milhares de canais disponíveis para tentar entender a atual sociedade, e antes dele ficar completamente entediado descobrimos quão perigoso é um aparelho telefônico nas mãos dele. Por último, o gonzo cyberpunk resolve escrever sua próxima coluna sobre as religiões e denominações que surgem aos montes diariamente, e sua presença em uma convenção destas novas religiões parece uma versão doentia do episódio bíblico no qual Jesus expulsa os vendilhões do templo.

Duas pequenas ressalvas em relação a este encadernado: a tradução é nova e o texto parece correto, mas nas primeiras versões achei alguns diálogos mais interessantes do que nesta nova versão, mas não sei se a versão antiga foi mais fiel ao original ou se o tradutor foi mais “criativo”. Outra é que o encadernado veio pobre de “extras”, tão comuns em encadernados e que dão uma enriquecida no material. Tudo que veio, além das histórias em si, foi um texto introdutório do Garth Ennis, apresentando e recomendando a série. Nas edições avulsas lançadas anteriormente havia alguns textos muito bons. Mas nada disso tira o prazer da leitura desse clássico moderno que merece um lugar de destaque na estante, e espero que venham os demais encadernados, já que a série original durou 60 números, publicados entre 1997 e 2002, e foram lançados encadernados em 10 volumes lá na Obamalândia. Aliás, essa obra bem que poderia estar também nas bibliotecas de faculdade de jornalismo e se tornar leitura recomendada aos futuros jornalistas. Mas seria pedir muito quando nem diploma mais estão exigindo de jornalistas por aqui?

Ah, o outro encadernado que adquiri foi o “Sandman – Edição Definitiva”. E a heresia maior é saber que eu NUNCA lera uma história do Sandman antes disso. Pecado este que estou corrigindo devidamente e pelo qual paguei bem caro – literalmente. Mas isso eu falo em outro texto.

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Hanson, os Irmãos Cara de Pau

Esta semana o Hanson, aquela banda dos 3 irmãos que tanto sucesso fez há alguns anos reapareceu com um clip fazendo referência à uma cena do filme “Os Irmãos Cara de Pau”. Para quem é da geração Y e nunca viu essa pérola do cancioneiro mundial merece a danação eterna pode comparar os dois clipes aqui e aqui. Não preciso dizer que os puristas do Blues e Soul insatisfeitos com os rumos da música pop acharam uma heresia, e certamente lembraram das falas de Aretha Franklin no filme dos irmãs Blues: “não blasfemem aqui dentro!”. Ou na melhor das hipóteses acharam muita cara-de-pau dos irmãos Hanson (Tá, eu sei, piada pronta. Mas não deu pra resistir)

Mas não sejamos tão ranhetas, pois ao menos os garotos fizeram uma musiquinha acústica inofensiva, que comparado a muita porcaria lançada à três por quatro pode ser considerada até boa, além de ser uma homenagem legal, que com sorte irá atiçar a curiosidade da garotada sobre os Blues Brothers, a banda criada por John Belushi e Dan Aykroid nos tempo do Saturday Night Live e que protagonizou dois filmes, um em 1980 e outro em 1998, além de gravarem vários discos muito bons. Tudo bem que o segundo filme não é estas coisas, mas os números musicais são de primeira. Isso até merece um artigo decente, mas não agora. Por ora isso me lembrou o discurso que Elwood Blues, diante da iminente desistência de seus colegas em levar a banda adiante, profere para lembrar de suas responsabilidades para perpetuar o legado do Blues e para livrar as próximas gerações de músicas de gosto duvidoso. Ei-lo aqui. Reflitam, incréus!

ATUALIZAÇÃO – Encontrei outra versão do vídeo com o discurso de Elwood Blues legendada

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História do Brasil Para Politicamente Incorretos

Não acredite em tudo que você lê na escola…

Há uma frase creditada ao baixinho do Napoleão Bonaparte sobre a história, que seria uma série de mentiras sobre as quais se chegou a um acordo, ao menos segundo o general que eternizou aquela posição comprometedora para se perder uma guerra. Além da história ser contada pelos vencedores, como se costuma dizer, nem sempre a objetividade aos fatos é seguida, e muitas vezes o autor se deixa levar por aspectos diversos, como o ideológico, distorcendo tais fatos, ou no afã de elevar a ícones e criar uma identidade cultural para uma nação emergente o historiador doura por demais a pílula e maquia os fatos de tal maneira que a história parece romance barato ou roteiro de filme. Washington Irving que o diga…

Além disso tudo, o ensino de história aqui no Brasil ainda tem outros fatores que o torna meio complicado. A maioria dos alunos pouco se fode para aprender essa matéria, seja pela alegada inutilidade de tal conhecimento para a vida prática e profissional ou pelo pouco apelo das aulas, muitas vezes ministradas de forma burocrática por professores mal remunerados e desatualizados.

Na minha vida escolar vivi dois momentos do ensino de história – sim, estou ficando velho, porra! Nos meus primeiros anos de achatamento glúteo em bancos escolares o regime militar ainda queimava as últimas pontas, e o padrão de ensino de história, geografia e educação moral e cívica (sim, tinha esta porra)  era mostrar um Brasil grande, ufanista e que vai para frente. E no caso específico de História, os fatos e personagens eram retratados da forma mais heroica, patriótica e poética possível – mais alguém aí ainda se lembra dos posteres com os “Vultos da Pátria”? Infelizmente naqueles anos finais do governo do General Figueiredo, quase ninguém mais levava esta imagem a sério, e o ufanismo do governo militar estava mais próximo de uma caricatura canhestra do que da verdade. Daí que nos anos da abertura política houve uma gradual mudança no modo como os fatos históricos eram ensinados, questionando-se a imagem perfeita e heroica que recebemos anos antes, um viés quase iconoclástico em alguns casos.

O detalhe é que, se enxergarmos mais de perto, notaremos um quê da ideologia de esquerda impregnada nessa abordagem, a qual foi adotada por boa parte dos livros didáticos de primeiro e segundo graus. Se num primeiro instante resgatou da caricatura os fatos e personagens da história oficial, esta “versão” acaba criando outras distorções para que se encaixem nas teorias e visão de mundo defendidas por tais ideologias.

Para ir na contramão dessa visão que foi lançado recentemente o livro “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil”. O autor,  o jovem jornalista curitibano Leandro Narloch, parece ter se norteado por dois princípios para compor seu livro: escolher verdades caras à nossa história oficial e já consolidadas no senso comum do brasileiro para questiona-las, e questionar estas verdades da forma mais provocativa e “politicamente incorreta”, se opondo diretamente a visão “marxista” e “esquerdista” da história. Há uma quantidade de episódios que poderiam ser explorados, mas ele escolheu alguns a dedo.

Sabia que Zumbi de Palmares, o ícone da libertação dos escravos, tinha escravos, bem como diversos outros negros alforriados? Ou que o genocídio dos nativos foi provocado, em maior escala, pelos próprios índios, como também o desmatamento da mata Atlântica? Quem sabe então o fato de que Aleijadinho é mais provavelmente um personagem fictício que histórico não seja novidade, ou que alguns ícones brasileiros, como a feijoada e o samba, tem mais aspectos da cultura europeia em sua origem do que muitos gostariam de admitir? Pra ser sincero, eu sabia, pois os fatos reunidos neste livro não são bombásticos tampouco novidade para aqueles que gostam do assunto e que costumam ler livros e artigos recentes, já que nos últimos anos saíram muitos livros bons sobre episódios específicos da história do Brasil trazendo nova luz a fatos consumados da historiografia oficial ensinada nas escolas, além de diversas revistas mensais especificas de história. Mas isso não tirou o sabor e o prazer de ler este livro, que além da polêmica inicial, traz informações e detalhes interessantes para defender as teses apresentadas, mais voltado ao público leigo e dentro da proposta de ser um “Guia”. O livro é interessante e leva ao leitor que ainda se prende ao que foi ensinado na escola a constatar que não foi bem assim.

Um dos melhores capítulos é sobre a Guerra do Paraguai, cuja historiografia se baseia principalmente na tese defendida pelo historiador Júlio José Chiavenato de que o Paraguai foi vítima de um complô do império inglês que jogou os países da América do Sul contra a pequena e emergente potência do Cone Sul, que seria um verdadeiro prodígio de avanço e governo e uma ameaça a hegemonia britânica, e  por conta disso sofreu um verdadeiro genocídio nas mãos do exército brasileiro, isso tudo de acordo com Chiavenato. Porém esta tese, ainda adotada por diversos livros didáticos, foi duramente questionada em idos dos anos 90 a partir das ideias do professor Francisco Doratioto, autor de “Maldita Guerra”, cuja visão é de que Solano Lopez era um ditador megalomaníaco e um militar incompetente, que em sua mania de grandeza levou sua nação à uma guerra inútil e perdida. Outro capítulo que deve causar ganas nos acólitos marxistas é onde ele comenta sobre alguns líderes símbolos da esquerda no Brasil, como Luis Carlos Prestes ou Carlos Mariguela, mostrando um retrato pouco louvável destes, que não são mais do que incompetentes, na mais suave hipótese além de tirar o verniz heroico da resistência ao regime militar por parte dos grupos de esquerda e minimizar a truculência do regime.

Pessoalmente achei o estilo narrativo do autor uma faca de dois gumes. Sua vantagem é que, associada a um humor e ironia leves tornam a leitura fluida e agradável, certamente agradando àqueles não tão habituados a ler sobre o tema, além de ir contra o senso comum hoje adotado para a história,  obviamente ancorado e embasado em documentação oficial e publicações sérias. Todavia, no afã de ser politicamente incorreto e de irritar o máximo de pessoas possível, em algumas partes achei que perdeu um pouco a objetividade, principalmente no capítulo sobre Santos Dumont, no qual assume a tese da invenção do avião ter realmente sido americana. Não que eu defenda cegamente a tese contrária e tão em voga por aqui de que o brasileiro é o inventor do avião. Até já falamos aqui a respeito deste fato , apenas acredito que este tema merecia uma abordagem mais equilibrada. Porém nem sempre equilíbrio se traduz em polêmica. E acredito que os acrianos também vão odiar o capítulo sobre o quiproquó envolvendo o Estado, mais especificamente pela tese do autor de que o Brasil fez um péssimo negócio ao lutar pela anexação do Acre…

No mais, gostaria muito de acreditar que tais iniciativas ajudassem a formar alunos mais questionadores que buscassem mais profundidade nos fatos históricos, e que isso viesse a estimular os professores a dinamizarem suas aulas de história, mostrando facetas nem sempre mostradas no programa adotado ou no livro didático. Mas devo estar bêbado pra achar que isso vá ocorrer…

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Não Cometa Essa Loucura!

Em 1986 o cometa Halley passou pela Terra, e muita gente pegou carona em sua cauda para encher o rabo de dinheiro…

No auge do revival dos anos 80, nós fizemos um artigo sobre os motivos para esquecer aquela década, e reeditamos aqui. Mas havia um motivo mais forte que todos : a passagem do cometa Halley. Nada contra cometas, mas esse cometa em especial trouxe mais do que poeira das estrelas.

Momento “Cosmos”

A propósito, vocês sabem o que é um cometa? Bem, antes que corram para a Wikipédia, uma rápida explicação. Cometas podem ser considerados fragmentos que sobraram durante a formação dos planetas do sistema solar. Tais fragmentos acabaram agrupados em dois grandes cinturões, o cinturão de Oort, localizado bem nos cafundós do sistema solar, e o cinturão de Kuiper, mais pertinho, logo ali após a órbita de Netuno. Basicamente pedaços de poeira e gelo, vez por outra alguns desses fragmentos são tirados de seus respectivos cinturões e acabam entrando em uma órbita elíptica em torno do sol. A cauda se forma ao se aproximar do sol, cujo calor acaba vaporizando seu material, e o chamado “vento solar” cuida de soprar este material e formar a sua característica cauda.

Desde os tempos antigos, a súbita aparição de um desses no céu era considerado de mau agouro, e muitos acontecimentos catastróficos ficaram associados à ocorrência de cometas.
Na idade média, os observadores dos céus acreditavam que este era imutável, e que fenômenos como meteoros e cometas seriam essencialmente atmosféricos. Só a partir do século XVI, com o dinamarquês Tycho Brahe, é que os cometas foram considerados fenômenos celestes. Copérnico já tirara a Terra do Centro do Universo, e depois de Brahe, Kepler e Newton completaram o conhecimento astronômico. Kepler imaginava que os cometas seguiam em linha reta, e que nunca voltavam. Newton, o menino criado por vó, e seu amigo Edmund Halley é que acabaram concluindo que, como os planetas, os cometas eram corpos celestes que seguiam em órbitas regidas pelas leis da gravitação universal. Halley provou que o cometa que apareceu em 1682 era o mesmo que aparecera anteriormente em 1607 e 1531. Calculando o período de sua órbita em 75 anos e meio, previu sua volta para 1758, obviamente acertando. Esse cometa seria batizado de Halley.

Mas essa iluminação científica não tirou o verniz supersticioso em torno da aparição dos cometas. Aliás, a separação entre ciência, religião e superstição ainda demoraria muito a se concretizar, e as aparições dos cometas ainda despertavam pânico entre as pessoas. Bem, desgraça acontece o tempo todo, reis caíam, pestes surgiam, terremotos devastavam cidades, e a aparição de um cometa não tinha nada com isso.

Na aparição do Halley em 1910, alguns apressados disseram que sua cauda entraria em contato com a atmosfera terrestre, e como esta supostamente conteria cianogênio, se temia o envenenamento da atmosfera. Algum escroto aproveitou e vendeu comprimidos e máscaras de gás como se vende bolo em feira. Claro que ninguém comentou que os traços de cianogênio eram muito pequenos para oferecerem perigo. Pelo menos naquela época, o cometa ofereceu um senhor espetáculo no céu, e a exploração comercial deve ter se limitado à venda de máscaras e comprimidos.

E Lá Vem o Golpe!

Eis que o cometa estaria previsto para voltar em 1986. Dessa vez dificilmente alguém entraria em pânico o suficiente para comprar máscaras e comprimidos. Mas havia muitas maneiras de se ganhar dinheiro com o cometa. E o melhor, sem pagar direitos autorais ao astro celeste.

Por isso, desde 1985, os meios de comunicação foram invadidos e bombardeados pelo cometa Halley. Pelo menos aqui no Brasil, a TV Globo capitaneou um esquema de merchandising pesado, o que envolvia programas de TV diários com informações científicas, especiais do Globo Repórter e atrações infantis relacionadas ao Halley.

Na linha infantil, se criou personagens baseados no Halley, a Família Halley, que era um grupo de exploradores espaciais, em sua maioria oriundos do planeta Hydron, cuja civilização era tecnologicamente avançada, mas que foi dizimada por uma guerra nuclear. Do planeta sobrara apenas a sua calota polar, a qual se tornou o cometa Halley. Como únicos sobreviventes, eles passaram a acompanhar a trajetória do cometa pelo universo, e fizeram contato com o planeta Terra, com o qual se identificaram, tanto que resolveram adotar o nome que os terrestres deram ao cometa. Em sua missão pelo universo, eles procuravam passar uma mensagem alertando para o risco das guerras e da degradação ao meio ambiente.

Na época, a Globo exibia especiais infantis, que narravam histórias intercaladas por números musicais. Um desses especiais foi “A Era dos Halley”, exibido na semana da criança de 1985. Nele, a Família Halley chegava a Terra e tentava passar sua mensagem de paz e ecologia a três crianças. Como era de praxe, grandes nomes da música brasileira cantavam as músicas desse especial. Uma curiosidade é ver Renato Russo e o Legião Urbana interpretando a música “O Senhor da Guerra” como personagens “do mal”. Essa música ficaria conhecida entre os fãs da banda, pois foi regravada com outro arranjo no disco “Música Para Acampamentos”.

A mascote da Família Halley, o robô Halleyfante (na realidade interpretado por Ferrugem), se tornou personagem fixo no programa infantil Balão Mágico, além de virar brinquedo, para alegria da meninada e desespero dos pais, já que era caro pra cacete! Mas havia Halley para todos, estampando capas de caderno, álbuns de figurinhas, iogurtes, lunetas e binóculos, e tudo mais que o merchandising poderia alcançar.

No final daquele ano, a Editora Abril lança a revista mensal “A Era dos Halley”, contando as aventuras da família passando por diversas civilizações. O roteiro das histórias era escrito por Luiz Antônio Aguiar, e os desenhos ficaram a cargo de Roberto Kussumoto. Além das histórias, textos de informação sobre cometas ocupavam algumas páginas, cuja autoria era do Dr. Ives do Monte Lima. Também se anunciou a produção de um longa-metragem para o cinema com a Família Halley, em clima de superprodução, para os padrões do cinema brasileiro.

Mas a alegria (dos vendedores) durou pouco. A aproximação do cometa estava prevista para o fim de 1985 e idos de maio de 1986, quando o dito puxaria o carro para a casa do chapéu para voltar apenas em 2062. Não obstante toda informação científica divulgada pela imprensa nesses dias, só um detalhe foi omitido ou pouco evidenciado: ao contrário da última aparição de 1910, o cometa passaria a uma distância grande da Terra, e mesmo em seu momento mais próximo de nós, o espetáculo não seria essas coisas todas. Como não foi. Só era possível ver o puto com tempo bom, em um senhor telescópio, o que não deveria ser o caso daquelas lunetas de brinquedo vendida aos montes. E mesmo assim, não era lá um grande espetáculo, pelo menos para o grande público, que deveria estar esperando uma verdadeira apoteose celeste devido à divulgação maciça. Pensem em uma decepção da porra. Todo mundo ficou com cara de cu, se sentindo enganado pelos marqueteiros do Halley. Claro que se ainda havia algum produto com a marca Halley, esse encalhou bonito. Incluindo a revista da Abril, que durou menos de dez números. E filme, que é bom, nunca mais ouvi falar. Provavelmente caiu no mesmo sumidouro que a produção de “Chatô”.

Concluindo…

Aquela passagem do Halley foi muito elucidativa. Além do volume de informação científica na mídia que raramente voltou a atingir tais níveis, ensinou mais do que preceitos científicos e fatos históricos sobre cometas. Ensinou a muitos os sutis mecanismos dos marqueteiros, que se aproveitam de alguma euforia espontânea ou criada para empurrarem seus produtos goela abaixo de qualquer besta disposto a queimar dinheiro. Mas claro que tem sempre alguém disposto a embarcar na onda. Como diria P.T Barnum, a cada minuto nasce um otário.

Mas nem tudo tava perdido, e naquele ano de 1986 haveria Copa do Mundo. Mas não preciso dizer que, pelo menos no Brasil, a galera quebrou a cara de novo…

Eu posso me considerar um felizardo, pois não gastei os tubos com produtos do Halley. Até gostava da divulgação científica, mas como tudo que é “da onda” enchia meu saco, eu sempre era “do contra”. Mesmo assim gastei uns tostões com uma revista dos Halley. Até que não era tão ruim, tinha potencial, caso não tivesse um tema tão sazonal. Em tempo, a próxima aparição do cometa será em 2062. Pretendo estar vivo, apesar de minha vontade não ser muito relevante nesses assuntos. E não comprarei nem máscaras contra gases ou robozinhos do Halleyfante para meus bisnetos…

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Um Ano de Blodega

Essa blodega já está aberta há um ano, e hoje faz aniversário, mas quem ganha é…o provedor, para quem já desembolsei a hospedagem e a renovação do domínio. Assim nem tem perigo de ter esta data esquecida, e ao menos estamos mais um ano garantidos no ar. Mas assim que possível a efeméride será comemorada com a pompa e circunstância devida. Enquanto isso o balcão estará aberto para manifestações de apoio e presentes de qualquer natureza, dando preferência a dinheiro, como diria Nizan Guanaes.

Páscoa na DP

Um Conto Policial de Páscoa

Plantão em domingo já é um saco, imagina em domingo de Páscoa. Todo mundo vai estar na casa de minha mãe comendo e bebendo do melhor, e eu aqui dando plantão na Delegacia. Tentei explicar que, como delegado, não poderia deixar o plantão para ir visitar minha mãe. È claro que ela não compreendeu e ainda me saiu com gracinhas. “Eu sempre disse pra você estudar. Não estudou, deu nisso”.

Paciência. Vida de Delegado não é estas coisas, mesmo. Queria ser como o Rubem Fonseca, que largou esta merda de vida e foi escrever livro. Mas meu dia chegará. Por enquanto apenas rabisco minhas anotações, que podem ser úteis um dia.

O plantão está calmo. De madrugada só teve a ocorrência de uns malucos que quiseram malhar um bêbado no lugar do boneco do Judas. Mas também ele foi beijar mulher casada, e ainda me vem com história de que pensava que estava beijando Jesus, pois o cabelo era parecido. Ele ia ver Jesus em pessoa, se o camburão não tivesse chegado logo.

Eis que o meu escrivão chega em minha sala informando a presença de alguém que quer falar comigo. Pergunto quem é. Ele fala que é o Coelho. Não conheço nenhum Coelho, a não ser o Paulo. E de picareta a Delegacia já ta lotada. Mas não é desse coelho que ele fala.

- É o coelho da páscoa!

Beleza de brincadeira. Estou aqui puto por ter que comer quentinha de boteco ao invés do bacalhau a Gomes de Sá de minha mãe, e este puto vem com piadinhas. Eu já vou ameaçando-o de transferência para o interior quando entra na minha sala um coelho com cara de assustado e todo estropiado. Parece até que um urso limpou a bunda com ele. O roedor se apresenta como o Coelho da Páscoa. Quase o prendo por desacato, mas prender um coelho não é muito ortodoxo. Aliás, um coelho falando não é muito ortodoxo.

Peço que ele me conte sua história triste. Ele me fala que o estão ameaçando de morte, e que ontem à noite tentaram matá-lo. E tentaram bem, pelo estrago que fizeram. Ele descreve que foi atacado enquanto organizava as entregas dos ovos na manhã de Páscoa por homens encapuzados. Como de praxe, pergunto se ele tem inimigos. O que me surpreende é que ele me dá uma lista grande de suspeitos. Pergunto o que diabos um coelho fofinho tem feito para conseguir tantos desafetos. È inveja, afirma o senhor Páscoa. Alguns o ameaçam porque ele teria usurpado o verdadeiro significado cristão do feriado. Outros estão enciumados por ele ser um dos mais populares ícones de datas comemorativas, só sendo superado pelo Papai Noel.

Vamos aos suspeitos. Jesus Cristo? Agora lascou. O safado do Coelho acha que o Filho do Homem quer eliminá-lo por motivos supracitados. Mas resolvo riscá-lo da lista de suspeitos. Sou um delegado sensato, e nunca me meti com filho de pessoas importantes. Sempre existe o risco de ser transferido para alguma cidade nos cu do Judas ou pra onde o diabo perdeu as botas. Neste caso, literalmente.

Próximo suspeito: Pernalonga? Agora danou-se! O desafeto seria causado porque o seu Páscoa trocou uns tapas com o suspeito, já que este vive sacaneando ele com esta história de ovo de páscoa. Aproveito e pergunto se ele põe ovo de páscoa, e como ele consegue isso com ovos tamanho 23. Ele solta uns impropérios, mas o ameaço de prendê-lo por desacato, e ele se acalma.

Mais um suspeito. Papai Noel? Mas ele não é o principal ícone dos feriados? Por que teria inveja do Coelho da Páscoa? O Coelho afirma que ele teme ser posto para trás em importância por ele, já que seu investimento em produção de ovos e colombas tem superado tecnologicamente a arcaica produção de brinquedos no Pólo Norte. Bem, este eu convocarei e interrogarei pessoalmente. Quero saber porque não ganhei o revólver de espoleta naquele Natal de 1979.

Mais um suspeito. Hugh Hefner, o dono da Playboy? O que diabos o Coelho andou fazendo para irritar um magnata da putaria? Ele desconversa, mas arrocho-o um pouco e ele confessa que andou saindo com umas coelhinhas da Playboy. Umas quantas? Cento e setenta e oito. Caralho! Coelhino sem-vergonha! E tenta se justificar, já que ele simboliza a fertilidade e a vida, por isso sai por aí “se divertindo”.

A lista parece não ter fim. Roger Rabbit, porque seu Páscoa teria se engraçado com a senhora Jéssica Rabbit. Os sócios suíços das fábricas de chocolate, produtores de cacau da Bahia, o Vaticano…Porra, o coitado do Papa tá pagando um riscado pra justificar a safadeza do clero e o safado vem acusar o seu Bento? Sacanagem. Ai meu saco, se eu for expedir intimação a esta galera toda, meu escrivão vai cair os dedos.

Digo ao coelho que me espere, pois sairei em diligência. Três horas depois, volto a delegacia, trazendo uma sacola escura, e afirmo categoricamente que elucidara o crime. O coelho se surpreende. Como foi tão rápido, ele pergunta. O poupo dos detalhes, mas lhe afirmo que o responsável pelo atentado estava preso na delegacia do bairro vizinho. Era uma prostituta que afirmara ter feito um programa com você, mas que você não havia pago o combinado. Aí ela ameaçou espalhar por aí que você gosta de cenoura, mas de outro jeito. Saca Mário Gomes?

- Isso é mentira, seu delegado…

De toda forma, ela tentou se vingar de você na noite passada. Por sinal, os únicos ovos que você tentava distribuir eram os seus ovinhos aí, pois consta que você estava em um puteiro, quando sua coelhinha o viu e resolveu aplicar-te um golpe, seduzindo-o e te dando um boa-noite Cinderela. Aí ela e seu cafetão desceram o cacete em você e lhe roubaram. Bem simples.

O Coelho da Páscoa me agradece e me pede total discrição quanto aos detalhes do caso, que em hipótese nenhuma devem vir a público. E é claro que eu solicito uma modesta contribuição para o baile dos policiais aposentados em troca de meu sigilo. Mas que bonito: o Coelho da Páscoa é chegado em uns legumes lá onde o sol não bate.

Mais um caso resolvido. Meu escrivão vem me parabenizar pela elucidação rápida do caso. Menos de três horas de diligência. Digo que não foi nada, pois antes de ouvir a história do Coelho, eu já tinha papeado com o Delegado meu chapa, da delegacia vizinha, e ele me falou que havia prendido uma puta e um cafetão que estavam batendo em uns clientes, incluindo um coelho safado. O caso já estava resolvido antes do cliente entrar.

- Mas o que diabos o senhor foi fazer? Foi na delegacia confirmar a história?
Porra nenhuma. A Diligência foi na casa de mamãe, onde fui almoçar e tomar vinho do bom. E como sou sangue bom, trouxe uma quentinha com um pouco de bacalhau para meu escrivão.
- Demorô!!

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Ou uma releitura dos fatos bíblicos

Essa história, contada diversas vezes por meu irmão mais velho, poderia ter ocorrido em qualquer cidadezinha do interior durante a semana santa, onde algum grupo de teatro resolva encenar a Paixão de Cristo pelas ruas da cidade. Algo bem corriqueiro nas cidades brasileiras com a proximidade do fim da Quaresma. Claro que nem se compara com o nível de superprodução de Nova Jerusalém, e inclusive é mais comum o uso de atores amadores. E normalmente são os mesmos, todos os anos.

Só que na cidadezinha a qual nos referimos, e cujo nome me foge à memória, mas que não duvido nada que seja do interior da minha Paraíba, ocorreu que na estreia da peça, um dos atores que interpretariam um dos centuriões romanos pela Via Crucis acabou caindo doente. Isso inviabilizou sua participação. Alguém se lembra de um potencial substituto, que fisicamente se assemelhava ao ator ausente. Conversaram com ele, e o mesmo concordou sem pestanejar.

Mas o assistente de palco lembrou ao diretor que Zé da Burra – ou qualquer alcunha que o valha – não ia com os cornos do ator barbudo que interpretava há anos o Nazareno da cidade. Parece que era coisa de mulher, ou de dívida de jogo. Ninguém sabia ao certo. Mas o fato é que eram desafetos um do outro, e não era de data recente. Mas o diretor não levou muito a sério o caso. E nos ensaios não houve maiores problemas.

No dia da estreia, a peça começou bem, dentro das limitações de figurinos e do amadorismo dos atores. Até porque qualquer cristão sabe de cor a história. E aí passa parábolas, sermão da montanha, última ceia, beijinho na face dado por Judas, Pilatos lavando as mãos…

Eis que chega o momento da Via Crucis, onde Cristo carrega sua cruz pelas ruas e é espancado. E aí é que começa o problema, já que o ator substituto começa a atuar, na falta de palavra melhor. Digamos que o centurião estava interpretando bem demais, pois estava descendo a chibata com uma verossimilhança que espantaria os produtores do filme “A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson. Já de lombo ardendo, o Cristo resmunga baixinho ao centurião:

- Não acha que está exagerando um pouco?

Rindo, o centurião responde:

- Exagerando? Espera só para ver quando chegarmos à praça…

O espetáculo continuava, narrando a mesma velha história conhecida há quase dois mil anos. Mas, de repente, algo foge ao roteiro, causando comoção geral. Uma gritaria diferente e bem real, desta vez vinda da boca do Centurião.
- Aaaaahhhhh…!
- Dá doendo, filho da puta? Então toma outra!

O “Cristo”, não aguentando mais tanto chicote no lombo, pegara a cruz que carregava e quebrou-a na cabeça do Centurião. De imediato pouca gente entendeu aquilo, outros imaginaram que seria uma releitura dos fatos bíblicos sob a ótica da Teologia da Libertação, e um bocado apoiou a reação, pois onde já se viu apanhar tanto daquele jeito sem reagir? E em  poucos segundos o cacete estava comendo na Via Crucis. Sobrou até para o Judas, que quase foi malhado no lugar do boneco.

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