Páscoa na DP

Um Conto Policial de Páscoa

Plantão em domingo já é um saco, imagina em domingo de Páscoa. Todo mundo vai estar na casa de minha mãe comendo e bebendo do melhor, e eu aqui dando plantão na Delegacia. Tentei explicar que, como delegado, não poderia deixar o plantão para ir visitar minha mãe. È claro que ela não compreendeu e ainda me saiu com gracinhas. “Eu sempre disse pra você estudar. Não estudou, deu nisso”.

Paciência. Vida de Delegado não é estas coisas, mesmo. Queria ser como o Rubem Fonseca, que largou esta merda de vida e foi escrever livro. Mas meu dia chegará. Por enquanto apenas rabisco minhas anotações, que podem ser úteis um dia.

O plantão está calmo. De madrugada só teve a ocorrência de uns malucos que quiseram malhar um bêbado no lugar do boneco do Judas. Mas também ele foi beijar mulher casada, e ainda me vem com história de que pensava que estava beijando Jesus, pois o cabelo era parecido. Ele ia ver Jesus em pessoa, se o camburão não tivesse chegado logo.

Eis que o meu escrivão chega em minha sala informando a presença de alguém que quer falar comigo. Pergunto quem é. Ele fala que é o Coelho. Não conheço nenhum Coelho, a não ser o Paulo. E de picareta a Delegacia já ta lotada. Mas não é desse coelho que ele fala.

- É o coelho da páscoa!

Beleza de brincadeira. Estou aqui puto por ter que comer quentinha de boteco ao invés do bacalhau a Gomes de Sá de minha mãe, e este puto vem com piadinhas. Eu já vou ameaçando-o de transferência para o interior quando entra na minha sala um coelho com cara de assustado e todo estropiado. Parece até que um urso limpou a bunda com ele. O roedor se apresenta como o Coelho da Páscoa. Quase o prendo por desacato, mas prender um coelho não é muito ortodoxo. Aliás, um coelho falando não é muito ortodoxo.

Peço que ele me conte sua história triste. Ele me fala que o estão ameaçando de morte, e que ontem à noite tentaram matá-lo. E tentaram bem, pelo estrago que fizeram. Ele descreve que foi atacado enquanto organizava as entregas dos ovos na manhã de Páscoa por homens encapuzados. Como de praxe, pergunto se ele tem inimigos. O que me surpreende é que ele me dá uma lista grande de suspeitos. Pergunto o que diabos um coelho fofinho tem feito para conseguir tantos desafetos. È inveja, afirma o senhor Páscoa. Alguns o ameaçam porque ele teria usurpado o verdadeiro significado cristão do feriado. Outros estão enciumados por ele ser um dos mais populares ícones de datas comemorativas, só sendo superado pelo Papai Noel.

Vamos aos suspeitos. Jesus Cristo? Agora lascou. O safado do Coelho acha que o Filho do Homem quer eliminá-lo por motivos supracitados. Mas resolvo riscá-lo da lista de suspeitos. Sou um delegado sensato, e nunca me meti com filho de pessoas importantes. Sempre existe o risco de ser transferido para alguma cidade nos cu do Judas ou pra onde o diabo perdeu as botas. Neste caso, literalmente.

Próximo suspeito: Pernalonga? Agora danou-se! O desafeto seria causado porque o seu Páscoa trocou uns tapas com o suspeito, já que este vive sacaneando ele com esta história de ovo de páscoa. Aproveito e pergunto se ele põe ovo de páscoa, e como ele consegue isso com ovos tamanho 23. Ele solta uns impropérios, mas o ameaço de prendê-lo por desacato, e ele se acalma.

Mais um suspeito. Papai Noel? Mas ele não é o principal ícone dos feriados? Por que teria inveja do Coelho da Páscoa? O Coelho afirma que ele teme ser posto para trás em importância por ele, já que seu investimento em produção de ovos e colombas tem superado tecnologicamente a arcaica produção de brinquedos no Pólo Norte. Bem, este eu convocarei e interrogarei pessoalmente. Quero saber porque não ganhei o revólver de espoleta naquele Natal de 1979.

Mais um suspeito. Hugh Hefner, o dono da Playboy? O que diabos o Coelho andou fazendo para irritar um magnata da putaria? Ele desconversa, mas arrocho-o um pouco e ele confessa que andou saindo com umas coelhinhas da Playboy. Umas quantas? Cento e setenta e oito. Caralho! Coelhino sem-vergonha! E tenta se justificar, já que ele simboliza a fertilidade e a vida, por isso sai por aí “se divertindo”.

A lista parece não ter fim. Roger Rabbit, porque seu Páscoa teria se engraçado com a senhora Jéssica Rabbit. Os sócios suíços das fábricas de chocolate, produtores de cacau da Bahia, o Vaticano…Porra, o coitado do Papa tá pagando um riscado pra justificar a safadeza do clero e o safado vem acusar o seu Bento? Sacanagem. Ai meu saco, se eu for expedir intimação a esta galera toda, meu escrivão vai cair os dedos.

Digo ao coelho que me espere, pois sairei em diligência. Três horas depois, volto a delegacia, trazendo uma sacola escura, e afirmo categoricamente que elucidara o crime. O coelho se surpreende. Como foi tão rápido, ele pergunta. O poupo dos detalhes, mas lhe afirmo que o responsável pelo atentado estava preso na delegacia do bairro vizinho. Era uma prostituta que afirmara ter feito um programa com você, mas que você não havia pago o combinado. Aí ela ameaçou espalhar por aí que você gosta de cenoura, mas de outro jeito. Saca Mário Gomes?

- Isso é mentira, seu delegado…

De toda forma, ela tentou se vingar de você na noite passada. Por sinal, os únicos ovos que você tentava distribuir eram os seus ovinhos aí, pois consta que você estava em um puteiro, quando sua coelhinha o viu e resolveu aplicar-te um golpe, seduzindo-o e te dando um boa-noite Cinderela. Aí ela e seu cafetão desceram o cacete em você e lhe roubaram. Bem simples.

O Coelho da Páscoa me agradece e me pede total discrição quanto aos detalhes do caso, que em hipótese nenhuma devem vir a público. E é claro que eu solicito uma modesta contribuição para o baile dos policiais aposentados em troca de meu sigilo. Mas que bonito: o Coelho da Páscoa é chegado em uns legumes lá onde o sol não bate.

Mais um caso resolvido. Meu escrivão vem me parabenizar pela elucidação rápida do caso. Menos de três horas de diligência. Digo que não foi nada, pois antes de ouvir a história do Coelho, eu já tinha papeado com o Delegado meu chapa, da delegacia vizinha, e ele me falou que havia prendido uma puta e um cafetão que estavam batendo em uns clientes, incluindo um coelho safado. O caso já estava resolvido antes do cliente entrar.

- Mas o que diabos o senhor foi fazer? Foi na delegacia confirmar a história?
Porra nenhuma. A Diligência foi na casa de mamãe, onde fui almoçar e tomar vinho do bom. E como sou sangue bom, trouxe uma quentinha com um pouco de bacalhau para meu escrivão.
- Demorô!!

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