História do Brasil Para Politicamente Incorretos

Não acredite em tudo que você lê na escola…

Há uma frase creditada ao baixinho do Napoleão Bonaparte sobre a história, que seria uma série de mentiras sobre as quais se chegou a um acordo, ao menos segundo o general que eternizou aquela posição comprometedora para se perder uma guerra. Além da história ser contada pelos vencedores, como se costuma dizer, nem sempre a objetividade aos fatos é seguida, e muitas vezes o autor se deixa levar por aspectos diversos, como o ideológico, distorcendo tais fatos, ou no afã de elevar a ícones e criar uma identidade cultural para uma nação emergente o historiador doura por demais a pílula e maquia os fatos de tal maneira que a história parece romance barato ou roteiro de filme. Washington Irving que o diga…

Além disso tudo, o ensino de história aqui no Brasil ainda tem outros fatores que o torna meio complicado. A maioria dos alunos pouco se fode para aprender essa matéria, seja pela alegada inutilidade de tal conhecimento para a vida prática e profissional ou pelo pouco apelo das aulas, muitas vezes ministradas de forma burocrática por professores mal remunerados e desatualizados.

Na minha vida escolar vivi dois momentos do ensino de história – sim, estou ficando velho, porra! Nos meus primeiros anos de achatamento glúteo em bancos escolares o regime militar ainda queimava as últimas pontas, e o padrão de ensino de história, geografia e educação moral e cívica (sim, tinha esta porra)  era mostrar um Brasil grande, ufanista e que vai para frente. E no caso específico de História, os fatos e personagens eram retratados da forma mais heroica, patriótica e poética possível – mais alguém aí ainda se lembra dos posteres com os “Vultos da Pátria”? Infelizmente naqueles anos finais do governo do General Figueiredo, quase ninguém mais levava esta imagem a sério, e o ufanismo do governo militar estava mais próximo de uma caricatura canhestra do que da verdade. Daí que nos anos da abertura política houve uma gradual mudança no modo como os fatos históricos eram ensinados, questionando-se a imagem perfeita e heroica que recebemos anos antes, um viés quase iconoclástico em alguns casos.

O detalhe é que, se enxergarmos mais de perto, notaremos um quê da ideologia de esquerda impregnada nessa abordagem, a qual foi adotada por boa parte dos livros didáticos de primeiro e segundo graus. Se num primeiro instante resgatou da caricatura os fatos e personagens da história oficial, esta “versão” acaba criando outras distorções para que se encaixem nas teorias e visão de mundo defendidas por tais ideologias.

Para ir na contramão dessa visão que foi lançado recentemente o livro “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil”. O autor,  o jovem jornalista curitibano Leandro Narloch, parece ter se norteado por dois princípios para compor seu livro: escolher verdades caras à nossa história oficial e já consolidadas no senso comum do brasileiro para questiona-las, e questionar estas verdades da forma mais provocativa e “politicamente incorreta”, se opondo diretamente a visão “marxista” e “esquerdista” da história. Há uma quantidade de episódios que poderiam ser explorados, mas ele escolheu alguns a dedo.

Sabia que Zumbi de Palmares, o ícone da libertação dos escravos, tinha escravos, bem como diversos outros negros alforriados? Ou que o genocídio dos nativos foi provocado, em maior escala, pelos próprios índios, como também o desmatamento da mata Atlântica? Quem sabe então o fato de que Aleijadinho é mais provavelmente um personagem fictício que histórico não seja novidade, ou que alguns ícones brasileiros, como a feijoada e o samba, tem mais aspectos da cultura europeia em sua origem do que muitos gostariam de admitir? Pra ser sincero, eu sabia, pois os fatos reunidos neste livro não são bombásticos tampouco novidade para aqueles que gostam do assunto e que costumam ler livros e artigos recentes, já que nos últimos anos saíram muitos livros bons sobre episódios específicos da história do Brasil trazendo nova luz a fatos consumados da historiografia oficial ensinada nas escolas, além de diversas revistas mensais especificas de história. Mas isso não tirou o sabor e o prazer de ler este livro, que além da polêmica inicial, traz informações e detalhes interessantes para defender as teses apresentadas, mais voltado ao público leigo e dentro da proposta de ser um “Guia”. O livro é interessante e leva ao leitor que ainda se prende ao que foi ensinado na escola a constatar que não foi bem assim.

Um dos melhores capítulos é sobre a Guerra do Paraguai, cuja historiografia se baseia principalmente na tese defendida pelo historiador Júlio José Chiavenato de que o Paraguai foi vítima de um complô do império inglês que jogou os países da América do Sul contra a pequena e emergente potência do Cone Sul, que seria um verdadeiro prodígio de avanço e governo e uma ameaça a hegemonia britânica, e  por conta disso sofreu um verdadeiro genocídio nas mãos do exército brasileiro, isso tudo de acordo com Chiavenato. Porém esta tese, ainda adotada por diversos livros didáticos, foi duramente questionada em idos dos anos 90 a partir das ideias do professor Francisco Doratioto, autor de “Maldita Guerra”, cuja visão é de que Solano Lopez era um ditador megalomaníaco e um militar incompetente, que em sua mania de grandeza levou sua nação à uma guerra inútil e perdida. Outro capítulo que deve causar ganas nos acólitos marxistas é onde ele comenta sobre alguns líderes símbolos da esquerda no Brasil, como Luis Carlos Prestes ou Carlos Mariguela, mostrando um retrato pouco louvável destes, que não são mais do que incompetentes, na mais suave hipótese além de tirar o verniz heroico da resistência ao regime militar por parte dos grupos de esquerda e minimizar a truculência do regime.

Pessoalmente achei o estilo narrativo do autor uma faca de dois gumes. Sua vantagem é que, associada a um humor e ironia leves tornam a leitura fluida e agradável, certamente agradando àqueles não tão habituados a ler sobre o tema, além de ir contra o senso comum hoje adotado para a história,  obviamente ancorado e embasado em documentação oficial e publicações sérias. Todavia, no afã de ser politicamente incorreto e de irritar o máximo de pessoas possível, em algumas partes achei que perdeu um pouco a objetividade, principalmente no capítulo sobre Santos Dumont, no qual assume a tese da invenção do avião ter realmente sido americana. Não que eu defenda cegamente a tese contrária e tão em voga por aqui de que o brasileiro é o inventor do avião. Até já falamos aqui a respeito deste fato , apenas acredito que este tema merecia uma abordagem mais equilibrada. Porém nem sempre equilíbrio se traduz em polêmica. E acredito que os acrianos também vão odiar o capítulo sobre o quiproquó envolvendo o Estado, mais especificamente pela tese do autor de que o Brasil fez um péssimo negócio ao lutar pela anexação do Acre…

No mais, gostaria muito de acreditar que tais iniciativas ajudassem a formar alunos mais questionadores que buscassem mais profundidade nos fatos históricos, e que isso viesse a estimular os professores a dinamizarem suas aulas de história, mostrando facetas nem sempre mostradas no programa adotado ou no livro didático. Mas devo estar bêbado pra achar que isso vá ocorrer…

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8 Pediram Fiado para “História do Brasil Para Politicamente Incorretos”

  • [...] This post was mentioned on Twitter by Ines Mota and Blogueiros Do Brasil, Moziel T. Monk. Moziel T. Monk said: História do Brasil Para Politicamente Incorretos: Não acredite em tudo que você lê na escola… Há uma frase credit… http://bit.ly/bjelfr [...]

  • Eu cheguei a ver esse livro à venda, só que não pude comprar, infelizmente. Sim, eu sempre gostei de estudar história. Espero poder ler esse livro em breve.

    • Boa leitura esta, pena que é até relativamente fininho e você acaba de ler ligeiro. O autor deve estar é feliz por ter encontrado este nicho, já que o livro está nestas listas de mais vendidos. Certamente deve sair alguma sequencia. Quem sabe aplicando esta visão à história universal…Abraços!

  • fafa:

    Leandro Narloch, vale lembrar, como ele próprio disse na entrevista, não estava procurando “a verdade”, e sim “irritar o maior número de pessoas possível”. Tendo isso em vista, gostaria de saber qual é o poder que ele tem para estar certo ao contestar as conquistas de Santos Dumont e falar em nome da “verdade”, mascarando, manipulando a verdade. Só pelo fato de ele ter guiado o livro dele com a intenção de “irritar” os outros o torna algum Guru da verdade? Porque deveríamos desacreditar em todos os livros e autores e simplesmente acreditar cegamente em Leandro?
    Sobre Santos Dumont, Leandro apenas consultou Paull Hoffman, americano que não conhecia Santos Dumont até o ano 2000 e que escreveu um livro, obviamente em favor dos irmãos Wright e tentando rebaixar e diminuir os brasileiros. Se santos Dumont não é conhecido muito ao redor do mundo se deve a esse tipo de atitude dos estados Unidos, pois Santos Dumont era reconhecido sim, em todo o mundo, porém a propaganda americana, por décadas, tentou dissimular a realidade. Os argumentos de Leandro são muito frágeis, assim como quando diz que “Apenas olhando a foto podemos saber quem é o verdadeiro pai da avião”. Nunca li uma conclusão mais idiota, baseada na linha de raciocínio mais ridícula. Pois vou agora contar a verdade, com V maísculo: Leandro Narloch escreveu um livro com a intenção de irritar os brasileiros e consequentemente ganhar dinheiro com isso. Ele sabia que se simplesmente escrevesse um belo livro enaltecendo os nossos heróis, não venderia muita coisa. Ele quis ser diferente, porém esta fazendo um grande deserviço a história e a auto-estima brasileira, e pior de tudo é que com motivações interesseiras e manipuladoras.
    Vá ler um livro de Fernando Jorge sobre a vida de Santos Dumont ou qualquer um do Henrique Lins de Barros, biógrafos que pesquisaram a vida de Santos Dumont a vida inteira e não um jornalistazinho metido a dono da verdade que tentou ganhar uma bela grana em cima da manipulação e calúnia.
    Por fim, as “testemunhas” dos Wright eram os mecanicos que trabalhavam para eles, ou seja, pior fonte não há. A Patente que os Wright pediram em 1903 era a de um planador, e não a de um avião. A foto que apareceu do suposto voo deles saiu anos depois dos feitos de Santos Dumont, e como naquela época a foto não saia com a data, poderia ter sido tirada em qualquer época. Por fim, o avião de Santos Dumont voou sim, não saltou como ele tentou dissimular em seu livro. Se o avião dos Wright ficou anos depois mais tempo no ar, eles tem mérito em algum recorde, mas não na primazia do Voo. Por fim, acho uma pena presenciar uma forma tão baixa para se ganhar dinheiro e perceber o povo brasileiro se iludindo com esse autor. Sobre Santos Dumont, pesquisem as biografias que eu disse, assim como a de Jorge Dumont Villares “Quem deu asas ao homem” e vocês verão a grande mentira que Leandro esta falando, que certamente ele invetou assim como ele confessou que era a sua intenção na entrevista.
    Leandro Narloch é um falso, cuidado.

    • Obrigado pelo comentário, Fafa. Se você leu o texto que escrevi você deve ter visto que eu ressalvei que o autor peca por não ser tão objetivo em suas análises devido ao seu objetivo de “irritar o maior número de pessoas”. No penúltimo parágrafo, inclusive, eu menciono a sua posição quanto ao feito de Santos Dumont:”Todavia, no afã de ser politicamente incorreto e de irritar o máximo de pessoas possível, em algumas partes achei que perdeu um pouco a objetividade, principalmente no capítulo sobre Santos Dumont, no qual assume a tese da invenção do avião ter realmente sido americana”. E a respeito do tema, mencionei um outro texto que escrevemos aqui na blodega especificamente sobre Santos Dumont, que está aqui, caso queira ler. Nele menciono alguns outros autores de livros sobre o tema, como Aluizio Napoleão, o livro “O Que Vi, o Que Veremos” do próprio Santos Dumont e cito um álbum em quadrinhos que aborda esta questão de forma bem mais objetiva do que o Leandro: “Santô e os Pais da Aviação”, do desenhista Spacca.
      Mas voltando ao “Guia…”, concordo com você que o autor Leandro Narloch peca em ser objetivo, o que não deixa de ser uma estratégia para se sobressair e aumetar as vendas. Por exemplo, li a pouco o excelente livro “Cabeza de Vaca”, do jornalista Paulo Markun, que como documento histórico é muito superior e bem melhor escrito do que o livro de Narloch, mas não recebeu tanta atenção da mídia, justamente por não assumir esse tom polêmico e politicamente incorreto, mesmo questionando alguns fatos tidos como verdade. Como friso no texto: “O livro é interessante e leva ao leitor que ainda se prende ao que foi ensinado na escola a constatar que não foi bem assim.”. Todavia seu alerta é válido, Fafa, para que não tomemos o que consta no “Guia…” como verdade absoluta. Ele serve apenas como um “Guia” mesmo, apesar de estar impregnado com esse ranço provocador do autor. É válido para vermos outro ponto de vista do que é ensinado na escola, todavia para quem quiser se aprofundar nos temas apresentados é mais aconselhável ler os livros e documentos que ele cita, para que se tenha uma visão mais equilibrada dos fatos e chegar as próprias conclusões.

  • Que bom se os “educadores” é que ficassem sóbrios e adotassem essa sua recomendação. A história, especialmente a do Brasil – que é chatérrima – ficaria bem mais interessante, e os alunos, menos alienados.

    • Quem sabe um dia quando professores forem bem remunerados e treinados isso ocorra. Claro que também depende da vontade, talento e profissionalismo de cada profissional de ensino. Abraços!

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