Transmetropolitan – De Volta às Ruas

Acabei de queimar uma graninha com os recentes encadernados da Panini. Um deles é “Transmetropolitan – De Volta às Ruas”, que reúne o início dessa série, uma das obras-primas de Warren Ellis, também culpado por coisas como “Planetary” e “Frequência Global” e certamente uma das melhores coisas que surgiram nos insípidos quadrinhos dos anos 90. Já havia falado um pouco sobre a série em outro texto, mas para os que ainda não sabem do que se trata, é sobre o jornalista misantropo, junkie e gonzo Spider Jerusalem e sua luta patológica pela verdade num futuro cyberpunk, uma mistura das histórias do William Gibson e a persona de jornalistas como Hunter S.Thompson, com uma forte carga de crítica social e as situações e diálogos deliciosamente incorretos que Ellis costuma proporcionar sem apelar tanto quanto seu colega de ofício Mark Millar.

Os primeiros números de Transmetropolitan chegaram a ser publicados aqui no Brasil, mas não os comprei, já que a editora pelo qual a série foi lançada (e que mudava de nome toda semana) tinha uma distribuição nada regular, e essa pérola – bem como outras – raramente chegava lá nos cafundós onde morava, e acabei lendo via scans, mesmo. De qualquer forma a série não durou muito. Aliás, a editora não durou muito, e os fãs do Spider Jerusalem ficaram órfãos.

Esse encadernado da Panini, saindo quentinho do forno, trouxe os seis primeiros números da série, e é intitulado “De Volta às Ruas”, mesmo título do arco de três histórias que abre o encadernado e apresentam o personagem saindo do isolamento e buscando um emprego na imprensa após 5 anos sumido, e em busca de garantir sua coluna semanal, o trampo e o apartamento imundo com seu sintetizador viciado, ele se mete em um confronto entre humanos transientes vivendo em um  gueto e as autoridades locais, devidamente aditivado com todo tipo de droga disponível, e sem se preocupar com sequelas, já que nesta época os remédios garantem sua qualidade de vida e longevidade, mesmo que fume 5 maços de cigarro diariamente ou se entupa de drogas.

Os outros três números seguintes contém histórias avulsas. As séries de Warren Ellis costumam ter histórias que podem ser lidas isoladamente, mas que estão relacionadas a série como um todo, trazendo alguma informação ou elemento relevante. No caso de “Transmetropolitan”, normalmente estas histórias isoladas apresentam algum aspecto característico do universo de eventos da série, que se passa no século 23 em uma metrópole simplesmente chamada de “A Cidade”.  Na quarta história, Spider ganha – ou melhor, lhe é imposta pelo seu editor – uma assistente, a estudante de jornalismo, ex-stripper e ex-guarda-costas Channon Yarrow, personagem que se tornará constante na série. Nessa história aparece pela primeira vez o atual presidente, conhecido como “A Besta” por obra e graça de Spider, e o “disruptor intestinal”, a arma capaz de causar homéricas caganeiras em quem sofrer o disparo. Na penúltima história, Spider resolve passar o dia diante da TV zapeando os milhares de canais disponíveis para tentar entender a atual sociedade, e antes dele ficar completamente entediado descobrimos quão perigoso é um aparelho telefônico nas mãos dele. Por último, o gonzo cyberpunk resolve escrever sua próxima coluna sobre as religiões e denominações que surgem aos montes diariamente, e sua presença em uma convenção destas novas religiões parece uma versão doentia do episódio bíblico no qual Jesus expulsa os vendilhões do templo.

Duas pequenas ressalvas em relação a este encadernado: a tradução é nova e o texto parece correto, mas nas primeiras versões achei alguns diálogos mais interessantes do que nesta nova versão, mas não sei se a versão antiga foi mais fiel ao original ou se o tradutor foi mais “criativo”. Outra é que o encadernado veio pobre de “extras”, tão comuns em encadernados e que dão uma enriquecida no material. Tudo que veio, além das histórias em si, foi um texto introdutório do Garth Ennis, apresentando e recomendando a série. Nas edições avulsas lançadas anteriormente havia alguns textos muito bons. Mas nada disso tira o prazer da leitura desse clássico moderno que merece um lugar de destaque na estante, e espero que venham os demais encadernados, já que a série original durou 60 números, publicados entre 1997 e 2002, e foram lançados encadernados em 10 volumes lá na Obamalândia. Aliás, essa obra bem que poderia estar também nas bibliotecas de faculdade de jornalismo e se tornar leitura recomendada aos futuros jornalistas. Mas seria pedir muito quando nem diploma mais estão exigindo de jornalistas por aqui?

Ah, o outro encadernado que adquiri foi o “Sandman – Edição Definitiva”. E a heresia maior é saber que eu NUNCA lera uma história do Sandman antes disso. Pecado este que estou corrigindo devidamente e pelo qual paguei bem caro – literalmente. Mas isso eu falo em outro texto.

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