Archive for maio 2010

Dirty Harry, Smith & Wesson

Hoje o veterano ator Clint Eastwood completa 80 anos, sendo um dos mais respeitados diretores americanos da atualidade. Aproveitando a data reedito este texto dos tempos do Busilis sobre um de seus mais famosos personagens: Harry Calahan, ou Harry, o Sujo. Make my day!

Na época do lançamento de “Tropa de Elite”, alguns críticos soltaram os cachorros e se indignando com o fato do protagonista do filme, o violento Capitão Nascimento (vivido por Wagner Moura) ser aclamado como herói pelo público, mesmo usando de expedientes ilegais e violentos. Ô racinha, não pode ver o povo vibrar quando bandido se fode nas telas do cinema que já começa a levantar tese de sociologia. Deixa o povo se divertir, cazzo. Já não basta ver os meliantes se safando por conta de brechas da lei ou incompetência das autoridades? Por isso o povo lava a alma quando, na ficção, um meganha bota pra lascar nos bandidos.

Mas o Capitão Nascimento é apenas mais um personagem do cinema que leva fama de fascista. O patrono dos policiais do cinema que fazem justiça a seu modo é um inspetor de San Francisco que passou os anos 70 e 80 pegando pesado com a malandragem que se beneficiava da moleza legal, naqueles anos anteriores ‘a “tolerância zero”. Os cinéfilos devem conhecer Harry Callahan, ou seu apelido Dirty Harry, o Harry, o “Sujo”. Vivido por Clint Eastwood no cinema, o policial mais grosso de San Francisco ainda hoje tem sua legião de fãs, e quem não o conhece merece ser apresentado.

O contexto da época favoreceu a simpatia popular por um policial que não era totalmente certinho e que questionava o sistema judiciário, algo novo no início dos anos 70 nos States. Durante os anos 60, as leis americanas acabaram se tornando brandas, muito em parte por conquista das lutas pelos direitos civis. Se por um lado houve um esforço genuíno no sentido de dar as minorias étnicas alguma dignidade, por outro lado as leis mais lenientes e penas mais brandas acabaram por deixar muitos criminosos nas ruas, e a sensação de impunidade logo tomaria conta da população.

Mas deixemos a sociologia de botequim de lado. O fato é que, com as devidas proporções, o impacto do filme causou lá uma polêmica semelhante a que vimos por aqui com “Tropa de Elite”, e “fascista” também é um dos adjetivos que acabaram acompanhando Harry Callahan em sua carreira policial. Mas nem por isso deixou de ser um sucesso no cinema, participando de cinco filmes, ao todo.

A estreia se deu em 1971, com “Perseguidor Implacável” (Dirty Harry), dirigido por Don Siegel. Nesse filme, o personagem-título já mostra a que veio ao impedir um assalto a banco logo nos primeiros minutos. Como cartão de visitas, o inseparável revólver Smith & Wesson 29 com seis polegadas de cano e em calibre 44 Magnum, na época uma das mais poderosas munições para revólveres. E além da poderosa munição, outra de suas marcas: as frases contundentes, já que o malcriado Callahan era tão rápido com a língua quanto com seu Magnum, e as expressões “Do you feel lucky, punk?” ou “Go ahead, make my day” já foram incorporados a cultura pop. Ouvi-las do lado errado da mira de um revólver não é um momento muito agradável aos meliantes.

Já nesse filme descobrimos duas características que perseguiriam o personagem: a irritação e desaprovação de seus superiores com seus métodos, a burocracia e paternalismo da justiça em benefício dos bandidos e a pouca sorte dos eventuais parceiros, que acabariam mortos ou bastante feridos. O vilão da vez é o maníaco Scorpio, que sequestra e tortura crianças. No decorrer do filme, Harry usa de seus métodos pouco ortodoxos para encontrar o bandido e obter informações. A cena em que ele persegue e pisa na perna ferida de Scorpio é antológica, e naquele tempo causou algum impacto. Mas ajudou bastante antipatizarmos com o vilão, e o ator Andrew Robinson, que interpretou o psicopata Scorpio, foi deveras competente em transformá-lo num personagem asqueroso. Obviamente a justiça coloca o bandido na rua, e na segunda vez em que Harry persegue e confronta o bandido, ele não se preocupará com papelada nem com processo criminal.

Mesmo jogando seu distintivo fora ao final do primeiro filme, os produtores devem ter gostado do resultado e deram um jeito para que ele continuasse a bater ponto para a Polícia de San Francisco, e uma sequência foi filmada em 1973, dessa vez com Ted Post na direção. Nesse segundo filme, intitulado “Magnum 44″ (Magnum Force), ficou famosa a abertura que mostra o revólver coadjuvante e a narrativa em off descrevendo suas potencialidades. Nesse filme, os criminosos são jovens policiais que se organizaram em um esquadrão da morte para eliminar chefões mafiosos que escapavam à lei, algo que se tornou notório aqui no Brasil naquela década e que é mencionado por Dirty Harry. Seria uma causa que poderia, à primeira vista, angariar a simpatia de Callahan, mas mesmo conhecido por eventualmente desobedecer a seus superiores e aplicar a lei a seu modo, Harry está do lado da lei, e deixa isso bem claro ao perseguir seus colegas de farda.

Dois anos depois, James Fargo dirige “Sem Medo da Morte”(The Enforcer). Dessa vez os burocratas empurram uma parceira feminina, a inspetora Kate Moore (Tyne Daly), e o crime a ser enfrentado é um grupo terrorista urbano local, uma provável referência à quadrilha terrorista alemã Baader-Meinhof, que rouba armas militares e planeja sequestrar o prefeito. Mesmo relutante, ele acaba se entrosando com sua nova parceira. Só mesmo Dirty Harry pra ser suspenso com estilo, praticamente pedindo pra triplicar sua suspensão e devolvendo o distintivo ao seu superior como “um supositório de sete pontas”. Sua parceira levanta a questão pseudofreudiana sobre a preferência dele por uma arma tão grande e poderosa, já que seus colegas se contentavam normalmente com um Magnum .357. Será que Callahan estaria compensando alguma coisa? Mas ele deixa claro que sua preferência é meramente técnica e operacional. Às vezes, um charuto é apenas um charuto, e um Magnum .44 é apenas um Magnum .44.

O personagem sobrevive ao crime organizado da Califórnia e aos anos 70 e retorna em 1983 em “Impacto Fulminante” (Sudden Impact), dessa vez dirigido pelo próprio Eastwood. E talvez por isso o melhor da série. E a primeira cena de ação é antológica, com Callahan interrompendo um assalto a um restaurante ao apresentar seus “amigos” Smith e Wesson aos meliantes. O crime a ser investigado é uma série de homicídios nos quais as vítimas têm suas “partes baixas” estouradas por tiros, e a suspeita é uma artista plástica (Sondra Locke, a época casada com Clint), que fora estuprada com sua irmã. Ao mesmo tempo em que investiga a série de crimes, Callahan tem que lidar com a máfia local, que está puta porque seu chefe morreu enfartado enquanto o jeitoso Harry o confrontava com seus crimes durante a cerimônia de casamento da neta do mafioso. Pense num menino educado! E, antologicamente, ele acaba tendo que mais uma vez substituir sua arma. Todo policial costuma ter uma arma pequena como reserva, mas isso não seria o estilo Dirty Harry, e para substituir seu revólver perdido durante uma emboscada, ele usa nada menos que uma pistola Automag .44 Automagnum, ainda mais poderosa que seu revólver.

Os anos oitenta brindaram o cinema com versões anabolizadas de justiceiros e combatentes, que não se furtavam em usar de extrema violência contra toda espécie de elemento. As características dos filmes de Dirty Harry se tornaram clichês repetidos à exaustão em filmes baratos. E podemos citar o filme “Stallone Cobra” como o repositório de todo tipo de clichê dos filmes policias e de ação daquela década, quase uma paródia involuntária. E a própria vida real apresentava criminosos mais violentos e perigosamente armados. Harry Callahan pareceria um escoteiro, o Magnum .44 já não era o revólver mais poderoso do mundo há muitos anos e sua aposentadoria parecia inevitável. Mas Dirty Harry tem mais estilo no bolso do paletó do que todos os exterminadores, rambos e cobras oitentistas. E seu pedido de aposentadoria foi adiado em 1988 com o lançamento de “Dirty Harry na Lista Negra”(The Dead Pool), no qual celebridades que constam em uma espécie de “bolão pé-na-cova” estão sendo assassinadas, e seu nome estaria na tal lista. Em linguagem e estilo, é o mais diferente de todos os filmes, com direito a músicas de Gun´s´Roses ao lado dos temas tradicionais de Lalo Schifrin e Jerry Fielding. Para quem não conhecia o personagem, parecia mais um filme policial daqueles anos, sem nada demais. Mas Harry estava lá para fazer justiça, nem que tivesse que usar um lançador de arpão ao invés do seu velho Magnum, e ainda com tempo para ter um caso com uma repórter (não antes de quebrar sua câmera).

Hoje em dia Harry Callahan ainda faria sucesso em um eventual novo filme? Considerando que um bocado de velhuscos andou retornando às telas, não seria surpresa Clint ressuscitar uma de suas mais famosas crias. Mas acho pouco provável, já que o ator e diretor anda envolvido em projetos mais intimistas, como “Cartas de Iwo Jima” , “A Conquista da Honra”, “Gran Torino” e “Invictus”, bem longe do cinema de ação. E dificilmente outro ator emprestaria o carisma de Clint ao personagem. Mas o amável leitor e querida leitora podem assistir aos cinco filmes da série, todos disponíveis em DVD e Blu-Ray com Clint Eastwood sentando o dedo em seu Magnum .44, e de vez em quando a Amazon Inglesa costuma disponibilizar o box com os 5 filmes num precinho camarada. Se dê este gostinho!

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Jabá com Fel

Como ultimamente estou um tanto quanto relapso na atualização deste blog, é um bom momento para tapear meus raros leitores e manda-los procurar conteúdo interessante com outros colegas do ramo bloguístico, o que justifica essa sessão se chamar “Jabá Fresquinho”. Todavia, o jabá dessa vez tem sabor amargo, mas não porque passou do ponto. Resolvi indicar uns blogs e sites de humor, mas que fogem ao modelo kibeloco de fanfarronice verdade. Nada contra, mas esse tipo de gracinha tem à rodo pela Internet afora, e para quem quer um humor menos repetitivo e mais cáustico que resolvi preparar esta carne seca com jiló. Esse jabá de hoje é pra o leitor que não se importa de ler mais do que 7 linhas de texto e que já viu a mesma piada/vídeo/imagem engraçadinha em 78 blogs distintos, nem sempre encontra um humor mais elaborado facilmente, até porque não costuma dar tanta visita e é preterido pela maioria dos blogs. E é bom saber que há humor politicamente incorreto, inteligente e com o pH devidamente ajustado, mesmo quando ainda se tenta criar “humor do bem”, seja lá o que esta porra signifique. vamos a eles:

- Para os veteranos da Internet o Crussificados dispensa apresentações, pois há anos eles se dedicam a tecer críticas hilárias aos sem-noção que resolveram criar um blog e enchê-lo de coisas toscas, temas picaretas, miguxês extremo ou gifs piscantes com cores berrantes ao fundo. E hoje em dia não falta matéria-prima para as “crussificações”, com os malucos do youtube ou os portadores de necessidades especiais que pululam no twitter. Danilo e Rafael não deixam pedra sobre pedra quando pegam alguém para Cristo. E não esqueça de olhar os comentários, por vezes ainda melhores do que as “crussificações” em si, principalmente quando a vítima – ou pior, seus fãs – tentam tomar satisfação.

- O Puxa-Cachorra é descoberta recente, e se destaca por textos e sacadas ótimas sobre os temas mais variados, como os traumas causados pelas músicas da Xuxa na psique de uma geração ou divertidos fluxogramas sobre como fazer um sucesso da música sertaneja ou emo. Não deixe de ler a série “Selos do Apocalipse”, e se prepare para o fim dos tempos.

- Para os que nestes tempos de celebridades miojo que tentam, a todo custo, prorrogar seu prazo de validade além dos (i)merecidos 15 minutos, o coveirinho pop criou o Cemitério das Celebridades, quiçá inspirado no caboclo mamador e seu cemitério dos mortos-vivos de Henfil no saudoso Pasquim. Mas ao invés de pelegos e colaboradores do regime militar, o cemitério ora apresentado abriga em seus jazigos os famosos destinados ao oblívio, para desespero e ódio dos fãs e admiradores dos cadáveres ilustres. Textos muito bem escritos, além dos comentários dignos de constar no FEBEAPÁ, principalmente quando alguém tenta tomar as dores do falecido. Leia o obtuário do Fiuk e veja se não tenho razão…

- E encerrando o banquete de signos de hoje, outro que acompanho assiduamente é o cartunista Arnaldo Branco, que mantém a página Mau Humor, onde normalmente publica o que desenha ou escreve Internet afora. Você pode até achar seus desenhos toscos, mas é um dos mais afiados textos disponíveis na rede, uma combinação de rara perspicácia e humor irônico. Mesmo que não concorde com suas opiniões, certamente deve se divertir com a forma que ele costuma ilustrar seus pontos de vista.

Divirtam-se e até a próxima. A cachaça tá liberada para acompanhar o jabá.

Saxofonistas da blodega: Marcelo Martins

Para quem não sabe, isso aqui é um senhor foco de Jazz, doença para a qual a medicina ainda não encontrou cura, graças à Deus. Por isso para tapar buraco voltar ao tema mais frequentemente, acho justíssimo rememorar a performance de grandes instrumentistas do saxofone, instrumento pelo qual tenho considerável apreço, nem que seja para indicar o caminho, a verdade e a vida aos incréus desconhecedores de tão bela melodia e sujeitos aos ataques inomináveis do Funk Carioca ou da atual música pop americana.

Pois que seja. Se você também sente ganas de comprar um lancha-chamas no E-Bay para poder argumentar com aquele seu vizinho que insiste que Dejavú é música e que 105 decibéis é o que o ser humano tolera e suporta como som, compre bons fones de ouvido e passe a maltratar menos os seus ouvidos. Para lhe dar sossego, inicio nesta tarde de sábado nosso espaço especial aos grandes instrumentistas que resolveram adotar o famoso filho de Adolphe Sax.

Para iniciar este bate-papo ao pôr-do-sol, que venha Marcelo Martins, grande saxofonista brazuca. Como de praxe, este acaba fazendo parte das bandas dos medalhões da música brasileira, que de bestas não tem nada e preferem ser acompanhados de ótimos músicos. Mesmo que não conheças o trabalho de Marcelo Martins com certeza teve os ouvidos inundados pelo som se seu instrumento se você já ouviu o álbum duplo de Djavan ao vivo . Quando não serve de auxílio luxuoso à medalhões da MPB ele costuma compor o grupo Foco. Porém eu realmente vim a conhece-lo após assistir o filme “Pequeno Dicionário Amoroso”, de Sandra Werneck, cuja excelente trilha sonora ficou a cargo de Ed Mota e João Nabuco, e a mais bela faixa instrumental –” Lucia’s Theme “– é executada por este moço.

Nem vou enrolar muito. Para os frequentadores da blodega, segue abaixo uma pérola deste saxofonista de Niterói:sua performance na trilha sonora do filme “Pequeno Dicionário Amoroso”. Quem quiser conhece-lo, basta acessar a sua página no MySpace, ou ouvir sua participação na banda Foco, que tem 2 CD’s gravados, ou  ainda garimpar suas inúmeras participações em discos e projetos diversos. Este blodegueiro ainda aguarda seu CD solo. Curtam.

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Sinhá Gorda

A sinhá já estava na mesa do café da manhã, pronta como sempre ficava nas manhãs quentes. Gorda como ela só, adorava brincar de que ela era a escrava, assim que o Barão saia de casa. Fazia o papel de escrava e mandava eu lhe dar chicotadas, sendo eu o seu algoz. Depois de algumas chicotadas e tapas ele pedia pra lhe beijar. Isso não, eu era escravo. Podiam me matar no tronco, mas beijar aquela mulher não dava. O Barão só aguentava por que foi dela que ele herdou todas as terras que tinha. Além disso, ele tinha todas as escravas mais novas à hora que quisesse.

Todos os dias de manhã cedo era a mesma brincadeira. A Sinhá se divertia. Parecia uma porca de quatro no chão pedindo pra apanhar. A minha sorte, ou azar, é que nunca o barão pegou no flagra aquela cena ridícula. Nem mesmo ninguém contava para ele, até porque o capitão, que nos vigiava na senzala, achava aquilo um castigo bem pior que ir pro tronco.

Mas um dia a coisa parecia que ia mudar. Ela acordou logo cedo e vendo que não havia jeito de me beijar, nem amarrado, me fez uma proposta tentadora. Eu teria que beijá-la e ainda ir às vias de fato com ela, por pelo menos duas horas. Se fizesse isso teria minha carta de alforria. Bom, era um verdadeiro de

safio, afinal dar palmadas e chicotadas ainda é suportável, mas beijar e pegar a mulher do Barão, e ainda por cima por duas horas, é algo asqueroso, que dá até náuseas. Nem depois de vários litros de pinga da braba, daquela pega fogo mesmo. Mas havia uma compensação, muito boa por sinal. A minha liberdade. Algo que eu havia lutado desde sempre, já havia tentado fugir várias vezes, ido pro tronco outras tantas, só para ganhar a liberdad

e. Agora ela estava ali, na minha frente, de bandeja. Era só passar duas horas com a porca gorda da Sinhá.

Depois de muito pensar e medir os prós e contras da proposta, resolvi aceitar, mas algo me deixava nervoso. Se fosse pego pelo Barão, ele arrancaria meu couro, e finalmente teria um motivo para matar a gorda de sua esposa, sem problemas com a lei. Mas esse problema, o possível flagra que o Barão podia dar nesse verdadeiro desafio, fora resolvido com maestria pela Sinhá. Ela inventou uma visita a uma tia distante, falou que há tempos não a via e que era realmente necessário ir até lá, pois a tia imaginária estava à beira da morte. Eu entrei na história, pois ela exigiu que um escravo grande e forte fosse lhe fazendo companhia, para sua segurança e para carregar sua enorme bagagem. O Barão apenas comentou que eu tivesse cuidado, pois as frutas do seu pomar só ele podia colher. Isso num tom de voz ameaçador. Deu-me um frio na espinha. Mas valia a pena correr o risco, afinal era minha liberdade.

O problema foi à data marcada para a viagem, dia 12 de maio de 1888. Só podia ser nesse dia, pois a colheita do café já haveria acabado e o Barão podia abrir mão do meu trabalho no campo. Esperei alguns meses, ainda tendo que brincar de ser senhor e ela de escrava branca. Finalmente o dia chegou, a viagem foi tranqüila, sem sobressaltos além das tentativas quase insanas dela se agarrar no meu membro em plena estrada. Era uma tarada e devia estar necessitada. Chegamos a um lugar deserto, uma casa meio abandonada, que ficava a muitas léguas da casa grande. Ela me falou – É aqui, prepare-se para ser meu – a boca dela salivava. Eu estava maluco, mas precisava fazer aquilo. Entramos na casa e nem deu tempo de pensar, ela já estava sobre mim, e caí no chão com o peso. Minhas velhas e surradas roupas voaram longe e facilmente foram arrancadas. A Sinhá gritava e uivava, como se estivesse no cio. Nunca vi nada tão medonho. Fiz todo o ritual combinado, a beijei e todo o resto. Depois de tudo feito, e passando mal, recebi dela a minha carta assinada pelo Barão, conforme o prometido. Nunca fiquei tão feliz. Abri a porta e a deixei lá, sai correndo e gritando com a carta na mão. Finalmente livre. Só consegui chegar à cidade no dia seguinte, pois estava demasiado longe. Ao entrar gritando de euforia vi que vários negros também gritavam. Já passavam das 4 da tarde do dia 13 de maio de 1888. Todos eles corriam feito loucos gritando, dizendo que estavam livres. Não entendi nada, afinal havia passado um dia fora. Encontrei um amigo de senzala e o mostrei minha carta. Ele sabia de todo o martírio que havia feito pra consegui-la e apenas riu na minha cara. – Rapaz, você fez tudo em vão, a Princesa Isabel acabou de assinar a lei Áurea, libertando todos nós. Estamos todos livres! E você pegou a Sinhá Gorda! – Não sei se chorava de alegria ou tristeza, mas o fato é que aprendi a nunca mais confiar em mulheres taradas.

Dia das Mães

O dia está lindo, e ela acorda com o sol entrando pela janela e o marido pela porta, trazendo uma bandeja com seu café da manhã. Ovos fritos cremosos, capuccino, torradas com geleia de amoras, bolo de milho, suco de acerola e iogurte natural. Ela finge dormir para ser acordada com um beijinho na nuca e palavras suaves no ouvido. Ela sorri e se senta, ajeitando a bandeja sobre suas pernas. Seu marido coloca uma torrada em sua boca. Ela morde um pedaço. Ele tira um papel do bolso para ler. È um poema sobre as mães. Mas o primeiro verso sai meio estranho.

-MULÉ, CADÊ O MEU MEIÃO?!

A contragosto ela desperta do sonho e acorda emburrada, enquanto seu marido está revirando as roupas da gaveta. Ele está de calção, segurando um par de chuteiras e uma bola. Recompondo-se de ser tão abruptamente arrancada de um sonho agradável, ela tem uma clara e rara percepção da realidade.

- TU VAI JOGAR FUTEBOL?

- Claro. Tu não sabe que todo domingo eu vou para o futebol com os meus amigos?

- Mas logo hoje você vai?

- Sim. Até onde sei, hoje é domingo. Dormiu demais, mulher?

- TU VAI JOGAR FUTEBOL NO DIA DAS MÃES?

- Hmmm…Não entendi. É pecado?

- Deveria ser crime. Vai me deixar sozinha com seus filhos hoje? Quero o divórcio!

Como se tivesse lembrado de algo importante, ele coça a cabeça e revela.

- Ah, mulher. Você estraga as surpresas. Eu tava só disfarçando para ir pegar seu presente.

- Não vem com esse papo. Ano passado foi a mesma coisa, e você me apareceu no fim da tarde com uma porra de uma chopeira de presente.

- Pensei que havia gostado.

- Ah, adorei a chopeira. Serviu muito para que eu servisse chope para você enquanto assiste aqueles jogos inúteis da terceira divisão. E ainda tenho que aguentar suas queixas por causa do colarinho…

- Já expliquei que o colarinho protege o chope da oxidação…

- Oxidação o cacete. Cadê meu presente?

- Bem, tu não és minha mãe…Vai cobrar dos teus filhos.

- Tudo bem. Vai pedir a sua mãe para esquentar a janta quando chegar de suas happy hour.

- Ei, brincadeirinha. Eu comprei seu presente. Vou pegá-lo agora.

- Jura?

- Claro, minha mãezinha. E é a sua cara. Espere-me que eu volto a tempo para o almoço. Ei, você não ia almoçar com a sua mãe?

- NÓS VAMOS almoçar com a minha mãe.

- Mas e a minha mãe? Tenho que passar na casa dela…

- Esqueceu o presente dela também, filho ingrato? Se vire!

- Tudo bem. Vou pegar o seu presente. Mas cadê o meu meião?

- E pra quer tu quer meião, porra? Tu vai jogar, né? Seu cabra safado!

- É que não quero ir de chinelo, e já estou com a chuteira aqui na mão, mesmo…

- Se você for jogar, sugiro que dê o presente de sua mãe, pois vai precisar da boa vontade dela. E do sofá dela, e da comida dela…

- O que você quer dizer, benzinho?

- Uma temporada na casa de sua mãe deve clarear suas ideias.

- Linda, tente entender que todo dia é dia das mães. Esse negócio é só invenção para o comércio vender mais.

- Esse papo pode colar com nosso filhinho, seu gaiato, mas não vem com essa para cima de mim. Quero presente e você cheiroso para o almoço na casa de mãe. Falando nisso, comprou meu presente para eu levar para minha mãe?

- Mas agora fudeu. Tem mais essa?

- Você não comprou a caixa de CD´s do Roberto Carlos que eu pedi?

- Isso é um pesadelo. Olha, quando eu for pegar o seu presente, eu passo na banquinha do Moacyr e compro.

- Banquinha do Moacyr? Lá só tem CD pirata!

- Mas tem toda a coleção do Roberto Carlos em MP3. Cabe tudo em um único CD. Bem mais prático. E roda naquele aparelho de DVD que eu ainda estou pagando.

- Agora tá jogando na cara, é?

- Ah, não é você que tem que escutar a minha mãe reclamando porque dei este DVD para a sua mãe no Natal, enquanto eu dei pra coitada um walkman vagabundo…

Nisso surgem os dois filhos do casal, carregando presentes para a mãe.

- Feliz dia das mães!

Os pimpolhos abraçam sua mãe, que os beija e senta na cama para abrir os presentes. Aproveitando o momento, o marido acha o seu meião sujo atrás do frigobar e sai de fininho do quarto, encontrando com o colega que o espera no lado de fora.

- Que demora pra se arrumar, pô!

- Ah, tu não sabe o que eu tive que inventar para poder sair. Falando nisso, comprou o presente de sua mãe?

- Minha mãe já morreu.

- Sorte a sua, sorte a sua…

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Dias de Outono com Pé-frio grego, olhos esbugalhados e cheiro de Eyjafjallajokull

Quem não estava preso ainda em algum aeroporto europeu por causa do vulcão Bjork Supercalifragilisticexpialidocious Comoseescreveestaporra Eyjafjallajokull com certeza já ouviu alguma notícia sobre o quiproquó que tá rolando na Grécia, algo que nem Cassandra poderia prever, nem naqueles dias. Será que os deuses do Olimpo estão com raiva e estão se vingando? Será que Zeus não gostou de ser interpretado por Liam Neeson na refilmagem de “Fúria de Titãs”?

Considerando que a cultura helênica é o berço da cultura ocidental, a suprema prova dessa influência é a quantidade de piada pronta que apareceu nos últimos dias para sacanear com os gregos, que estão passando por uma crise tão braba que vão acabar ficando só de zorba (sacou? Zorba cueca, Zorba o Grego, e tal…ah, esquece! piada fraca!)

Mas se Deus é brasileiro, Zeus é grego, e a ajuda veio a cavalo (de Tróia?) por parte do FMI e da União Européia. Mas vocês sabem que normalmente ajuda econômica não sai de graça, principalmente quando vem do FMI. Além dos juros, que são o equivalente monetário a duas horas de curra com o Empalador Espanhol, há sempre uma lista de exigências. Parece até coisa de grupo terrorista, mas estes ao menos têm simpatizantes.

Como todo mundo já tá de saco cheio de ouvir estas piadinhas pelo twitter e pelos blogs, com certeza a União Europeia e o FMI devem incluir em suas exigências à Grécia diversas restrições quanto ao uso indiscriminado de tanta piada pronta. Aliás, piada pronta pode ser um prato tão indigesto quanto churrasco grego requentado (sim, isso também é piada pronta). Por isso, segundo as exigências do FMI e a União Européia, as expressões “Presente de Grego” e “Cavalo de Tróia” estão terminantemente banidas e proibidas, principalmente se estas se referirem à ajuda econômica. Idem para beijo grego, o já citado churrasco grego ou trocadilhos sobre o pobre do Hércules precisar arrumar 12 trabalhos para poder sustentar a família. Dizer que a economia grega está em ruínas pode até ser punido com sanções econômicas. E se a expressão “isso pra mim é grego” ou “tragédia grega” atingir os trend topics do Twitter, os membros do parlamento europeu ameaçam furarem seus olhos, matarem seus pais e comerem as próprias mães, não necessariamente nesta ordem. E se por acaso acharem ruim, democracia era em Atenas. Isso é Esparta, porra!

P.S – E falando em piada pronta e crise, não farei nenhuma piadinha sobre a desclassificação do Corinthians na Libertadores na última quarta-feira, pois da última vez que sacaneei com o Timão meu computador virou lixo eletrônico. Isso eu deixo para meu amigo flamenguista Tio Xiko, sócio não-praticante desta blodega, que com certeza falará que na Padaria do Corinthians o Ronaldo comeu todos os sonhos e só sobrou suspiro e raiva.

P.S.2 – O título sem noção dessa mixórdia vem desse filme aqui. Sim, esta porra existe, mas não em DVD no Brasil, pra variar

Uma Paranóia Patológica

Para Ler o Pato Donald

Quando o ranzinza Donald foi promovido a agente da CIA

Nos anos 50 o livro do psicólogo Fredric Wertham, “Seduction Of Inocent”, acusou os quadrinhos americanos de induzirem a juventude ao crime. Esse livro é inédito em português, e por aqui não trouxe maiores consequências diretas, não obstante esta mídia sofrer de todo tipo de acusação por aqui em décadas passadas. Mas guardadas as devidas proporções, outro livro publicado ao sul do Equador também demonizou os singelos personagens dos quadrinhos. Se o psicólogo alemão acusava Batman e Robin de viadagem, o Pato Donald virou instrumento de alienação das massas em prol do imperialismo americano no livro “Para Ler o Pato Donald – Comunicação de Massa e Colonialismo”, escrito no Chile em 1972.

O embrião do livro foi o seminário “Subliteratura e modo de combatê-la”, e os autores, o argentino radicado no Chile Ariel Dorfman e o belga Armand Mattelard, eram funcionário da Quimantú, antiga editora de quadrinhos Zig-Zag que fora estatizada por Salvador Allende. Usando da semiótica – e da grana do contribuinte chileno, diga-se de passagem – os dois então jovens autores empunharam a lupa ideológica para decifrar o significado oculto nos aparentemente infantis e inocentes personagens de Walt Disney. E o que descobriram foi uma conspiração engendrada pelo grande satã americano para alienar as massas e divulgar sub-sub-repticiamente a ideologia capitalista e pequeno-burguesa.

Por exemplo, o Pato Donald, o sobrinho do Tio Patinhas e que comumente é usado como mão-de-obra barata nas aventuras do seu tio sovina, é um agente do imperialismo, corruptor da inocência infantil e sexualmente pervertido, mas não por se abster do uso de calças, e sim porque sua família não tem pais ou laços de parentescos diretos, e ninguém sabe quem é filho de quem. E, claro, Tio Patinhas em suas viagens mundo afora em busca de riquezas e aventuras seria a essência do capitalismo selvagem, que invade as culturas dos países “subdesenvolvidos” para sugar suas riquezas materiais até o talo. Mas tem acusação pra todo mundo. Até o sortudo Gastão serve de exemplo de conformismo pequeno-burguês. Patópolis seria o próprio EUA, centro do mundo civilizado, e o “resto do mundo” seriam os países periféricos e em desenvolvimento, obviamente inferiores em relação à “matriz”. Nem os Irmãos Metralha escapam da condenação de não serem marxistas o bastante, já que querem expropriar o capital da classe dominante apenas para eles próprios se aburguesarem. Mas cá entre nós, mais comunista do que isso eu não posso conceber.

Pior que essa mixórdia já foi, e ainda é levada a sério. Eu mesmo fui apresentado a esta obra por um professor de OSPB (isso ainda existe?) no segundo grau, e numa primeira leitura foi como um choque, e me surpreendi com o significado oculto e, admito, até levei a sério essa grande conspiração de idiotização mundial. E logo achei que Walt Disney e Carl Barks ganhavam dólares diretamente da CIA para conceber ardilosas histórias. Tudo bem que durante a II Guerra Mundial, praticamente sob encomenda do governo americano, Disney produziu desenhos e criou personagens para simbolizar a política de boa vizinhança entre os países americanos, saindo dessa safra o galo mexicano Panchito e o papagaio malandro Zé Carioca. Mas daí a extrapolar que há todo um plano maligno para deturpar os valores das crianças do mundo, convenhamos, é dose difícil de engolir. Mas essa ideia foi muito popular nos anos 70 e 80. Mas como diria Freud, às vezes um charuto é só um charuto. E um ceticismo saudável é sempre bem-vindo. E analisando friamente, hoje podemos ver que essas ideias são apenas frutos de paranoia esquerdista e doutrinação marxista. Os autores apenas pegam das histórias os elementos que venham a corroborar suas ideias, forçando a barra nas interpretações e chegando a adulterar o significado dos quadrinhos, substituindo o texto original por outros mais convenientes à reforçar sua tese, o que não deixa de ser um estelionato intelectual.

E, na verdade, se extrapolarmos a percepção e forçarmos a barra, veremos conspiração e perversão em qualquer obra infantil. Um dos autores do livro, Ariel Dorfman, ainda escreveria “Super-Homem e seus amigos do Peito”, levando a mesma teoria aos heróis dos quadrinhos americanos. Em anos mais recentes, é comum vermos pastores mais exaltados afirmarem que os funcionários da Disney são tarados, homossexuais e maconheiros que enchem os desenhos com símbolos fálicos e mensagens de conotação sexual em suas produções infantis. Mas cá entre nós, quem vê pica em tudo que é canto é, no mínimo, suspeito…

Em cima desse mote, o sacana Ruy Goiaba parodiou a ideia central do livro chileno ao enxergar uma grande conspiração urdida por Maurício de Souza com seus personagens ao escrever “Para Ler a Turma da Mônica”, que inclusive já foi publicado na revista “Playboy”. Porém tem gente que leva a piada a sério e há poucos meses um artigo intitulado “Violência na Turma da Mônica” causou rebuliço entre os fãs dos quadrinhos ao tentar trazer significados negativos aos personagens de Maurício de Souza.

Mesmo que hoje muitos ainda comprem as ideias desse livro, que se encontra ainda disponível, só mesmo os esquerdistas mais xiitas poderiam levar tamanha teoria conspiratória a sério. No livro “Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano”, uma obra dedicada a descascar com sólidos argumentos e fina ironia o mito de que a culpa do subdesenvolvimento latino é pura e exclusivamente dos planos malignos oriundos do Primeiro Mundo, seus três autores dedicam algumas páginas à obra chilena, e procuram explicar o motivo do sucesso do livro “Para Ler o Pato Donald” entre os que ele intitula “idiotas latino-americanos”:

“..está escrito em clave paranoica, e não há nada que excite mais a imaginação de nossos idiotas do que acreditar-se objeto de uma conspiração internacional encaminhada para subjugá-los. Para esses desconfiados seres sempre existem uns ‘americanos’ tentando enganá-los, tratando de roubar-lhes seus cérebros, arruinando-os nos centros financeiros, impedindo-lhes de criar automóveis ou peças sinfônicas, intoxicando-lhe a atmosfera, ou combinando com os cúmplices locais a forma de perpetuar a subordinação intelectual que padecemos”

Acho que nem o Professor Ludovico falaria melhor

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