Dia das Mães

O dia está lindo, e ela acorda com o sol entrando pela janela e o marido pela porta, trazendo uma bandeja com seu café da manhã. Ovos fritos cremosos, capuccino, torradas com geleia de amoras, bolo de milho, suco de acerola e iogurte natural. Ela finge dormir para ser acordada com um beijinho na nuca e palavras suaves no ouvido. Ela sorri e se senta, ajeitando a bandeja sobre suas pernas. Seu marido coloca uma torrada em sua boca. Ela morde um pedaço. Ele tira um papel do bolso para ler. È um poema sobre as mães. Mas o primeiro verso sai meio estranho.
-MULÉ, CADÊ O MEU MEIÃO?!
A contragosto ela desperta do sonho e acorda emburrada, enquanto seu marido está revirando as roupas da gaveta. Ele está de calção, segurando um par de chuteiras e uma bola. Recompondo-se de ser tão abruptamente arrancada de um sonho agradável, ela tem uma clara e rara percepção da realidade.
- TU VAI JOGAR FUTEBOL?
- Claro. Tu não sabe que todo domingo eu vou para o futebol com os meus amigos?
- Mas logo hoje você vai?
- Sim. Até onde sei, hoje é domingo. Dormiu demais, mulher?
- TU VAI JOGAR FUTEBOL NO DIA DAS MÃES?
- Hmmm…Não entendi. É pecado?
- Deveria ser crime. Vai me deixar sozinha com seus filhos hoje? Quero o divórcio!
Como se tivesse lembrado de algo importante, ele coça a cabeça e revela.
- Ah, mulher. Você estraga as surpresas. Eu tava só disfarçando para ir pegar seu presente.
- Não vem com esse papo. Ano passado foi a mesma coisa, e você me apareceu no fim da tarde com uma porra de uma chopeira de presente.
- Pensei que havia gostado.
- Ah, adorei a chopeira. Serviu muito para que eu servisse chope para você enquanto assiste aqueles jogos inúteis da terceira divisão. E ainda tenho que aguentar suas queixas por causa do colarinho…
- Já expliquei que o colarinho protege o chope da oxidação…
- Oxidação o cacete. Cadê meu presente?
- Bem, tu não és minha mãe…Vai cobrar dos teus filhos.
- Tudo bem. Vai pedir a sua mãe para esquentar a janta quando chegar de suas happy hour.
- Ei, brincadeirinha. Eu comprei seu presente. Vou pegá-lo agora.
- Jura?
- Claro, minha mãezinha. E é a sua cara. Espere-me que eu volto a tempo para o almoço. Ei, você não ia almoçar com a sua mãe?
- NÓS VAMOS almoçar com a minha mãe.
- Mas e a minha mãe? Tenho que passar na casa dela…
- Esqueceu o presente dela também, filho ingrato? Se vire!
- Tudo bem. Vou pegar o seu presente. Mas cadê o meu meião?
- E pra quer tu quer meião, porra? Tu vai jogar, né? Seu cabra safado!
- É que não quero ir de chinelo, e já estou com a chuteira aqui na mão, mesmo…
- Se você for jogar, sugiro que dê o presente de sua mãe, pois vai precisar da boa vontade dela. E do sofá dela, e da comida dela…
- O que você quer dizer, benzinho?
- Uma temporada na casa de sua mãe deve clarear suas ideias.
- Linda, tente entender que todo dia é dia das mães. Esse negócio é só invenção para o comércio vender mais.
- Esse papo pode colar com nosso filhinho, seu gaiato, mas não vem com essa para cima de mim. Quero presente e você cheiroso para o almoço na casa de mãe. Falando nisso, comprou meu presente para eu levar para minha mãe?
- Mas agora fudeu. Tem mais essa?
- Você não comprou a caixa de CD´s do Roberto Carlos que eu pedi?
- Isso é um pesadelo. Olha, quando eu for pegar o seu presente, eu passo na banquinha do Moacyr e compro.
- Banquinha do Moacyr? Lá só tem CD pirata!
- Mas tem toda a coleção do Roberto Carlos em MP3. Cabe tudo em um único CD. Bem mais prático. E roda naquele aparelho de DVD que eu ainda estou pagando.
- Agora tá jogando na cara, é?
- Ah, não é você que tem que escutar a minha mãe reclamando porque dei este DVD para a sua mãe no Natal, enquanto eu dei pra coitada um walkman vagabundo…
Nisso surgem os dois filhos do casal, carregando presentes para a mãe.
- Feliz dia das mães!
Os pimpolhos abraçam sua mãe, que os beija e senta na cama para abrir os presentes. Aproveitando o momento, o marido acha o seu meião sujo atrás do frigobar e sai de fininho do quarto, encontrando com o colega que o espera no lado de fora.
- Que demora pra se arrumar, pô!
- Ah, tu não sabe o que eu tive que inventar para poder sair. Falando nisso, comprou o presente de sua mãe?
- Minha mãe já morreu.
- Sorte a sua, sorte a sua…
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