Sinhá Gorda

A sinhá já estava na mesa do café da manhã, pronta como sempre ficava nas manhãs quentes. Gorda como ela só, adorava brincar de que ela era a escrava, assim que o Barão saia de casa. Fazia o papel de escrava e mandava eu lhe dar chicotadas, sendo eu o seu algoz. Depois de algumas chicotadas e tapas ele pedia pra lhe beijar. Isso não, eu era escravo. Podiam me matar no tronco, mas beijar aquela mulher não dava. O Barão só aguentava por que foi dela que ele herdou todas as terras que tinha. Além disso, ele tinha todas as escravas mais novas à hora que quisesse.

Todos os dias de manhã cedo era a mesma brincadeira. A Sinhá se divertia. Parecia uma porca de quatro no chão pedindo pra apanhar. A minha sorte, ou azar, é que nunca o barão pegou no flagra aquela cena ridícula. Nem mesmo ninguém contava para ele, até porque o capitão, que nos vigiava na senzala, achava aquilo um castigo bem pior que ir pro tronco.

Mas um dia a coisa parecia que ia mudar. Ela acordou logo cedo e vendo que não havia jeito de me beijar, nem amarrado, me fez uma proposta tentadora. Eu teria que beijá-la e ainda ir às vias de fato com ela, por pelo menos duas horas. Se fizesse isso teria minha carta de alforria. Bom, era um verdadeiro de

safio, afinal dar palmadas e chicotadas ainda é suportável, mas beijar e pegar a mulher do Barão, e ainda por cima por duas horas, é algo asqueroso, que dá até náuseas. Nem depois de vários litros de pinga da braba, daquela pega fogo mesmo. Mas havia uma compensação, muito boa por sinal. A minha liberdade. Algo que eu havia lutado desde sempre, já havia tentado fugir várias vezes, ido pro tronco outras tantas, só para ganhar a liberdad

e. Agora ela estava ali, na minha frente, de bandeja. Era só passar duas horas com a porca gorda da Sinhá.

Depois de muito pensar e medir os prós e contras da proposta, resolvi aceitar, mas algo me deixava nervoso. Se fosse pego pelo Barão, ele arrancaria meu couro, e finalmente teria um motivo para matar a gorda de sua esposa, sem problemas com a lei. Mas esse problema, o possível flagra que o Barão podia dar nesse verdadeiro desafio, fora resolvido com maestria pela Sinhá. Ela inventou uma visita a uma tia distante, falou que há tempos não a via e que era realmente necessário ir até lá, pois a tia imaginária estava à beira da morte. Eu entrei na história, pois ela exigiu que um escravo grande e forte fosse lhe fazendo companhia, para sua segurança e para carregar sua enorme bagagem. O Barão apenas comentou que eu tivesse cuidado, pois as frutas do seu pomar só ele podia colher. Isso num tom de voz ameaçador. Deu-me um frio na espinha. Mas valia a pena correr o risco, afinal era minha liberdade.

O problema foi à data marcada para a viagem, dia 12 de maio de 1888. Só podia ser nesse dia, pois a colheita do café já haveria acabado e o Barão podia abrir mão do meu trabalho no campo. Esperei alguns meses, ainda tendo que brincar de ser senhor e ela de escrava branca. Finalmente o dia chegou, a viagem foi tranqüila, sem sobressaltos além das tentativas quase insanas dela se agarrar no meu membro em plena estrada. Era uma tarada e devia estar necessitada. Chegamos a um lugar deserto, uma casa meio abandonada, que ficava a muitas léguas da casa grande. Ela me falou – É aqui, prepare-se para ser meu – a boca dela salivava. Eu estava maluco, mas precisava fazer aquilo. Entramos na casa e nem deu tempo de pensar, ela já estava sobre mim, e caí no chão com o peso. Minhas velhas e surradas roupas voaram longe e facilmente foram arrancadas. A Sinhá gritava e uivava, como se estivesse no cio. Nunca vi nada tão medonho. Fiz todo o ritual combinado, a beijei e todo o resto. Depois de tudo feito, e passando mal, recebi dela a minha carta assinada pelo Barão, conforme o prometido. Nunca fiquei tão feliz. Abri a porta e a deixei lá, sai correndo e gritando com a carta na mão. Finalmente livre. Só consegui chegar à cidade no dia seguinte, pois estava demasiado longe. Ao entrar gritando de euforia vi que vários negros também gritavam. Já passavam das 4 da tarde do dia 13 de maio de 1888. Todos eles corriam feito loucos gritando, dizendo que estavam livres. Não entendi nada, afinal havia passado um dia fora. Encontrei um amigo de senzala e o mostrei minha carta. Ele sabia de todo o martírio que havia feito pra consegui-la e apenas riu na minha cara. – Rapaz, você fez tudo em vão, a Princesa Isabel acabou de assinar a lei Áurea, libertando todos nós. Estamos todos livres! E você pegou a Sinhá Gorda! – Não sei se chorava de alegria ou tristeza, mas o fato é que aprendi a nunca mais confiar em mulheres taradas.

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  • Moziel T.Monk: Pessoalmente eu nunca vi disponível esse tipo de material online. Por ser algo relativamente antigo, é...
  • Ricardo: Tenho saudades das histórias e gostaria de saber em que site eu consigo ler online ou baixar. Grato Ricardo
  • Ribamar: Branchu é o nada de onde todo vazio provém
  • padre levedo: ouça isto, Moziel http://www.youtube.com/watch?v =wdX6ly6ftUM
  • Moziel T.Monk: Sim, tanto que deixo claro no texto que a história foi criação de David Nasser, apesar de na época de...

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