Archive for junho 2010

Relembrando Clifford

Ano passado o site Mínimo Múltiplo, do colega Lucas Colombo, publicou este meu texto sobre o trompetista Clifford Brown. Para relembrar o aniversário de sua morte, republico aqui na Blodega o texto, principalmente nestes tempos de vuvuzela estuprando nossos tímpanos.

Se o pop decidir elevar o 25 de junho a dia santo devido à recente morte de Michael Jackson, os acólitos do Jazz têm prerrogativa e preferência pela data, pois em 1956, na fatídica madrugada de 25 para 26, morria em um acidente de carro o jovem trompetista Clifford Brown, que contava com 26 anos incompletos e estava em plena atividade. Mais do que um futuro promissor não cumprido, sina de muitos artistas mortos precocemente, ele já era mais do que uma promessa e já havia deixado sua marca no gênero, tanto por seu talento com o instrumento quanto por seu perfil incomum. Se hoje o consumo de drogas está associado à “atitude” dos artistas de rock e congêneres, devo abrir um parêntesis para lembrar que, há décadas, muitos artistas de Jazz consumiam doses industriais das drogas então disponíveis, muitos em busca de inspiração e combustível para longos solos e improvisos. Por exemplo, se Tim Maia costumava praticar sua versão de Triatlon (maconha, uísque e cocaína), Billie Holiday, em certa época, praticava uma espécie de “pentatlon” toda noite: fumava ópio, seguido de maconha, engolia vários comprimidos (provavelmente anfetaminas e barbitúricos) com a ajuda de generosas doses de uísque e, antes de dormir, enchia as veias de heroína. Só metade disso derrubaria um dinossauro. Do rock, inclusive.

Mas não é de Lady Day que estamos falando agora. Citei-a apenas para contextualizar o ambiente do Jazz naquelas décadas e lembrar que as drogas ceifaram muitos talentos, como Charlie Parker e Fats Navarro, só para citar instrumentistas de sopro, além de comprometer a carreira de alguns, levando-os a problemas legais ou a perder a licença de músico, como John Coltrane. Num ambiente desses, em que os grandes acreditavam que era necessário se entupir de drogas até o coração pedir falência para poderem alcançar o nirvana artístico, Clifford Brown era uma aberração, no bom sentido, pois consta que ele era totalmente limpo. Não fumava, não cheirava, não injetava (e não mentia, até onde se sabe), e a bebida mais forte que bebera provavelmente foi leite maltado. Também não era um deslumbrado com a fama e a grana, sendo de uma humildade quase desconcertante, além de ter um bom senso para negócios pouco comum aos do ramo, e tido como um doce de pessoa por seus pares. Era uma verdadeira avis rara no meio jazzístico. Só tinha um azar danado com automóveis, já que se envolveu em três acidentes sérios, sendo o último fatal. E por acaso não era ele quem dirigia naquela noite, e sim a esposa do pianista Richie Powell, que também estava com eles. Ironicamente, enquanto outros de seus pares sucumbiam às drogas, ele morreu dessa forma tão casual e absurda.

Além do péssimo histórico com veículos, poderia se dizer que as circunstâncias conspiraram contra as possibilidades artísticas de Brown, desde começar tarde a aprender música, passar a juventude escondido nos cafundós do Delaware, ganhar uma bolsa de música para uma universidade sem departamento de música (é sério!) e ficar fora de cena por meses devido a um (adivinhem) acidente de carro pouco depois de alguns medalhões passarem a prestar atenção em seu talento. São “coisas” que poderiam comprometer irremediavelmente a carreira de muitos artistas, ou no mínimo protelar tudo para um reconhecimento tardio.

Encorajado por Dizzie Gillespie, Brown foi persistente e começou, de fato, sua carreira profissional apenas em 1951, e nos meses seguintes tocaria nos grupos de Chris Powell e Tadd Dameron, até se juntar a Lionel Hampton em uma turnê europeia e ser “descoberto” por músicos do velho continente, que o convidaram a gravar com eles, em idos de 1953. No ano seguinte estaria solto o suficiente para o consagrado baterista bebop Max Roach lhe fazer a indecorosa proposta de comporem um quinteto, tendo o trompetista como líder. Daí pra frente foi história, infelizmente curta. E boa parte dessa história foi registrada pela gravadora EmArcy. E essa fase pode ser conhecida no box “Brownie”, lançado pela Polygram e que faria esse que vos fala muito feliz caso uma boa alma lhe desse de presente.

Clifford Brown era de uma versatilidade a toda prova, já que não se acanhava em dedilhar nervosamente cada nota em uma formação de quinteto ou de se suavizar ao ser acompanhado por orquestra de cordas, algo que costumava assombrar outros que ousassem fazê-lo. Também serviu de auxílio luxuoso a vozes femininas de estilos tão distintos quanto Sarah Vaughan, Dinah Washington e Helen Merrill.

Não deixa de ser um exercício interessante imaginar como seria o cenário do Jazz se Brown não morresse tão prematuramente ou se fosse notado anos antes. Herdeiro do estilo de Fats Navarro, em poucos anos se tornaria tão importante que chegava a eclipsar outros trompetistas de seu tempo, como Chet Baker e Miles Davis. A propósito, Miles soube aproveitar o hiato deixado pela ausência de Brown. Não que o substituísse, mas sem um talento como Brown atraindo a atenção para si ou um sucessor tão bom quanto, a metamorfose ambulante do Jazz encontrou o caminho aberto e nas décadas seguintes reinventaria o gênero de várias formas, tornando-o cool ou misturando-o ao rock e à música eletrônica (depois de levar um par de chifres do Jimi Hendrix, dizem as más línguas).

Na prática, porém, Clifford não deixou herdeiros imediatos, mas sua importância para o gênero é constantemente lembrada. Uma das mais singelas homenagens é o standard “I Remember Clifford”, de Benny Golson. Helen Merrill e Arturo Sandoval dedicaram álbuns a essa figura ímpar do Jazz. E ainda hoje alguns artistas lhe devem um mínimo de influência, como Ray Hargrove. Mas nada do que eu fale se compara a escutar o próprio. E no Youtube ainda tem alguns bons registros do “Brownie” em ação. Relembremos.

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Nunca Aposte Sua Bunda


Existe um conto do Edgar Allan Poe intitulado “nunca aposte sua cabeça com o diabo” com um certo cunho moral sobre um indivíduo que, para comprovar suas razões e seus pontos de vista, sempre apostava sua cabeça com o diabo (dã!). Conhecendo Poe, você pode presumir que o destino do infeliz não foi dos melhores. Não vou dar recomendações morais para nunca apostar sua cabeça com o diabo. Este caráter moral eu deixo para o velho Edgar.O que venho recomendar aqui aos jovens leitores é: nunca apostem sua bunda. Nem com o diabo, nem com ninguém!

Por mais que você tenha certeza, convicção absoluta ou não haja sombra de dúvida, nem assim aconselho você a colocar a saúde de suas pregas em questão como fiel de uma aposta. Mesmo que a aposta verse sobre o formato do planeta ou de seus testículos, resista a tentação de afirmar sua certeza e conhecimento sobre algum assunto bradando “eu dou o cu de festa se estiver errado!”. Por menor que seja o risco de se perder a aposta, ele existe. E perder uma aposta cuja paga envolva a prática meio involuntária do amor uranista, qualquer risco é grande demais.
Para ilustrar esta crônica de cunho moral, me permitam relatar uma pequena história envolvendo Bira, o Bruto, e um incauto jovem que atendia pelo nome de Marcos Vinícius, ambos alunos do ensino superior em uma mesma universidade. Nestas contendas intelectuais que surgem nos corredores do campus e nas mesas de botequim, eis que ocorre entre estes dois personagens uma divergência de opinião sobre algum assunto obscuro ou complexo, como teoria do caos, mecânica quântica ou cinema iraniano. Não importa. O que é relevante é que alguém resolveu apostar o brioco e o outro aceitou. Um dos dois estava errado, e pela aposta, este deveria ceder o ás-de-copas para pagar a aposta. Não preciso dizer que um terceiro, um professor que era autoridade no assunto (o assunto da aposta, e não em dar a bunda) acabou por dar razão ao Bira, que além de bruto, é escroto e cara de pau. Ao saber que vencera a aposta, uma frase se tornou comum de se escutar na faculdade: ”Marcos Vinícius, estás me devendo!”, obviamente seguida do gesto envolvendo os dedos polegar e indicador formando o característico anel.
O campus inteiro estava ciente da aposta e da dívida, e as cobranças públicas estavam cada vez mais constrangedoras. Mas o ápice das mesmas ocorreu quando, no início de um semestre, o diretório acadêmico organizou um evento para recepção dos calouros. Em um palanque, as autoridades acadêmicas diziam algumas palavras. Alguma alma sebosa acabou chamando o veterano aluno Bira, uma verdadeira instituição dentro da universidade, para falar ao microfone, em cima do palanque. Ele falou aos alunos novos, explicou um pouco sobre a rotina acadêmica, soltou umas piadinhas infames com alguns dos professores. Mas ao final, ele pergunta ao público: “Cadê Marcos Vinícius? Ele ta por aí?”. Ao vê-lo tentando se esconder entre algumas jovens calouras, Bira aponta para ele e grita, fazendo com a outra mão o característico gesto com os dedos indicador e polegar:
“MARCOS VINÍCIUS, ESTÁS ME DEVENDO!”.
Agora todo mundo no campus estava sabendo da aposta. Mas a solução parece fácil, não? Era só Marcos Vinícius conversar com o Bira e pedir educadamente que ele parasse com estas cobranças públicas, já que estava ficando feia a situação. E foi isso que Marcos acabou fazendo, e para sua surpresa, o Bira aceitou numa boa, cessando as cobranças públicas. Mas poucas semanas depois, Marcos chama o Bira e pede para que ele volte a cobrar a aposta. “Mas por quê?”, perguntou Bira, segurando o riso e já prevendo a resposta: “É que todo mundo está pensando que eu paguei a porra da aposta!”.
Ou seja, jovens, nunca apostem a sua bunda, pois sempre existe a possibilidade de se perder a aposta. A não ser que a sua intenção seja essa…

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Clark After Dark Vuvuzelas


Se você, caro leitor ou amada leitora, já está de saco cheio de ouvir Galvão Bueno, copa do mundo, e principalmente o nome VUVUZELA, chegou à b(l)odega certa. Sinceramente não sei o que é mais irritante: chamar uma corneta de plástico de vuvuzela ou o som da dita. Aliás, até o som da pronúncia de “vuvuzela” dói no meu ouvido. E para meu azar, esse “neologismo” caiu no gosto da imprensa por conta da copa na África do Sul, e todos os estagiários de jornalismo adoram mencioná-la sem moderação.

Mas já que estamos falando em instrumentos de sopro com nome estranho, citemos um mais interessante: flugelhorn. E que diacho é um flugelhorn? Digamos que seja uma espécie de trompete mais gordinho, e que produz um som mais, podemos dizer, aveludado. E alguns artistas do Jazz o preferiram ao popular trompete. E para purgar o diacho das vuvuzenas de meus pavilhões auditivos resolvi apelar para um dos grandes mestres deste instrumento: Clark Terry, um verdadeiro jazzista antediluviano e que ainda está na ativa no alto de seus quase 90 anos, tendo tocado ao lado de feras como Duke Ellington, Count Basie e Quincy Jones, além de ter  influenciando músicos ao longo das décadas.

Mesmo não tendo conspirado para virar o Jazz do avesso por várias vezes, como Miles Davis, ou se tornado um arauto do tradicionalismo como Winton Marsalis, a obra de Clark Terry  resistiu à prova do tempo, e meio que comendo pelas beiradas, já que não é tão lembrado ou citado quanto outros monstros, como Chet Baker. E com a vantagem de ter sobrevivido à maioria de seus colegas de ofício contemporâneos. Tanto que este ano ele foi um dos homenageados pelo Grammy agraciados com o Lifetime Achievement Award, prêmio também concedido postumamente à Michael Jackson na mesma cerimônia. Também estou vendo que este camarada enterrou muito musico, e ainda está com fôlego para enterrar mais alguns.

Por isso ignorem as vuv…Ah, dane-se que não vou mais citar este nome. Apenas escutem esta versão de “Angel Eyes”, do disco “Clark After Dark”, de 1978. E aproveite o Dia dos Namorados para rolar um clima com a patroa.

Mais sobre o coroa do flugelhorn em seu site oficial

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O Angu da Pagu

Como bem lembrou a Dolphin do She-NSN, hoje é o centenário de nascimento de Patrícia Galvão, a Pagu, a musa do movimento Modernista e amante de Oswald de Andrade, um dos mentores do Movimento Antropofágico, que como só frequentadores da blodega sabem, é aquela mania de gente comer gente.
Obviamente que ela foi mais do que amante e esposa de escritor ranzinza. Como militante comunista, ativista cultural e escritora, Pagu se tornou um símbolo feminino de emancipação, tanto que sua vida foi tema do filme “Eternamente Pagu”, de 1988. E um ótimo exemplo para se lembrar em tempos de mulheres de plástico.

Para não deixar a data passar em branco, segue abaixo um vídeo para deleite acústico e – porque não – visual: Maria Rita cantando, ao vivo, a música “Pagu”. Dê asas às suas cobras!

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Saxofonistas da Blodega:Edgar Duvivier

Em mais um episódio de série “saxofonistas da blodega”, essa semana apresento aos frequentadores o senhor Edgar Duvivier, um carioca que desistiu da advocacia para se dedicar as artes plásticas e à música. Sua discografia não é tão extensa, infelizmente, sendo 3 4 discos solo, onde passeou por ritmos como o Jazz e o Chorinho, além de colaboração com outros artistas como a cantora Olivia Byington ou o violonista Guinga.  Também se fez presente em trilhas sonoras para curtas, programas de TV e peças de teatro. Uma recente participação é no espetáculo musical “Versão Brasileira”, dos diretores Charles Möeller e Carlos Claudio Botelho, que se tornou um DVD. Para que quiser conhecer mais o artista, seu site oficial e seu twitter.

Para mostrar o talento do Duvivier, “Queixa Antiga”, a minha faixa preferida do excelente  “Sax Brasileiro”, disco lançado em 1998 com o Choro predominando nas faixas. Enjoy, cambada!

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Como um Bando de Porra-Louca Salvou Hollywood do Buraco

Se você não estava no último fim-de-semana enchendo a cara de cerveja ao som de SteppenWolf com certeza ouviu dizer que o velho ator Dennis Hopper morreu vitimado pelo câncer de próstata, o que não deixa de ser uma piada cósmica, considerando seu histórico de bebedeiras, abusos com drogas, pés na jaca envolvendo violência doméstica e armas de fogo, que poderiam ter feito o serviço sujo décadas antes. Mas esqueçamos as ironias, pois não deixa de ser de um simbolismo triste sua morte neste momento no qual tanto se fala sobre a (fata de) qualidade do cinema americano, pois ele foi um dos responsáveis pelo divisor de águas na história de Hollywood com o filme “Sem Destino”, que inaugurou uma era do cinema americano que é considerada a mais fértil artisticamente falando. Esse período criativo da indústria de entretenimento americana é tema do livro “Easy Riders, Raging Bulls”, do jornalista Peter Biskind. Na época que foi lançado, lá pelos idos de 1998, a revista “Set” fez uma ótima matéria sobre este período retratado pelo livro, mas ele permaneceu inédito em português por muito tempo e só saiu no fim do ano passado com o título “Como a Geração Sexo, Drogas e Rock’N'Roll Salvou Hollywood”, e imediatamente o adquiri e o li de forma viciante. Na verdade eu pretendia escrever esse texto há meses, mas foi preciso alguém morrer para que eu tomasse uma atitude. Valeu, Dennis Hopper! Agora senta que lá vem história!

Apesar de “Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas” ser citado como o primeiro filme que indicou o caminho que a Meca do Cinema seguiria na década seguinte, o que realmente é o marco inicial é o filme “Sem Destino”, com Peter Fonda, Dennis Hopper e Jack Nicholson, que foi produzido e filmado por um bando de porra-loucas, dirigido pelo próprio Dennis Hopper, custado uma ninharia e rendido uma grana preta de retorno para uma produtora independente – a BBS de Bert Schneider, Bob Rafelson e Steve Blaumer. E veio em boa hora, já que o velho sistema de estúdios de Hollywood agonizava desde o pós-guerra e no fim dos anos 60 teve a pior arrecadação de sua história. Grandes empresas estavam comprando os estúdios e tentando transformar aquilo num negócio puramente rentável. Mas para surpresa das raposas velhas dos estúdios e dos novos executivos, a porralouquice parecia ser lucrativa, e o sangue novo que estava surgindo mostrou o novo caminho para que o público voltasse a lotar as salas de cinema, e ainda por cima produzindo obras de qualidade artística comparável ao que o cinema europeu e seu “cinema de autor” já fazia. Foi uma época que os diretores, antes meros funcionários pau-mandados dos donos de estúdio e produtores, tomaram o poder em suas mãos e conseguiram por em prática suas ideias, sonhos, visões e conceitos. E, de acordo com Peter Biskind e muitos cinéfilos, foi a época mais criativa do cinema americano, quando o cinema mainstream produzia filmes de inegável qualidade artística e com retorno de bilheteria, o melhor de dois mundos. Esse paraíso na terra dos cinéfilos teve seu alfa e ômega: os filmes “Sem Destino” e “Touro Indomável”, daí o título do livro – “Easy Riders, Raging Bulls”. E é esse período entre 1969 e 1980 que Peter Biskind explora com riqueza de detalhes, dando nomes aos bois envolvidos, sejam eles atores, roteiristas, diretores, produtores ou críticos.

Nos anos 70, os diretores novos invadiram à força o território dos produtores e tiveram respaldo devido à recepção do público e elogios da crítica, sendo a renomada crítica Pauline Kael a maior divulgadora e defensora desse novo movimento junto à imprensa, movimento este que trouxe diretores como Martin Scorcese, Francis Ford Copolla, William Friedkin, Peter Bogdanovich, Roman Polansky, Michael Cimino, Robert Altman, Mike Nichols e John Boorman, todos com total liberdade criativa e financeira.

Mas a pesquisa e narrativa de Biskind não se resume à trajetórias artísticas e detalhes de produção, pois suas entrevistas e pesquisas trouxeram à tona um mosaico comportamental daqueles tempos da “Nova Hollywood”. Em suma, o subtítulo “Geração Sexo, Drogas e Rock’N'Roll…” é devidamente justificado. E tal crônica não poupa ninguém e não deixa nenhum esqueleto quieto nos armários. O lado negro é mostrado sem muito pudor, e o que se conclui após se ler este livro é que praticamente todos os envolvidos tinham algum vício em drogas, alguma perversão sexual mal resolvida, um ego maior que a tela de cinema IMAX, algum episódio de infidelidade conjugal ou era simplesmente um grande filho da puta. E quando falo todos, isso inclui atores, produtores, roteiristas e o escambau. Só faltou o lanterninha e o pipoqueiro. E muitos preenchiam todos estes requisitos simultaneamente. A grande maioria era viciada em cocaína, maconha ou alguma outra droga sintética, e pelo que lemos podemos concluir que só Hollywood deve ter sido responsável por triplicar o PIB colombiano devido ao seu consumo de pó nos anos 70. O que poderia ser um exercício de mero sensacionalismo é bem embasado, já que ele deixa bem claro quando as versões de um mesmo fato narrado pelos envolvidos não bate.

Os únicos que são poupados neste aspecto são George Lucas e Steven Spielberg, que são mostrados como nerds, na pior acepção da palavra. Mas especificamente Lucas, que é “acusado” de ter “traído o movimento” para se tornar um cineasta meramente comercial, alguém que sucumbiu ao lado negro da força. E sobra para a então esposa de Spielberg, Amy Irving, descrita como manipuladora e interesseira.

Mas nem tudo são flores. Com tanta liberdade, dinheiro, ego e pó, muitos diretores acabaram se excedendo e cometendo desvarios e absurdos em nome de seu “cinema autoral”. Ao lado de sucessos como “Operação França”, “O Exorcista”, “O Franco Atirador”, “A Última Sessão de Cinema”, “Amargo Pesadelo” ou “Chinatown”, surgiram muitos filmes que não deram em nada ou se tornaram fracassos retumbantes. O próprio Dennis Hopper, embriagado pelo sucesso de “Sem Destino”, embarcou em um projeto pessoal no filme “The Last Movie”, que foi um total fracasso, não obstante ter ganho o Premio da Crítica no Festival de Veneza. Outros diretores com o ego – e narizes – inflados cometeram seus filmes que, por excessos e preciosismos, acabavam estourando o orçamento e nem sempre recuperavam o investimento, e quase sempre causava úlcera nos produtores. Friedkin, após o sucesso de “O Exorcista” e “Operação França”, resolveu refilmar o filme francês “O Salário do Medo” como “O Comboio do Medo”, decuplicando o orçamento e dando com os burros n’água. Francis Ford Copolla resolve transpor “O Coração das Trevas” para a Guerra do Vietnã, filmando em plena selva das Filipinas na época das chuvas e torturando a equipe com suas megalomanias, o que custou meses de filmagem, uma fortuna para manter a logística e reconstruir cenários destruídos por furacões, além de um ataque cardíaco em Martin Sheen antes de “Apocalipse Now” ficar concluído. Tais fracassos serviram apenas como munição para os executivos tomarem o poder nas suas mãos mais uma vez, e a gota d’água foi “O Portal do Paraíso”, de Michael Cimino, que conseguiu a proeza de levar o orçamento para 44 milhões para uma bilheteria de um pouco mais de um milhão de doletas, o que deixou a United Artists no buraco e a levou à falência. Neste mesmo ano Scorcese lançou “Touro Indomável”, que também foi um fracasso de público e tirou toda a credibilidade do diretor junto à indústria. O resumo desta orgia foi que muitos diretores se queimaram e alguns levaram anos para se recuperar, enquanto outros jamais voltaram a ter a mesma credibilidade. Alguns tiveram que se “vender”, associando seu nome a projetos sem tanto valor artístico para voltarem à direção. Alguns ainda esperam a chance de produzir sua obra definitiva.

Nesse meio tempo os dois “nerds” acabaram se tornando os responsáveis pelo cinema americano como conhecemos hoje. Enquanto Lucas estava associado a Copolla e aguardando uma chance na produtora malsucedida Zootrope, o sucesso lhe chegou após “Loucuras de Verão”, e “Guerra nas Estrelas”, que trouxe novidades como o licenciamento de produtos e a participação nos lucros. A contribuição de Spielberg foi com “Tubarão”, que se tornou o primeiro filme a usar a publicidade na TV em larga escala, algo impensável anos antes. Após estes filmes, a indústria mudou consideravelmente. Se antes os filmes eram lançados aos poucos, com temporadas curtas em cada local, levando-se semanas ou meses para se aferir o verdadeiro retorno do filme, se tornou praxe o lançamento simultâneo em larga escala, por vezes mundial, com a estreia em uma sexta-feira muitas vezes selando o destino do filme e mostrando se ele será um sucesso ou fracasso. Nasciam os blockbusters.

Com os executivos novamente dando as cartas, a indústria de cinema americana foi se tornando apenas uma fábrica de sucessos com retorno garantido sem muita prioridade para os aspectos mais artísticos. Roteiros são modificados apenas para se vender mais produtos licenciados, diretores seguem fórmulas prontas e produtores enchem filmes com efeitos mirabolantes e cenas de ação. Até mesmo o segmento do cinema independente que se mantém até hoje se tornou sinônimo de filmes cult para um público mais restrito,e até estes costumam seguir fórmulas. Hoje diretores talentosos que conseguem levar seus projetos adiante são raros, uma espécie de exceção que comprova a regra. E a cada ano que se passa o orçamento dos filmes se multiplica, já que envolvem pesados esquemas de divulgação e gastos com caríssimos efeitos especiais e digitais de última geração. O autor do livro o conclui com uma nota melancólica sobre estes novos tempos e sobre o destino de muitos dos responsáveis pela revolução artística dos anos 70, pontuando tudo com a descrição dos últimos dias do diretor Hal Ashby.

Considerando que este livro foi escrito no fim dos anos 90, podemos avaliar que hoje a indústria ainda está pior, pois nunca antes se adaptou ou se reaproveitou tanto material antigo, denotando uma óbvia falta de vontade de se apostar no criativo e no novo, se preferindo investir na nova onda salvadora da indústria, o 3D digital. Os lucros podem até estar nas nuvens, mas há o prenúncio de uma crise de criatividade forte, além do desafio de se lidar com a pirataria digital e a distribuição de filmes via Internet. Ler esse livro pode dar uma ideia de como as coisas chegaram a este ponto, e recomendo enfaticamente a qualquer um que goste de cinema.

Um adendo: Há um documentário baseado neste livro que foi lançado em 2003. Não sei se já passou em algum canal por assinatura da TV brasileira, mas seu DVD não chegou ainda por estas terrinhas.

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