Como um Bando de Porra-Louca Salvou Hollywood do Buraco

Se você não estava no último fim-de-semana enchendo a cara de cerveja ao som de SteppenWolf com certeza ouviu dizer que o velho ator Dennis Hopper morreu vitimado pelo câncer de próstata, o que não deixa de ser uma piada cósmica, considerando seu histórico de bebedeiras, abusos com drogas, pés na jaca envolvendo violência doméstica e armas de fogo, que poderiam ter feito o serviço sujo décadas antes. Mas esqueçamos as ironias, pois não deixa de ser de um simbolismo triste sua morte neste momento no qual tanto se fala sobre a (fata de) qualidade do cinema americano, pois ele foi um dos responsáveis pelo divisor de águas na história de Hollywood com o filme “Sem Destino”, que inaugurou uma era do cinema americano que é considerada a mais fértil artisticamente falando. Esse período criativo da indústria de entretenimento americana é tema do livro “Easy Riders, Raging Bulls”, do jornalista Peter Biskind. Na época que foi lançado, lá pelos idos de 1998, a revista “Set” fez uma ótima matéria sobre este período retratado pelo livro, mas ele permaneceu inédito em português por muito tempo e só saiu no fim do ano passado com o título “Como a Geração Sexo, Drogas e Rock’N'Roll Salvou Hollywood”, e imediatamente o adquiri e o li de forma viciante. Na verdade eu pretendia escrever esse texto há meses, mas foi preciso alguém morrer para que eu tomasse uma atitude. Valeu, Dennis Hopper! Agora senta que lá vem história!
Apesar de “Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas” ser citado como o primeiro filme que indicou o caminho que a Meca do Cinema seguiria na década seguinte, o que realmente é o marco inicial é o filme “Sem Destino”, com Peter Fonda, Dennis Hopper e Jack Nicholson, que foi produzido e filmado por um bando de porra-loucas, dirigido pelo próprio Dennis Hopper, custado uma ninharia e rendido uma grana preta de retorno para uma produtora independente – a BBS de Bert Schneider, Bob Rafelson e Steve Blaumer. E veio em boa hora, já que o velho sistema de estúdios de Hollywood agonizava desde o pós-guerra e no fim dos anos 60 teve a pior arrecadação de sua história. Grandes empresas estavam comprando os estúdios e tentando transformar aquilo num negócio puramente rentável. Mas para surpresa das raposas velhas dos estúdios e dos novos executivos, a porralouquice parecia ser lucrativa, e o sangue novo que estava surgindo mostrou o novo caminho para que o público voltasse a lotar as salas de cinema, e ainda por cima produzindo obras de qualidade artística comparável ao que o cinema europeu e seu “cinema de autor” já fazia. Foi uma época que os diretores, antes meros funcionários pau-mandados dos donos de estúdio e produtores, tomaram o poder em suas mãos e conseguiram por em prática suas ideias, sonhos, visões e conceitos. E, de acordo com Peter Biskind e muitos cinéfilos, foi a época mais criativa do cinema americano, quando o cinema mainstream produzia filmes de inegável qualidade artística e com retorno de bilheteria, o melhor de dois mundos. Esse paraíso na terra dos cinéfilos teve seu alfa e ômega: os filmes “Sem Destino” e “Touro Indomável”, daí o título do livro – “Easy Riders, Raging Bulls”. E é esse período entre 1969 e 1980 que Peter Biskind explora com riqueza de detalhes, dando nomes aos bois envolvidos, sejam eles atores, roteiristas, diretores, produtores ou críticos.

Nos anos 70, os diretores novos invadiram à força o território dos produtores e tiveram respaldo devido à recepção do público e elogios da crítica, sendo a renomada crítica Pauline Kael a maior divulgadora e defensora desse novo movimento junto à imprensa, movimento este que trouxe diretores como Martin Scorcese, Francis Ford Copolla, William Friedkin, Peter Bogdanovich, Roman Polansky, Michael Cimino, Robert Altman, Mike Nichols e John Boorman, todos com total liberdade criativa e financeira.
Mas a pesquisa e narrativa de Biskind não se resume à trajetórias artísticas e detalhes de produção, pois suas entrevistas e pesquisas trouxeram à tona um mosaico comportamental daqueles tempos da “Nova Hollywood”. Em suma, o subtítulo “Geração Sexo, Drogas e Rock’N'Roll…” é devidamente justificado. E tal crônica não poupa ninguém e não deixa nenhum esqueleto quieto nos armários. O lado negro é mostrado sem muito pudor, e o que se conclui após se ler este livro é que praticamente todos os envolvidos tinham algum vício em drogas, alguma perversão sexual mal resolvida, um ego maior que a tela de cinema IMAX, algum episódio de infidelidade conjugal ou era simplesmente um grande filho da puta. E quando falo todos, isso inclui atores, produtores, roteiristas e o escambau. Só faltou o lanterninha e o pipoqueiro. E muitos preenchiam todos estes requisitos simultaneamente. A grande maioria era viciada em cocaína, maconha ou alguma outra droga sintética, e pelo que lemos podemos concluir que só Hollywood deve ter sido responsável por triplicar o PIB colombiano devido ao seu consumo de pó nos anos 70. O que poderia ser um exercício de mero sensacionalismo é bem embasado, já que ele deixa bem claro quando as versões de um mesmo fato narrado pelos envolvidos não bate.
Os únicos que são poupados neste aspecto são George Lucas e Steven Spielberg, que são mostrados como nerds, na pior acepção da palavra. Mas especificamente Lucas, que é “acusado” de ter “traído o movimento” para se tornar um cineasta meramente comercial, alguém que sucumbiu ao lado negro da força. E sobra para a então esposa de Spielberg, Amy Irving, descrita como manipuladora e interesseira.
Mas nem tudo são flores. Com tanta liberdade, dinheiro, ego e pó, muitos diretores acabaram se excedendo e cometendo desvarios e absurdos em nome de seu “cinema autoral”. Ao lado de sucessos como “Operação França”, “O Exorcista”, “O Franco Atirador”, “A Última Sessão de Cinema”, “Amargo Pesadelo” ou “Chinatown”, surgiram muitos filmes que não deram em nada ou se tornaram fracassos retumbantes. O próprio Dennis Hopper, embriagado pelo sucesso de “Sem Destino”, embarcou em um projeto pessoal no filme “The Last Movie”, que foi um total fracasso, não obstante ter ganho o Premio da Crítica no Festival de Veneza. Outros diretores com o ego – e narizes – inflados cometeram seus filmes que, por excessos e preciosismos, acabavam estourando o orçamento e nem sempre recuperavam o investimento, e quase sempre causava úlcera nos produtores. Friedkin, após o sucesso de “O Exorcista” e “Operação França”, resolveu refilmar o filme francês “O Salário do Medo” como “O Comboio do Medo”, decuplicando o orçamento e dando com os burros n’água. Francis Ford Copolla resolve transpor “O Coração das Trevas” para a Guerra do Vietnã, filmando em plena selva das Filipinas na época das chuvas e torturando a equipe com suas megalomanias, o que custou meses de filmagem, uma fortuna para manter a logística e reconstruir cenários destruídos por furacões, além de um ataque cardíaco em Martin Sheen antes de “Apocalipse Now” ficar concluído. Tais fracassos serviram apenas como munição para os executivos tomarem o poder nas suas mãos mais uma vez, e a gota d’água foi “O Portal do Paraíso”, de Michael Cimino, que conseguiu a proeza de levar o orçamento para 44 milhões para uma bilheteria de um pouco mais de um milhão de doletas, o que deixou a United Artists no buraco e a levou à falência. Neste mesmo ano Scorcese lançou “Touro Indomável”, que também foi um fracasso de público e tirou toda a credibilidade do diretor junto à indústria. O resumo desta orgia foi que muitos diretores se queimaram e alguns levaram anos para se recuperar, enquanto outros jamais voltaram a ter a mesma credibilidade. Alguns tiveram que se “vender”, associando seu nome a projetos sem tanto valor artístico para voltarem à direção. Alguns ainda esperam a chance de produzir sua obra definitiva.
Nesse meio tempo os dois “nerds” acabaram se tornando os responsáveis pelo cinema americano como conhecemos hoje. Enquanto Lucas estava associado a Copolla e aguardando uma chance na produtora malsucedida Zootrope, o sucesso lhe chegou após “Loucuras de Verão”, e “Guerra nas Estrelas”, que trouxe novidades como o licenciamento de produtos e a participação nos lucros. A contribuição de Spielberg foi com “Tubarão”, que se tornou o primeiro filme a usar a publicidade na TV em larga escala, algo impensável anos antes. Após estes filmes, a indústria mudou consideravelmente. Se antes os filmes eram lançados aos poucos, com temporadas curtas em cada local, levando-se semanas ou meses para se aferir o verdadeiro retorno do filme, se tornou praxe o lançamento simultâneo em larga escala, por vezes mundial, com a estreia em uma sexta-feira muitas vezes selando o destino do filme e mostrando se ele será um sucesso ou fracasso. Nasciam os blockbusters.
Com os executivos novamente dando as cartas, a indústria de cinema americana foi se tornando apenas uma fábrica de sucessos com retorno garantido sem muita prioridade para os aspectos mais artísticos. Roteiros são modificados apenas para se vender mais produtos licenciados, diretores seguem fórmulas prontas e produtores enchem filmes com efeitos mirabolantes e cenas de ação. Até mesmo o segmento do cinema independente que se mantém até hoje se tornou sinônimo de filmes cult para um público mais restrito,e até estes costumam seguir fórmulas. Hoje diretores talentosos que conseguem levar seus projetos adiante são raros, uma espécie de exceção que comprova a regra. E a cada ano que se passa o orçamento dos filmes se multiplica, já que envolvem pesados esquemas de divulgação e gastos com caríssimos efeitos especiais e digitais de última geração. O autor do livro o conclui com uma nota melancólica sobre estes novos tempos e sobre o destino de muitos dos responsáveis pela revolução artística dos anos 70, pontuando tudo com a descrição dos últimos dias do diretor Hal Ashby.
Considerando que este livro foi escrito no fim dos anos 90, podemos avaliar que hoje a indústria ainda está pior, pois nunca antes se adaptou ou se reaproveitou tanto material antigo, denotando uma óbvia falta de vontade de se apostar no criativo e no novo, se preferindo investir na nova onda salvadora da indústria, o 3D digital. Os lucros podem até estar nas nuvens, mas há o prenúncio de uma crise de criatividade forte, além do desafio de se lidar com a pirataria digital e a distribuição de filmes via Internet. Ler esse livro pode dar uma ideia de como as coisas chegaram a este ponto, e recomendo enfaticamente a qualquer um que goste de cinema.
Um adendo: Há um documentário baseado neste livro que foi lançado em 2003. Não sei se já passou em algum canal por assinatura da TV brasileira, mas seu DVD não chegou ainda por estas terrinhas.
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O livro não tem nada a ver com o documentário (assisti no GNT), o melhor do documentário dessa época é “The Decade Under Influence” e foi nesse documentário que eu pela primeira vez a maioria dos porra-loca, mas o meu verdadeiro intuito de ver esse documentário era ver as partes sobre Tubarão e Star Wars que até então eram os meus filmes favoritos e apartir disso eu passei assistir mais e mais. Muitos dos relatos que estão escritos no livro, eu já tinha ouvido por sou muito fã dos filmes do Coppola, do Scorsese, Spielberg e Lucas, agora dos outros caras tive/tenho que me esforçar muito para achar os filmes que a maioria não são fáceis.
Sobre os filmes fracassados, alguns deles são considerados hoje em dia clássicos, Apocalypse Now e Touro Indomável são um grande exemplo.