Nunca Aposte Sua Bunda


Existe um conto do Edgar Allan Poe intitulado “nunca aposte sua cabeça com o diabo” com um certo cunho moral sobre um indivíduo que, para comprovar suas razões e seus pontos de vista, sempre apostava sua cabeça com o diabo (dã!). Conhecendo Poe, você pode presumir que o destino do infeliz não foi dos melhores. Não vou dar recomendações morais para nunca apostar sua cabeça com o diabo. Este caráter moral eu deixo para o velho Edgar.O que venho recomendar aqui aos jovens leitores é: nunca apostem sua bunda. Nem com o diabo, nem com ninguém!

Por mais que você tenha certeza, convicção absoluta ou não haja sombra de dúvida, nem assim aconselho você a colocar a saúde de suas pregas em questão como fiel de uma aposta. Mesmo que a aposta verse sobre o formato do planeta ou de seus testículos, resista a tentação de afirmar sua certeza e conhecimento sobre algum assunto bradando “eu dou o cu de festa se estiver errado!”. Por menor que seja o risco de se perder a aposta, ele existe. E perder uma aposta cuja paga envolva a prática meio involuntária do amor uranista, qualquer risco é grande demais.
Para ilustrar esta crônica de cunho moral, me permitam relatar uma pequena história envolvendo Bira, o Bruto, e um incauto jovem que atendia pelo nome de Marcos Vinícius, ambos alunos do ensino superior em uma mesma universidade. Nestas contendas intelectuais que surgem nos corredores do campus e nas mesas de botequim, eis que ocorre entre estes dois personagens uma divergência de opinião sobre algum assunto obscuro ou complexo, como teoria do caos, mecânica quântica ou cinema iraniano. Não importa. O que é relevante é que alguém resolveu apostar o brioco e o outro aceitou. Um dos dois estava errado, e pela aposta, este deveria ceder o ás-de-copas para pagar a aposta. Não preciso dizer que um terceiro, um professor que era autoridade no assunto (o assunto da aposta, e não em dar a bunda) acabou por dar razão ao Bira, que além de bruto, é escroto e cara de pau. Ao saber que vencera a aposta, uma frase se tornou comum de se escutar na faculdade: ”Marcos Vinícius, estás me devendo!”, obviamente seguida do gesto envolvendo os dedos polegar e indicador formando o característico anel.
O campus inteiro estava ciente da aposta e da dívida, e as cobranças públicas estavam cada vez mais constrangedoras. Mas o ápice das mesmas ocorreu quando, no início de um semestre, o diretório acadêmico organizou um evento para recepção dos calouros. Em um palanque, as autoridades acadêmicas diziam algumas palavras. Alguma alma sebosa acabou chamando o veterano aluno Bira, uma verdadeira instituição dentro da universidade, para falar ao microfone, em cima do palanque. Ele falou aos alunos novos, explicou um pouco sobre a rotina acadêmica, soltou umas piadinhas infames com alguns dos professores. Mas ao final, ele pergunta ao público: “Cadê Marcos Vinícius? Ele ta por aí?”. Ao vê-lo tentando se esconder entre algumas jovens calouras, Bira aponta para ele e grita, fazendo com a outra mão o característico gesto com os dedos indicador e polegar:
“MARCOS VINÍCIUS, ESTÁS ME DEVENDO!”.
Agora todo mundo no campus estava sabendo da aposta. Mas a solução parece fácil, não? Era só Marcos Vinícius conversar com o Bira e pedir educadamente que ele parasse com estas cobranças públicas, já que estava ficando feia a situação. E foi isso que Marcos acabou fazendo, e para sua surpresa, o Bira aceitou numa boa, cessando as cobranças públicas. Mas poucas semanas depois, Marcos chama o Bira e pede para que ele volte a cobrar a aposta. “Mas por quê?”, perguntou Bira, segurando o riso e já prevendo a resposta: “É que todo mundo está pensando que eu paguei a porra da aposta!”.
Ou seja, jovens, nunca apostem a sua bunda, pois sempre existe a possibilidade de se perder a aposta. A não ser que a sua intenção seja essa…

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