Histórias dos Quadrinhos que Não Estão no Gibi – Parte 2

Dando continuidade ao artigo anterior (se ainda não leu, manda ver), aqui na “Terra Brasilis” há um livro equivalente ao do Gerard Jones que explora a formação do mercado editorial dos quadrinhos brasileiros, abrangendo o período dos anos 30 até idos do início do Regime Militar, de autoria do jornalista Gonçalo Júnior. “A Guerra dos Gibis” é um livro fundamental e indispensável para qualquer um que queira conhecer a história e – porque não – os problemas da indústria de revistas em quadrinhos, popularmente conhecidos entre nós como “gibis”. Como Jones, Gonçalo usa um personagem e sua história como fio condutor: Adolfo Aizen. O então jovem repórter de O Globo tem a ideia de trazer os quadrinhos publicados nos jornais dos EUA , levando-a inicialmente ao seu patrão, Roberto Marinho, que a descarta, e este por fim não desiste e acaba criando “O Suplemento Infantil” para o jornal pós-Revolução de 30, “A Nação”. Essa foi a semente para o pequeno império editorial que o jovem – imigrante e descendente de judeus russos como seus colegas de ofício americanos – criaria anos depois com a fundação da EBAL – Editora Brasil América. E o mais irônico que esse império foi criado sob uma mentira, e uma contravenção já que sua certidão de nascimento brasileira era falsa, e até 2002 a Constituição Brasileira vetava a participação de estrangeiros como sócios ou proprietários em veículos de comunicação, e por toda sua vida Aizen carregou essa espada pendurada sobre o pescoço, uma informação que poderia ser usada por algum inimigo. E inimigos não faltaram. E porque acham que o título do livro é “A guerra dos Gibis”?

Aizen – e os demais editores de quadrinhos e tiras – enfrentaram várias guerras. A primeira delas foi contra seu ex-patrão, Roberto Marinho, que se tocou da bosta que fez ao descartar a ideia dos quadrinhos que Aizen lhe levara de mão beijada. Vendo que o antigo empregado conseguira bons contratos com as distribuidoras de material produzido pelas editoras americanas – os syndicates – e seus suplementos se tornaram revistas avulsas bem vendidas junto ao público infanto-juvenil, Marinho quis abocanhar esta fatia do mercado, e se tornou o primeiro concorrente sério dos quadrinhos de Aizen ao criar O Globo Juvenil, que seria seguido anos depois pelos Diários Associados de Assis Chateaubriant, que criou a revista “O Gury”.

Nesse meio tempo, as opiniões do clero já teciam pesadas críticas contra os quadrinhos importados que eram publicados nessas revistas, sendo o início da ideia geral de que quadrinhos seriam prejudiciais a educação das crianças, ideia ainda hoje encravada no nosso inconsciente coletivo e que vez por outra ainda encontra eco em algum veiculo de comunicação. Tais críticas recrudesceriam a partir dos anos 40, muitas motivadas mais por disputas editoriais entre concorrentes do que em preocupação legítima pelo eventual dano didático que os “gibis” poderiam causar à juventude. Como exemplo, a campanha que o “Diário de Notícias”, de Orlando Dantas, para afetar seu concorrente Roberto Marinho. Mas este discurso encontrou eco nos setores mais conservadores da sociedade, que passaram a atacar os quadrinhos. Se “Chatô” e Roberto Marinho reagiam com campanhas publicitárias ou editoriais agressivos, Adolfo preferia tentar convencer os críticos dos benefícios dos quadrinhos, inclusive publicando revistas com cunho educacional ou retratando personagens da história nacional, incluindo figuras eclesiásticas. Em defesa dos quadrinhos surgiram vozes improváveis, como o do intelectual Gilberto Freyre, e em seu ataque outras figuras carimbadas, como os jornalista Carlos Lacerda e Samuel Wainer, inimigos declarados de Roberto Marinho, e que criticavam os gibis para atingir indiretamente Marinho, mas cujas críticas ressoavam nos meios educacionais, influenciando pais, professores e educadores a se engajarem contra os gibis.

Além das críticas ao veículo em si, outra frente de batalha contra as editoras era a que exigia uma “reserva de mercado” de produto nacional, já que a opção mais prática e barata de importar o material estrangeiro já pronto seduzia os editores, que preferiam este material em detrimento a produzir o seu próprio o que de certa forma criou um problema e paradigma que é seguido até os dias de hoje pelas editoras. Se Aizen foi um pioneiro ao trazer as tiras e os comics americanos para nossa terrinha, ainda hoje o quadrinho nacional tem pouca expressão frente a concorrência estrangeira, com raras exceções.

A pesquisa de Gonçalo envolvendo estas décadas de mercado editorial nos trás ainda a ascensão e queda das editoras de histórias de horror paulistas, a importação da paranoia anti-quadrinhos dos EUA nos anos 50, dá uma pincelada rápida na censura sobre os quadrinhos pornográficos, a tentativa dos quadrinistas nacionais em criar uma reserva de mercado para garantir uma produção nacional, sem sucesso. Mesmo mantendo um rigor jornalístico na narrativa, esta não se torna chata ou enfadonha como poderia se tornar um texto dessa natureza, que por vezes mais se parece com um tratado acadêmico tal o formalismo com que a linguagem se cerca. O texto de Gonçalo é melífluo e qualquer amante dos quadrinhos se deliciará com as histórias que ele tem para contar. Para quem quiser conhecer a prosa de Gonçalo Junior, ele costumava bater ponto no site Bigorna. Curiosamente há um de seus artigos que critica justamente a capa do livro “Homens do Amanhã”, que mencionei na primeira metade desse artigo.

Lançado em 2004, os leitores desse livro há anos anseiam por uma continuação desse trabalho, uma espécie de “Guerra dos Gibis 2”. E isso se tornou realidade recentemente, pois está para ser lançado nos próximos dias o livro “Maria Erótica e o Clamor do Sexo – Imprensa, Pornografia, comunismo e censura na ditadura militar – 1964-1985”, que pode ser considerada uma continuação de “A Guerra dos Gibis”, pois aborda a censura aos quadrinhos no período imediatamente posterior ao abordado naquele livro. Espero em breve tê-lo em mãos para comentar com os frequentadores dessa blodega.

Update 1: Para quem quiser dar uma conferida, quase todo o conteúdo desse livro está disponível no Google Livros

Update 2: Como prometi, comentei “A Guerra dos Gibis 2″ neste outro post aqui

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  • Moziel T.Monk: Pessoalmente eu nunca vi disponível esse tipo de material online. Por ser algo relativamente antigo, é...
  • Ricardo: Tenho saudades das histórias e gostaria de saber em que site eu consigo ler online ou baixar. Grato Ricardo
  • Ribamar: Branchu é o nada de onde todo vazio provém
  • padre levedo: ouça isto, Moziel http://www.youtube.com/watch?v =wdX6ly6ftUM
  • Moziel T.Monk: Sim, tanto que deixo claro no texto que a história foi criação de David Nasser, apesar de na época de...

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