Archive for setembro 2010

Quem Tem Bogart, Tem Medo


Ontem, no turbilhão de informações que me chega quando me disponho a acessar a rede, vi este link sobre uma nova biografia de Humphrey Bogart, antigo protótipo do machão hollywoodiano. O detalhe picante, por assim dizer, dessa nova biografia, escrita por Darwin Potter, é de que o ator teria se tornado um namorador compulsivo por medo de se tornar homossexual. Ou seja, segundo o autor, ele passava o rodo geral no mulherio com um medo atávico de um belo dia acordar com uma vontade irresistível de dar ré no quibe. E aí teria que mudar o nome para Humpfrey Bóga. Além desse medo, o livro também revela que Bogart “carcou” mais de 1000 mulheres, se tornou impotente e chegou a pensar em suicídio.
Pessoalmente desconfio de biografias que apelam para detalhes sensacionalistas no intuito de atrair os holofotes de uma mídia ávida por factóides e fofocas, além de estar escaldado com este tipo de “revelação”. Nos anos 90 se tornou comum surgirem “evidências” de que símbolos de masculinidade atracavam de popa. Convenientemente os “acusados” estavam mortos, em sua maioria. De John Wayne a Lampião, passando por Robin Hood e até pela múmia, todos se tornaram suspeitos de praticar o amor uranista  de forma totalmente camuflada. Quem te viu quem te vê. Isso parece até uma conspiração, principalmente nestes tempos em que Robert Pattinson é galã. Porra, com certeza o Sam Spade de Bogart daria uns sopapos no vampiro purpurinado de “Crepúsculo” e o ensinaria a catar mulher feito homem.

Mas voltemos ao Bogart, um ator que só foi conhecer o sucesso e o estrelato quando tinha mais de 40 anos, após os filmes “Relíquia Macabra” e “Casablanca”, do início dos anos 40. Antes disso costumava ser o bandido que morria na antepenúltima cena dos filmes. Infelizmente ele pouco aproveitou do sucesso, já que morreria de câncer em 1957. A imagem que o acompanhou pelo resto da carreira foi a do personagem bronco e cínico, com frases ríspidas e irônicas e um soco certeiro na agulha, mas que no fundo (epa!) era um sentimental enrustido. E de vez em quando alguns espertinhos resolviam duvidar de sua masculinidade nos botecos da vida, e aí tome porrada. E apesar da declaração do biógrafo, não consta em biografias anteriores que Humphrey fosse do tipo que passasse a craquete em todas, tendo uma folha corrida bem mais modesta, ao menos quando comparado a outros picões famosos, como Frank Sinatra, Gary Cooper ou Spencer Tracy. Ainda assim conseguiu fôlego para se casar umas quatro vezes, todas com atrizes. Do primeiro casamento, com Helen Mencken,  levou um bolo, do segundo um par de chifres de Mary Philips, e do terceiro – e mais complicado – levou algumas garrafadas da ciumenta esposa Mayo Methot. E dizem que sempre chorava – tanto nas  cerimônias de casamento quanto nos divórcios. Seu último casamento foi com a bela e famosa Lauren Bacall, que foi sua amante nos últimos anos de casamento com Mayo.

Ironicamente essa história de Bogart sentir medo de virar bicha me lembrou uma história interessante sobre a produção do filme “Casablanca”, que li pela primeira vez na coluna “Hollywood Boulevard” da revista “Set”, da saudosa jornalista Dulce Damasceno de Brito, que foi correspondente em Hollywood durante seus áureos anos. Nessa matéria em especial ela levantava a ficha do elenco masculino de “Casablanca”, que era predominantemente homossexual, praticamente só isentando o protagonista Bogart e o diretor húngaro Michael Curtiz da gaiola das loucas. Provavelmente o diretor deve ter tido uma crise ao ver o elenco com o qual trabalharia, tendo dito algo do tipo “puta que pariu, vou trabalhar com um bando de viados!”. Como nem todo mundo entendia húngaro, provavelmente deve ter entrado para os anais (epa!) do anedotário hollywoodiano alguma versão mais suave da frase, a qual não me recordo.

Na verdade, mesmo naqueles tempos mais conservadores, quando o cara tinha que ser muito macho pra se assumir gay, em Hollywood o homossexualismo era bastante comum e tolerado, e muitos atores com pinta de galã e pose de macho costumavam colar os bigodes entre si. A única ressalva era a imagem, que tinha que ser mantida para o grande público. Ou você imaginava que Tyrone Power, homem todo em “A Marca do Zorro”, tinha um caso tórrido com Cesar Romero?

Mas tergiverso. Voltemos à “Casablanca” e seu elenco florido. Teria sido daí, então, que Boga Bogart teria começado a temer queimar a rosca, já que estava cercado por um monte de homossexuais? E, para complicar, ao fim do filme (sim, lá vem spoiler, ao menos para o infiel que ainda não assistiu a este clássico), o durão Rick, dono do botequim mais badalado daquelas bandas do Marrocos, renuncia ao amor de sua vida em prol de uma causa maior, deixando-o ir nos braços do líder da resistência francesa Victor Laslo, terminando o filme ao lado do corrupto e cínico capitão Renault (Claude Rains),  iniciando aquilo que poderia se tornar uma bela amizade, segundo as palavras do próprio Rick. Significa?

No frigir dos ovos, o que Bogart deve ter tido não foi medo de virar gay. O que deve ter acontecido é que ele deve ter se enchido de ouvir todo tipo de piadinha em relação ao final do filme “Casablanca”, e mandado à puta que pariu seus colegas de copo que perguntavam se o francês beijava direitinho ou se os dois eram os “suspeitos de sempre”.

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Um Penetra Bem Beberrão


Nota: republico aqui o relato de um velho colega e colaborador do velho site “Busilis”, que atendia pela alcunha de Allan Bick

Um clássico do cinema de humor é o filme estrelado por Peter Sellers, intitulado “Um Convidado Bem Trapalhão”. Nele, um ator indiano de segunda consegue estragar uma superprodução, e logo em seguida é convidado por engano para uma festa promovida pelo produtor do filme. Na festa, Peter Sellers comete uma série de gafes e trapalhadas que fariam rir até o mais sério dos vulcanos. E olha que ele não bebia!

Podemos teorizar que todo bebum já teve o seu momento Peter Sellers, cometendo gafes ou fazendo uma merda retumbante, como derrubar a mesa ao se inclinar sobre ela, de tão bêbado que estava. Coisas da vida etílica. É claro que compartilharei de um destes momentos vexatórios, os quais hoje são bons motivos de riso ao serem lembrados.

Naqueles sábados à noite nos quais a grana é curta e a sede é grande, uma boca livre é sempre bem-vinda. Mesmo quando você não é convidado. Mas estes detalhes nunca me afetavam muito. Um amigo nosso disse que foi convidado para uma festona de aniversário, e claro, me convidei também. Ele relutou, mas acabei convencendo-o.

Ah, casarão, buffet, garçons. Uma senhora festa organizada. Nem queria saber o motivo da festa, e sim aonde poderia abastecer meu copo com uma regularidade decente. E precisava comer, também. Fiz logo amizade com o garçom, e tome doses generosas de uísque e salgadinhos à vontade. Como não conhecia ninguém, além daquele que me rebocou até aqui, fiquei na minha e procurei me manter discreto. Mas infelizmente o uísque estava mudando isso, e depois da quarta dose, lascou tudo.

Naquela parte da festa na qual quem tinha que se dar bem já havia se arrumado para dormir quente e acompanhado, o papai aqui havia bebido por duas pessoas, o que afastava qualquer hipótese de me dar bem, a não ser que a outra pessoa estivesse ainda mais bêbada que eu. Mas nem estava esquentando com isso.

Eis que aparece uma mulher feia. Para ter uma ideia, eu estava completamente bêbado e ainda a achava feia. Pois bem, em pouco tempo eu a vi de beijos e abraços com um cara. É claro que minhas convenções e outras frescuras que tornam o convívio entre os homens tolerável já haviam ido às picas há algumas horas. E soltei a pérola.

- EITA. FIM DE FESTA É FODA! O CARA SE AGARRA COM A PRIMEIRA BARANGA QUE ESTIVER DE BOBEIRA!

De imediato, um amigo me cutuca com o cotovelo.

- QUIÉ, PORRA? TÁ BATENDO COM O COTOVELO EM MIM.
E ele cochicha

- Ô meu…este aí é o dono da casa e da festa. E aquela é a digníssima senhora dele.

Foi a oportunidade que eu estava esperando para pedir para cagar e sair. E digamos que o uísque barato e a comida servida ali estavam fazendo efeito. O roncar da barriga me avisava de um possível desastre natural que vinha, um terremoto intestinal, uma onda gigante de merda. Algo assim.

Emburaquei no primeiro banheiro que encontrei. Primeiro, as prioridades. A vontade de vomitar era maior, por isso encarei a primeira peça de louça que vi e expressei toda a minha situação existencial de forma eloquente e concreta. Assim que senti como que minha cabeça perdesse vinte quilos e se tornasse bastante leve, o intestino avisou que era a vez dele. Sentei e mandei ver, suando igual a um pastor durante uma sessão de descarrego. Sai deste corpo, merda! E saiu, só que de forma mais líquida do que eu esperava. Uma cacofonia de gases que borbulhavam em algo não muito sólido, nem muito líquido.

Em um tempo indefinido, que poderiam ser segundos ou horas, senti-me um novo homem, mais aliviado e uns dez quilos mais leve. Mas só depois que me levantei e me vesti é que percebi que o vaso não era muito comum. Coisa de gente fina, eu pensei. Mas como diabos daria descarga? Estava ansioso por me livrar daquela massa estranha que estava amontoada ali, e vi três torneiras no vaso. Minha reação foi acionar uma delas para ver se iniciava a “descarga”.

Digamos que o resultado não foi dos mais limpos. Por um engano absolutamente compreensível, dado o meu estado alterado de consciência, havia executado o serviço em um bidê, e acabara de acionar seu jato. E com considerável força. Bem, como o esguicho do bidê estava coberto por vômito e algo próximo a fezes humana, imaginam o que acabou ocorrendo. Um tsunami de substâncias inomináveis atingiu o teto do banheiro com força, espalhando aquilo e fazendo-se escorrer pelas paredes.Uma verdadeira obra de arte vanguardista. Mas eu preferiria que a mesma estivesse no MASP, na Bienal ou no MAM, mas não ali.Teci um breve comentário, que sintetizava com perfeição aquele episódio insólito.

- Que bosta!

Saí de fininho para que ninguém me visse abandonando a cena do crime. Ao sair e fechar a porta, vi que alguém chegava. Voltei e fingi que tentava abrir o banheiro. Era o dono da casa. Ele se aproximou e me ajudou a abrir a porta.

- Pode entrar – ele disse

- Não. Vá você logo.

- Não, você chegou primeiro.

- Mas só ia lavar as mãos. Posso esperar. Sinta-se à vontade.

Diante da minha insistência, ele acabou concordando e entrando no banheiro, agradecendo a minha gentileza. Saí de fininho, e enquanto chegava no salão, escutei um grito vindo do banheiro.

- PUTAQUEPARIU!!!!QUE MERDA FOI ESSA!?

Alguém de bom senso sairia à francesa naquele momento. Mas a última coisa que se espera de um pé-de-cana devidamente calibrado é juízo, e a primeira coisa que se espera dele é a necessidade desesperada de acabar com o estoque de bebidas do anfitrião.

Três doses depois, a narrativa se torna confusa, pois não me lembro claramente de porra nenhuma. Juntando os cacos de minhas lembranças e a narrativa de terceiros, aconteceu depois de eu estar me agarrando com a mulher a quem horas antes questionara seu valor estético como beldade. E, mesmo sendo feia a mulher e haver um quê de caridade em tascar um beijo nela, não pega bem dar um amasso na mulher do dono da casa. Principalmente se ele vê. Dizem que a confusão foi feia, e que eu, além de chamar o cara de corno, esculhambei a festa, dizendo que a bebida era uma porcaria e que os salgadinhos eram pura bosta. Quis sair no tapa com ele e seus cinco irmãos, que me agarraram e me expulsaram da festa. Durante minha retirada, disseram ainda que vomitei a camisa branca do dono da casa, sendo este o mais violento ato de agressão que consegui cometer.

Na saída, mantive o meu espírito esportivo, e mesmo com todo mundo puto comigo, desejei ao dono da casa:

- Ah, mas feliz aniversário, assim mesmo!

- Não é meu aniversário, porra!

- Mas então esta festa é de que?

- Meus vinte anos de casamento, caralho!

- Ah, lamento. Mas o que importa é ter saúde, não é mesmo?

Saí correndo quando ele fez menção de chamar a polícia. Entrei em um táxi, que deve ter me cobrado dobrado e me deixado a duas quadras de casa. Ah, que festinha animada. Mas da próxima vez eu deveria pegar leve na bebida.

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E por falar em TV Digital…

Depois que o “Rei Chatô” usou do seu jeitinho brasileiro e paraibano para conseguir o que queria e por no ar a primeira transmissão de TV no Brasil, muita água passou pela ponte. Agora é a vez da TV digital, tecnologia que promete revolucionar a forma de se ver televisão, com qualidade e alguns mimos extras para o povão que não tem grana pra pagar uma TV por assinatura, cara pra burro.

Há alguns dias entrei nessa onda de TV digital e comprei minha placa receptora. No meu caso não comprei um conversor para TV, mas sim uma placa receptora USB que recebe tanto sinal digital quanto analógico. A primeira coisa que me espantou foi a anteninha que vinha no kit, menor que a do rádio de pilha que tenho em casa. Claro que não acreditei que aquela pequena antena traria pra mim todas as emoções e qualidade da TV digital, mas mesmo assim a empurrei no receptor. Nada de sinal. Também moro praticamente em um sítio, longe pra burro das antenas de transmissão, e logicamente o sinal não seria recebido por aquela antena de “brinquedo”. Lá fui eu atrás de adquirir uma antena externa, de gente grande, e me espantei de novo ao saber que a mesma é relativamente barata se a compararmos com o preço do conversor e da TV. Comprei por R$ 45,00. E com alguns conectores e um mixer de sinal (que serve para colocar o sinal da antena digital e da analógica juntos em um mesmo cabo) acabou saindo tudo por R$ 50,00. Depois de instalar a antena devidamente em cima da casa, e direcioná-la para o ponto correto, finalmente pude ter a qualidade diante de meus olhos. E, confesso, é qualidade da boa viu? Acostumado de ver apenas ruídos nos canais de TV, me vislumbrei com a dita TV digital. Que imagem, que som, tudo muito bonito mesmo. Ganha da qualidade de imagem de um DVD (até dos originais mesmo). E o melhor, não preciso pagar mais nada por essa qualidade. Sem mensalidades, sem cobrança alguma. O sinal digital é de graça mesmo. E não chia, não falha, não apresenta fantasmas, enfim é o top de linha. E só tem dois estados: ou funciona ou não funciona.

Apesar de todo o vislumbre inicial após alguns minutos veio a parte ruim da coisa. A programação. Apenas dois canais fornecem a qualidade digital por aqui, a Band e a Globo. Ai já viu, se quiser qualidade tenho que ficar preso aos dois. A toda poderosa Globo em matéria de TV digital é fraca demais. Apenas a novela das 9, alguns jogos de futebol e poucos outros programas estão em Full HD (onde a imagem abre oferecendo a maior qualidade em resolução digital e ocupa todo o espaço da tela das TVs widescreen). A grande maioria da programação da globo ainda se apresenta no formato 4:3, ou seja, tela quadrada, tecnologia ultrapassada. Ai a imagem fica centrada com duas faixas laterais estragando o propósito de uma TV widescreen. Agora a novela das 9 fica em Full HD mesmo, dá pra ver até as pregas rugas da Mariana Ximenes e todas as imperfeições de todo mundo. Os maquiadores agora tem trabalho extra. O grande problema disso é que não assisto novelas. Não desde Roque Santeiro.

Já a Bandeirantes traz a qualidade Full HD praticamente para todos os seus programas. E a imagem é muito mais bonita que a da globo. Dá para assistir o CQC em excelente qualidade. O problema, para mim, da Band é que ela é praticamente um canal de esporte, de futebol e paulista ainda por cima. Não dá para passar o dia todo vendo programas sobre futebol paulista. Sobre o quanto o fenômeno está gordo ou quantos anos e dias completou o Corinthians. Mas mesmo assim a Band se sobressai. Apresenta uma programação bem melhor do que era antes. Programas como o CQC, a Liga e o Polícia 24Hrs ao meu ver são excelentes. E em qualidade digital então?

Agora é só esperar que as outras emissoras daqui comecem também a transmitir em digital e adéquem corretamente sua transmissão ao formato Full HD. E esperar também (isso é muito mais difícil) que sua programação melhore. No mais aconselho a você que ainda não teve oportunidade de adentrar o mundo da TV digital que o faça. É sem dúvidas um caminho sem volta, pois TV com chiado, fantasmas e outros bichos nunca mais.

Tupi or Not Tupi


Os 60 anos da inauguração da TV Tupi – Uma Comédia de Erros

Nos bons tempos do HTML a válvula, quando comecei a cometer alguns textos em cumplicidade com  o compadre Tio Xiko para o velho site Busilis (e seu antecessor, o Crazy Man), havia uma seção no site na qual a gente recriava de forma cômica alguns fatos históricos, se baseando em detalhes pouco conhecidos do grande público e escrachando o episódio, mas sem fugir à verdade dos fatos. Nessa sacaneamos de Alexandre o Grande a D.Pedro I. E um desses episódios sacaneados foi a primeira transmissão de TV do Brasil em 18 de setembro de 1950, quando a TV Tupi de São Paulo, pertencente ao grupo Diários Associados de Assis Chateaubriant, se tornou a primeira TV da América Latina e a quarta do mundo. Ou seja, este episódio importante está fazendo exatos 60 anos.  Mas por que sacaneamos esta fato em especial? Simplesmente porque os bastidores envolvendo este momento histórico foram de um improviso, comicidade involuntária e caos tamanho que foi um milagre que a TV Tupi tenha ido ao ar naquele dia. Aliás, há muito folclore em torno desse episódio, mas a maioria das histórias nunca confirmadas pelos envolvidos.

Não obstante eu ainda ter testemunhado os últimos anos de transmissão do canal pioneiro, lá pelo início dos anos 80 em minha mais tenra infância, esclareço aos eventuais detratores que eu não existia ainda em 1950, portanto não pude ser testemunha ocular da história – isso seria papel do “Repórter Esso”. Para “recriar” o episódio apelamos para a narrativa mais confiável, por assim dizer, que é a que Fernando Morais fez em um dos capítulos de “Chatô – O Rei do Brasil”, a biografia do paraibano Assis Chateaubriant. E baseado nesses relatos que fizemos uma versão bem escrachada do episódio, digno de uma comédia de erros. Se alguém não concordar, achar que é mentira ou quiser mover um processo, que falem direto com o Fernando Morais. E peguem um lugar na fila, obviamente.

Eis aqui os fatos mais cômicos, esdrúxulos e estrambóticos envolvendo esse episódio. Se alguém quiser a versão mais esculhambada e sensacionalista, ela ainda está no ar (ignorem os erros de português, ainda não tínhamos uma boa revisora)

Material Obsoleto

- O paraibano natural de Umbuzeiro Assis Chateaubriant era bem conhecido por seu gênio irascível, que é uma maneira mais sutil de dizer que ele era mais grosso que parede de castelo. Por isso, logo após assinar o contrato para a aquisição dos equipamentos de transmissão – em preto e branco, naturalmente – na sede da RCA Victor, os executivos americanos resolvem mostrar ao brasileiro uma novidade absoluta: uma transmissão de TV em cores. Ao invés de ficar entusiasmado, Chatô fica muito puto nas calças e transforma o contrato em confete, alegando que os americanos estão lhe empurrando material obsoleto. Daí que alguém teve que redigir novamente o contrato e explicar ao furioso empresário das comunicações que aquela tecnologia ainda era experimental e levaria anos para ser posta em prática, algo que só ocorreu nos anos 60 e 70;

Público Alvo: Zero

- A equipe técnica da nova TV era liderada por Mário Aldeghiri e Jorge Edo, e a direção artística ficou a cargo de Dermival Costa, que convocou um então jovem Cassiano Gabus Mendes para ser seu assistente. Estes foram os principais protagonistas do episódio, e as duas equipes – técnicas e artísticas – tiveram um senhor desafio à frente. A parte artística teve que criar algo praticamente do nada, se baseando apenas na experiência na radiodifusão. Já a equipe técnica também penou bastante. O engenheiro americano enviado pela RCA para acompanhar a implantação da TV quase volta no mesmo avião que o trouxe ao Brasil quando lhe é informado que simplesmente NENHUM aparelho de TV foi posto à venda no país, isso faltando um mês para o dia programado para a primeira transmissão;

“Eu tou pagando!”

- Mesmo parecendo um contrassenso investir tamanha grana em um canal de TV que provavelmente teria audiência zero no seu primeiro dia no ar, Chatô não se abalou e assumiu a tarefa de resolver esse pequeno problema, usando sua influência para que os aparelhos de TV fossem importados e postos a venda em tempo recorde, mesmo que ele tivesse que comprar todo o estoque do próprio bolso. Ao tentar convencer um importador a fazer o negócio, ele mostrou as dificuldades da empreitada. O problema maior é que uma importação desse porte levaria, na melhor das hipóteses, uns dois meses para que os trâmites burocráticos do Ministério da Fazenda a liberassem. Por isso o empresário ignorou esse pequeno detalhe e simplesmente mandou contrabandear duzentos aparelhos para serem postos à venda nas lojas de São Paulo, prometendo dar o primeiro aparelho ao Presidente Dutra. O fato de que a Tupi seria sediada em São Paulo e que seu sinal nem sequer chegaria perto do Rio de Janeiro, a então Capital Federal, era outro mero detalhe;

Prata da Casa:Imparcialidade é nosso lema – até o chefe saber

- Os aparelhos de Tv começaram a chegar, por obra e graça da insistência do “ôme”, e as lojas as expuseram nas vitrines como a grande novidade. Mas aí é que ocorre um dos momentos mais irônicos dessa fuzarca. Um repórter policial do “Diário da Noite” começa a investigar o que parecia uma grande operação de contrabando de receptores de TV, e sai uma matéria denunciando-a, deixando os donos de loja com o cu na mão, temeroso de serem envolvidos em um escândalo por receptação de contrabando. O detalhe é que o “Diário da Noite” era um jornal dos Diários Associados, ou seja, em última análise o repórter trabalhava para Chatô! O editor do “Diário da Noite” levou uma senhora enrabada de Assis Chateaubriant, a qual seguiu o caminho hierárquico natural e terminou no repórter, que levou um senhor esporro junto com a ordem expressa de enterrar o assunto;

Tudo Pronto, mas…

- A programação da primeira transmissão da nova TV basicamente mostraria uma cerimônia religiosa, envolvendo o batismo e benção dos equipamentos, seguidos de enquetes e encerrada às nove com um show musical. O engenheiro americano convenceu a todos para iniciar as transmissões após a cerimônia religiosa, que começaria às cinco da tarde. Tudo seria transmitido por três câmeras interligadas. No Jóckey Club uma multidão se reuniu aguardando o início das transmissões. No momento crucial, após o apresentador Walter Foster anunciar pomposamente o início das transmissões, a equipe técnica constata que uma das câmeras deu pau. Que beleza, né?;

Benza Deus, mas mantenha a distância

- Existe uma lenda de que a câmera teria se quebrado após o próprio Chatô a “inaugurar” quebrando uma garrafa de champanhe. Mas pelo que consta o “seu” Assis nem sequer estava no estúdio. A versão que Fernando Morais relata é que, durante a cerimônia religiosa, o padre teria jogado água benta no equipamento, causando um curto-circuito na câmera. A equipe artística se apavorou, já que todos ensaiaram para se apresentar para 3 câmeras. E a equipe técnica também teve uma crise de úlcera duodenal, já que devido a configuração dos equipamentos, se uma câmera não funcionasse, as demais também não funcionariam. Diante desse quadro, qualquer pessoa sensata e em um país sério e civilizado abortaria a programação. E foi o que o engenheiro americano sugeriu enfaticamente;

Você é Quadrado? Não? Então se Vira!

- Mas sensatez, civilidade e seriedade não era exatamente o que pode se esperar aqui. Conhecendo o doce de pessoa que era o chefe, a equipe artística manda os técnicos darem os pulos deles para por as duas câmeras para funcionar, e Cassiano faz um discurso para o elenco, mandando eles esquecerem o ensaio e improvisarem tudo. Dermival bate o pau na mesa e diz que aquela porra vai ao ar até sem nenhuma câmera funcionando, o que faz o americano concluir que este é um país de loucos e que ele não quer fazer parte disso, se retirando e lavando as mãos para o que parecia ser um desastre iminente. O americano não sabia que brasileiro não desiste nunca -apesar de se foder quase sempre;

Deus é Brasileiro – e Assiste TV

- Mesmo diante de tantas circunstâncias adversas, a transmissão começou atrasada mas tudo rodou até direitinho, com Walter Foster lendo o discurso de apresentação e abrindo espaço para os números musicais, a prova viva – e ao vivo – de que brasileiro consegue se virar de tudo que é jeito. Também ajudou o fato de que praticamente ninguém do Brasil havia assistido a uma transmissão de TV, e ninguém poderia notar o clima de improviso no estúdio. A não ser o engenheiro americano, que assistia a tudo de seu quarto de hotel. Mas como dizem que ele mamou um litro de uísque por esperar o pior, dificilmente ele seria capaz de distinguir entre Lucille Ball e Hebe Camargo;

E Falando em Hebe…

- E falando em Hebe Camargo, ela estava presente nesse dia, pois iria apresentar o encerramento das transmissões, cantando o jingle “Cançao da TV”, composta especialmente por Guilherme de Almeida para a ocasião. Mas a voz da mulher resolve pedir folga, impossibilitando-a de se apresentar, e terminando de por os nervos de Cassiano e Dermival em frangalhos, e acho que por pouco eles mesmos não sobem ao palco para cantarem o jingle, mas graças a Deus substituíram a cantora a tempo;

“Keep Walking”

- No final da noite, entre mortos e feridos, salvou-se o rabo de todos. Chatô chega ao estúdio com ar vitorioso, praticamente ao mesmo tempo que o engenheiro americano trêbado, elogiando a ousadia e loucura dos brasileiros, e ainda soltando a pilhéria de que havia mais gente no estúdio do que assistindo ao programa daquele dia;

De lá pra cá a Televisão evoluiu tecnicamente de tal maneira que espantaria qualquer um daqueles que participou desse episódio pioneiro, com o advento da TV Digital e transmissões em Alta Definição. Já a programação também causaria espanto, mas por outros motivos…

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Camelot 3000


Excalibur contra Lasers
“Camelot 3000” foi escrita nos anos 80, na forma de uma minissérie em 12 partes. Nos quadrinhos americanos ela pode ser considerada uma precursora dos quadrinhos de heróis com abordagem e temática adulta que se tornariam comuns na última metade da década de oitenta. Escrita por Mike W. Barr e desenhada magnificamente pelo inglês Brian Bolland, a história marcou época por abordar temas considerados tabus nos quadrinhos americanos, com extrema violência, nudez, sexo e lesbianismo, tudo de forma bem adulta. Apesar de ter sido publicada pela DC Comics, ela não estava ligada ao universo de eventos de suas séries regulares, e devido a sua abordagem, ela foi impressa em tiragem limitada e distribuída em lojas especializadas. E, obviamente, não recebeu o selo do “Comics Code”. No Brasil, ela foi originalmente lançada pela Editora Abril nas revistas Batman e Superamigos entre 1984 e 1985. Posteriormente a Abril relançaria a série em quatro revistas em tamanho formatinho.

Nesta versão, Mike W.Barr não reconta a história de Arthur, mas resolve dar continuidade a ela, se baseando na versão de Sir Thomas Mallory, “Le Morte d’Arthur“, publicada originalmente no século XV, obra esta que conseguiu a proeza de reunir a maioria dos elementos, situações e personagens das várias versões das lendas do ciclo arturiano, e na qual muitas obras da cultura popular moderna se baseiam, como o filme “Excalibur“, de John Boorman. Nessa história temos o triângulo amoroso entre Arthur, Guinevere e Lancelot, a Excalibur encravada na pedra, a busca de Parsifal pelo Cálice Sagrado, a vingativa meia-irmã Morgana e o fruto incestuoso de sua relação com Arthur, Mordred, e a paixão avassaladora entre Tristão e Isolda. E tais elementos retornam em “Camelot 3000″.

E a história de “Camelot 3000″começa muitos séculos após as ações narradas em “Le Morte d’Arthur“, mas exatamente no ano 3000, quando a Terra está sendo invadida por extraterrestres, e o governo é corrupto e opressor. Um jovem, cujos pais são mortos nos combates com os invasores,se esconde no monastério de Glastonbury e encontra o túmulo de Arthur. E em cumprimento à antiga profecia, Arthur volta dos mortos no momento em que a Inglaterra novamente precisa dele. Após despertar Merlin em Stonehenge, Arthur procura a reencarnação de seus cavaleiros e retoma a mística Excalibur. A Nova Camelot é estabelecida em uma Fortaleza espacial do homem mais rico do planeta, que é a reencarnação de Lancelott. Por ironia, o cavaleiro Tristão reencarna como mulher, e ele se vê no dilema de um homem preso em um corpo feminino.

Morgana – e seu filho Mordred – não demoram a surgir, e se descobre que ela está por trás dos ataques alienígenas. O que se segue é uma ótima história, com narrativa densa e enxuta, com direito a traições, conspirações cenas de violência explícita (a Excalibur não faz feio diante de armas laser, partindo alienígenas ao meio com riqueza de detalhes) e a inevitável batalha final. Obviamente não vamos entregar o ouro, já que vale a pena você ler este clássico dos quadrinhos. Mesmo depois de quase 30 anos de escrita, a história continua atual, desde que você dê um desconto no visual, bem típico das ficções científicas dos anos 80.

E caso queira ler, dá pra caçar em sebos as três edições em formatinho lançadas pela editora Abril no fim dos anos 80. Em 2005 a Mythos lançou uma versão encadernada, porém a qualidade não era lá estas coisas, como a maioria dos lançamentos desta editora, já que a qualidade do papel e da capa nem sequer justificavam o que foi cobrado a época, R$ 59,90,  além de não ter nenhum extra. A única vantagem é que saiu uma cena que foi cortada nas edições da Abril, o beijo lésbico entre Tristão e Isolda. Para o fim deste mês a Panini prometeu uma edição de luxo em capa dura, que parece ser bem a altura da obra. Só o preço que deve ser uma espadada no peito. Oitenta e duas espadadas, pra ser exato.

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Julie e Julia, ou Da arte de Temperar Melhor a Vida


Mais uma resenha tardia de filme, já que o assisti há algumas semanas, mas só agora a fome e a vontade de comer vieram no mesmo prato. Aliás, prazer e comida são o tema desse filme, e foi o que me atraiu a assisti-lo e a comentá-lo, pois normalmente os filmes da Nora Ephron são mais direcionados ao público feminino, mas nada que impeça os marmanjos de os assistirem, de preferência bem acompanhado das respectivas patroas – o que lhe dará crédito para assistir “Os Mercenários” depois.

Mas vamos ao Julie & Julia. As duas personagens-título não são mera criação de um roteirista, sendo pessoas reais. Julia Child, senhora americana que, nos anos pós-II Guerra, se mudou para Paris acompanhando o trabalho diplomático de seu marido Paul Child, se encanta com a culinária francesa e, nos anos seguintes, se instrui em uma arte predominantemente masculina e escreve um livro vertendo este conhecimento ao público americano , livro este que se torna a “bíblia” das donas-de-casa americanas, o “Mastering the Art of French Cooking“, transformando Julia em uma espécie de Ofélia anglo-saxã, para ilustrar bem para o público brazuca. A outra mulher do título é Julie Powell, uma jovem funcionária pública e escritora frustrada, que meio entediada com sua vida sem sal   resolve criar um blog com um objetivo relativamente difícil para alguém pouco afeita a concluir projetos: prepara todas as receitas do livro de Julia Child em um ano e transcrever esta experiência em seu blog. O filme narra um fragmento da história de ambas, intercalando a narrativa entre a Paris dos anos 50 e a New York pós -11 de setembro. O filme em si não traz maiores destaques narrativos, sendo quase burocrático. Mas a história de Julia Child, interpretada por Meryl Streep, é a mais saborosa e bem temperada, muito principalmente pela atuação da veterana atriz, bem apoiada por Stanley Tucci, que vive o adido cultural e marido de Julia. Até parece proposital que a história da Julia pareça mais interessante e “saborosa” que a da Julie contemporânea – papel assumido na tela pela competente Amy Adams. Se a diretora prescindiu do uso de fotografia, iluminação ou edição para realçar a diferença entre as narrativas, não sei se intencionalmente ou casualmente ela conseguiu destacar o “tempero” da história da veterana mestre-cuca em relação à rotina meio estabanada e insossa da blogueira-cozinheira, mesmo quando esta se via preparando, ao longo de 12 meses, mais de 500 receitas diferentes, cada uma mais gostosa que a outra. Só para constar, o blog de Julie virou livro, no qual este filme é baseado. Julia já foi servir manjar para os deuses, mas há alguns vídeos dela disponíveis no youtube.

Minha identificação com o filme é bem pessoal nesse aspecto. Como nordestino, aprecio por demais o ato de comer, e gosto de sentir sabores e temperos, algo que observo ser uma prática meio perdida aqui onde atualmente resido. Não sei se é um traço cultural ou uma imposição da correria dos tempos modernos, mas ao meu redor vejo cada vez menos prazer no ato de saborear uma simples refeição, salvo as raras vezes na qual o cidadão se dispõe a pagar uma pequena fortuna para saborear algo supostamente delicioso em algum estabelecimento elogiado por alguma revista “da moda”. O filme mostra essa faceta quando Julia está almoçando com suas amigas “bem sucedidas”, que adicionam a paranoia da silhueta perfeita – que normalmente significa um porte físico próximo ao de um pé de coentro -ao ato de “não-comer” durante o almoço.

Não desejo apologia à gulodice ou ao sobrepeso. Comem bem e de forma saudável é fundamental e pratico, mas deixar de se alimentar do que gosta por causa da correria cotidiana ou para tentar se encaixar em um padrão de beleza impraticável é algo que soa quase irracional para mim, um blodegueiro de hábitos simples, que gosta de saborear uma boa refeição, mesmo que seja um simples almoço no meio da quarta-feira. Não precisamos de ocasiões especiais para temperarmos nossas refeições. Todo dia é dia. Aliás, pouco antes de começar a escrever este texto, tive o prazer de saborear um belo contrafilé grelhado acompanhado de um bom vinho tinto.

E a mensagem que se pode extrair desse filme pode até ser óbvia, mas infelizmente pouco levada a sério. Não estou pedindo para vender tudo que tem e me seguir (se o fizer, sabes com o quê podemos gastar essa grana) ou a adotar um novo modo de vida radicalmente diferente. É apenas uma simples sugestão para se aproveitar melhor estes pequenos prazeres da vida. E essa pequena metáfora pode ser tranquilamente extrapolada para além da nossa mesa de jantar, já que existem muitos temperos conotativos a serem apreciados e saboreados, mas que não nos permitimos pelos mais diversos pretextos. Mas vamos nos manter na comida, mesmo, um passo de cada vez.  Ponha algo mais do que sal e alho em seu feijão, tempere aquele filé de peixe com algo mais criativo do que gotas de limão, transforme o arroz branco em algo mais colorido. Tente por isso em prática na sua próxima refeição. Bon Appetit.

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Histórias dos Quadrinhos que Não estão no Gibi – Parte 3


A Guerra dos Gibis 2 – Maria Erótica e o Clamor do Sexo

A tão esperada sequência de “A Guerra dos Gibis“, do jornalista baiano Gonçalo Junior, foi lançada no fim do mês passado sob o título “Maria Erótica e o Clamor do Sexo – Imprensa, Pornografia, Comunismo e Censura na Ditadura Militar – 1964/1985″, ou simplesmente “A Guerra dos Gibis 2″. Na verdade, esclarece o autor no posfácio, o conteúdo desse livro é que deu origem ao primeiro, já que o tema de “Maria Erótica…” surgiu como matéria de um fanzine e se transformou em um Trabalho de Conclusão de Curso de jornalismo, e o primeiro “A Guerra dos Gibis” seria um retrospecto introdutório para o assunto principal – quadrinhos e a censura no regime militar de 64. Mas o autor reuniu tanto material e depoimentos no período de 1987 e 2006 que foi o suficiente para se fazer não apenas um TCC, e tampouco um livro, e sim três, e o primeiro foi justamente “A Guerra dos Gibis”, que abrange a década de 30 até 1964. Ao contrário do anterior, que foi editado pela “Companhia das Letras”, esta edição foi lançada sob o selo de uma editora estreante, a “Peixe Grande”. A diagramação traz, além do texto, a reprodução de diversas capas e ilustrações de revistas do período focado, sendo oito dessas páginas coloridas no início do livro, além de, para introduzir cada capítulo, três páginas com capas, ilustrações e comentários, deixando o livro visualmente bem atrativo, um trabalho de diagramação de Toninho Mendes.
À primeira vista o leitor pode imaginar que o livro se resume ao tema quadrinhos eróticos e sua relação nada agradável com o regime militar e a censura então vigente. Todavia, o buraco é bem mais embaixo (e mais apertadinho), e o autor consegue montar um verdadeiro mosaico da realidade editorial do período, e não só das revistas em quadrinhos. E mais importante, resgata e faz justiça a importantes nomes dos quadrinhos nacionais, como Claudio Seto, o criador da fogosa e ingênua Maria Erótica do título, falecido em 2008. Outro esclarecimento importante é que não são abordadas as revistas pornográficas, pois estas eram completamente clandestinas nesse período, até porque as regras eram bem rígidas, como nunca mostrar bundas por inteiro ou mais de um seio. Mamilos e pelos pubianos eram proibidos. E nu total frontal ou cenas de penetração, nem em sonho. A imaginação que se virasse com o pouco que se podia mostrar. Sobre as revistas pornográficas o autor dedicou algumas páginas em “A Guerra dos Gibis”, ao falar de Carlos Zéfiro e seus catecismos.

Como bom pesquisador que é, Gonçalo não se limita a narrar os fatos em simples sequência cronológica, preferindo se dar ao trabalho de contextualizar e enriquecer a narrativa. Por isso somos brindados com uma breve descrição da imigração japonesa ao Brasil e da história do mangá no Japão e sua influência na educação e formação dos descendentes dos imigrantes nipônicos para explicar o traço de artistas de origem nissei, como Minami  Keizi e Claudio Seto. Até o obscuro episódio da Shindo Renmei (tema do livro “Corações Sujos”, de Fernando Morais) é resgatado para contar a história da família de Seto. Por ser o mangá algo completamente estranho às editoras brasileiras de então, muitos desenhistas de origem nipônica tiveram dificuldade em encontrar trabalho por seus traços e técnicas narrativas serem pesadamente inspirados neste estilo. Outro parêntesis deveras didático se dá no capítulo 3, no qual Gonçalo faz uma pequena antologia da evolução do erotismo no Brasil desde os tempos do império e sua relação com a censura oficial.

Com uma narrativa que consegue fluir naturalmente, se atendo ao rigor jornalístico sem ser cansativa, Gonçalo enriquece a história ao detalhar os bastidores do Governo Militar, principalmente dos órgãos de censura, e fatos envolvendo outros nomes do ramo editorial, como a Abril, a Bloch e a Editora Três, trazendo a história da operação de guerra para convencer o governo a liberar a versão brasileira da americana Playboy, a corrida para se publicar o primeiro nu frontal após a liberação da censura, os lances dramáticos envolvendo a prisão e tortura de Paulo Fukue e os atentados a bancas que vendiam material “subversivo”. Há a menção de editoras, publicações e personagens, como os bolsilivros da editora Monterrey, cujo carro-chefe era a sensual espiã Brigitte, filha de Giselle, a espiã nua que abalou Paris. Também são citados, mesmo que superficialmente, o nome de duas autoras icônicas deste período: Adelaide Carraro e Cassandra Rios, cujos textos eróticos foram perseguidos com igual fervor pela censura. E os episódios icônicos do período também estão lá, desde a queda de Goulard até o tempo das Diretas Já, passando pelas bombas na OAB e Riocentro e pela tanga de crochê do Gabeira no caminho. Ao retomar os abusos cometidos por autoridades obtusas em nome de uma suposta moral ou combate ao comunismo, nos surpreendemos e nos revoltamos com os absurdos daqueles tempos, absurdos estes que minaram a carreira e sonhos de muitos artistas, e que em última análise, pode ser responsabilizada por abortar vôos mais altos dos quadrinhos nacionais.

Maria Erótica

Mesmo com tantos coadjuvantes e pequenas histórias paralelas, o fio condutor dessa trama é a história de duas editoras, Edrel e Grafipar, seus artistas e empresários, e o livro é dividido em duas partes.  Os primeiros oito capítulos do livro formam a primeira parte, intitulada “A Edrel e a Subversão do Sexo”, e abrange as aventuras e desventuras das editoras paulistas nos primeiros anos de chumbo, se concentrando mais especificamente na Edrel e de um de seus fundadores, o desenhista Minami Keizi. A editora Edrel surgiu dos restos mortais da editora Pan-Juvenil, tendo como sócios Minami Keizi, Jinki Yamamoto e Marcilio Valenciano, se destacando das demais editoras pequenas de São Paulo porque, além de produzir revistas com alta carga de erotismo, estilo “Garotas e Piadas”, montou uma equipe de desenhistas nacionais e produziu histórias voltadas ao público adulto, com temas que iam além do erotismo, abrangendo o terror, faroeste, aventuras de guerra, infantil, histórias de samurai e sátiras de costume, praticamente introduzindo de forma pioneira o estilo mangá em algumas histórias. Aos trancos e barrancos, a editora prospera nos primeiros anos, apesar da perseguição da censura, agravada após 1968, com o AI-5 e o estabelecimento da censura prévia. As publicações eróticas se tornaram um dos alvos preferenciais da censura, sob a alegação de que seria propaganda comunista com a finalidade de minar os valores morais e familiares da sociedade, o que facilitaria a implantação de um regime de esquerda no país.

O sucesso inicial da editora se deveu em grande parte à visão editorial de Minami, que deu chance a artistas novatos como  o próprio Claudio Seto, Fernando Ikoma e Paulo Fukue, liberando-os para criarem histórias inovadoras, tanto em seu traço quando na temática. Todavia a editora acabou seguindo o fadário ao qual a maioria das pequenas editoras brazucas parece destinada, e após a saída de Minami e Jinki da sociedade, o sócio remanescente não soube guiar os rumos da empresa. Minami ainda tentaria se manter no ramo ao fundar outra editora, a M&C, mas que foi inviabilizada pela patrulha cerrada da censura, representada por órgãos federais ou por autoridades locais. O inferno burocrático que Minami encarou, em sua calma oriental, tiraria o juízo de qualquer cristão, já que os critérios de aprovação eram pouco claros e subjetivos, além das publicações estarem sujeitas a apreensões por ordem de juízes ou delegados, mesmo quando liberadas para venda pelos órgãos federal. Aqui, em especial, o autor se debruça nos detalhes que envolviam a análise e posterior aprovação/negação da censura para as revistas, um verdadeiro malabarismo para os editores em um processo demorado que comprometia os prazos de lançamento. As apreensões e a periodicidade incerta acabaram minando as finanças da editora. As editoras maiores, como a Abril, mesmo sob este fogo cerrado dos moralistas, ainda tinha poder de barganha para liberar edições e matérias, garantindo periodicidade às suas revistas, algo que as pequenas não tinham. Minami não aguentou muito tempo e jogou a toalha.

A segunda metade do livro se concentra na história da editora curitibana Grafipar, cuja origem remonta ao imigrante libanês Said El-Khatib, que de caixeiro viajante se torna distribuidor e editor de livros, e após bem-sucedidas incursões na publicação de livros educacionais, como dicionários e enciclopédias, se aventura no ramo editorial erótico por influência do filho caçula Faruk. Este, a contragosto de seu pai e irmão mais velho, cria a então bem-sucedida revista masculina “Peteca” em outubro de 1976, que se propunha a ser a “Playboy dos pobres”, já que a publicação da Abril – que ainda se chamava “Revista do Homem” por imposição da censura – e seus congêneres “Status” e “Ele Ela” eram voltadas a um público de maior poder aquisitivo. Com o sucesso da revista, Faruk decide investir no filão, explorando quadrinhos eróticos, e por coincidência Claudio Seto passara a morar em Curitiba. Seto logo se tornou desenhista e responsável pelos quadrinhos da editora, e passou a convocar novos talentos para lá trabalharem, e nesta editora despontaram nomes que viriam a se tornar conhecidos nos quadrinhos nacionais, como Rodval Matias, Mozart Couto, Flávio Colin, Ataíde Braz, Watson Portela, Julio Shimamoto e outros, alguns dos quais migraram do eixo Rio-SP para viverem em Curitiba. Até o poeta Paulo Leminsky colaborou com argumentos para os quadrinhos. Junto com a Vecchi, a Grafipar foi uma das editoras que mais abriu espaço para o material genuinamente nacional e de qualidade comparável às histórias importadas dos EUA e Europa. Mesmo vivendo um período áureo no fim dos anos 70, quando o regime estava afrouxando o laço, a ironia é que um dos principais fatores que selaram o destino da editora no início dos anos 80, além de algumas decisões editoriais precipitadas e a inflação galopante, foi justamente o fim da censura, que pareceu o rompimento de um dique, soltando um tsunami de publicações pornográficas para atender a demanda popular. Ou citando um clássico moderno da nossa música popular: ”E começou a fuleiragem, e começou a putaria!”, mesmo que os setores mais conservadores tentassem deter essa nova onda.  Por relutar em apelar para a pornografia pura, Faruk perdeu espaço no mercado, fechando as portas em 1983. Antes disso chegou a trazer a revista americana “Penthouse”, maior concorrente da Playboy em solo americano naqueles tempos.

Muito mais do que “outro livro” sobre o regime militar, “Maria Erótica…” é material indispensável para quem quer conhecer e entender a realidade dos quadrinhos nacionais. Para os mais velhos, certamente há o ar nostálgico de relembrar algumas publicações que deixaram um vácuo nos quadrinhos nacionais raramente preenchido. E mesmo para aqueles não diretamente interessados no tema, a reconstituição do período faz esse livro comparável à obra de Elio Gaspari sobre a Ditadura. E ,junto com o primeiro “A Guerra dos Gibis”, forma uma verdadeira aula de história do mercado editorial dos quadrinhos no Brasil. E esperemos, pacientemente, “A Guerra dos Gibis 3″.

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Um Futuro Responsável

Hoje acordei com uma vontade de ir ao banheiro tremenda. Após entornar alguns litros de minha bebida preferida, dormi com a bexiga cheia. E isso foi o motivo maior de que eu precisasse imediatamente de um banheiro quando acordasse. E foi assim, corri pelo corredor e encontrei a latrina limpinha. Despejei cerca de 1 litro de urina concentrada, e quando dei a descarga reparei que o som da água descendo pelo vaso era diferente. Pouca água fazendo o movimento padrão de limpeza de vasos. Aí realmente acordei para a realidade. Estava em 2045, onde a latrina estudava minha urina e despejava apenas a água e os desinfetantes necessários para sua correta limpeza.

Essa é a tendência mundial no que se diz respeito ao meio ambiente daqui há uns 5, 10 anos. Todas as empresas estão se voltando para esse aspecto, mesmo que isso seja meramente comercial (e tudo que elas fazem é meramente comercial). Vi agora a pouco na feira de tendências em eletrodomésticos mundial, a IFA 2010, que essa é na verdade a maior preocupação dos fabricantes e consumidores dos produtos que hoje são praticamente indispensáveis nas nossas vidas. Os bens que precisam de energia elétrica e que deixam a vida muito mais fácil. Os fabricantes estão investindo em produtos que consumam menos energia, que sejam inteligentes, ecologicamente falando, e que após o uso possam ser descartados com segurança no meio ambiente. E assim está sendo. A tecnologia não só está sendo aproveitada para a comodidade usual, mas também para que o planeta não sofra com o uso e abuso dela.

Existem agora no mercado máquinas de lavar que além de lavar, pesam a quantidade de roupa e com isso definem a quantidade de água e detergente que vai ser usada para a correta lavagem. Economia de água, energia e de vergonha para as donas de casa novatas que não sabem lavar nada, e que adoram jogar todo o cesto de roupa suja na máquina e colocar 1 kg de sabão OMO e deixar na lavagem completa.

A tendência do mercado é essa, produtos inteligentes que se preocupem e que façam sozinhos o que tem que ser feito em relação ao que é ecologicamente correto. Claro que os fabricantes estão certos, nós nunca faríamos isso. Eu confesso, nunca iria pesar a quantidade de cuecas e outras peças de roupas que vou por na máquina, para saber o quanto de água iria ser necessário. Prefiro que a “pobre” máquina decida sozinha e que essa decisão seja a correta. Afinal é para isso que quero um eletrodoméstico inteligente, para que ele faça por mim o que minha mãe não fez: ensinar-me sobre esse assunto. Espero que os preços desses produtos sejam condizentes com a preocupação “fake” deles, melhorar o mundo. Ou você acha que pagar dois mil reais em uma lavadeira com 500 funções vai ser interessante para quem lava roupa na beira de um riacho cantando músicas da época da avó, e que nem água encanada dispõe em casa? Então fabricantes, vai o conselho: ecologicamente correto e ergonomicamente “cabível” nos nosso bolsos de assalariados. Preço, inteligência e tecnologia, tudo que nós do terceiro mundo precisamos para manter o mundo que os do primeiro estão acabando.

O Amor Vem pra Cada Um

No post no qual falei sobre a música “Layla”, mencionei uma música de George Harrison intitulada “Love Comes to Everyone”, que o ex-Beatle lançou em forma de single em 1979. Não sei se é o caso e até acho difícil, mas sempre imaginei esta música como uma resposta musical a Eric Clapton sobre as acasos do amor, acasos estes que levaram o seu amigo a lhe “tomar” a sua esposa. Claro e mais provável que a composição não esteja em nada relacionada ao caso, mas me deixem com minhas ilusões e divagações. Mas coincidência ou não, o próprio Eric Clapton regravou a música em seu álbum “Back Home”, de 2005.

O fato é que é uma música que conheci pelo meio tortuoso de uma versão em português que fez sucesso nos anos 80 na voz de Zizi Possi, “O Amor Vem Pra Cada Um”, segunda faixa do disco “Pra Sempre e Mais um Dia”, de 1983.Ao contrário da maioria das versões, que se limitam a copiar o ritmo da original e enfiar uma letra sem relação nenhuma com a original, por vezes forçando até a métrica, esta versão (escrita por Beto Fae) é uma daquelas que é praticamente uma tradução ipsi literis da letra original. O que convenhamos, além de respeitar  o artigo original, é mais difícil do que enfiar uma letra qualquer em uma melodia já existente e conhecida. E a voz da Zizi completa o serviço, deixando a música  uma delícia aos ouvidos.

Abaixo segue a letra de ambas para que vocês mesmos comparem. E, obviamente, segue as versões para sua audição – a de Zizi Possi e a de Eric Clapton.

Vá e entre por aquela porta ali
Não tem caminho fácil não!
É só dar um tempo que o amor
Vem pra cada um
Fique feliz, na boa e tudo vem
Mas nunca chove sem molhar
É só dar um tempo que o amor
Chega até você
Seu coração
Tem algo que nunca muda
Mas que também
Não envelhece nunca
Seu coração…
Sério, eu vejo tudo melhorar, lá
É só bater na porta e abrir
Bem que eu disse pra você que
O amor vem pra cada um

Go do it,
Got to go through that door,
There’s no easy was out at all . . .
Still it only takes time
‘Til love comes to everyone.

For you who it always seems blue
It all comes, it never rains
But it pours,
Still it only takes time . . .
‘Til love comes to everyone.

There in your heart . . .
Something that’s never changing;
Always a part of . . .
Something that’s never ageing,
That’s in your heart . . .

It’s so true it can happen to you all; there,
Knock and it will open wide,
And it only takes time
‘Til love comes to everyone.


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As Maiores Produções do Cinema que Jamais Veremos

(Texto de minha autoria publicado originalmente no Nerds Somos Nozes)
Muito cinéfilo certamente já deve ter feito o exercício mental de compor um “filme dos sonhos”, seja este cinéfilo um amante do cinema clássico ou alguém mais afeito a blockbusters e cultura pop, e este sonho pode ser o elenco ideal para se adaptar alguma obra de sucesso em outra mídia, um livro “best-seller” ou um personagem de quadrinhos de sucesso, ou apenas especulação sobre como uma obra clássica da literatura universal ou contemporânea seria abordada por algum diretor considerado nada menos que “genio”. Há muito espaço para fantasiar. Imaginem um filme dirigido por Igmar Bergman e Frederico Fellini, uma continuação para “Sem Destino” se passando cem anos depois da história original, um filme de Hitchcock tendo a Disneylândia como cenário, uma versão de “Duna” dirigida por Alejandro Jodorowsky e com o apoio luxuoso de HR Gigger e Moebius.

Mas muito do que às vezes fica no terreno da conjectura de muito cinéfilo chegou perto de ser realizado, ou ao menos esboçou uma reação de sair do papel para o celuloide. Mas cinema é brincadeira de gente grande, e com muita grana. E às vezes nem mesmo a vontade de algum diretor renomado é suficiente para convencer algum produtor executivo de coração gelado a abrir a mão e produzir seu projeto. Aliás, raramente algum produtor abre a mão facilmente, mesmo que o diretor com a ideia na cabeça, a câmera em uma mão e o pires na outra seja daqueles cujo nome costuma estar associado a ótimos filmes. E a quantidade de projetos que morreram no nascedouro ou que até chegaram a cumprir as etapas de pré-produção daria pra encher alguns livros. Tanto que enchem.  Títulos como “The 50 Greatest Movies Never Made”  ou “The Greatest Sci-Fi Movies Never Made” são feitos do mesmo material que os sonhos, sonhos que nunca conseguiram financiamento para se tornarem concretos. Vamos saber agora um pouco do que estamos perdendo e que nunca veremos.

- O campeão de projetos não realizados entre os diretores renomados é Orson Welles. Apesar de sua fama de garoto-prodígio e de estrear na direção criando um clássico, “Cidadão Kane”, entre os donos de estúdio ele ganhou fama de difícil e de nunca concluir um projeto antes de partir para outro. Isso dificultou sua vida e dezenas de projetos que tinha em mente nunca saíram do papel, ao menos não por suas mãos. Pense em algum clássico da literatura universal, e há grande chance de que Welles quis adaptá-lo ao cinema e que tenha esboçado um roteiro para tanto. Imagine “Dom Quixote”, “A ilha do Tesouro”, “Ardill 22”, “Lord Jim”, “Carmen”, toda a obra de Shakespeare e até passagens da Bíblia e teremos uma coleção de grandes filmes que nunca foram feitos, ao menos não por um gênio como Welles. Alguns desses livros se tornaram filmes, nem sempre com um resultado acima do burocrático. Ironicamente o filme de estreia de Welles seria uma adaptação de “No Coração das Trevas”, a obra-prima de Joseph Conrad. Mas a II Guerra Mundial restringiu o mercado consumidor e obrigou os estúdios a apertarem os cintos. Nesse meio tempo, Welles “cometeu” apenas “Cidadão Kane”, e seu projeto acabou nas mãos de outro diretor, décadas depois, um tal de Francis Ford Copolla, que levou a história da África para o meio da Guerra do Vietnã ( e um monte de gente à beira da loucura) e fez “Apocalipse Now”

- E falando em Copolla, é um exemplo claro da geração dos diretores dos anos 70 com liberdade criativa para emplacar projetos pessoais, mas que no fim das contas preferiu produzir e dirigir grandes produções de retorno garantido, mas não necessariamente geniais.  Mas o seu grande projeto nunca concluído seria uma adaptação do livro “Pinóquio”, do italiano Carlo Collodi, que já teve inúmeras versões em live action e em desenho animado, sendo a mais famosa a de Walt Disney, de 1940. Mas o projeto de Copolla era ambicioso. E caro pra dedéu, para o espanto da Warner, que arquivou o projeto. Furioso, o cineasta tentou levar seus planos para outro estúdio, mas a coisa acabou em um grande quiproquó jurídico entre o estúdio e o diretor. Frederico Fellini também planejou filmar a história, mas morreu sem realizar este projeto, que hoje está nas mãos de Roberto Benigni e previsto para ser lançado no fim desse ano.

- Para os fãs dos grandes musicais da MGM, Vincent Minelli planejou sua aposentadoria triunfal no fim dos anos 60 na forma do filme “Say it With Music”, que reuniria um time dos sonhos do gênero: produção de Arthur Freed, canções de Irving Berlin, coreografia de Bob Fosse, elenco composto por Fred Astaire, Sophia Loren, Brigitte Bardot, Ann-Margret e Julie Andrews. Mas a Metro já não era a Metro dos grandes musicais em 1968, e o projeto foi pro saco, para tristeza dos amantes dos musicais.

- O perfeccionista Stanley Kubrick, antes de dirigir “Laranja Mecânica”, quis filmar a história de Napoleão, que poderia ter sido o grande projeto de sua vida. Durante a fase de pré-produção, Kubrick teria reunido material sobre Napoleão suficiente para encher mais de 80 caixas. Para o elenco ele escalou atores do quilate de Peter O’Toole, Alec Guinness, Jean-Paul Belmondo, Audrey Hepburn e Jack Nicholson. Ele chegou a percorrer boa parte da Europa em busca de um cenário perfeito para sua história, que envolvia nada menos do que dezenas de milhares de extras para as cenas de batalha. Imaginem uma panorâmica mostrando um campo de batalha  com uns 70 mil soldados e uns outros milhares de cavalos. Imaginou? Os produtores também, e imaginaram logo em seguida o pesadelo logístico e a fortuna necessários para realizar o sonho de Kubrick. E mesmo o doido do ditador romeno de então, Nicolai Ceaucescu, prometendo mobilizar o exército para viabilizar a cena só para que o filme fosse feito em seu país,  convenceu alguém a assinar os cheques. Muito pelo contrário, só outro doido pra topar esta ideia. Como sabemos, o filme jamais foi feito, mas quem quiser ter uma ideia de como poderia ter sido basta desembolsar uns 500 euros e adquirir uma edição da Taschen que reúne o material que Kubrick pesquisou e juntou para escrever e dirigir o filme. E hoje, assistindo a produções como “O Senhor dos Anéis”, constatamos que a tecnologia atual prescinde de tantos extras para compor a cena imaginada por Kubrick. Infelizmente ele cometeu a indelicadeza de morrer antes da cibernética acompanhar sua imaginação, e fomos privados de mais um filme grandioso.

- Mas senso de oportunidade é algo que faltou a muitos projetos, sendo talvez o mais inadequado, digamos assim, a ideia de se adaptar para as telas o livro de Adolph Hitler, “Mein Kampf”. Em 1941! Alfred Hitchcok seria o diretor, isso se não fosse o detalhe de que o próprio Departamento de Estado Americano não ter se agradado muito do projeto, mesmo com  o argumento que o mentor desta (David Selznick) era judeu e que o filme seria anti-nazista.

- Claro que tinha coisa que ninguém poderia levar a sério. Billy Wilder, um dos grandes diretores da “velha Hollywood”, vez por outra esboçava algum argumento maluco para o roteirista que estivesse trabalhando com ele no momento, mas este normalmente tinha o bom-senso (ou não, vai saber) de ignorar a ideia. Um argumento folclórico de Wilder envolvia a criação de uma fórmula para a arma definitiva, e seu inventor a tatuava no próprio pênis. Como a fórmula só podia ser lida com o pênis ereto, a CIA treinava um agente para se fingir de bicha e conseguir a fórmula. Até que seria um filme interessante, principalmente se soubermos que Wilder tinha em mente para os papéis do cientista e agente os atores Wood Allen e Charles Bronson. Mas Wilder teve planos mais viáveis que deram com os burros n’água, infelizmente. Seu projeto de “Um Dia na ONU” traria do limbo os irmãos Marx que ainda estivessem por perto: Grouxo, Harpo e Chico. Mas em 1960 manter um comediante veterano vivo não era fácil, e aí o projeto degringolou quando Chico bateu as botas, logo após um enfarte de Harpo.

- Nos anos 90 a Warner quis ressucitar a franquia do Super-Homem no cinema, e contrataram Kevin Smith, um assumido fanboy e nerd, para escrever um roteiro. A história que Smith escreveu era o sonho de todo fã de quadrinhos, pois procurava ser fiel à história e ao personagem. Ele escolheu especificamente os arcos envolvendo a morte e o retorno do personagem, um episódio bem comentado pela mídia na época. Se o roteiro de Kevin Smith fosse seguido, certamente teríamos o melhor filme sobre o personagem, com forte potencial para superar o filme de Richard Donner, de 1977. O filme dos sonhos dos nerds, em uma época árida de boas adaptações de personagens de quadrinhos. Mas o sonho virou pesadelo e o caldo desandou quando Tim Burton entrou no projeto e quis impor sua visão particular, como mudar os poderes do personagem (que não voaria e teria poderes elétricos) e a história como um todo. O produtor John Peters também interferiu na história, principalmente para tentar incluir elementos de merchandising na história. Graças a Deus, desta vez a Warner teve o bom senso de arquivar essa mixórdia.

- Pra não dizerem que não falei do Brasil, o mais notório caso de filme não concluído é a adaptação da biografia do jornalista paraibano Assis Chateaubriant escrita por Fernando Morais, iniciada em 1995. Só que aqui o problema não foi falta de grana, e sim excesso, ao menos na visão do Ministério da Cultura. À frente do projeto, o estreante na direção Guilherme Fontes captou cerca de 36 milhões em recursos públicos, mas não concluiu o filme dentro de um período razoável, e nos últimos anos se viu envolvido em processos que o obrigavam a devolver os recursos e até o condenaram em um processo por sonegação fiscal. Mas nesse caso ainda há uma chance de um dia esse filme dar às caras. Se vai prestar, aí já são outros quinhentos. Quinhentos mil reais, diga-se de passagem.

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