Histórias dos Quadrinhos que Não estão no Gibi – Parte 3


A Guerra dos Gibis 2 – Maria Erótica e o Clamor do Sexo

A tão esperada sequência de “A Guerra dos Gibis“, do jornalista baiano Gonçalo Junior, foi lançada no fim do mês passado sob o título “Maria Erótica e o Clamor do Sexo – Imprensa, Pornografia, Comunismo e Censura na Ditadura Militar – 1964/1985″, ou simplesmente “A Guerra dos Gibis 2″. Na verdade, esclarece o autor no posfácio, o conteúdo desse livro é que deu origem ao primeiro, já que o tema de “Maria Erótica…” surgiu como matéria de um fanzine e se transformou em um Trabalho de Conclusão de Curso de jornalismo, e o primeiro “A Guerra dos Gibis” seria um retrospecto introdutório para o assunto principal – quadrinhos e a censura no regime militar de 64. Mas o autor reuniu tanto material e depoimentos no período de 1987 e 2006 que foi o suficiente para se fazer não apenas um TCC, e tampouco um livro, e sim três, e o primeiro foi justamente “A Guerra dos Gibis”, que abrange a década de 30 até 1964. Ao contrário do anterior, que foi editado pela “Companhia das Letras”, esta edição foi lançada sob o selo de uma editora estreante, a “Peixe Grande”. A diagramação traz, além do texto, a reprodução de diversas capas e ilustrações de revistas do período focado, sendo oito dessas páginas coloridas no início do livro, além de, para introduzir cada capítulo, três páginas com capas, ilustrações e comentários, deixando o livro visualmente bem atrativo, um trabalho de diagramação de Toninho Mendes.
À primeira vista o leitor pode imaginar que o livro se resume ao tema quadrinhos eróticos e sua relação nada agradável com o regime militar e a censura então vigente. Todavia, o buraco é bem mais embaixo (e mais apertadinho), e o autor consegue montar um verdadeiro mosaico da realidade editorial do período, e não só das revistas em quadrinhos. E mais importante, resgata e faz justiça a importantes nomes dos quadrinhos nacionais, como Claudio Seto, o criador da fogosa e ingênua Maria Erótica do título, falecido em 2008. Outro esclarecimento importante é que não são abordadas as revistas pornográficas, pois estas eram completamente clandestinas nesse período, até porque as regras eram bem rígidas, como nunca mostrar bundas por inteiro ou mais de um seio. Mamilos e pelos pubianos eram proibidos. E nu total frontal ou cenas de penetração, nem em sonho. A imaginação que se virasse com o pouco que se podia mostrar. Sobre as revistas pornográficas o autor dedicou algumas páginas em “A Guerra dos Gibis”, ao falar de Carlos Zéfiro e seus catecismos.

Como bom pesquisador que é, Gonçalo não se limita a narrar os fatos em simples sequência cronológica, preferindo se dar ao trabalho de contextualizar e enriquecer a narrativa. Por isso somos brindados com uma breve descrição da imigração japonesa ao Brasil e da história do mangá no Japão e sua influência na educação e formação dos descendentes dos imigrantes nipônicos para explicar o traço de artistas de origem nissei, como Minami  Keizi e Claudio Seto. Até o obscuro episódio da Shindo Renmei (tema do livro “Corações Sujos”, de Fernando Morais) é resgatado para contar a história da família de Seto. Por ser o mangá algo completamente estranho às editoras brasileiras de então, muitos desenhistas de origem nipônica tiveram dificuldade em encontrar trabalho por seus traços e técnicas narrativas serem pesadamente inspirados neste estilo. Outro parêntesis deveras didático se dá no capítulo 3, no qual Gonçalo faz uma pequena antologia da evolução do erotismo no Brasil desde os tempos do império e sua relação com a censura oficial.

Com uma narrativa que consegue fluir naturalmente, se atendo ao rigor jornalístico sem ser cansativa, Gonçalo enriquece a história ao detalhar os bastidores do Governo Militar, principalmente dos órgãos de censura, e fatos envolvendo outros nomes do ramo editorial, como a Abril, a Bloch e a Editora Três, trazendo a história da operação de guerra para convencer o governo a liberar a versão brasileira da americana Playboy, a corrida para se publicar o primeiro nu frontal após a liberação da censura, os lances dramáticos envolvendo a prisão e tortura de Paulo Fukue e os atentados a bancas que vendiam material “subversivo”. Há a menção de editoras, publicações e personagens, como os bolsilivros da editora Monterrey, cujo carro-chefe era a sensual espiã Brigitte, filha de Giselle, a espiã nua que abalou Paris. Também são citados, mesmo que superficialmente, o nome de duas autoras icônicas deste período: Adelaide Carraro e Cassandra Rios, cujos textos eróticos foram perseguidos com igual fervor pela censura. E os episódios icônicos do período também estão lá, desde a queda de Goulard até o tempo das Diretas Já, passando pelas bombas na OAB e Riocentro e pela tanga de crochê do Gabeira no caminho. Ao retomar os abusos cometidos por autoridades obtusas em nome de uma suposta moral ou combate ao comunismo, nos surpreendemos e nos revoltamos com os absurdos daqueles tempos, absurdos estes que minaram a carreira e sonhos de muitos artistas, e que em última análise, pode ser responsabilizada por abortar vôos mais altos dos quadrinhos nacionais.

Maria Erótica

Mesmo com tantos coadjuvantes e pequenas histórias paralelas, o fio condutor dessa trama é a história de duas editoras, Edrel e Grafipar, seus artistas e empresários, e o livro é dividido em duas partes.  Os primeiros oito capítulos do livro formam a primeira parte, intitulada “A Edrel e a Subversão do Sexo”, e abrange as aventuras e desventuras das editoras paulistas nos primeiros anos de chumbo, se concentrando mais especificamente na Edrel e de um de seus fundadores, o desenhista Minami Keizi. A editora Edrel surgiu dos restos mortais da editora Pan-Juvenil, tendo como sócios Minami Keizi, Jinki Yamamoto e Marcilio Valenciano, se destacando das demais editoras pequenas de São Paulo porque, além de produzir revistas com alta carga de erotismo, estilo “Garotas e Piadas”, montou uma equipe de desenhistas nacionais e produziu histórias voltadas ao público adulto, com temas que iam além do erotismo, abrangendo o terror, faroeste, aventuras de guerra, infantil, histórias de samurai e sátiras de costume, praticamente introduzindo de forma pioneira o estilo mangá em algumas histórias. Aos trancos e barrancos, a editora prospera nos primeiros anos, apesar da perseguição da censura, agravada após 1968, com o AI-5 e o estabelecimento da censura prévia. As publicações eróticas se tornaram um dos alvos preferenciais da censura, sob a alegação de que seria propaganda comunista com a finalidade de minar os valores morais e familiares da sociedade, o que facilitaria a implantação de um regime de esquerda no país.

O sucesso inicial da editora se deveu em grande parte à visão editorial de Minami, que deu chance a artistas novatos como  o próprio Claudio Seto, Fernando Ikoma e Paulo Fukue, liberando-os para criarem histórias inovadoras, tanto em seu traço quando na temática. Todavia a editora acabou seguindo o fadário ao qual a maioria das pequenas editoras brazucas parece destinada, e após a saída de Minami e Jinki da sociedade, o sócio remanescente não soube guiar os rumos da empresa. Minami ainda tentaria se manter no ramo ao fundar outra editora, a M&C, mas que foi inviabilizada pela patrulha cerrada da censura, representada por órgãos federais ou por autoridades locais. O inferno burocrático que Minami encarou, em sua calma oriental, tiraria o juízo de qualquer cristão, já que os critérios de aprovação eram pouco claros e subjetivos, além das publicações estarem sujeitas a apreensões por ordem de juízes ou delegados, mesmo quando liberadas para venda pelos órgãos federal. Aqui, em especial, o autor se debruça nos detalhes que envolviam a análise e posterior aprovação/negação da censura para as revistas, um verdadeiro malabarismo para os editores em um processo demorado que comprometia os prazos de lançamento. As apreensões e a periodicidade incerta acabaram minando as finanças da editora. As editoras maiores, como a Abril, mesmo sob este fogo cerrado dos moralistas, ainda tinha poder de barganha para liberar edições e matérias, garantindo periodicidade às suas revistas, algo que as pequenas não tinham. Minami não aguentou muito tempo e jogou a toalha.

A segunda metade do livro se concentra na história da editora curitibana Grafipar, cuja origem remonta ao imigrante libanês Said El-Khatib, que de caixeiro viajante se torna distribuidor e editor de livros, e após bem-sucedidas incursões na publicação de livros educacionais, como dicionários e enciclopédias, se aventura no ramo editorial erótico por influência do filho caçula Faruk. Este, a contragosto de seu pai e irmão mais velho, cria a então bem-sucedida revista masculina “Peteca” em outubro de 1976, que se propunha a ser a “Playboy dos pobres”, já que a publicação da Abril – que ainda se chamava “Revista do Homem” por imposição da censura – e seus congêneres “Status” e “Ele Ela” eram voltadas a um público de maior poder aquisitivo. Com o sucesso da revista, Faruk decide investir no filão, explorando quadrinhos eróticos, e por coincidência Claudio Seto passara a morar em Curitiba. Seto logo se tornou desenhista e responsável pelos quadrinhos da editora, e passou a convocar novos talentos para lá trabalharem, e nesta editora despontaram nomes que viriam a se tornar conhecidos nos quadrinhos nacionais, como Rodval Matias, Mozart Couto, Flávio Colin, Ataíde Braz, Watson Portela, Julio Shimamoto e outros, alguns dos quais migraram do eixo Rio-SP para viverem em Curitiba. Até o poeta Paulo Leminsky colaborou com argumentos para os quadrinhos. Junto com a Vecchi, a Grafipar foi uma das editoras que mais abriu espaço para o material genuinamente nacional e de qualidade comparável às histórias importadas dos EUA e Europa. Mesmo vivendo um período áureo no fim dos anos 70, quando o regime estava afrouxando o laço, a ironia é que um dos principais fatores que selaram o destino da editora no início dos anos 80, além de algumas decisões editoriais precipitadas e a inflação galopante, foi justamente o fim da censura, que pareceu o rompimento de um dique, soltando um tsunami de publicações pornográficas para atender a demanda popular. Ou citando um clássico moderno da nossa música popular: ”E começou a fuleiragem, e começou a putaria!”, mesmo que os setores mais conservadores tentassem deter essa nova onda.  Por relutar em apelar para a pornografia pura, Faruk perdeu espaço no mercado, fechando as portas em 1983. Antes disso chegou a trazer a revista americana “Penthouse”, maior concorrente da Playboy em solo americano naqueles tempos.

Muito mais do que “outro livro” sobre o regime militar, “Maria Erótica…” é material indispensável para quem quer conhecer e entender a realidade dos quadrinhos nacionais. Para os mais velhos, certamente há o ar nostálgico de relembrar algumas publicações que deixaram um vácuo nos quadrinhos nacionais raramente preenchido. E mesmo para aqueles não diretamente interessados no tema, a reconstituição do período faz esse livro comparável à obra de Elio Gaspari sobre a Ditadura. E ,junto com o primeiro “A Guerra dos Gibis”, forma uma verdadeira aula de história do mercado editorial dos quadrinhos no Brasil. E esperemos, pacientemente, “A Guerra dos Gibis 3″.

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  • Moziel T.Monk: Vejo que esse “travamento” já alcançou proporção de ser classificado como síndrome....
  • Emilia Vaz: (Eu peço fiado,mas pago viu?) Não me acho uma escritora,mas eu juro que tento…rsrs É bom saber...
  • André: Adorei,sempre escutava essa filosofia do meu pai !!!!!!Branchu.
  • suzilene: caraca o coelhinho é´loco e tarado e lindinho*-* fiado e´bom de mais. 100% play boy

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