Julie e Julia, ou Da arte de Temperar Melhor a Vida


Mais uma resenha tardia de filme, já que o assisti há algumas semanas, mas só agora a fome e a vontade de comer vieram no mesmo prato. Aliás, prazer e comida são o tema desse filme, e foi o que me atraiu a assisti-lo e a comentá-lo, pois normalmente os filmes da Nora Ephron são mais direcionados ao público feminino, mas nada que impeça os marmanjos de os assistirem, de preferência bem acompanhado das respectivas patroas – o que lhe dará crédito para assistir “Os Mercenários” depois.

Mas vamos ao Julie & Julia. As duas personagens-título não são mera criação de um roteirista, sendo pessoas reais. Julia Child, senhora americana que, nos anos pós-II Guerra, se mudou para Paris acompanhando o trabalho diplomático de seu marido Paul Child, se encanta com a culinária francesa e, nos anos seguintes, se instrui em uma arte predominantemente masculina e escreve um livro vertendo este conhecimento ao público americano , livro este que se torna a “bíblia” das donas-de-casa americanas, o “Mastering the Art of French Cooking“, transformando Julia em uma espécie de Ofélia anglo-saxã, para ilustrar bem para o público brazuca. A outra mulher do título é Julie Powell, uma jovem funcionária pública e escritora frustrada, que meio entediada com sua vida sem sal   resolve criar um blog com um objetivo relativamente difícil para alguém pouco afeita a concluir projetos: prepara todas as receitas do livro de Julia Child em um ano e transcrever esta experiência em seu blog. O filme narra um fragmento da história de ambas, intercalando a narrativa entre a Paris dos anos 50 e a New York pós -11 de setembro. O filme em si não traz maiores destaques narrativos, sendo quase burocrático. Mas a história de Julia Child, interpretada por Meryl Streep, é a mais saborosa e bem temperada, muito principalmente pela atuação da veterana atriz, bem apoiada por Stanley Tucci, que vive o adido cultural e marido de Julia. Até parece proposital que a história da Julia pareça mais interessante e “saborosa” que a da Julie contemporânea – papel assumido na tela pela competente Amy Adams. Se a diretora prescindiu do uso de fotografia, iluminação ou edição para realçar a diferença entre as narrativas, não sei se intencionalmente ou casualmente ela conseguiu destacar o “tempero” da história da veterana mestre-cuca em relação à rotina meio estabanada e insossa da blogueira-cozinheira, mesmo quando esta se via preparando, ao longo de 12 meses, mais de 500 receitas diferentes, cada uma mais gostosa que a outra. Só para constar, o blog de Julie virou livro, no qual este filme é baseado. Julia já foi servir manjar para os deuses, mas há alguns vídeos dela disponíveis no youtube.

Minha identificação com o filme é bem pessoal nesse aspecto. Como nordestino, aprecio por demais o ato de comer, e gosto de sentir sabores e temperos, algo que observo ser uma prática meio perdida aqui onde atualmente resido. Não sei se é um traço cultural ou uma imposição da correria dos tempos modernos, mas ao meu redor vejo cada vez menos prazer no ato de saborear uma simples refeição, salvo as raras vezes na qual o cidadão se dispõe a pagar uma pequena fortuna para saborear algo supostamente delicioso em algum estabelecimento elogiado por alguma revista “da moda”. O filme mostra essa faceta quando Julia está almoçando com suas amigas “bem sucedidas”, que adicionam a paranoia da silhueta perfeita – que normalmente significa um porte físico próximo ao de um pé de coentro -ao ato de “não-comer” durante o almoço.

Não desejo apologia à gulodice ou ao sobrepeso. Comem bem e de forma saudável é fundamental e pratico, mas deixar de se alimentar do que gosta por causa da correria cotidiana ou para tentar se encaixar em um padrão de beleza impraticável é algo que soa quase irracional para mim, um blodegueiro de hábitos simples, que gosta de saborear uma boa refeição, mesmo que seja um simples almoço no meio da quarta-feira. Não precisamos de ocasiões especiais para temperarmos nossas refeições. Todo dia é dia. Aliás, pouco antes de começar a escrever este texto, tive o prazer de saborear um belo contrafilé grelhado acompanhado de um bom vinho tinto.

E a mensagem que se pode extrair desse filme pode até ser óbvia, mas infelizmente pouco levada a sério. Não estou pedindo para vender tudo que tem e me seguir (se o fizer, sabes com o quê podemos gastar essa grana) ou a adotar um novo modo de vida radicalmente diferente. É apenas uma simples sugestão para se aproveitar melhor estes pequenos prazeres da vida. E essa pequena metáfora pode ser tranquilamente extrapolada para além da nossa mesa de jantar, já que existem muitos temperos conotativos a serem apreciados e saboreados, mas que não nos permitimos pelos mais diversos pretextos. Mas vamos nos manter na comida, mesmo, um passo de cada vez.  Ponha algo mais do que sal e alho em seu feijão, tempere aquele filé de peixe com algo mais criativo do que gotas de limão, transforme o arroz branco em algo mais colorido. Tente por isso em prática na sua próxima refeição. Bon Appetit.

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