O Parto da Escrita

Não mais satisfeito em dar as desculpas de praxe pra justificar as poucas atualizações da Blodega, decidi compartilhar um pouco da agonia e êxtase no ofício da escrita, o que acabou, no fim das contas, a parir um novo texto. Quem frequenta aqui sabe que raramente eu posto apenas fotos ou vídeos (isso eu deixo para nosso puxadinho no Tumblr ou nosso twitter), e quando o faço há algum texto acompanhando, não nos limitando a replicar algo que já deve ter sido reproduzido em inúmeros blogs antes do nosso. E manter um ritmo de produção constante acaba não sendo muito viável, por mais que isso acabe espantando a clientela, e nem sempre replicamos hypes instantâneos pra atrair visitas. Por isso garanto que dificilmente teremos sanduíche ginecológico por aqui, além das eventuais musas penduráveis, no máximo algumas rodelas de salame pra acompanhar uma cervejinha.
Na verdade, manter essa blodega é mais uma forma bizarra de terapia, algo entre um passatempo inofensivo e um vício patológico adquirido após passar alguns anos colaborando com o colega e compadre Tio Xiko em suas empreitadas jornalísticas virtuais, denominadas Crazy Man e, posteriormente, O Busilis. Porém, naqueles tempos, a frequência com a qual nós atualizávamos o site era de uma eficiência taylorista ,se comparada a minha atual produção na Blodega, cujos 14 clientes esperam com uma paciência de Jó por alguma atualização. Claro que, além da natural simbiose entre dois malucos com ideias esdruxulas e a pressão por parte dele em cumprir prazos e preencher a pauta da semana, os hectolitros de cerveja ingeridos lubrificavam as prensas cibernéticas.
Não obstante, preciso admitir publicamente que, por mais catártico que possa parecer, escrever não é exatamente algo fácil. Na maior parte das vezes, escrever é um parto a fórceps de uma criança com as pernas abertas – todas as três. E não estou sozinho nessa opinião, pois escritores profissionais, sérios e de verdade compartilham dessa ideia. Segundo Thomas Mann, o escritor é aquele para qual escrever é mais difícil que para os demais, e para William Faulkner não havia meio termo em relação a escrever: ou é fácil ou impossível. Até mesmo o xodó dos leitores nerds, Douglas Adams, sofria o diabo pra parir os livros da série “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, normalmente estourando prazos fatais e protelando ao máximo a conclusão. Para ele, “Escrever é fácil. Tudo o que você tem a fazer é ficar olhando fixamente para uma folha em branco até a sua testa começar a sangrar”. Nem sempre a inspiração vem, ou em termos poéticos, você quer ter uma transa legal com sua musa e ela alega uma dor de cabeça, e a única coisa que ela irá foder é com sua paciência, se insistir. Nesses casos é melhor não forçar a barra, mesmo, ou prefere violentar sua musa? Aconselho a não fazê-lo. Tem uma história de “Sandman” na qual um escritor faz isso literalmente, e acreditem, o resultado não é nada agradável.
E quando você está até inspirado, com uma boa ideia e diversas anotações e rascunhos em seu caderno preto, mas por esse ou aquele motivo você não consegue parar para executar o serviço? As tarefas da vida real, que de viés, tende a nos puxar pela orelha sem maiores cerimônias, acabam nos fazendo protelar as tarefas que julgamos menos prioritárias se comparadas a acertar as contas com o dentista das crianças ou o dever quase cívico de varrer de volta o lixo que o chato do vizinho insiste em deixar na sua calçada. E escrever acaba ficando na rabeta da lista de prioridades, principalmente quando isso é encarado mais como passatempo do que um ganha-pão, de fato. Daí que meu caderno preto anda cheio de ideias e rascunhos não conclusivos e a pasta de textos incompletos está cada dia maior
Mas falando sério, a harmônica vida doméstica acaba gerando tanta distração que, na maior parte do tempo, inviabiliza a concentração e desapego necessário a sair um texto decente. Creio que os grandes escritores da literatura universal deveriam viver em lares infelizes nos quais não se sentiam obrigados a dar atenção a esposa, filhos e atendentes de telemarketing, sendo quase imprescindível que se tornassem misantropos, escrotos e com sérios problemas estomacais, algo no qual fracassei miseravelmente em me tornar, apesar de insistentes tentativas nas décadas passadas. Ou quase fracassei, já que meu estômago insiste em me lembrar de pegar leve nos temperos e nas bebidas. Mas se a alternativa é me foder em verde e amarelo pra apurar a escrita, prefiro deixar quieto e me virar com o que tenho.
Não que me considere um grande artífice das palavras. Mesmo tendo aperfeiçoado durante estes anos a brevidade na escrita para uma mídia que tem pouca tolerância à prolixidade, ainda me pego enchendo laudas com o entusiasmo inversamente proporcional ao do pobre que se aventurar a lê-las – como estou exatamente fazendo agora, devo supor. Também peco em não fazer uma revisão decente em meus textos, já que na urgência de soltar a coisa para o mundo – ainda falo do texto, e não de flatos, não obstante por vezes ambos serem indistinguíveis – acabo deixando uma série de rebarbas que passam batidas ao olhar pouco atento do pai desleixado da criança feia. E haja palavras repetidas, frases com uma palavra a mais ou a menos, concordância que manda lembranças a última Flor do Lácio ou meros erros de digitação que sobrevivem incólumes ao revisor ortográfico. Eis que meu sonho de consumo para a Blodega é contratar uma revisora. Sim, revisora, portadora dos genes XX, de preferência jovem e sadomasoquista, a quem eu possa castigar sempre que deixar algum texto com erros grotescos ser publicado, e os castigos invariavelmente envolveriam o uso de roupas de latex, algemas e chicotes, tudo para que ela seja mais atenta no futuro.
E depois de tamanho arrazoado, se você teve capacidade volumétrica escrotal suficiente para chegar até este ponto do texto, pode me perguntar por que ainda escrevo, já que não estou sendo remunerado para isso. Citando H.L. Mencken, escrever seria uma alternativa sensata e dentro da lei dos países civilizados a outras maneiras menos ortodoxas de se expressar, como gritar desafios em praça pública, rodopiar sobre a cabeça de transeuntes ou – melhor ainda – raptar um funkeiro de ônibus e obrigá-lo a ouvir ad infinitum a trilha sonora de “Cisne Negro” vestido a caráter, obviamente com um Colt Python apontado para sua cabeça. E por mais que essa última alternativa seja tentadora, ficarei com meus escritos, por mais de rosca que seja produzi-los.
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Também quando vc escreve é um Conto Inteiro… Gasta muito…Brincadeira Moziel, quem te conhece sabe da qualidade que vc emprega nos textos. Não gosta de modismos e não apela para baixaria, que dizer, apenas quando necessário. Sucesso amigo e não esquenta que o fiado, eu disse FFFIADO, vai continuar grande… Abraços e até mais ver
Nem sempre é fácil colocar em palavras o que sentimos. Nem sempre é fácil entreter, opinar, divertir. Escrever pode ser um parto, concordo. Todos somos humanos e passamos por bloqueios de imaginação. Cada um busca uma fuga para seus delírios, cada um busca sua fonte de inspiração. Gostei do bom humor.
Obrigado, Mariana. Você que também gosta de escrever deve saber que às vezes o cérebro trava, mesmo. Apareça quando quiser. Abraços!
(Eu peço fiado,mas pago viu?)
Não me acho uma escritora,mas eu juro que tento…rsrs
É bom saber que não é só eu que travo.
Um baita texto pra gente ler reler e refletir muito sobre a escrita.Como vc definiu:manter essa blodega é mais uma forma bizarra de terapia, algo entre um passatempo inofensivo e um vício patológico.Perfeita descrição!
Te achei no face,e fiquei muito contente.Tenho muito o que ler por aqui.
Bom fds,bjca
Vejo que esse “travamento” já alcançou proporção de ser classificado como síndrome. Como de praxe, ando deixando essa Blodega às moscas, e até com os comentários ando relapso. prometo que logo tirarei das ideias – e dos rascunhos – algumas cositas pra expor no balcão. Enquanto isso, pode ficar à vontade pra fuçar os arquivos. Abraços e apareça sempre!