Elis Hurricane

A biografia de Elis Regina em nova versão aditivada
Nota do Blodegueiro: Aos 30 anos da morte da Elis Regina, republico este texto do velho Busilis quando foi reeditada sua biografia pela Ediouro há 5 anos como pequena homenagem a cantora dos bêbados e equilibristas. Como nesse mundo há mais bêbados do que equilibristas, curtam com moderação. E lembrem-se: Cinzano mata!
Elis Regina Carvalho Costa. Uma baixinha gaúcha meio estrábica, com uma voz poderosa e uma personalidade idem, que iniciou uma carreira promissora cantando baladas e rocks despretensiosos no seu primeiro disco, “Viva a Brotolândia”, após anos se apresentando em rádios gaúchas como talento prodígio. Sua voz e atitude no palco a levaram a chegar ao Rio em pleno golpe militar. E seu golpe foi ajudar a enterrar o então agonizante movimento da Bossa Nova, um estilo que a esnobou e que ela também não simpatizava. Chegou ao estrelato nos antigos festivais de música popular, pilotou um programa de TV e chegou a ser a cantora mais bem paga do país. Elis poderia ser uma cantora das multidões, mas preferiu aperfeiçoar sua arte e se identificou e se aproximou da nata cultural do país, sendo apontada como elitista. E, de certa forma, ela era, já que seus espetáculos e shows estavam longe de serem populares, shows estes mais voltados a um público sofisticado. Em vida seus discos não vendiam tanto, se comparados a outros artistas com maior penetração popular.
Como pessoa, era uma figura controversa, de personalidade contraditória, pois em poucos minutos poderia dizer exatamente o contrário do que afirmara antes, e vivia uma relação de amor e ódio com seus amores e amigos, e seu relacionamento com a família passava por altos e baixos, até praticamente romper com os pais. De origem humilde, com hábitos simples e sem herdar uma grande cultura, Elis tinha uma forte necessidade de se auto-afirmar no meio artístico onde de repente se viu lançada. A relação entre ela e seu primeiro marido, o músico e produtor Ronaldo Bôscoli, era o clássico exemplo de viver entre tapas e beijos, já que ambos tinham forte personalidade. Até com seu segundo marido, o pianista Wagner Tiso, bem mais tranquilo que Bôscoli, a relação foi tumultuada. Ou seja, como toda mulher baixinha, era braba pra cacete.
Mas sua voz e interpretação prestaram um enorme serviço à música brasileira. A sua pungente interpretação de “Atrás da Porta”, de Chico Buarque, é um dos grandes momentos de nossa música. Morreu aos 37 anos incompletos, por ingerir uma mistura de cocaína e Cinzano, no dia 19 de janeiro de 1982, em um episódio que ainda provoca polêmica entre seus amigos e parentes e do qual até hoje o seu namorado a época, Samuel McDowell, não gosta de comentar. Tanto que no especial “Por Toda a Minha Vida”, veiculado pela Rede Globo no final de 2006 e que dramatizava a biografia de Elis, a causa da morte sequer é mencionada. Seu funeral causou uma comoção pouco vista até então, mostrando uma popularidade que surpreendeu a muitos. Foi alçada a condição de maior cantora do Brasil, um posto do qual dificilmente será tomado. Sua filha com César Camargo Mariano, Maria Rita, hoje vive uma carreira promissora como cantora, mas procura uma identidade própria fora da sombra de sua mãe. Um senhor desafio, diga-se de passagem
Mesmo com tantos elementos dignos de uma tragédia grega, a história de Elis nunca foi levada ao cinema, e só posta no papel em uma única biografia, escrita pela jornalista e amiga Regina Echeverria e lançada poucos anos após sua morte.
O livro “Furacão Elis” é, basicamente, a transcrição quase literal dos depoimentos de parentes e amigos de Elis, reunidos pela jornalista e organizados em ordem cronológica. Mas se comparada a outras biografias de outros personagens da música, o livro de Regina carecia de algumas informações, deixando lacunas em momentos relevantes da vida da cantora, que certamente interessaria aos fãs, como a época em que Elis apresentava o programa “O Fino da Bossa” ao lado de Jair Rodrigues. No livro “Noites Tropicais”, de Nelson Motta, o autor descreve muito melhor essa época da vida de Elis. Inclusive o produtor Nelson Motta foi amante de Elis na fase final do casamento dela com Bôscoli, e seu depoimento está no livro de Echeverria. Talvez pelo relativo pequeno número de entrevistados, e principalmente por algumas ausências, a mais sentida sendo a de Jair Rodrigues, que foi colega de palco e amigo de Elis, que o livro poderia ser considerado incompleto.
Mas essas lacunas foram parcialmente preenchidas na nova edição da biografia de Elis. Lançada em 2006, quando se fez 25 anos da morte da cantora, essa nova edição vem em um formato maior que a original, e traz mais fotos. Como o livro estava fora de catálogo há alguns anos, a autora resolveu relançar sua obra, dessa vez pela Ediouro, e acrescentou novos depoimentos ao texto original, como o do já citado Jair Rodrigues e o de Fernando Faro, responsável pela direção do último espetáculo de Elis, “Trem Azul”. O lançamento é oportuno para os novos leitores que quiserem conhecer a vida dessa cantora, cuja obra ainda é referência da música brasileira.
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