Elis Hurricane

A biografia de Elis Regina em nova versão aditivada
Nota do Blodegueiro: Aos 30 anos da morte da Elis Regina, republico este texto do velho Busilis quando foi reeditada sua biografia pela Ediouro há 5 anos como pequena homenagem a cantora dos bêbados e equilibristas. Como nesse mundo há mais bêbados do que equilibristas, curtam com moderação. E lembrem-se: Cinzano mata!
Elis Regina Carvalho Costa. Uma baixinha gaúcha meio estrábica, com uma voz poderosa e uma personalidade idem, que iniciou uma carreira promissora cantando baladas e rocks despretensiosos no seu primeiro disco, “Viva a Brotolândia”, após anos se apresentando em rádios gaúchas como talento prodígio. Sua voz e atitude no palco a levaram a chegar ao Rio em pleno golpe militar. E seu golpe foi ajudar a enterrar o então agonizante movimento da Bossa Nova, um estilo que a esnobou e que ela também não simpatizava. Chegou ao estrelato nos antigos festivais de música popular, pilotou um programa de TV e chegou a ser a cantora mais bem paga do país. Elis poderia ser uma cantora das multidões, mas preferiu aperfeiçoar sua arte e se identificou e se aproximou da nata cultural do país, sendo apontada como elitista. E, de certa forma, ela era, já que seus espetáculos e shows estavam longe de serem populares, shows estes mais voltados a um público sofisticado. Em vida seus discos não vendiam tanto, se comparados a outros artistas com maior penetração popular.
Como pessoa, era uma figura controversa, de personalidade contraditória, pois em poucos minutos poderia dizer exatamente o contrário do que afirmara antes, e vivia uma relação de amor e ódio com seus amores e amigos, e seu relacionamento com a família passava por altos e baixos, até praticamente romper com os pais. De origem humilde, com hábitos simples e sem herdar uma grande cultura, Elis tinha uma forte necessidade de se auto-afirmar no meio artístico onde de repente se viu lançada. A relação entre ela e seu primeiro marido, o músico e produtor Ronaldo Bôscoli, era o clássico exemplo de viver entre tapas e beijos, já que ambos tinham forte personalidade. Até com seu segundo marido, o pianista Wagner Tiso, bem mais tranquilo que Bôscoli, a relação foi tumultuada. Ou seja, como toda mulher baixinha, era braba pra cacete.
Mas sua voz e interpretação prestaram um enorme serviço à música brasileira. A sua pungente interpretação de “Atrás da Porta”, de Chico Buarque, é um dos grandes momentos de nossa música. Morreu aos 37 anos incompletos, por ingerir uma mistura de cocaína e Cinzano, no dia 19 de janeiro de 1982, em um episódio que ainda provoca polêmica entre seus amigos e parentes e do qual até hoje o seu namorado a época, Samuel McDowell, não gosta de comentar. Tanto que no especial “Por Toda a Minha Vida”, veiculado pela Rede Globo no final de 2006 e que dramatizava a biografia de Elis, a causa da morte sequer é mencionada. Seu funeral causou uma comoção pouco vista até então, mostrando uma popularidade que surpreendeu a muitos. Foi alçada a condição de maior cantora do Brasil, um posto do qual dificilmente será tomado. Sua filha com César Camargo Mariano, Maria Rita, hoje vive uma carreira promissora como cantora, mas procura uma identidade própria fora da sombra de sua mãe. Um senhor desafio, diga-se de passagem
Mesmo com tantos elementos dignos de uma tragédia grega, a história de Elis nunca foi levada ao cinema, e só posta no papel em uma única biografia, escrita pela jornalista e amiga Regina Echeverria e lançada poucos anos após sua morte.
O livro “Furacão Elis” é, basicamente, a transcrição quase literal dos depoimentos de parentes e amigos de Elis, reunidos pela jornalista e organizados em ordem cronológica. Mas se comparada a outras biografias de outros personagens da música, o livro de Regina carecia de algumas informações, deixando lacunas em momentos relevantes da vida da cantora, que certamente interessaria aos fãs, como a época em que Elis apresentava o programa “O Fino da Bossa” ao lado de Jair Rodrigues. No livro “Noites Tropicais”, de Nelson Motta, o autor descreve muito melhor essa época da vida de Elis. Inclusive o produtor Nelson Motta foi amante de Elis na fase final do casamento dela com Bôscoli, e seu depoimento está no livro de Echeverria. Talvez pelo relativo pequeno número de entrevistados, e principalmente por algumas ausências, a mais sentida sendo a de Jair Rodrigues, que foi colega de palco e amigo de Elis, que o livro poderia ser considerado incompleto.
Mas essas lacunas foram parcialmente preenchidas na nova edição da biografia de Elis. Lançada em 2006, quando se fez 25 anos da morte da cantora, essa nova edição vem em um formato maior que a original, e traz mais fotos. Como o livro estava fora de catálogo há alguns anos, a autora resolveu relançar sua obra, dessa vez pela Ediouro, e acrescentou novos depoimentos ao texto original, como o do já citado Jair Rodrigues e o de Fernando Faro, responsável pela direção do último espetáculo de Elis, “Trem Azul”. O lançamento é oportuno para os novos leitores que quiserem conhecer a vida dessa cantora, cuja obra ainda é referência da música brasileira.
Imagine, Papai Noel…

No clima altruísta do Natal, minha lista de pedidos ao Papai Noel não é para mim, e sim para o crítico musical Mark Chapman, que tem o péssimo costume de avaliar músicos não numa escala de zero a cinco estrelas, e sim numa escala de um a cinco disparos. Como o menino teve bom comportamento nessas últimas décadas, creio que Papai Noel o colocará na lista de garotos bonzinhos. Ao menos se ele raciocinar igual a alguns juízes brazucas.Minha lista de presentes para ele é curtinha. Tudo que eu quero que ele ganhe é:
- Liberdade Condicional
- Uma passagem para o Brasil
- O CD “25 de Dezembro”, da Simone
- Um Colt Python com uma caixa de munição acompanhando
Quebra essa, bom velhinho. Garanto que fará mais feliz o Natal de muitas pessoas…
Rapidinhas da Sexta-Feira: Tem Espião no Samba

Hoje saiu uma entrevista com a sambista Beth Carvalho com a curiosa citação de que “A CIA quer acabar com o Samba”, o que rendeu diversas piadinhas no Twitter nas últimas horas, incluindo o questionamento de Arnaldo Branco sobre os planos da agência contra o Sertanejo Universitário ou a constatação de que “Brasil Pandeiro” seria uma denúncia contra a espionagem dos agentes de Tio Sam em nossa batucada (by @mrguavaman ).
Mas Beth Carvalho nem precisa se preocupar, pois a CIA não é famosa exatamente por sua competência, já que episódios como a Baía dos Porcos ou a mania feia de treinar e equipar futuros inimigos dos EUA me fazem imaginar que a Agência de – não riam -Inteligência foi fundada por Brancaleone. Eu só levaria fé se o Mossad decidisse eliminar o Funk Carioca da face da Terra. Aì não ia ter pra ninguém.
Mas não é só a CIA que tentou destruir o Samba. O MI-6, o serviço secreto de sua majestade, já tentou isso, mandando seu melhor agente pra tentar o serviço. E olha que, vendo as cenas do carnaval carioca de 007 Contra o Foguete da Morte, tão animadas quanto sessões de meditação com maconheiros, ele quase conseguiu.
Agora me deem licença, pois precisamos averiguar uma denúncia de que o Lobby das editoras está manipulando o plebiscito para a divisão do Pará com o intuito de vender mais livros de geografia, atlas e mapas. A verdade está lá fora, provavelmente tomando um chopinho, pois é é sexta-feira e tá um calor dos diabos.
Meia-Noite em Paris é uma Festa

Gertrude Stein, Modernismo e a Geração Perdida na Paris dos Loucos Anos 20
No novo filme de Wood Allen, “Meia-Noite em Paris”, o protagonista Gil, um roteirista que aspira se tornar romancista e que se sente fascinado pelo passado, se enamora pela cidade de Paris, e durante um passeio à noite para fugir do tédio e da família chata pra cacete conservadora de sua noiva, ele consegue voltar ao passado, sabe-se lá por qual meio, mais especificamente aos anos 20 do século passado, encontrando-se com diversos artistas daquela época: Cole Porter, o casal F.Scott e Zelda Fitzgerald, Ernest Hemingway, Pablo Picasso, Buñuel, Dali, T.S.Eliot, Cole Porter, Djuna Barnes… Entre mostrar Paris como um cenário belíssimo digno de um quadro de Monet e discutir questões como a nostalgia, as incursões de Gil ao passado são de uma leveza e humor deliciosos, o que faz a alegria dos amantes da leitura, que se entusiasmam juntamente com o personagem ao interagir com os artistas do passado e ao reconhecerem as referências contidas, com uma divertida conversa com surrealistas sobre viagem no tempo e inspiração para o filme “O Anjo Exterminador”, de Buñuel. Mas Gil quase vai ao êxtase quando Hemingway o leva para conhecer Gertrude Stein (Kathy Bates), que se propõe a ler o manuscrito do romance que tenta concluir. E nessa busca do tempo perdido ainda há espaço para Gil disputar com Hemingway e Picasso o afeto de uma bela modista francesa.
Allen usa esse mote para passear por uma época que o personagem Gil julga ser uma “era de ouro”, algo que ele vem a questionar ao longo da história, resgatando os personagens e protagonistas reais de um tempo no qual Paris, de fato, serviu de cenário para diversas histórias tão ou mais fascinantes quanto a do filme, e que moldaram a arte ocidental da primeira metade do século passado, já que para lá migraram a vanguarda cultural da Europa e a “Geração Perdida” dos Estados Unidos, e o ventre dessa besta chamado modernismo foi um sobrado no número 27 da Rue de Fleurus. E no olho dessa tempestade de “ismos”, meio que comandando essa massa crítica criativa, havia uma mulher americana que conheceu e influenciou os grandes artistas que passaram por Paris naqueles anos, e cuja presença foi fundamental para o estabelecimento da arte moderna nas primeiras décadas do século XX. Sem Gertrude Stein dificilmente os movimentos que brotaram nessa época ganhariam o mundo.
Desde 1902 que a americana Gertrude e seu irmão Leo Stein, partiram para o degredo voluntário em Paris em busca de algo mais próximo do conceito de civilização, a exemplo de muitos jovens americanos abonados de seu tempo. Estabelecendo-se no famoso endereço na Rive Gauche, eles se tornaram catalisadores do movimento modernista que ali brotava, já que em seus primeiros anos na cidade eles ajudaram muitos artistas plásticos em início de carreira ao comprar seus trabalhos, os quais eram vistos com reserva, para dizer o mínimo, pelo público em geral, que ainda não digeria muito bem os conceitos novos. Na verdade nem os Stein entendiam direito, pois durante anos eles mantiveram um Cézanne pendurado de ponta-cabeça até serem alertados pelo próprio. Praticamente nenhum milímetro das paredes do sobrado estava livre de algum quadro, os quais eram adquiridos quase a preço de custo e que valeriam uma fortuna nos anos seguintes, pois carregavam assinaturas dos então anônimos e verdes Cézanne, Matisse e Picasso, que nesse tempo estava mais pra azul do que verde. Leo Stein fez a alegria de muito pintor iniciante, comprando seus quadros aos montes, e os ajudou divulgando tais obras e convencendo o mundo que ali estava o futuro da arte.
Todavia foi a irmã Gertrude que se tornou célebre entre a comunidade artística estabelecida em Paris, com a qual fez amizade e que passou a freqüentar o endereço, convertido em um point para todo candidato a artista moderno, fosse romancista, contista, poeta, dramaturgo, músico ou fotógrafo, por vezes surrealistas, dadaístas ou cubistas, além de editores e a imprensa cultural. Em determinada época havia algum burburinho praticamente toda noite. A lista de habitués é uma verdadeira aula de história da arte que, além dos já citados pintores, tinha F.Scott Fitzgerald (e sua esposa Zelda), Ernest Hemingway, Jean Cocteau, Ezra Pond, T.S Eliot, Virgil Thompson e um longo etc. que inclui James Joyce. Porém o irlandês foi barrado no baile, pois consta que Gertrude, escritora com pretensões modernistas, via nele um concorrente de peso no mesmo estilo hermético que adotara, e o que é pior, reconhecidamente mais talentoso. E como diz o personagem Hemingway no filme de Allen ao recusar a leitura do manuscrito de Gil, um escritor odeia outro colega mais talentoso. Toda essa patota era recebida por Gertrude em sua casa para que planejassem o futuro das artes enquanto enxugavam a adega dos Stein. Não é de se admirar que muitos jovens com pretensões artísticas recomendados por veteranos iam pedir a benção daquela senhora, que nem sempre se preocupava em averiguar se a recomendação por parte de algum conhecido era procedente.
Mas por maior que fosse o sobrado, nem sempre havia tanto espaço para tamanhos egos. Hemingway e Fitzgerald se estranhavam pelas infinitas vezes em que Gertrude os comparava e os elogiava respectivamente e em segredo, o que deve ter rendido um murro no queixo dela durante uma luta de boxe com Hemingway e aumentou o consumo de bebida dos Fitzgerald em alguns hectolitros. Matisse se enciumava da amizade de Gertrude e Picasso, que tinha ciúmes dela com o também cubista Juan Gris, o qual cogitou colar seus bigodes com o de Stein, sem sucesso, até porque da fruta que Gris muito apreciava, Gertrude chupava até o talo. Aliás, a relação entre Gertrude e Picasso é um caso à parte, parecia um casamento, só não tinha o sexo, pelos motivos supracitados. Mas esse casamento gerou, se não filhos, muitas histórias. Em 1905, após posar para Picasso e contemplar o resultado, Gertrude reclamou da pouca semelhança, ao qual Picasso retruca que um dia ela se pareceria com o quadro – o que não deixa de ser sacanagem. E na época que Picasso tentou abandonar a pintura pra se tornar poeta, ela lhe perguntou de onde tirara a idéia de que qualquer um pode ser poeta, e ele respondeu: ”lendo seus poemas”. Ambos brigariam em definitivo, ironicamente e indiretamente por causa de Juan Gris, morto prematuramente. Gertrude acusou Picasso de não ter dado a devida atenção ao colega falecido, e isso rendeu uma última e definitiva briga entre os dois. Esse povo não era fácil.
Famosa por cunhar o verso ”Uma Rosa é uma rosa é uma rosa” e diversas frases e afirmações de efeito, a maioria exaltando sua genialidade, além de ter cunhado o termo “Geração Perdida” para descrever seus contemporâneos, Stein arrancou muitos desses artistas do anonimato e travou amizades e inimizades com alguns deles, inclusive com seu irmão Leo, que rompeu com ela e abandonou o sobrado parisiense, levando alguns dos quadros. Ironicamente, após esse bando de boêmios se tornarem mundialmente famoso e a vanguarda por eles inventada se tornar o novo stablishment cultural, a própria Gertrude Stein não tinha uma obra editada, muito em parte porque seus escritos seguiam um estilo próprio, enveredando por experimentalismos de influência dadaísta, com poemas de versos repetitivos ou prosa que considerava a vírgula um acessório inútil, algo que torna a leitura um desafio árido, o que deve ter repelido a maioria dos editores. E para terminar de lascar, James Joyce, aquele cujo estilo era muito similar ao seu, encontrou seu lugar na posteridade ao ter publicado o romance “Ulisses”, que também só foi aceito para ser editado pela também americana Sylvia Beach, proprietária da Shakespeare and Company, famosa livraria e outro importante endereço para a cultura parisiense . Se a leitura de Ulisses é um desafio para muitos – esse humilde blodegueiro incluído – há quem diga que os textos de Gertrude seriam um desafio ainda maior.
Por fim, após passar por três décadas e uma Guerra Mundial, da qual participou como voluntária e ganhou até umas medalhas, Gertrude tem um livro editado em 1933, chamado “A Autobiografia de Alice B.Toklas”, que era sua parceira desde 1908 e cuja arte residia nos pratos que preparava, e apesar do título, tudo saiu das mãos de Gertrude, cuja intenção seria escrever aqueles acontecimentos sob o teto do sobrado com tanta gente então famosa sob a ótica de Alice. Sem apelar para estilos rocambolescos e abandonando sua guerra pessoal contra o uso de vírgulas, a narrativa convencional se tornou um sucesso, já que se tratava basicamente de fofoca com um monte de artistas de renome, e é claro, sem esquecer de por Gertrude no seu devido lugar, já que “Alice” decreta, nas primeiras linhas, que só reconhecia três gênios: Gertrude Stein, Pablo Picasso e Alfred North Whitehead. Nessa ordem. Nem todos gostaram do retrato pincelado pela velha matrona, seu irmão afirmou que era quase tudo mentira e Hemingway esperaria três décadas para revidar, dessa vez não com cruzados de boxe, e sim no romance “Paris é uma Festa”, onde ele dá sua versão daqueles anos e Gertrude é descrita em tons pouco lisonjeiros. Como Gertrude cometeu a indelicadeza de morrer em 1946 privando Hemingway de uma réplica ou opinião,
Gertrude aproveitou a tardia fama e até chegou a voltar ao seu país de origem, décadas após tê-lo trocado pela França, mas voltou para seu sobrado, de onde ainda viria os nazistas brincarem de passo de ganso nas ruas de Paris até serem expulsos pelas forças aliadas. Da Rue de Fleurus ela só sairia morta, o que aconteceu em 1946, deixando uma viúva, uns poucos quadros daqueles tempos e um puta de um legado cultural para o ocidente.
Por uma dessas gozações do destino, esse fanfarrão, sua eterna amante e “autora” de seu livro de maior sucesso, Alice B.Toklas, sempre esteve à margem do agito cultural no qual Gertrude estava enfurnada, mas após a morte dela, Alice viria a escrever e publicar um livro: “The Alice B Toklas Cookbook”. Sim, um livro de receitas. Até porque comer é também uma arte, principalmente em Paris.
Olim-piadas de Inverno – Agora Vai

Aproveitando esse clima de Jogos Pan-americanos, nada mais oportuno do que trazer de volta aquela sensata campanha para que as Olimpíadas de Inverno sejam trazidas para a nossa terrinha. Mesmo sem conseguir emplacar Patos como sede para os jogos de 2014 e 2018, não desistiremos, e desde já lancemos novamente a candidatura para o ano de 2022. E, mais uma vez, o principal argumento para viabilizar tal candidatura é que, se os governos Estaduais e Federais acham que nesse curto espaço de tempo conseguirão resolver todos os problemas de infra-estrutura e segurança pública até a data dos jogos, nada mais fácil do que fazer nevar no sertão da Paraíba. E ainda mais com um prazo tão esticado. E se a qualquer disfunção noticiada na grande imprensa tem sempre alguém reclamando de que “é esse o país que vai sediar a Copa e as Olimpíadas?”, sugiro que visite a cidade de Patos e se pergunte como aquela cidade sediará uma Olimpíada de Inverno. Mas se daqui pra 2014 e 2016 teremos transporte público eficiente, aeroportos estruturados e criminalidade controlada, não duvide de que haverá patinação no gelo em pleno açude de Condado.

Por um Punhado de Latinhas

Nota do Blodegueiro:Semana passada tive um estranho sonho cujos pormenores são muito lisérgicos pra relatar, mas em uma parte dele me vi em uma loja diante de uma edição especial de CD do Celso Blues Boy com capa de couro e outras cositas. No sonho acabei não comprando porque custava mais de setenta pratas – até em sonho continuo sovina – mas serviu para resgatar a lembrança do artista e um texto inconcluso na minha pasta de pendências. E qual a minha surpresa ao pesquisar no dia seguinte e descobrir que, após um longo hiato de doze anos, há um disco novo dele na praça, intitulado “Por Um Monte de Cerveja”. Regozijado pela novidade e pela intervenção divina de algum santo da Igreja de Eric Clapton que me “avisou” desse retorno, e aproveito para finalmente apresentar aos frequentadores dessa Blodega aquele que é considerado o pai do Blues com sotaque brasileiro.
No meio daquela orgia musical do Rock Nacional da primeira metade dos anos 80, quando alguma banda nova, normalmente influenciada pelo Punk ou pelo New Wave, era lançada ao sucesso a cada semana graças a algum clipe tosco exibido no “Fantástico” ou pagando jabá no “Cassino do Chacrinha”, o Blues até que tentou – e conseguiu – um lugar ao sol no Hit Parade brazuca, nem que fosse através de seu filho bastardo mais famoso, o Rock’n’Roll. E quem deu nosso sotaque a este Rock com cheiro de Blues Elétrico foi o guitarrista carioca Celso Blues Boy, cujo nome artístico é uma homenagem à B.B King, seu ídolo confesso e com quem já tocou.
Na estrada desde os anos 70 acompanhando artistas conhecidos como Raul Seixas, Sá & Guarabira e Luiz Melodia, Celso foi guitarrista nas bandas Legião Estrangeira e Aero Blues antes de ter a chance de lançar seu primeiro álbum por uma grande gravadora em 1984, “Som na Guitarra”, cuja faixa “Aumenta que Isso Aí é Rock’n’Roll” se tornou um sucesso naqueles tempos. Outras músicas desse disco se tornariam conhecidas e constantes em seu repertório: ”Blues Motel”, “Fumando na Escuridão”, “Tempos Difíceis” e “Brilho da Noite”. No decorrer dos anos 80 outras músicas de sua discografia se tornariam conhecidas do grande público de então: “Marginal”, “Damas da Noite” e “Sempre Brilhará”.
No início dos anos 90, grava seu primeiro disco ao vivo, porém o mercado fonográfico dessa década não é nada generoso com o velho rock brazuca, que é relegado às prateleiras empoeiradas para dar espaço à música sertaneja e ao axé music. Mesmo em um cenário pouco favorável lança os álbuns “Indiana Blues”, “Nuvens Negras Choram” e “Vagabundo Errante”, que contém poucas inéditas misturadas a regravações de seus sucessos com outros arranjos e alguns covers. Meu disco preferido é exatamente o “Nuvens Negras Choram”. Nesse disco, Celso soa mais gutural em sua voz, e a execução das músicas está excelente. Além de ótimas inéditas, como a música que dá título ao disco e “Sucata”, há uma revisita mais lenta, melódica e – por que não dizer – melhor a duas de suas mais conhecidas músicas, “Brilho da Noite” e “Fumando na Escuridão”, além de dois covers, um de “Bring it on Home to Me” e o outro do clássico de Cartola, “As Rosas Não Falam”, que ficou excelente nesse formato. No geral, este disco é menos festivo e mais melancólico e melódico, se comparado aos de sua discografia da década anterior.
Durante os anos 2000, o guitarrista não lançou nenhum disco de estúdio e se estabeleceu em Santa Catarina, afastando-se das gravadoras, porém mantendo uma agenda de apresentações. Ainda gravaria um CD e seu primeiro DVD ao vivo em 2008, “Quem Foi que Falou que Acabou o Rock’n’Roll”, provando que dinossauro que anda ainda faz o chão tremer.
Vivendo em Joinville nestes últimos anos, ele pode se dedicar a compor e criar novos arranjos sem a urgência de gravar e lançar novos trabalhos. Pelas informações dos releases e entrevistas concedidas, Blues Boy explica este longo hiato como uma maneira de tentar recuperar o frescor da época de lançamento de seu primeiro álbum, fugindo das pressões oriundas das gravadoras e do cenário artístico carioca, que por vezes o fazia entrar em estúdio meio que a contragosto.
Todavia, Blues Boy “culpa” o vocalista Tico Santa Cruz, da banda Detonautas, por arrancá-lo desse exílio auto-imposto, pois em um encontro casual, o jovem roqueiro e fã confesso do trabalho de Celso o convenceu a voltar a gravar, usando sua banda como apoio, e cujo resultado é o CD “Por um Monte de Cerveja”, lançado há algumas semanas, sendo seu primeiro trabalho em estúdio após longos 12 anos.
O resultado é um disco bem-humorado e contagiante, com letras por vezes irônicas ou melancólicas, acrescidos de ótimos solos de guitarra, e corre o risco de tomar o lugar de “Nuvens Negras Choram” como meu preferido. A música-título, onde predomina o piano na introdução, é forte candidato a se tornar o hino oficial de muito conhecido meu. Há ironia de sobra em “Odeio Rock’n’Roll” e “A Vida Faz Mal à Saúde”, e uma gozação misturada com homenagem na divertida “Beth Carvalho Quer Comprar o meu Fuscão”, cuja letra faz referência a música “Coisinha do Pai”. Há tons mais tristes e uma gaita que remete a Neil Young em “Ele Sabia que as Luzes se Apagam”, uma levada Country em “Toneladas de Solidão” e uma homenagem nostálgica a cidade de Blumenau, onde foi criado, em “Conversando com Horácio Braun”. Ainda estou digerindo as 13 faixas, mas posso garantir que gostei bastante, já que o escuto ad nauseaum há dias e não consegui enjoar. Au contraire. E para quem quiser apreciar sem moderação, no site oficial as faixas do álbum estão disponíveis para ouvir on-line, e abaixo deixo para ouvirem “Por Um Monte de Cerveja”, que aconselho ouvir regado com sua cerveja preferida. Com sorte, seu vizinho gritará “Aumenta que isso aí é Rock’n'Roll, porra!”
Onde Andará McGyver

(mais um textinho reciclado dos tempos do Busilis)
Antes de Mais Nada:Quem é McGyver?Ora, todos de minha geração já ouviram falar de McGyver. Mas você, que nasceu na geração Pokemon, provavelmente não conhece o mago do improviso, que salvava o mundo toda a semana sem dar murros ou disparar armas de fogo. Portanto, uma breve introdução: McGyver é um cidadão com formação científica que se tornou agente de uma organização do governo americano chamada Fênix. E foi praticamente por acaso, pois seus conhecimentos de física e química e sua capacidade de improvisação impressionaram Peter Torton, o manda-chuva da Fênix, que o empregou após ter sido ajudado por ele em uma missão contra o assassino Murdock, que se tornou o arqui-inimigo de McGyver. Por sinal, o chato do Murdock é que era a verdadeira fênix, pois sempre voltava dos mortos e eventualmente aparecia para tentar matar o McGyver, mas sempre se estrepava no final, seja caindo de um barranco em um carro, despencando de uma montanha ou dentro de um prédio implodido, mas sempre gritando, puto da vida, o nome daquele que sempre frustrava seus planos: “MCGYVER!!!!”
McGyver se tornou um agente e um herói atípico. Suas únicas armas eram um rolo de fita adesiva e um canivete suíço Victorinox, além de seu profundo conhecimento de física e química, que permitia que ele improvisasse e salvasse o mundo das formas mais improváveis possíveis. Ele poderia deter um vazamento tóxico com barras de chocolate, desmontar bombas com canudos, soldar usando moedas como eletrodos, consertar radiadores furados com ovos, fazer explosivos com detergente…O bicho era fodão, mesmo. E ele raramente usava de força física contra seus inimigos. Até porque, sempre que tentava dar um murro em algum elemento, faltava pouco pra quebrar o pulso. E também não matava os bandidos, que se morriam, eram por seus próprios atos. O cara era uma antítese completa do estereotipo do herói musculoso e violento, que resolve os assuntos na porrada. E, como de praxe, ele não comia ninguém nos episódios.
Mas, cadê o homem?
Após sérias investigações, chegamos a hipótese mais provável: a organização Fênix teria sido desativada por Bill Clinton quando este assumiu a Presidência dos Estados Unidos, deixando um monte de gente desempregada. McGyver tentou um trampo como professor de cursinho, mas o salário era uma bosta e seus alunos piores ainda.
Com a grana curta e a paciência mais curta ainda, McGyver largou aquela vida de bom moço e mandou seu patriotismo ao caralho. Já que seu país não mais o valorizaria, ele iria oferecer seus serviços a quem melhor pagasse. Por isso, o jovem cientista levou seus conhecimentos para o Oriente Médio, e passou a desenvolver armas para o Iraque.
Todo mundo acusou George W.Bush por atacar o Iraque sem motivo, já que não foram encontradas armas de destruição em massa no país. Mas o grande segredo é que o engenhoso McGyver desenvolvera uma técnica inédita para desenvolver matéria-prima para bombas nucleares, devido à ausência de urânio enriquecido: cobaias escolhidas por sofrerem de câncer e passarem por seções de radioterapia eram selecionadas, e suas fezes recolhidas. Usando uma centrífuga improvisada de um carrossel de parque de diversões, eles separavam a bosta dos elementos radioativos, que eram coletados e guardados. Como a produção estava a um ritmo pequeno, o governo iraquiano passou a importar secretamente comida mexicana e baiana, que além de aumentar a produção de “material”, adicionava poder explosivo ao mesmo.
É claro que quantidades enormes de Tacos, Vatapás e acarajés sendo contrabandeadas para um país muçulmano não passaram despercebidas pelos serviços de inteligência americana. Logo, o governo dos EUA descobriu o plano de Saddan Hussein, mas os detalhes não vieram a público, devido ao alto segredo envolvido, e porque a história seria ridícula demais para ser levada a sério. Daí a história de armas de destruição em massa e os planos para se invadir o Iraque.
Durante a invasão, as tropas americanas estavam procurando, além de Saddan Hussein, o ex-agente da Fênix. Este chegou a ser pego, mas conseguiu fugir dos Marines usando uma faca Ginsu e um par de meias Vivarina, escapando através da fronteira com o Irã. Seu atual paradeiro é ignorado, mas ele está sendo mais procurado ainda do que foi o Bin Laden, pois se suspeita que ele tenha levado seus planos de construir armas nucleares a partir de merda para o Irã.
Mas há outra versão para os fatos. Ele teria espalhado este boato para desviar a atenção da mídia, pois ele viera ao Brasil, achou tudo muito bom e mandou aquela vidinha bunda para lá. Agora ele quer é saber de passar o rodo em vagabunda e encher a cara de cachaça, e que aderiu ao Funk Carioca e atende pelo nome de M.C. Gyver. E seus improvisos são apenas usados em brincadeiras de mesa de botequim. Dizem até que ele fez as pazes com Murdock, que também está escondido nesta terra abençoada por Deus, bonita por natureza e que serve de esconderijo pra um bando de filho da puta…Os dois até fazem churrasco em fim-de-semana, com direito a banho de mangueira e pagode na laje. È claro que, quando falta carvão, McGyver usa técnicas secretas para reagrupar moléculas de carbono de estrume de vaca…
Ah, no fim das contas, McGyver está mesmo é no Twitter, dando dicas. É só segui-lo pra saber onde anda e o que fazer caso esteja trancado em um porão cheio de sucata…
O Parto da Escrita

Não mais satisfeito em dar as desculpas de praxe pra justificar as poucas atualizações da Blodega, decidi compartilhar um pouco da agonia e êxtase no ofício da escrita, o que acabou, no fim das contas, a parir um novo texto. Quem frequenta aqui sabe que raramente eu posto apenas fotos ou vídeos (isso eu deixo para nosso puxadinho no Tumblr ou nosso twitter), e quando o faço há algum texto acompanhando, não nos limitando a replicar algo que já deve ter sido reproduzido em inúmeros blogs antes do nosso. E manter um ritmo de produção constante acaba não sendo muito viável, por mais que isso acabe espantando a clientela, e nem sempre replicamos hypes instantâneos pra atrair visitas. Por isso garanto que dificilmente teremos sanduíche ginecológico por aqui, além das eventuais musas penduráveis, no máximo algumas rodelas de salame pra acompanhar uma cervejinha.
Na verdade, manter essa blodega é mais uma forma bizarra de terapia, algo entre um passatempo inofensivo e um vício patológico adquirido após passar alguns anos colaborando com o colega e compadre Tio Xiko em suas empreitadas jornalísticas virtuais, denominadas Crazy Man e, posteriormente, O Busilis. Porém, naqueles tempos, a frequência com a qual nós atualizávamos o site era de uma eficiência taylorista ,se comparada a minha atual produção na Blodega, cujos 14 clientes esperam com uma paciência de Jó por alguma atualização. Claro que, além da natural simbiose entre dois malucos com ideias esdruxulas e a pressão por parte dele em cumprir prazos e preencher a pauta da semana, os hectolitros de cerveja ingeridos lubrificavam as prensas cibernéticas.
Não obstante, preciso admitir publicamente que, por mais catártico que possa parecer, escrever não é exatamente algo fácil. Na maior parte das vezes, escrever é um parto a fórceps de uma criança com as pernas abertas – todas as três. E não estou sozinho nessa opinião, pois escritores profissionais, sérios e de verdade compartilham dessa ideia. Segundo Thomas Mann, o escritor é aquele para qual escrever é mais difícil que para os demais, e para William Faulkner não havia meio termo em relação a escrever: ou é fácil ou impossível. Até mesmo o xodó dos leitores nerds, Douglas Adams, sofria o diabo pra parir os livros da série “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, normalmente estourando prazos fatais e protelando ao máximo a conclusão. Para ele, “Escrever é fácil. Tudo o que você tem a fazer é ficar olhando fixamente para uma folha em branco até a sua testa começar a sangrar”. Nem sempre a inspiração vem, ou em termos poéticos, você quer ter uma transa legal com sua musa e ela alega uma dor de cabeça, e a única coisa que ela irá foder é com sua paciência, se insistir. Nesses casos é melhor não forçar a barra, mesmo, ou prefere violentar sua musa? Aconselho a não fazê-lo. Tem uma história de “Sandman” na qual um escritor faz isso literalmente, e acreditem, o resultado não é nada agradável.
E quando você está até inspirado, com uma boa ideia e diversas anotações e rascunhos em seu caderno preto, mas por esse ou aquele motivo você não consegue parar para executar o serviço? As tarefas da vida real, que de viés, tende a nos puxar pela orelha sem maiores cerimônias, acabam nos fazendo protelar as tarefas que julgamos menos prioritárias se comparadas a acertar as contas com o dentista das crianças ou o dever quase cívico de varrer de volta o lixo que o chato do vizinho insiste em deixar na sua calçada. E escrever acaba ficando na rabeta da lista de prioridades, principalmente quando isso é encarado mais como passatempo do que um ganha-pão, de fato. Daí que meu caderno preto anda cheio de ideias e rascunhos não conclusivos e a pasta de textos incompletos está cada dia maior
Mas falando sério, a harmônica vida doméstica acaba gerando tanta distração que, na maior parte do tempo, inviabiliza a concentração e desapego necessário a sair um texto decente. Creio que os grandes escritores da literatura universal deveriam viver em lares infelizes nos quais não se sentiam obrigados a dar atenção a esposa, filhos e atendentes de telemarketing, sendo quase imprescindível que se tornassem misantropos, escrotos e com sérios problemas estomacais, algo no qual fracassei miseravelmente em me tornar, apesar de insistentes tentativas nas décadas passadas. Ou quase fracassei, já que meu estômago insiste em me lembrar de pegar leve nos temperos e nas bebidas. Mas se a alternativa é me foder em verde e amarelo pra apurar a escrita, prefiro deixar quieto e me virar com o que tenho.
Não que me considere um grande artífice das palavras. Mesmo tendo aperfeiçoado durante estes anos a brevidade na escrita para uma mídia que tem pouca tolerância à prolixidade, ainda me pego enchendo laudas com o entusiasmo inversamente proporcional ao do pobre que se aventurar a lê-las – como estou exatamente fazendo agora, devo supor. Também peco em não fazer uma revisão decente em meus textos, já que na urgência de soltar a coisa para o mundo – ainda falo do texto, e não de flatos, não obstante por vezes ambos serem indistinguíveis – acabo deixando uma série de rebarbas que passam batidas ao olhar pouco atento do pai desleixado da criança feia. E haja palavras repetidas, frases com uma palavra a mais ou a menos, concordância que manda lembranças a última Flor do Lácio ou meros erros de digitação que sobrevivem incólumes ao revisor ortográfico. Eis que meu sonho de consumo para a Blodega é contratar uma revisora. Sim, revisora, portadora dos genes XX, de preferência jovem e sadomasoquista, a quem eu possa castigar sempre que deixar algum texto com erros grotescos ser publicado, e os castigos invariavelmente envolveriam o uso de roupas de latex, algemas e chicotes, tudo para que ela seja mais atenta no futuro.
E depois de tamanho arrazoado, se você teve capacidade volumétrica escrotal suficiente para chegar até este ponto do texto, pode me perguntar por que ainda escrevo, já que não estou sendo remunerado para isso. Citando H.L. Mencken, escrever seria uma alternativa sensata e dentro da lei dos países civilizados a outras maneiras menos ortodoxas de se expressar, como gritar desafios em praça pública, rodopiar sobre a cabeça de transeuntes ou – melhor ainda – raptar um funkeiro de ônibus e obrigá-lo a ouvir ad infinitum a trilha sonora de “Cisne Negro” vestido a caráter, obviamente com um Colt Python apontado para sua cabeça. E por mais que essa última alternativa seja tentadora, ficarei com meus escritos, por mais de rosca que seja produzi-los.
Premiações Ignóbeis

Essa semana saiu a lista da lista de premiados do Ig Nobel, que para quem não conhece, é uma espécie de paródia do Prêmio Nobel, organizada pela revista Annals of Improbable Research e que “premia” artigos e pesquisas esdrúxulas ou de utilidade, no mínimo, questionável. Ou como diz o lema: “são prémios que nos fazem rir e, depois, nos fazem pensar”. Há até cerimônia para entrega dos prêmios aos que tiverem cara de pau de comparecer. Para se ter uma ideia do nível da coisa, esse ano o Ig Nobel de Matemática foi para uma série de profetas do apocalipse que “previram” o fim do mundo nessas últimas décadas,o da Paz foi dado aquele prefeito lituano maluco que atropelou com um carro de combate um veículo estacionado irregularmente e o de química para japoneses que inventaram um alarme que emite o forte cheiro de wasabi. Mas já teve coisa bem pior em edições, como físicos que estudaram a dinâmica do bambolê, biólogos que descobriram uma variedade de peixes que se comunicavam por peidos, inventores que patentearam cueca com filtro de carvão ativado pra aliviar o odor de flatos e sutiãs que se transformam em máscaras contra gases, ou pesquisadores que relacionavam o hábito de ouvir música Country a altas taxas de suicídio. E até o inventor do karaokê já ganhou o Ig Nobel da Paz em edições passadas. Querendo ver a lista completa desse ano, fique à vontade . E como o prêmio existe desde 1991, vocês podem navegar no site e ver a criatividade humana em seus piores momentos.
Mas o Ig Nobel não é a única premiação bizarra existente que brinda as qualidades humanas não tão nobres ou edificantes. No velho Crazy Man, quem era especialista nessa área era o colega que assinava sob o pseudônimo de Mariposa Apaixonada de Guadalupe Jacaré Jacuzzi. Reciclando suas anotações, faço um resumo de mais alguns concursos estranhos para apreciação dos que se debruçam nesse balcão virtual
Comecemos com o Darwin Awards, uma homenagem à Teoria da Evolução que parte da premissa de que a natureza ajuda na melhoria da raça humana removendo os mais tapados da espécie, seja através de morte ou incapacidade deles passarem seus genes adiante, provocada por alguma ação estúpida desencadeada pelos próprios indivíduos. Criado por um estudante de biologia de Berkeley, a premiação se tornou popular na Internet, já que voluntários de todo mundo enviam notícias dos mais absurdos acidentes para serem julgados, terem a veracidade confirmada e concorrerem a morte mais imbecil do ano. Mesmo aqueles casos que não atendem aos requisitos da premiação – morte ou capação do tapado envolvido, por exemplo – caem na categoria “menção honrosa”, caso a história seja tão interessante quanto a do desocupado que alçou voo em uma espreguiçadeira amarrada a um balão meteorológico. E mesmo aquelas cuja veracidade não é comprovada, mas é tão absurda e criativa que cai na categoria “lenda urbana” – caso clássico do mergulhador misteriosamente achado no meio de uma floresta incendiada após supostamente ter sido apanhado por uma aeronave de combate a incêndio que captava água no lago em que o azarado mergulhador estava.
Tem muita história tragicômica, como a do aluno de artes marciais que resolve trocar tapa com um leão do zoológico, dos cachaceiros cambojanos que resolvem brincar com uma mina terrestre, da cavalgadura americana que foi brincar de roleta russa com uma pistola semiautomática, dos terroristas palestinos distraídos que se explodiram por não acertarem o relógio com o horário de verão, o bandido que tentou assaltar uma loja de armas cheia de funcionários e um policial armados, o padre brasileiro que alçou voo com bexigas e caiu no mar…Tudo isso como um verdadeiro monumento a infinita capacidade humana de fazer merda.
Todo esse material resultou em diversos livros com o relato das histórias e inspirou uma ótima comédia intitulada “The Darwin Awards”, estrelada por Josef Fiennes e Winona Rider, sobre um perito da polícia que se torna obcecado pelos casos do prêmio Darwin. E muitos dos casos que aparecem no filme se baseiam em algumas das histórias do prêmio, como o gênio que colocou um foguete em seu carro ou os malucos que se foderam legal ao tentar entrar de graça em um show de Heavy Metal. Em português só foi lançado o primeiro livro da série, e até onde eu sei o filme é inédito no Brasil, o que não o impedirá de assisti-lo, obviamente.
O próximo é um monumento a cara-de-pau de alguns indivíduos que querem se dar bem usando o sistema legal ao seu favor. O Stella Awards laureia os advogados e clientes mais picaretas. O nome é uma homenagem a uma velha senhora
que processou o MacDonalds por ela ter derramado café quente no colo durante um atendimento no drive-thru, pedindo uma indenização milionária. O prêmio era promovido por um semanário de notícias bizarras “This is True” como uma espécie de alerta contra os abusos cometidos por advogados inescrupulosos e clientes oportunistas no sistema judiciário. Infelizmente desde 2007 que eles não atualizam mais nenhum caso, porém no site há o registro dos anos anteriores a este. Eis alguns exemplos:
- Uma mulher que teve um ataque cardíaco por não seguir as orientações do seu médico o processou por não ter sido mais persuasivo a convencê-la em adotar hábitos saudáveis
- Um policial, após atirar em um prisioneiro com sua pistola de serviço ao invés de usar a arma de choque, processou o fabricante do Taser por induzi-lo ao erro em confundir ambas as armas
- Duas irmãs que processaram uma equipe médica que socorreu e salvou sua mãe durante um procedimento simples que deu errado, alegando que aquilo teria traumatizado A ELAS
- Um indivíduo atingido por um raio enquanto estava no estacionamento de um parque durante uma tempestade processou o parque por não tê-lo alertado para o risco que corria
- Um juiz que teve uma calça perdida na lavanderia processou-a em 65 MILHÕES de dólares em indenização
Divertidas também são os casos falsos que circulam por aí, inclusive em português. O site alerta pra não se espalhar estas versões, até porque a realidade sempre acaba superando a ficção em termos de absurdo.
E falando em ficção, vamos ao Framboesa de Ouro .Criado por um crítico de cinema nos anos 80, o “Golden Raspberry Award” ou “Razzie Award” é um contraponto ao Oscar, e anualmente escolhe os piores em diversas categorias do cinema americano. O que começou como uma brincadeira entre os críticos cresceu e ganhou tanta notoriedade quanto o principal prêmio cinematográfico. Tradicionalmente entregue um dia antes da cerimônia do Oscar, anualmente as pérolas que Hollywood produz às toneladas recebem seu merecido prêmio em diversas categorias. Como no Festa da Academia, há também uma cerimônia, e às vezes o “premiado” ainda tem a coragem de ir pegar o prêmio, como foi o caso de Halle Berry em 2005, que foi pessoalmente pegar seu troféu por pior atriz em “Mulher Gato”, ou Sandra Bullock por “Maluca Paixão” em 2010. Um dos atores mais laureados é o veterano Sylvester Stallone, que já soltou cobras e lagartos contra os críticos da Razzie. Até Presidentes Republicanos concorreram e ganharam o prêmio de pior ator, como Ronald Reagan pelo conjunto da “obra” e George W.Bush pela sua participação no documentário “Fahrenheit 911”.

Na última premiação o grande “vencedor” foi “O Último Mestre do Ar” como pior filme, roteiro,diretor e ator coadjuvante, seguido de “Sex & the City 2”, como pior atriz principal (todas as quatro) e pior continuação. Considerando a quantidade de filmes ruins que estão sendo lançados este ano, na premiação dos próximos amos a disputa será cada vez mais acirrada…










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