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As Maiores Produções do Cinema que Jamais Veremos

Mas muito do que às vezes fica no terreno da conjectura de muito cinéfilo chegou perto de ser realizado, ou ao menos esboçou uma reação de sair do papel para o celuloide. Mas cinema é brincadeira de gente grande, e com muita grana. E às vezes nem mesmo a vontade de algum diretor renomado é suficiente para convencer algum produtor executivo de coração a gelado abrir a mão e produzir seu projeto. Aliás, raramente algum produtor abre a mão facilmente, mesmo que o diretor com a ideia na cabeça, a câmera em uma mão e o pires na outra seja daqueles cujo nome costuma estar associado a ótimos filmes. E a quantidade de projetos que morreram no nascedouro ou que até chegaram a cumprir as etapas de pré-produção daria pra encher alguns livros. Tanto que enchem. Títulos como “The 50 Greatest Movies Never Made” ou “The Greatest Sci-Fi Movies Never Made” são feitos do mesmo material que os sonhos, sonhos que nunca conseguiram financiamento para se tornarem concretos. Vamos saber agora um pouco do que estamos perdendo e que nunca veremos.
- O campeão de projetos não realizados entre os diretores renomados é Orson Welles. Apesar de sua fama de garoto-prodígio e de estrear na direção criando um clássico, “Cidadão Kane”, entre os donos de estúdio ele ganhou fama de difícil e de nunca concluir um projeto antes de partir para outro. Isso dificultou sua vida e dezenas de projetos que tinha em mente nunca saíram do papel, ao menos não por suas mãos. Pense em algum clássico da literatura universal, e há grande chance de que Welles quis adaptá-lo ao cinema e que tenha esboçado um roteiro para tanto. Imagine “Dom Quixote”, “A ilha do Tesouro”, “Ardill 22”, “Lord Jim”, “Carmen”, toda a obra de Shakespeare e até passagens da Bíblia e teremos uma coleção de grandes filmes que nunca foram feitos, ao menos não por um gênio como Welles. Alguns desses livros se tornaram filmes, nem sempre com um resultado acima do burocrático. Ironicamente o filme de estreia de Welles seria uma adaptação de “No Coração das Trevas”, a obra-prima de Joseph Conrad. Mas a II Guerra Mundial restringiu o mercado consumidor e obrigou os estúdios a apertarem os cintos. Nesse meio tempo, Welles “cometeu” apenas “Cidadão Kane”, e seu projeto acabou nas mãos de outro diretor, décadas depois, um tal de Francis Ford Copolla, que levou a história da África para o meio da Guerra do Vietnã ( e um monte de gente à beira da loucura) e fez “Apocalipse Now”
- E falando em Copolla, é um exemplo claro da geração dos diretores dos anos 70 com liberdade criativa para emplacar projetos pessoais, mas que no fim das contas preferiu produzir e dirigir grandes produções de retorno garantido, mas não necessariamente geniais. Mas o seu grande projeto nunca concluído seria uma adaptação do livro “Pinóquio”, do italiano Carlo Collodi, que já teve inúmeras versões em live action e em desenho animado, sendo a mais famosa a de Walt Disney, de 1940. Mas o projeto de Copolla era ambicioso. E caro pra dedéu, para o espanto da Warner, que arquivou o projeto. Furioso, o cineasta tentou levar seus planos para outro estúdio, mas a coisa acabou em um grande quiproquó jurídico entre o estúdio e o diretor. Frederico Fellini também planejou filmar a história, mas morreu sem realizar este projeto, que hoje está nas mãos de Roberto Benigni e previsto para ser lançado no fim desse ano.
- Para os fãs dos grandes musicais da MGM, Vincent Minelli planejou sua aposentadoria triunfal no fim dos anos 60 na forma do filme “Say it With Music”, que reuniria um time dos sonhos do gênero: produção de Arthur Freed, canções de Irving Berlin, coreografia de Bob Fosse, elenco composto por Fred Astaire, Sophia Loren, Brigitte Bardot, Ann-Margret e Julie Andrews. Mas a Metro já não era a Metro dos grandes musicais em 1968, e o projeto foi pro saco, para tristeza dos amantes dos musicais.
- O perfeccionista Stanley Kubrick, antes de dirigir “Laranja Mecânica”, quis filmar a história de Napoleão, que poderia ter sido o grande projeto de sua vida. Durante a fase de pré-produção, Kubrick tendo reunido material sobre Napoleão suficiente para encher mais de 80 caixas. Para o elenco ele escalou atores do quilate de Peter O’Toole, Alec Guinness, Jean-Paul Belmondo, Audrey Hepburn e Jack Nicholson. Ele chegou a percorrer boa parte da Europa em busca de um cenário perfeito para sua história, que envolvia nada menos do que dezenas de milhares de extras para as cenas de batalha. Imaginem uma panorâmica mostrando um campo de batalha com uns 70 mil soldados e uns outros milhares de cavalos. Imaginou? Os produtores também, e imaginaram logo em seguida o pesadelo logístico e a fortuna necessários para realizar o sonho de Kubrick. E mesmo o doido do ditador romeno de então, Nicolai Ceaucescu, prometendo mobilizar o exército para viabilizar a cena só para que o filme fosse feito em seu país convenceu alguém a assinar os cheques. Muito pelo contrário, só outro doido pra topar esta ideia. Como sabemos, o filme jamais foi feito, mas quem quiser ter uma ideia de como poderia ter sido basta desembolsar uns 500 euros e adquirir uma edição da Taschen que reúne o material que Kubrick pesquisou e juntou para escrever e dirigir o filme. E hoje, assistindo a produções como “O Senhor dos Anéis”, constatamos que a tecnologia atual prescinde de tantos extras para compor a cena imaginada por Kubrick. Infelizmente ele cometeu a indelicadeza de morrer antes da cibernética acompanhar sua imaginação, e fomos privados de mais um filme grandioso.
- Mas senso de oportunidade é algo que faltou a muitos projetos, sendo talvez o mais inadequado, digamos assim, a ideia de se adaptar para as telas o livro de Adolph Hitler, “Mein Kampf”. Em 1941! Alfred Hitchcok seria o diretor, isso se não fosse o detalhe de que o próprio Departamento de Estado Americano não ter se agradado muito do projeto, mesmo com o argumento que o mentor desta (David Selznick) era judeu e que o filme seria anti-nazista.
- Claro que tinha coisa que ninguém poderia levar a sério. Billy Wilder, um dos grandes diretores da “velha Hollywood”, vez por outra esboçava algum argumento maluco para o roteirista que estivesse trabalhando com ele no momento, mas este normalmente tinha o bom-senso (ou não, vai saber) de ignorar a ideia. Um argumento folclórico de Wilder envolvia a criação de uma fórmula para a arma definitiva, e seu inventor a tatuava no próprio pênis. Como a fórmula só podia ser lida com o pênis ereto, a CIA treinava um agente para se fingir de bicha e conseguir a fórmula. Até que seria um filme interessante, principalmente se soubermos que Wilder tinha em mente para os papéis do cientista e agente os atores Wood Allen e Charles Bronson. Mas Wilder teve planos mais viáveis que deram com os burros n’água, infelizmente. Seu projeto de “Um Dia na ONU” traria do limbo os irmãos Marx que ainda estivessem por perto: Grouxo, Harpo e Chico. Mas em 1960 manter um comediante veterano vivo não era fácil, e aí o projeto degringolou quando Chico bateu as botas, logo após um enfarte de Harpo.
- Nos anos 90 a Warner quis ressucitar a franquia do Super-Homem no cinema, e contrataram Kevin Smith, um assumido fanboy e nerd, para escrever um roteiro. A história que Smith escreveu era o sonho de todo fã de quadrinhos, pois procurava ser fiel à história e ao personagem. Ele escolheu especificamente os arcos envolvendo a morte e o retorno do personagem, um episódio bem comentado pela mídia na época. Se o roteiro de Kevin Smith fosse seguido, certamente teríamos o melhor filme sobre o personagem, com forte potencial para superar o filme de Richard Donner, de 1977. O filme dos sonhos dos nerds, em uma época árida de boas adaptações de personagens de quadrinhos. Mas o sonho virou pesadelo e o caldo desandou quando Tim Burton entrou no projeto e quis impor sua visão particular, como mudar os poderes do personagem (que não voaria e teria poderes elétricos) e a história como um todo. O produtor John Peters também interferiu na história, principalmente para tentar incluir elementos de merchandising na história. Graças a Deus, desta vez a Warner teve o bom senso de arquivar essa mixórdia.
- Pra não dizerem que não falei do Brasil, o mais notório caso de filme não concluído é a adaptação da biografia do jornalista paraibano Assis Chateaubriant escrita por Fernando Morais, iniciada em 1995. Só que aqui o problema não foi falta de grana, e sim excesso, ao menos na visão do Ministério da Cultura. À frente do projeto, o estreante na direção Guilherme Fontes captou cerca de 36 milhões em recursos públicos, mas não concluiu o filme dentro de um período razoável, e nos últimos anos se viu envolvido em processos que o obrigavam a devolver os recursos e até o condenaram em um processo por sonegação fiscal. Mas nesse caso ainda há uma chance de um dia esse filme dar às caras. Se vai prestar, aí já são outros quinhentos. Quinhentos mil reais, diga-se de passagem.
Blogday 2010

Passando rapidinho na Blodega só para não deixar o Blogday passar em branco. Como de praxe, indico cinco outros blogs para que meus 13 leitores prestigiem também. Sem enrolar muito, vamos a eles:
- Apesar de normalmente dar preferência por divulgar sites menos conhecidos, não poderia deixar a oportunidade de avisar aos navegantes que o senhor Nelson Morais, o maior contrabandista de trocadilhos do Atlântico, voltou com uma nova versão do Blog Ao Mirante Nelson. Apesar dele mesmo ter escrito no seu antigo blog que não existe ex-blogueiro, ele ficou alguns meses fora desse vício, mas acabou voltando. Bem-vindo de volta, então. E aproveitem que é um blog bem fresquinho -no bom sentido, obviamente.
- O Nerds Somos Nozes eu indiquei ano passado, mas este ano vou indicar novamente. Primeiro por ser um ótimo blog que não se limita a republicar releases de filmes hollywoodianos ou boatos bestas que alimentam o hype sobre produções em curso. Lá há uma variedade de assuntos abordados, e com uma profundidade maior do que a geralmente vista em outros blogs. E justamente hoje eles publicaram um texto cometido por este blodegueiro que vos fala.
- Ainda dentro do universo nerd, um blog que mostra o “lado negro” deste universo, com textos polêmicos e provocativos. Este é o Nerdevils. Um dos comparsas é também editor do NSN, O Filipe Siqueira, também conhecido nas esferas arcanas como Voz do Além.
- O Farrazine é um blog dedicado a divulgar a revista virtual de mesmo número, e aproveito que sua edição mais recente foi disponibilizada há poucos dias para divulgá-la também. Vão lá e baixem-na. Informação e entretenimento naquele precinho.
- Por fim, uma relativamente novata nesse mundo dos blogs, a jovem Acullen e seu blog Don’t Panic. Apesar da referência à Douglas Adams e ao “Guia do Mochileiro da Galáxia”, o foco de seu blog são suas experiências com a sétima arte, resenhando e divulgando diversos filmes dos mais variados gêneros e anos de produção.
Bem, é isso. Bom Blogday a todos.
Retrato de Uma São Paulo Ideal
Nos últimos dias aqui pros lados onde ora me escondo o clima anda mais seco que a bunda do Lawrence da Arábia – se bem que, segundo as más línguas, não faltava quem quisesse regá-la. Mas o que importa é que o diacho da umidade aqui tá caindo no mesmo ritmo que a intenção de voto em José Serra, o que acarreta uma série de problemas, como de praxe. Aliás, São Paulo tem algum problema pessoal com o clima, ou vice-versa, já que ambos tem uma relação tempestuosa (com perdão do trocadilho), seja por chuvas torrenciais ou extremos climáticos ao longo de um único dia – a piada corrente é ter as 4 estações durante o horário comercial. Agora a praga da vez é o tempo seco. Na última sexta-feira foi registrado o dia mais seco do ano, o que deve ter sido pretexto mais do que suficiente para que muitos corressem em busca de socorro no boteco mais próximo – caso o fato de ser uma sexta-feira já não fosse pretexto forte o bastante.
Vendo esta situação periclitante me lembrou um texto do velho jornalista H.L.Mencken, de quem já falamos aqui nessa blodega. Em um texto ousado, se considerarmos a vigência da famigerada Lei Seca nos EUA, Mencken propõe para resolver os males do mundo que a humanidade fosse mantida ligeiramente alta. Segundo sua teoria, o homem, após uma pequena dose de algo mais forte do que água, seria incapaz de vilanias e crueldades, se tornando um pai melhor e uma pessoa mais gentil, sem a propensão de começar guerras ou coisas do tipo. E a proposta técnica para se concretizar isso seria aspergir a atmosfera com a dose adequada para que ninguém ficasse suficientemente sóbrio para fazer bobagens, como escrever manifestos do tipo “são paulo para os paulistas” ou eleger Maluf para algum cargo político.
Baseado na proposta do honorável Mencken, adapto sua sugestão para resolver os males da Paulicéia Desvairada, e já que está faltando umidade no ar, que a umedeçamos artificialmente, mas usando algo mais colorido do que água e que contenha mais que hidrogênio e oxigênio em sua composição química. E isso resolveria não só a sua momentânea secura. Esta solução certamente daria fim a uma série de problemas dessa metrópole. Com a população meia dose mais alta que o normal ela certamente deixaria de ser tão estressada e, por vezes, sisuda e biliosa, e as relações humanas melhorariam consideravelmente nessa selva de concreto. Até o trânsito melhoraria, já que estaria todo mundo incapaz de dirigir, de acordo com a Lei Seca, e aí não teríamos mais carros nas ruas. Todo mundo finalmente relaxaria nessa cidade, como bem desejava a ex-prefeita Marta Suplicy.
Se a ideia pode parecer absurda, principalmente pelos aspectos técnicos e práticos envolvidos, passaria a batata quente para entendidos no assunto. Quem sabe os engenheiros do ITA ou, quiçá, algum colega engenheiro da UFCG, mais especificamente aqueles que faltavam às aulas de cálculo às sextas para tomarem (cerveja) no CU – Cantinho Universitário, aquele bar em frente ao Campus. Estes certamente teriam o conhecimento e a inspiração para desenvolverem o aparato técnico capaz de levar a dose diária de Absolut às narinas de cada cidadão paulistano. E devidamente calibrada, para que ninguém recebesse sua dose em excesso, o que acarretaria milhares de cidadãos se agarrando e dizendo “voxê é meu amiguuu…”. Mas aí é problema para os engenheiros.
E digo mais: o candidato que apoiar essa iniciativa terá meu voto. Até lá, teremos que improvisar à moda antiga para vencer o ar seco. Garçom, mais uma!
Layla

O único álbum de uma banda que se tornou clássico
Por mais que a carreira de Eric Clapton o conduzisse a ser um rock star, ele deliberadamente evitava que isso ocorresse. Isso o fez sair da banda Yardbirds quando essa assumiu uma veia mais pop, pois ele preferia dedicar fidelidade ao Blues. Para Clapton, era melhor ser um coadjuvante em alguma banda de Blues do que um bandleader de um grupo mais pop. Mas isso não impedia que ele se tornasse popular e famoso entre os jovens ingleses, pois na época em que tocava na John Mayal and The BluesBreakers foi que a cidade de Londres se viu pichada com as inscrições “Eric is God”.
Por esse seu desejo quase obsessivo de não se tornar uma estrela que, em 1970, após já ter gravado seu disco solo, que ele montou uma banda. E para não querer se sobressair em relação a seus colegas, essa banda foi batizada de Derek and The Dominos. Ele era apenas mais um na banda, que tinha Bobby Whitlock aos teclados e nos vocais, Carl Radle no baixo e Jim Gordon na batera, que eram dissidentes da banda Delanie and Bonnie and Friends, além do próprio Eric nos vocais e guitarra.
Por melhor que fosse a banda, ela acabou gravando apenas um álbum duplo, intitulado Layla And Others Assorted Love Songs. Gravado em Miami entre agosto e setembro de 1970, o disco seria lançado no final daquele ano. As catorze faixas que seguiam entre o rock, blues e country mostravam um Eric Clapton em excelente forma e fase, antes de seus problemas com drogas ilícitas e álcool.
Infelizmente a crítica recebeu o álbum com frieza na época de seu lançamento, e a própria banda passou por intempéries que acabaram com ela, como a morte do guitarrista Duane Allman, que participara das gravações do álbum e seria considerado pela revista Rolling Stone como o segundo maior guitarrista de todos os tempos, atrás apenas de Jimi Hendrix. Hendrix, por sinal, também morreria meses antes e também abalaria a todos, pois passara seus últimos meses de vida na Inglaterra, impressionando a todos, inclusive Eric, com seu estilo de tocar guitarra. A faixa 11, “Little Wings”, é uma homenagem da banda a Jimi. Para terminar de lascar tudo, o baterista da banda seria internado sob o diagnóstico de esquizofrenia após matar a própria mãe. Pense numa banda zicada!
A banda ainda chegou a excursionar pelos EUA e gravar um álbum ao vivo, mas acabaram se separando antes do segundo disco de estúdio. O próprio Clapton praticamente deixou de tocar devido a seus problemas com drogas, e só voltaria a engrenar sua carreira a partir de 1973. Hoje, o álbum é considerado uma obra-prima, o ápice da carreira jovem de Clapton e normalmente figura entre os maiores álbuns de todos os tempos em eventuais listas que surgem nas publicações especializadas.
O High Society leva chifre e não tem ciúmes
A música-título, Layla, tem como inspiração, além do conto árabe “Majnun e Layla”, a paixão de Eric Clapton pela então esposa do ex-Beatle George Harrison, Patti Boyd-Harrison. Ela deixaria Harrison a ver navios e viveria com Clapton até 1988. Mas o serviço de galha de Clapton com seu amigo rendeu uma das mais belas músicas do pop-rock, que em sua versão original, tem o belíssimo solo de piano composto e executado pelo baterista Jim Gordon. Eric revisitaria a música no álbum “Unplugged”, gravado ao vivo na MTV, praticamente reconstruindo a canção original.
E o corn…digo, George Harrison? Bem, ao que parece, o caso não abalou tanto assim a amizade, tanto que o casamento acabou, mas eles continuaram amigos, tanto que Eric prestou uma homenagem a Harrison após sua morte com o Concert for George, em 2002, e ao regravar a música “Loves Come to Everyone” no álbum “Back Home”, de 2005. Por sinal, essa música já teve uma versão em português surpreendentemente literal, que fez sucesso na voz de Zizi Possi. Mas esse é outro assunto…
Vitrola de Ficha
E para uma amostra grátis, comparem as duas versões da música-tema do affair Clapton-Patty-Harrison. A primeira é a original, de 1970. A outra é a versão “desplugada” (ou acústica, como preferir) de 1992. Sigam a bolinha e acompanhem a música
And nobody’s waiting by your side?
You’ve been running and hiding much too long.
You know it’s just your foolish pride.
Layla, you’ve got me on my knees.
Layla, I’m begging, darling please.
Layla, darling won’t you ease my worried mind.
I tried to give you consolation
When your old man had let you down.
Like a fool, I fell in love with you,
Turned my whole world upside down.
Let’s make the best of the situation
Before I finally go insane.
Please don’t say we’ll never find a way
And tell me all my love’s in vain.
Histórias dos Quadrinhos que Não Estão no Gibi – Parte 2

Dando continuidade ao artigo anterior (se ainda não leu, manda ver), aqui na “Terra Brasilis” há um livro equivalente ao do Gerard Jones que explora a formação do mercado editorial dos quadrinhos brasileiros, abrangendo o período dos anos 30 até idos do início do Regime Militar, de autoria do jornalista Gonçalo Júnior. “A Guerra dos Gibis” é um livro fundamental e indispensável para qualquer um que queira conhecer a história e – porque não – os problemas da indústria de revistas em quadrinhos, popularmente conhecidos entre nós como “gibis”. Como Jones, Gonçalo usa um personagem e sua história como fio condutor: Adolfo Aizen. O então jovem repórter de O Globo tem a ideia de trazer os quadrinhos publicados nos jornais dos EUA , levando-a inicialmente ao seu patrão, Roberto Marinho, que a descarta, e este por fim não desiste e acaba criando “O Suplemento Infantil” para o jornal pós-Revolução de 30, “A Nação”. Essa foi a semente para o pequeno império editorial que o jovem – imigrante e descendente de judeus russos como seus colegas de ofício americanos – criaria anos depois com a fundação da EBAL – Editora Brasil América. E o mais irônico que esse império foi criado sob uma mentira, e uma contravenção já que sua certidão de nascimento brasileira era falsa, e até 2002 a Constituição Brasileira vetava a participação de estrangeiros como sócios ou proprietários em veículos de comunicação, e por toda sua vida Aizen carregou essa espada pendurada sobre o pescoço, uma informação que poderia ser usada por algum inimigo. E inimigos não faltaram. E porque acham que o título do livro é “A guerra dos Gibis”?
Aizen – e os demais editores de quadrinhos e tiras – enfrentaram várias guerras. A primeira delas foi contra seu ex-patrão, Roberto Marinho, que se tocou da bosta que fez ao descartar a ideia dos quadrinhos que Aizen lhe levara de mão beijada. Vendo que o antigo empregado conseguira bons contratos com as distribuidoras de material produzido pelas editoras americanas – os syndicates – e seus suplementos se tornaram revistas avulsas bem vendidas junto ao público infanto-juvenil, Marinho quis abocanhar esta fatia do mercado, e se tornou o primeiro concorrente sério dos quadrinhos de Aizen ao criar O Globo Juvenil, que seria seguido anos depois pelos Diários Associados de Assis Chateaubriant, que criou a revista “O Gury”.
Nesse meio tempo, as opiniões do clero já teciam pesadas críticas contra os quadrinhos importados que eram publicados nessas revistas, sendo o início da ideia geral de que quadrinhos seriam prejudiciais a educação das crianças, ideia ainda hoje encravada no nosso inconsciente coletivo e que vez por outra ainda encontra eco em algum veiculo de comunicação. Tais críticas recrudesceriam a partir dos anos 40, muitas motivadas mais por disputas editoriais entre concorrentes do que em preocupação legítima pelo eventual dano didático que os “gibis” poderiam causar à juventude. Como exemplo, a campanha que o “Diário de Notícias”, de Orlando Dantas, para afetar seu concorrente Roberto Marinho. Mas este discurso encontrou eco nos setores mais conservadores da sociedade, que passaram a atacar os quadrinhos. Se “Chatô” e Roberto Marinho reagiam com campanhas publicitárias ou editoriais agressivos, Adolfo preferia tentar convencer os críticos dos benefícios dos quadrinhos, inclusive publicando revistas com cunho educacional ou retratando personagens da história nacional, incluindo figuras eclesiásticas. Em defesa dos quadrinhos surgiram vozes improváveis, como o do intelectual Gilberto Freyre, e em seu ataque outras figuras carimbadas, como os jornalista Carlos Lacerda e Samuel Wainer, inimigos declarados de Roberto Marinho, e que criticavam os gibis para atingir indiretamente Marinho, mas cujas críticas ressoavam nos meios educacionais, influenciando pais, professores e educadores a se engajarem contra os gibis.
Além das críticas ao veículo em si, outra frente de batalha contra as editoras era a que exigia uma “reserva de mercado” de produto nacional, já que a opção mais prática e barata de importar o material estrangeiro já pronto seduzia os editores, que preferiam este material em detrimento a produzir o seu próprio o que de certa forma criou um problema e paradigma que é seguido até os dias de hoje pelas editoras. Se Aizen foi um pioneiro ao trazer as tiras e os comics americanos para nossa terrinha, ainda hoje o quadrinho nacional tem pouca expressão frente a concorrência estrangeira, com raras exceções.
A pesquisa de Gonçalo envolvendo estas décadas de mercado editorial nos trás ainda a ascensão e queda das editoras de histórias de horror paulistas, a importação da paranoia anti-quadrinhos dos EUA nos anos 50, dá uma pincelada rápida na censura sobre os quadrinhos pornográficos, a tentativa dos quadrinistas nacionais em criar uma reserva de mercado para garantir uma produção nacional, sem sucesso. Mesmo mantendo um rigor jornalístico na narrativa, esta não se torna chata ou enfadonha como poderia se tornar um texto dessa natureza, que por vezes mais se parece com um tratado acadêmico tal o formalismo com que a linguagem se cerca. O texto de Gonçalo é melífluo e qualquer amante dos quadrinhos se deliciará com as histórias que ele tem para contar. Para quem quiser conhecer a prosa de Gonçalo Junior, ele costumava bater ponto no site Bigorna. Curiosamente há um de seus artigos que critica justamente a capa do livro “Homens do Amanhã”, que mencionei na primeira metade desse artigo.
Lançado em 2004, os leitores desse livro há anos anseiam por uma continuação desse trabalho, uma espécie de “Guerra dos Gibis 2”. E isso se tornou realidade recentemente, pois está para ser lançado nos próximos dias o livro “Maria Erótica e o Clamor do Sexo – Imprensa, Pornografia, comunismo e censura na ditadura militar – 1964-1985”, que pode ser considerada uma continuação de “A Guerra dos Gibis”, pois aborda a censura aos quadrinhos no período imediatamente posterior ao abordado naquele livro. Espero em breve tê-lo em mãos para comentar com os frequentadores dessa blodega.
Histórias dos Quadrinhos que Não estão no Gibi – Parte 1

Quem realmente curte história em quadrinhos e os acompanha há um bom tempo conhece, por vias diretas ou indiretas, alguns aspectos e detalhes do mundo editorial, de como esta arte evoluiu ao longo das décadas, deixando de ser diversão descartável para adquirir status de arte respeitável. Mas para aqueles que não conhecem a história ou são curiosos por mais detalhes sórdidos, por assim dizer, há bons livros no mercado que abordam competentemente o tema. Destaco dois títulos em especial, os quais já li, mesmo que tardiamente, mas que poderia rotular de “obrigatórios” para todo amante da arte sequencial que quer se aprofundar mais no assunto.
Primeiro, falemos da origem de tudo, que é os Estados unidos, onde a indústria dos quadrinhos se tornou uma peça importante na bilionária estrutura dos conglomerados que produzem entretenimento. O ex-roteirista de quadrinhos Gerard Jones caiu em campo e executou uma senhora pesquisa para desvendar a aurora das editoras. E correndo contra o tempo, já que como bem disse Stan Lee, muitos dos que testemunharam esse início já beiravam idades avançadas, respeitáveis senhores octogenários, nonagenários e até centenários que poderiam levar muita informação para o túmulo.
Mas Gerard Jones conseguiu fazer uma excelente reconstituição da cena do crime em seu livro “Homens do Amanhã”. Mesmo abordando a história até praticamente os anos 00, a foco principal é entre os anos 30 e 50. Para contar a gênese dessa indústria bilionária, o fio condutor da narrativa é um assunto até hoje espinhoso no meio editorial: a luta pelos direitos do personagem Super-Homem, o primeiro super-herói e fulcro de uma das maiores editoras do gênero, a atual DC Comics, que faz parte do conglomerado AOL-Time-Warner. Originalmente criado por dois jovens judeus, Jerry Siegel e Joe Shuster, o personagem rendeu uma fortuna aos editores da DC, enquanto os criadores lutavam por migalhas na justiça. Partindo de um manifesto à imprensa escrito por Siegel nos anos 70, quando ele e seu colega mal ganhavam o suficiente para se manter enquanto a Time-Warner se preparava para produzir “Superman-O Filme”, Gerard volta bem no passado, para contextualizar a história, tecendo detalhes sobre a geração de judeus imigrantes que tomou de assalto os bairros pobres das grandes cidades americanas. Isso é importante, pois os grandes criadores, desenhistas e editores que viriam a ser tornarem famosos eram, em sua grande maioria, da geração de judeus que se estabeleceu nos States naqueles anos difíceis. E ao reconstituir a história de muitos desses personagens, se descobre detalhes absurdos, bizarros e por vezes nem um pouco lisonjeiro à “lenda pessoal” de muitos desses ícones.
O absurdo maior é saber que o alicerce das editoras e distribuidoras de quadrinhos que se tornaram gigantes editoriais foi cimentado com pornografia, literatura apelativa, contrabando de bebidas, financiamento do crime organizado, tapetão financeiro em sócios ou proprietários de empresas menores, processos judiciais por acusação de plágio ou pura e simplesmente pilantragem e safadeza. Não era incomum um dos fundadores da futura DC, Harry Donenfeld, estar associado a figuras como os gangsteres Frank Costello ou Luck Luciano. E era prática notória um empresário fazer pressão indireta em um concorrente através de seus credores, até que quebre e seja obrigado a vender seu negócio.
Do outro lado dessa equação estava um grupo de jovens socialmente desajustados cujo maior interesse comum eram as histórias de ficção científica de revistas como “Amazing Stories”., que criaram os primeiros “famdom’s”. Eles eram o que poderia se chamar de “nerds” ou “geeks”, caso os termos existissem naqueles tempos. Essa força criativa e jovem se tornou a mão-de-obra necessária às editoras, quando surgiu o promissor negócio de quadrinhos de super-heróis, e essa rapaziada devidamente influenciada pela literatura fantástica e as pulp magazine dos anos 30 começou a criar os heróis da chamada “Era de Ouro” dos quadrinhos, sendo o divisor e águas um personagem diversas vezes recusado e aproveitado quase que de improviso para protagonizar a revista “Action Comics” 1, um tal de Super-Homem. Depois de seu sucesso, uma enxurrada de super-heróis com superpoderes encheu as revistinhas, que eram vendidas aos milhões.
Enquanto desenha um retrato dessa época inicial do mundo dos super-heróis, Jones começa a destrinchar também a personalidade de alguns de seus criadores. Se Joe Shuster e Jerry Siegel eram tímidos e de uma ingenuidade enorme, outros como Bill Kane tinham malandragem de sobra. Este costumava terceirizar boa parte de seu trabalho a artistas anônimos, recebendo o crédito por todo o trabalho. O próprio Bill Finger, co-criador do Batman, em vida nunca recebeu o devido reconhecimento por sua participação nas histórias iniciais do Homem-Morcego. Kane também usou das armas que seus patrões costumavam usar, forçando a DC a renegociar seu contrato sob a alegação de que era de menor quando o assinara. Outros personagens foram pintados com tintas fortes, como Jack Liebowitz, o manda-chuva da DC durante décadas, responsável por dar um verniz sério e respeitável ao empreendimento e de manter com mão de ferro os direitos sobre os personagens criados para a editora. Mort Weisinger é visto como um manipulador, carrasco de seus subalternos e um malandro capaz de queimar o próprio amigo para lhe tomar uma função.
Gerard Jones acompanha com lupa esta indústria, desde o seu nascimento, passando pela II Guerra Mundial e o surgimento de revistas de Terror e Policiais, que temporariamente desbancaram os Super-Heróis da preferência popular até que a paranóia dos anos 50 trouxesse à tona as teorias do psicólogo Fredric Wertham e a sua “Sedução do Inocente”, colocando os quadrinhos nos bancos dos réus. Testemunha também surgir uma nova geração de super-heróis anos depois, tanto na DC quanto na concorrência, principalmente os que saem da mente de um rapaz que estava meio que por acaso nessas editoras e que atendia pelo nome de Stanley Lieber, mas que assinava suas criações como Stan Lee. O mercado muda, e o que era uma empresa fechada e familiar abre seu capital, e em poucos anos a DC se torna parte do grupo Time-Warner, chegando dessa maneira os nossos dias e sobrevivendo à perseguição de “especialistas” que insistiam que quadrinhos tornam os jovens mais tapados ou criminosos. Nesse ínterim, Siegel e Shuster processam a DC várias vezes, mas sem sucesso, até que o apelo mencionado no início do livro acaba caindo no conhecimento público, o que causa um certo alvoroço e trás algum resultado positivo, por pressão de muitos profissionais do ramo e do próprio público. Mas mesmo isso não conseguiu dar uma definição ao termo, e até hoje os herdeiros dos criadores do Homem de Aço ainda lutam na justiça contra a DC para reaver os direitos sobre um personagem mundialmente conhecido e que rendeu uma imensa fortuna aos donos de seus direitos nessas décadas todas. Decisões recentes favoreceram a esposa e filha do finado Siegel, mas ainda há muita água para correr sob a ponte.
Esse livro foi lançado no Brasil pela Conrad em 2006, mas acabei só lendo-o há poucas semanas. Em parte por desconhecer o tema abordado até pouco tempo, não obstante o título “Homens do Amanhã” ser uma alusão a um dos primeiros apelidos do personagem Super-Homem. Porém, boa parte dessa culpa eu posso atribuir à capa do livro. Alguém poderia me fazer a gentileza de explicar a relação dessa capa com o tema? Tudo bem que a capa da edição americana não é exatamente um primor, mas está diretamente relacionada ao assunto do livro. Imagino quantos leitores este livro ainda não tem devido a esta capa, digamos, equivocada…
(o resto desse artigo sai amanhã, para vocês não se empanturrarem com tanta informação)
Os Diálogos de Botequim de Platão

Versão para os diálogos de Platão e Sócrates em um botequim de Atenas.
Sócrates e Platão se encontram no boteco de Esculápio chamado “O Partenon da Cerveja” para filosofar sobre os mais variados assuntos, obviamente acompanhados de um bom chope. Quando Platão chega, Sócrates já está em seu segundo chope.
- Puxa aí a cadeira, efebo. E aí, vai de chope? Eu já pedi algo para beliscarmos, também.
- Opa, tamos aí. E aí, por onde começamos?
- Para iniciar nosso diálogo de hoje, defina o que é um homem, meu jovem.
- Para mim, um homem é um bípede implume.
- Meio vago esse eu conceito, meu jovem. Ah, Esculápio trouxe o tira-gosto.
- O que é isso?
- Para você, deve ser um homem. Para mim, é um galeto assado. E é uma delícia com uma cerveja gelada. Esculápio, coloca aí no pendura, tá certo?
O garçom interpela:
- Fiado é foda, né, Sócrates? E quando tu vai me pagar estes penduras todos?
- Você precisa se conhecer primeiro, jovem, antes de perguntar as coisas aos outros. Por exemplo, já se questionou a respeito da democracia grega, do direito do cidadão, do porquê destes aumentos abusivos no preço da cerveja?
- Vai te lascar, Sócrates! Você com essa mania feia de responder aos outros com outra pergunta. O povo já ta puto contigo e quer ver tua caveira. Que cara mais mala!
- Apenas questiono as coisas e irrito, mesmo. Não tenho culpa se os poetas não sabem poesia ou e os governantes não sabem governar. Ou se os garçons não sabem fazer um galeto decente ou servir um chope com colarinho bem tirado, por exemplo.
- O galeto está ótimo, e não reclame que é fiado.Vou ao Oráculo de Delfos saber se vou receber esta grana algum dia…
- Ótimo. E se for sacrificar algum bode para ele, aproveita e prepara uma buchada para nós.
Platão interrompe e toma a palavra:
- Bem, admito que meu conceito de homem é meio vago. Mas um bípede com penas não necessariamente seria uma galinha. Por exemplo, o Clóvis Bornay tem plumas, mas é homem.
- Não o chamaria exatamente de homem -contradiz o garçom Esculápio.
- Não? E de que, exatamente, você chamaria?
- Citando o pré-socrático e porteiro Severino: “Mas é uma bichona!”.
- Mas que raça desunida…-diz Sócrates, com um sorriso maroto nos lábios
- Aí dentro, Sócrates! – reage Esculápio
- Criados e escravos são realmente raças inferiores a nós, pensadores – conclui Platão, ao interromper o garçom
- Inferior é a puta que pariu, Platão. Deixe dessa viadagem. Até porque você gosta mais é de ver um escravo por cima de você.
- O que você quer dizer com isso?
- Só sei que eu não sei de nada. Vou pegar a cerveja – diz o garçom, que ao se afastar, resmunga entre os dentes:
- Mas quem quiser saber quem é “o homem de Platão”, é só ir na Sauna Spartacus…
Platão volta ao diálogo com Sócrates:
- Olha só, Sócrates. Estava escrevendo uma alegoria representando o mundo real e o mundo das ideias. Eu vejo as pessoas como se estivessem presas em uma caverna, vendo apenas as sombras das coisas, enquanto a realidade está fora da caverna, e nós, filósofos, ousamos sair da caverna…
Esculápio, o garçom, volta e mais uma vez se intromete no diálogo:
- De novo esta história de caverna, menino? Isso tudo é falta de mulher! Você tem que parar de andar com esta bicha velha do Sócrates e esquecer estas suas paixões platônicas, jovem. Para curar uma paixão platônica, só uma trepada homérica! Vá visitar as bacantes e se distrair um pouco, pois você precisa sair da caverna.
- Esculápio, vai ver se eu estou na Acrópole, vai. E traga outra bem geladinha.
- Agora só tem Nova Schin!
- Nova Schin? Prefiro beber cicuta. Eca!
Steampunk – Histórias de um Passado Extraordinário

Curioso, soube há algum tempo que a editora Tarja lançou uma coletânea de contos sobre a temática Steampunk só com autores brazucas, e na medida do possível adquiri a coletânea. “Na medida do possível” porque, por ser lançamento de uma editora menor, não foi fácil encontrar um exemplar em lojas físicas, e tive que apelar para as poucas lojas on-line que dispunham de algum exemplar para venda. E, cá entre nós, achei um pouco salgado o valor de praticamente 40 paus para um livro de menos de 180 páginas. Mas imagino que se deva a uma tiragem menor e as próprias condições de uma editora que não seja uma das grandes do mercado nacional.
Mas isso é detalhe. Vamos ao que interessa. A proposta do livro da Tarja Editorial foi a de reunir contos de autores nacionais, que obviamente procuraram ambientar suas histórias e protagonistas com o tempero brasileiro, seja usando figuras históricas nacionais ou personagens de nossa ficção, um exercício de imaginação deveras interessante. Como uma coletânea de vários autores, o resultado é um tanto irregular, mas não deixo de registrar que o saldo é, de longe, positivo.
O primeiro conto, “Assalto ao Trem Pagador”, mostra uma Londres dominada por avanços tecnológicos promovidos por institutos de tecnologia como o Bartolomeu de Gusmão, de onde vem o engenheiro Claudio, que se une a colegas estrangeiros em uma trama envolvendo sociedades secretas, conspirações e a unificação da Alemanha em fins do século XIX. A narrativa talvez não tenha fluído tão bem porque, além de uma história curta, o autor se preocupou bastante em detalhar os aspectos técnicos do conto.
O segundo conto tem como protagonista o “Prometeu Moderno” Vickor Frankeinstein, que aqui se dedica a criar autômatos mecânicos após fracassadas tentativas em suas experiências com corpos humanos, tendo sucesso em mudar os rumos da humanidade ao criar uma geração de autômatos, que se tornam parte da sociedade moderna e protagonizam crises, guerras de classe, batalhas corporativas e conflitos bélicos ao lado ou contra os humanos na aurora do século XX. Usa o velho arquétipo da criatura contra o criador, mas tem mérito por encaixar essa situação em um contexto histórico, inclusive utilizando personagens reais como Charles Darwin e Karl Marx. O tema de máquinas pensantes e um conflito com humanos é retomado com algum lirismo em outro conto da coletânea, “Uma Vida Possível Atrás das Barricadas”.
Em a “Flor do Estrume”, se percebe um esforço por parte do autor em emular o texto típico dos escritores realistas do século XIX, como Machado de Assis, até porque o narrador e protagonista é Brás Cubas, tendo como coadjuvante de luxo o personagem Quincas Borba com toda a sua filosofia Humanística. Ambos são convidados a participar de um empreendimento medicinal avançado que estaria criando o primeiro antibiótico, e em terras brazucas. É uma experiência literária rica e divertida pela mistura de Realismo Literário com ficção científica.
“A Música das Esferas” é uma movimentada aventura passada na capital nacional no início do século XX envolvendo dois jovens amigos: o jornalista Eduardo e o jovem Adriano, uma espécie de nerd vitoriano que se dedica aos estudos da engenharia à contragosto da família, que deseja vê-lo advogado. Ambos se vêem envolvidos em uma investigação sobre a morte de um cientista e o risco potencial de um de seus inventos.
“O Plano de Robida: Un Voyage Extraordinaire” narra o encontro de um oficial brasileiro que, ao lado de Santos Dumont, se vê prisioneiro de um vilão aos moldes de Róbur, do Julio Verne. No caso Robida, de posse de tecnologia roubada da civilização atlante, ataca o império brasileiro com pretensões megalomaniacas. Pela sua brevidade é a história com mais gosto de “quero mais” de toda coletânea.
“O Dobrão de Prata” é mais um conto de terror envolvendo um professor ambicioso que contrata marinheiros para buscar um tesouro submerso no mar. “Cidade Phantástica” é um conto de ação e aventura, tendo como protagonista um agente da Polícia dos Caminhos de Ferro, João fumaça, bom com as palavras e com as armas, misturando elementos de faroeste e Julio Verne com personagens tirados de outras obras, como um casal saído direto de um dos contos de Sherlock Holmes, “A Ponte Thor”, tendo como vilões um personagem de Julio Verne e um vilão da literatura romântica brasileira, que conspiram para criar uma poderosa arma.
O conto que fecha a coletânea mostra um mundo onde a Inglaterra e França combatem em uma versão vitoriana da “Guerra Fria”, e suas maiores armas são as aeronaves de Rúbor e os submarinos de Nemo. A história mostra o que poderia ser o derradeiro confronto entre estes dois monstros da literatura, crias de Julio Verne, em um universo de eventos bem diverso.
Para os que queiram entrar e conhecer este universo ficcional, recomendo a leitura desse pequeno livro. E, coincidentemente, descobri por acaso que outro livro com proposta similar está para ser lançado por outra editora, a Draco. Na melhor oportunidade conferirei, com certeza.
Nota: Acabei editando o texto original porque, alertado por Romeu Martins, autor de um dos contos, andei dando “spoilers” que poderiam estragar o prazer da leitura de seu conto. Acho que acabei me entusiasmando na resenha. Peço desculpas aos que já leram, mas como diria FHC, tentem esquecer o que eu escrevi
Sherlock

Não costumo acompanhar séries de TV, até por falta de tempo e paciência com o formato e trama da maioria delas, salvo quando algum amigo me encosta uma arma na cabeça e me obriga a uma maratona, ao fim da qual estou irremediavelmente viciado (troque a arma na cabeça por algumas latas de cerveja garganta abaixo e terá um cenário mais exato).
A mais recente série – ou minissérie, dado seu formato e brevidade – a qual decidi me viciar conferir foi a recente produção da BBC, “Sherlock”. As séries inglesas costumam trazer boas surpresas, e nos últimos meses me dediquei a acompanhar as temporadas de “Dr Who” e “Torchwood”. Coincidentemente um dos responsáveis por essa série é Steven Moffat, também “culpado” por alguns ótimos episódios de Dr.Who.
Se a produção do Ritchie Guy para o cinema recria o personagem e o cenário com uma linguagem cinematográfica moderna, a proposta dessa série da BBC é transpor os elementos das histórias de Conan Doyle para os dias atuais. E consegue, sem sombra de dúvida, incluindo as parafernálias modernas à história sem destoar do que for mais elementar, mantendo o espírito intacto.
Nessa versão século XXI do Sherlock, John Watson (Martin Freeman) também é um médico veterano de guerra que combateu no Afeganistão e que voltou para casa ferido e reformado. Envolto em problemas financeiros e por um suposto stress pós-traumático, Watson tenta manter um blog como parte de sua terapia. Nesse ínterim, por meio de um amigo em comum, Watson é apresentado a Sherlock Holmes (Benedict Cumberbatch) para que ambos dividam um imóvel sito à Baker Street 221B. Logo o veterano descobre as sensacionais habilidades dedutivas de seu pretenso colega de quarto, que se diz o único consultor detetive do mundo, ajudando os agentes da Scotland Yard sempre que estes se veem em alguma sinuca de bico dedutiva. E logo também está envolvido no frenesi insano dos casos aparentemente insolúveis em que seu colega se mete, e descobre que sente falta da adrenalina do combate.
O personagem principal é um ser socialmente deslocado, altamente esnobe e por vezes prepotente, sem maiores relacionamentos, desprezado por muitos policiais que se sentem idiotas diante dele, além de ser considerado praticamente um psicopata por sua mórbida obsessão por crimes violentos e insolúveis. Mas ao contrário dos livros – que costumam mostrar um Watson quase subserviente a Holmes – a amizade entre ambos é um tanto conturbada, com Watson tendo que lidar com as excentricidades de seu amigo investigador, nem sempre satisfeito ou sem atritos. Isso sem mencionar as eventuais insinuações de homossexualidade entre ambos, que ele procura rebater enfaticamente.
Afora este aspecto da personalidade de Watson – algo que também ocorreu na versão cinematográfica recente – os demais elementos foram bem adaptados ou atualizados. Temos alguns coadjuvantes, como a senhoria Mrs. Hudson e o inspetor Lestrade, e a quase insuportável mania de Sherlock tocar violino para melhor pensar, bem como a linha de pensamento em ignorar conhecimentos os quais ele considere inúteis à sua “arte”, como astronomia. Podemos perceber também o ator Cumberbatch se esforçando para caracterizar o personagem, principalmente nos cacoetes de quando ele está raciocinando sobre os casos, sendo o principal o que cruzar os dedos sob o queixo e apoiar os cotovelos sobre os joelhos. E, não poderia deixar de faltar, a contraparte criminosa de Holmes, o misterioso Professor Moriarty.
Já outros aspectos precisaram ser atualizados. Por exemplo, a mania que Sherlock tem em enviar telegramas e bilhetes é substituída por sua obsessão em enviar mensagens de SMS. Ao invés de Landaus e Hansons puxados a cavalo, os indefectíveis táxis londrinos estão disponíveis para transportar o detetive e seu por vezes relutante escudeiro. Se necessário, Holmes tem a disposição todo equipamento forense que precisar no laboratório. Holmes mantém um site ao invés de ter escrito um livro sobre a arte da dedução, e Watson, narrador da maioria quase absoluta das histórias do detetive, conta os casos em seu blog.
O formato da série é incomum, com episódios de uma hora e meia, em uma temporada de apenas 3 episódios, deixando um senhor gancho ao fim do terceiro. A BBC já confirmou a produção de uma segunda temporada, mas apenas para o ano que vem.
Para quem já conhece o detetive dos contos e romances, a diversão extra é justamente encontrar as diversas referências espalhadas pelo roteiro dos três episódios lançados até o momento. Eu os assisti de uma forma muito rápida, e muitos detalhes podem ter passado desapercebidos, algo que corrigirei numa segunda sessão – na qual tentarei cooptar mais algum “cúmplice”.
- O primeiro episódio “A Study in Pink” é uma alusão bem óbvia a “Um Estudo em Vermelho”, primeiro romance do personagem. Inclusive há uma brincadeira em cima da pista encontrada junto a vítima, a inscrição “RACHE”, cuja solução dada no romance é ironizada pelo Holmes contemporâneo. Aparece o irmão de Holmes, Mycroft, que nos contos é descrito como um senhor obeso e tão inteligente quanto o irmão, porém avesso ao trabalho de campo, preferindo trabalhar para algum órgão do governo britânico. Ou, nas palavras de Holmes, por vezes ele É o governo britânico; há uma cena que pode ser considerada uma menção ao vício em cocaína que o personagem literário possui, mas que aqui não passa de adesivos de nicotina, algo mais aceitável para um protagonista de série de TV
- O segundo episódio, “The Blind Banker”, enquanto investiga uma invasão e vandalismo em uma instituição financeira, Holmes se envolve em um caso de duplo homicidio envolvendo tongs chinesas e um código a ser decifrado, talvez uma menção ao conto “Os Dançarinos”. O próprio Holmes menciona, ao longo do episódio, seitas que enviam sementes à possíveis vítimas, uma alusão a outro conto “As Cinco Sementes de Laranja”.
- No último episódio da temporada, “The Great Game”, enquanto Holmes participa de um jogo mórbido, seu irmão Mycroft deseja que ele investigue o sumiço de planos secretos do governo relacionados à morte de um funcionário, sendo praticamente uma adaptação quase literal de “Os Planos do Bruce-Partington”. Originalmente eram papeis de um projeto de submarino, e na série é um pen drive com informações sobre um sistema de misseis.
Em suma, o que você, que é fã de uma boa série ou do detetive mais famosos do mundo, está esperando? Que apareça alguém apontando uma arma para sua cabeça?
Saxofonistas da Blodega: Paulo Moura

Infelizmente esta versão do “Saxofonistas da Blodega” tem uma nota triste, pois o homenageado dessa vez não mais está tocando conosco, pois acordei com a má noticia de que Paulo Moura foi convocado pra grande orquestra do além-túmulo, ironicamente a poucos dias de seu aniversário de 78 anos, que seria no próximo dia 15. Uma perda sem tamanho para a música instrumental brasileira. Mas se o artista se vai, a sua obra fica. E que obra, já que este senhor saxofonista e clarinetista gravou seu primeiro disco nos anos 50, fez parte de orquestras diversas, gravou ao lado de vários nomes da Musica Brasileira e atuava até pouco tempo, gravando recentemente duetos ao lado de Yamandú Costa, João Donato ou Armandinho, transitando entre o Jazz, o Chorinho e o erudito com desenvoltura e talento.
Para lembrar aos que o conhecem e apresentá-lo aos que não tiveram a sorte de ouvi-lo ainda, um dueto com o saudoso Raphael Rabelo, em que ambos tocam “Ronda” e “Sampa”, primeira faixa do disco “Dois Irmãos”.
Um excelente texto em tributo ao músico foi escrito por Júlio César de Barros, e vale a pena lê-lo. E curtam ainda este vídeo do Paulo tocando o chorinho “Pro Paulo”.








