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Campo de Batalha: Hollywood

O Cinema Americano Vai à Guerra
A cerimônia do Oscar 2010 consagrou o filme “Guerra ao Terror”, da diretora Kathryn Bigelow, contrariando as expectativas de que James Cameron – ex-marido de Bigelow – repetisse o feito de “Titanic” ao levar um balaio de prêmios. Ironicamente o filme foi lançado ano passado apenas em DVD, sem maiores divulgações, ao contrário de “Avatar”, que está há meses em cartaz, e recebeu um lançamento em cinema oportunista há poucas semanas, quando este se tornou candidato sério a ganhar algum Oscar. Obviamente a imprensa explora a vitória de Bigelow sobre seu ex com um clima de picuinha, mas cá entre nós, o próprio James Cameron deu a maior força para ex-esposa neste filme, e ele deve estar inconsolável por não ter ganho tantos prêmios enquanto nada na banheira com os milhões de dólares lucrados com “Avatar”…
“Guerra ao Terror” é mais um filme que aborda a campanha militar americana no Iraque, e nem é o mais recente, sendo este “O Mensageiro”, que foi lançado no Brasil há poucas semanas e chegou a concorrer ao Oscar na categoria ator coadjuvante com Woody Harrelson, cujos personagens principais são dois oficiais com a missão nada agradável de comunicar aos parentes de soldados mortos em combate as más notícias. Mas ambos são filmes de guerra, um gênero que Hollywood explora há décadas, mas com as mais variadas facetas. Os Estados Unidos já participaram de muitas guerras, conflitos e intervenções militares, tanto no passado como em décadas mais recentes, o que rende bastante material para roteiristas. Mas de longe os conflitos que mais renderam – e rendem – filmes foram a II Guerra Mundial e a Guerra do Vietnã.
No decorrer da II Guerra Mundial Hollywood aproveitou o veio patriótico para explora-lo, e praticamente todos os filmes desta época produzidos nos Estados Unidos mostravam seus atores preferidos ganhando o conflito em nome dos americanos. Se os filmes produzidos durante a guerra podem ser hoje considerados estereotipados e claramente pró-militarismo americano, no pós-guerra surgiram filmes mais propensos a explorar o drama das pessoas afetadas pelo conflito ou com fortes críticas ao militarismo e a guerra. Mas esse tema ainda é um ciclo em aberto, pois todo ano saem filmes que se passam durante o conflito, sendo os mais recentes “Bastardos Inglórios”, “Operação Valkíria” e “Um Ato de Liberdade”. E a lista de filmes sobre o tema, americanos ou não, é imensa, e caso queira saber mais a respeito, sugiro uma visitinha ao site de Oriza Martins.
Já no conflito do Sudeste Asiático Hollywood explorou o tema durante os anos 70 e 80, porém enquanto durou a guerra pouco se abordou diretamente o conflito em filmes, sendo o exemplar típico desta época o filme de John Wayne “Os Boinas Verdes”, de 1968, no qual ele fazia apologia à participação americana na Guerra do Vietnã, com toda pompa, heroísmo e patriotismo, pois John Wayne já ganhara a II Guerra várias vezes sozinho e certamente faria o mesmo chutando a bunda de Ho Chi Min. Há também M.A.S.H, de Robert Altman, uma sátira impagável à guerra, que se passava no conflito da Coréia, mas que era facilmente associado à vigente guerra do Vietnã. Mas no pós-guerra a abordagem dos filmes foi extremamente contrária e crítica à guerra, mostrando seus efeitos indeléveis naqueles que sobreviveram aos seus anos, e filmes como “O Franco-Atirador”, “Amargo Regresso”, “Platoon” e “Nascido Para Matar” mostram as batalhas e suas consequências sem glamorizar a violência. Obviamente teve muita bomba, com perdão do trocadilho, se passando no Vietnã, principalmente nos anos 80, em plena era dos filmes de ação, sendo a série “Rambo” o exemplo mais clássico.
Porém o que se observa nestes filmes de guerra é que as produções que ousavam mostrar o lado mais sombrio dos combates foram produzidos após o fim das guerras, e nunca durante. E é essa a mais óbvia característica desse novo ciclo de filmes que abordam como tema a ocupação militar no Iraque e Afeganistão iniciada durante o governo Bush e em represália aos atentados de 11 de setembro de 2001. Mesmo no calor da batalha, diretores e roteiristas não evitam o campo minado dos temas polêmicos, apesar dos jovens americanos ainda estarem tombando em solo estrangeiro. Os soldados americanos ainda estão lá, e nos últimos anos diversas produções sobre a guerra foram lançadas, como “Leões e Cordeiros”, “No Vale das Sombras” e “O Reino”. E antes de Kathryn Bigelow se aventurar a dirigir um filme sobre a Guerra do Iraque, outra mulher o fez em “Stop Loss”, no qual a diretora Kimberly Peirce abordou o dilema dos soldados que são reconvocados após servir o período obrigatório por falta de contingente e daqueles que se recusam a voltar e se tornam desertores.
Em “Guerra ao Terror”, Bigelow mostra os últimos dias de uma equipe do exército especializada em desarmar explosivos, após o sargento Matt Thompson morrer durante uma missão e ser substituído pelo sargento William James, alguém que não se furta em expor e arriscar a sua vida e a de seus subordinados mais por necessidade de adrenalina do que por coragem. E ao contrário do que muitos desavisados que leem o título em português e imaginam mais um filme de ação pró-belicista, o foco do roteiro é nos desajustes sociais que os militares sofrem por meses em ação e sob pressão e a dificuldade em se adaptar à vida civil devido ao seu “vício” em adrenalina. Aliás, a abertura do filme já deixa isso claro ao apresentar uma citação de Chris Hedges, “O calor da batalha é frequentemente um potente e mortal vício, na guerra é uma droga” destacando o fragmento “guerra é uma droga”. Há algumas cenas de ação, porém o suspense é mais marcante nos tensos momentos que antecedem o desarme ou detonação de algum explosivo plantado por guerrilheiros iraquianos. A edição do filme usa da linguagem do documentário, dando um viés realista e cru à ação, e obrigando o espectador à permanecer ao lado dos soldados, prendendo a respiração (e o esfícter) enquando espera se conseguirá desarmar a bomba ou ser feito em pedaços. Não há pressa ou edição ágil estilo videoclipe.
Pessoalmente achei o filme bom, com cenas bem filmadas e ritmo adequado, que tem o mérito de se apoiar em uma boa história e boas atuações menos do que em caros efeitos especiais. Mas tenho minhas reservas de que se imponha como um clássico do gênero ao longo dos anos vindouros, como os já citados “Platoon” ou “Nascido Para Matar”. Mas talvez acabe se tornando, já que desta safra de filmes sobre a guerra do Iraque este é que acabou ganhando mais destaque. Também é matéria de especulação imaginar que a Academia tenha preterido “Avatar” como um recado à indústria de que o futuro do cinema não se resume a orçamentos astronômicos e efeitos 3D. Isso o tempo e o público decidirão, uma escolha bem mais simples do que saber qual fio cortar para se desarmar uma bomba em poucos segundos.
O Segredo dos Argentinos

E ontem, enquanto os cinéfilos do mundo estavam assistindo ao Oscar, preferi conferir o mais recente e elogiado trabalho cinematográfico dos hermanos: “O Segredo dos Seus Olhos”. E concluí definitivamente que o cinema nacional, salvo ocasionais exceções, ainda está levando de goleada dos conterrâneos de Maradona. Claro que nosso cinema melhorou nos últimos anos, e há exemplos excelentes de bom uso dos recursos e linguagem que o meio oferece, como “Cidade de Deus”. Mas no geral o que temos por aqui são, muitas vezes, de um amadorismo de cair o queixo se comparados à produção internacional.
Mas deixemos a tarefa de salvar o cinema nacional para a dupla Tizuka Yamazaki e Xuxa e voltemos para o filme em questão. O protagonista de história é o oficial de justiça aposentado Benjamín Espósito (o ator Ricardo Darín, do qual me lembro de outras produções argentinas, incluindo o excelente “Nove Rainhas”), que tenta resolver as pendências de seu passado escrevendo uma versão romanceada de uma investigação sobre o estupro e morte de uma jovem ocorrido há cerca de 3 décadas, quando ele trabalhava com a jovem advogada Irene Menéndez, tendo como colega e “escudeiro” o alcoólatra Pablo Sandoval. Aparentemente um caso de rápida resolução, com a polícia logo incriminando dois suspeitos, Espósito se envolve e descobre uma pista que muda os rumos da investigação. Porém ele precisa ir contra a burocracia e aparente incompetência do sistema jurídico no qual trabalha, pouco interessado em prender o principal suspeito.
O diretor Juan José Campanella fez bem o dever de casa, e sua experiência dirigindo episódios em séries como “Lei e Ordem – SVU” ou “Dr.House” lhe deram um senhor know-how. Mesmo se tratando de um roteiro que se relaciona com a história recente da Argentina, a maneira como foi escrito e conduzido torna a história universal, permitindo a qualquer público acompanhar e se envolver com ela. Não obstante a brutalidade do crime – mostrado em poucos segundos no início do filme – a história flui leve, de início, com uma leve pitada de humor nas situações e diálogos, bem como um clima de romance entre a jovem Irene e o mais maduro Espósito, nunca plenamente desenvolvido ou resolvido. Porém conforme a história avança, o filme se torna mais pesado e sombrio, e a trama sofre uma reviravolta quando há interferência do poder executivo no caso em plena era da ditadura argentina, sutilmente fazendo referência àqueles anos de chumbo. No final das contas, Espósito se vê, anos depois, impelido à dar um desfecho em todos estes fatos para que seu romance possa também ser concluído. Admito que a conclusão me surpreendeu, sem apelar para clichês comuns nestas histórias, e com reviravoltas que fluíram no roteiro sem parecerem forçadas.
E falando em conclusões, hoje acordei com a boa notícia de que ele ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Não assisti ainda aos seus concorrentes, mas de antemão posso dizer que houve justiça aqui. Melhor ainda se os cineastas brasileiros descobrirem com os hermanos o segredo de um bom filme.
Ágora

O Fim de uma Era e o Início da Idade das Trevas
Vi pela primeira vez sobre a fascinante e trágica história da destruição da biblioteca de Alexandria e a morte de sua última guardiã no livro “Cosmos”, de Carl Sagan, mais especificamente no capítulo “Quem Responde Pela Terra?”, onde o cientista apresenta a cidade de Alexandria como o centro cultural do mundo antigo, cuja biblioteca continha o repositório de todo conhecimento humano acumulado desde a sua fundação, três séculos antes de Cristo, nas cinzas do império de Alexandre, o Grande, cujo general Ptolomeu assumiu a parte do Egito, originando uma dinastia que se findaria com a célebre rainha Cleópatra. A biblioteca, além de conter cópias de preciosos documentos científicos e artísticos, encorajava a busca pelo conhecimento, incentivando o pensamento lógico. A título de exemplo, não deixa de ser assombroso sabermos que, centenas de anos antes de Cristo, um sábio chamado Erastótenes conseguiria, usando apenas o raciocínio lógico, sombras e um desocupado que contasse a distância entre Siena e Alexandria em passos conseguiria medir a circunferência da Terra com espantosa precisão. Mesmo quando o Império Romano estendeu seu braço para o Egito, a biblioteca manteve seu trabalho, coletando informação e formando pensadores. Infelizmente, nos anos em que o Império Romano se desfazia e o cristianismo ascendia para formar a poderosa igreja de Roma, séculos de saber acumulado forma carbonizados. Perdeu-se muito em ciência e cultura. Das pouco mais de cem tragédias de Sófocles, apenas sete chegaram aos nossos dias, e o conhecimento em astronomia foi retomando apenas durante o Renascimento.
Tão trágico episódio da história ganha uma versão cinematográfica nas mãos do talentoso diretor espanhol Alejandro Almedábar no recente filme “Ágora”, lançado ano passado na Espanha, trazendo a premiada atriz Rachel Weisz no papel da filosofa Hipátia. O filme mostra, na primeira parte, Hipátia ensinado filosofia e discutindo teorias sobre a movimentação dos astros, despertando a atenção e afeição dos homens, mas ignorando as investidas para dedicar sua vida à busca do conhecimento. Mas não é exatamente uma época boa para se mostrar erudição, principalmente se você for mulher, em pleno crescimento do movimento cristão afrontando as crenças milenares dos egípcios em Alexandria, numa crescente tensão que culmina em uma insurreição sangrenta e na destruição do acervo da biblioteca. Mesmo com os líderes da cidade aderindo à nova religião, Hipátia ainda consegue manter seus estudos, mas as tensões aumentam, com as facções cristãs mais extremadas gaugando o poder e perseguindo seus antagonistas, iniciando com os sacerdotes até um clímax inevitável.
O roteiro, escrito pelo próprio diretor, parece fazer pequenas concessões para tornar a história mais palatável ao público em geral, sendo o mais visível o destino de Hipátia, que é “amaciado” no filme, poupando o espectador de testemunhar a morte horrível descrita pelos registros históricos. Há uma tensão romântica por parte de alguns personagens, como o governador romano Orestes e o escravo Davus, ambos apaixonados e encantados pela personalidade forte de Hipátia, que renuncia à eventuais romances e casamentos em prol de sua ciência e filosofia. Mas isso não chega a atrapalhar o filme. O diretor usa um recurso narrativo interessante para intercalar algumas partes do filme, afastando a câmera até o espaço, onde vemos o planeta flutuando no infinito e a cidade de Alexandria como um pequeno ponto no globo, mostrando simultaneamente aquilo que Hipátia buscava e a insinificância da cidade perante o universo. Rachel Weiz está ótima como Hipátia, e nós nos pegamos torcendo para ela desvendar os mistérios sobre as órbitas celestes tanto quento torceríamos para qualquer mocinho desvendar um segredo que nós já sabemos de antemão, tendo ela pouquíssimas ferramentas à disposição, além do seu próprio raciocínio lógico. Na história, Almédabar especula sobre uma possível descoberta de teorias heliocêntricas e órbitas elípticas, algo que se revelaria verdadeiro, mas que só viria a ser provado e aceito quando Johannes Kepler criou suas três leis no século XVII.
Os cristãos mais ortodoxos podem se ofender e achar que o filme é uma propaganda anticristã, mas é tão anticristão quanto qualquer filme que
fale sobre a inquisição ou caça às bruxas. O filme critica mais a intolerância e a ignorância humanas do que uma religião específica. Mas claro que qualquer religioso fundamentalista não se sentirá à vontade ao ver a palavra de Deus sendo usada para queimar conhecimento e lançar a humanidade na obscuridade. O filme conseguiu me comover mais do que algum melodrama apelativo e açucarado, e garanto que qualquer um que admire e aprecie o conhecimento e pensamento humanos irá lamentar os atos cometidos no passado e relembrados por Almédabar.
E voltando à “Cosmos”, a mais chocante observação de Sagan a respeito desse episódio é que, apesar de hoje virmos quão trágico e relevante ele foi, a época praticamente não houve ninguém entre a população que pranteasse a queima do acervo e a inexorável trajetória da história humana rumo à era das trevas. Sagan atribui isso ao fato de que o conhecimento acumulado e desenvolvido ali pouco ou nada tinha com o povo, que não usufruiu de nenhum benefício ou conhecimento advindo da biblioteca e de seus sábios, o que os deixou totalmente indiferentes ao fatídico destino. Hoje, em uma perspectiva histórica, podemos dimensionar a extensão do episódio, cuja consequência maior foi uma estagnação de praticamente mil anos, já que o conhecimento humano só retomou os trilhos fixados naqueles tempos muitos séculos depois, quando nomes como Copérnico, Giordano Bruno, Galileu Galilei e Kepler arriscaram o próprio rabo para fazer avançar a ciência. Podemos apenas especular como estaria o desenvolvimento do saber humano hoje se tal conhecimento não tivesse sido destruído, E se Newton humildemente afirmou que enxergou tão longe porque se debruçou sobre o ombro de gigantes, nada mais justo do que colocar Hipátia entre tais gigantes.
Black Dynamite

Apesar de “Shaft” (o de 1971), que trouxe um detetive negro e durão como herói, ser um filme de grande estúdio, não deixa de ser uma referência do gênero. E um dos clichês é mostrar um protagonista fodão, que resolve as coisas na porrada e na bala, não tem pra ninguém e come todas as minas do pedaço, mermão! E logo diretores viram este nicho e criaram uma série de filmes à margem das produções hollywoodianas contendo o que a rapaize queria ver: porrada a três por quatro e um negão ditando as regras. E um som maneiro, claro. Aliás, a trilha sonora destes filme é o que havia de melhor na black music dos anos 70, De Isaac Hayes a Quincy Jones, passando por James Brown e Marvin Gaye, eram verdadeiras pérolas negras. E, além de destacar protagonistas negros, havia espaço também para as mulheres, como a agente Cleópatra Jones ou a enfermeira vingativa Coffy.
Este gênero tão popular nos anos 70 foi relembrado e satirizado no filme “Black Dynamite“, lançado ano passado e ainda inédito por aqui, com exceção de sua exibição no festival do Rio no ano passado.
Na história, Black Dynamite, ex-agente da CIA, admirado e temido pela comunidade, volta a ação quando seu irmão é morto por traficantes brancos, distribuindo sopapos, golpes de kung-fu e tiros de revólver pra todos os lados, matando todos os que atravessarem seu caminho e traçando todas que olharem e se encantarem por seu penteado Black Power, enquanto tira a droga das ruas e desbarata um complô visando encolher o pinto da população negra americana. Uma verdadeira máquina de dar porrada e fazer sexo, não necessariamente nesta ordem. Jack Bauer, Steven Segal e Chuck Norris não dariam um caldo diante do bigode e da cabeleira do Black Dynamite. O negão é foda!
O grande trunfo de “Black Dynamite” em relação às recentes produções que parodiam estilos e filmes recentes de Hollywood é de não ser forçado e caricato. Bem, não mais forçado e caricato do que os próprios filmes do gênero. Mas infelizmente filmes como “Deu a Louca em Hollywood” ou “Os Espartalhões” apenas parodiam cenas os últimos sucessos do cinema e as costuram sem um maior cuidado, praticamente desenhando para o público “olha, estamos tentando sacanear com o filme X e Y, riam, por favor!”. Deve haver quem goste…
Você pode até não achar tanta graça em “Black Dynamite”, que não funcionaria como comédia propriamente dita, mas ele homenageia os trejeitos e clichês do Blaxploitation de tal forma que um desavisado ao assisti-lo dificilmente saberá que se trata de uma paródia, pois a fotografia, figurino e trilha sonora emulam direitinho os filmes do gênero. O diretor Scott Sanders e o ator Michael Jai White (que também escreveu o roteiro com Byron Minns) fizeram o trabalho direitinho. Daí o trunfo da produção do filme, que deliberadamente – ao menos creio eu – estrai interpretações exageradas e canastronas do elenco, provoca erros grosseiros de continuidade e insere efeitos toscos, com direito a microfone aparecendo em cena ou em uma sequência de voo no qual Black Dynamite pilota um helicóptero e que aparece, em cenas distintas, uns 4 modelos diferentes de helicóptero! Também faz tempo que não vejo um revolver disparar mais do que 6 tiros sem ser recarregado. Destaque para a cena de dedução estrambótica das pistas para desbaratar o complô e a luta final contra “The Man”, nada menos do que Richard Nixon, hábil no Kung Fu e no Nunchaku, um adversário à altura de Black Dynamite.
“Black Dynamite” é divertido como os filmes que ele homenageia, e sua paródia é algo que parece ter sido esquecido pelos produtores de Hollywood, que só produzem coisas do quilate de “Super-Heróis – A Liga da Injustiça”, os quais não pagam nem a banda gasta para o donwload.

Espetáculo de Velhas Novidades

Por exemplo, lembremos do som. A era dos grandes estúdios foi consolidada em cima do cinema em preto e branco e mudo durante os anos 20, mas no fim desta década o som já começava a desempregar os músicos que tocavam durante a projeção, sendo o primeiro a usar uma trilha sonora gravada em discos para acompanhar o filme foi “Don Juan,” de 1926, uma aplicação da tecnologia Vitaphone, que permitia sincronizar o som com o filme. Já no ano seguinte a Warner lançou “O Cantor de Jazz“, considerado o primeiro filme falado, que empregava trilha sonora e alguns diálogos, aplicando o sistema desenvolvido pela Western Eletric, o qual teve rápida aceitação entre os estúdios. O advento do som no cinema provocou grandes mudanças e desempregos, desde os músicos necessários em cada sala de projeção quanto os letreiristas que “escreviam” os breves diálogos que eram exibidos entre as cenas, até atores e atrizes que, por conta de problemas de dicção ou sotaque se viram sem carreira do dia pra noite, como a húngara Vilma Banks ou o estridente John Gilbert. Mas criou uma demanda por roteiristas de talento que escrevessem diálogos e histórias que atraíssem o público, e na década seguinte o cinema amadureceu, com o nascimento dos musicais. Mas nem todos aderiram de pronto a novidade. Charles Chaplin relutou em adotar a nova tecnologia, e só o fez de forma plena em “O Grande Ditador“, de 1940, quando seu sucesso já era inegável.
Quando Mundos Colidem (Parte 2)

Jack Snider é um caso à parte, já que ganhou um certo respaldo e respeito dos fãs dos quadrinhos após transpor o álbum “300 de Esparta”, do Frank Miller, no filme “300“. O que impressionou a muitos foi justamente que algumas cenas seguiram fielmente várias páginas dos quadrinhos, como se estes fossem storyboards da produção. Robert Rodriguez já fizera isso em Sin City. Só que ao contrário de Rodriguez, que se manteve fiel ao roteiro e às imagens, o que se percebe é que Snyder optou por reproduzir fielmente o visual dos quadrinhos de Frank Miller, porém não foi tão fiel ao roteiro, introduzindo pequenas mudanças que , na verdade, modificavam substancialmente o texto como um todo, além de inserir uma história totalmente nova envolvendo a rainha de Esparta e uma trama política nos bastidores. Resumindo, num primeiro olhar podemos até achar que a adaptação de Snyder é fiel, mas se observarmos os detalhes, dá pra perceber que aspectos muito importantes do texto original foram pervertidos, muito provavelmente para adequar a produção à alguma “receita de bolo” dos produtores.
E foi isso que aconteceu com “Watchmen“. Já no trailer ficou claro que muitas das cenas reproduziriam na tela as cenas desenhadas por Dave Gibbons, o que alegrou os fãs temerosos por mais uma bomba hollywoodiana baseada em Alan Moore. E quanto a isso não há sombra de dúvida de que muitas sequências antológicas foram transpostas para o filme, o que por si só já é um senhor mérito, provocando um frisson voyerista em qualquer um que já tenha lido e relido ad infinitum a maxi-série.
Mas as boas notícias param por aí. O que vou falar a seguir pode até parecer aquele papo nerd xiita de se exigir fidelidade absoluta aos detalhes da obra, e talvez até seja. Mas quando falo em detalhes não estou me referindo ao tom certo de verde para o Hulk ou o tamanho dos chifres na máscara do Demolidor. Por isso não vou reclamar da mudança dos uniformes, pois isso é perfumaria. Até gostei de algumas mudanças, como os uniformes da Silk Spectre. A original é uma tremenda referência visual às pinups, e o uniforme de sua filha Laurie ficou mais interessante, por assim dizer, agradando a qualquer tarado por mulheres em latex.
Como Moore previa, não dava para levar tudo para a tela, mas até aí tudo bem, é aceitável. Mas aí dou ponto a Snider, que na abertura do filme faz um resumo dos anos 30 até 1985, quando se passa a história, usando referências visuais excelentes e citando fatos que são mencionados ao longo dos quadrinhos de forma indireta.
Um dos pontos fracos, na minha subjetiva e sincera opinião, é a caracterização dos personagens e a interpretação dos atores. O Comediante e o Rorcharsch até que foram OK, apesar de poderem ter sido ainda melhor explorados. Porém senti falta uma Sally Jupiter sexualmente liberal quando jovem e uma senhora amarga “esperando a morte” em um asilo. Tampouco vi a personalidade forte e zangada de sua filha, Laurie, frustrada por ter que realizar as fantasias da mãe. O o Ozymandias, então? Nos quadrinhos Adrian Veidt era um senhor loiro de meia idade, com uma expressão carismática, natural liderança e presença marcante, mas carregando uma amargura e o peso dos seus atos. No filme se tornou um personagem distante e apático, com maneirismos quase afetados. Uma bichona, como diria Paulo Silvino. Tudo bem que Rorscharch insinua uma possível homossexualidade do personagem no gibi, mas daí a levar isso a sério é sacanagem. Em suma, faltou dar uma personalidade aos personagens, estavam quase todos apáticos. Culpa do elenco, do diretor, do roteiro? Não sei dos outros atores, mas a Carla Gugino sabe ser bem safada quando quer…
E falando em roteiro, este é o principal calcanhar de aquiles do filme. O forte da obra é justamente a história, que explorou praticamente todas as possibilidades narrativas da mídia quadrinhos, com flashbacks, metalinguagem e metáforas visuais e narrativas excelentes, incluindo as citações, referências e diálogos, em sua maioria com sutileza que exige uma segunda leitura pra ser percebido. Obviamente não seria viável transpor TUDO para um filme, mas bem que poderiam manter a essência da obra. Personagens secundários acabaram se fundindo entre si, os aspectos-chaves da trama foram simplificados, os diálogos se tornaram menos brilhantes, e o que é pior, a sutileza foi pro saco, com inclusão de cenas com violência gráfica, algo que não existia tão explicitamente nos original. Não sei se subestimaram por demais o público, mas não deixaram muito espaço para a imaginação do espectador. Tudo bem que os produtores de Hollywood não costumam perder dinheiro ao nivelar por baixo a inteligência de seu público, mas acho que exageraram. Como exemplo posso invocar a cena que eu mais aguardava, o relato de Rorscharch ao psicólogo da prisão sobre o seu passado, principalmente o caso de sequestro da garotinha, que perdeu todo o clima. Claro que nos quadrinhos houve tempo para desenvolver uma tensão entre os personagens, mas o pior é que no filme o diretor queria deixar tudo bem claro, no melhor estilo “estou desenhando para você entender direitinho”, e onde haviam dois cães brigando por um osso – que se revelaria uma tíbia humana após um olhar mais atento – ficou uma perna de criança destroçada e ainda com o sapatinho na boca de dois pastores alemães. E nem vou comentar a diferença do modo como ele mata o assassino nos quadrinhos e no filme.
Esteticamente o filme agrada, mas como narrativa e caracterização dos personagens deixa a desejar, e muito, ao texto original. Talvez eu venha a mudar de opinião quando vir a assistir a versão integral do diretor, com cenas acrescentadas e os extras, como os “Contos do Cargueiro Negro”. Mas duvido muito.
A moda de adaptar histórias em quadrinhos para o cinema ainda está rendendo, e veremos muitos filmes deste gênero pelos próximos anos. Mesmo afastado da indústria de quadrinhos, ainda há algum material escrito por Moore que ainda não foi tocado pelos obtusos produtores do cinema, como “Tom Strong”, “Promethea” ou “Lost Girls”. Resta saber se algum dia teremos no cinema algo fiel à obra do mago inglês, ou se Hoolywood vai perceber que Moore lançou uma urucubaca das brabas pra qualquer filme baseado em sua obra dar com os burros n’água.
Quando Mundos Colidem (Parte 1)

Relembrando os lances desta relação tempestuosa, a primeira obra de Moore a ser levada ao cinema foi “Do Inferno”. Nesta série, Alan Moore reconta a história de Jack, o estripador, se baseando nas teorias do historiador Stephen Knight, entre outras teorias, para dar sua versão do criminoso, cuja identidade é logo revelada no início da história. Mas Moore vai muito além de uma mera história policial nessa série em preto e branco desenhada por Eddie Campbell, explorando a psique de Jack sob várias óticas. O filme, produzido em 2001 e dirigido por Albert e Allen Hughes, em si, não é tão ruim. Se alguém que não leu a história original assistir a ele pode acabar gostando. Não chega a ser excelente, mas é um bom passatempo, e o personagem de Johnny Depp segura o filme, mas não passa de um suspense convencional com um romance mal resolvido no meio, e com uma certa dose de violência. Infelizmente a trama e os conceitos apresentados por Moore são solenemente ignorados no roteiro. E, obviamente, Moore não gostou nem um pouco. Mas ele nem imaginava em seus sonhos mais loucos o que o aguardava.
“A Liga dos Cavaleiros Extraordinários” é uma das melhores coisas que surgiram nos quadrinhos dos anos 90. Alan Moore usou seu conhecimento da literatura fantástica e de aventura do século XIX e mesclou alguns dos personagens em uma espécie de “Liga da Justiça” vitoriana, que era liderada por Mina, a antiga amante de Drácula, e formada pelo Capitão Nemo, Allan Quaterman, Dr,Jeckill e o Homem Invisível. O resultado é uma história criativa, cheia de referências a personagens da literatura, bastante violenta, algo realçado pelo traço de Kevin O’Neil. Uma premissa muito interessante, uma história pronta para um filme inovador. E o que fizeram? A bomba “A Liga Extraordinária“, de 2003. Pra satisfazer o ego do Sean Connery, que fez Alan Quatermain, seu personagem passou a ser o protagonista e líder da equipe, além dos mais diversos pitacos que o velho 007 obrigou o diretor a engolir. Foram acrescentados outros personagens, como o imortal Dorian Gray e o aventureiro Tom Sawyer. O resultado é um filme com história fraca e roteiro ridículo, que fez algo que raramente ocorre: público e crítica concordarem. Concordarem que o filme é uma bosta. E para terminar de lascar, a produção foi processada pelo uso dos personagens Tom Sawyer e Dorian Gray, que não estavam em domínio público. E como o nome de Alan Moore estava nos créditos como escritor, ele acabou, mesmo que indiretamente, envolvido também. Daí em diante ele fez questão de não ver seu nome envolvido em mais produção alguma. Tanto que, nos filmes posteriores que se baseiam em obras de Alan Moore não levam seu nome como um dos escritores. Vamos à próxima vítima. John Constantine foi uma criação do Moore quando este estava à frente do título “Monstro do Pântano”, no qual fez um excelente trabalho ao revitalizar um personagem do segundo time e a trazer de volta elementos de terror aos quadrinhos americanos. O personagem fez tanto sucesso que logo estaria em título próprio, “Hellblazer”, que é publicado até hoje pelo selo Vertigo, e já passou pelas mãos de outros bons escritores, como Garth Ennis e Warren Ellis. O cínico mago inglês, sempre de sobretudo e fumando cigarros Silk Cut, é um dos mais fascinantes anti-heróis dos quadrinhos. Em 2005 sai o film
e com o personagem, sob o título “Constantine“. Os fãs se assustaram, mas pelos motivos errados. Aliás, a coisa já começou errada,
pois Constantine, que é loiro e inglês , virou americano e moreno, e alguém achou uma ótima ideia usar o recém-saído do sucesso “Matrix” Keanu Reeves como protagonista. E, para variar, os produtores e roteiristas não aproveitaram muito mais do que o conceito do personagem. Mesmo usando elementos encontrados nos quadrinhos escritos por Jamie Delano e, principalmente, Garth Ennis, grande parte das melhores ideias, por sinal as mais ousadas e politicamente incorretas, foram simplificadas ou ignoradas. O resultado? Um filme de aventura com alguns elementos de terror, um “Sobrenatural” misturado à “Matrix”. Pode até agradar o público em geral, mas quem já conhecia o personagem deve ter tido ganas em explodir algum estúdio ao ver uma versão estagiário de macumbeiro do Chas, que de taxista brutalhão, praticamente um Hooligan, virou um rapaz franzino. Não deve ter agradado também Constantine se aventurando nos EUA, e não na sua versão sombria de Londres, e usando uma espingarda benzida para matar capetas. Mas o toque final foi o personagem deixar de fumar e passar a mascar chiclete. Tenha dó. Mesmo não se baseando nas histórias escritas por Moore, o personagem foi criado por ele, e este foi mais um bom motivo para o inglês querer distância ainda maior de Hollywood. Mas Moore estava ocupado demais com outra produção para se preocupar com o que fizeram com Constantine, pois os irmãos Wachowski estavam produzindo “V de Vingança“, baseada na série que Moore escreveu ainda na Inglaterra, mostrando um futuro sombrio no qual o governo, após um a
to terrorista,
assume o controle total do país, submetendo-o a uma ditadura de extrema direita, com clara inspiração em “1984“, de George Orwell. Antes mesmo do resultado ser exibido, a celeuma maior foi tentarem dar um “selo de aprovação Alan Moore” ao filme, o que seria uma façanha sem tamanho, pois os produtores afirmaram que o roteiro havia sido lido e aprovado por Alan Moore, que negou veementemente e ainda esculhambou com Deus e o mundo, exigindo que seu nome NÃO aparecesse nos créditos. No caso do roteiro, além de algumas omissões de personagens secundários, haviam pequenas e sutis mudanças na história, mas que acabaram tirando o verniz do texto original. Pois é, aquela mania de tentar suavizar personagens, de adaptar a história para o gosto do público em geral, sabem como é…Resultado? Um filme de ação bom, que aproveitou bem alguns elementos do original mas que estragou outros. Para quem assistiu e gostou, vale a pena ler a obra original para comparar. Mas o que poderia ser a suprema heresia ainda estava por vir.Alguém Ainda Vigia os Vigilantes?

Entre setembro de 1986 e outubro de 1987, a DC lança a minissérie “Watchmen”, que acabou se tornando um clássico do gênero, e junto com outras obras como Cavalheiro das Trevas, redefiniu o gênero de super-heróis nos quadrinhos. Para se ter uma ideia de sua relevância e importância, ganhou diversos prêmios concedidos à indústria de quadrinhos, como o Kirby e o Eisner, além de ser a primeira obra em quadrinhos a receber o prêmio Hugo, destinado a obras de ficção científica, e estar incluído na lista dos 100 romances mais importantes do século XX elaborada pela revista Time.
Mas qual o segredo de uma história que, mesmo em um contexto tão diferente, consegue se manter ainda atual e com o mesmo impacto de quando lançado? Não há uma resposta fácil, e explorar todos os elementos dessa história não caberia nesse espaço. Mesmo assim, tentaremos explicar.
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Aranha, o Rei sem Coroa do Crime

Na verdade li apenas duas de suas histórias, em ótimas ilustrações em preto e branco, ambas as histórias publicadas em uma única revista em formato almanaque lançada pela editora Kultus nos anos 70, editora esta que entrou para a história dos quadrinhos nacionais por ser a primeira a publicar as histórias da Vampirella por aqui. Mas só estas duas histórias já mostravam um personagem por demais interessante, pois antes de ser um herói certinho, ele seria um vilão, ou um anti-herói, na melhor das hipóteses, que costumava passar a polícia para trás, planejar maquiavelicamente seus passos, detonar seus oponentes sem dó e tratar seus subalternos como escravos, com equipamentos avançados à sua disposição e um ego maior que o castelo no qual residia.
Infelizmente nunca mais vi nada publicado deste personagem por aqui, tampouco voltei a ver a cor desta revista de novo. Mas é óbvio que o santo padroeiro dos curiosos está aí para nos dar uma forcinha. E eis um breve apanhado a respeito desta fascinante e tão pouco conhecida figura.
O Inimigo da Vizinhança
Antes que se pense que é se trata de um plágio do Homem-Aranha, não se preocupe que nem de longe os personagens têm muito em comum, a não ser o nome e a cidade onde atuam. Esse anti-herói inglês era inicialmente um criminoso megalomaníaco que tinha como maior objetivo se tornar o “rei sem coroa do crime”. Sua base é um castelo medieval transplantado para as proximidades de Nova York, sua área de atuação. Ele não tem poderes sobre-humanos, e sim uma mente brilhante entre suas orelhas pontudas, mente esta que concebera equipamentos e armas ultra-sofisticados, além de uma capacidade ímpar de hipnose. Seu traje é uma roupa escura e justa à prova de balas, além de um exoesqueleto que lhe confere habilidade e força sobre-humana, um foguete portátil às costas e uma pistola lançadora de teias, gás e bolas de fogo. Seu transporte é o Helicar, uma versão compacta de helicóptero com retrofoguetes. Como principais auxiliares ele conta com o cientista Pelham e o hábil ladrão Roy Ordini, que sofrem o diabo nas mãos de seu chefe. Apenas seu ego superava sua genialidade.
Como um perfeito anti-herói, o Aranha tratava seus subordinados com mão de ferro, inclusive apelando para castigos físicos se eles não seguissem suas ordens. Suas pretensões criminosas o colocaram contra outros bandidos, e mesmo mal intencionado, ele acabou se tornando um involuntário combatente do crime ao eliminar seus rivais no submundo, como o Gênio do Crime ou o Dr. Mysterioso. Acabou deixando o crime e se tornou um mocinho, aliando-se ao grupo inglês de heróis, a Sociedade dos Heróis. O clima das histórias era pura ficção científica dos anos 60.
As histórias do Aranha foram publicadas na revista semanal inglesa “Lion”, da editora Fleetway, entre 1965 e 1969, e o personagem foi criado por Ted Cowan como parte dos esforços da editora em produzir material atualizado para competir com os heróis americanos da era de prata. Quem viria a assumiras histórias d’O Aranha seria um dos criadores do Super-Homem, Jerry Siegel. Além das aparições semanais, o personagem apareceu nas revistas “Fleetway’s Super Library” e nos especiais anuais da “Lion”. Nos anos 70, muitos dos heróis e vilões p
ublicados nos anos anteriores foram retomados na revista “Vulcan”, que reeditou algumas das histórias do aracnídeo não muito amigo da vizinhança. Além da Inglaterra, tais histórias foram republicadas em outros países da Europa, como Itália, França, Alemanha, Portugal e Espanha.
Após passar os anos 80 praticamente esquecido, o Aranha foi retomado em algumas histórias inglesas. Em 1992, ele faz uma aparição na revista 2000 A.D pelas mãos de Mark Millar, porém essa versão é execrada pelos fãs, pois o mostra como um canibal psicopata, bem ao estilo violento e iconoclasta de Millar. Uma versão que melhor agrada aos fãs apareceu no título “Jack Staff” em 2003. Ele é mostrado como um velho inimigo do personagem-título, que estaria recluso na Inglaterra sob o nome de Alfred Chinard e volta à ativa após ter seus equipamentos roubados. Na já citada “Albion”, de 2006, O Aranha é um personagem-chave da trama, onde heróis e vilões ingleses são mantidos reclusos durante as últimas décadas. Em 2006 foi lançado na Inglaterra uma edição em capa-dura reunindo quatro histórias do Aranha com o título “King Of Crooks”.
Por aqui no Brasil, até onde sei, saiu apenas uma edição em preto e branco com duas histórias completas do personagem, a qual mencionei no início deste texto. Uma delas foi “The Professor of Power”, publicada originalmente em 1967 na “Fleetway Super Library – Fantastic Series” numero 2. A outra foi “Crime Unlimited”, da “Fleet Library”número 4, totalizando umas 240 páginas. Ao menos naqueles tempos não vi mais nenhuma edição além dessa. Infelizmente esta editora fechou as portas há muitos anos e há pouca informação sobre seu acervo.
Mais sobre o Aranha nesse site

Os Terremotos de Sábado à Noite

Cinema 4D de pobre
Mas tudo isso está realmente me lembrando é das peripécias de um ex-colega de trabalho que já incorporava tais recursos nos cinemas paraibanos nos anos 70. Nas horas de ócio, esse meu colega nos divertia com a narração de algumas de suas peripécias juvenis, parte delas justamente durante a projeção de algum filme em um dos cinemas do centro de João Pessoa, como o Plaza, o Municipal ou o Rex, para nossa diversão e deleite. Em um desses episódios, ele e sua turma assistiam a “Os Embalos de Sábado à Noite”, com John Travolta reclamando das meninas que queriam dançar com ele só porque lhe deram. E em plena era Disco, os destaques do filme eram as cenas de dança. E para dar um efeito 3D nestas cenas, ele e sua trupe subiam e ficavam dançando em frente à tela, acompanhando a trilha sonora dos Bee Gees e os passos de Travolta. Mas este avanço tecnológico não foi bem aceito pelo público e nem pelo gerente, que chamou a polícia para descer a borracha nos Tony Manero paraibanos. A correria foi tanta que eles poderiam participar do filme “Carruagens de Fogo”.

"Essa Porra tá desabando mesmo!"
Mas este foi fichinha comparado ao que viria, o precursor do “4D” devidamente testado no velho cinema “Plaza”, um cinemão antigo que deveria caber umas 700 pessoas, tinha uma espécie de “camarote”, com algumas dezenas de cadeiras. Nos anos mais decadentes, normalmente quem subia ao “camarote” era a pirralhada doida pra bagunçar e pra jogar alguma coisa nos pobres espectadores das cadeiras de baixo.
Ainda nos anos 70 foi lançado o filme “Terremoto”, mais um exemplar do subgênero “cinema-catástrofe”, cuja receita era reunir um elenco de estrelas decadentes, cujos personagens viviam seus pequenos dramas pessoais até alguma desgraça das grandes acometer a todos e o elenco ir morrendo ao longo do filme. A desgraça poderia ser um incêndio no arranha-céu, um Boeing em pane ou um transatlântico indo a pique, e em “Terremoto” não deve ser difícil imaginar a causa da catástrofe. Mas o filme trouxe uma inovação técnica em relação aos efeitos sonoros, já que empregava a tecnologia “sensuround”, que deve ter sido o avô do Dolby Surround, THX e coisas do gênero. O prometido é que os efeitos sonoros trariam realismo às cenas de terremoto. Se isso funcionou no velho Plaza e seu sistema de som capenga, vai saber. Mas meu colega ainda deu uma forcinha, pois foi assistir ao filme munido de saquinhos de areia, e sabidamente ficou no camarote do Plaza. E nas cenas onde o chão tremia e o estrondo vibrava a sala, ele derramava a areia lá de cima, e quem tava embaixo se entusiasmava tanto com a novidade tecnológica que imaginava até um tremor de verdade, já que alguns gritavam coisas do tipo “o cinema vai cair!” ou “essa porra tá desabando mesmo!”, pra deleite de meu colega. Nisso James Cameron não pensou.
Mas isso tudo é passado e obsoleto frente aos recursos digitais dos filmes atuais. Esse meu colega já deve ter se aposentado, e a maioria dos cinemas citados nem mais existem, sendo ocupados por lojas de calçados ou agências bancárias. Com exceção do Municipal, que ainda passava filme, mas de um gênero njo qual o efeito “4D” que pode ser proporcionado é uma bela duma esporrada na cara, algo bem fácil de acontecer, dado o tipo de espectador dessas películas…
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