Author Archives: Moziel T.Monk

Ruy Castro – Ele é Carioca

Texto de minha autoria originalmente publicado no site Mínimo Múltiplo pra tirar a poeira das prateleiras da Blodega

Antes de tudo, uma rápida correção: na verdade, Ruy Castro é mineiro de nascença, mais especificamente de Caratinga. Mas se tornou tão – ou mais – carioca quanto qualquer um nascido no Rio de Janeiro, tanto que recebeu o título de cidadão benemérito da Cidade Maravilhosa. Isso, para mim, já é mais do que suficiente para justificar o título deste texto, que é uma óbvia alusão ao nome de uma famosa música da bossa nova (a qual também empresta seu título a um dos livros de Ruy). Além disso, ele certamente já fez mais em prol da imagem carioca do que qualquer governante ou burocrata nas últimas décadas, e, apesar de Garotinhos, Rosinhas e Maias, para ele o Rio continua lindo. Pode se considerar Ruy Castro o mais carioca dos escritores mineiros, e olha que não falta séria concorrência nessa área: Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos… Ruy, porém, conta com a nítida vantagem de ainda estar vivo.

Meu primeiro contato com o jornalista e escritor foi justamente em matérias de revistas como “Set” e “Playboy”, em que seus textos, cheios de informação e humor, se destacavam dos demais. Em uma dessas matérias na “Set” sobre críticos de cinema, aliás, saiu a informação de que ele nunca fora pegar o diploma de jornalista, um detalhe pitoresco e digno de se tornar lenda. Logo seu nome me chamaria a atenção e, onde quer que ele estivesse impresso, já era por mim considerado certificado de qualidade. Passei a conferir livros e antologias cujas organização e tradução ficaram em suas mãos, e, assim, em minha juventude fui apresentado às crônicas e contos de Woody Allen para a New Yorker em “Cuca Fundida”, aos escritos de H.L. Mencken em “O Livro dos Insultos” e aos bombons com fel das tiradas witty de “O Melhor do Mau Humor”, por obra e graça de Ruy Castro. E daí para ler os livros de sua autoria foi um pulo, um vício saudável que mantenho até hoje.

Mais uma breve retificação, antes de continuar: Ruy Castro não terminou o curso de jornalismo – na realidade, ele levou bomba, concluiu Ciências Sociais, mas de fato nunca quis saber de pegar o diploma. Mas diploma não lhe fez muita falta, não. Atuando na imprensa desde 1967, quando começou como um simples foca no Correio da Manhã, foi picado pela mosca das letras após Paulo Francis o chamar como colaborador fixo para o Correio e para a famosa, mas efêmera, revista Diners. A partir daí, é história, e nessas mais de quatro décadas ele já passou por diversos jornais e revistas, muitos já extintos, e conviveu com monstros das letras, como Francis. E foi “culpa” de Francis também o estilo de escrever de Ruy, pois este costumava assinar apenas os textos sérios e usar pseudônimos para os textos mais fanfarrões, até o dia em que o amigo perguntou o porquê, já que os de humor eram justamente os melhores. Então, em pouco tempo, os textos “sérios” de Ruy foram perdendo a sisudez e se deixaram contaminar pelo bom humor que lhe é peculiar, “como um Dr. Jeckyl, quando passou a se transformar em Mr. Hyde mesmo sem beber a gororoba”, diz ele em “O Leitor Apaixonado” num texto justamente sobre Francis.

E seu estilo é bem característico, sempre com uma alegoria ou metáfora inteligente e hilária para soltar no meio do texto, fazendo citações e referências sofisticadas sem se tornar afetado ou esnobe, enquanto nos fornece uma torrente de informações. Tudo sem que nos cansemos ou percebamos, de tão leve e agradável que se torna a leitura. É como ouvir uma boa história em uma mesa de bar enquanto bebericamos um chope estupidamente gelado. Ou, em suas palavras, quando se refere às crônicas, em sua coletânea “Ungáua!”: “A crônica, ainda mais quando praticada por cariocas, é o feudo da conversa fiada e nela, todo assunto é válido, desde que irrelevante”.

O grande público, contudo, conhece mais Ruy Castro por suas ótimas biografias. No início dos anos 1990, lançou o livro-reportagem “Chega de Saudade – A História e as Histórias da Bossa Nova”, conseguindo a proeza de ressuscitar o interesse pela então combalida e esquecida Bossa Nova, a deliciosa e sofisticada mistura de samba e jazz que embalou os jovens cariocas no final dos anos 1950. Com o livro, trouxe à tona a história dos precursores e protagonistas daqueles anos dourados da música brasileira. Pouco depois, escreveu “O Anjo Pornográfico – A Vida de Nelson Rodrigues”, mostrando que a vida do mais imoral dos escritores brasileiros foi tão ou mais emocionante e trágica quanto sua obra. Com esta biografia do “reacionário”, Ruy alcançou o mesmo feito conseguido com a bossa nova, ao despertar no público da nova geração o interesse pela obra de Nelson. Além da biografia, também foi responsável por organizar e relançar a obra literária do autor de “Vestido de Noiva”.

Antes de se dedicar de corpo e alma a um único biografado, Ruy presenteou o público com “Saudades do século 20”, uma declaração de amor (e de profundo conhecimento) à cultura americana dos anos 1920 aos 1960, em que aborda de forma breve a biografia de 13 personalidades da música, literatura e cinema americanos daquele período.

Na área de biografias, Ruy ainda reconstituiria a trajetória do jogador Garrincha e da “pequena notável” Carmen Miranda. Mas ambos foram um parto para o autor, por motivos diversos. No caso de “Estrela Solitária – Um Brasileiro Chamado Garrincha”, de 1995, a editora Companhia das Letras enfrentou um processo movido por parentes de Garrincha, menos por se sentirem ofendidos do que por oportunismo financeiro de algum advogado, mal que assolou Garrincha até depois de morto. O processo proibiu o livro de circular por um bom tempo, até a editora conseguir um acordo financeiro que satisfizesse as partes. Por esse episódio, Ruy nunca perde oportunidade de, em diversos artigos, demonstrar sua insatisfação e repúdio perante a sanha monetária de descendentes de mortos famosos.

“Carmen – Uma Biografia” igualmente demorou para sair. Uns dez anos, por sinal. Foi lançado em 2005, e, nas dedicatórias, havia uma em especial para alguns médicos, sem os quais aquele livro não seria possível. Isso se explica pelo fato de Ruy ter diagnosticado um câncer na garganta enquanto escrevia a biografia, e durante sua conclusão, passou por um severo tratamento. Como um de seus ídolos no cinema, Humphrey Bogart, que teve câncer no esôfago, Ruy não se entregou à doença. Além de sua persistência e dedicação ao trabalho, porém, tinha décadas de avanços na medicina a seu favor, o que lhe permitiu sobreviver à doença e ao tratamento e finalizar o livro. “Carmen salvou minha vida”, costuma afirmar.

Célebre por suas biografias, Ruy é prolixo o bastante para não se resumir a elas, mesmo porque sempre jura de pés juntos nunca retornar a uma enquanto conclui outra. Escreveu romances, como “Bilac vê estrelas” e “Era no Tempo do Rei”, mas seus textos são, na maioria, dedicados às suas paixões: música, literatura, cinema. E futebol, obviamente. Alguns de seus artigos para jornais e revistas já foram reunidos em antologias. Sobre música brasileira e bossa nova, temos “A Onda que se Ergueu no Mar”, meio que complementando o “Chega de Saudade”. Sobre música, principalmente americana, “Tempestade de Ritmos”. Cinema? “Um Filme é Para Sempre”. Faltou literatura? Não mais: “O Leitor Apaixonado” está aí nas livrarias. Ainda temos Ipanema em “Ela é Carioca”. E o futebol, além de “Estrela Solitária”, está nas páginas de “Flamengo – O Vermelho e o Negro”. Acha pouco ainda? Procure em jornais como a “Folha de São Paulo” ou revistas como a “Brasileiros”, que você terá uma boa chance de encontrar algum texto de autoria de Ruy, desde uma breve crônica até uma extensa matéria sobre algumas de suas paixões.

Enquanto esperamos o que Ruy Castro ainda aprontará, sugiro aos leitores irem tomando intimidade com seu trabalho lendo algumas de suas crônicas disponíveis na internet. Em algumas, quase dá pra sentir a maresia de Ipanema. Basta o jeitinho de ele andar – ou escrever.

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Lendários Notívagos


Edward Hopper e a Esquina mais Famosa do Mundo das Artes

Hoje ao adentrar em uma pequena loja vi um poster iluminado com LED’s que me chamou a atenção pela referência nele oculta que me lembrou um famoso quadro do movimento realista americano, movimento este que era um contraponto ao modernismo que surgia concomitante na Europa.

Edward Hopper, um dos mais conhecidos expoentes desse movimento artístico que predominou no cenário americano nas primeiras décadas do século XX, trabalhou durante 10 anos como ilustrador de revistas, o que lhe serviu como uma escola para apurar seu estilo, e seu quadro mais conhecido é “Notívagos” (Nighhawks), de 1942. É quase certo que você já o tenha visto em alguma ilustração, ou ao menos alguma referência, homenagem ou paródia a esta pintura de óleo sobre tela.

Hopper se especializou em reproduzir tipos e cenários tipicamente urbanos, em situações cotidianas com as quais o observador poderia se identificar, mas deixando margem para interpretações individuais. A composição desse quadro em especial, praticamente uma cena cinematográfica mostrando um um restaurante de esquina à noite, com alguns poucos clientes e um balconista, costuma ser interpretada pelos críticos como ilustrando a alienação e solidão do indivíduo em ambientes urbanos, mesmo quando no meio de uma multidão ou ao lado de outros cidadãos.   Mesmo dentro do cenário iluminado do restaurante , em contraste com a escuridão da rua, há uma predominância de cores frias, com exceção da mulher de vestido vermelho, a qual não sabemos se está acompanhada do cavalheiro ao lado ou se é apenas mais uma solitária notívaga.

Mesmo perdendo terreno nos anos seguintes para o movimento abstrato, a obra de Hopper ainda influenciaria a Pop Art décadas depois, e seu quadro mais famoso ganharia diversas homenagens e paródias na cultura pop, compondo o cenário em filmes, séries e desenhos animados, como em algum episódio dos Simpsons ou nas páginas de “Batman – Ano Um”, só para citar exemplos bem caros aos nerds. Uma série dessas paródias e homenagens pode ser vista no blog Nighhawks Forever.

Um poster que parodia esse quadro e que se tornou tão ou mais famoso que o original é o intitulado “Boulevard of Broken Dreams”, uma ilustração de 1984 do artista austríaco Gottfried Helnwein, na qual os “falcões da noite” são substituídos por ícones de distintas gerações da cultura americana: Humphrey Bogart, James Dean, Marilyn Monroe e Elvis Presley, que em circunstâncias normais nunca teriam se encontrado na vida real, o que justificaria o título da obra.

E depois de tanto enrolar é que eu finalmente chego ao poster que vi hoje, e que indiretamente faz referência ao trabalho de Hopper. Pesquisando um pouco descobri que o dito cujo é intitulado “Legendary Crossroads”, um poster do artista canadense Chris Consani, e lá estão os personagens retratados em “Boulevard…” no que parece ser uma espécie de “saideira” desse memorável encontro onírico, numa serenata improvisada no meio da rua. E vasculhando o trabalho desse artista, é possível encontrar outros posteres cujos protagonistas são o mesmo quarteto de famosos, e que estão disponíveis para venda.

No final das contas, a influência de Hopper ainda se faz sentir, mesmo que indiretamente, na moderna cultura popular. Lembrem-se disso ao reconhecerem esse quadro ou suas referências, nem que seja em alguma parede de loja ou na sua série preferida.

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Trollando a Ditadura


As “trolladas” no Regime Militar

Dizem que o ano de 1968 ainda não terminou, fazendo referência ao livro do Zuenir Ventura. O período da Ditadura Militar é um episódio historicamente recente e que ainda desperta discussões e polêmicas. Tanto que atualmente é o tema central de uma novela do SBT, “Amor e Revolução”. E uma das marcas desta época foi a rigorosa censura, que impedia que qualquer coisa que atentasse contra a moral e os bons costumes viessem a público. Como boa parte da classe artística era contra o regime, a censura também perseguia qualquer manifestação que criticasse o governo ou fosse considerada propaganda “subversiva”. E sempre que a liberdade de expressão é, de alguma forma ameaçada nos nossos dias, essa época é sempre lembrada como tempos sombrios para a cultura e a imprensa.

Mas isso não impedia que, vez por outra, alguns conseguissem dar um drible nos censores e sacanear o regime em praça pública, em atitudes que hoje a geração Y tranquliamente chamaria de “trollar”. Para a geração Ipod, lembro aqui uns cinco casos nos quais os autores deliberadamente deram uma sacaneada no regime. Ei-los:


Apesar de Você, Ó!

A arte como um todo foi um foco de resistência ideológica, e a censura fazia marcação cerrada em cima da produção artística daqueles considerados “subversivos”. Na música, autores faziam malabarismos metafóricos para, no subtexto, cravar uma estaca nos peitos do regime. Às vezes colava, às vezes não. Um dos mais visados compositores daqueles tempos era Chico Buarque, e o fato de ter seu nome em alguma composição que passava pelo crivo dos censores já era motivo prévio para tacar um carimbo de foda-se censurado. Tanto é que ele chegou a adotar o pseudônimo de Julinho de Adelaide para assinar algumas de suas músicas. Há várias músicas de Chico que fazem referência ao quadro político do país, como “A Rita”, uma corruptela de a dita (dura) que levou seu sorriso e emudeceu seu violão, ou “Cálice”, um trocadilho com “cale-se”. Todavia a melhor que passou foi “Apesar de Você”, um puta desabafo contra o governo Médici, que passou incólume sob a tesoura da censura, mesmo com letra agressiva contra o General Presidente de então. A história que Chico contou é de que a música se referia a um antigo amor, uma mulher muito mandona e autoritária. Quando alguém prestou atenção na letra e percebeu que a “mulher” era o General Médici, o pau comeu e a música foi proibida, mas depois de semanas tocando em tudo que é rádio e com o disco sendo vendido nas lojas. E, apesar de tudo, o amanhã foi outro dia, de fato.


Todos os Olhos

Ainda na música, outra afronta descarada ao sistema que só veio à tona em anos recentes foi o disco de Tom Zé, “Todos os Olhos” , no qual o artista do tropicalismo, juntamente com o poeta Décio Pignatari, resolveram fotografar um brioco em close com uma bola de gude encaixada. Sim, os malucos resolveram por um cu em uma capa de LP para ser exposto ao público em lojas.

Bem, para os que ainda não conhecem, a figura acima é capa do disco em questão, que ficou famosos mais pela capa que por suas músicas, pois em plena vigência do AI-5, o poeta concretista Décio Pignatari resolveu sacanear com a censura e sugeriu que fotografassem uma bola de gude em cima do orifício monossilábico posterior (popularmente conhecido como cu) para servir de capa de disco. A ideia era expor um cu nas lojas para desmoralizar o regime. Tom Zé topou, com certa relutância, até porque quem tem cu tem medo, principalmente nos anos de chumbo. O resultado é o que você deve estar vendo no topo do post. Quando a história veio à tona em an(u)ons recentes, até a revista “Sexy” colocou um apelo para se descobrir quem teria sido a modelo que expôs a sua parte da anatomia onde o sol não bate. Bem, tinha amigo meu que desconfiava que era o “pranóis” de Caetano Veloso

Mas o irônico é que em 2005, em uma matéria na revista “Carta Capital”, uma nova versão, até mesmo desconhecida pelo Tom Zé, veio à tona. Em suma, depois de herCÚleas tentativas de se reproduzir a ideia de Pignatari, as fotos da bola sobre o brioco não ficaram muito fotogênicas, e o fotógrafo acabou preferindo colocar a bola na boca da modelo, tendo um resultado mais satisfatório.

É uma pena, pois caiu um mito dos mais arraigados da MPB. Até o Tom se surpreendeu com a notícia de que o cu era uma boca, no frigir dos ovos. Já o Décio já está cansado de tanto falar nesse bendito butico, que no fim das contas, nem furico era.


A Tonga da Milonga do Kabuletê

Entre as inúmeras parcerias que o poeta e compositor Vinícius de Moraes, a com Toquinho rendeu músicas que se tornaram clássicas da Música popular. Mesmo evitando temas mais espinhosos, vez por outra o poetinha tinha alguma rusga com a censura. Um belo dia a dupla resolveu sacanear com a censura ao inserir um palavrão cabeludo no meio de uma letra bem humorada, porém escrito em dialeto nagô. A sugestão teria vindo da então esposa de Vinícius, Gesse Gessy, que tascou a expressão “a tonga da milonga do kabuletê”, que em bom português significa “os pêlos do cu da mãe”, segundo explicara a esposa baiana do poeta. Como Vinícius tinha certeza que não se ensinava nagô na Academia das Agulhas Negras, mandou ver, e se divertiu ao xingar os milicos sem ser incomodado.


“Eu Quero Mocotó!!”

Mas censor nem sempre era a figura do cão. Como todo bom burocrata e funcionário público, ele estava ali fazendo o seu trabalho. E em muitos casos acabava surgindo alguma amizade entre censores e artistas, e a tesoura acabava pegando leve. A turma do Pasquim se tornou famosa por ludibriar e levar na conversa muitos dos censores que ficavam em sua redação, por vezes à custa de muito uísque Buchanan’s, que acabava “lubrificando” a relação entre censura e um dos semanários mais críticos ao regime. Numa dessas, a censora de plantão, D.Marina, liberou uma reprodução do quadro “O Grito do Ipiranga”, de José Américo, com a frase “Eu Quero Mocotó!” saindo de D.Pedro I. Os militares não gostaram nem um pouco e mandaram a redação inteira para o xilindró durante dois meses. Mas o jornal não deixou de ser editado, pois os colegas da patota do Pasquim se reuniram e tocaram a publicação durante a ausência de seus titulares, e a versão publicada é que todos estavam “acometidos de gripe”. Depois dessa presepada, os editores tinham que ir diretamente a Brasília negociar a liberação das edições seguintes.

Para servir de saideira, uma ótima para ilustrar o nível intelectual daqueles que comandavam a repressão, e mesmo não sendo a intenção dos artistas, expôs ao ridículo as autoridades, que não eram exatamente famosas por sua cultura e inteligência. Em 1965 a peça “Electra” foi encenada no teatro municipal, e a trama chocou os mais conservadores, que chamaram o elenco “aos costumes”, e a polícia ficou doida para prender quem escrevera aquela pouca-vergonha a pedido do DOPS. Claro que ninguém ali percebeu o pequeno detalhe que o texto era uma tragédia grega escrita uns 400 anos antes de Cristo por um tal de Sófocles, coincidentemente  o pai da tragédia grega. E claro que não se poderia perder este mote para se tirar sarro do regime, e a tragédia virou comédia nas mãos de Sérgio Porto e seu FEBEAPÁ – Festival de Besteiras que Assola o País.

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Mandrake


A Grande Arte de Rubem Fonseca na Tela Pequena

Na minha época de pretenso maldito e misantropo em progresso, uma de minhas leituras favoritas eram os livros e contos de Rubem Fonseca. Mesmo que você não sinta vontade de que a humanidade se exploda, tal obra é recomendadíssima. Contista de mão cheia, a maioria dos seus contos são policiais, fruto de sua experiência profissional na Polícia Civil. Cheios de detalhes do submundo carioca e recheados de violência crua, normalmente os personagens de suas histórias são cínicos, hedonistas e intercalam palavrões com citações eruditas em diálogos insóllitos. Contos como “O Cobrador” e “Feliz Ano Novo” mostram marginais e psicopatas cometendo assassinatos com requintes de crueza, e “225 Gramas” é um dos mais perturbadores de sua obra, ao descrever um último encontro inusitado entre um homem e uma antiga amante durante uma autópsia. Mas há alívios cômicos, e “Corações Solitários” ou “AA” são exemplos deliciosamente irônicos

Mesmo não costumando retornar personagens, alguns acabam voltando em contos e romances. E um deles é o advogado criminalista Mandrake, protagonista de alguns contos e romances. Tal advogado, em sociedade com um judeu chamado Wexler, costuma resolver os cu-de-boi que seus clientes abastados se enfiam e que, por um motivo ou outro, não podem apelar para a polícia. Transitando livremente entre o jet-set carioca, delegacias e ambientes pouco recomendados, suas paixões são os charutos, os vinhos e as mulheres. Um dos romances de Rubem Fonseca protagonizado por Mandrake, “A Grande Arte”, inspirou o filme homônimo de Walter Salles. No romance, para se vingar de um grupo de assassinos habilidosos no uso de facas de combate, o advogado aprende a arte do percor – perfurar e cortar – e passa a perseguir aqueles que o feriram. Pessoalmente sempre gostei da primeira metade do romance, mas sempre me deu a impressão que a história se torna complexa e perde rumo e ritmo.

Tergiverso, todavia. O motivo de abordar a obra do inacessível escritor avesso a badalações e entrevistas é o lançamento tardio em DVD da excelente série de TV baseada no personagem Mandrake, produzida pelo canal HBO e a produtora Conspiração Filmes em 2005. Tecnicamente impecável, filmada em película e com trilha sonora calçada no Jazz (o tema de abertura é “Work Song”, de Charles Mingus), a aparente proposta da série foi trazer um clima de filme noir a histórias passadas, em sua maioria, no Rio de Janeiro. Longe do lugar-comum de mostrar o clima alegre e ensolarado dos cariocas, a fotografia escura dá o tempero de literatura pulp, e a produção conseguiu criar uma linguagem de apelo universal, mas sem perder a identidade brazuca, com temática adulta, apelo erótico e alguma violência.

A direção da maioria dos episódios ficou a cargo do filho de Rubem, José Henrique Fonseca, que assina o roteiro em parceria com Felipe Braga e Tony Belloto. Tais roteiros são fiéis ao espírito do personagem, claramente fanfarrão, bom vivant, cara de pau e mulherengo, mas que alivia seu karma ajudando gratuitamente quem precisa de apoio jurídico mas que não pode pagar. A influência da literatura policial noir é sentida em episódios como “Eva”, cujo roteiro é claramente inspirado em “O Sono Eterno”, de Raymond Chandler. Mesmo baseado nos contos do pai, a maioria das histórias são originais, mas mantendo algumas referências, como no episódio “Dia dos Namorados”, que referencia um dos contos publicados no livro “Feliz Ano Novo”, na qual um diplomata se mete em uma enrascada digna de Ronaldo Fenômeno. E em quase todas há alguém importante ou bem financeiramente que está em uma situação de chantagem ou extorsão, e Mandrake atua muitas vezes como detetive, um Phillip Marlowe com mais malandragem e gingado.

Não preciso dizer que o ator Marcos Palmeira ficou bem à vontade no papel-título, o maior consumidor de Periquita (o vinho português, mente poluída) do Rio de Janeiro. Não é para menos, já que muitas beldades, com perdão do trocadilho, acabam na vara do advogado. E que beldades. Ao longo dos treze capítulos, criaturas mimosas como Suzana “Tiazinha” Alves, Gisele Itié, Gianne Albertoni, Bruna Lombardi, Monica Martelli e Erica Mader se deixam levar pela conversa mole do advogado, o que enche a testa de Berta Bronstein (Maria Luisa Mendonça) de tanta ponta que dá pena. E não preciso nem falar que ficam bem desinibidas durante os episódios.

Outros destaques do elenco são o sócio Wesxley (o sempre ótimo Mielle) e o antigo amigo de infância, sócio involuntário em triângulo amoroso e policial Raul (Marcelo Serrado), que ajuda o amigo quando este se mete em uma enrascada na qual nem sua cara de pau consegue tirá-lo. Certamente é dele os mais engraçados diálogos, já que, ao contrário do amigo, Raul é tão fino quanto parede de castelo, inclusive com as mulheres. Curiosamente o hoje famoso comediante Marcelo Adnet participa como um jovem estagiário de Direito.

Na época, a HBO produziu 8 episódios, e posteriormente filmou mais 5. Infelizmente após estes 13 episódios nenhum material foi produzido, e um eventual lançamento em DVD ficou apenas na promessa, sendo efetivado só agora, e no mercado estrangeiro. Mas nada que um cartão de crédito internacional não resolva, além de, é claro, as opções alternativas disponíveis na grande rede mundial de computadores. Uma boa pedida para quem gosta de boas atrizes pagando peitinho histórias policiais.

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Retrato em Branco e Preto


…a maltratar meu coração

Uma das mais bonitas músicas brasileiras, a composição de Tom Jobim e a letra de Chico Buarque combinaram de tal forma que resultou em uma canção bela e triste, a trilha sonora adequada para curtir um amor do passado.

Mas a música de Tom Jobim se chamou originalmente “Zingaro”. Ao compor a melodia, Jobim imaginou a história por trás da música como a de um cigano triste que vendera seu instrumento. A irmã de Jobim chegou depois a afirmar que o “cigano” seria o próprio Jobim, meio solitário em sua estada nos Estados Unidos. Seria gravada pela primeira vez no LP “A certain Mr. Jobim”, de 1965.

Chico Buarque entraria em cena depois, ao compor a letra e dar o título Retrato em Branco e Preto, uma letra sobre desencanto amoroso. Jobim teria dado carta branca ao letrista e acabou que a letra saiu totalmente diferente da ideia original de Jobim.

Musicalmente, Retrato em Branco e Preto é simples e genial, pois usa variações sobre poucas notas, marca registrada de Jobim, que sabia dar cor a arranjos simples. A música se tornou um clássico da música popular, e recebeu interpretações diversas, na voz de Chico, Tom e Elis Regina, Raphael Rabelo e Ney Matogrosso. A mais marcante, sem dúvida, é uma das versões gravadas por João Gilberto. Vânia Bastos e Ana Carolina são mais dois exemplos de vozes femininas que já gravaram esta música.

As versões instrumentais também são dignas de nota. Chet Baker, na trilha sonora do documentário “Let´s Get Lost“, a toca com seu trompete belamente acompanhado pelo violão de Nicola Stilo. Outra versão instrumental que vale a pena ser ouvida é a de Joe Henderson,  que gravou um disco com músicas de Jobim, “Double Rainbow“. Seu sax tenor prestou uma justa homenagem ao maestro Jobim.

 

Já conheço os passos dessa estrada
Sei que não vai dar em nada
Seus segredos sei de cór
Já conheço as pedras do caminho
E sei também que ali sozinho
Eu vou ficar, tanto pior
O que é que eu posso contra o encanto
Desse amor que eu nego tanto
Evito tanto
E que no entanto
Volta sempre a enfeitiçar
Com seus mesmos tristes velhos fatos
Que num álbum de retrato
Eu teimo em colecionar
Lá vou eu de novo como um tolo
Procurar o desconsolo
Que cansei de conhecer
Novos dias tristes, noites claras
Versos, cartas, minha cara
Ainda volto a lhe escrever
Pra lhe dizer que isso é pecado
Eu trago o peito tão marcado
De lembranças do passado
E você sabe a razão
Vou colecionar mais um soneto
Outro retrato em branco e preto
A maltratar meu coração

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Vou Ali e Já Volto

Não que faça muita diferença na periodicidade irregular de postagem dessa blodega, mas estarei devidamente ausente na próxima quinzena, e se tudo der certo, a uma distância segura de computador e Internet. Claro que meus planos de abstinência cibernética podem não dar certo, e corre-se o risco de aparecer alguma novidade por aqui nesse período. Só não apostaria muito. Amplexos e ósculos nos sócios remidos da Blodega e até mais.

Nem Bolero,Nem Ravel

Ontem fui dormir com a notícia de que Ravel morreu. Sim, eu sei que o do Bolero já morreu, mas isso faz bem mais tempo. O Ravel em questão é o cantor que fazia dupla com Dom, seu irmão, na dupla Dom e Ravel – sério, Mr. Óbvio?

Para os mais “experientes”, a lembrança desse nome remete aos anos 70, onde suas canções populares de caráter ufanista se tornaram famosas, sendo a mais conhecida “Eu te Amo meu Brasil”. Não por acaso, por conta dessa música que enaltecia os valores pátrios, eles foram perseguidos e criticados pela patrulha ideológica, e até hoje, junto com “País Tropical”, do Jorge Benjor, deve causar ganas homicidas nos esquerdistas. Não é pra menos, já que boa parte da classe artística fazia oposição ferrenha ao regime militar então em vigor, e os artistas mais populares, que cantavam músicas alegres ou com temas mais simples eram taxados de alienados, para dizer o mínimo, por não se enjangarem na luta contra o regime e cantarem muito sobre o amor e porra nenhuma sobre a revolução. E se por acaso expressavam algum tipo de simpatia e apoio, aí que a porca torcia o rabo.

Talvez um dos casos mais controversos desse período foi o do então famoso Wilson Simoal, que gravava músicas leves e alegres dentro do espírito de sua “pilantragem’, incluindo a execrada “País Tropical”. Após um entrevero envolvendo seu contador e agentes do DOPS, ele foi taxado de dedo-duro e boicotado, o que levou a seu ostracismo artístico. Até hoje se discute se ele foi vítima de injustiça por parte da patrulha ideológica ou se realmente era alcaguete dos “ôme”, e é tema do documentário “Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Eu Dei” http://www.imdb.pt/title/tt1440286/ . Outra obra que aborda esse período sob o prisma da censura sobre os artistas rotulados de “alienados”, “cafonas” ou “bregas” é o livro “Eu Não Sou Cachorro Não:Música Popular Cafona e Ditadura Militar”, de Paulo César de Araújo.

Mas voltando a Dom e Ravel, sua música foi tocada às pampas e regravada naqueles tempos pelo conjunto Os Incríveis. Mais recentemente, no disco “Eu Não Sou Cachorro Mesmo”, uma homenagem das bandas do cenário independente às músicas tidas como bregas daquela época, esse música recebeu uma regravação da banda Fino Coletivo.

Não obstante, para mim a melhor versão jamais gravada dessa música é uma paródia cujo autor teve o bom senso de se manter anônimo até hoje, pois satiriza a letra e a transmuta numa bem-humorada apologia ao consumo de drogas ilícitas. Nesses tempos de discussão sobre marcha de maconha e o escambau, bem que algum gaiato poderia gravar esta versão e disponibilizar no Youtube. Como talento, voz e cara-de-pau décimo dan são habilidades que me escapam, deixo apenas aqui a letra da paródia, que você pode comparar com a original. Decore-a para cantar na próxima Marcha da Maconha da Liberdade de Qualquer Porra Dessas.

 

A Maconha no Brasil foi Liberada

Até o Presidente Já Fumou

Eu Vou Ficar Na Minha

Tomando Bolinha

Com o Governador

 

Eu te Amo,Maconha,Eu Te Amo

Meu Coração é de Jesus

E Meu Pulmão da Santa Cruz

Eu te Amo, Maconha,Eu Te Amo

Ninguém Segura a Maconha no Brasil!

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Hei de Vencer!

Já que o Sensacionalista, o Diário de Barrelas e o Fábio Flowers costumam noticiar coisas absurdas que, eventualmente, são levadas a sério, também vou criar minhas notícias bizarras. Quem sabe algum estagiário acredita e põe isso na primeira página do UOL?

Banco Imobiliário é Lançado em Versões “Petista” e “Pentecostal”

Para atender a demanda por um público mais diferenciado, o popular jogo “Banco Imobiliário”, versão brazuca do americano “Monopoly”, vem sido lançado em versões temáticas com personagens da ficção e até times de futebol. Essa semana o jogo  ganhou mais duas dessas versões temáticas.

A primeira é a versão do jogo para o segmento religioso. Aproveitando a popularidade das denominações pentecostais e suas avançadas ideias para o gerenciamento do dízimo dos fieis, como a criação do “Heaven’s Card“, era questão de tempo surgir um jogo envolvendo este tema.A versão “Show da Fé” adapta o tabuleiro e o jogo, onde os jogadores investem não no acúmulo de bens materiais, e sim para garantir a salvação da alma, acumulando pontos que lhe garantam um lugar no paraíso. Similar ao jogo original, há casas na qual o jogador é recompensado e outras em que é penalizado. Inclusive a famosa “cadeia” do jogo é substituído pelo “Inferno”, onde os jogadores que pecarem passarão algumas rodadas sem jogar, como nos casos em que o dinheiro acabar e não houver o bastante para pagar o dízimo. Com isso os pastores e líderes religiosos esperam divulgar a palavra entre os jovens

Já a outra versão recém-lançada adapta o jogo clássico aos bastidores do poder político no Brasil, mais especificamente em Brasília. Como o atual Ministro da Casa Civil está em alta na imprensa, o objetivo principal do jogo é aumentar seu patrimônio em 20 vezes, através de consultorias, lobbys e negociações entre políticos e empresas prestadoras de serviços. Estranhamente, esta versão o tabuleiro não tem a “cadeia”, o que impossibilita que qualquer jogador seja preso.

A empresa que licencia o jogo espera faturar bem com estas versões, e se o retorno for positivo é provável que outros jogos famosos, como “Detetive” e “War”, adotem esta estratégia em novas versões temáticas.

 

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Notas do Apocalipse


Levanta, me serve um café que o mundo NÃO acabou, porra!

Mais uma vez anunciaram o fim do mundo, e dessa vez para hoje. Como o dia 21 já está acabando em parte do mundo, acho pouco provável que dessa vez tenham acertado. Considerando o histórico do profeta da vez, Harold Camping, que já havia previsto o Fim para 1994, acho que matemática não é exatamente o forte dele. Mas se serve de consolo, até Sir Isaac Newton tentou calcular a cronologia da Bíblia para prever quando ocorreriam as profecias do livro das Revelações, e olha que ele era bom de cálculo. Não obstante, mais uma vez o Diário Oficial do Divino adia a convocação dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse, e o anjo Abdon pode continuar de sobreaviso em seus abismos insondáveis. E para os seguidores que esperavam pelo arrebatamento e que não tinham a marca da besta na testa, acabaram ficando com cara de besta.

Esse não é o primeiro fim do mundo que testemunho, mas tenho que admitir que é o primeiro que acompanho via Twitter. Poderia dizer que sou um feliz frustrado acerca do fim do mundo, já que desde que eu me entendo por gente que “participo” de dezenas de previsões de apocalipses, todas furadas – a não ser que o advento do Funk Carioca seja um inequívoco sinal da presença do Anticristo na Terra. De fato, desde minha tenra infância que essa possibilidade me aterrorizava, até porque naqueles tempos que o Fantástico soava tão sensacionalista quanto um programa do Datena, todo domingo alguém anunciava a destruição da raça humana, seja por hecatombe nuclear, desastre ambiental ou efeito estufa, e tudo sendo narrado pelo Cid Moreira.

Mas deixei de levar a sério essas profecias desde que lá na Terra Média em Campina Grande (PB) uma movimento messiânico chamado Borboletas Azuis havia agendado data e hora para a escatologia cristã: 13 de maio de 1980. Como obviamente São Pedro não pode atender a demanda por dilúvio naquele dia, a seita caiu em descrédito. O que me ensinou duas lições importantes:
1 – Não levar a sério profecias sobre o fim do mundo;
2- Não é aconselhável marcar data e hora para previsões sob a pena de cair em descrédito. Já pensou se Nostradamus desse dia e locais exatos para suas previsões sem deixar nada aberto a interpretações? A pauta dos programas sensacionalistas cairia pela metade.
Daí pra frente a única possibilidade que ainda me assustava era o inf(v)erno nuclear no caso dos EUA e URSS apertarem os botões do foda-se juízo final. Mas como o comunismo acabou por falta de pilha, até essa possibilidade caiu bastante.

Mas há sempre alguém profetizando o fim, seja interpretando a Bíblia ou as centúrias de Nostradamus, algo que piorou bastante com a proximidade da virada do século. Só em 1999 testemunhei uns 3 Armagedons baseados nas profecias de Nostradamus. Em um deles o delegado de Nova Floresta (PB) soltou os presos da cadeia para que estes passassem as últimas horas com seus entes queridos. Não preciso mencionar quem se lascou nessa história.

Mas antes mesmo de praticar nado livre nas gônadas paternas, a humanidade vem passando por previsões desse tipo, praticamente desde a idade média. Sobre isso eu comentei em um texto mais sério sobre o tema há alguns meses.  E falando em meu pai, ele mesmo me contava hilárias histórias de como um eclipse total nos anos 40 assustou os desavisados de sua cidade, que temiam pelo fim dos dias, inclusive com os pitorescos casos de mulheres infiéis que confessavam seus pecados ao marido diante da iminência do fim, o que causava sérias surras após o sol voltar a brilhar.

Well, depois de tanto enrolar, se você chegou até aqui, é quase certo de que o mundo realmente não acabou, e mais uma vez o voo que levaria os escolhidos para o paraíso foi  adiado, talvez por culpa do caos aéreo, talvez um overbook por conta da logística em prover de virgens o paraíso dos muçulmanos. Ao menos no meu caso o SAC trocou um apocalipse por uma invasão bárbara, a acontecer a qualquer momento aqui na minha Vila do Sossego. Por sorte estoquei bastante bebida para o caso do fim do mundo ser pra valer mesmo. E se o mundo for acabar, começará pela geladeira. Afinal, como diria Lobão, o Fim do Mundo não é o fim do mundo. E se for, foda-se descanse em paz

Para não perderem a viagem, eis um breve playlist do fim-do-mundo. Não, nada de Funk Carioca.

Nostradamus – Eduardo Dusek
Nosso Amor ao Armagedon – Angela Roro
Apocalipse  – Roberto Carlos
Until The End of World – U2
O Último Dia – Paulinho Moska
Fim do Mês – Raul Seixas -  (nada a ver com fim do mundo, mas assusta bem mais, como diria o sábio compadre Tio Xiko)

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A Cozinha Maravilhosa de Lavoisier

“Se eu cozinho eu asso, inclusive Pacu Assado”

A prática milenar de se aproveitar as sobras de uma refeição na refeição seguinte deveria ter um manual para regulamentar tal prática para o bem da saúde pública, e até mesmo uma ou duas cadeiras no curso de Nutrição ou Engenharia de Alimentos, já que a impressão que me dá é que esta está bem arraigada nos meios corporativos, apesar de ninguém assumir esse pato – requentado, por sinal. E já que muita gente faz mesmo, ao menos que faça com um mínimo de responsabilidade. E nem estou me referindo àquelas sobras de guloseimas de festas que ainda rendem umas merendas por alguns dias em nossas casas, por obra e graça da sempre superestimada avaliação de nossas mães e matriarcas, que costumam achar que todo mundo tem o apetite de um visigodo e morrem de medo de que todos passem fome durante a ceia de Natal ou o almoço de Dia das Mães. Estamos falando de estabelecimentos e cozinhas que requentam as sobras para suas vitimas seus clientes como prática comum.

Reza a lenda que essa prática se estende a diversos órgãos e estabelecimentos, como restaurantes de hotéis, refeitórios de empresas, fábricas e instituições de ensino públicas. Ninguém admite, obviamente, mas com certeza a prática existe. Surpreso? Não deveria, principalmente se estudou em alguma universidade pública e usufruiu de seu refeitório. Ou nunca percebeu que a janta era sempre canja de galinha quando no almoço o prato principal era frango? Ou aquela calabresa que você comeu no almoço e que tinha um sutil gosto que havia sido pescada de alguma feijoada não consumida?

Chega a ser louvável o estoicismo praticado por estes cozinheiros e nutricionistas para pôr fim ao desperdício de comida em um mundo ainda afetado pelo flagelo da fome, usando e abusando das velhas receitas milenares francesas (Rest D’Ontê) e japonesas (Soborô). O problema é que nem sempre aquele bife à James Bond  – frio e com nervos de aço – que o cliente deixou quase inteiro no prato pode ser simplesmente limpo, batido e requentado para o próximo cliente sem maiores prejuízos a flora intestinal do coitado. Na maioria das vezes a gente acaba comendo coisa requentada sem saber, e pagando os tubos, principalmente em cidades na qual comer bem se tornou um luxo, justamente quando eu pensava , em minha tenra inocência, que fosse algo básico. E se você for um incauto empregado que almoça em restaurante da empresa, quase certamente já comeu coliformes fecais (a popular bosta). E o que é pior, com a validade vencida.

Para finalizar este manifesto gastronômico, me lembrei de um causo contado por um colega de trabalho sobre um nutricionista da Associação de empregados na qual este meu colega era presidente. Um belo dia a gororoba servida causou uma caganeira coletiva, e obviamente todo mundo queria por a conta do papel higiênico no nutricionista, cuja arrogância também não ajudava muito em ser popular e simpático entre a galera. E quais foram a saída e argumento dele? Ele se eximiu de qualquer responsabilidade e pôs a culpa na Coca-Cola servida durante a refeição, e que estava contactando o fabricante para que lhe fosse fornecida a fórmula do refrigerante, sem a qual não poderia chegar a nada mais conclusivo.

Este post foi inspirado em fatos – e flatos – reais, em episódios que culminaram em iminentes desastres gastrointestinais. Todos os envolvidos estão passando bem, inclusive o papel higiênico nas partes

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  • Moziel T.Monk: Pessoalmente eu nunca vi disponível esse tipo de material online. Por ser algo relativamente antigo, é...
  • Ricardo: Tenho saudades das histórias e gostaria de saber em que site eu consigo ler online ou baixar. Grato Ricardo
  • Ribamar: Branchu é o nada de onde todo vazio provém
  • padre levedo: ouça isto, Moziel http://www.youtube.com/watch?v =wdX6ly6ftUM
  • Moziel T.Monk: Sim, tanto que deixo claro no texto que a história foi criação de David Nasser, apesar de na época de...

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