Hagá-Quê

Gibi também é cultura, oras! E tem espaço garantido nessa blodega

A Origem de “A Origem”

Christopher Nolan, Carl Barks e a Teoria do Remix

Estava eu aqui mais uma vez paquerando essa maleta do filme “A Origem” à venda na Amazon inglesa quando me lembrei de concluir este texto que está na minha pilha de pendências há alguns meses, desde que assisti ao filme de Christopher Nolan.

Quando o filme “A Origem” estreou, gerou-se um hype instantâneo em torno do filme, que caiu nas graças do público nerd imediatamente e produziu um entusiasmo que se vê cada vez com menos frequência. Infelizmente não pude assistir no cinema, mas logo que saiu em DVD assisti ao filme. Caso não saiba ainda do que se trata, a história narra as aventuras de um grupo de golpistas que possuem acesso a tecnologias e técnicas que permitem acessar o subconsciente das pessoas através de seus sonhos, e eles usam isso para roubar segredos industriais e empresariais. Porém eles entram em um trabalho mais complexo no intuito de inserir uma ideia em um futuro herdeiro de um império comercial. Chegou a concorrer ao Oscar, mas ganhou apenas em categorias técnicas.

Muito legal, mas não achei tão complexo quanto se falava que não desse para acompanhar numa boa. Claro que é necessário atenção para não se perder nas linhas narrativas inseridas em camadas, mas é tranquilo para os nerds mais praticantes que assistem a coisas como Primer, Donnie Darko ou Amnésia – este último, por sinal, do próprio Nolan.

Todavia, logo surgiu a informação, imediatamente replicada instantaneamente na Internet de que o filme era um “plágio” de uma história do Tio Patinhas!

Pior que quando mencionaram isso, imediatamente me lembrei da história e de a lera em um dos quadrinhos Disney que costumo comprar para meu filho, já que a Editora Abril vem republicando velhas histórias na série “Disney Big”, incluindo clássicos do Carl Barks e as releituras de Don Rosa. Claro que fui atacar a pilha de gibis do pimpolho para conferir o “plágio”.E essa história saiu aqui com o título “Uma Vida de Sonho”, republicada na edição 3 da série “Disney Big”, lá pelo segundo semestre de 2009. Na história, escrita por Don Rosa, os Irmãos Metralha roubam uma máquina do Professor Pardal que os permite entrar no sonho de outra pessoa, e tentam usar a máquina para chafurdar os sonhos de Patinhas com o intuito de roubarem a combinação do cofre da Caixa Forte. Donald se vê obrigado a entrar nos sonhos do velho muquirana para impedir o plano dos bandidos. Para quem quiser conferir, há a versão online, em inglês.

A bem dos fatos, o tema do filme está longe de ser original. Sem apelar para o Google ou o IMDB, posso lembrar de algumas histórias que utilizam o elemento dos sonhos como pano de fundo. Nos quadrinhos há um dos pilares dos quadrinhos adultos americanos, a série Sandman, do Neil Gaiman, que narra as aventuras de um dos Perpétuos, Morfeus, o senhor dos sonhos. No meio dos anos 80, no meio do projeto Novo Universo da Marvel havia um personagem que agia dentro dos sonhos, o Máscara Noturna. E em filmes, lembro de um com Dennis Quaid (A Morte nos Sonhos, 1984) no qual seu personagem podia entrar nos sonhos de outras pessoas, e que se envolve em uma conspiração envolvendo o presidente dos EUA e seus pesadelos com uma guerra nuclear. Posso citar também o anime Paprika, de 2006, que aborda também esse tema. Se procurar mais a fundo, com certeza haverá exemplos de histórias no cinema, TV, literatura e quadrinhos que tenham alguma similaridade com a história de “A Origem”. Mas isso não tira os méritos do diretor e roteirista do filme. Au contraire, é louvável se pegar uma história ou uma temática já explorada e lhe dar um enfoque novo, indo de encontro ao gosto popular e a crítica especializada.

No frigir dos ovos, dificilmente se consegue criar algo completamente original. Todo processo criativo trará em seu bojo toda a bagagem cultural que o autor recebeu durante sua formação, e este se deixará influenciar de forma consciente ou não. Aqui já falei brevemente sobre alguns elementos de quadrinhos que os criadores de filmes se inspiraram. As aventuras dos patos escritas pro Carl Barks são excelentes histórias, e Don Rosa procurou seguir uma cronologia delas, inclusive criando “continuações” para algumas. E muitos cineastas devem ter lido bastante Tio Patinhas nas últimas décadas. Ou ao menos assistido a série animada “Duck Tales”, cujas histórias são baseadas em muitas das aventuras criadas por Carl Barks.

Spielberg e Lucas devem ter lido muito gibi quando jovens. Dois exemplos famosos dentro das aventuras clássicas do Tio Patinhas desenhadas e escritas por Carl Barks que inspiraram  filmes são as cenas dos dois primeiros  do personagem Indiana Jones, confessamente inspiradas em cenas de histórias do pato em busca de civilizações e cidades perdidas entulhadas de tesouros. A armadilha da pedra que sai rolando em “Os Caçadores da Arca Perdida”, a qual é citada ad infinitum em filmes e desenhos, tem origem em uma história de Tio Patinhas, intitulada “As Cidades do Ouro”. Já a mina inundada em “Indiana Jones e o Templo da Perdição” também tem inspiração em outra história de Carl Barks, “As Minas do Rei Toleimon”. Coincidentemente, ambas as histórias foram republicadas recentemente pela Abril no “Disney Big” 7, lançado em fins de 2010, e que deve ainda estar nas bancas.

Nada se cria, tudo se copia – incluindo esse ditado. E esse é o mote do projeto Everything is a Remix. O enfoque é cultura em geral, mas o segundo vídeo que caiu na rede desse projeto disserta acerca de cenas, histórias e filmes recentes que se referem a filmes anteriores, também falando acerca da estrutura básica da maioria das histórias estarem dentro dos parâmetros definidos pelo mitólogo Joseph Campbell.

Na atualidade quem é um mestre em criar colcha de retalhos com referências pop é o Quentin Tarantino, cujas referências costumam pescar elementos dos mais heterogêneos. Se limitarmos ao cinema, teremos referência a filmes de Honk Kong de artes marciais, filmes de Samurai, faroestes, cinema explotation e por aí vai. Fora as referências a outros ramos da cultura pop, como séries de Tv e quadrinhos.. Inclusive no projeto acima citado foi liberado um outro vídeo que mostra as cenas dos filmes que são “citadas” em Kill Bill.

Em suma, é  quase impossível sair algo completamente original, ainda mais nesses tempos em que  a indústria cultural pouco ou nada ousa em seus lançamentos, preferindo garantir o retorno financeiro  investindo em ideias consolidadas junto ao público. Ao menos é um passatempo divertido pescar tais referências nos filmes que nós, chatos, assistirmos

X-Pirralhos

Seu filho pode ser um mutante!

Apesar de curtir quadrinhos de super-heróis, nunca levei muito a sério suas “possibilidades extremas”. Mas de uns tempos para cá tenho revisto meus conceitos e estou considerando a possibilidade de que mutantes possam existir, com todos os seus superpoderes.

Mas por que isso, de repente assim? Ah… É a paternidade. Meu pimpolho está me fazendo perder os cabelos de tanto trabalho que me dá. Mas seu comportamento está se mostrando estranho, e me chamado a atenção. Por isso acredito piamente que ele esteja manifestando poderes especiais. E digo mais. Isso pode estar ocorrendo em sua casa, também!

Duvida? Pois se você é pai, responda as perguntas abaixo:

  • Ele desloca móveis e outros objetos pesados com uma facilidade inesperada?

  • Mesmo após sofrer algum acidente, ele não parece se importar muito. Aliás, ele parece se recuperar de pancadas com espantosa rapidez?

  • Ele às vezes some como num passe de mágica?

  • Quando você tenta alcançá-lo, ele se desloca velozmente e você se cansa antes de alcançá-lo?

  • Se você planeja algo como vaciná-lo, levá-lo ao médico ou alguma outra atividade da qual ele não goste, justamente ele dá um jeito de dificultar as coisas, como se lesse a sua mente?

  • Ele aparece ao lado dos pais como se fosse teletransportado, principalmente quando eles tentam namorar um pouco dentro de ambientes fechados?

  • Ele encontra o que não deve encontrar, por melhor que esteja escondido, como se tivesse visão de raios-X?

  • Ele alcança objetos que, teoricamente, estão fora de seu alcance, como se ele pudesse esticar os seus membros?

  • Ele tem estranhos poderes de persuasão, convencendo você a fazer certas coisas que originalmente você não planejava fazer?

Se você respondeu “sim” a pelo menos uma destas perguntas, então seu filho pode ser um mutante! Eu já me convenci de que o meu filho tem super poderes, já que ele preenche TODAS as características acima descritas. Estaríamos diante do surgimento de uma nova raça, o Homo Superior? Espero que ele não resolva usar os seus poderes para o mal, senão ele vai levar umas chineladas. Só que vou precisar de uma havaiana de adamantium quando eu subir pelas paredes e ficar verde de raiva.

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Camelot 3000


Excalibur contra Lasers
“Camelot 3000” foi escrita nos anos 80, na forma de uma minissérie em 12 partes. Nos quadrinhos americanos ela pode ser considerada uma precursora dos quadrinhos de heróis com abordagem e temática adulta que se tornariam comuns na última metade da década de oitenta. Escrita por Mike W. Barr e desenhada magnificamente pelo inglês Brian Bolland, a história marcou época por abordar temas considerados tabus nos quadrinhos americanos, com extrema violência, nudez, sexo e lesbianismo, tudo de forma bem adulta. Apesar de ter sido publicada pela DC Comics, ela não estava ligada ao universo de eventos de suas séries regulares, e devido a sua abordagem, ela foi impressa em tiragem limitada e distribuída em lojas especializadas. E, obviamente, não recebeu o selo do “Comics Code”. No Brasil, ela foi originalmente lançada pela Editora Abril nas revistas Batman e Superamigos entre 1984 e 1985. Posteriormente a Abril relançaria a série em quatro revistas em tamanho formatinho.

Nesta versão, Mike W.Barr não reconta a história de Arthur, mas resolve dar continuidade a ela, se baseando na versão de Sir Thomas Mallory, “Le Morte d’Arthur“, publicada originalmente no século XV, obra esta que conseguiu a proeza de reunir a maioria dos elementos, situações e personagens das várias versões das lendas do ciclo arturiano, e na qual muitas obras da cultura popular moderna se baseiam, como o filme “Excalibur“, de John Boorman. Nessa história temos o triângulo amoroso entre Arthur, Guinevere e Lancelot, a Excalibur encravada na pedra, a busca de Parsifal pelo Cálice Sagrado, a vingativa meia-irmã Morgana e o fruto incestuoso de sua relação com Arthur, Mordred, e a paixão avassaladora entre Tristão e Isolda. E tais elementos retornam em “Camelot 3000″.

E a história de “Camelot 3000″começa muitos séculos após as ações narradas em “Le Morte d’Arthur“, mas exatamente no ano 3000, quando a Terra está sendo invadida por extraterrestres, e o governo é corrupto e opressor. Um jovem, cujos pais são mortos nos combates com os invasores,se esconde no monastério de Glastonbury e encontra o túmulo de Arthur. E em cumprimento à antiga profecia, Arthur volta dos mortos no momento em que a Inglaterra novamente precisa dele. Após despertar Merlin em Stonehenge, Arthur procura a reencarnação de seus cavaleiros e retoma a mística Excalibur. A Nova Camelot é estabelecida em uma Fortaleza espacial do homem mais rico do planeta, que é a reencarnação de Lancelott. Por ironia, o cavaleiro Tristão reencarna como mulher, e ele se vê no dilema de um homem preso em um corpo feminino.

Morgana – e seu filho Mordred – não demoram a surgir, e se descobre que ela está por trás dos ataques alienígenas. O que se segue é uma ótima história, com narrativa densa e enxuta, com direito a traições, conspirações cenas de violência explícita (a Excalibur não faz feio diante de armas laser, partindo alienígenas ao meio com riqueza de detalhes) e a inevitável batalha final. Obviamente não vamos entregar o ouro, já que vale a pena você ler este clássico dos quadrinhos. Mesmo depois de quase 30 anos de escrita, a história continua atual, desde que você dê um desconto no visual, bem típico das ficções científicas dos anos 80.

E caso queira ler, dá pra caçar em sebos as três edições em formatinho lançadas pela editora Abril no fim dos anos 80. Em 2005 a Mythos lançou uma versão encadernada, porém a qualidade não era lá estas coisas, como a maioria dos lançamentos desta editora, já que a qualidade do papel e da capa nem sequer justificavam o que foi cobrado a época, R$ 59,90,  além de não ter nenhum extra. A única vantagem é que saiu uma cena que foi cortada nas edições da Abril, o beijo lésbico entre Tristão e Isolda. Para o fim deste mês a Panini prometeu uma edição de luxo em capa dura, que parece ser bem a altura da obra. Só o preço que deve ser uma espadada no peito. Oitenta e duas espadadas, pra ser exato.

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Histórias dos Quadrinhos que Não estão no Gibi – Parte 3


A Guerra dos Gibis 2 – Maria Erótica e o Clamor do Sexo

A tão esperada sequência de “A Guerra dos Gibis“, do jornalista baiano Gonçalo Junior, foi lançada no fim do mês passado sob o título “Maria Erótica e o Clamor do Sexo – Imprensa, Pornografia, Comunismo e Censura na Ditadura Militar – 1964/1985″, ou simplesmente “A Guerra dos Gibis 2″. Na verdade, esclarece o autor no posfácio, o conteúdo desse livro é que deu origem ao primeiro, já que o tema de “Maria Erótica…” surgiu como matéria de um fanzine e se transformou em um Trabalho de Conclusão de Curso de jornalismo, e o primeiro “A Guerra dos Gibis” seria um retrospecto introdutório para o assunto principal – quadrinhos e a censura no regime militar de 64. Mas o autor reuniu tanto material e depoimentos no período de 1987 e 2006 que foi o suficiente para se fazer não apenas um TCC, e tampouco um livro, e sim três, e o primeiro foi justamente “A Guerra dos Gibis”, que abrange a década de 30 até 1964. Ao contrário do anterior, que foi editado pela “Companhia das Letras”, esta edição foi lançada sob o selo de uma editora estreante, a “Peixe Grande”. A diagramação traz, além do texto, a reprodução de diversas capas e ilustrações de revistas do período focado, sendo oito dessas páginas coloridas no início do livro, além de, para introduzir cada capítulo, três páginas com capas, ilustrações e comentários, deixando o livro visualmente bem atrativo, um trabalho de diagramação de Toninho Mendes.
À primeira vista o leitor pode imaginar que o livro se resume ao tema quadrinhos eróticos e sua relação nada agradável com o regime militar e a censura então vigente. Todavia, o buraco é bem mais embaixo (e mais apertadinho), e o autor consegue montar um verdadeiro mosaico da realidade editorial do período, e não só das revistas em quadrinhos. E mais importante, resgata e faz justiça a importantes nomes dos quadrinhos nacionais, como Claudio Seto, o criador da fogosa e ingênua Maria Erótica do título, falecido em 2008. Outro esclarecimento importante é que não são abordadas as revistas pornográficas, pois estas eram completamente clandestinas nesse período, até porque as regras eram bem rígidas, como nunca mostrar bundas por inteiro ou mais de um seio. Mamilos e pelos pubianos eram proibidos. E nu total frontal ou cenas de penetração, nem em sonho. A imaginação que se virasse com o pouco que se podia mostrar. Sobre as revistas pornográficas o autor dedicou algumas páginas em “A Guerra dos Gibis”, ao falar de Carlos Zéfiro e seus catecismos.

Como bom pesquisador que é, Gonçalo não se limita a narrar os fatos em simples sequência cronológica, preferindo se dar ao trabalho de contextualizar e enriquecer a narrativa. Por isso somos brindados com uma breve descrição da imigração japonesa ao Brasil e da história do mangá no Japão e sua influência na educação e formação dos descendentes dos imigrantes nipônicos para explicar o traço de artistas de origem nissei, como Minami  Keizi e Claudio Seto. Até o obscuro episódio da Shindo Renmei (tema do livro “Corações Sujos”, de Fernando Morais) é resgatado para contar a história da família de Seto. Por ser o mangá algo completamente estranho às editoras brasileiras de então, muitos desenhistas de origem nipônica tiveram dificuldade em encontrar trabalho por seus traços e técnicas narrativas serem pesadamente inspirados neste estilo. Outro parêntesis deveras didático se dá no capítulo 3, no qual Gonçalo faz uma pequena antologia da evolução do erotismo no Brasil desde os tempos do império e sua relação com a censura oficial.

Com uma narrativa que consegue fluir naturalmente, se atendo ao rigor jornalístico sem ser cansativa, Gonçalo enriquece a história ao detalhar os bastidores do Governo Militar, principalmente dos órgãos de censura, e fatos envolvendo outros nomes do ramo editorial, como a Abril, a Bloch e a Editora Três, trazendo a história da operação de guerra para convencer o governo a liberar a versão brasileira da americana Playboy, a corrida para se publicar o primeiro nu frontal após a liberação da censura, os lances dramáticos envolvendo a prisão e tortura de Paulo Fukue e os atentados a bancas que vendiam material “subversivo”. Há a menção de editoras, publicações e personagens, como os bolsilivros da editora Monterrey, cujo carro-chefe era a sensual espiã Brigitte, filha de Giselle, a espiã nua que abalou Paris. Também são citados, mesmo que superficialmente, o nome de duas autoras icônicas deste período: Adelaide Carraro e Cassandra Rios, cujos textos eróticos foram perseguidos com igual fervor pela censura. E os episódios icônicos do período também estão lá, desde a queda de Goulard até o tempo das Diretas Já, passando pelas bombas na OAB e Riocentro e pela tanga de crochê do Gabeira no caminho. Ao retomar os abusos cometidos por autoridades obtusas em nome de uma suposta moral ou combate ao comunismo, nos surpreendemos e nos revoltamos com os absurdos daqueles tempos, absurdos estes que minaram a carreira e sonhos de muitos artistas, e que em última análise, pode ser responsabilizada por abortar vôos mais altos dos quadrinhos nacionais.

Maria Erótica

Mesmo com tantos coadjuvantes e pequenas histórias paralelas, o fio condutor dessa trama é a história de duas editoras, Edrel e Grafipar, seus artistas e empresários, e o livro é dividido em duas partes.  Os primeiros oito capítulos do livro formam a primeira parte, intitulada “A Edrel e a Subversão do Sexo”, e abrange as aventuras e desventuras das editoras paulistas nos primeiros anos de chumbo, se concentrando mais especificamente na Edrel e de um de seus fundadores, o desenhista Minami Keizi. A editora Edrel surgiu dos restos mortais da editora Pan-Juvenil, tendo como sócios Minami Keizi, Jinki Yamamoto e Marcilio Valenciano, se destacando das demais editoras pequenas de São Paulo porque, além de produzir revistas com alta carga de erotismo, estilo “Garotas e Piadas”, montou uma equipe de desenhistas nacionais e produziu histórias voltadas ao público adulto, com temas que iam além do erotismo, abrangendo o terror, faroeste, aventuras de guerra, infantil, histórias de samurai e sátiras de costume, praticamente introduzindo de forma pioneira o estilo mangá em algumas histórias. Aos trancos e barrancos, a editora prospera nos primeiros anos, apesar da perseguição da censura, agravada após 1968, com o AI-5 e o estabelecimento da censura prévia. As publicações eróticas se tornaram um dos alvos preferenciais da censura, sob a alegação de que seria propaganda comunista com a finalidade de minar os valores morais e familiares da sociedade, o que facilitaria a implantação de um regime de esquerda no país.

O sucesso inicial da editora se deveu em grande parte à visão editorial de Minami, que deu chance a artistas novatos como  o próprio Claudio Seto, Fernando Ikoma e Paulo Fukue, liberando-os para criarem histórias inovadoras, tanto em seu traço quando na temática. Todavia a editora acabou seguindo o fadário ao qual a maioria das pequenas editoras brazucas parece destinada, e após a saída de Minami e Jinki da sociedade, o sócio remanescente não soube guiar os rumos da empresa. Minami ainda tentaria se manter no ramo ao fundar outra editora, a M&C, mas que foi inviabilizada pela patrulha cerrada da censura, representada por órgãos federais ou por autoridades locais. O inferno burocrático que Minami encarou, em sua calma oriental, tiraria o juízo de qualquer cristão, já que os critérios de aprovação eram pouco claros e subjetivos, além das publicações estarem sujeitas a apreensões por ordem de juízes ou delegados, mesmo quando liberadas para venda pelos órgãos federal. Aqui, em especial, o autor se debruça nos detalhes que envolviam a análise e posterior aprovação/negação da censura para as revistas, um verdadeiro malabarismo para os editores em um processo demorado que comprometia os prazos de lançamento. As apreensões e a periodicidade incerta acabaram minando as finanças da editora. As editoras maiores, como a Abril, mesmo sob este fogo cerrado dos moralistas, ainda tinha poder de barganha para liberar edições e matérias, garantindo periodicidade às suas revistas, algo que as pequenas não tinham. Minami não aguentou muito tempo e jogou a toalha.

A segunda metade do livro se concentra na história da editora curitibana Grafipar, cuja origem remonta ao imigrante libanês Said El-Khatib, que de caixeiro viajante se torna distribuidor e editor de livros, e após bem-sucedidas incursões na publicação de livros educacionais, como dicionários e enciclopédias, se aventura no ramo editorial erótico por influência do filho caçula Faruk. Este, a contragosto de seu pai e irmão mais velho, cria a então bem-sucedida revista masculina “Peteca” em outubro de 1976, que se propunha a ser a “Playboy dos pobres”, já que a publicação da Abril – que ainda se chamava “Revista do Homem” por imposição da censura – e seus congêneres “Status” e “Ele Ela” eram voltadas a um público de maior poder aquisitivo. Com o sucesso da revista, Faruk decide investir no filão, explorando quadrinhos eróticos, e por coincidência Claudio Seto passara a morar em Curitiba. Seto logo se tornou desenhista e responsável pelos quadrinhos da editora, e passou a convocar novos talentos para lá trabalharem, e nesta editora despontaram nomes que viriam a se tornar conhecidos nos quadrinhos nacionais, como Rodval Matias, Mozart Couto, Flávio Colin, Ataíde Braz, Watson Portela, Julio Shimamoto e outros, alguns dos quais migraram do eixo Rio-SP para viverem em Curitiba. Até o poeta Paulo Leminsky colaborou com argumentos para os quadrinhos. Junto com a Vecchi, a Grafipar foi uma das editoras que mais abriu espaço para o material genuinamente nacional e de qualidade comparável às histórias importadas dos EUA e Europa. Mesmo vivendo um período áureo no fim dos anos 70, quando o regime estava afrouxando o laço, a ironia é que um dos principais fatores que selaram o destino da editora no início dos anos 80, além de algumas decisões editoriais precipitadas e a inflação galopante, foi justamente o fim da censura, que pareceu o rompimento de um dique, soltando um tsunami de publicações pornográficas para atender a demanda popular. Ou citando um clássico moderno da nossa música popular: ”E começou a fuleiragem, e começou a putaria!”, mesmo que os setores mais conservadores tentassem deter essa nova onda.  Por relutar em apelar para a pornografia pura, Faruk perdeu espaço no mercado, fechando as portas em 1983. Antes disso chegou a trazer a revista americana “Penthouse”, maior concorrente da Playboy em solo americano naqueles tempos.

Muito mais do que “outro livro” sobre o regime militar, “Maria Erótica…” é material indispensável para quem quer conhecer e entender a realidade dos quadrinhos nacionais. Para os mais velhos, certamente há o ar nostálgico de relembrar algumas publicações que deixaram um vácuo nos quadrinhos nacionais raramente preenchido. E mesmo para aqueles não diretamente interessados no tema, a reconstituição do período faz esse livro comparável à obra de Elio Gaspari sobre a Ditadura. E ,junto com o primeiro “A Guerra dos Gibis”, forma uma verdadeira aula de história do mercado editorial dos quadrinhos no Brasil. E esperemos, pacientemente, “A Guerra dos Gibis 3″.

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Histórias dos Quadrinhos que Não Estão no Gibi – Parte 2

Dando continuidade ao artigo anterior (se ainda não leu, manda ver), aqui na “Terra Brasilis” há um livro equivalente ao do Gerard Jones que explora a formação do mercado editorial dos quadrinhos brasileiros, abrangendo o período dos anos 30 até idos do início do Regime Militar, de autoria do jornalista Gonçalo Júnior. “A Guerra dos Gibis” é um livro fundamental e indispensável para qualquer um que queira conhecer a história e – porque não – os problemas da indústria de revistas em quadrinhos, popularmente conhecidos entre nós como “gibis”. Como Jones, Gonçalo usa um personagem e sua história como fio condutor: Adolfo Aizen. O então jovem repórter de O Globo tem a ideia de trazer os quadrinhos publicados nos jornais dos EUA , levando-a inicialmente ao seu patrão, Roberto Marinho, que a descarta, e este por fim não desiste e acaba criando “O Suplemento Infantil” para o jornal pós-Revolução de 30, “A Nação”. Essa foi a semente para o pequeno império editorial que o jovem – imigrante e descendente de judeus russos como seus colegas de ofício americanos – criaria anos depois com a fundação da EBAL – Editora Brasil América. E o mais irônico que esse império foi criado sob uma mentira, e uma contravenção já que sua certidão de nascimento brasileira era falsa, e até 2002 a Constituição Brasileira vetava a participação de estrangeiros como sócios ou proprietários em veículos de comunicação, e por toda sua vida Aizen carregou essa espada pendurada sobre o pescoço, uma informação que poderia ser usada por algum inimigo. E inimigos não faltaram. E porque acham que o título do livro é “A guerra dos Gibis”?

Aizen – e os demais editores de quadrinhos e tiras – enfrentaram várias guerras. A primeira delas foi contra seu ex-patrão, Roberto Marinho, que se tocou da bosta que fez ao descartar a ideia dos quadrinhos que Aizen lhe levara de mão beijada. Vendo que o antigo empregado conseguira bons contratos com as distribuidoras de material produzido pelas editoras americanas – os syndicates – e seus suplementos se tornaram revistas avulsas bem vendidas junto ao público infanto-juvenil, Marinho quis abocanhar esta fatia do mercado, e se tornou o primeiro concorrente sério dos quadrinhos de Aizen ao criar O Globo Juvenil, que seria seguido anos depois pelos Diários Associados de Assis Chateaubriant, que criou a revista “O Gury”.

Nesse meio tempo, as opiniões do clero já teciam pesadas críticas contra os quadrinhos importados que eram publicados nessas revistas, sendo o início da ideia geral de que quadrinhos seriam prejudiciais a educação das crianças, ideia ainda hoje encravada no nosso inconsciente coletivo e que vez por outra ainda encontra eco em algum veiculo de comunicação. Tais críticas recrudesceriam a partir dos anos 40, muitas motivadas mais por disputas editoriais entre concorrentes do que em preocupação legítima pelo eventual dano didático que os “gibis” poderiam causar à juventude. Como exemplo, a campanha que o “Diário de Notícias”, de Orlando Dantas, para afetar seu concorrente Roberto Marinho. Mas este discurso encontrou eco nos setores mais conservadores da sociedade, que passaram a atacar os quadrinhos. Se “Chatô” e Roberto Marinho reagiam com campanhas publicitárias ou editoriais agressivos, Adolfo preferia tentar convencer os críticos dos benefícios dos quadrinhos, inclusive publicando revistas com cunho educacional ou retratando personagens da história nacional, incluindo figuras eclesiásticas. Em defesa dos quadrinhos surgiram vozes improváveis, como o do intelectual Gilberto Freyre, e em seu ataque outras figuras carimbadas, como os jornalista Carlos Lacerda e Samuel Wainer, inimigos declarados de Roberto Marinho, e que criticavam os gibis para atingir indiretamente Marinho, mas cujas críticas ressoavam nos meios educacionais, influenciando pais, professores e educadores a se engajarem contra os gibis.

Além das críticas ao veículo em si, outra frente de batalha contra as editoras era a que exigia uma “reserva de mercado” de produto nacional, já que a opção mais prática e barata de importar o material estrangeiro já pronto seduzia os editores, que preferiam este material em detrimento a produzir o seu próprio o que de certa forma criou um problema e paradigma que é seguido até os dias de hoje pelas editoras. Se Aizen foi um pioneiro ao trazer as tiras e os comics americanos para nossa terrinha, ainda hoje o quadrinho nacional tem pouca expressão frente a concorrência estrangeira, com raras exceções.

A pesquisa de Gonçalo envolvendo estas décadas de mercado editorial nos trás ainda a ascensão e queda das editoras de histórias de horror paulistas, a importação da paranoia anti-quadrinhos dos EUA nos anos 50, dá uma pincelada rápida na censura sobre os quadrinhos pornográficos, a tentativa dos quadrinistas nacionais em criar uma reserva de mercado para garantir uma produção nacional, sem sucesso. Mesmo mantendo um rigor jornalístico na narrativa, esta não se torna chata ou enfadonha como poderia se tornar um texto dessa natureza, que por vezes mais se parece com um tratado acadêmico tal o formalismo com que a linguagem se cerca. O texto de Gonçalo é melífluo e qualquer amante dos quadrinhos se deliciará com as histórias que ele tem para contar. Para quem quiser conhecer a prosa de Gonçalo Junior, ele costumava bater ponto no site Bigorna. Curiosamente há um de seus artigos que critica justamente a capa do livro “Homens do Amanhã”, que mencionei na primeira metade desse artigo.

Lançado em 2004, os leitores desse livro há anos anseiam por uma continuação desse trabalho, uma espécie de “Guerra dos Gibis 2”. E isso se tornou realidade recentemente, pois está para ser lançado nos próximos dias o livro “Maria Erótica e o Clamor do Sexo – Imprensa, Pornografia, comunismo e censura na ditadura militar – 1964-1985”, que pode ser considerada uma continuação de “A Guerra dos Gibis”, pois aborda a censura aos quadrinhos no período imediatamente posterior ao abordado naquele livro. Espero em breve tê-lo em mãos para comentar com os frequentadores dessa blodega.

Update 1: Para quem quiser dar uma conferida, quase todo o conteúdo desse livro está disponível no Google Livros

Update 2: Como prometi, comentei “A Guerra dos Gibis 2″ neste outro post aqui

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Histórias dos Quadrinhos que Não estão no Gibi – Parte 1

Quem realmente curte história em quadrinhos e os acompanha há um bom tempo conhece, por vias diretas ou indiretas, alguns aspectos e detalhes do mundo editorial, de como esta arte evoluiu ao longo das décadas, deixando de ser diversão descartável para adquirir status de arte respeitável. Mas para aqueles que não conhecem a história ou são curiosos por mais detalhes sórdidos, por assim dizer, há bons livros no mercado que abordam competentemente o tema. Destaco dois títulos em especial, os quais já li, mesmo que tardiamente, mas que poderia rotular de “obrigatórios” para todo amante da arte sequencial que quer se aprofundar mais no assunto.

Primeiro, falemos da origem de tudo, que é os Estados unidos, onde a indústria dos quadrinhos se tornou uma peça importante na bilionária estrutura dos conglomerados que produzem entretenimento. O ex-roteirista de quadrinhos Gerard Jones caiu em campo e executou uma senhora pesquisa para  desvendar a aurora das editoras. E correndo contra o tempo, já que como bem disse Stan Lee, muitos dos que testemunharam esse início já beiravam idades avançadas, respeitáveis senhores octogenários, nonagenários e até centenários que poderiam levar muita informação para o túmulo.

Mas Gerard Jones conseguiu fazer uma excelente reconstituição da cena do crime em seu livro “Homens do Amanhã”. Mesmo abordando a história até praticamente os anos 00, a foco principal é entre os anos 30 e 50. Para contar a gênese dessa indústria bilionária, o fio condutor da narrativa é um assunto até hoje espinhoso no meio editorial: a luta pelos direitos do personagem Super-Homem, o primeiro super-herói e fulcro de uma das maiores editoras do gênero, a atual DC Comics, que faz parte do conglomerado AOL-Time-Warner. Originalmente criado por dois jovens judeus, Jerry Siegel e Joe Shuster, o personagem rendeu uma fortuna aos editores da DC, enquanto os criadores lutavam por migalhas na justiça.  Partindo de um manifesto à imprensa escrito por Siegel nos anos 70, quando ele e seu colega mal ganhavam o suficiente para se manter enquanto a Time-Warner se preparava para produzir “Superman-O Filme”, Gerard volta bem no passado, para contextualizar a história, tecendo detalhes sobre a geração de judeus imigrantes que tomou de assalto os bairros pobres das grandes cidades americanas. Isso é importante, pois os grandes criadores, desenhistas e editores que viriam a ser tornarem famosos eram, em sua grande maioria, da geração de judeus que se estabeleceu nos States naqueles anos difíceis. E ao reconstituir a história de muitos desses personagens, se descobre detalhes absurdos, bizarros e por vezes nem um pouco lisonjeiro à “lenda pessoal” de muitos desses ícones.

O absurdo maior é saber que o alicerce das editoras e distribuidoras de quadrinhos que se tornaram gigantes editoriais foi cimentado com pornografia, literatura apelativa, contrabando de bebidas, financiamento do crime organizado, tapetão financeiro em sócios ou proprietários de empresas menores, processos judiciais por acusação de plágio ou pura e simplesmente pilantragem e safadeza. Não era incomum um dos fundadores da futura DC, Harry Donenfeld, estar associado a figuras como os gangsteres Frank Costello ou Luck Luciano. E era prática notória um empresário fazer pressão indireta em um concorrente através de seus credores, até que quebre e seja obrigado a vender seu negócio.

Do outro lado dessa equação estava um grupo de jovens socialmente desajustados cujo maior interesse comum eram as histórias de ficção científica de revistas como “Amazing Stories”., que criaram os primeiros “famdom’s”. Eles eram o que poderia se chamar de “nerds” ou “geeks”, caso os termos existissem naqueles tempos. Essa força criativa e jovem se tornou a mão-de-obra  necessária às editoras, quando surgiu o promissor negócio de quadrinhos de super-heróis, e essa rapaziada devidamente influenciada pela literatura fantástica e as pulp magazine dos anos 30 começou a criar os heróis da chamada “Era de Ouro” dos quadrinhos, sendo o divisor e águas um personagem diversas vezes recusado e aproveitado quase que de improviso para protagonizar a revista “Action Comics” 1, um tal de Super-Homem. Depois de seu sucesso, uma enxurrada de super-heróis com superpoderes encheu as revistinhas, que eram vendidas aos milhões.
Enquanto desenha um retrato dessa época inicial do mundo dos super-heróis, Jones começa a destrinchar também a personalidade de alguns de seus criadores. Se Joe Shuster e Jerry Siegel eram tímidos e de uma ingenuidade enorme, outros como Bill Kane tinham malandragem de sobra. Este costumava terceirizar boa parte de seu trabalho a artistas anônimos, recebendo o crédito por todo o trabalho. O próprio Bill Finger, co-criador do Batman, em vida nunca recebeu o devido reconhecimento por sua participação nas histórias iniciais do Homem-Morcego. Kane também usou das armas que seus patrões costumavam usar, forçando a DC a renegociar seu contrato sob a alegação de que era de menor quando o assinara. Outros personagens foram pintados com tintas fortes, como Jack Liebowitz, o manda-chuva da DC durante décadas, responsável por dar um verniz sério e respeitável ao empreendimento e de manter com mão de ferro os direitos sobre os personagens criados para a editora. Mort Weisinger é visto como um manipulador, carrasco de seus subalternos e um malandro capaz de queimar o próprio amigo para lhe tomar uma função.

Gerard Jones acompanha com lupa esta indústria, desde o seu nascimento, passando pela II Guerra Mundial e o surgimento de revistas de Terror e Policiais, que temporariamente desbancaram os Super-Heróis da preferência popular até que a paranóia dos anos 50 trouxesse à tona as teorias do psicólogo Fredric Wertham e a sua “Sedução do Inocente”, colocando os quadrinhos nos bancos dos réus. Testemunha também surgir uma nova geração de super-heróis anos depois, tanto na DC quanto na concorrência, principalmente os que saem da mente de um rapaz que estava meio que por acaso nessas editoras e que atendia pelo nome de Stanley Lieber, mas que assinava suas criações como Stan Lee. O mercado muda, e o que era uma empresa fechada e familiar abre seu capital, e em poucos anos a DC se torna parte do grupo Time-Warner, chegando dessa maneira os nossos dias e sobrevivendo à perseguição de “especialistas” que insistiam que quadrinhos tornam os jovens mais tapados ou criminosos. Nesse ínterim, Siegel e Shuster processam a DC várias vezes, mas sem sucesso, até que o apelo mencionado no início do livro acaba caindo no conhecimento público, o que causa um certo alvoroço e trás algum resultado positivo, por pressão de muitos profissionais do ramo e do próprio público. Mas mesmo isso não conseguiu dar uma definição ao termo, e até hoje os herdeiros dos criadores do Homem de Aço ainda lutam na justiça contra a DC para reaver os direitos sobre um personagem mundialmente conhecido e que rendeu uma imensa fortuna aos donos de seus direitos nessas décadas todas. Decisões recentes favoreceram a esposa e filha do finado Siegel, mas ainda há muita água para correr sob a ponte.

Esse livro foi lançado no Brasil pela Conrad em 2006, mas acabei só lendo-o há poucas semanas. Em parte por desconhecer o tema abordado até pouco tempo, não obstante o título “Homens do Amanhã” ser uma alusão a um dos primeiros apelidos do personagem Super-Homem. Porém, boa parte dessa culpa eu posso atribuir à capa do livro. Alguém poderia me fazer a gentileza de explicar a relação dessa capa com o tema? Tudo bem que a capa da edição americana não é exatamente um primor, mas está diretamente relacionada ao assunto do livro. Imagino quantos leitores este livro ainda não tem devido a esta capa, digamos, equivocada…

(o resto desse artigo sai amanhã, para vocês não se empanturrarem com tanta informação)

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Uma Paranóia Patológica

Para Ler o Pato Donald

Quando o ranzinza Donald foi promovido a agente da CIA

Nos anos 50 o livro do psicólogo Fredric Wertham, “Seduction Of Inocent”, acusou os quadrinhos americanos de induzirem a juventude ao crime. Esse livro é inédito em português, e por aqui não trouxe maiores consequências diretas, não obstante esta mídia sofrer de todo tipo de acusação por aqui em décadas passadas. Mas guardadas as devidas proporções, outro livro publicado ao sul do Equador também demonizou os singelos personagens dos quadrinhos. Se o psicólogo alemão acusava Batman e Robin de viadagem, o Pato Donald virou instrumento de alienação das massas em prol do imperialismo americano no livro “Para Ler o Pato Donald – Comunicação de Massa e Colonialismo”, escrito no Chile em 1972.

O embrião do livro foi o seminário “Subliteratura e modo de combatê-la”, e os autores, o argentino radicado no Chile Ariel Dorfman e o belga Armand Mattelard, eram funcionário da Quimantú, antiga editora de quadrinhos Zig-Zag que fora estatizada por Salvador Allende. Usando da semiótica – e da grana do contribuinte chileno, diga-se de passagem – os dois então jovens autores empunharam a lupa ideológica para decifrar o significado oculto nos aparentemente infantis e inocentes personagens de Walt Disney. E o que descobriram foi uma conspiração engendrada pelo grande satã americano para alienar as massas e divulgar sub-sub-repticiamente a ideologia capitalista e pequeno-burguesa.

Por exemplo, o Pato Donald, o sobrinho do Tio Patinhas e que comumente é usado como mão-de-obra barata nas aventuras do seu tio sovina, é um agente do imperialismo, corruptor da inocência infantil e sexualmente pervertido, mas não por se abster do uso de calças, e sim porque sua família não tem pais ou laços de parentescos diretos, e ninguém sabe quem é filho de quem. E, claro, Tio Patinhas em suas viagens mundo afora em busca de riquezas e aventuras seria a essência do capitalismo selvagem, que invade as culturas dos países “subdesenvolvidos” para sugar suas riquezas materiais até o talo. Mas tem acusação pra todo mundo. Até o sortudo Gastão serve de exemplo de conformismo pequeno-burguês. Patópolis seria o próprio EUA, centro do mundo civilizado, e o “resto do mundo” seriam os países periféricos e em desenvolvimento, obviamente inferiores em relação à “matriz”. Nem os Irmãos Metralha escapam da condenação de não serem marxistas o bastante, já que querem expropriar o capital da classe dominante apenas para eles próprios se aburguesarem. Mas cá entre nós, mais comunista do que isso eu não posso conceber.

Pior que essa mixórdia já foi, e ainda é levada a sério. Eu mesmo fui apresentado a esta obra por um professor de OSPB (isso ainda existe?) no segundo grau, e numa primeira leitura foi como um choque, e me surpreendi com o significado oculto e, admito, até levei a sério essa grande conspiração de idiotização mundial. E logo achei que Walt Disney e Carl Barks ganhavam dólares diretamente da CIA para conceber ardilosas histórias. Tudo bem que durante a II Guerra Mundial, praticamente sob encomenda do governo americano, Disney produziu desenhos e criou personagens para simbolizar a política de boa vizinhança entre os países americanos, saindo dessa safra o galo mexicano Panchito e o papagaio malandro Zé Carioca. Mas daí a extrapolar que há todo um plano maligno para deturpar os valores das crianças do mundo, convenhamos, é dose difícil de engolir. Mas essa ideia foi muito popular nos anos 70 e 80. Mas como diria Freud, às vezes um charuto é só um charuto. E um ceticismo saudável é sempre bem-vindo. E analisando friamente, hoje podemos ver que essas ideias são apenas frutos de paranoia esquerdista e doutrinação marxista. Os autores apenas pegam das histórias os elementos que venham a corroborar suas ideias, forçando a barra nas interpretações e chegando a adulterar o significado dos quadrinhos, substituindo o texto original por outros mais convenientes à reforçar sua tese, o que não deixa de ser um estelionato intelectual.

E, na verdade, se extrapolarmos a percepção e forçarmos a barra, veremos conspiração e perversão em qualquer obra infantil. Um dos autores do livro, Ariel Dorfman, ainda escreveria “Super-Homem e seus amigos do Peito”, levando a mesma teoria aos heróis dos quadrinhos americanos. Em anos mais recentes, é comum vermos pastores mais exaltados afirmarem que os funcionários da Disney são tarados, homossexuais e maconheiros que enchem os desenhos com símbolos fálicos e mensagens de conotação sexual em suas produções infantis. Mas cá entre nós, quem vê pica em tudo que é canto é, no mínimo, suspeito…

Em cima desse mote, o sacana Ruy Goiaba parodiou a ideia central do livro chileno ao enxergar uma grande conspiração urdida por Maurício de Souza com seus personagens ao escrever “Para Ler a Turma da Mônica”, que inclusive já foi publicado na revista “Playboy”. Porém tem gente que leva a piada a sério e há poucos meses um artigo intitulado “Violência na Turma da Mônica” causou rebuliço entre os fãs dos quadrinhos ao tentar trazer significados negativos aos personagens de Maurício de Souza.

Mesmo que hoje muitos ainda comprem as ideias desse livro, que se encontra ainda disponível, só mesmo os esquerdistas mais xiitas poderiam levar tamanha teoria conspiratória a sério. No livro “Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano”, uma obra dedicada a descascar com sólidos argumentos e fina ironia o mito de que a culpa do subdesenvolvimento latino é pura e exclusivamente dos planos malignos oriundos do Primeiro Mundo, seus três autores dedicam algumas páginas à obra chilena, e procuram explicar o motivo do sucesso do livro “Para Ler o Pato Donald” entre os que ele intitula “idiotas latino-americanos”:

“..está escrito em clave paranoica, e não há nada que excite mais a imaginação de nossos idiotas do que acreditar-se objeto de uma conspiração internacional encaminhada para subjugá-los. Para esses desconfiados seres sempre existem uns ‘americanos’ tentando enganá-los, tratando de roubar-lhes seus cérebros, arruinando-os nos centros financeiros, impedindo-lhes de criar automóveis ou peças sinfônicas, intoxicando-lhe a atmosfera, ou combinando com os cúmplices locais a forma de perpetuar a subordinação intelectual que padecemos”

Acho que nem o Professor Ludovico falaria melhor

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Super-Homem x Ku Klux Klan

O Homem de Aço combate o preconceito

Quem acompanha as aventuras de algum super-herói sabe que muito do que ocorre hoje na vida real seria impedido por ele. Em um mundo em que existisse o Super-Homem, dificilmente teríamos um 11 de setembro, um terremoto no Haiti ou um Tsunami na Ásia, entre outros flagelos. Mas às vezes os super-heróis conseguem intervir em nossa realidade, com resultados benéficos. O próprio Super-Homem já foi chamado para combater um inimigo tão insidioso quanto o Lex Luthor: o racismo.
Uma Brincadeira Chata

A cultura ocidental ajudou a divulgar em filmes a figura da Ku Klux Klan, a organização racista americana. A Ku Klux Khan teve um início até inocente, quando uns ex-soldados confederados se reuniram sem maiores pretensões no Tenessee, mas a organização cresceu e assumiu um caráter conservador e intolerante contra os negros que conseguiram a liberdade após a conclusão da guerra. Açoites públicos, linchamentos, estupros e castrações espalharam o horror entre os negros, que passaram a temer os homens de capuz branco e as cruzes em chamas. Desde então, a organização passou por altos e baixos, com períodos de intensa atividade intercalados por momentos em que o grupo ficava nas sombras. Em 1872, a organização foi reconhecida como um grupo terrorista e foi perseguida pelo governo. Décadas depois, em 1915, o filme “O Nascimento de uma Nação” contava os primeiros anos da nação americana e fazia apologia da atividade dos homens da Klan, contribuindo para o seu ressurgimento. Até o início da II Guerra Mundial, a KKK esteve em plena ativa. Mas a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra, justamente contra nações que defendiam ideias semelhantes às da Ku Klux Klan, tirou qualquer viabilidade da organização se manter popular.

Mas uma enorme cruz em chamas foi vista pouco mais de dois meses após o final da guerra na encosta do Stone Montain, em Atlanta. Os homens de capuz branco estavam de volta à atividade, e escolheram a capital da Geórgia como sua nova sede.

O Herói do mundo real

Um jovem de trinta anos chamado Stetson Kennedy era natural de Atlanta, mas ao contrário de muitos de seus conterrâneos sulistas e seus antepassados, ele não concordava com o ideário racistas propagadas pela Klan, e se sentiu na obrigação de fazer algo para combater essa praga ao seu modo, escrevendo artigos para periódicos. Infelizmente, a KKK era apenas o braço armado e extremista de uma mentalidade arraigada na elite branca do Sul, e a retórica parecia ser insuficiente para combater a Klan.

Usando um nome falso e o fato de que um tio seu já havia sido um Klansman, Kennedy conseguiu entrar e se infiltrar no grupo local da Klan, logo se tornando parte dos Klavalheiros, que era a polícia secreta da organização. O que ele observou, de imediato, é que a maioria dos que faziam parte da Klan eram homens de pouca instrução e sem futuro profissional promissor. Logo ele se familiarizou com os rituais secretos e conheceu a identidade dos líderes locais. Na prática, a Klan agia apenas pelo fator intimidação, já que os linchamentos eram praticamente inexistentes, e os líderes usavam este poder para extorquir sindicatos locais, entre outras atividades criminosas envolvendo contrabando de armas e bebidas.

Com tais informações, Kennedy comunicou os delitos e as atividades da organização as autoridades, incluindo o procurador-geral e o governador, com detalhes que poderiam levar ao desbaratamento da organização e de suas atividades. Infelizmente nada surtiu maior efeito contra a KKK. Frustrado em seu intento, Kennedy resolveu pedir ajuda ao maior super-herói. Super-Homem iria usar seus músculos de aço contra a intolerância racial.

Chamem o Super-Homem

Mas antes que os leitores me acusem de ter bebido algo muito forte, vamos esclarecer. Kennedy percebeu que muito da força de uma organização secreta vem dos rituais e códigos cujo conhecimento era restrito aos iniciados. Muitos desses rituais observados por Kennedy eram até meio infantis.

Nessa época, o programa de rádio As Aventuras do Super-Homem era transmitido toda a noite, para deleite da garotada que acompanhava as aventuras do filho de Krypton. Kennedy resolveu usar este programa para levar a público os maiores segredos da KKK. Antes, Super-Homem já havia usado seus poderes contra Mussolini, Hitler e companhia. Os produtores do programa adoraram a ideia de Kennedy e, a partir das informações fornecidas, os roteiristas escreveram um mês inteiro de aventuras do Homem de Aço contra os homens de lençol branco. Veio à tona toda a estrutura e rituais dos Klans, e a crianças estavam brincando de Super-Homem contra KKK usando as mesmas palavras em código utilizadas pelos klansmem. Claro que os membros entraram em polvorosa quando viram seus rituais sagrados sendo usados como brincadeira de pirralhos. Senhas foram mudadas, e as novas foram imediatamente informadas aos roteiristas, que cuidaram de inseri-las nos programas seguintes. Ao final da aventura, é claro que Super-Homem prendeu e venceu seus inimigos.

E no mundo real os efeitos foram ainda mais devastadores. As reuniões seguintes tiveram presença próxima de zero, e ninguém mais se interessou em se vestir de capuz branco. Mesmo sem destruir a Klan em definitivo, a ação de Stetson Kennedy e a ajuda do Super-Homem foram o principal fator que impediram o ressurgimento da Klan no período pós-guerra.

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Quando Mundos Colidem (Parte 2)

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Conclusão do artigo sobre os filmes que Hollywood comete sobre a obra do inglês barbudo Alan Moore. Caso ainda não tenha lido a primeira parte, fique à vontade para fazê-lo
A mais recente produção baseada na obra de “Alan Moore é “Watchmen“, que foi lançada no cinema há cerca de um ano. E quem prestar atenção nos créditos de abertura, verá que só é mencionado o nome de Dave Gibbons, o desenhista. Mais uma vez Alan Moore fez questão de não ver seu nome associado a uma produção, não obstante ter sido esta obra de 1986 que consolidou seu nome entre os grandes roteiristas do gênero. Mas também foi praticamente seu último trabalho para a DC antes dele puxar o carro da editora, que ficou com o direito dos personagens por ele criado para a maxi-série em 12 partes que revolucionou os quadrinhos de super-heróis no meio dos anos 80. Desde o fim daquela década que boatos referentes a uma possível produção baseada na série circulam. O ex Monty Python Terry Gillian chegou a ter o projeto em mãos, mas reza a lenda que o próprio Alan Moore o convenceu que boa parte dos conceitos apresentados na revista não funcionariam no cinema. Os fãs sempre esperavam o pior de uma possível adaptação, com ótimas ideias se convertendo em bobagens hollywoodianas. Muitos anos depois, finalmente a produção caiu nas mãos do diretor Jack Snider.

Jack Snider é um caso à parte, já que ganhou um certo respaldo e respeito dos fãs dos quadrinhos após transpor o álbum “300 de Esparta”, do Frank Miller, no filme “300“. O que impressionou a muitos foi justamente que algumas cenas seguiram fielmente várias páginas dos quadrinhos, como se estes fossem storyboards da produção. Robert Rodriguez já fizera isso em Sin City. Só que ao contrário de Rodriguez, que se manteve fiel ao roteiro e às imagens, o que se percebe é que Snyder optou por reproduzir fielmente o visual dos quadrinhos de Frank Miller, porém não foi tão fiel ao roteiro, introduzindo pequenas mudanças que , na verdade, modificavam substancialmente o texto como um todo, além de inserir uma história totalmente nova envolvendo a rainha de Esparta e uma trama política nos bastidores. Resumindo, num primeiro olhar podemos até achar que a adaptação de Snyder é fiel, mas se observarmos os detalhes, dá pra perceber que aspectos muito importantes do texto original foram pervertidos, muito provavelmente para adequar a produção à alguma “receita de bolo” dos produtores.

E foi isso que aconteceu com “Watchmen“. Já no trailer ficou claro que muitas das cenas reproduziriam na tela as cenas desenhadas por Dave Gibbons, o que alegrou os fãs temerosos por mais uma bomba hollywoodiana baseada em Alan Moore. E quanto a isso não há sombra de dúvida de que muitas sequências antológicas foram transpostas para o filme, o que por si só já é um senhor mérito, provocando um frisson voyerista em qualquer um que já tenha lido e relido ad infinitum a maxi-série.

Mas as boas notícias param por aí. O que vou falar a seguir pode até parecer aquele papo nerd xiita de se exigir fidelidade absoluta aos detalhes da obra, e talvez até seja. Mas quando falo em detalhes não estou me referindo ao tom certo de verde para o Hulk ou o tamanho dos chifres na máscara do Demolidor. Por isso não vou reclamar da mudança dos uniformes, pois isso é perfumaria. Até gostei de algumas mudanças, como os uniformes da Silk Spectre. A original é uma tremenda referência visual às pinups, e o uniforme de sua filha Laurie ficou mais interessante, por assim dizer, agradando a qualquer tarado por mulheres em latex.

Como Moore previa, não dava para levar tudo para a tela, mas até aí tudo bem, é aceitável. Mas aí dou ponto a Snider, que na abertura do filme faz um resumo dos anos 30 até 1985, quando se passa a história, usando referências visuais excelentes e citando fatos que são mencionados ao longo dos quadrinhos de forma indireta.

Um dos pontos fracos, na minha subjetiva e sincera opinião, é a caracterização dos personagens e a interpretação dos atores. O Comediante e o Rorcharsch até que foram OK, apesar de poderem ter sido ainda melhor explorados. Porém senti falta uma Sally Jupiter sexualmente liberal quando jovem e uma senhora amarga “esperando a morte” em um asilo. Tampouco vi a personalidade forte e zangada de sua filha, Laurie, frustrada por ter que realizar as fantasias da mãe. O o Ozymandias, então? Nos quadrinhos Adrian Veidt era um senhor loiro de meia idade, com uma expressão carismática, natural liderança e presença marcante, mas carregando uma amargura e o peso dos seus atos. No filme se tornou um personagem distante e apático, com maneirismos quase afetados. Uma bichona, como diria Paulo Silvino. Tudo bem que Rorscharch insinua uma possível homossexualidade do personagem no gibi, mas daí a levar isso a sério é sacanagem. Em suma, faltou dar uma personalidade aos personagens, estavam quase todos apáticos. Culpa do elenco, do diretor, do roteiro? Não sei dos outros atores, mas a Carla Gugino sabe ser bem safada quando quer…

watchmen1.jpgE falando em roteiro, este é o principal calcanhar de aquiles do filme. O forte da obra é justamente a história, que explorou praticamente todas as possibilidades narrativas da mídia quadrinhos, com flashbacks, metalinguagem e metáforas visuais e narrativas excelentes, incluindo as citações, referências e diálogos, em sua maioria com sutileza que exige uma segunda leitura pra ser percebido. Obviamente não seria viável transpor TUDO para um filme, mas bem que poderiam manter a essência da obra. Personagens secundários acabaram se fundindo entre si, os aspectos-chaves da trama foram simplificados, os diálogos se tornaram menos brilhantes, e o que é pior, a sutileza foi pro saco, com inclusão de cenas com violência gráfica, algo que não existia tão explicitamente nos original. Não sei se subestimaram por demais o público, mas não deixaram muito espaço para a imaginação do espectador. Tudo bem que os produtores de Hollywood não costumam perder dinheiro ao nivelar por baixo a inteligência de seu público, mas acho que exageraram. Como exemplo posso invocar a cena que eu mais aguardava, o relato de Rorscharch ao psicólogo da prisão sobre o seu passado, principalmente o caso de sequestro da garotinha, que perdeu todo o clima. Claro que nos quadrinhos houve tempo para desenvolver uma tensão entre os personagens, mas o pior é que no filme o diretor queria deixar tudo bem claro, no melhor estilo “estou desenhando para você entender direitinho”, e onde haviam dois cães brigando por um osso – que se revelaria uma tíbia humana após um olhar mais atento – ficou uma perna de criança destroçada e ainda com o sapatinho na boca de dois pastores alemães. E nem vou comentar a diferença do modo como ele mata o assassino nos quadrinhos e no filme.

Esteticamente o filme agrada, mas como narrativa e caracterização dos personagens deixa a desejar, e muito, ao texto original. Talvez eu venha a mudar de opinião quando vir a assistir a versão integral do diretor, com cenas acrescentadas e os extras, como os “Contos do Cargueiro Negro”. Mas duvido muito.

A moda de adaptar histórias em quadrinhos para o cinema ainda está rendendo, e veremos muitos filmes deste gênero pelos próximos anos. Mesmo afastado da indústria de quadrinhos, ainda há algum material escrito por Moore que ainda não foi tocado pelos obtusos produtores do cinema, como “Tom Strong”, “Promethea” ou “Lost Girls”. Resta saber se algum dia teremos no cinema algo fiel à obra do mago inglês, ou se Hoolywood vai perceber que Moore lançou uma urucubaca das brabas pra qualquer filme baseado em sua obra dar com os burros n’água.

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Quando Mundos Colidem (Parte 1)

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A Relação Conflituosa entre Alan Moore e Hollywood
Quem já lê quadrinhos há muitos anos com certeza já teve em mãos alguma história escrita por Alan Moore, um dos mais respeitados e admirados escritores do gênero, o qual prescinde de maiores apresentações. Suas criações possuem fãs e seguidores, e já renderam milhões em verdinhas para as editoras que as publicam. Nada mais natural que tais histórias de sucesso fossem adaptados a outra mídia. Mas a Bruxa Velha de Northampton não é exatamente uma pessoa de personalidade fácil. Sua relação com as editoras pelas quais já passou nem sempre foi das mais agradáveis. E o assunto piora quando se trata de adaptar suas criações para as telas. Com filmes baseados em quadrinhos rendendo uma graninha boa, claro que os produtores do cinema viriam a querer levar algumas das ideias de Moore para uma grande produção. Mas o padrão blockbuster de qualidade, mais sintonizado com clichês e receitas de sucesso, dificilmente digeriria todas as propostas estéticas e narrativas das melhores histórias escritas por Moore. Daí que os filmes que se basearam em alguma das obras do inglês barbudo dificilmente fazem justiça ao original, na melhor hipótese, isso quando não resultam em uma bomba daquelas que nem Michael Bay conseguiria cometer. Por Moore, nenhuma de suas criações iria às telas para não perverter o conceito original. Infelizmente não depende dele, já que tais criações estão, em sua maioria, nas mãos das editoras para as quais ele trabalhou e escreveu. O máximo que ele pode fazer, nestes casos, é garantir que seu nome não estará associado a tais produções. E claro, falar mal o máximo possível, certamente fazendo algum vodu pesado quando algum desavisado resolve dirigir uma de suas histórias. Esta relação de (pouco) amor e (muito) ódio entre Hollywood e Alan Moore já rendeu produções sofríveis e alguns processos judiciais, além de úlceras nos fãs mais empedernidos, que certamente fazem coro às imprecações de Moore. É um estranho casamento, que apesar de não ter sexo, sempre alguém está se fodendo.
Eddie Campbell Alan Moore From Hell psychogeography.jpg do-inferno01.jpgRelembrando os lances desta relação tempestuosa, a primeira obra de Moore a ser levada ao cinema foi “Do Inferno”. Nesta série, Alan Moore reconta a história de Jack, o Estripador, se baseando nas teorias do historiador Stephen Knight, entre outras teorias, para dar sua versão do criminoso, cuja identidade é logo revelada no início da história. Mas Moore vai muito além de uma mera história policial nessa série em preto e branco desenhada por Eddie Campbell, explorando a psique de Jack sob várias óticas. O filme, produzido em 2001 e dirigido por Albert e Allen Hughes, em si, não é tão ruim. Se alguém que não leu a história original assistir a ele pode acabar gostando. Não chega a ser excelente, mas é um bom passatempo, e o personagem de Johnny Depp segura o filme, mas não passa de um suspense convencional com um romance mal resolvido no meio, e com uma certa dose de violência. Infelizmente a trama e os conceitos apresentados por Moore são solenemente ignorados no roteiro. E, obviamente, Moore não gostou nem um pouco. Mas ele nem imaginava em seus sonhos mais loucos o que o aguardava.
League-of-extraordinary-gen.jpg league-of-extraordinary-gentlemen.jpg“A Liga dos Cavaleiros Extraordinários” é uma das melhores coisas que surgiram nos quadrinhos dos anos 90. Alan Moore usou seu conhecimento da literatura fantástica e de aventura do século XIX e mesclou alguns dos personagens em uma espécie de “Liga da Justiça” vitoriana, que era liderada por Mina, a antiga amante de Drácula, e formada pelo Capitão Nemo, Allan Quaterman, Dr,Jeckill e o Homem Invisível. O resultado é uma história criativa, cheia de referências a personagens da literatura, bastante violenta, algo realçado pelo traço de Kevin O’Neil. Uma premissa muito interessante, uma história pronta para um filme inovador. E o que fizeram? A bomba “A Liga Extraordinária“, de 2003. Pra satisfazer o ego do Sean Connery, que fez Alan Quatermain, seu personagem passou a ser o protagonista e líder da equipe, além dos mais diversos pitacos que o velho 007 obrigou o diretor a engolir. Foram acrescentados outros personagens, como o imortal Dorian Gray e o aventureiro Tom Sawyer. O resultado é um filme com história fraca e roteiro ridículo, que fez algo que raramente ocorre: público e crítica concordarem. Concordarem que o filme é uma bosta. E para terminar de lascar, a produção foi processada pelo uso dos personagens Tom Sawyer e Dorian Gray, que não estavam em domínio público. E como o nome de Alan Moore estava nos créditos como escritor, ele acabou, mesmo que indiretamente, envolvido também. Daí em diante ele fez questão de não ver seu nome envolvido em mais produção alguma. Tanto que, nos filmes posteriores que se baseiam em obras de Alan Moore não levam seu nome como um dos escritores.
Vamos à próxima vítima. John Constantine foi uma criação do Moore quando este estava à frente do título “Monstro do Pântano”, no qual fez um excelente trabalho ao revitalizar um personagem do segundo time e a trazer de volta elementos de terror aos quadrinhos americanos. O personagem fez tanto sucesso que logo estaria em título próprio, “Hellblazer”, que é publicado até hoje pelo selo Vertigo, e já passou pelas mãos de outros bons escritores, como Garth Ennis e Warren Ellis. O cínico mago inglês, sempre de sobretudo e fumando cigarros Silk Cut, é um dos mais fascinantes anti-heróis dos quadrinhos. Em 2005 sai o filmconstantine.jpge com o personagem, sob o título “Constantine“. Os fãs se assustaram, mas pelos motivos errados. Aliás, a coisa já começou errada, hellblazer2.jpgpois Constantine, que é loiro e inglês , virou americano e moreno, e alguém achou uma ótima ideia usar o recém-saído do sucesso “Matrix” Keanu Reeves como protagonista. E, para variar, os produtores e roteiristas não aproveitaram muito mais do que o conceito do personagem. Mesmo usando elementos encontrados nos quadrinhos escritos por Jamie Delano e, principalmente, Garth Ennis, grande parte das melhores ideias, por sinal as mais ousadas e politicamente incorretas, foram simplificadas ou ignoradas. O resultado? Um filme de aventura com alguns elementos de terror, um “Sobrenatural” misturado à “Matrix”. Pode até agradar o público em geral, mas quem já conhecia o personagem deve ter tido ganas em explodir algum estúdio ao ver uma versão estagiário de macumbeiro do Chas, que de taxista brutalhão, praticamente um Hooligan, virou um rapaz franzino. Não deve ter agradado também Constantine se aventurando nos EUA, e não na sua versão sombria de Londres, e usando uma espingarda benzida para matar capetas. Mas o toque final foi o personagem deixar de fumar e passar a mascar chiclete. Tenha dó. Mesmo não se baseando nas histórias escritas por Moore, o personagem foi criado por ele, e este foi mais um bom motivo para o inglês querer distância ainda maior de Hollywood.
Mas Moore estava ocupado demais com outra produção para se preocupar com o que fizeram com Constantine, pois os irmãos Wachowski estavam produzindo “V de Vingança“, baseada na série que Moore escreveu ainda na Inglaterra, mostrando um futuro sombrio no qual o governo, após um av for vendetta mask.jpgto terrorista,vendetta.jpg assume o controle total do país, submetendo-o a uma ditadura de extrema direita, com clara inspiração em “1984“, de George Orwell. Antes mesmo do resultado ser exibido, a celeuma maior foi tentarem dar um “selo de aprovação Alan Moore” ao filme, o que seria uma façanha sem tamanho, pois os produtores afirmaram que o roteiro havia sido lido e aprovado por Alan Moore, que negou veementemente e ainda esculhambou com Deus e o mundo, exigindo que seu nome NÃO aparecesse nos créditos. No caso do roteiro, além de algumas omissões de personagens secundários, haviam pequenas e sutis mudanças na história, mas que acabaram tirando o verniz do texto original. Pois é, aquela mania de tentar suavizar personagens, de adaptar a história para o gosto do público em geral, sabem como é…Resultado? Um filme de ação bom, que aproveitou bem alguns elementos do original mas que estragou outros. Para quem assistiu e gostou, vale a pena ler a obra original para comparar. Mas o que poderia ser a suprema heresia ainda estava por vir.
(claro que este artigo continua...)

 

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  • Moziel T.Monk: Vejo que esse “travamento” já alcançou proporção de ser classificado como síndrome....
  • Emilia Vaz: (Eu peço fiado,mas pago viu?) Não me acho uma escritora,mas eu juro que tento…rsrs É bom saber...
  • André: Adorei,sempre escutava essa filosofia do meu pai !!!!!!Branchu.
  • suzilene: caraca o coelhinho é´loco e tarado e lindinho*-* fiado e´bom de mais. 100% play boy

Olha o Passaralho!

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