Hagá-Quê

Gibi também é cultura, oras! E tem espaço garantido nessa blodega

Histórias dos Quadrinhos que Não Estão no Gibi – Parte 2

Dando continuidade ao artigo anterior (se ainda não leu, manda ver), aqui na “Terra Brasilis” há um livro equivalente ao do Gerard Jones que explora a formação do mercado editorial dos quadrinhos brasileiros, abrangendo o período dos anos 30 até idos do início do Regime Militar, de autoria do jornalista Gonçalo Júnior. “A Guerra dos Gibis” é um livro fundamental e indispensável para qualquer um que queira conhecer a história e – porque não – os problemas da indústria de revistas em quadrinhos, popularmente conhecidos entre nós como “gibis”. Como Jones, Gonçalo usa um personagem e sua história como fio condutor: Adolfo Aizen. O então jovem repórter de O Globo tem a ideia de trazer os quadrinhos publicados nos jornais dos EUA , levando-a inicialmente ao seu patrão, Roberto Marinho, que a descarta, e este por fim não desiste e acaba criando “O Suplemento Infantil” para o jornal pós-Revolução de 30, “A Nação”. Essa foi a semente para o pequeno império editorial que o jovem – imigrante e descendente de judeus russos como seus colegas de ofício americanos – criaria anos depois com a fundação da EBAL – Editora Brasil América. E o mais irônico que esse império foi criado sob uma mentira, e uma contravenção já que sua certidão de nascimento brasileira era falsa, e até 2002 a Constituição Brasileira vetava a participação de estrangeiros como sócios ou proprietários em veículos de comunicação, e por toda sua vida Aizen carregou essa espada pendurada sobre o pescoço, uma informação que poderia ser usada por algum inimigo. E inimigos não faltaram. E porque acham que o título do livro é “A guerra dos Gibis”?

Aizen – e os demais editores de quadrinhos e tiras – enfrentaram várias guerras. A primeira delas foi contra seu ex-patrão, Roberto Marinho, que se tocou da bosta que fez ao descartar a ideia dos quadrinhos que Aizen lhe levara de mão beijada. Vendo que o antigo empregado conseguira bons contratos com as distribuidoras de material produzido pelas editoras americanas – os syndicates – e seus suplementos se tornaram revistas avulsas bem vendidas junto ao público infanto-juvenil, Marinho quis abocanhar esta fatia do mercado, e se tornou o primeiro concorrente sério dos quadrinhos de Aizen ao criar O Globo Juvenil, que seria seguido anos depois pelos Diários Associados de Assis Chateaubriant, que criou a revista “O Gury”.

Nesse meio tempo, as opiniões do clero já teciam pesadas críticas contra os quadrinhos importados que eram publicados nessas revistas, sendo o início da ideia geral de que quadrinhos seriam prejudiciais a educação das crianças, ideia ainda hoje encravada no nosso inconsciente coletivo e que vez por outra ainda encontra eco em algum veiculo de comunicação. Tais críticas recrudesceriam a partir dos anos 40, muitas motivadas mais por disputas editoriais entre concorrentes do que em preocupação legítima pelo eventual dano didático que os “gibis” poderiam causar à juventude. Como exemplo, a campanha que o “Diário de Notícias”, de Orlando Dantas, para afetar seu concorrente Roberto Marinho. Mas este discurso encontrou eco nos setores mais conservadores da sociedade, que passaram a atacar os quadrinhos. Se “Chatô” e Roberto Marinho reagiam com campanhas publicitárias ou editoriais agressivos, Adolfo preferia tentar convencer os críticos dos benefícios dos quadrinhos, inclusive publicando revistas com cunho educacional ou retratando personagens da história nacional, incluindo figuras eclesiásticas. Em defesa dos quadrinhos surgiram vozes improváveis, como o do intelectual Gilberto Freyre, e em seu ataque outras figuras carimbadas, como os jornalista Carlos Lacerda e Samuel Wainer, inimigos declarados de Roberto Marinho, e que criticavam os gibis para atingir indiretamente Marinho, mas cujas críticas ressoavam nos meios educacionais, influenciando pais, professores e educadores a se engajarem contra os gibis.

Além das críticas ao veículo em si, outra frente de batalha contra as editoras era a que exigia uma “reserva de mercado” de produto nacional, já que a opção mais prática e barata de importar o material estrangeiro já pronto seduzia os editores, que preferiam este material em detrimento a produzir o seu próprio o que de certa forma criou um problema e paradigma que é seguido até os dias de hoje pelas editoras. Se Aizen foi um pioneiro ao trazer as tiras e os comics americanos para nossa terrinha, ainda hoje o quadrinho nacional tem pouca expressão frente a concorrência estrangeira, com raras exceções.

A pesquisa de Gonçalo envolvendo estas décadas de mercado editorial nos trás ainda a ascensão e queda das editoras de histórias de horror paulistas, a importação da paranoia anti-quadrinhos dos EUA nos anos 50, dá uma pincelada rápida na censura sobre os quadrinhos pornográficos, a tentativa dos quadrinistas nacionais em criar uma reserva de mercado para garantir uma produção nacional, sem sucesso. Mesmo mantendo um rigor jornalístico na narrativa, esta não se torna chata ou enfadonha como poderia se tornar um texto dessa natureza, que por vezes mais se parece com um tratado acadêmico tal o formalismo com que a linguagem se cerca. O texto de Gonçalo é melífluo e qualquer amante dos quadrinhos se deliciará com as histórias que ele tem para contar. Para quem quiser conhecer a prosa de Gonçalo Junior, ele costumava bater ponto no site Bigorna. Curiosamente há um de seus artigos que critica justamente a capa do livro “Homens do Amanhã”, que mencionei na primeira metade desse artigo.

Lançado em 2004, os leitores desse livro há anos anseiam por uma continuação desse trabalho, uma espécie de “Guerra dos Gibis 2”. E isso se tornou realidade recentemente, pois está para ser lançado nos próximos dias o livro “Maria Erótica e o Clamor do Sexo – Imprensa, Pornografia, comunismo e censura na ditadura militar – 1964-1985”, que pode ser considerada uma continuação de “A Guerra dos Gibis”, pois aborda a censura aos quadrinhos no período imediatamente posterior ao abordado naquele livro. Espero em breve tê-lo em mãos para comentar com os frequentadores dessa blodega.

Update 1: Para quem quiser dar uma conferida, quase todo o conteúdo desse livro está disponível no Google Livros

Update 2: Como prometi, comentei “A Guerra dos Gibis 2″ neste outro post aqui

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Histórias dos Quadrinhos que Não estão no Gibi – Parte 1

Quem realmente curte história em quadrinhos e os acompanha há um bom tempo conhece, por vias diretas ou indiretas, alguns aspectos e detalhes do mundo editorial, de como esta arte evoluiu ao longo das décadas, deixando de ser diversão descartável para adquirir status de arte respeitável. Mas para aqueles que não conhecem a história ou são curiosos por mais detalhes sórdidos, por assim dizer, há bons livros no mercado que abordam competentemente o tema. Destaco dois títulos em especial, os quais já li, mesmo que tardiamente, mas que poderia rotular de “obrigatórios” para todo amante da arte sequencial que quer se aprofundar mais no assunto.

Primeiro, falemos da origem de tudo, que é os Estados unidos, onde a indústria dos quadrinhos se tornou uma peça importante na bilionária estrutura dos conglomerados que produzem entretenimento. O ex-roteirista de quadrinhos Gerard Jones caiu em campo e executou uma senhora pesquisa para  desvendar a aurora das editoras. E correndo contra o tempo, já que como bem disse Stan Lee, muitos dos que testemunharam esse início já beiravam idades avançadas, respeitáveis senhores octogenários, nonagenários e até centenários que poderiam levar muita informação para o túmulo.

Mas Gerard Jones conseguiu fazer uma excelente reconstituição da cena do crime em seu livro “Homens do Amanhã”. Mesmo abordando a história até praticamente os anos 00, a foco principal é entre os anos 30 e 50. Para contar a gênese dessa indústria bilionária, o fio condutor da narrativa é um assunto até hoje espinhoso no meio editorial: a luta pelos direitos do personagem Super-Homem, o primeiro super-herói e fulcro de uma das maiores editoras do gênero, a atual DC Comics, que faz parte do conglomerado AOL-Time-Warner. Originalmente criado por dois jovens judeus, Jerry Siegel e Joe Shuster, o personagem rendeu uma fortuna aos editores da DC, enquanto os criadores lutavam por migalhas na justiça.  Partindo de um manifesto à imprensa escrito por Siegel nos anos 70, quando ele e seu colega mal ganhavam o suficiente para se manter enquanto a Time-Warner se preparava para produzir “Superman-O Filme”, Gerard volta bem no passado, para contextualizar a história, tecendo detalhes sobre a geração de judeus imigrantes que tomou de assalto os bairros pobres das grandes cidades americanas. Isso é importante, pois os grandes criadores, desenhistas e editores que viriam a se tornar famosos eram, em sua grande maioria, da geração de judeus que se estabeleceu nos States naqueles anos difíceis. E ao reconstituir a história de muitos desses personagens, se descobre detalhes absurdos, bizarros e por vezes nem um pouco lisonjeiro à “lenda pessoal” de muitos desses ícones.

O absurdo maior é saber que o alicerce das editoras e distribuidoras de quadrinhos que se tornaram gigantes editoriais foi cimentado com pornografia, literatura apelativa, contrabando de bebidas, financiamento do crime organizado, tapetão financeiro em sócios ou proprietários de empresas menores, processos judiciais por acusação de plágio ou pura e simplesmente pilantragem e safadeza. Não era incomum um dos fundadores da futura DC, Harry Donenfeld, estar associado a figuras como os gangsteres Frank Costello ou Luck Luciano. E era prática notória um empresário fazer pressão indireta em um concorrente através de seus credores, até que quebre e seja obrigado a vender seu negócio.

Do outro lado dessa equação estava um grupo de jovens socialmente desajustados cujo maior interesse comum eram as histórias de ficção científica de revistas como “Amazing Stories”., que criaram os primeiros “famdom’s”. Eles eram o que poderia se chamar de “nerds” ou “geeks”, caso os termos existissem naqueles tempos. Essa força criativa e jovem se tornou a mão-de-obra  necessária às editoras, quando surgiu o promissor negócio de quadrinhos de super-heróis, e essa rapaziada devidamente influenciada pela literatura fantástica e as pulp magazine dos anos 30 começou a criar os heróis da chamada “Era de Ouro” dos quadrinhos, sendo o divisor e águas um personagem diversas vezes recusado e aproveitado quase que de improviso para protagonizar a revista “Action Comics” 1, um tal de Super-Homem. Depois de seu sucesso, uma enxurrada de super-heróis com superpoderes encheu as revistinhas, que eram vendidas aos milhões.
Enquanto desenha um retrato dessa época inicial do mundo dos super-heróis, Jones começa a destrinchar também a personalidade de alguns de seus criadores. Se Joe Shuster e Jerry Siegel eram tímidos e de uma ingenuidade enorme, outros como Bill Kane tinham malandragem de sobra. Este costumava terceirizar boa parte de seu trabalho a artistas anônimos, recebendo o crédito por todo o trabalho. O próprio Bill Finger, co-criador do Batman, em vida nunca recebeu o devido reconhecimento por sua participação nas histórias iniciais do Homem-Morcego. Kane também usou das armas que seus patrões costumavam usar, forçando a DC a renegociar seu contrato sob a alegação de que era de menor quando o assinara. Outros personagens foram pintados com tintas fortes, como Jack Liebowitz, o manda-chuva da DC durante décadas, responsável por dar um verniz sério e respeitável ao empreendimento e de manter com mão de ferro os direitos sobre os personagens criados para a editora. Mort Weisinger é visto como um manipulador, carrasco de seus subalternos e um malandro capaz de queimar o próprio amigo para lhe tomar uma função.

Gerard Jones acompanha com lupa esta indústria, desde o seu nascimento, passando pela II Guerra Mundial e o surgimento de revistas de Terror e Policiais, que temporariamente desbancaram os Super-Heróis da preferência popular até que a paranóia dos anos 50 trouxesse à tona as teorias do psicólogo Fredric Wertham e a sua “Sedução do Inocente”, colocando os quadrinhos nos bancos dos réus. Testemunha também surgir uma nova geração de super-heróis anos depois, tanto na DC quanto na concorrência, principalmente os que saem da mente de um rapaz que estava meio que por acaso nessas editoras e que atendia pelo nome de Stanley Lieber, mas que assinava suas criações como Stan Lee. O mercado muda, e o que era uma empresa fechada e familiar abre seu capital, e em poucos anos a DC se torna parte do grupo Time-Warner, chegando dessa maneira os nossos dias e sobrevivendo à perseguição de “especialistas” que insistiam que quadrinhos tornam os jovens mais tapados ou criminosos. Nesse ínterim, Siegel e Shuster processam a DC várias vezes, mas sem sucesso, até que o apelo mencionado no início do livro acaba caindo no conhecimento público, o que causa um certo alvoroço e trás algum resultado positivo, por pressão de muitos profissionais do ramo e do próprio público. Mas mesmo isso não conseguiu dar uma definição ao termo, e até hoje os herdeiros dos criadores do Homem de Aço ainda lutam na justiça contra a DC para reaver os direitos sobre um personagem mundialmente conhecido e que rendeu uma imensa fortuna aos donos de seus direitos nessas décadas todas. Decisões recentes favoreceram a esposa e filha do finado Siegel, mas ainda há muita água para correr sob a ponte.

Esse livro foi lançado no Brasil pela Conrad em 2006, mas acabei só lendo-o há poucas semanas. Em parte por desconhecer o tema abordado até pouco tempo, não obstante o título “Homens do Amanhã” ser uma alusão a um dos primeiros apelidos do personagem Super-Homem. Porém, boa parte dessa culpa eu posso atribuir à capa do livro. Alguém poderia me fazer a gentileza de explicar a relação dessa capa com o tema? Tudo bem que a capa da edição americana não é exatamente um primor, mas está diretamente relacionada ao assunto do livro. Imagino quantos leitores este livro ainda não tem devido a esta capa, digamos, equivocada…

(o resto desse artigo sai amanhã, para vocês não se empanturrarem com tanta informação)

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Uma Paranóia Patológica

Para Ler o Pato Donald

Quando o ranzinza Donald foi promovido a agente da CIA

Nos anos 50 o livro do psicólogo Fredric Wertham, “Seduction Of Inocent”, acusou os quadrinhos americanos de induzirem a juventude ao crime. Esse livro é inédito em português, e por aqui não trouxe maiores consequências diretas, não obstante esta mídia sofrer de todo tipo de acusação por aqui em décadas passadas. Mas guardadas as devidas proporções, outro livro publicado ao sul do Equador também demonizou os singelos personagens dos quadrinhos. Se o psicólogo alemão acusava Batman e Robin de viadagem, o Pato Donald virou instrumento de alienação das massas em prol do imperialismo americano no livro “Para Ler o Pato Donald – Comunicação de Massa e Colonialismo”, escrito no Chile em 1972.

O embrião do livro foi o seminário “Subliteratura e modo de combatê-la”, e os autores, o argentino radicado no Chile Ariel Dorfman e o belga Armand Mattelard, eram funcionário da Quimantú, antiga editora de quadrinhos Zig-Zag que fora estatizada por Salvador Allende. Usando da semiótica – e da grana do contribuinte chileno, diga-se de passagem – os dois então jovens autores empunharam a lupa ideológica para decifrar o significado oculto nos aparentemente infantis e inocentes personagens de Walt Disney. E o que descobriram foi uma conspiração engendrada pelo grande satã americano para alienar as massas e divulgar sub-sub-repticiamente a ideologia capitalista e pequeno-burguesa.

Por exemplo, o Pato Donald, o sobrinho do Tio Patinhas e que comumente é usado como mão-de-obra barata nas aventuras do seu tio sovina, é um agente do imperialismo, corruptor da inocência infantil e sexualmente pervertido, mas não por se abster do uso de calças, e sim porque sua família não tem pais ou laços de parentescos diretos, e ninguém sabe quem é filho de quem. E, claro, Tio Patinhas em suas viagens mundo afora em busca de riquezas e aventuras seria a essência do capitalismo selvagem, que invade as culturas dos países “subdesenvolvidos” para sugar suas riquezas materiais até o talo. Mas tem acusação pra todo mundo. Até o sortudo Gastão serve de exemplo de conformismo pequeno-burguês. Patópolis seria o próprio EUA, centro do mundo civilizado, e o “resto do mundo” seriam os países periféricos e em desenvolvimento, obviamente inferiores em relação à “matriz”. Nem os Irmãos Metralha escapam da condenação de não serem marxistas o bastante, já que querem expropriar o capital da classe dominante apenas para eles próprios se aburguesarem. Mas cá entre nós, mais comunista do que isso eu não posso conceber.

Pior que essa mixórdia já foi, e ainda é levada a sério. Eu mesmo fui apresentado a esta obra por um professor de OSPB (isso ainda existe?) no segundo grau, e numa primeira leitura foi como um choque, e me surpreendi com o significado oculto e, admito, até levei a sério essa grande conspiração de idiotização mundial. E logo achei que Walt Disney e Carl Barks ganhavam dólares diretamente da CIA para conceber ardilosas histórias. Tudo bem que durante a II Guerra Mundial, praticamente sob encomenda do governo americano, Disney produziu desenhos e criou personagens para simbolizar a política de boa vizinhança entre os países americanos, saindo dessa safra o galo mexicano Panchito e o papagaio malandro Zé Carioca. Mas daí a extrapolar que há todo um plano maligno para deturpar os valores das crianças do mundo, convenhamos, é dose difícil de engolir. Mas essa ideia foi muito popular nos anos 70 e 80. Mas como diria Freud, às vezes um charuto é só um charuto. E um ceticismo saudável é sempre bem-vindo. E analisando friamente, hoje podemos ver que essas ideias são apenas frutos de paranoia esquerdista e doutrinação marxista. Os autores apenas pegam das histórias os elementos que venham a corroborar suas ideias, forçando a barra nas interpretações e chegando a adulterar o significado dos quadrinhos, substituindo o texto original por outros mais convenientes à reforçar sua tese, o que não deixa de ser um estelionato intelectual.

E, na verdade, se extrapolarmos a percepção e forçarmos a barra, veremos conspiração e perversão em qualquer obra infantil. Um dos autores do livro, Ariel Dorfman, ainda escreveria “Super-Homem e seus amigos do Peito”, levando a mesma teoria aos heróis dos quadrinhos americanos. Em anos mais recentes, é comum vermos pastores mais exaltados afirmarem que os funcionários da Disney são tarados, homossexuais e maconheiros que enchem os desenhos com símbolos fálicos e mensagens de conotação sexual em suas produções infantis. Mas cá entre nós, quem vê pica em tudo que é canto é, no mínimo, suspeito…

Em cima desse mote, o sacana Ruy Goiaba parodiou a ideia central do livro chileno ao enxergar uma grande conspiração urdida por Maurício de Souza com seus personagens ao escrever “Para Ler a Turma da Mônica”, que inclusive já foi publicado na revista “Playboy”. Porém tem gente que leva a piada a sério e há poucos meses um artigo intitulado “Violência na Turma da Mônica” causou rebuliço entre os fãs dos quadrinhos ao tentar trazer significados negativos aos personagens de Maurício de Souza.

Mesmo que hoje muitos ainda comprem as ideias desse livro, que se encontra ainda disponível, só mesmo os esquerdistas mais xiitas poderiam levar tamanha teoria conspiratória a sério. No livro “Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano”, uma obra dedicada a descascar com sólidos argumentos e fina ironia o mito de que a culpa do subdesenvolvimento latino é pura e exclusivamente dos planos malignos oriundos do Primeiro Mundo, seus três autores dedicam algumas páginas à obra chilena, e procuram explicar o motivo do sucesso do livro “Para Ler o Pato Donald” entre os que ele intitula “idiotas latino-americanos”:

“..está escrito em clave paranoica, e não há nada que excite mais a imaginação de nossos idiotas do que acreditar-se objeto de uma conspiração internacional encaminhada para subjugá-los. Para esses desconfiados seres sempre existem uns ‘americanos’ tentando enganá-los, tratando de roubar-lhes seus cérebros, arruinando-os nos centros financeiros, impedindo-lhes de criar automóveis ou peças sinfônicas, intoxicando-lhe a atmosfera, ou combinando com os cúmplices locais a forma de perpetuar a subordinação intelectual que padecemos”

Acho que nem o Professor Ludovico falaria melhor

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Super-Homem x Ku Klux Klan

O Homem de Aço combate o preconceito

Quem acompanha as aventuras de algum super-herói sabe que muito do que ocorre hoje na vida real seria impedido por ele. Em um mundo em que existisse o Super-Homem, dificilmente teríamos um 11 de setembro, um terremoto no Haiti ou um Tsunami na Ásia, entre outros flagelos. Mas às vezes os super-heróis conseguem intervir em nossa realidade, com resultados benéficos. O próprio Super-Homem já foi chamado para combater um inimigo tão insidioso quanto o Lex Luthor: o racismo.
Uma Brincadeira Chata

A cultura ocidental ajudou a divulgar em filmes a figura da Ku Klux Klan, a organização racista americana. A Ku Klux Khan teve um início até inocente, quando uns ex-soldados confederados se reuniram sem maiores pretensões no Tenessee, mas a organização cresceu e assumiu um caráter conservador e intolerante contra os negros que conseguiram a liberdade após a conclusão da guerra. Açoites públicos, linchamentos, estupros e castrações espalharam o horror entre os negros, que passaram a temer os homens de capuz branco e as cruzes em chamas. Desde então, a organização passou por altos e baixos, com períodos de intensa atividade intercalados por momentos em que o grupo ficava nas sombras. Em 1872, a organização foi reconhecida como um grupo terrorista e foi perseguida pelo governo. Décadas depois, em 1915, o filme “O Nascimento de uma Nação” contava os primeiros anos da nação americana e fazia apologia da atividade dos homens da Klan, contribuindo para o seu ressurgimento. Até o início da II Guerra Mundial, a KKK esteve em plena ativa. Mas a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra, justamente contra nações que defendiam ideias semelhantes às da Ku Klux Klan, tirou qualquer viabilidade da organização se manter popular.

Mas uma enorme cruz em chamas foi vista pouco mais de dois meses após o final da guerra na encosta do Stone Montain, em Atlanta. Os homens de capuz branco estavam de volta à atividade, e escolheram a capital da Geórgia como sua nova sede.

O Herói do mundo real

Um jovem de trinta anos chamado Stetson Kennedy era natural de Atlanta, mas ao contrário de muitos de seus conterrâneos sulistas e seus antepassados, ele não concordava com o ideário racistas propagadas pela Klan, e se sentiu na obrigação de fazer algo para combater essa praga ao seu modo, escrevendo artigos para periódicos. Infelizmente, a KKK era apenas o braço armado e extremista de uma mentalidade arraigada na elite branca do Sul, e a retórica parecia ser insuficiente para combater a Klan.

Usando um nome falso e o fato de que um tio seu já havia sido um Klansman, Kennedy conseguiu entrar e se infiltrar no grupo local da Klan, logo se tornando parte dos Klavalheiros, que era a polícia secreta da organização. O que ele observou, de imediato, é que a maioria dos que faziam parte da Klan eram homens de pouca instrução e sem futuro profissional promissor. Logo ele se familiarizou com os rituais secretos e conheceu a identidade dos líderes locais. Na prática, a Klan agia apenas pelo fator intimidação, já que os linchamentos eram praticamente inexistentes, e os líderes usavam este poder para extorquir sindicatos locais, entre outras atividades criminosas envolvendo contrabando de armas e bebidas.

Com tais informações, Kennedy comunicou os delitos e as atividades da organização as autoridades, incluindo o procurador-geral e o governador, com detalhes que poderiam levar ao desbaratamento da organização e de suas atividades. Infelizmente nada surtiu maior efeito contra a KKK. Frustrado em seu intento, Kennedy resolveu pedir ajuda ao maior super-herói. Super-Homem iria usar seus músculos de aço contra a intolerância racial.

Chamem o Super-Homem

Mas antes que os leitores me acusem de ter bebido algo muito forte, vamos esclarecer. Kennedy percebeu que muito da força de uma organização secreta vem dos rituais e códigos cujo conhecimento era restrito aos iniciados. Muitos desses rituais observados por Kennedy eram até meio infantis.

Nessa época, o programa de rádio As Aventuras do Super-Homem era transmitido toda a noite, para deleite da garotada que acompanhava as aventuras do filho de Krypton. Kennedy resolveu usar este programa para levar a público os maiores segredos da KKK. Antes, Super-Homem já havia usado seus poderes contra Mussolini, Hitler e companhia. Os produtores do programa adoraram a ideia de Kennedy e, a partir das informações fornecidas, os roteiristas escreveram um mês inteiro de aventuras do Homem de Aço contra os homens de lençol branco. Veio à tona toda a estrutura e rituais dos Klans, e a crianças estavam brincando de Super-Homem contra KKK usando as mesmas palavras em código utilizadas pelos klansmem. Claro que os membros entraram em polvorosa quando viram seus rituais sagrados sendo usados como brincadeira de pirralhos. Senhas foram mudadas, e as novas foram imediatamente informadas aos roteiristas, que cuidaram de inseri-las nos programas seguintes. Ao final da aventura, é claro que Super-Homem prendeu e venceu seus inimigos.

E no mundo real os efeitos foram ainda mais devastadores. As reuniões seguintes tiveram presença próxima de zero, e ninguém mais se interessou em se vestir de capuz branco. Mesmo sem destruir a Klan em definitivo, a ação de Stetson Kennedy e a ajuda do Super-Homem foram o principal fator que impediram o ressurgimento da Klan no período pós-guerra.

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Quando Mundos Colidem (Parte 2)

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Conclusão do artigo sobre os filmes que Hollywood comete sobre a obra do inglês barbudo Alan Moore. Caso ainda não tenha lido a primeira parte, fique à vontade para fazê-lo
A mais recente produção baseada na obra de “Alan Moore é “Watchmen“, que foi lançada no cinema há cerca de um ano. E quem prestar atenção nos créditos de abertura, verá que só é mencionado o nome de Dave Gibbons, o desenhista. Mais uma vez Alan Moore fez questão de não ver seu nome associado a uma produção, não obstante ter sido esta obra de 1986 que consolidou seu nome entre os grandes roteiristas do gênero. Mas também foi praticamente seu último trabalho para a DC antes dele puxar o carro da editora, que ficou com o direito dos personagens por ele criado para a maxi-série em 12 partes que revolucionou os quadrinhos de super-heróis no meio dos anos 80. Desde o fim daquela década que boatos referentes a uma possível produção baseada na série circulam. O ex Monty Python Terry Gillian chegou a ter o projeto em mãos, mas reza a lenda que o próprio Alan Moore o convenceu que boa parte dos conceitos apresentados na revista não funcionariam no cinema. Os fãs sempre esperavam o pior de uma possível adaptação, com ótimas ideias se convertendo em bobagens hollywoodianas. Muitos anos depois, finalmente a produção caiu nas mãos do diretor Jack Snider.

Jack Snider é um caso à parte, já que ganhou um certo respaldo e respeito dos fãs dos quadrinhos após transpor o álbum “300 de Esparta”, do Frank Miller, no filme “300“. O que impressionou a muitos foi justamente que algumas cenas seguiram fielmente várias páginas dos quadrinhos, como se estes fossem storyboards da produção. Robert Rodriguez já fizera isso em Sin City. Só que ao contrário de Rodriguez, que se manteve fiel ao roteiro e às imagens, o que se percebe é que Snyder optou por reproduzir fielmente o visual dos quadrinhos de Frank Miller, porém não foi tão fiel ao roteiro, introduzindo pequenas mudanças que , na verdade, modificavam substancialmente o texto como um todo, além de inserir uma história totalmente nova envolvendo a rainha de Esparta e uma trama política nos bastidores. Resumindo, num primeiro olhar podemos até achar que a adaptação de Snyder é fiel, mas se observarmos os detalhes, dá pra perceber que aspectos muito importantes do texto original foram pervertidos, muito provavelmente para adequar a produção à alguma “receita de bolo” dos produtores.

E foi isso que aconteceu com “Watchmen“. Já no trailer ficou claro que muitas das cenas reproduziriam na tela as cenas desenhadas por Dave Gibbons, o que alegrou os fãs temerosos por mais uma bomba hollywoodiana baseada em Alan Moore. E quanto a isso não há sombra de dúvida de que muitas sequências antológicas foram transpostas para o filme, o que por si só já é um senhor mérito, provocando um frisson voyerista em qualquer um que já tenha lido e relido ad infinitum a maxi-série.

Mas as boas notícias param por aí. O que vou falar a seguir pode até parecer aquele papo nerd xiita de se exigir fidelidade absoluta aos detalhes da obra, e talvez até seja. Mas quando falo em detalhes não estou me referindo ao tom certo de verde para o Hulk ou o tamanho dos chifres na máscara do Demolidor. Por isso não vou reclamar da mudança dos uniformes, pois isso é perfumaria. Até gostei de algumas mudanças, como os uniformes da Silk Spectre. A original é uma tremenda referência visual às pinups, e o uniforme de sua filha Laurie ficou mais interessante, por assim dizer, agradando a qualquer tarado por mulheres em latex.

Como Moore previa, não dava para levar tudo para a tela, mas até aí tudo bem, é aceitável. Mas aí dou ponto a Snider, que na abertura do filme faz um resumo dos anos 30 até 1985, quando se passa a história, usando referências visuais excelentes e citando fatos que são mencionados ao longo dos quadrinhos de forma indireta.

Um dos pontos fracos, na minha subjetiva e sincera opinião, é a caracterização dos personagens e a interpretação dos atores. O Comediante e o Rorcharsch até que foram OK, apesar de poderem ter sido ainda melhor explorados. Porém senti falta uma Sally Jupiter sexualmente liberal quando jovem e uma senhora amarga “esperando a morte” em um asilo. Tampouco vi a personalidade forte e zangada de sua filha, Laurie, frustrada por ter que realizar as fantasias da mãe. O o Ozymandias, então? Nos quadrinhos Adrian Veidt era um senhor loiro de meia idade, com uma expressão carismática, natural liderança e presença marcante, mas carregando uma amargura e o peso dos seus atos. No filme se tornou um personagem distante e apático, com maneirismos quase afetados. Uma bichona, como diria Paulo Silvino. Tudo bem que Rorscharch insinua uma possível homossexualidade do personagem no gibi, mas daí a levar isso a sério é sacanagem. Em suma, faltou dar uma personalidade aos personagens, estavam quase todos apáticos. Culpa do elenco, do diretor, do roteiro? Não sei dos outros atores, mas a Carla Gugino sabe ser bem safada quando quer…

watchmen1.jpgE falando em roteiro, este é o principal calcanhar de aquiles do filme. O forte da obra é justamente a história, que explorou praticamente todas as possibilidades narrativas da mídia quadrinhos, com flashbacks, metalinguagem e metáforas visuais e narrativas excelentes, incluindo as citações, referências e diálogos, em sua maioria com sutileza que exige uma segunda leitura pra ser percebido. Obviamente não seria viável transpor TUDO para um filme, mas bem que poderiam manter a essência da obra. Personagens secundários acabaram se fundindo entre si, os aspectos-chaves da trama foram simplificados, os diálogos se tornaram menos brilhantes, e o que é pior, a sutileza foi pro saco, com inclusão de cenas com violência gráfica, algo que não existia tão explicitamente nos original. Não sei se subestimaram por demais o público, mas não deixaram muito espaço para a imaginação do espectador. Tudo bem que os produtores de Hollywood não costumam perder dinheiro ao nivelar por baixo a inteligência de seu público, mas acho que exageraram. Como exemplo posso invocar a cena que eu mais aguardava, o relato de Rorscharch ao psicólogo da prisão sobre o seu passado, principalmente o caso de sequestro da garotinha, que perdeu todo o clima. Claro que nos quadrinhos houve tempo para desenvolver uma tensão entre os personagens, mas o pior é que no filme o diretor queria deixar tudo bem claro, no melhor estilo “estou desenhando para você entender direitinho”, e onde haviam dois cães brigando por um osso – que se revelaria uma tíbia humana após um olhar mais atento – ficou uma perna de criança destroçada e ainda com o sapatinho na boca de dois pastores alemães. E nem vou comentar a diferença do modo como ele mata o assassino nos quadrinhos e no filme.

Esteticamente o filme agrada, mas como narrativa e caracterização dos personagens deixa a desejar, e muito, ao texto original. Talvez eu venha a mudar de opinião quando vir a assistir a versão integral do diretor, com cenas acrescentadas e os extras, como os “Contos do Cargueiro Negro”. Mas duvido muito.

A moda de adaptar histórias em quadrinhos para o cinema ainda está rendendo, e veremos muitos filmes deste gênero pelos próximos anos. Mesmo afastado da indústria de quadrinhos, ainda há algum material escrito por Moore que ainda não foi tocado pelos obtusos produtores do cinema, como “Tom Strong”, “Promethea” ou “Lost Girls”. Resta saber se algum dia teremos no cinema algo fiel à obra do mago inglês, ou se Hoolywood vai perceber que Moore lançou uma urucubaca das brabas pra qualquer filme baseado em sua obra dar com os burros n’água.

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Quando Mundos Colidem (Parte 1)

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A Relação Conflituosa entre Alan Moore e Hollywood
Quem já lê quadrinhos há muitos anos com certeza já teve em mãos alguma história escrita por Alan Moore, um dos mais respeitados e admirados escritores do gênero, o qual prescinde de maiores apresentações. Suas criações possuem fãs e seguidores, e já renderam milhões em verdinhas para as editoras que as publicam. Nada mais natural que tais histórias de sucesso fossem adaptados a outra mídia. Mas a Bruxa Velha de Northampton não é exatamente uma pessoa de personalidade fácil. Sua relação com as editoras pelas quais já passou nem sempre foi das mais agradáveis. E o assunto piora quando se trata de adaptar suas criações para as telas. Com filmes baseados em quadrinhos rendendo uma graninha boa, claro que os produtores do cinema viriam a querer levar algumas das ideias de Moore para uma grande produção. Mas o padrão blockbuster de qualidade, mais sintonizado com clichês e receitas de sucesso, dificilmente digeriria todas as propostas estéticas e narrativas das melhores histórias escritas por Moore. Daí que os filmes que se basearam em alguma das obras do inglês barbudo dificilmente fazem justiça ao original, na melhor hipótese, isso quando não resultam em uma bomba daquelas que nem Michael Bay conseguiria cometer. Por Moore, nenhuma de suas criações iria às telas para não perverter o conceito original. Infelizmente não depende dele, já que tais criações estão, em sua maioria, nas mãos das editoras para as quais ele trabalhou e escreveu. O máximo que ele pode fazer, nestes casos, é garantir que seu nome não estará associado a tais produções. E claro, falar mal o máximo possível, certamente fazendo algum vodu pesado quando algum desavisado resolve dirigir uma de suas histórias. Esta relação de (pouco) amor e (muito) ódio entre Hollywood e Alan Moore já rendeu produções sofríveis e alguns processos judiciais, além de úlceras nos fãs mais empedernidos, que certamente fazem coro às imprecações de Moore. É um estranho casamento, que apesar de não ter sexo, sempre alguém está se fodendo.
Eddie Campbell Alan Moore From Hell psychogeography.jpg do-inferno01.jpgRelembrando os lances desta relação tempestuosa, a primeira obra de Moore a ser levada ao cinema foi “Do Inferno”. Nesta série, Alan Moore reconta a história de Jack, o Estripador, se baseando nas teorias do historiador Stephen Knight, entre outras teorias, para dar sua versão do criminoso, cuja identidade é logo revelada no início da história. Mas Moore vai muito além de uma mera história policial nessa série em preto e branco desenhada por Eddie Campbell, explorando a psique de Jack sob várias óticas. O filme, produzido em 2001 e dirigido por Albert e Allen Hughes, em si, não é tão ruim. Se alguém que não leu a história original assistir a ele pode acabar gostando. Não chega a ser excelente, mas é um bom passatempo, e o personagem de Johnny Depp segura o filme, mas não passa de um suspense convencional com um romance mal resolvido no meio, e com uma certa dose de violência. Infelizmente a trama e os conceitos apresentados por Moore são solenemente ignorados no roteiro. E, obviamente, Moore não gostou nem um pouco. Mas ele nem imaginava em seus sonhos mais loucos o que o aguardava.
League-of-extraordinary-gen.jpg league-of-extraordinary-gentlemen.jpg“A Liga dos Cavaleiros Extraordinários” é uma das melhores coisas que surgiram nos quadrinhos dos anos 90. Alan Moore usou seu conhecimento da literatura fantástica e de aventura do século XIX e mesclou alguns dos personagens em uma espécie de “Liga da Justiça” vitoriana, que era liderada por Mina, a antiga amante de Drácula, e formada pelo Capitão Nemo, Allan Quaterman, Dr,Jeckill e o Homem Invisível. O resultado é uma história criativa, cheia de referências a personagens da literatura, bastante violenta, algo realçado pelo traço de Kevin O’Neil. Uma premissa muito interessante, uma história pronta para um filme inovador. E o que fizeram? A bomba “A Liga Extraordinária“, de 2003. Pra satisfazer o ego do Sean Connery, que fez Alan Quatermain, seu personagem passou a ser o protagonista e líder da equipe, além dos mais diversos pitacos que o velho 007 obrigou o diretor a engolir. Foram acrescentados outros personagens, como o imortal Dorian Gray e o aventureiro Tom Sawyer. O resultado é um filme com história fraca e roteiro ridículo, que fez algo que raramente ocorre: público e crítica concordarem. Concordarem que o filme é uma bosta. E para terminar de lascar, a produção foi processada pelo uso dos personagens Tom Sawyer e Dorian Gray, que não estavam em domínio público. E como o nome de Alan Moore estava nos créditos como escritor, ele acabou, mesmo que indiretamente, envolvido também. Daí em diante ele fez questão de não ver seu nome envolvido em mais produção alguma. Tanto que, nos filmes posteriores que se baseiam em obras de Alan Moore não levam seu nome como um dos escritores.
Vamos à próxima vítima. John Constantine foi uma criação do Moore quando este estava à frente do título “Monstro do Pântano”, no qual fez um excelente trabalho ao revitalizar um personagem do segundo time e a trazer de volta elementos de terror aos quadrinhos americanos. O personagem fez tanto sucesso que logo estaria em título próprio, “Hellblazer”, que é publicado até hoje pelo selo Vertigo, e já passou pelas mãos de outros bons escritores, como Garth Ennis e Warren Ellis. O cínico mago inglês, sempre de sobretudo e fumando cigarros Silk Cut, é um dos mais fascinantes anti-heróis dos quadrinhos. Em 2005 sai o filmconstantine.jpge com o personagem, sob o título “Constantine“. Os fãs se assustaram, mas pelos motivos errados. Aliás, a coisa já começou errada, hellblazer2.jpgpois Constantine, que é loiro e inglês , virou americano e moreno, e alguém achou uma ótima ideia usar o recém-saído do sucesso “Matrix” Keanu Reeves como protagonista. E, para variar, os produtores e roteiristas não aproveitaram muito mais do que o conceito do personagem. Mesmo usando elementos encontrados nos quadrinhos escritos por Jamie Delano e, principalmente, Garth Ennis, grande parte das melhores ideias, por sinal as mais ousadas e politicamente incorretas, foram simplificadas ou ignoradas. O resultado? Um filme de aventura com alguns elementos de terror, um “Sobrenatural” misturado à “Matrix”. Pode até agradar o público em geral, mas quem já conhecia o personagem deve ter tido ganas em explodir algum estúdio ao ver uma versão estagiário de macumbeiro do Chas, que de taxista brutalhão, praticamente um Hooligan, virou um rapaz franzino. Não deve ter agradado também Constantine se aventurando nos EUA, e não na sua versão sombria de Londres, e usando uma espingarda benzida para matar capetas. Mas o toque final foi o personagem deixar de fumar e passar a mascar chiclete. Tenha dó. Mesmo não se baseando nas histórias escritas por Moore, o personagem foi criado por ele, e este foi mais um bom motivo para o inglês querer distância ainda maior de Hollywood.
Mas Moore estava ocupado demais com outra produção para se preocupar com o que fizeram com Constantine, pois os irmãos Wachowski estavam produzindo “V de Vingança“, baseada na série que Moore escreveu ainda na Inglaterra, mostrando um futuro sombrio no qual o governo, após um av for vendetta mask.jpgto terrorista,vendetta.jpg assume o controle total do país, submetendo-o a uma ditadura de extrema direita, com clara inspiração em “1984“, de George Orwell. Antes mesmo do resultado ser exibido, a celeuma maior foi tentarem dar um “selo de aprovação Alan Moore” ao filme, o que seria uma façanha sem tamanho, pois os produtores afirmaram que o roteiro havia sido lido e aprovado por Alan Moore, que negou veementemente e ainda esculhambou com Deus e o mundo, exigindo que seu nome NÃO aparecesse nos créditos. No caso do roteiro, além de algumas omissões de personagens secundários, haviam pequenas e sutis mudanças na história, mas que acabaram tirando o verniz do texto original. Pois é, aquela mania de tentar suavizar personagens, de adaptar a história para o gosto do público em geral, sabem como é…Resultado? Um filme de ação bom, que aproveitou bem alguns elementos do original mas que estragou outros. Para quem assistiu e gostou, vale a pena ler a obra original para comparar. Mas o que poderia ser a suprema heresia ainda estava por vir.
(claro que este artigo continua...)

 

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Alguém Ainda Vigia os Vigilantes?

(publicado originalmente em 2007)

Entre setembro de 1986 e outubro de 1987, a DC lança a minissérie “Watchmen”, que acabou se tornando um clássico do gênero, e junto com outras obras como Cavalheiro das Trevas, redefiniu o gênero de super-heróis nos quadrinhos. Para se ter uma ideia de sua relevância e importância, ganhou diversos prêmios concedidos à indústria de quadrinhos, como o Kirby e o Eisner, além de ser a primeira obra em quadrinhos a receber o prêmio Hugo, destinado a obras de ficção científica, e estar incluído na lista dos 100 romances mais importantes do século XX elaborada pela revista Time.

Mas qual o segredo de uma história que, mesmo em um contexto tão diferente, consegue se manter ainda atual e com o mesmo impacto de quando lançado? Não há uma resposta fácil, e explorar todos os elementos dessa história não caberia nesse espaço. Mesmo assim, tentaremos explicar.
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Aranha, o Rei sem Coroa do Crime

Na minissérie “Albion”, escrita pelo maluco do Alan Moore junto com sua filha Leah, os heróis e vilões dos quadrinhos ingleses são revistos em uma história pós-moderna. A maioria deles é quase que ilustremente desconhecida para a maioria dos fãs brazucas. Mas um personagem em especial, o Sr. Chinard, me trouxe algumas lembranças longínquas,e com um certo esforço me lembrei de ter lido suas aventuras na infância, quando ele atendia pelo nome de guerra “O Aranha”, e se auto intitulava “O Rei sem Coroa do Crime”.

Na verdade li apenas duas de suas histórias, em ótimas ilustrações em preto e branco, ambas as histórias publicadas em uma única revista em formato almanaque lançada pela editora Kultus nos anos 70, editora esta que entrou para a história dos quadrinhos nacionais por ser a primeira a publicar as histórias da Vampirella por aqui. Mas só estas duas histórias já mostravam um personagem por demais interessante, pois antes de ser um herói certinho, ele seria um vilão, ou um anti-herói, na melhor das hipóteses, que costumava passar a polícia para trás, planejar maquiavelicamente seus passos, detonar seus oponentes sem dó e tratar seus subalternos como escravos, com equipamentos avançados à sua disposição e um ego maior que o castelo no qual residia.

Infelizmente nunca mais vi nada publicado deste personagem por aqui, tampouco voltei a ver a cor desta revista de novo. Mas é óbvio que o santo padroeiro dos curiosos está aí para nos dar uma forcinha. E eis um breve apanhado a respeito desta fascinante e tão pouco conhecida figura.

O Inimigo da Vizinhança

Antes que se pense que é se trata de um plágio do Homem-Aranha, não se preocupe que nem de longe os personagens têm muito em comum, a não ser o nome e a cidade onde atuam. Esse anti-herói inglês era inicialmente um criminoso megalomaníaco que tinha como maior objetivo se tornar o “rei sem coroa do crime”. Sua base é um castelo medieval transplantado para as proximidades de Nova York, sua área de atuação. Ele não tem poderes sobre-humanos, e sim uma mente brilhante entre suas orelhas pontudas, mente esta que concebera equipamentos e armas ultra-sofisticados, além de uma capacidade ímpar de hipnose. Seu traje é uma roupa escura e justa à prova de balas, além de um exoesqueleto que lhe confere habilidade e força sobre-humana, um foguete portátil às costas e uma pistola lançadora de teias, gás e bolas de fogo. Seu transporte é o Helicar, uma versão compacta de helicóptero com retrofoguetes. Como principais auxiliares ele conta com o cientista Pelham e o hábil ladrão Roy Ordini, que sofrem o diabo nas mãos de seu chefe. Apenas seu ego superava sua genialidade.

Como um perfeito anti-herói, o Aranha tratava seus subordinados com mão de ferro, inclusive apelando para castigos físicos se eles não seguissem suas ordens.  Suas pretensões criminosas o colocaram contra outros bandidos, e mesmo mal intencionado, ele acabou se tornando um involuntário combatente do crime ao eliminar seus rivais no submundo, como o Gênio do Crime ou o Dr. Mysterioso. Acabou deixando o crime e se tornou um mocinho, aliando-se ao grupo inglês de heróis, a Sociedade dos Heróis. O clima das histórias era pura ficção científica dos anos 60.

As histórias do Aranha foram publicadas na revista semanal inglesa “Lion”, da editora Fleetway, entre 1965 e 1969, e o personagem foi criado por Ted Cowan como parte dos esforços da editora em produzir material atualizado para competir com os heróis americanos da era de prata.  Quem viria a assumiras histórias d’O Aranha seria um dos criadores do Super-Homem, Jerry Siegel. Além das aparições semanais, o personagem apareceu nas revistas “Fleetway’s Super Library” e nos especiais anuais da “Lion”. Nos anos 70, muitos dos heróis e vilões publicados nos anos anteriores foram retomados na revista “Vulcan”, que reeditou algumas das histórias do aracnídeo não muito amigo da vizinhança. Além da Inglaterra, tais histórias foram republicadas em outros países da Europa, como Itália, França, Alemanha, Portugal e Espanha.

Após passar os anos 80 praticamente esquecido, o Aranha foi retomado em algumas histórias inglesas. Em 1992, ele faz uma aparição na revista 2000 A.D pelas mãos de Mark Millar, porém essa versão é execrada pelos fãs, pois o mostra como um canibal psicopata, bem ao estilo violento e iconoclasta de Millar. Uma versão que melhor agrada aos fãs apareceu no título “Jack Staff” em 2003. Ele é mostrado como um velho inimigo do personagem-título, que estaria recluso na Inglaterra sob o nome de Alfred Chinard e volta à ativa após ter seus equipamentos roubados. Na já citada “Albion”, de 2006, O Aranha é um personagem-chave da trama, onde heróis e vilões ingleses são mantidos reclusos durante as últimas décadas. Em 2006 foi lançado na Inglaterra uma edição em capa-dura reunindo quatro histórias do Aranha com o título “King Of Crooks”.

Por aqui no Brasil, até onde sei, saiu apenas uma edição em preto e branco com duas histórias completas do personagem, a qual mencionei no início deste texto. Uma delas foi “The Professor of Power”, publicada originalmente em 1967 na “Fleetway Super Library – Fantastic Series” numero 2. A outra foi “Crime Unlimited”,  da “Fleet Library”número 4, totalizando umas 240 páginas. Ao menos naqueles tempos não vi mais nenhuma edição além dessa. Infelizmente esta editora fechou as portas há muitos anos e há pouca informação sobre seu acervo.

Mais sobre o Aranha nesse site

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Planetary

É um mundo estranho, e eles fazem questão de mantê-lo assim.

Os anos 90 não foram muito bons para os quadrinhos de super-heróis americanos, pois se os desenhos se tornaram mais vistosos e dinâmicos, com cores vibrantes e poses ousadas, as histórias e os protagonistas dessa época não traziam nada de inovador, sendo em muitos casos apenas versões truculentas e anabolizadas de personagens antigos, com textos geralmente fracos e pouco originais. Parte da culpa dessa tendência foi a editora Image, criada por egressos das duas grandes editoras, Marvel e DC, e que na prática transformaram as revistas em portfólios de pin-ups, bonito aos olhos, mas em detrimento de uma boa história. Na pasmaceira criativa dos quadrinhos americanos na década de 90, o título “Planetary”, juntamente com “Authority”, trouxe ótimas histórias ao mercado americano. E o principal “culpado” disso é o escritor Warren Ellis, pois enquanto a série “Authority” foi resultado do trabalho de reestruturação que Ellis fez em um título obscuro da Image chamado “Stormwach”, “Planetary” foi algo inédito. Cronologicamente, os eventos de “Planetary” estão conectados ao universo do “Authority”, compartilhando alguns conceitos, como o de múltiplos universos interligados pela “sangra”.

O grupo Planetary se autodenomina “arqueólogos do impossível”, e é formado por três pessoas: Jakita Wagner, uma mulher dotada de força, resistência e velocidade sobre-humanas, além de um humor irascível; o Baterista, que tem o dom de interagir com qualquer sistema de informação, e Elijah Snow,  um senhor nascido em primeiro de janeiro de 1900, uma das “crianças do século”, que segundo a concepção de Warren Ellis, são pessoas superdotadas e não afetadas pelo envelhecimento, quase imortais, que seriam um “mecanismo de defesa” produzido pelo planeta Terra. Elijah pode diminuir a temperatura de objetos e elementos com o poder da mente, mas seu principal talento é o de coletar e registrar o conhecimento oculto do século XX. Todos os três trabalham para o “quarto homem”, que supostamente financia a Organização Planetary, organização essa que possui escritórios e empregados por toda a parte do mundo. Inclusive no Brasil, que aparece no número 24.

A Organização Planetary objetiva justamente descobrir os fatos e fenômenos ocultos da humanidade. Mas contra eles está o perigoso grupo conhecido como “os quatro”, composto por pessoas que adquiriram poderes após uma viagem espacial. Seu líder, Randall Dowling, é um brilhante e maquiavélico cientista, que se tornou capaz de esticar diversas partes de seu corpo. Sua companheira Kim Suskind adquiriu o poder de gerar campos de força e de se tornar invisível. Jacob Greene foi transmutado em uma criatura disforme e fisicamente forte, e Willian Leather consegue gerar e controlar chamas. Qualquer semelhança com o Quarteto Fantástico não é mera coincidência. Essa é só uma das inúmeras referências que Ellis deliberadamente insere em suas histórias. Esse quarteto maligno objetiva justamente o oposto que os heróis do Planetary: descobrir e ocultar de todas as formas todo e qualquer conhecimento ou tecnologia que ajude a raça humana a evoluir.

A primeira aparição dos “arqueólogos do impossível” se deu em setembro de 1998 no nº 23 da revista Gen13, e teriam título próprio meses depois, em abril de 1999, numa série bimestral. Cada número normalmente possui uma história fechada em si, mas que forma uma trama maior na série como um todo. Essa é outra virtude da série, que ao contrário de outras séries de quadrinhos e TV, não enrola o leitor com arcos quase intermináveis e jogando migalhas de informação de forma quase aleatória. Tanto que o autor originalmente concebera que a série não teria mais do que 24 números. Porém Ellis resolveu dar uma “esticada”, e a série passou a ser concebida com 27 números. Desde 1999 até outubro de 2009 foram lançados os 27 números, sem uma periodicidade muito regular, já que entre 2001 e 2003 a série não foi publicada. Mas todas sob a batuta de Ellis e com a pena de John Cassaday, que garantiu um ótimo nível a série. O número 26 praticamente conclui a história, e  o 27 é praticamente um epílogo, que resolve a única pendência que Elijah considera importante. A série saiu pelo selo Wildstorm, que atualmente faz parte do cast da DC Comics.

Além da série regular, o trio de arqueólogos apareceu em edições isoladas: um crossover com o Authority, outro com o Batman, onde Elijah e companhia confrontam diversas versões do Cavaleiro das Trevas, e um com a Liga da Justiça, onde o Planetary se torna o vilão da história à imagem e semelhança dos “quatro”, e versões do Batman, Super-Homem e Mulher-Maravilha é que precisam enfrentá-los. Essa última não tem qualquer relação com a cronologia oficial do grupo.

Um Poço de Referências

O grande trunfo da série é ser recheada de diversas referências a personagens do cinema, da literatura pulp, de ficção científica, dos quadrinhos e da vida real, algo tão magistral quanto o trabalho de Alan Moore na série “A Liga dos Cavalheiros Extraordinários”. A já citada versão maligna do Quarteto Fantástico é apenas uma das mais óbvias. Logo na primeira história, os três arrancam de um velho general a história de um brilhante cientista que, durante uma experiência, acidentalmente é transformado em um monstro. Isso deve lembrar aos leitores de quadrinhos um certo gigante esmeralda.

Já o primeiro número apresenta a versão de Ellis para diversos personagens da literatura Pulp americana, como Doc Savage, Fu Manchu, Spider e Tarzan. No número 2 faz menção aos monstros do cinema japonês da produtora Toho, como Godzilla, Gidorah e Mothra. O terceiro número é uma aventura em Hong Kong em busca de um espectro vingativo de um policial traído, que lembra os filmes de ação daquele país, principalmente os do diretor John Woo com o ator Chow Yun-Fat. No quarto surge o personagem Jim Wilder, que é transformado em um poderoso ser que lembra o Capitão Marvel da Fawcett Comics. Já os “Quatro” surgem no número 6. O número 7 é protagonizado por um mago claramente inspirado em John Constantine, e mostra praticamente todos os elementos das histórias da chamada “invasão britânica” que ocorreu nos quadrinhos americanos na segunda metade dos anos 80, como o Monstro do Pântano e Sandman, por exemplo. O número 8 lembra os filmes de ficção científica dos anos 50, protagonizado por uma jovem inspirada no visual de Marilyn Monroe. O 10 mostra três seres similares ao Super-Homem, Mulher-Maravilha e Lanterna Verde. Na edição 11 somos apresentados ao espião John Stone, uma mistura de James Bond com Nick Fury…

E por aí vai. Outros personagens aparecem como eles mesmos, como, por exemplo, o detetive Sherlock Holmes, que parece fazer parte de uma espécie de “Liga Extraordinária” ao lado do Drácula e outros personagens da literatura fantástica do século XIX, e se torna o mentor do jovem Elijah Snow. O autor de contos de terror H.P.Lovecraft também dá as caras em um crossover do Authority e Planetary. Mas não vamos entregar tudo de bandeja, para não privá-lo da diversão. Mas além das referências à cultura pop, Ellis é ótimo para compor diálogos e personagens. O que sai da boca deles é carregado de ironia e humor. E os conceitos apresentados nas histórias são criativos e ousados, misturando teorias científicas, misticismo e esoterismo.

Planetary no Brasil

No Brasil, os primeiros números de “Planetary” saíram junto com os primeiros números de “Authority” pela editora Pandora Books, que publicou cinco revistas em idos de 2002. A Devir lançou dois encadernados – “Mundo Estranho” e “O Quarto Homem” – reunindo os doze primeiros números da série. A editora Pixel publicou algumas histórias do “Planetary” na revista mensal Pixel Magazine, partindo do número 13. Mas para quem não tem nenhuma paciência para a instabilidade editorial do mercado brasileiro, é só dar um pulinho no fórum do FARRA e seus problemas estarão devidamente sanados.

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O Namoro Conceitual Entre Cinema e Quadrinhos

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Alguns instantâneos desse troca-troca de idéias

Nota: Este texto foi mais um dos que publiquei nos tempos do Busilis, para participar do Carnaval de Quadrinhos das Quartas, cujo tema era cienma e quadrinhos. Ao invés de falarmos sobre uma adaptação específica, resolvemos abordar, de um modo geral, o uso da linguagem dos quadrinhos no cinema.

O flerte entre artes é algo comum, principalmente entre cinema e outras artes. Com o advento do cinema foi pura questão de tempo para que clássicos da literatura universal fossem levados às telas, e até hoje livros clássicos ou best-sellers do momento são transpostos à tela grande. Com quadrinhos a relação poderia ser até mais íntima, já que ambas utilizam essencialmente uma linguagem visual. Não obstante, mesmo sendo duas artes que nasceram praticamente ao mesmo tempo (fins do século XIX) e com o aspecto visual em comum, nem sempre se considerou a relação entre ambas como algo legítimo ou com status digno de arte, já que nos EUA em questão de décadas o cinema se tornou lucrativo e respeitável, bem antes dos quadrinhos. Estes demoraram bem mais a ganhar reconhecimento na terra do Tio Sam, apesar de serem uma fonte de lucro desde seus primeiros anos. Mesmo que nos anos 40 vários personagens de quadrinhos e pulps tenham sido levados às telas em formato de seriados, isso estava longe de ser algo considerado “artístico” realmente. Pelo contrário, quase ninguém via algo além do que diversão barata e descartável nas comics. Na verdade, a relação cinema-quadrinhos tinha um quê de clandestino, como um encontro entre amantes às escondidas num motel barato. E isso piorou quando, nos anos 50, os quadrinhos americanos sofreram perseguição e censura sob a alegação de que influenciavam negativamente os jovens.

Mas como levar a sério uma arte conhecida como “comics”? Pelo menos isso não foi problema em outros países, onde os quadrinhos tinham outro nome que não remetia a algo pouco sério. Na Europa, nos anos 60, os quadrinhos já começaram a ser direcionados a um público mais maduro e se tornar uma arte mais séria. E antes dos “comics” americanos ganharem seriedade sob o nome “Graphic Novel”, outros cineastas estrangeiros assumiam sua relação com a chamada nona arte. Para citar dois ícones do cinema, Akira Kurosawa e Frederico Felini conheciam os quadrinhos e sua linguagem característica, e ambos usavam o recurso de storyboard, que é o desenho em sequencia das cenas a serem filmadas. Aliás, consta que os dois diretores desenhavam os próprios storyboards. Fellini em especial era confesso admirador dos quadrinhos. Uma de suas aspirações era transpor o personagem Mandrake, de Lee Falk, para as telas. Mesmo não sendo possível, Fellini deu seu jeito, transformando Marcelo Mastroiani em Mandrake durante uma cena do filme “Entrevista”. Outra de suas frustrações também rendeu outra bela obra: “Viagem a Turim”, o álbum belamente desenhado por Milo Manara, é baseado em um roteiro não filmado de Fellini, tendo ele e Mastroiani como personagens da história.

Um Círculo Virtuoso

Sabemos que nos States os quadrinhos começaram a ser levados a sério realmente em fins dos anos 70 e no decorrer da década de 80. Antes disso um dos únicos artistas que via o potencial dos quadrinhos praticamente desde seu nascimento, Will Eisner, procurava transcender o lugar-comum do gênero. Uma de suas obras-primas, “Spirit”, já era uma aplicação da linguagem do cinema nos quadrinhos, já que os enquadramentos, closes e seqüências que Eisner usou nessa e em outras obras são realmente cinematográficas. O próprio personagem, mesmo sendo um herói mascarado, estava mais para um Phillip Marlowe do que para o Super-Homem ou Batman, sendo inspirado nos filmes Noir que surgiram nos anos 30 e 40, por sua vez adaptados dos livros policiais de Dashiel Hammet e Raymond Chandler. Por tabela, a arte de Eisner influenciaria muitos desenhistas, e um seguidor do estilo de Eisner é Frank Miller, que desenhou e escreveu “Batman – O cavaleiro das Trevas”, um divisor de águas do gênero. Miller utilizou como recurso narrativo usar a TV e programas jornalísticos dentro da história como contraponto narrativo, complementando a trama, algo que já era visto na série “American Flagg!”. Tal recurso foi utilizado por Paul Verhoeven em “Robocop”, de 1987. Tanto que Frank Miller foi convidado para ser roteiristas das duas seqüências do filme. Infelizmente o resultado não foi tão bom quanto uma boa história de Miller, já que seu roteiro não foi integralmente aceito, sendo modificado e mutilado, e isso afastou Frank Miller de Hollywood quase que em definitivo.

Escaldado das sandices de Hollywood, Frank Miller dificilmente se envolveria no projeto de um outro filme. Mas o comparsa de Quentin Tarantino, Robert Rodriguez, estava decidido a levar a série Sin City, também inspirada no cinema Noir, da maneira mais fiel possível, e estava decidido a enfiar Miller no projeto de todo jeito. Mas para convencê-lo, Rodriguez teve que filmar uma sequencia de cenas e mostrar a Frank, que gostou tanto que acabou se tornando co-diretor do filme que adaptou quatro histórias da série em quadrinhos. “Sin City- A Cidade do Pecado” é um marco na relação cinema-quadrinhos, pois é a mais fiel adaptação já levada às telas. Não só fiel à história, mas o que se vê na tela é uma transposição literal do que se vê nos quadrinhos.

Com o sucesso de “Sin City”, outro trabalho de Miller sofreu o mesmo tratamento para ser transposto “ipsis literis” para a tela. Em “300″, a maioria das cenas foram levadas como estavam nos quadrinhos, com a fotografia lembrando os tons pastéis das aquarelas de Lynn Varley. A história foi um pouco alterada pelo diretor Jack Snyder, não a deixando tão literal quanto “Sin City”, mas o resultado em termos de transposição é quase o mesmo. E com Miller de volta aos cinemas, o ciclo iniciado com Will Eisner se fechou, de certa forma, pois Frank Miller adaptou o personagem “Spirit” para um longa-metragem lançado no inicio de 2009.

A propósito, para finalizar essa referência ao mestre Eisner, o cinema nacional já lhe rendeu uma bela homenagem no filme “Cidade Oculta”, de 1986, que mesmo com nossos recursos limitados, é claramente inspirado no universo de personagens de “Spirit”.

A Vingança dos Nerds


mallrats.jpgNo decorrer da década de 80 e 90, diretores que assumidamente liam e entendiam de quadrinhos e cultura pop em geral foram aos poucos “saindo do armário”. Anos antes do “boom” das adaptações cinematográficas dos quadrinhos, o diretor Sam Raimi fez a melhor adaptação de um personagem de quadrinhos até então: “Darkman – Vingança sem Rosto”. O detalhe é que esse personagem não existia nos quadrinhos, mas a linguagem adotada e o personagem eram comics puro, e nesse filme ele mostrou o quão viável era transpor a linguagem das HQ´s para as telas. Tanto que, muitos anos depois, Sam Raimi se tornaria diretor da franquia baseada em quadrinhos mais bem-sucedida dos anos recentes: o Homem-Aranha.

Outro diretor “nerd” é Kevin Smith seguiu um caminho inverso ao de Frank Miller, começando a escrever para o cinema para depois ir aos quadrinhos. O ex-balconista já escreveu diversos filmes, como “O Balconista”, “Procura-se Amy”, “Barrados no Shopping”, “Dogma” e “O Império do Besteirol Contra-Ataca”. Grande conhecedor de cultura pop, Kevin usa e abusa de citações a esta cultura, incluindo os quadrinhos. Tanto que dois dos personagens que aparecem com freqüência em seus filmes é uma dupla de criadores de comics, vividos por Ben Afleck e Jason Lee. Há até a aparição do próprio Stan Lee em “Barrados no Shopping”. Essa bagagem lhe credenciou a escrever um roteiro para um filme do Super-Homem, baseado nas sagas “A Morte do Super-Homem” e “O Retorno do Super-Homem” em 1997. Caso as ideias de Kevin realmente se realizassem, o resultado seria um senhor filme baseado em quadrinhos. Mas o diretor Tim Burton e os produtores tentaram mutilar o roteiro e descaracterizar tanto o personagem que, por obra e graça divina, o projeto nunca saiu do papel. Depois Kevin Smith escreveria alguns roteiros de quadrinhos, como a série “Demolidor” e uma minissérie do Homem-Aranha e Gata Negra.

Quentin Tarantino, que surgiu no meio dos anos 90 como grande promessa criativa do cinema americano, é outro diretor que adora citar a cultura pop em seus trabalhos, abrangendo desde música até filmes de ação dos anos 70, passando, obviamente, por quadrinhos. Um de seus primeiros roteiros, que resultou no filme “Amor à Queima-Roupa”, tem como personagem um balconista de comic shop que se envolve com uma prostituta e se envolve em uma violenta jornada, lembrando bastante os quadrinhos de “Torpedo”. Seu pitaco (não creditado) no roteiro de “Maré Vermelha” enfiou o inusitado diálogo de dois marinheiros do submarino USS Alabama brigando pra decidir qual Surfista Prateado seria o melhor, o desenhado por Moebius ou o original de Jack Kirby. Mas sua maior influência dos quadrinhos é vista em “Kill Bill”, cujas cenas remetem à violentos mangás e animes, além dos filmes de artes marciais de Honk-Kong.

Outro grande exemplo de filme influenciado por quadrinhos é o desenho em CGI da Pixar, “Os Incríveis”. Mesmo não adaptando nenhum personagem existente em comics (apenas se inspirando no Quarteto Fantástico), o longa é uma grande homenagem aos super-heróis dos quadrinhos, usando e parodiando os clichês e situações, e aborda um tema que já é comum nos quadrinhos: o medo da população aos super-poderosos e a necessidade de controlá-los ou registrá-los, algo visto sob vários enfoques em obras como “Watchmen”, “Batman – O Cavaleiro das Trevas” e mais recentemente na saga da Marvel “Guerra Civil”. É hilária as observações da estilista de uniformes, Edna Moda, ao desaconselhar o uso de capas nos trajes dos super-heróis.

M.Night Shyamalian, após o sucesso de “O Sexto Sentido”, escreveu e dirigiu “Corpo Fechado” em 2000, que nada mais é do que a transposição da clássica história de super-herói mas com uma linguagem e abordagem mais dramática. Está tudo lá: a descoberta casual dos poderes, a tragédia pessoal do herói e até o arqui vilão, só que de uma forma que foge aos padrões quadrinísiticos. Mesmo não sendo tão bem compreendido pelo público não iniciado nos quadrinhos, não deixa de ser um exercício criativo interessante. Uma série de sucesso que segue essa fórmula é “Heroes”, que atualmente está em sua quarta temporada.

E hoje, com tanta adaptação sendo levadas às telas do cinema, a linguagem dos quadrinhos está se tornando mais popular, conhecida e utilizada, e a relação cinema-quadrinhos está abençoada e santificada, de papel passado e legitimada. Com uma geração de diretores e roteiristas que realmente curte e entende de quadrinhos, bem como de roteiristas e desenhistas que conhecem e eventualmente se inspiram no cinema, ambos podem entrar pela porta da frente sem precisar para encontros mais clandestinos.



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