Biscoitos Sonoros
O som-ambiente que anima e inspira essa blodega. Sugestões musicais para massagear os ouvidos
Elis Hurricane

A biografia de Elis Regina em nova versão aditivada
Nota do Blodegueiro: Aos 30 anos da morte da Elis Regina, republico este texto do velho Busilis quando foi reeditada sua biografia pela Ediouro há 5 anos como pequena homenagem a cantora dos bêbados e equilibristas. Como nesse mundo há mais bêbados do que equilibristas, curtam com moderação. E lembrem-se: Cinzano mata!
Elis Regina Carvalho Costa. Uma baixinha gaúcha meio estrábica, com uma voz poderosa e uma personalidade idem, que iniciou uma carreira promissora cantando baladas e rocks despretensiosos no seu primeiro disco, “Viva a Brotolândia”, após anos se apresentando em rádios gaúchas como talento prodígio. Sua voz e atitude no palco a levaram a chegar ao Rio em pleno golpe militar. E seu golpe foi ajudar a enterrar o então agonizante movimento da Bossa Nova, um estilo que a esnobou e que ela também não simpatizava. Chegou ao estrelato nos antigos festivais de música popular, pilotou um programa de TV e chegou a ser a cantora mais bem paga do país. Elis poderia ser uma cantora das multidões, mas preferiu aperfeiçoar sua arte e se identificou e se aproximou da nata cultural do país, sendo apontada como elitista. E, de certa forma, ela era, já que seus espetáculos e shows estavam longe de serem populares, shows estes mais voltados a um público sofisticado. Em vida seus discos não vendiam tanto, se comparados a outros artistas com maior penetração popular.
Como pessoa, era uma figura controversa, de personalidade contraditória, pois em poucos minutos poderia dizer exatamente o contrário do que afirmara antes, e vivia uma relação de amor e ódio com seus amores e amigos, e seu relacionamento com a família passava por altos e baixos, até praticamente romper com os pais. De origem humilde, com hábitos simples e sem herdar uma grande cultura, Elis tinha uma forte necessidade de se auto-afirmar no meio artístico onde de repente se viu lançada. A relação entre ela e seu primeiro marido, o músico e produtor Ronaldo Bôscoli, era o clássico exemplo de viver entre tapas e beijos, já que ambos tinham forte personalidade. Até com seu segundo marido, o pianista Wagner Tiso, bem mais tranquilo que Bôscoli, a relação foi tumultuada. Ou seja, como toda mulher baixinha, era braba pra cacete.
Mas sua voz e interpretação prestaram um enorme serviço à música brasileira. A sua pungente interpretação de “Atrás da Porta”, de Chico Buarque, é um dos grandes momentos de nossa música. Morreu aos 37 anos incompletos, por ingerir uma mistura de cocaína e Cinzano, no dia 19 de janeiro de 1982, em um episódio que ainda provoca polêmica entre seus amigos e parentes e do qual até hoje o seu namorado a época, Samuel McDowell, não gosta de comentar. Tanto que no especial “Por Toda a Minha Vida”, veiculado pela Rede Globo no final de 2006 e que dramatizava a biografia de Elis, a causa da morte sequer é mencionada. Seu funeral causou uma comoção pouco vista até então, mostrando uma popularidade que surpreendeu a muitos. Foi alçada a condição de maior cantora do Brasil, um posto do qual dificilmente será tomado. Sua filha com César Camargo Mariano, Maria Rita, hoje vive uma carreira promissora como cantora, mas procura uma identidade própria fora da sombra de sua mãe. Um senhor desafio, diga-se de passagem
Mesmo com tantos elementos dignos de uma tragédia grega, a história de Elis nunca foi levada ao cinema, e só posta no papel em uma única biografia, escrita pela jornalista e amiga Regina Echeverria e lançada poucos anos após sua morte.
O livro “Furacão Elis” é, basicamente, a transcrição quase literal dos depoimentos de parentes e amigos de Elis, reunidos pela jornalista e organizados em ordem cronológica. Mas se comparada a outras biografias de outros personagens da música, o livro de Regina carecia de algumas informações, deixando lacunas em momentos relevantes da vida da cantora, que certamente interessaria aos fãs, como a época em que Elis apresentava o programa “O Fino da Bossa” ao lado de Jair Rodrigues. No livro “Noites Tropicais”, de Nelson Motta, o autor descreve muito melhor essa época da vida de Elis. Inclusive o produtor Nelson Motta foi amante de Elis na fase final do casamento dela com Bôscoli, e seu depoimento está no livro de Echeverria. Talvez pelo relativo pequeno número de entrevistados, e principalmente por algumas ausências, a mais sentida sendo a de Jair Rodrigues, que foi colega de palco e amigo de Elis, que o livro poderia ser considerado incompleto.
Mas essas lacunas foram parcialmente preenchidas na nova edição da biografia de Elis. Lançada em 2006, quando se fez 25 anos da morte da cantora, essa nova edição vem em um formato maior que a original, e traz mais fotos. Como o livro estava fora de catálogo há alguns anos, a autora resolveu relançar sua obra, dessa vez pela Ediouro, e acrescentou novos depoimentos ao texto original, como o do já citado Jair Rodrigues e o de Fernando Faro, responsável pela direção do último espetáculo de Elis, “Trem Azul”. O lançamento é oportuno para os novos leitores que quiserem conhecer a vida dessa cantora, cuja obra ainda é referência da música brasileira.
Pais e Filhas

A Geração Y bebendo dos ensinamentos da geração Coca-Cola
Depois de muito ser acusado de levar meus afilhados para o lado Nerd da força, resolvi testar minha própria filha com algo não pertencente ao grupo juvenil. Já que ela maneja um tablet como se fosse algo mais normal do mundo, e usa a internet como fosse uma tevê, tentá-la com mais tecnologia não provaria muita coisa. Por isso decidir experimentar apresentá-la a música de nossa época.
Este mês fez 15 anos da morte de um dos ícones do rock brasileiro de todos os tempos, o Renato Russo que junto com o grupo Legião Urbana trouxeram aos nossos ouvidos muitas maravilhas musicais.
Hoje comprei o primeiro exemplar da coleção LEGIAO URBANA com quinze volumes, desde o primeiro disco em 1985 até o CD “Uma Outra Estação” de 1996 passando por CD duplos, ao vivo e o acústico da MTV, lançado pela editora Abril. Coisa de fã mesmo. Comprar CD nos tempos de hoje.
Por um capricho do destino, hoje não houve aula para minha filha e eu passei o dia com ela. Ao voltar do almoço pus o CD da Legião pra tocar. A primeira música, “Será”, já me fez ir ao passado. A música é bem conhecida, mas qual não é? Estava ouvindo esta música e imaginando que para minha filha, nascida quase 20 anos depois do lançamento do álbum seria um tédio, já que não era a Kelly Key ou o Justin Bieber cantando. Realmente ela não se manifestou muito a respeito da música, e sinceramente estava agradecido por isso, pois ela poderia pedir para fazer, ou ouvir, outra coisa.
Qual não foi minha surpresa ao ouvi-la cantarolando “Geração Coca-Cola”? Correndo o risco de subestimá-la, eu não esperava que ela entendesse a acidez da letra e seu significado como um todo, e isso se comprovou quando ela, para minha alegria de pai, começou a indagar os significados das passagens e principalmente do refrão, que claro foi o que a cativou primeiro, por ser fácil de aprender, mas difícil de interpretar para alguém de sua idade e época.
Enfim, ouvimos a mesma música mais de seis vezes e ainda mostrei pra ela uma versão ao vivo do Renato cantando-a em sua versão mais lenta, antes de ser gravada como conhecemos. Desde sempre acusaram a Legião de músicas simples, como se fosse um defeito. Mas não seria isso que atraia a principio tanta atenção? Vou deixar que pensem no que mais gostam, se for possível decidir, da Legião enquanto vou escutar “As Quatro Estações” com minha filha.
Por um Punhado de Latinhas

Nota do Blodegueiro:Semana passada tive um estranho sonho cujos pormenores são muito lisérgicos pra relatar, mas em uma parte dele me vi em uma loja diante de uma edição especial de CD do Celso Blues Boy com capa de couro e outras cositas. No sonho acabei não comprando porque custava mais de setenta pratas – até em sonho continuo sovina – mas serviu para resgatar a lembrança do artista e um texto inconcluso na minha pasta de pendências. E qual a minha surpresa ao pesquisar no dia seguinte e descobrir que, após um longo hiato de doze anos, há um disco novo dele na praça, intitulado “Por Um Monte de Cerveja”. Regozijado pela novidade e pela intervenção divina de algum santo da Igreja de Eric Clapton que me “avisou” desse retorno, e aproveito para finalmente apresentar aos frequentadores dessa Blodega aquele que é considerado o pai do Blues com sotaque brasileiro.
No meio daquela orgia musical do Rock Nacional da primeira metade dos anos 80, quando alguma banda nova, normalmente influenciada pelo Punk ou pelo New Wave, era lançada ao sucesso a cada semana graças a algum clipe tosco exibido no “Fantástico” ou pagando jabá no “Cassino do Chacrinha”, o Blues até que tentou – e conseguiu – um lugar ao sol no Hit Parade brazuca, nem que fosse através de seu filho bastardo mais famoso, o Rock’n’Roll. E quem deu nosso sotaque a este Rock com cheiro de Blues Elétrico foi o guitarrista carioca Celso Blues Boy, cujo nome artístico é uma homenagem à B.B King, seu ídolo confesso e com quem já tocou.
Na estrada desde os anos 70 acompanhando artistas conhecidos como Raul Seixas, Sá & Guarabira e Luiz Melodia, Celso foi guitarrista nas bandas Legião Estrangeira e Aero Blues antes de ter a chance de lançar seu primeiro álbum por uma grande gravadora em 1984, “Som na Guitarra”, cuja faixa “Aumenta que Isso Aí é Rock’n’Roll” se tornou um sucesso naqueles tempos. Outras músicas desse disco se tornariam conhecidas e constantes em seu repertório: ”Blues Motel”, “Fumando na Escuridão”, “Tempos Difíceis” e “Brilho da Noite”. No decorrer dos anos 80 outras músicas de sua discografia se tornariam conhecidas do grande público de então: “Marginal”, “Damas da Noite” e “Sempre Brilhará”.
No início dos anos 90, grava seu primeiro disco ao vivo, porém o mercado fonográfico dessa década não é nada generoso com o velho rock brazuca, que é relegado às prateleiras empoeiradas para dar espaço à música sertaneja e ao axé music. Mesmo em um cenário pouco favorável lança os álbuns “Indiana Blues”, “Nuvens Negras Choram” e “Vagabundo Errante”, que contém poucas inéditas misturadas a regravações de seus sucessos com outros arranjos e alguns covers. Meu disco preferido é exatamente o “Nuvens Negras Choram”. Nesse disco, Celso soa mais gutural em sua voz, e a execução das músicas está excelente. Além de ótimas inéditas, como a música que dá título ao disco e “Sucata”, há uma revisita mais lenta, melódica e – por que não dizer – melhor a duas de suas mais conhecidas músicas, “Brilho da Noite” e “Fumando na Escuridão”, além de dois covers, um de “Bring it on Home to Me” e o outro do clássico de Cartola, “As Rosas Não Falam”, que ficou excelente nesse formato. No geral, este disco é menos festivo e mais melancólico e melódico, se comparado aos de sua discografia da década anterior.
Durante os anos 2000, o guitarrista não lançou nenhum disco de estúdio e se estabeleceu em Santa Catarina, afastando-se das gravadoras, porém mantendo uma agenda de apresentações. Ainda gravaria um CD e seu primeiro DVD ao vivo em 2008, “Quem Foi que Falou que Acabou o Rock’n’Roll”, provando que dinossauro que anda ainda faz o chão tremer.
Vivendo em Joinville nestes últimos anos, ele pode se dedicar a compor e criar novos arranjos sem a urgência de gravar e lançar novos trabalhos. Pelas informações dos releases e entrevistas concedidas, Blues Boy explica este longo hiato como uma maneira de tentar recuperar o frescor da época de lançamento de seu primeiro álbum, fugindo das pressões oriundas das gravadoras e do cenário artístico carioca, que por vezes o fazia entrar em estúdio meio que a contragosto.
Todavia, Blues Boy “culpa” o vocalista Tico Santa Cruz, da banda Detonautas, por arrancá-lo desse exílio auto-imposto, pois em um encontro casual, o jovem roqueiro e fã confesso do trabalho de Celso o convenceu a voltar a gravar, usando sua banda como apoio, e cujo resultado é o CD “Por um Monte de Cerveja”, lançado há algumas semanas, sendo seu primeiro trabalho em estúdio após longos 12 anos.
O resultado é um disco bem-humorado e contagiante, com letras por vezes irônicas ou melancólicas, acrescidos de ótimos solos de guitarra, e corre o risco de tomar o lugar de “Nuvens Negras Choram” como meu preferido. A música-título, onde predomina o piano na introdução, é forte candidato a se tornar o hino oficial de muito conhecido meu. Há ironia de sobra em “Odeio Rock’n’Roll” e “A Vida Faz Mal à Saúde”, e uma gozação misturada com homenagem na divertida “Beth Carvalho Quer Comprar o meu Fuscão”, cuja letra faz referência a música “Coisinha do Pai”. Há tons mais tristes e uma gaita que remete a Neil Young em “Ele Sabia que as Luzes se Apagam”, uma levada Country em “Toneladas de Solidão” e uma homenagem nostálgica a cidade de Blumenau, onde foi criado, em “Conversando com Horácio Braun”. Ainda estou digerindo as 13 faixas, mas posso garantir que gostei bastante, já que o escuto ad nauseaum há dias e não consegui enjoar. Au contraire. E para quem quiser apreciar sem moderação, no site oficial as faixas do álbum estão disponíveis para ouvir on-line, e abaixo deixo para ouvirem “Por Um Monte de Cerveja”, que aconselho ouvir regado com sua cerveja preferida. Com sorte, seu vizinho gritará “Aumenta que isso aí é Rock’n'Roll, porra!”
Eric Clapton: Back (in your) Home

Dicas de excelentes DVD’s ao vivo do deus da guitarra
Após 10 anos desde sua última passagem pelo Brasil, o guitarrista inglês Eric Clapton vai arrastar sua carcaça veterana novamente por terras Tupiniquins nas próximas semanas. E como de costume quando grandes nomes da música pop aportam por aqui, o valor dos ingressos é de deixar preocupada a vida de qualquer fã, por mais que ele prometa não se preocupar mais na vida algum dia
Mas você não precisa negociar sua alma em uma encruzilhada com Robert Johnson para apreciar as músicas de Eric Clapton ao vivo. Caso você não tenha tempo ou grana para prestigiar aquele que muitos chamam de deus, não fique triste nem se zangue com o que vou lhe sugerir: assistir entre as diversas opções de shows ao vivo registradas em DVD. Com sorte, quem sabe você acaba se instigando e dando um jeito de ir vê-lo ao vivo e a cores.
E justamente por conta de sua iminente vinda, percebi nas últimas semanas uma maior oferta de títulos com Eric Clapton no título. Claro que há muita coisa oportunista e cuja qualidade não faz jus ao artista, com DVD´s com mero som Stereo e imagem de menor qualidade. Para garantir que sua grana – ou sua conexão de Internet – sejam bem empregadas, eis-me aqui com três dicas de DVD´s de apresentações ao vivo.
24 Nights
Esse é antigo e relativamente fácil de encontrar, inclusive em lojas de departamentos, e a preço bem convidativo. Justamente por ser um registro antigo, o som é apenas Stereo 2.0, e a qualidade da imagem (com aspecto 4×3) não é tão boa se comparada as mais recentes. Não obstante estas limitações técnicas, este DVD se destaca de outros registros mais antigos lançados em mídia digital, sendo seu primeiro álbum ao vivo desde 1980, e que abrange tanto sua faceta roqueira quanto a de bluesman. Produzida no início dos anos 90, a gravação contempla as apresentações de Clapton no Royal Albert Hall, em Londres. Durante as diversas noites que lá tocou, o músico foi acompanhado por 4 formações diferentes de músicos. Dessas formações, três foram bandas, denominadas “4 pieces”, “blues” e “9 pieces”, respectivamente. O quarto acompanhamento foi a National Philarmonic Orchestra regida pelo maestro Michael Kamen. Phil Collins aparece em algumas faixas ajudando na percussão. Também disponível em Cd Duplo.
One More Car, One More Rider
Coincidentemente esta foi a última turnê de Clapton que passou no Brasil, cujas músicas são uma mistura de sucessos antigos e do então lançado CD “Reptile”, cuja música-título é meio que uma homenagem a João Gilberto, e à época Clapton declarou sua admiração pelo trabalho do artista brasileiro.
E falando em “Reptile”, ele merece um breve parêntesis. Este disco, lançado no início dos anos 2000, na minha modesta opinião foi um retorno à qualidade meio perdida nos lançamentos dos anos anteriores, nos quais Eric chegou a flertar hereticamente até com a música eletrônica no disco “Pilgrim”. Há músicas com levada blues e rock, bem como baladas mela-cueca. O disco inteiro tem canções legais, com aquelas letras simples e sem muitas firulas. ”Got You On My Mind”, “Superman Inside” e a minha preferida “Broken Down” são músicas que não cansei de ouvir até hoje. Há até um excelente cover de James Taylor, “Dont’t Let me Be Lonely Tonight”. Está entre os meus preferidos, ao lado do velho “Slowhand” e do excelente e mais recente trabalho “The Road to Escondido”.
Mas voltemos ao DVD, que registra a turnê mundial de “Reptile”, que seria a última de Clapton conforme ele declarara. E como sabemos, ele não cumpriu sua promessa, para satisfação dos seus acólitos. Infelizmente não tem “Broken Down”, porém as mais de duas horas de música compensam, incluindo as clássicas de sua carreira – sem trocadilhos, please – como “Cocaine”, “Wonderfull Tonight”, “Tears in Heaven” e “Layla”, com uma banda excelente.
E falando em “Layla”, após esta faixa a banda some do palco sem maiores explicações e retorna logo depois para tocar as últimas faixas. Minha esposa costuma fazer pilhéria com este fato, comentando que Eric e a banda vão tomar algum “estimulante”, e que o finado tecladista Billy Preston exagera na dose, já que na faixa seguinte ele está bem mais entusiasmado do que todos os demais integrantes enquanto canta a música de sua autoria “Will It Go Round In Circles“. Mando-a parar de maledicências e explico que esta música é a mais conhecida dele, o que justifica seu entusiasmo, e que pare de pensar besteira…
Por ser um registro mais recente, este claramente tem a vantagem de ser tecnicamente melhor trabalhado do que os lançamentos mais antigos em termos de imagem e som. A qualidade da imagem está ótima, em formato 16:9, e o som DTS o fará se sentir no próprio show ao vivo. Quando lançado era bem fácil encontrar o CD e o DVD, e ainda hoje ainda dá para encontrá-lo em lojas on-line brazucas com relativa facilidade, e com sorte até por um precinho razoável (hoje mesmo eu o vi em uma Saraiva por menos da metade do preço que paguei). Só não me pergunte o que diacho o símbolo do Linux Ubuntu está fazendo estampado em uma das guitarras Fender que Eric usa durante o show (viu, alan geek?)…
Crossroads Guitar Festival 2010
Há alguns anos Clapton criou a fundação Crossroads para a reabilitação de viciados em drogas, uma alusão clara a sua dependência que o acometeu e quase afunda sua carreira nos anos anteriores, e frequentemente promove shows e leilões para arrecadar grana para esta fundação. E uma dessas iniciativas é o Crossroads Guitar Festival, que reúne diferentes monstros da guitarra, incluindo o próprio, e contemplando diversos estilos de blues e rock. Há registros em DVD dos três festivais que ocorreram em 2004, 2007 e 2010. O último, realizado em Chicago, o berço do Blues Elétrico, está disponível nos formatos DVD e BD, ambos duplos. Para quem aprecia o estilo, o show é um desfile de veteranos, como Robert Cray, Buddy Guy, Jimmie Vaughan, Johnny Winter e Jeff Beck, junto com novos talentos, como o John Mayer Trio, além de rostos mais conhecidos do pop, como Sherryl Crown e os barbudos do ZZ Top. E o veterano ator Bill Murray faz às honras como um bem-humorado mestre-de-cerimônias
E quando eu uso o termo “veteranos” não é exagero, já que o não tão novo Clapton parece um menino, se comparado a seus colegas mais “experientes”, com alguns precisando até de oxigênio ou cadeira de rodas!
Na última música, o lendário B.B King dá as caras para cantar “The Thrill is Gone” em uma Jam Session com Clapton, Cray e Vaughan. Mesmo octogenário e trazido ao palco em cadeira de rodas, o dono da Lucille dá sua palhinha e ainda contribui com sua anuência a cada solo de seus colegas, como se aprovasse suas técnicas. Por fim, todos que participaram do festival entram no palco para fechar com estilo a noite.
Por aqui você consegue encontrar o DVD ou o BD em lojas especializadas ou em lojas on-line, mas por ser importado, o preço é bem salgado. Vez por outra o BD entra em promoção na Amazon inglesa, e acaba sendo mais vantagem pedi-lo, e os prazos costumam ser mais céleres do que a loja americana, podendo levar de 10 a 15 dias. E nesses dias devido a “frebre Clapton”, os DVD’s das duas edições anteriores também podem ser encontrados com relativa facilidade em lojas especializadas.
Minha parte eu já fiz. Agora cabe a você providenciar o Bourbon ou a cerveja e curtir com os amigos que compartilhem dessa mesma devoção.
Ruy Castro – Ele é Carioca

Texto de minha autoria originalmente publicado no site Mínimo Múltiplo pra tirar a poeira das prateleiras da Blodega
Antes de tudo, uma rápida correção: na verdade, Ruy Castro é mineiro de nascença, mais especificamente de Caratinga. Mas se tornou tão – ou mais – carioca quanto qualquer um nascido no Rio de Janeiro, tanto que recebeu o título de cidadão benemérito da Cidade Maravilhosa. Isso, para mim, já é mais do que suficiente para justificar o título deste texto, que é uma óbvia alusão ao nome de uma famosa música da bossa nova (a qual também empresta seu título a um dos livros de Ruy). Além disso, ele certamente já fez mais em prol da imagem carioca do que qualquer governante ou burocrata nas últimas décadas, e, apesar de Garotinhos, Rosinhas e Maias, para ele o Rio continua lindo. Pode se considerar Ruy Castro o mais carioca dos escritores mineiros, e olha que não falta séria concorrência nessa área: Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos… Ruy, porém, conta com a nítida vantagem de ainda estar vivo.
Meu primeiro contato com o jornalista e escritor foi justamente em matérias de revistas como “Set” e “Playboy”, em que seus textos, cheios de informação e humor, se destacavam dos demais. Em uma dessas matérias na “Set” sobre críticos de cinema, aliás, saiu a informação de que ele nunca fora pegar o diploma de jornalista, um detalhe pitoresco e digno de se tornar lenda. Logo seu nome me chamaria a atenção e, onde quer que ele estivesse impresso, já era por mim considerado certificado de qualidade. Passei a conferir livros e antologias cujas organização e tradução ficaram em suas mãos, e, assim, em minha juventude fui apresentado às crônicas e contos de Woody Allen para a New Yorker em “Cuca Fundida”, aos escritos de H.L. Mencken em “O Livro dos Insultos” e aos bombons com fel das tiradas witty de “O Melhor do Mau Humor”, por obra e graça de Ruy Castro. E daí para ler os livros de sua autoria foi um pulo, um vício saudável que mantenho até hoje.
Mais uma breve retificação, antes de continuar: Ruy Castro não terminou o curso de jornalismo – na realidade, ele levou bomba, concluiu Ciências Sociais, mas de fato nunca quis saber de pegar o diploma. Mas diploma não lhe fez muita falta, não. Atuando na imprensa desde 1967, quando começou como um simples foca no Correio da Manhã, foi picado pela mosca das letras após Paulo Francis o chamar como colaborador fixo para o Correio e para a famosa, mas efêmera, revista Diners. A partir daí, é história, e nessas mais de quatro décadas ele já passou por diversos jornais e revistas, muitos já extintos, e conviveu com monstros das letras, como Francis. E foi “culpa” de Francis também o estilo de escrever de Ruy, pois este costumava assinar apenas os textos sérios e usar pseudônimos para os textos mais fanfarrões, até o dia em que o amigo perguntou o porquê, já que os de humor eram justamente os melhores. Então, em pouco tempo, os textos “sérios” de Ruy foram perdendo a sisudez e se deixaram contaminar pelo bom humor que lhe é peculiar, “como um Dr. Jeckyl, quando passou a se transformar em Mr. Hyde mesmo sem beber a gororoba”, diz ele em “O Leitor Apaixonado” num texto justamente sobre Francis.
E seu estilo é bem característico, sempre com uma alegoria ou metáfora inteligente e hilária para soltar no meio do texto, fazendo citações e referências sofisticadas sem se tornar afetado ou esnobe, enquanto nos fornece uma torrente de informações. Tudo sem que nos cansemos ou percebamos, de tão leve e agradável que se torna a leitura. É como ouvir uma boa história em uma mesa de bar enquanto bebericamos um chope estupidamente gelado. Ou, em suas palavras, quando se refere às crônicas, em sua coletânea “Ungáua!”: “A crônica, ainda mais quando praticada por cariocas, é o feudo da conversa fiada e nela, todo assunto é válido, desde que irrelevante”.
O grande público, contudo, conhece mais Ruy Castro por suas ótimas biografias. No início dos anos 1990, lançou o livro-reportagem “Chega de Saudade – A História e as Histórias da Bossa Nova”, conseguindo a proeza de ressuscitar o interesse pela então combalida e esquecida Bossa Nova, a deliciosa e sofisticada mistura de samba e jazz que embalou os jovens cariocas no final dos anos 1950. Com o livro, trouxe à tona a história dos precursores e protagonistas daqueles anos dourados da música brasileira. Pouco depois, escreveu “O Anjo Pornográfico – A Vida de Nelson Rodrigues”, mostrando que a vida do mais imoral dos escritores brasileiros foi tão ou mais emocionante e trágica quanto sua obra. Com esta biografia do “reacionário”, Ruy alcançou o mesmo feito conseguido com a bossa nova, ao despertar no público da nova geração o interesse pela obra de Nelson. Além da biografia, também foi responsável por organizar e relançar a obra literária do autor de “Vestido de Noiva”.
Antes de se dedicar de corpo e alma a um único biografado, Ruy presenteou o público com “Saudades do século 20”, uma declaração de amor (e de profundo conhecimento) à cultura americana dos anos 1920 aos 1960, em que aborda de forma breve a biografia de 13 personalidades da música, literatura e cinema americanos daquele período.
Na área de biografias, Ruy ainda reconstituiria a trajetória do jogador Garrincha e da “pequena notável” Carmen Miranda. Mas ambos foram um parto para o autor, por motivos diversos. No caso de “Estrela Solitária – Um Brasileiro Chamado Garrincha”, de 1995, a editora Companhia das Letras enfrentou um processo movido por parentes de Garrincha, menos por se sentirem ofendidos do que por oportunismo financeiro de algum advogado, mal que assolou Garrincha até depois de morto. O processo proibiu o livro de circular por um bom tempo, até a editora conseguir um acordo financeiro que satisfizesse as partes. Por esse episódio, Ruy nunca perde oportunidade de, em diversos artigos, demonstrar sua insatisfação e repúdio perante a sanha monetária de descendentes de mortos famosos.
“Carmen – Uma Biografia” igualmente demorou para sair. Uns dez anos, por sinal. Foi lançado em 2005, e, nas dedicatórias, havia uma em especial para alguns médicos, sem os quais aquele livro não seria possível. Isso se explica pelo fato de Ruy ter diagnosticado um câncer na garganta enquanto escrevia a biografia, e durante sua conclusão, passou por um severo tratamento. Como um de seus ídolos no cinema, Humphrey Bogart, que teve câncer no esôfago, Ruy não se entregou à doença. Além de sua persistência e dedicação ao trabalho, porém, tinha décadas de avanços na medicina a seu favor, o que lhe permitiu sobreviver à doença e ao tratamento e finalizar o livro. “Carmen salvou minha vida”, costuma afirmar.
Célebre por suas biografias, Ruy é prolixo o bastante para não se resumir a elas, mesmo porque sempre jura de pés juntos nunca retornar a uma enquanto conclui outra. Escreveu romances, como “Bilac vê estrelas” e “Era no Tempo do Rei”, mas seus textos são, na maioria, dedicados às suas paixões: música, literatura, cinema. E futebol, obviamente. Alguns de seus artigos para jornais e revistas já foram reunidos em antologias. Sobre música brasileira e bossa nova, temos “A Onda que se Ergueu no Mar”, meio que complementando o “Chega de Saudade”. Sobre música, principalmente americana, “Tempestade de Ritmos”. Cinema? “Um Filme é Para Sempre”. Faltou literatura? Não mais: “O Leitor Apaixonado” está aí nas livrarias. Ainda temos Ipanema em “Ela é Carioca”. E o futebol, além de “Estrela Solitária”, está nas páginas de “Flamengo – O Vermelho e o Negro”. Acha pouco ainda? Procure em jornais como a “Folha de São Paulo” ou revistas como a “Brasileiros”, que você terá uma boa chance de encontrar algum texto de autoria de Ruy, desde uma breve crônica até uma extensa matéria sobre algumas de suas paixões.
Enquanto esperamos o que Ruy Castro ainda aprontará, sugiro aos leitores irem tomando intimidade com seu trabalho lendo algumas de suas crônicas disponíveis na internet. Em algumas, quase dá pra sentir a maresia de Ipanema. Basta o jeitinho de ele andar – ou escrever.
Saxofonistas da Blodega: Kenny G(arrett)

Um Kenny G que toca feito homem
Mesmo quem não seja fã de Jazz já deve ter ouvido falar de Kenny G, o sax soprano mais popular do mundo. Ele se tornou bem conhecido após participar da trilha sonora do filme “Tudo Por Amor“. É um músico que desperta paixões, já que é igualmente amado e odiado mundo afora. Os fãs mais ortodoxos do Jazz o execram, criticando desde seu repertório até a sua embocadura, o acusam de não ter personalidade em suas execuções feitas para agradar o grande público, além de achar exibicionismo gratuito sua técnica de respiração circular para sustentar longos solos. Muitos mais radicais acham até heresia chamar o que ele toca de Jazz. Ora, mas bem que o bom moço tentou há alguns anos gravar alguns Standarts do Jazz no disco “Classics in The Key of G“. Se a intenção era calar a boca dos críticos, a emenda saiu pior que o soneto, já que suas versões para clássicos do Jazz deram úlcera em alguns fãs. Há quem afirme que John Coltrane e Duke Ellington rolaram na tumba após Kenny G gravar “In a Sentimental Mood”.Ah, mas tergiverso, pois não é dele nem desta polêmica gratuita que falaremos aqui.
Há cerca de uns quinze anos, durante uma pausa para o almoço durante um curso que fazia em São Paulo, estava fazendo um de meus passatempos favoritos, que era caçar pérolas em lojas de CD. E por acaso encontrei uma ótima quando, por curiosidade, resolvi escutar o CD de um saxofonista do qual eu nunca ouvira falar. Mas seu estilo me pegou pela orelha e comprei o disco sem hesitação, e acabei convertido instantaneamente em admirador dele. O disco em questão é “Pursuance”, e o saxofonista é Kenny Garrett.
O nome é uma coincidência. Por não ser tão popular ou conhecido por estas bandas, não era tarefa fácil encontrar discos dele (normalmente só encontramos os importados). E sempre que eu procurava em alguma loja, corria o risco de ouvir o vendedor perguntar “Não seria Kenny G?”. Claro que apenas sorria e dizia que não, apesar da vontade de dar uma voadora nos peitos do infeliz. Os dois só compartilham a coincidência do nome. O Kenny G. mais conhecido é branco, toca sax soprano e seu estilo mela-cueca é inconfundível. Já este Kenny G(arrett) é negro (ou afroamericano, como preferem os politicamente corretos), toca sax alto e seu estilo está mais próximo do jazz tradicional, de agrado dos fãs mais puristas, tocando acompanhado da tradicional formação piano, bateria, baixo e, eventualmente, guitarra.
Este relativamente jovem saxofonista é certamente um dos mais talentosos talentos que surgiram no grupo de Miles Davis, como também é um dos grandes saxofonistas da atualidade. Nascido em Detroit no ano de 1961, Garrett começou sua carreira na sua terra natal, tocando com Marcus Belgrave e se juntando a orquestra de Duke Ellington (sob a liderança de Mercer Ellington). Em 1982 ele se muda para Nova Iorque, e sua primeira gravação é de 1984 (Criss Cross). Ele toca com o grupo Out of the Blue antes de se juntar aos músicos de Miles Davis. Após a morte do célebre jazzista no início dos anos 90, Kenny formou seu próprio grupo e iniciou a sua carreira, gravando diversos álbuns para a Warner
Se você tiver que ter apenas um disco de Kenny Garret este disco deve ser “Pursuance: The Music of John Coltrane“, no qual reverencia o grande saxofonista americano. São dez músicas do grande nome do Jazz, além de uma faixa de Garrett, “Latifa”. Sua versão para “Lonnie´s Lament” é intensa e linda, com destaque para o auxílio luxuoso da guitarra de Pat Metheny nesta e nas demais faixas. “Equinox”, “Dear Lord”, “Alabama” e “Giant Steps” também respeitam o original, mas carregam a identidade de quem as executa.
Mas se você se render ao sax deste talentoso músico, não terá apenas um disco dele. Caso queira pelo menos mais um, este é o disco “Songbook”, de 1997, com todas as composições de sua autoria. Os solos finais de “She Waits for The New Sun” são um deleite para os ouvidos, e “Before It´s Time to Say Goodbye” transmite tristeza na medida certa, com o piano solando no início para abrir caminho para o sax alto de Kenny.
Seu trabalho solo mais recente é o CD ao vivo “Sketches of MD:Live at the Iridium”, e ao seu lado outro saxofonista das antigas, Pharoah Sanders, com quem já gravara antes o CD de 2006 “Beyond the Wall”. Ele também está presente no registro de sua turnê mundial ao lado de feras Chuck Corea, John McLaughin, Herbie Hancock e Christian McBride, o CD “Five Peace Band – Live”, o qual ganhou um prêmio Grammy no ano passado.
Em suma, se você curte um bom Jazz e um sax alto bem executado, Kenny Garret é uma ótima sugestão. Dê este presente aos seus ouvidos. E se sua namorada quiser ouvir Kenny G, ponha o bom e velho Garrett para ela ouvir. Quem sabe você acaba salvando mais uma alma?
No Youtube tem bastante material dele. A título de palhinha, as duas partes do vídeo onde ele executa “Sing a Song of Song”: Parte 1 e Parte 2. Para ouvir aqui, sua versão de “Lonnie’s Lament”. Senta o dedo no play!
Saiba mais no seu site oficial

American Pie

E o dia em que a música morreu
Interpretar uma musica, um poema ou algo similar é chafurdar em um pântano perigoso e mortal, pois já me convenci que é impossível recuperar o verdadeiro sentido do que o autor realmente quis dizer,na maioria dos casos, já que a emoção sentida no “momento zero”, como diria meu amigo Expedito Ferraz, nem sempre consegue ser fielmente decalcada no meio no qual a emoção tenta se expressar, e no caso de letras e palavras, acaba “tropeçando no molambo da língua paralítica”, citando Augusto dos Anjos.
Essa pequena intrudução é para falar sobre o álbum “American Pie” (1971), de Don McLean, o qual tem ótimas canções do Folk, entre elas “Vincent”, uma triste homenagem ao pintor Van Gogh, cuja letra remete a elementos da biografia do pintor atormentado. Mas a música mais famosa desse álbum é uma daquelas canções que, à contragosto do que se costuma definir como padrão de sucesso, é uma canção longa – oito minutos e meio – sem letra repetitiva, com exceção do refrão, algo contrário as “receitas de sucesso” com curta duração e refrões pegajosos ditadas pelo mercado fonográfico. Mas como “Bohemia Rapsody” ou “Faroeste Caboclo”, acabou se tornando um hit, contra todas as expectativas. Essa música é “American Pie”.
A letra de Don McLean faz referência em seu refrão ao “dia em que a música morreu”, o qual muitos concordam que se trata do fatídico 3 de fevereiro de 1959, quando o pequeno avião transportando o guitarrista Buddy Holly, Ritchie “La Bamba” Vallens e o DJ Big Bopper se espatifa e encerra, de forma trágica, os primórdios do Rock’n'Roll, já que os três músicos eram estrelas em ascensão, principalmente Buddy Holly, e que morreram antes de realmente mostrarem todo seu potencial. As consequências deste acidente são consideráveis, e os acólitos desta religião pagã consideram que a história foi fatalmente mudada nesta data, e o Rock precisou esperar até que aqueles rapazes de Liverpool cruzassem o Atlântico para por novamente as coisas no rumo certo.
Pois bem seu incréu, agora que está a par da importância desta data, talvez possamos começar a falar sobre a letra de “American Pie”. Aliás, a partir do momento em que tal letra é motivo de discussão e interpretação, podemos considerar Don McLean um grande poeta, que hoje deve ser um senhor aposentado que se diverte ao ouvir todo tipo de teoria a respeito das releituras acerca da letra de sua obra-prima, já que ele ainda é o único que sabe, com certeza, o que queria dizer. Ou não, a depender do que tenha bebido/cheirado/fumado naqueles anos…
Mas que a letra é um puta poema implorando por ser interpretado, isso é um fato, e muitos têm feito tal tarefa nestas últimas décadas, desde que a música se tornou um sucesso no início dos anos 70, sendo regravada inclusive por Madonna décadas depois.
Qualquer um pode se deleitar na letra e achar qualquer referência ao mundo do rock dos anos 60, e qualquer um pode ter sua leitura sobre a obra. Não obstante, a mais popular interpretação desta letra circula pela Internet há uns dez anos, fruto dos esforços de Rich Kulawiec, que discutiu e coletou diversas visões, interpretações e informações sobre o que McLean realmente tentou dizer naquela música. Na letra ele enxerga referências às mais diversas, como a mudança de rumo na carreira de Bob Dylan, o episódio trágico no show dos Rolling Stones envolvendo os Hell Angels, a morte de Kennedy e Janis Joplin, um cena de James Dean em “Juventude Transviada” e os conflitos da convenção do Partdio Democrata em 1968. O próprio título da música – literalmente “torta americana” – pode ser uma referência a alguma namorada de McLean ou até mesmo ao avião que matou a “trindade” do rock.
Em homenagem a esta data, fiquem com a música em sua versão original. E nesse link há uma tradução para o português da letra e das interpretações mais conhecidas de seus versos.
Plágio ou Influência Musical?

Aqui onde me escondo provisoriamente a Música Sertaneja domina, principalmente nas rádios. E escutando casualmente uma música dessas, a melodia me lembrou uma outra velha canção. Imaginei, a priori, que alguma dessas duplas de corno sertanejas regravara alguma música. Mas ao prestar mais atenção, notei que apenas parte da música sertaneja em questão se parecia por demais com a outra que insistia em tocar na jukebox de minha cachola. Precisei consultar alguém mais especializado no assunto música sertaneja (minha esposa) e descobri que a música em questão se chama Lumiá (Xote da Lua), da dupla Alan e Alex. Mas não é que a danada tem, em um de seus trechos, uma semelhança da porra com “Nuvem Passageira”, uma música dos anos 1970 de Hermes Aquino, e que tocou bastante naqueles tempos, mas que dificilmente quem tem menos de 30 anos se lembra ou conhece essa cantiga? Mas quem conhece ou quem quiser conhecer certamente notará também uma semelhança na melodia e no andamento, mais especificamente na última estrofe.
Eu escrevi seu nome na areia
Mandei recados pro seu coração
Eu passo as noites só pensando em ti
A namorada que eu tanto sonhei
Minha doce paixão
Escute ambas as músicas e compare a estrofe acima com as duas estrofes de “Nuvem Passageira”, que possui praticamente o mesmo andamento, mas versos distintos:
Não adianta escrever meu nome numa pedra
Pois esta pedra em pó vai se transformar
Você não vê que a vida corre contra o tempo
Sou um castelo de areia na beira do mar
A lua cheia convida para um longo beijo
Mas o relógio te cobra o dia de amanhã
Estou sozinho, perdido e louco no meu leito
E a namorada analisada por sobre o divã
Aí é que está o busílis. Onde acaba a referência, a homenagem, quiçá a coincidência, e começa o plágio? Esse exemplo é apenas um que por acaso percebi, e nem sei se as canções são perfeitamente idênticas, nota por nota. Mas que o ouvido acha bem parecido, acha. Mas definir onde acaba a homenagem e começa a desapropriação indébita de propriedade intelectual nem sempre é fácil, ainda mais nestes tempos de samples e sintetizadores, onde não só notas, mas trechos completos da obra original podem ser copiados, remixados e usados ao bel prazer do DJ. Se o autor do original vê algum trocado pingar na conta, aí são outros quinhentos (mil dólares, a depender do caso).
Mas não estou acusando ninguém de plágio, até porque não tenho conhecimento técnico suficiente para afirmar isso de forma jurídica e peremptória (vixe!). Apenas aproveitei a ocasião para pegar uma velha ideia pela orelha e finalmente fazer esse pequeno texto sobre casos de plágio, homenagem ou influência na música. E antes que eu precise revirar as teias de aranha de meus neurônios e alfarrábios, cito dois casos recentes no mundo pop internacional: o grupo australiano Men at Work, que perdeu um processo de plágio movido contra a música “Down Under”, e o Coldplay, que foi processado por Joe Sartriani, pois o guitarrista que surfa com alienígenas achou que “Viva La Vida” tinha semelhança demais com uma música sua de 2004, “If I Could Fly”.
Mas citemos alguns exemplos notórios. Um brasileiro que sofreu diversas acusações de plágio foi Tom Jobim, sendo a mais conhecida acusação a de seu sucesso “Águas de Março”. Quem levantou esta e outras acusações de pirataria autoral foi o arqui-inimigo da Bossa Nova, o crítico José Ramos Tinhorão. Segundo o veterano crítico, autores clássicos e de musicais americanos seriam parceiros involuntários do brasileiro, como Irving Berlim e Chopin, e que no caso de “Águas de Março” a “inspiração” seria uma música chamada “Águas do Céu”, famosa na voz de Leny Eversong. Mas cá entre nós, se há plágio nesses casos não é nada muito óbvio, e os defensores de Jobim alegam, no máximo, uma ispiração ou homenagem. Já Tinhorão, que nunca foi com a cara da Bossa Nova, resume tudo a falta de talento do pianista carioca, que na visão do velho crítico não passa de uma mera esponja musical. Concordo que ele era esponja, mas por outros motivos mais etílicos…
Ainda no ramo da MPB, duas figuras que foram carimbadas com a suspeita de plágio foram Fagner e Zé Ramalho. No caso do cearense, ele foi processado pelas filhas da poetisa Cecília Meireles porque ele teria adaptado trechos da poesia “Marcha” para a letra de um de seus grandes sucessos, “Canteiros”, que foi gravada em seu primeiro LP de 1973, “Manera Fru Fru Manera”, sem creditar a original. Para completar, no mesmo LP, a música “Sina” teria versos de um poema de Patativa do Assaré, “O Vaquêro”. Raimundo Fagner não deixou de adaptar poemas em forma de canção, mas começou a tomar o cuidado de dar o devido crédito, já que no LP de 1981, “Traduzir-se”, há duas músicas cuja origem são poemas – uma é a música que dá título ao disco, de Ferreira Gullar. Outra faixa é “Fanatismo”, adaptado de um belo poema da poetisa Florbela Espanca.
Já o meu conterrâneo Zé Ramalho teve dois revezes. Um deles foi com um de seus maiores sucessos, “Mulher Nova, Bonita e Carinhosa Faz o Homem gemer Sem Sentir Dor”, que se popularizou ao ser tema da minissérie “Lampião e Maria Bonita”, da Rede Globo, e na voz de Amelinha. Porém o título da música era um mote de repente usado por diversos cantadores populares,e se a princípio poderia se pensar que isso seria de domínio público, acabou gerando controvérsia e muitas histórias. O fato é que hoje o cantador Otacílio Batista Patriota é creditado como autor da letra da música, mas tem muito cantador que diz que ele se apropriou dos improvisos alheios e registrou a letra em seu nome. Mas o caso de plágio mais insólito de Zé Ramalho e pelo qual foi processado é na música “Força Verde”, cuja letra seria quase que totalmente “chupada” de uma tradução em português de um poema de W.B Yeats. O mais irônico é que o caso veio à tona porque este poema – que fala sobre forças da natureza – teria sido usado na introdução de uma história do personagem O Incrível Hulk, que foi publicada em 1972 no Brasil pela GEA, e obviamente – para azar do Zé – um nerd paraibano notou a semelhança e o caso veio à tona, o que trouxe muita dor de cabeça ao cantor. Daí pra frente o Zé – que é admirador de Bob Dylan – acabou se dedicando eventualmente a verter versões em português, devidamente creditadas. Há um disco inteiro só com versões de Bob Dylan. Mas um de seus grandes sucessos, “Entre a Serpente e a Estrela”, com letra de Aldir Blanc, é uma versão de uma música country pouco conhecida por aqui, “Amarillo By Morning”. Obviamente está devidamente creditado, para evitar novos problemas.
Segundo Nizan Ganaes, o único brasileiro que ganhou dinheiro com “feeling” foi Morris Albert, nome artístico do carioca Maurício Alberto, autor de “Feelings”, música que chegou a ser considerada a música mais executada de todos os tempos, mas que também foi acusada de plágio por um francês, o cantor Louis Gaste. Morris perdeu, mas nega o plágio até hoje, e só de raiva processou o Offspring por uma versão meio satírica de “Feelings”, com trechos da letra modificados.
Só que nem sempre são os brazucas que plagiam, pois por vezes nós é quem somos plagiados. Por exemplo, no auge do grupo Gipsy Kings, lá pelos anos 90 (urgh!), o cantor verticalmente prejudicado Nelson Ned processou-os por plágio de uma de suas músicas. Só que o caso mais notório foi o de Jorge Benjor, que quando se chamava Jorge Ben – não confundir com George Benson e achar que é plágio – gravou a música “Taj Mahal” – uma puta música, por sinal – que teria sido plagiada por Rod Stewart em “Do ya think i’m sexy”. Nesse caso não tem muito como negar mesmo. Apenas escutem o refrão onomatopéico de “Taj Mahal” (teteteretete…) e comparem com o refrão de “Do ya Thing I’m Sexy”: “If you want my body/and you think I’m sexy/Come on, sugar, let me know/If you really need me/just reach out and touch me/Come on, honey, tell me so”. Nem um juiz surdo negaria isso. Rod jogou a culpa para o parceiro na canção e, em um xeque-mate moral, doou o lucro sobre a canção para a UNICEF. E Jorge Benjor ficou a ver navios, e tudo que poderia fazer era reclamar com o síndico (TIM MAIA, TIM MAIA! – foi mal, não resisti).
P.S – Mas querem ver um festival de plágios, homenagens, referências ou o caralho a quatro que preferirem achar, é só buscar na época áurea do pop-rock brazuca dos anos 80, o qual foi bem influenciado pelo cenário internacional, o qual não era conhecido do grande público naqueles tempos que só quem garimpava Lp’s em pequenas lojas conhecia. Como estamos falando de plágio, eu iria plagiar na cara dura esse texto aqui, mas deu preguiça acabou a cerveja a mulher me proibiu achei que seria ironia demais para um post só. Ainda assim plagiei o título. Nóis é jeca mai é jóia, pois nóis copia e cita a fonte.
My One and Only Love

Para aplacar este clima beligerante das eleições, um pouco de Jazz para os leitores e leitoras da Blodega. Essa música foi apresentada ao mundo em 1953, sendo cantada por Frank Sinatra, e acabou se tornando um Standard do Jazz, reinterpretada por inúmeros cantores, cantoras e instrumentistas. Para citar alguns nomes: Ella Fitgerald, Sarah Vaughan, John Coltrane , Sting, Jamie Cullum e Sonny Rollins emprestaram seu talento para interpretar este clássico do romantismo sofisticado. Na humilde opinião deste que vos escreve, a versão da veterana cantora inglesa Cleo Laine é uma mistura de libido e beleza, com a gaita de Toots Thielemans fazendo bom par com a voz da cantora. Para quem não o conhece, este senhor de 90 anos ainda está na ativa, e entre outros grandes trabalhos, ele se uniu a Elis Regina em 1969 para gravar o disco “Aquarela Brasileira”, e recentemente lançou o álbum “One More For The Road” e “Toots Thielemans – European Quartet Live”.
Então aqui vai a dica: escolha uma versão dessas e mande ver naquele sofisticado xaveco. Frases como “eu sinto seus lábios tão quentes e ternos”, “o toque de suas mãos é como o paraíso” ou “cada beijo que você me dá incendeia minha alma” derretem o coração da mulher mais gélida. Junto com um Dry Martini, o efeito pode ser tão devastador quanto uns comprimidos de Viagra. Para acompanhar, abaixo posto as versões de Cleo Laine e a do Sting, usada na trilha sonora do filme “Despedida em Las Vegas”. Enjoy!
The very thought of you makes
My heart sing
Like an
April breeze
On the wings of spring
And you appear in
all your splendour
My one and only love
The
shadows fall
And spread their mystic charms
In the
hush of night
While you’re in my arms
I feel your
lips so warm and tender
My one and only love
The
touch of your hand is like heaven
A heaven that I’ve
never known
The blush on your cheek
Whenever I
speak
Tells me that you are my own
You fill my
eager heart with
Such desire
Every kiss you give
Sets my soul on fire
I give myself in sweet surrender
My one and only love
The blush on your cheek
Whenever I speak
Tells me that you are my own
You
fill my eager heart with
Such desire
Every kiss you
give
Sets my soul on fire
I give myself in sweet
surrender
My one and only love
My one and only
love
O Amor Vem pra Cada Um

No post no qual falei sobre a música “Layla”, mencionei uma música de George Harrison intitulada “Love Comes to Everyone”, que o ex-Beatle lançou em forma de single em 1979. Não sei se é o caso e até acho difícil, mas sempre imaginei esta música como uma resposta musical a Eric Clapton sobre as acasos do amor, acasos estes que levaram o seu amigo a lhe “tomar” a sua esposa. Claro e mais provável que a composição não esteja em nada relacionada ao caso, mas me deixem com minhas ilusões e divagações. Mas coincidência ou não, o próprio Eric Clapton regravou a música em seu álbum “Back Home”, de 2005.
O fato é que é uma música que conheci pelo meio tortuoso de uma versão em português que fez sucesso nos anos 80 na voz de Zizi Possi, “O Amor Vem Pra Cada Um”, segunda faixa do disco “Pra Sempre e Mais um Dia”, de 1983.Ao contrário da maioria das versões, que se limitam a copiar o ritmo da original e enfiar uma letra sem relação nenhuma com a original, por vezes forçando até a métrica, esta versão (escrita por Beto Fae) é uma daquelas que é praticamente uma tradução ipsi literis da letra original. O que convenhamos, além de respeitar o artigo original, é mais difícil do que enfiar uma letra qualquer em uma melodia já existente e conhecida. E a voz da Zizi completa o serviço, deixando a música uma delícia aos ouvidos.
Abaixo segue a letra de ambas para que vocês mesmos comparem. E, obviamente, segue as versões para sua audição – a de Zizi Possi e a de Eric Clapton.
Vá e entre por aquela porta ali
Não tem caminho fácil não!
É só dar um tempo que o amor
Vem pra cada um
Fique feliz, na boa e tudo vem
Mas nunca chove sem molhar
É só dar um tempo que o amor
Chega até você
Seu coração
Tem algo que nunca muda
Mas que também
Não envelhece nunca
Seu coração…
Sério, eu vejo tudo melhorar, lá
É só bater na porta e abrir
Bem que eu disse pra você que
O amor vem pra cada um
Go do it,
Got to go through that door,
There’s no easy was out at all . . .
Still it only takes time
‘Til love comes to everyone.
For you who it always seems blue
It all comes, it never rains
But it pours,
Still it only takes time . . .
‘Til love comes to everyone.
There in your heart . . .
Something that’s never changing;
Always a part of . . .
Something that’s never ageing,
That’s in your heart . . .
It’s so true it can happen to you all; there,
Knock and it will open wide,
And it only takes time
‘Til love comes to everyone.









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