Cinema à Granel

Comentários, dicas e sugestões de filmes, séries e afins

Meia-Noite em Paris é uma Festa

Gertrude Stein, Modernismo e a Geração Perdida na Paris dos Loucos Anos 20

No novo filme de Wood Allen, “Meia-Noite em Paris”, o protagonista Gil, um roteirista que aspira se tornar romancista e que se sente fascinado pelo passado, se enamora pela cidade de Paris, e durante um passeio à noite para fugir do tédio e da família chata pra cacete conservadora de sua noiva, ele consegue voltar ao passado, sabe-se lá por qual meio, mais especificamente aos anos 20 do século passado, encontrando-se com diversos artistas daquela época: Cole Porter, o casal F.Scott e Zelda Fitzgerald, Ernest Hemingway, Pablo Picasso, Buñuel, Dali, T.S.Eliot, Cole Porter, Djuna Barnes… Entre mostrar Paris como um cenário belíssimo digno de um quadro de Monet e discutir questões como a nostalgia, as incursões de Gil ao passado são de uma leveza e humor deliciosos, o que faz a alegria dos amantes da leitura, que se entusiasmam juntamente com o personagem ao interagir com os artistas do passado e ao reconhecerem as referências contidas, com uma divertida conversa com surrealistas sobre viagem no tempo e inspiração para o filme “O Anjo Exterminador”, de Buñuel. Mas Gil quase vai ao êxtase quando Hemingway o leva para conhecer Gertrude Stein (Kathy Bates), que se propõe a ler o manuscrito do romance que tenta concluir. E nessa busca do tempo perdido ainda há espaço para Gil disputar com Hemingway e Picasso o afeto de uma bela modista francesa.

Allen usa esse mote para passear por uma época que o personagem Gil julga ser uma “era de ouro”, algo que ele vem a questionar ao longo da história, resgatando os personagens e protagonistas reais de um tempo no qual Paris, de fato, serviu de cenário para diversas histórias tão ou mais fascinantes quanto a do filme, e que moldaram a arte ocidental da primeira metade do século passado, já que para lá migraram a vanguarda cultural da Europa e a “Geração Perdida” dos Estados Unidos, e o ventre dessa besta chamado modernismo foi um sobrado no número 27 da Rue de Fleurus. E no olho dessa tempestade de “ismos”, meio que comandando essa massa crítica criativa, havia uma mulher americana que conheceu e influenciou os grandes artistas que passaram por Paris naqueles anos, e cuja presença foi fundamental para o estabelecimento da arte moderna nas primeiras décadas do século XX. Sem Gertrude Stein dificilmente os movimentos que brotaram nessa época ganhariam o mundo.

Desde 1902 que a americana Gertrude e seu irmão Leo Stein, partiram para o degredo voluntário em Paris em busca de algo mais próximo do conceito de civilização, a exemplo de muitos jovens americanos abonados de seu tempo. Estabelecendo-se no famoso endereço na Rive Gauche, eles se tornaram catalisadores do movimento modernista que ali brotava, já que em seus primeiros anos na cidade eles ajudaram muitos artistas plásticos em início de carreira ao comprar seus trabalhos, os quais eram vistos com reserva, para dizer o mínimo, pelo público em geral, que ainda não digeria muito bem os conceitos novos. Na verdade nem os Stein entendiam direito, pois durante anos eles mantiveram um Cézanne pendurado de ponta-cabeça até serem alertados pelo próprio. Praticamente nenhum milímetro das paredes do sobrado estava livre de algum quadro, os quais eram adquiridos quase a preço de custo e que valeriam uma fortuna nos anos seguintes, pois carregavam assinaturas dos então anônimos e verdes Cézanne, Matisse e Picasso, que nesse tempo estava mais pra azul do que verde. Leo Stein fez a alegria de muito pintor iniciante, comprando seus quadros aos montes, e os ajudou divulgando tais obras e convencendo o mundo que ali estava o futuro da arte.

Todavia foi a irmã Gertrude que se tornou célebre entre a comunidade artística estabelecida em Paris, com a qual fez amizade e que passou a freqüentar o endereço, convertido em um point para todo candidato a artista moderno, fosse romancista, contista, poeta, dramaturgo, músico ou fotógrafo, por vezes surrealistas, dadaístas ou cubistas, além de editores e a imprensa cultural. Em determinada época havia algum burburinho praticamente toda noite. A lista de habitués é uma verdadeira aula de história da arte que, além dos já citados pintores, tinha F.Scott Fitzgerald (e sua esposa Zelda), Ernest Hemingway, Jean Cocteau, Ezra Pond, T.S Eliot, Virgil Thompson e um longo etc. que inclui James Joyce. Porém o irlandês foi barrado no baile, pois consta que Gertrude, escritora com pretensões modernistas, via nele um concorrente de peso no mesmo estilo hermético que adotara, e o que é pior, reconhecidamente mais talentoso. E como diz o personagem Hemingway no filme de Allen ao recusar a leitura do manuscrito de Gil, um escritor odeia outro colega mais talentoso. Toda essa patota era recebida por Gertrude em sua casa para que planejassem o futuro das artes enquanto enxugavam a adega dos Stein. Não é de se admirar que muitos jovens com pretensões artísticas recomendados por veteranos iam pedir a benção daquela senhora, que nem sempre se preocupava em averiguar se a recomendação por parte de algum conhecido era procedente.

Mas por maior que fosse o sobrado, nem sempre havia tanto espaço para tamanhos egos. Hemingway e Fitzgerald se estranhavam pelas infinitas vezes em que Gertrude os comparava e os elogiava respectivamente e em segredo, o que deve ter rendido um murro no queixo dela durante uma luta de boxe com Hemingway e aumentou o consumo de bebida dos Fitzgerald em alguns hectolitros. Matisse se enciumava da amizade de Gertrude e Picasso, que tinha ciúmes dela com o também cubista Juan Gris, o qual cogitou colar seus bigodes com o de Stein, sem sucesso, até porque da fruta que Gris muito apreciava, Gertrude chupava até o talo. Aliás, a relação entre Gertrude e Picasso é um caso à parte, parecia um casamento, só não tinha o sexo, pelos motivos supracitados. Mas esse casamento gerou, se não filhos, muitas histórias. Em 1905, após posar para Picasso e contemplar o resultado, Gertrude reclamou da pouca semelhança, ao qual Picasso retruca que um dia ela se pareceria com o quadro – o que não deixa de ser sacanagem. E na época que Picasso tentou abandonar a pintura pra se tornar poeta, ela lhe perguntou de onde tirara a idéia de que qualquer um pode ser poeta, e ele respondeu: ”lendo seus poemas”. Ambos brigariam em definitivo, ironicamente e indiretamente por causa de Juan Gris, morto prematuramente. Gertrude acusou Picasso de não ter dado a devida atenção ao colega falecido, e isso rendeu uma última e definitiva briga entre os dois. Esse povo não era fácil.

Famosa por cunhar o verso ”Uma Rosa é uma rosa é uma rosa” e diversas frases e afirmações de efeito, a maioria exaltando sua genialidade, além de ter cunhado o termo “Geração Perdida” para descrever seus contemporâneos, Stein arrancou muitos desses artistas do anonimato e travou amizades e inimizades com alguns deles, inclusive com seu irmão Leo, que rompeu com ela e abandonou o sobrado parisiense, levando alguns dos quadros. Ironicamente, após esse bando de boêmios se tornarem mundialmente famoso e a vanguarda por eles inventada se tornar o novo stablishment cultural, a própria Gertrude Stein não tinha uma obra editada, muito em parte porque seus escritos seguiam um estilo próprio, enveredando por experimentalismos de influência dadaísta, com poemas de versos repetitivos ou prosa que considerava a vírgula um acessório inútil, algo que torna a leitura um desafio árido, o que deve ter repelido a maioria dos editores. E para terminar de lascar, James Joyce, aquele cujo estilo era muito similar ao seu, encontrou seu lugar na posteridade ao ter publicado o romance “Ulisses”, que também só foi aceito para ser editado pela também americana Sylvia Beach, proprietária da Shakespeare and Company, famosa livraria e outro importante endereço para a cultura parisiense . Se a leitura de Ulisses é um desafio para muitos – esse humilde blodegueiro incluído – há quem diga que os textos de Gertrude seriam um desafio ainda maior.

Por fim, após passar por três décadas e uma Guerra Mundial, da qual participou como voluntária e ganhou até umas medalhas, Gertrude tem um livro editado em 1933, chamado “A Autobiografia de Alice B.Toklas”, que era sua parceira desde 1908 e cuja arte residia nos pratos que preparava, e apesar do título, tudo saiu das mãos de Gertrude, cuja intenção seria escrever aqueles acontecimentos sob o teto do sobrado com tanta gente então famosa sob a ótica de Alice. Sem apelar para estilos rocambolescos e abandonando sua guerra pessoal contra o uso de vírgulas, a narrativa convencional se tornou um sucesso, já que se tratava basicamente de fofoca com um monte de artistas de renome, e é claro, sem esquecer de por Gertrude no seu devido lugar, já que “Alice” decreta, nas primeiras linhas, que só reconhecia três gênios: Gertrude Stein, Pablo Picasso e Alfred North Whitehead. Nessa ordem. Nem todos gostaram do retrato pincelado pela velha matrona, seu irmão afirmou que era quase tudo mentira e Hemingway esperaria três décadas para revidar, dessa vez não com cruzados de boxe, e sim no romance “Paris é uma Festa”, onde ele dá sua versão daqueles anos e Gertrude é descrita em tons pouco lisonjeiros. Como Gertrude cometeu a indelicadeza de morrer em 1946 privando Hemingway de uma réplica ou opinião,

Gertrude aproveitou a tardia fama e até chegou a voltar ao seu país de origem, décadas após tê-lo trocado pela França, mas voltou para seu sobrado, de onde ainda viria os nazistas brincarem de passo de ganso nas ruas de Paris até serem expulsos pelas forças aliadas. Da Rue de Fleurus ela só sairia morta, o que aconteceu em 1946, deixando uma viúva, uns poucos quadros daqueles tempos e um puta de um legado cultural para o ocidente.

Por uma dessas gozações do destino, esse fanfarrão, sua eterna amante e “autora” de seu livro de maior sucesso, Alice B.Toklas, sempre esteve à margem do agito cultural no qual Gertrude estava enfurnada, mas após a morte dela, Alice viria a escrever e publicar um livro: “The Alice B Toklas Cookbook”. Sim, um livro de receitas. Até porque comer é também uma arte, principalmente em Paris.

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Premiações Ignóbeis

 

Essa semana saiu a lista da lista de premiados do Ig Nobel, que para quem não conhece, é uma espécie de paródia do Prêmio Nobel, organizada pela revista Annals of Improbable Research e que “premia” artigos e pesquisas esdrúxulas ou de utilidade, no mínimo, questionável. Ou como diz o lema: “são prémios que nos fazem rir e, depois, nos fazem pensar”. Há até cerimônia para entrega dos prêmios aos que tiverem cara de pau de comparecer. Para se ter uma ideia do nível da coisa, esse ano o Ig Nobel de Matemática foi para uma série de profetas do apocalipse que “previram” o fim do mundo nessas últimas décadas,o da Paz foi dado aquele prefeito lituano maluco que atropelou com um carro de combate um veículo estacionado irregularmente e o de química para japoneses que inventaram um alarme que emite o forte cheiro de wasabi. Mas já teve coisa bem pior em edições, como  físicos que estudaram a dinâmica do bambolê, biólogos que descobriram uma variedade de peixes que se comunicavam por peidos, inventores que patentearam cueca com filtro de carvão ativado pra aliviar o odor de flatos e sutiãs que se transformam em máscaras contra gases, ou pesquisadores que relacionavam o hábito de ouvir música Country a altas taxas de suicídio. E até o inventor do karaokê já ganhou o Ig Nobel da Paz em edições passadas. Querendo ver a lista completa desse ano, fique à vontade . E como o prêmio existe desde 1991, vocês podem navegar no site e ver a criatividade humana em seus piores momentos.

Mas o Ig Nobel não é a única premiação bizarra existente que brinda as qualidades humanas não tão nobres ou edificantes. No velho Crazy Man, quem era especialista nessa área era o colega que assinava sob o pseudônimo de Mariposa Apaixonada de Guadalupe Jacaré Jacuzzi. Reciclando suas anotações, faço um resumo de mais alguns concursos estranhos para apreciação dos que se debruçam nesse balcão virtual

Comecemos com o Darwin Awards, uma homenagem à Teoria da Evolução que parte da premissa de que a natureza ajuda na melhoria da raça humana removendo os mais tapados da espécie, seja através de morte ou incapacidade deles passarem seus genes adiante, provocada por alguma ação estúpida desencadeada pelos próprios indivíduos. Criado por um estudante de biologia de Berkeley, a premiação se tornou popular na Internet, já que voluntários de todo mundo enviam notícias dos mais absurdos acidentes para serem julgados, terem a veracidade confirmada e concorrerem a morte mais imbecil do ano. Mesmo aqueles casos que não atendem aos requisitos da premiação – morte ou capação do tapado envolvido, por exemplo – caem na categoria “menção honrosa”, caso a história seja tão interessante quanto a do desocupado que alçou voo em uma espreguiçadeira amarrada a um balão meteorológico. E mesmo aquelas cuja veracidade não é comprovada, mas é tão absurda e criativa que cai na categoria “lenda urbana” – caso clássico do mergulhador misteriosamente achado no meio de uma floresta incendiada após supostamente ter sido apanhado por uma aeronave de combate a incêndio que captava água no lago em que o azarado mergulhador estava.

Tem muita história tragicômica, como a do aluno de artes marciais que resolve trocar tapa com um leão do zoológico, dos cachaceiros cambojanos que resolvem brincar com uma mina terrestre,  da cavalgadura americana que foi brincar de roleta russa com uma pistola semiautomática, dos terroristas palestinos distraídos que se explodiram  por não acertarem o relógio com o horário de verão,  o bandido que tentou assaltar uma loja de armas cheia de funcionários e um policial armados, o  padre brasileiro  que alçou voo com bexigas e caiu no mar…Tudo isso como um verdadeiro monumento a infinita capacidade humana de fazer merda.

Todo esse material resultou em diversos livros com o relato das histórias e inspirou uma ótima comédia intitulada “The Darwin Awards”, estrelada por Josef Fiennes e Winona Rider, sobre um perito da polícia que se torna obcecado pelos casos do prêmio Darwin. E muitos dos casos que aparecem no filme se baseiam em algumas das histórias do prêmio, como o gênio que colocou um foguete em seu carro ou os malucos que se foderam legal ao tentar entrar de graça em um show de Heavy Metal. Em português só foi lançado o primeiro livro da série, e até onde eu sei o filme é inédito no Brasil, o que não o impedirá de assisti-lo, obviamente.

O próximo é um monumento a cara-de-pau de alguns indivíduos que querem se dar bem usando o sistema legal ao seu favor. O Stella Awards laureia os advogados e clientes mais picaretas. O nome é uma homenagem a uma velha senhora que processou o MacDonalds por ela ter derramado café quente no colo durante um atendimento no drive-thru, pedindo uma indenização milionária. O prêmio era promovido por um semanário de notícias bizarras “This is True” como uma espécie de alerta contra os abusos cometidos por advogados inescrupulosos e clientes oportunistas no sistema judiciário. Infelizmente desde 2007 que eles não atualizam mais nenhum caso, porém no site há o registro dos anos anteriores a este. Eis alguns exemplos:

- Uma mulher que teve um ataque cardíaco por não seguir as orientações do seu médico o processou por não ter sido mais persuasivo a convencê-la em adotar hábitos saudáveis
- Um policial, após atirar em um prisioneiro com sua pistola de serviço ao invés de usar a arma de choque, processou o fabricante do Taser por induzi-lo ao erro em confundir ambas as armas
- Duas irmãs que processaram uma equipe médica que socorreu e salvou sua mãe durante um procedimento simples que deu errado, alegando que aquilo teria traumatizado A ELAS
- Um indivíduo atingido por um raio enquanto estava no estacionamento de um parque durante uma tempestade processou o parque por não tê-lo alertado para o risco que corria
- Um juiz que teve uma calça perdida na lavanderia processou-a em 65 MILHÕES de dólares em indenização

Divertidas também são os casos falsos que circulam por aí, inclusive em português. O site alerta pra não se espalhar estas versões, até porque a realidade sempre acaba superando a ficção em termos de absurdo.

E falando em ficção, vamos ao Framboesa de Ouro .Criado por um crítico de cinema nos anos 80, o “Golden Raspberry Award” ou “Razzie Award”  é um contraponto ao Oscar, e anualmente escolhe os piores em diversas categorias do cinema americano. O que começou como uma brincadeira entre os críticos cresceu e ganhou tanta notoriedade quanto o principal prêmio cinematográfico. Tradicionalmente entregue um dia antes da cerimônia do Oscar, anualmente as pérolas que Hollywood produz às toneladas recebem seu merecido prêmio em diversas categorias. Como no Festa da Academia, há também uma cerimônia, e às vezes o “premiado” ainda tem a coragem de ir pegar o prêmio, como foi o caso de Halle Berry em 2005, que foi pessoalmente pegar seu troféu por pior atriz em “Mulher Gato”, ou Sandra Bullock por “Maluca Paixão” em 2010. Um dos atores mais laureados é o veterano Sylvester Stallone, que já soltou cobras e lagartos contra os críticos da Razzie. Até Presidentes Republicanos concorreram e ganharam o prêmio de pior ator, como Ronald Reagan pelo conjunto da “obra” e George W.Bush pela sua participação no documentário “Fahrenheit 911”.

Na última premiação o grande “vencedor”  foi “O Último Mestre do Ar” como pior filme, roteiro,diretor e ator coadjuvante, seguido de “Sex & the City 2”, como pior atriz principal (todas as quatro) e pior continuação. Considerando a quantidade de filmes ruins que estão sendo lançados este ano, na premiação dos próximos amos a disputa será cada vez mais acirrada…

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Ruy Castro – Ele é Carioca

Texto de minha autoria originalmente publicado no site Mínimo Múltiplo pra tirar a poeira das prateleiras da Blodega

Antes de tudo, uma rápida correção: na verdade, Ruy Castro é mineiro de nascença, mais especificamente de Caratinga. Mas se tornou tão – ou mais – carioca quanto qualquer um nascido no Rio de Janeiro, tanto que recebeu o título de cidadão benemérito da Cidade Maravilhosa. Isso, para mim, já é mais do que suficiente para justificar o título deste texto, que é uma óbvia alusão ao nome de uma famosa música da bossa nova (a qual também empresta seu título a um dos livros de Ruy). Além disso, ele certamente já fez mais em prol da imagem carioca do que qualquer governante ou burocrata nas últimas décadas, e, apesar de Garotinhos, Rosinhas e Maias, para ele o Rio continua lindo. Pode se considerar Ruy Castro o mais carioca dos escritores mineiros, e olha que não falta séria concorrência nessa área: Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos… Ruy, porém, conta com a nítida vantagem de ainda estar vivo.

Meu primeiro contato com o jornalista e escritor foi justamente em matérias de revistas como “Set” e “Playboy”, em que seus textos, cheios de informação e humor, se destacavam dos demais. Em uma dessas matérias na “Set” sobre críticos de cinema, aliás, saiu a informação de que ele nunca fora pegar o diploma de jornalista, um detalhe pitoresco e digno de se tornar lenda. Logo seu nome me chamaria a atenção e, onde quer que ele estivesse impresso, já era por mim considerado certificado de qualidade. Passei a conferir livros e antologias cujas organização e tradução ficaram em suas mãos, e, assim, em minha juventude fui apresentado às crônicas e contos de Woody Allen para a New Yorker em “Cuca Fundida”, aos escritos de H.L. Mencken em “O Livro dos Insultos” e aos bombons com fel das tiradas witty de “O Melhor do Mau Humor”, por obra e graça de Ruy Castro. E daí para ler os livros de sua autoria foi um pulo, um vício saudável que mantenho até hoje.

Mais uma breve retificação, antes de continuar: Ruy Castro não terminou o curso de jornalismo – na realidade, ele levou bomba, concluiu Ciências Sociais, mas de fato nunca quis saber de pegar o diploma. Mas diploma não lhe fez muita falta, não. Atuando na imprensa desde 1967, quando começou como um simples foca no Correio da Manhã, foi picado pela mosca das letras após Paulo Francis o chamar como colaborador fixo para o Correio e para a famosa, mas efêmera, revista Diners. A partir daí, é história, e nessas mais de quatro décadas ele já passou por diversos jornais e revistas, muitos já extintos, e conviveu com monstros das letras, como Francis. E foi “culpa” de Francis também o estilo de escrever de Ruy, pois este costumava assinar apenas os textos sérios e usar pseudônimos para os textos mais fanfarrões, até o dia em que o amigo perguntou o porquê, já que os de humor eram justamente os melhores. Então, em pouco tempo, os textos “sérios” de Ruy foram perdendo a sisudez e se deixaram contaminar pelo bom humor que lhe é peculiar, “como um Dr. Jeckyl, quando passou a se transformar em Mr. Hyde mesmo sem beber a gororoba”, diz ele em “O Leitor Apaixonado” num texto justamente sobre Francis.

E seu estilo é bem característico, sempre com uma alegoria ou metáfora inteligente e hilária para soltar no meio do texto, fazendo citações e referências sofisticadas sem se tornar afetado ou esnobe, enquanto nos fornece uma torrente de informações. Tudo sem que nos cansemos ou percebamos, de tão leve e agradável que se torna a leitura. É como ouvir uma boa história em uma mesa de bar enquanto bebericamos um chope estupidamente gelado. Ou, em suas palavras, quando se refere às crônicas, em sua coletânea “Ungáua!”: “A crônica, ainda mais quando praticada por cariocas, é o feudo da conversa fiada e nela, todo assunto é válido, desde que irrelevante”.

O grande público, contudo, conhece mais Ruy Castro por suas ótimas biografias. No início dos anos 1990, lançou o livro-reportagem “Chega de Saudade – A História e as Histórias da Bossa Nova”, conseguindo a proeza de ressuscitar o interesse pela então combalida e esquecida Bossa Nova, a deliciosa e sofisticada mistura de samba e jazz que embalou os jovens cariocas no final dos anos 1950. Com o livro, trouxe à tona a história dos precursores e protagonistas daqueles anos dourados da música brasileira. Pouco depois, escreveu “O Anjo Pornográfico – A Vida de Nelson Rodrigues”, mostrando que a vida do mais imoral dos escritores brasileiros foi tão ou mais emocionante e trágica quanto sua obra. Com esta biografia do “reacionário”, Ruy alcançou o mesmo feito conseguido com a bossa nova, ao despertar no público da nova geração o interesse pela obra de Nelson. Além da biografia, também foi responsável por organizar e relançar a obra literária do autor de “Vestido de Noiva”.

Antes de se dedicar de corpo e alma a um único biografado, Ruy presenteou o público com “Saudades do século 20”, uma declaração de amor (e de profundo conhecimento) à cultura americana dos anos 1920 aos 1960, em que aborda de forma breve a biografia de 13 personalidades da música, literatura e cinema americanos daquele período.

Na área de biografias, Ruy ainda reconstituiria a trajetória do jogador Garrincha e da “pequena notável” Carmen Miranda. Mas ambos foram um parto para o autor, por motivos diversos. No caso de “Estrela Solitária – Um Brasileiro Chamado Garrincha”, de 1995, a editora Companhia das Letras enfrentou um processo movido por parentes de Garrincha, menos por se sentirem ofendidos do que por oportunismo financeiro de algum advogado, mal que assolou Garrincha até depois de morto. O processo proibiu o livro de circular por um bom tempo, até a editora conseguir um acordo financeiro que satisfizesse as partes. Por esse episódio, Ruy nunca perde oportunidade de, em diversos artigos, demonstrar sua insatisfação e repúdio perante a sanha monetária de descendentes de mortos famosos.

“Carmen – Uma Biografia” igualmente demorou para sair. Uns dez anos, por sinal. Foi lançado em 2005, e, nas dedicatórias, havia uma em especial para alguns médicos, sem os quais aquele livro não seria possível. Isso se explica pelo fato de Ruy ter diagnosticado um câncer na garganta enquanto escrevia a biografia, e durante sua conclusão, passou por um severo tratamento. Como um de seus ídolos no cinema, Humphrey Bogart, que teve câncer no esôfago, Ruy não se entregou à doença. Além de sua persistência e dedicação ao trabalho, porém, tinha décadas de avanços na medicina a seu favor, o que lhe permitiu sobreviver à doença e ao tratamento e finalizar o livro. “Carmen salvou minha vida”, costuma afirmar.

Célebre por suas biografias, Ruy é prolixo o bastante para não se resumir a elas, mesmo porque sempre jura de pés juntos nunca retornar a uma enquanto conclui outra. Escreveu romances, como “Bilac vê estrelas” e “Era no Tempo do Rei”, mas seus textos são, na maioria, dedicados às suas paixões: música, literatura, cinema. E futebol, obviamente. Alguns de seus artigos para jornais e revistas já foram reunidos em antologias. Sobre música brasileira e bossa nova, temos “A Onda que se Ergueu no Mar”, meio que complementando o “Chega de Saudade”. Sobre música, principalmente americana, “Tempestade de Ritmos”. Cinema? “Um Filme é Para Sempre”. Faltou literatura? Não mais: “O Leitor Apaixonado” está aí nas livrarias. Ainda temos Ipanema em “Ela é Carioca”. E o futebol, além de “Estrela Solitária”, está nas páginas de “Flamengo – O Vermelho e o Negro”. Acha pouco ainda? Procure em jornais como a “Folha de São Paulo” ou revistas como a “Brasileiros”, que você terá uma boa chance de encontrar algum texto de autoria de Ruy, desde uma breve crônica até uma extensa matéria sobre algumas de suas paixões.

Enquanto esperamos o que Ruy Castro ainda aprontará, sugiro aos leitores irem tomando intimidade com seu trabalho lendo algumas de suas crônicas disponíveis na internet. Em algumas, quase dá pra sentir a maresia de Ipanema. Basta o jeitinho de ele andar – ou escrever.

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Mandrake


A Grande Arte de Rubem Fonseca na Tela Pequena

Na minha época de pretenso maldito e misantropo em progresso, uma de minhas leituras favoritas eram os livros e contos de Rubem Fonseca. Mesmo que você não sinta vontade de que a humanidade se exploda, tal obra é recomendadíssima. Contista de mão cheia, a maioria dos seus contos são policiais, fruto de sua experiência profissional na Polícia Civil. Cheios de detalhes do submundo carioca e recheados de violência crua, normalmente os personagens de suas histórias são cínicos, hedonistas e intercalam palavrões com citações eruditas em diálogos insóllitos. Contos como “O Cobrador” e “Feliz Ano Novo” mostram marginais e psicopatas cometendo assassinatos com requintes de crueza, e “225 Gramas” é um dos mais perturbadores de sua obra, ao descrever um último encontro inusitado entre um homem e uma antiga amante durante uma autópsia. Mas há alívios cômicos, e “Corações Solitários” ou “AA” são exemplos deliciosamente irônicos

Mesmo não costumando retornar personagens, alguns acabam voltando em contos e romances. E um deles é o advogado criminalista Mandrake, protagonista de alguns contos e romances. Tal advogado, em sociedade com um judeu chamado Wexler, costuma resolver os cu-de-boi que seus clientes abastados se enfiam e que, por um motivo ou outro, não podem apelar para a polícia. Transitando livremente entre o jet-set carioca, delegacias e ambientes pouco recomendados, suas paixões são os charutos, os vinhos e as mulheres. Um dos romances de Rubem Fonseca protagonizado por Mandrake, “A Grande Arte”, inspirou o filme homônimo de Walter Salles. No romance, para se vingar de um grupo de assassinos habilidosos no uso de facas de combate, o advogado aprende a arte do percor – perfurar e cortar – e passa a perseguir aqueles que o feriram. Pessoalmente sempre gostei da primeira metade do romance, mas sempre me deu a impressão que a história se torna complexa e perde rumo e ritmo.

Tergiverso, todavia. O motivo de abordar a obra do inacessível escritor avesso a badalações e entrevistas é o lançamento tardio em DVD da excelente série de TV baseada no personagem Mandrake, produzida pelo canal HBO e a produtora Conspiração Filmes em 2005. Tecnicamente impecável, filmada em película e com trilha sonora calçada no Jazz (o tema de abertura é “Work Song”, de Charles Mingus), a aparente proposta da série foi trazer um clima de filme noir a histórias passadas, em sua maioria, no Rio de Janeiro. Longe do lugar-comum de mostrar o clima alegre e ensolarado dos cariocas, a fotografia escura dá o tempero de literatura pulp, e a produção conseguiu criar uma linguagem de apelo universal, mas sem perder a identidade brazuca, com temática adulta, apelo erótico e alguma violência.

A direção da maioria dos episódios ficou a cargo do filho de Rubem, José Henrique Fonseca, que assina o roteiro em parceria com Felipe Braga e Tony Belloto. Tais roteiros são fiéis ao espírito do personagem, claramente fanfarrão, bom vivant, cara de pau e mulherengo, mas que alivia seu karma ajudando gratuitamente quem precisa de apoio jurídico mas que não pode pagar. A influência da literatura policial noir é sentida em episódios como “Eva”, cujo roteiro é claramente inspirado em “O Sono Eterno”, de Raymond Chandler. Mesmo baseado nos contos do pai, a maioria das histórias são originais, mas mantendo algumas referências, como no episódio “Dia dos Namorados”, que referencia um dos contos publicados no livro “Feliz Ano Novo”, na qual um diplomata se mete em uma enrascada digna de Ronaldo Fenômeno. E em quase todas há alguém importante ou bem financeiramente que está em uma situação de chantagem ou extorsão, e Mandrake atua muitas vezes como detetive, um Phillip Marlowe com mais malandragem e gingado.

Não preciso dizer que o ator Marcos Palmeira ficou bem à vontade no papel-título, o maior consumidor de Periquita (o vinho português, mente poluída) do Rio de Janeiro. Não é para menos, já que muitas beldades, com perdão do trocadilho, acabam na vara do advogado. E que beldades. Ao longo dos treze capítulos, criaturas mimosas como Suzana “Tiazinha” Alves, Gisele Itié, Gianne Albertoni, Bruna Lombardi, Monica Martelli e Erica Mader se deixam levar pela conversa mole do advogado, o que enche a testa de Berta Bronstein (Maria Luisa Mendonça) de tanta ponta que dá pena. E não preciso nem falar que ficam bem desinibidas durante os episódios.

Outros destaques do elenco são o sócio Wesxley (o sempre ótimo Mielle) e o antigo amigo de infância, sócio involuntário em triângulo amoroso e policial Raul (Marcelo Serrado), que ajuda o amigo quando este se mete em uma enrascada na qual nem sua cara de pau consegue tirá-lo. Certamente é dele os mais engraçados diálogos, já que, ao contrário do amigo, Raul é tão fino quanto parede de castelo, inclusive com as mulheres. Curiosamente o hoje famoso comediante Marcelo Adnet participa como um jovem estagiário de Direito.

Na época, a HBO produziu 8 episódios, e posteriormente filmou mais 5. Infelizmente após estes 13 episódios nenhum material foi produzido, e um eventual lançamento em DVD ficou apenas na promessa, sendo efetivado só agora, e no mercado estrangeiro. Mas nada que um cartão de crédito internacional não resolva, além de, é claro, as opções alternativas disponíveis na grande rede mundial de computadores. Uma boa pedida para quem gosta de boas atrizes pagando peitinho histórias policiais.

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O Mundo Surreal dos Produtores de Hollywood

Ou Como Um Fim de Semana Pode Estragar um Filme

Neste fim de semana estreou o novo filme do “visionário diretor de 300” Jack Snyder, a ficção “Sucker Punch – Mundo Surreal”, cuja história da protagonista Baby Doll mistura elementos reais de suas desventuras em um manicômio com imagens criadas em sua psique, com cenas de ação que se passam em uma realidade alternativa Steampunk/Dieselpunk, com beldades mandando bala em nazistas ou samurais gigantes, um deleite visual e uma narrativa que remonta a linguagem dos gibis, bem ao gosto do diretor, e que tem criado bastante expectativa no meio nerd desde que os primeiros trailers apareceram na rede. Afinal, o que mais quer um jovem nerd tarado do que ver um bando de gostosas em roupas fetichistas trocando tapa e tiros com caras maus? Nem precisava de história mais elaborada:)

Comentários jocosos à parte, a notícia é que a estreia desse filme esteve aquém do esperado, e o resultado em vil metal ficou abaixo de produções mais modestas, como a sequência do filme “Diário de um Banana”. Para quem conhece a mecânica de Hollywood, esse tipo de resultado costuma colocar a reputação do diretor em cheque, o que pode ser decisivo para definir sua participação em projetos futuros e o seu poder de decisão criativa em tais projetos. Famoso por impor suas idiossincrasias e estilo em filmes como “Watchmen”, preocupa os fãs a possibilidade de produtores imporem sua visão de projeto em detrimento das ideias de Snyder no seu futuro filme que retomará a franquia do Superman no cinema. E tudo que ninguém quer é um projeto natimorto como foi o “Superman Lives” nos anos 90.

Porém não é do filme novo do Snyder que quero falar, até porque ainda não tive o prazer de assisti-lo ainda, nem tampouco dissertarei acerca do impacto da bilheteria em seus projetos futuros. Muitos já devem ter se perguntado como os produtores de um filme que estreou há três dias já o consideram um fracasso de bilheterias.

Antes uma rápida lição de história de Hollywood. Em décadas passadas, o esquema de distribuição de um filme era bem diferente do que é visto atualmente. Filmes costumavam estrear em poucas salas e em poucas cidades, e aos poucos o filme era distribuído para outras praças, ao longo de semanas. Nesse meio tempo o público que o assistiu fazia o boca a boca e críticas favoráveis ajudavam na divulgação do filme, e se demorava semanas ou meses até saber se um filme seria um “sucesso” ou um “fracasso” de bilheterias. Também preciso lembrar que nesses tempos os filmes não custavam tanto, até porque não havia um pesado esquema de marketing, salários de mega estrelas ou efeitos caríssimos para inflacionarem o orçamento. E por incrível que pareça, anúncio em TV era heresia numa época em que os estúdios consideravam a televisõ como o grande adversário das bilheterias.

Mas isso mudou ao fim dos anos 70, quando filmes como “Tubarão”, “Star Wars” e “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” ajudaram a moldar o modelo de negócios que se tornou Hollywood nos anos recentes. Os produtores e executivos de estúdio estavam tomando mais uma vez as rédeas do processo criativo, que nos anos 70 esteve nas mãos dos diretores. E como sabemos, executivos de estúdio lidam com cinema com a mesma paixão que lidariam se estivessem gerenciando uma rede de supermercados ou um puteiro: visando exclusivamente os número$$$.

Quem começou pra valer com essa putaria foi a Paramount, que nessa época estava sob o comando de ex-executivos de TV. Eles impuseram um critério bem simples para a produção de um filme: se você não pudesse resumir o conceito do filme em um comercial de TV de meio minuto, esse filme seria inviável, já que sua divulgação massiva seria impossível. Era o nascimento dos filmes-eventos, ou “hight-concept”, filmes de premissa simples e visivelmente caça-níqueis. O público-alvo também mudou nessa época, e as grandes produções se voltaram para a parcela mais jovem do público. Os outros estúdios foram na onda, e os custos se tornaram astronômicos, em parte porque os esquemas de distribuição e divulgação para criar a expectativa no público e lançar milhares de cópias em um fim de semana podem facilmente chegarem a um quinto do orçamento total de um filme de dezenas, por vezes centenas de milhões de dólares. Os estúdios e os empresários de atores, principalmente a agência de talentos CAA, de Michael Ovitz, criaram uma ciranda inflacionária que catapultou o cachê dos atores, criando o star-system vigente até hoje.

Com um orçamento tão alto, a pressão por um retorno financeiro é grande, o que dá pouca margem a riscos, riscos estes que incluem ideias novas, ousadas e não testadas antes com o grande público. Grandes produções se prendem a fórmulas consolidadas de sucesso garantido. E, no frigir dos ovos, nesse esquema o resultado no lançamento do filme em uma sexta-feira já é o termômetro que define o sucesso ou fracasso do empreendimento. Antes das bilheterias fecharem na sexta a noite, o produtor já sabe se haverá um retorno financeiro ou se ele terá que fritar os bagos do diretor pra arcar com os prejuízos.

“Prejuízos”, na verdade é uma palavra forte, e mal usada. Raramente um estúdio tem real prejuízo com um filme, na prática, apenas não lucra o que almeja. A polêmica e influente crítica americana Pauline Kael escreveu, há muitos anos,  um artigo onde disseca em pormenores o esquema mercadológico dos estúdios de Hollywood. Esse artigo pode ser encontrado no livro “Criando Kane e Outros Ensaios”, o qual infelizmente não tenho em mãos para maiores detalhes sobre o artigo em questão.

Em linhas gerais, ela mostra que, antes mesmo do filme ser concluído e montado, o estúdio negocia uma série de acordos com redes de distribuição de cinema, redes de TV aberta e por assinatura, distribuição de home vídeo, além de licenciamentos com produtos derivados, como brinquedos ou jogos eletrônicos. Em suma, segundo Pauline e à época em que escreveu o artigo, o filme já tiraria seu lucro antes do pipoqueiro estourar o milho na pré-estreia do filme.

Não sei se com as cifras de hoje essa verdade permanece atual, mas com certeza o sistema não deve ter mudado muita coisa, e quando algum produtor chora suas pitangas amargando uma fraca bilheteria, dificilmente o estúdio ficou no prejuízo, e sim não lucrou tanto quanto planejava. É idêntico aquela empresa em que muitos de nós trabalhamos, que quando continua lucrando, mas não no ritmo que almejava ou projetara, já fala em “prejuízo”. E o que é pior, já ameaça soltar o temível passaralho. Te cuida, Jack Snyder. This is Holywood!!!

A Origem de “A Origem”

Christopher Nolan, Carl Barks e a Teoria do Remix

Estava eu aqui mais uma vez paquerando essa maleta do filme “A Origem” à venda na Amazon inglesa quando me lembrei de concluir este texto que está na minha pilha de pendências há alguns meses, desde que assisti ao filme de Christopher Nolan.

Quando o filme “A Origem” estreou, gerou-se um hype instantâneo em torno do filme, que caiu nas graças do público nerd imediatamente e produziu um entusiasmo que se vê cada vez com menos frequência. Infelizmente não pude assistir no cinema, mas logo que saiu em DVD assisti ao filme. Caso não saiba ainda do que se trata, a história narra as aventuras de um grupo de golpistas que possuem acesso a tecnologias e técnicas que permitem acessar o subconsciente das pessoas através de seus sonhos, e eles usam isso para roubar segredos industriais e empresariais. Porém eles entram em um trabalho mais complexo no intuito de inserir uma ideia em um futuro herdeiro de um império comercial. Chegou a concorrer ao Oscar, mas ganhou apenas em categorias técnicas.

Muito legal, mas não achei tão complexo quanto se falava que não desse para acompanhar numa boa. Claro que é necessário atenção para não se perder nas linhas narrativas inseridas em camadas, mas é tranquilo para os nerds mais praticantes que assistem a coisas como Primer, Donnie Darko ou Amnésia – este último, por sinal, do próprio Nolan.

Todavia, logo surgiu a informação, imediatamente replicada instantaneamente na Internet de que o filme era um “plágio” de uma história do Tio Patinhas!

Pior que quando mencionaram isso, imediatamente me lembrei da história e de a lera em um dos quadrinhos Disney que costumo comprar para meu filho, já que a Editora Abril vem republicando velhas histórias na série “Disney Big”, incluindo clássicos do Carl Barks e as releituras de Don Rosa. Claro que fui atacar a pilha de gibis do pimpolho para conferir o “plágio”.E essa história saiu aqui com o título “Uma Vida de Sonho”, republicada na edição 3 da série “Disney Big”, lá pelo segundo semestre de 2009. Na história, escrita por Don Rosa, os Irmãos Metralha roubam uma máquina do Professor Pardal que os permite entrar no sonho de outra pessoa, e tentam usar a máquina para chafurdar os sonhos de Patinhas com o intuito de roubarem a combinação do cofre da Caixa Forte. Donald se vê obrigado a entrar nos sonhos do velho muquirana para impedir o plano dos bandidos. Para quem quiser conferir, há a versão online, em inglês.

A bem dos fatos, o tema do filme está longe de ser original. Sem apelar para o Google ou o IMDB, posso lembrar de algumas histórias que utilizam o elemento dos sonhos como pano de fundo. Nos quadrinhos há um dos pilares dos quadrinhos adultos americanos, a série Sandman, do Neil Gaiman, que narra as aventuras de um dos Perpétuos, Morfeus, o senhor dos sonhos. No meio dos anos 80, no meio do projeto Novo Universo da Marvel havia um personagem que agia dentro dos sonhos, o Máscara Noturna. E em filmes, lembro de um com Dennis Quaid (A Morte nos Sonhos, 1984) no qual seu personagem podia entrar nos sonhos de outras pessoas, e que se envolve em uma conspiração envolvendo o presidente dos EUA e seus pesadelos com uma guerra nuclear. Posso citar também o anime Paprika, de 2006, que aborda também esse tema. Se procurar mais a fundo, com certeza haverá exemplos de histórias no cinema, TV, literatura e quadrinhos que tenham alguma similaridade com a história de “A Origem”. Mas isso não tira os méritos do diretor e roteirista do filme. Au contraire, é louvável se pegar uma história ou uma temática já explorada e lhe dar um enfoque novo, indo de encontro ao gosto popular e a crítica especializada.

No frigir dos ovos, dificilmente se consegue criar algo completamente original. Todo processo criativo trará em seu bojo toda a bagagem cultural que o autor recebeu durante sua formação, e este se deixará influenciar de forma consciente ou não. Aqui já falei brevemente sobre alguns elementos de quadrinhos que os criadores de filmes se inspiraram. As aventuras dos patos escritas pro Carl Barks são excelentes histórias, e Don Rosa procurou seguir uma cronologia delas, inclusive criando “continuações” para algumas. E muitos cineastas devem ter lido bastante Tio Patinhas nas últimas décadas. Ou ao menos assistido a série animada “Duck Tales”, cujas histórias são baseadas em muitas das aventuras criadas por Carl Barks.

Spielberg e Lucas devem ter lido muito gibi quando jovens. Dois exemplos famosos dentro das aventuras clássicas do Tio Patinhas desenhadas e escritas por Carl Barks que inspiraram  filmes são as cenas dos dois primeiros  do personagem Indiana Jones, confessamente inspiradas em cenas de histórias do pato em busca de civilizações e cidades perdidas entulhadas de tesouros. A armadilha da pedra que sai rolando em “Os Caçadores da Arca Perdida”, a qual é citada ad infinitum em filmes e desenhos, tem origem em uma história de Tio Patinhas, intitulada “As Cidades do Ouro”. Já a mina inundada em “Indiana Jones e o Templo da Perdição” também tem inspiração em outra história de Carl Barks, “As Minas do Rei Toleimon”. Coincidentemente, ambas as histórias foram republicadas recentemente pela Abril no “Disney Big” 7, lançado em fins de 2010, e que deve ainda estar nas bancas.

Nada se cria, tudo se copia – incluindo esse ditado. E esse é o mote do projeto Everything is a Remix. O enfoque é cultura em geral, mas o segundo vídeo que caiu na rede desse projeto disserta acerca de cenas, histórias e filmes recentes que se referem a filmes anteriores, também falando acerca da estrutura básica da maioria das histórias estarem dentro dos parâmetros definidos pelo mitólogo Joseph Campbell.

Na atualidade quem é um mestre em criar colcha de retalhos com referências pop é o Quentin Tarantino, cujas referências costumam pescar elementos dos mais heterogêneos. Se limitarmos ao cinema, teremos referência a filmes de Honk Kong de artes marciais, filmes de Samurai, faroestes, cinema explotation e por aí vai. Fora as referências a outros ramos da cultura pop, como séries de Tv e quadrinhos.. Inclusive no projeto acima citado foi liberado um outro vídeo que mostra as cenas dos filmes que são “citadas” em Kill Bill.

Em suma, é  quase impossível sair algo completamente original, ainda mais nesses tempos em que  a indústria cultural pouco ou nada ousa em seus lançamentos, preferindo garantir o retorno financeiro  investindo em ideias consolidadas junto ao público. Ao menos é um passatempo divertido pescar tais referências nos filmes que nós, chatos, assistirmos

Arsenal Hollywood


Pólvora seca e criatividade

Armas de fogo no cinema e TV parecem exercer um fascínio estranho, criando uma mística em torno de si e dos personagens a elas associadas, como a Walther PPK de James Bond ou o revólver Smith & Wesson de Dirty Harry. E o cinema costuma explorar bem esse fascínio, tornando a arma um coadjuvante importante na história. Claro que também costuma exagerar o efeito das armas para melhor apreciação do público, com metralhadoras com munição quase infinita ou gente voando após receber um tiro – nem vou mencionar a péssima pontaria dos bandidos.

Muitas vezes, para efeito dramático ou contextualização na trama, as armas acabam sofrendo uma “maquiagem”. E nesse primeiro texto resolvi abordar alguns desses exemplos de armas que foram modificadas, customizadas ou praticamente recriadas em alguns filmes, e que se tornaram virtuais coadjuvantes do mocinho. Na verdade decidi escrever esse texto porque meu filho me encheu de perguntas sobre uma arma que tinha bastante destaque dentro da trama de uma série que ele está acompanhando. Daí me lembrei desse mote – armas e cinema -  que estava acumulando poeira na pilha de ideias não desenvolvidas. Mas me lembrei porque ela estava na fila de espera: o tema rende pra caramba. Pra esse primeiro texto me resumi a armas de fogo  “inventadas” do cinema. Só esclarecendo, evitarei armas totalmente fictícias, abordando apenas armas existentes e funcionais que foram adaptadas pelos armeiros de Hollywood e que, por um motivo ou outro, acabaram ganhando destaque. Por isso, aqui não teremos nenhuma BFG- 9000 que dispara rajadas de energia ou aquela arma maluca que mais parece um canivete suíço que Gary Oldman usa em “O Quinto Elemento”.

O Agente da U.N.C.L.E
Arma: U.N.C.L.E Special

Na série de TV de espionagem, famosa nos anos 60, narrava as aventuras dos agentes Illya Kuryakin e Napoleon Solo, em uma época na qual histórias de espionagem estavam em alta no cinema e na TV. E a melhor parte destas histórias eram os “gadgets” e as armas especiais dos agentes, e um dos destaques da série era justamente uma pequena pistola portada pelo protagonista, a UNCLE Special, que de pequena arma facilmente portável podia, em questão de segundos, se transformar em uma carabina com mira telescópica e maior poder de fogo.

Faça Você Mesmo: Na verdade a arma era uma pistola alemã Walther P-38, cujo cano foi diminuído e aberto rosca para receber acessórios como quebra-chamas ou silenciador, e que se transformava em uma pequena carabina automática quando lhe eram acoplados diversos acessórios, como um prolongamento do cano, mira telescópica, coronha e um carregador maior. No filme “Corra que a Polícia Vem Aí 2 ½”  há uma cena que parodia essa prática, na qual o personagem de OJ Simpson saca uma pistola e vai lhe acrescentando acessórios, e por fim acaba montando um canhão, literalmente. Reza a lenda que as autoridades procuraram os produtores da série por suspeitar que estivessem modificando ilegalmente as armas para dispararem rajadas, e estes precisaram provar que era tudo “de mentirinha”.

Choque de Realidade: Seria até possível fazer uma arma com tais características. Aliás, a provável inspiração para esta arma poderia ser as primeiras pistolas semi-automáticas, que costumavam ter grandes dimensões e tinham como acessório um coldre-coronha que poderia ser encaixado na arma e se tornar uma coronha, transformando-a em uma pequena carabina, e em alguns casos a arma poderia prever o regime de tiro automático. A própria P-38, durante a fase de protótipo, tinha uma variante que usava o coldre-coronha, mas que nessa época era algo em desuso. Em tempos mais recentes, algumas pistolas com recurso de rajadas tinham como acessório uma coronha destacável, como a Beretta 93R ou a VP-70M.

Filme: Aliens – O Resgate
A Arma: Fuzil de Pulso M-41A
Na segunda sequência da franquia Aliens, um grupo de Marines vai investigar o desaparecimento de colonos no planeta LV 246. Os fuzileiros portam uma série de armas de fogo futuristas, como a metralhadora leve M56 – uma velha MG42 alemã acoplada a um sistema de estabilização de steadycam – e o lança-chamas portátil M240. Mas a que rouba a cena é arma de infantaria padrão,  o fuzil M41A, capaz de carregar 99 projéteis 10mm e disparar várias granadas 30mm, carregáveis em um sistema “pump”, similar a uma espingarda de repetição.

Faça Você Mesmo: Para simular esta arma futurista, os armeiros de Hollywood combinaram uma metralhadora Thompsom – sim, aquela dos gângsters – com partes das espingarda de repetição Remington 870 e SPAS-12, que fazia as vezes de lança-granadas. O conceito da arma seria uma evolução natural do tradicional M-16 com lança-granadas (de único tiro) M-203 acoplado. Tal arma pode ser vista nas mãos de Arnold Schwarzenegger no filme “O Predador”, entre outros tantos.

Choque de Realidade: Apesar de ainda não haver uma arma similar atualmente em serviço, desde os anos 90 que protótipos tem sido desenvolvidos e testados, todos com características similares à arma do filme: um conjunto híbrido capaz de disparar munição simples de pequeno calibre concomitante a munição de grosso calibre com capacidade explosiva ou de fragmentação, similar a granada mas com características mais avançadas, como por exemplo os protótipos que participaram do programa Objective Individual Combat Weapon. Caso queira montar o seu em casa para combater eventuais invasões de Aliens, boa sorte.


Filme: Predador
Arma: “A Indolor”

No primeiro filme “Predador”, um dos soldados da força comandada por Arnold – o ex-lutador Jesse Ventura – usa uma espantosa arma de canos múltiplos batizada de “a indolor”, uma metralhadora de canos giratórios com munição alimentada por fita e carregada em uma enorme mochila às costas do atirador. O efeito é bem devastador nas poucas cenas em que a arma aparece no filme. Na recente sequência “Predadores”, um dos personagens aparece com uma arma similar, certamente uma referência ao primeiro filme.

Faça Você Mesmo: Na verdade essa arma faz parte da família de metralhadoras e canhões produzidos pela GE baseados no princípio Gatling, uma solução mecânica anterior ao advento de armas automáticas, que usava múltiplos canos em movimento giratório produzido manualmente para atingir uma grande cadência. A GE atualizou o conceito no pós-segunda guerra, substituindo a tração manual por um motor elétrico e produziu armas capazes de disparar até 6000 tiros por minuto. Porém tais armas foram concebidas para equipar aviões de combate. A versão 20 mm, denominada M61 Vulcan, equipa boa parte dos caças de fabricação norte-americana. Já as versões menores, como a série M134 Minigun , utilizam munição de fuzil 7,62mm, são destinadas a equipar helicópteros ou veículos terrestres, sendo capaz de cadências de tiro entre 2000 e 6000 disparos por minuto.

Choque de Realidade: Consta que na década de 1970 as Forças Especiais americanas teriam testado o conceito dessa arma portada por um único usuário, que se mostrou impraticável. O que aparece no filme apenas uma visão maluca do produtor Joel Silver, que ao ver a arma original praticamente obrigou os fornecedores de armamento desenvolverem uma versão “portátil”. Na prática seria quase impossível tal arma ser usada. Primeiro pelo próprio peso do conjunto arma, munição e baterias. Depois, com uma cadência tão alta, por mais que o soldado levasse munição, dificilmente conseguiria sustentar os disparos por mais que alguns segundos. E por fim o recuo deve ser brutal. Basta imaginar uma arma que dispara 100 vezes em um segundo, grosso modo seria equivalente a 100 vezes o recuo de um disparo de fuzil FAL, o que torna impraticável seu disparo sem o apoio de um reparo adequado. A não ser que você seja um andróide exterminador modelo T-800.Tecnicidades à parte, as cenas com ela “atuando” são bem convincentes.



Fime: Inferno Vermelho
A Arma: Pistola Podbyrin 9,2 mm

Mais Arnold Schwarzenegger. O grande astro dos filmes de ação dos anos 80 interpretou um policial russo sisudo e violento no filme “Inferno Vermelho”, que precisa ir aos EUA atrás de um criminoso e se alia relutantemente à polícia local. A arma que ele usa chama a atenção, uma Podbyrin 9,2 mm, não existe. A ideia da arma seria passar uma imagem de mistério inerente aos segredos da então Cortina de Ferro, e que esta arma “desconhecida” no ocidente e é denominada Podbyrin 9,2mm, uma pistola de grandes dimensões e com um calibre capaz de rivalizar em potência balística com as poderosas Magnum americanas.

Faça Você Mesmo: Na prática, essa pistola não existe, sendo criação dos produtores do filme. A Podbyrin é uma pistola israelense Desert Eagle 357 Magnum , arma de grandes dimensões que costuma aparecer em muitos filmes de ação por ser, digamos, “fotogênica”, dada as suas dimensões e design. Ela foi modificada pelo armeiro Tim LaFrance a pedido dos produtores do filme, para lembrar uma Walther P-38 versão anabolizada, e o calibre 9,2 mm foi criado a partir do 357 Magnum. O armeiro acabou criando uma “Hollywood Eagle” com jeitão europeu, uma arma-ícone que se sai bem como coadjuvante na história.

Choque de Realidade – A arma em si não tem nenhuma característica mais notável. Todavia pistolas de grandes dimensões e de calibres extremamente poderosos, normalmente denominados Magnum, são característicos dos Estados Unidos. Muito dificilmente um país Europeu desenvolveria uma arma e um calibre tão poderoso, sendo a maioria das armas curtas europeias de uso policial e militar e voltados para pistolas de pequeno e médio porte. Tais calibres Magnum normalmente são desenvolvidos para uso em revólveres de grandes dimensões, mas alguns fabricantes desenvolveram pistolas semi-automáticas para tais calibres, que dado a seu excesso de potência e pressão geradas, demandam soluções mecânicas complexas e armas de grandes dimensões, o que nem sempre as tornam práticas para uso policial e militar, sendo mais indicadas para caça com armas curtas (ou filmes de ação). Alguns exemplos de pistolas semi-automáticas são a Automag 44, a Wildey, a LAR Grizzly, a Coonan e a série Desert Eagle.

A ideia dos produtores foi passar a imagem de antagonismo e mistério entre a velha URSS e os EUA, bem típico dos anos da Guerra Fria. Em uma das cenas do filme há até uma discussão entre o personagem de Arnold e o policial americano de James Belushi para definir qual o calibre mais poderoso, se o Pobyrin 9,2mm ou o 44 Magnum. Bobagem, cá entre nós, já que os países europeus não tem por costume desenvolver calibres de armas curtas tão poderosos. E se queriam por uma arma russa com aura misteriosa há armas reais que fariam bem o papel, como a enorme Stechkin 9mm Makarov, com capacidade de 20 tiros e de disparar rajadas. Mesmo fugindo totalmente à realidade, a arma impressiona, apesar de chatos apegados à detalhes como eu.


Filme: Robocop – O Policial do Futuro

Arma: Pistola Auto-9

Outra franquia dos anos 80, “Robocop – O Policial do Futuro”, há uma profusão de armas de fogo, algumas bem maquiadas, como os imponentes fuzis Barrett calibre .50 que são apresentados como “canhões de assalto Cobra”. Mas o destaque vai para a pistola que o personagem-título porta, denominada Auto-9, de grandes dimensões e capaz de disparar rajadas.

Faça Você Mesmo: Apesar de toda maquiagem, a arma original é realmente uma pistola capaz de disparar rajadas: uma Beretta 93R 9mm, variante automática da família de pistolas Beretta 92, a qual foi acrescentado um prolongamento do cano. Como a maioria das pistolas dessa categoria, a cadência de tiros é muito alta, daí que para melhor controle ela dispara rajadas curtas de 3 tiros.

Choque de Realidade: Mesmo com um design agressivo e futurista, a arma em si não possui nenhum aspecto de destaque, tanto que não falta na Internet quem se ofereça para customizar uma pistola Beretta para ficar idêntica ao do filme. Também não faltam armeiros ou kits mecânicos que transformam pistolas semi-automáticas em verdadeiras pistolas-metralhadoras, incluindo as da própria família Beretta. A versão 92 aparece com algumas modificações e disparando rajadas em filmes como “Equilibrium”, do qual já falei aqui antes, e quase que totalmente irreconhecível como a poderosa Lawgiver do Juiz Dredd  em “O Juiz“. De fato, a maioria das proezas balísticas são por conta do policial ciborgue e sua pontaria perfeita. Aí ter um policial biônico já são outros quinhentos. Já se passaram quase 25 anos desde o primeiro filme e ainda não temos nenhum ciborgue patrulhando as ruas para proteger e servir. Tanto que a MGM pretende refilmar a história em breve, e um dos cotados para dirigir este remake é o diretor brasilerio José Padilha, que dirigiu os dois filmes “Tropa de Elite”. Capitão Nascimento é meu pastor e frase de efeito não faltará.

Falei, falei e não disse qual a série e arma sobre a qual meu filho me inquiriu e inspirou este post. Bem, como o assunto rende, fica para o próximo post.

Oscar:Uma Rasteira Atrás da Outra

“O Oscar, Wilder!”

Todo ano a ressaca pós Oscar é a mesma, com muitos reclamando dos comentaristas da Globo, do fato do Big Brother ter mais prioridade na grade de programação, mas a chiadeira aumenta ao fim da premiação e com a lista dos contemplados, com as queixas de sempre  – boa parte com razão – sobre os “injustiçados” que não ganharam nem o prêmio de melhor lanterninha e pipoqueiro. E claro que esse ano não foi diferente, com muita gente chiando pelos poucos prêmios que “A Origem” levou ou pelo matulão vazio que os irmãos Coen carregaram para fora da cerimônia pelo remake de “Bravura Indômita”. Entre o lobby dos estúdios e os reais méritos de uma produção nem sempre prevalece o “que vença o melhor” . E claro que nos dias politicamente corretos de hoje os perdedores, mesmo se sentindo injustiçados, no máximo fazem uma cara de cu enquanto batem palmas ao concorrente vitorioso.

Mas nem sempre isso ocorreu. Aproveito o mote para relembrar uma pequena anedota sobre o folclórico diretor Billy Wilder. Na cerimônia de 1944, duas produções da Paramount concorriam ao Oscar na categoria de melhor diretor. O preferido de todos era “Pacto de Sangue”, dirigido por Billy Wilder e roteirizado por este e pelo escritor policial Raymond Chandler. Mas o estúdio preferiu apoiar “O Bom Pastor”, de Leo McCarey. E não deu outra: o Oscar foi para McCarey. Sentindo que lhe passaram a perna, o escroto do Billy Wilder não perdeu tempo: sentado no corredor, o “colega” passou ao seu lado para receber o Oscar. Sem titubear, ele põe sorrateiramente o pé no caminho, e McCarey se estabaca no chão. Em suma, o velho Wilder deu o que, no jargão dos internautas, costuma se chamar trollada. Uma pena que as transmissões televisivas do Oscar só começaram em 1953. Seria bem interessante ter visto isso ao vivo, e iria ser sucesso no Youtube.

Ah, antes que me esqueça, outra saideira sobre Wilder e o Oscar. Já aposentado em 1994, ninguém corria o risco de levar uma topada no pé de Wilder se surrupiasse seu Oscar. Após ganhar o prêmio de melhor filme estrangeiro daquele ano por “Sedução”, o diretor espanhol Fernando Trueba disse em seu discurso que agradeceria a Deus se acreditasse nele. Como não acreditava, agradeceu a Billy Wilder. Diz a lenda que, no dia seguinte, o diretor recebeu um telefonema, e ao atender, escutou uma voz afirmando “Aqui fala Deus”. Era o próprio – Wilder, obviamentre. Mesmo não participando, Billy Wilder ainda assistia ao Oscar. E continuava impagável.

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Os Mais famosos Lee

Eis aqui mais uma reedição daqueles textos de pauta estranha do tempo do Busilis.Por que diacho o pessoal adora estas listas estranhas e inúteis? Bem, bom proveito.

BRUCELEE.jpg

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Bando de Chuponas!

vampiras-lesbicas.jpg

Enquanto me desvencilho das obrigações de sempre, venho oportunamente reciclar mais um daqueles textos em formas de lista que saíam no velho Busilis. Dessa vez aproveitando a estreia recente de “Deixe-me Entrar”, que trás a jovem Chroe Moritz como uma jovem vampira na refilmagem do filme quase homonimo sueco, “Deixe Ela Entrar”. Enquanto não faço a resenha de ambos – muito bons, por sinal – vou aqui, em um gesto (gin)ecológico, aproveitar o pretexto pra por um monte de gostosa uma lista de outras vampiras femininas. Todas maiores de idade

Nem só de Nosferatus e Lugosis vive a irmandade vampirística, graças a Deus. Beldades do sexo feminino adorariam se pendurar no seu pescoço e chupá-lo até a morte. Elas já apareciam em poemas e contos anteriores ao livro Drácula, como a vampira Geraldine do poema Christabel ou a Camilla, do conto homônimo. Todas já bem saidinhas, com intenções safadas (ou safistas) com suas vítimas. Alguns bons exemplos de gostosonas de dentes afiados:

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