Cinema à Granel

Comentários, dicas e sugestões de filmes, séries e afins

Hal Needham, o Homem das Mil Façanhas

Na sexta-feira o ator, dublê e diretor Hal Needham deu baixa na carteira da vida após muitas décadas de serviços prestados ao show business. Needham era do tempo em que filmes de ação exigiam dos homens-proeza tarefas perigosas e insalubres, décadas antes da digitação gráfica e efeitos especiais substituírem manobras perigosas em veículos e aeronaves. Tanto que, em seu currículo, Needham tinha 20 filmes como diretor, 55 como ator e quase 100 como dublê, o que acrescentou a esse currículo quase 60 fraturas por encarar tarefas que outros colegas de profissão declinavam gentilmente com um “nem fodendo faço essa cena!”. Naturalmente sua dedicação ao ofício o deixou qualificado a dirigir cenas de ação como diretor de segunda unidade, e o caminho natural foi se tornar diretor de filmes. Sua carreira lhe rendeu diversos prêmios, incluindo dois Oscar.

A estreia na direção foi no filme “Smokey and the Bandit”, que no Brasil recebeu o título de “Agarra-me se Puderes”, com outro ex-dublê como protagonista, Burt Reynolds. O filme era uma bobagem inofensiva e divertida, uma desculpa para brincar com carros, praticamente um tio-avô da franquia “Velozes e Furiosos”. No filme, Bandit é contratado para apanhar uma carga de cerveja no Texas e voltar em tempo recorde. Dirigindo um Pontiac Trans-AM e guiando seu colega caminhoneiro Cledus, Bandit cruza vários Estados e desafia a lei, principalmente o xerife Buford T.Justice, cujo filho foi largado no altar e a noiva em fuga (Sally Field, pura tetéia nesse tempo) pega carona justamente com Bandit. Sob a direção de Needham, seus filmes são cheios de perseguições de carros, manobras perigosas e destruição desenfreada de veículos, o que garantiu trampo pra um monte de colega de profissão, além de elevar a profissão ao de dublê ao Estado da Arte e torná-la conhecida – e reconhecida – pelo grande público. O filme fez sucesso e gerou mais duas sequências pro cinema e quatro filmes pra TV.

Porém o meu preferido da dupla Needham/Reynolds é “Hooper – O Homem das Mil Façanhas”, em que Burt é o personagem-título, um grande e veterano dublê cujo esqueleto já está mais maltratado que amante de bandido, mas que reluta em se aposentar, mesmo tendo a possível concorrência de um ousado novato Ski (Jan-Michael Vincent, ainda um promissor ator de ação). E tome carros voando, brigas em bar (onde todos acabam amigos após destruírem o estabelecimento), conselhos médicos sendo solenemente ignorados e todos aqueles clichês que nós amamos.

Não sei até que ponto esses filmes serviram de fonte para inspirar outros filmes e séries, mas é inegável a similaridade de temas e pontos em comum: além das proezas em veículos,  tinha muita mulher bonita e cheia de amor pra dar, música country e bastante cerveja, praticamente uma ode ao modo de vida simples dos homens que viviam com o pé na estrada do sul dos Estados Unidos.Sò sei que estes filmes bobos e despretensiosos fizeram a alegria da molecada na primeira metade dos anos 80, quando eram exibidos na TV aberta, eu incluído. Até o velho Clint Eastwood embarcou nessa onda nos divertidíssimos filmes “Doido Para Brigar, Louco Para Amar” e “Punhos de Aço”, em que era um caminhoneiro e lutador de rua, e enquanto tentava faturar um trocado pra comprar bananas para seu orangotango Clyde, paquerava a cantora Country Lynn (Sondra Locke, então sua esposa) e se metia em brigas com uma gangue de motoqueiros completamente tapada.

E algumas séries de TV seguiram essa trilha – esburacada e cheia de rampas improvisadas. Só para mencionar as que ficaram mais conhecidas por aqui temos Os Gatões, onde os primos Bo e Luke Duke (e a gostosa prima Daisy) contrabandeiam uísque no Condado de Hazzard guinado seu Dodge Charger batizado de General Lee só para sacanear o xerife Roscoe B.Coltrane, que devia gastar uma fortuna pra repor sua frota de viaturas. A série foi levada ao cinema em 2005, e teve a participação de Burt Reynolds. Nessa temática, havia também a série que tinha como protagonista um caminhoneiro chamada Carga Pesada As Aventuras de BJ, que por sua vez gerou um spin-off, Xerife Lobo.

Mas a que realmente teve inspiração direta nos filmes da dupla Needham/Reynolds foi a série “The Fall Guy”, que no Brasil recebeu o título de “Duro na Queda” (eu sei, antigamente era uma beleza os títulos nacionais de séries). Como o filme “Hooper”, é uma homenagem aos dublês americanos. Na história, o dublê Colt Seavers (Lee Majors, já famoso por outra série, “O Homem de Seis Milhões de Dólares”) trabalha, entre uma produção e outra, como caçador de recompensas. Os episódios acabam brincando com o folclore dos bastidores dos filmes e a vida dos dublês, com a eventual participação de astros do cinema e TV interpretando a si mesmos. A série foi exibida entre 1981 e 1986, e no Brasil a série estreou em 1983, e era exibida na Globo nas tardes de domingo. O destaque era a enorme pickup que o personagem dirigia, uma GMC Sierra, e com a qual fazia proezas que até o diabo mais ousado se atreveria a repetir, o que ajudou a Glasslite a vender bastante brinquedo naquela época. Uma, porque a meninada queria ter os veículos que viam em filmes, e também porque acabavam quebrando tudo enquanto tentavam emular as proezas na segurança do quintal.

Para a geração de hoje, habituada ao ritmo de edição frenético e a efeitos digitais deixando a vida dos dublês mais seguras, deve ser estranho comparar um “Velozes e Furiosos” com alguns desses filmes, mas podemos arriscar que os produtores devem ter visto muitos filmes do Hal Needham e Burt Reynolds em sua infância. E cá entre nós, tem mais graça ver um carro saltando de verdade do que um efeito especial simulando tudo. E devemos agradecer ao Hal Needham e aos que nele se inspiraram.

Doc Savage e Buckaroo Banzai

Para os geeks e nerds que estão bebericando informações aqui no nosso balcão terão uma rodada por conta da casa agora sobre dois personagens que tem muito em comum, apesar das décadas que separam suas histórias. Para quem ainda não conhece, sejam apresentados à Doc Savage e a Buckaroo Banzai.

Doc Savage foi criado nos anos 30 como personagem de literatura pulp pela editora Street & Smith, sendo o principal autor o escritor Lester Dent.Clark Savage Jr foi criado por seu para ser o ápice da perfeição física e intelectual do ser humano. Sem nenhum poder sobrehumano, além de suas habilidades físicas e sua inteligência acima do normal. Cirurgião, cientista, aventureiro, pesquisador e músico, detentor de uma fortuna, uma mistura de Sherock Holmes, Tarzan e Craig Kennedy. Com a ajuda dos “Cinco Fabulosos”, amigos especialistas em diversas áreas que conheceu durante a I Guerra Mundial, combate o crime em qualquer parte do mundo. Além de ocupar a cobertura de um arranha-céu em New York, possui uma base no Ártico chamada de “Fortaleza da Solidão” (ele chegou primeiro, Kal-El, não reclame de plágio).

Suas histórias foram publicadas até fins dos anos 40, mas além das revistas pulp, Doc Savage esteve presente em programas de rádio, quadrinhos e em diversos livros publicados nas últimas décadas. Mais especificamente nos quadrinhos, o personagem já passou por diversas editoras e versões. A mais recente foi na linha “First Wave” da DC, editora que adquiriu os direitos do personagem em 2009.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em 1975 foi lançado o filme “Doc Savage – O Homem de Bronze”, produzido por George Pal e com o ator Ron Ely, famosos pela série de TV “Tarzan”. A ideia era criar uma franquia com o personagem. Nessa aventura, Doc Savage, após a morte de seu pai em circunstâncias pouco claras,  luta contra o vilão Capitão Seas enquanto procura uma civilização perdida em um país fictício na América do Sul chamado Hidalgo. O roteiro é um apanhado de diversos elementos encontrados nos romances pulp do personagem, com a história se passando na década de 30. A produção adotou uma estética camp, deliberadamente exagerada e quase caricata, remetendo a linguagem dos quadrinhos e dos pulps. Pra completar o “clima”, a trilha sonora usa marchas militares de John Phillip Sousa. Ao fim do filme, é prometida uma sequência: “Doc Savage: -The Arch Enemy of Evil”, a qual jamais foi realizada, pois a recepção do filme foi péssima, não agradando aos fãs do personagem e ao público em geral, em um ano que deu origem a era dos Blockbusters com o lançamento de Tubarão. Pessoalmente eu gosto bastante desde a primeira vez que o vi, pois continha em um único filme tudo que eu esperava em uma história de aventura, mas admito que hoje o assistiria por pura nostalgia. No decorrer dos anos, houveram diversas tentativas de se produzir mais uma adaptação do personagem, inclusive cogitou-se de ter Arnold Schwarzenegger no papel-título em uma delas, mas nada foi realizado até hoje.

Mas o arquétipo de herói de ação representado por Doc Savage influencia até hoje a maioria dos personagens conhecidos, principalmente os primeiros super-heróis de quadrinhos que surgiram no vácuo das revistas pulp. Há muito de Doc Savage no Batman e no Super-Homem, só pra ficar nos exemplos mais óbvios. Ciente da sua importância, personagens foram criados fazendo direta alusão a ele, como o Doc Brass da série “Planetary” de Warren Ellis ou “Tom Strong”, clara homenagem de Alan Moore ao personagem pulp.

E falando em personagem inspirado em Doc Savage, outro criado nos anos 80 é praticamente uma atualização do “Homem de Bronze”. Buckaroo Banzai foi criado diretamente para o cinema pelo roteirista e diretor W.D.Ritcher. Um moderno homem da renascença, Buckaroo Banzai é um multitalentoso cientista, neurocirurgião e bandleader de um conjunto de rock, e nas horas vagas combate ameaças a paz mundial. Praticamente um Doc Savage dos tempos modernos. E, igual a Doc Savage, ele é ajudado por uma equipe de talentosos chamada de “Cavaleiros de Hong Kong”.

No filme de 1984, “As Aventuras de Buckaroo Banzai”, o protagonista dá continuidade a experiência que matou seu pai e consegue atravessar uma montanha em um veículo, tornando-se intangível. Porém, fazendo isso, esse tem acesso à 8º dimensão, que serve de prisão à uma civilização alienígena oriunda do “décimo planeta”. Isso desencadeia uma trama que mistura guerra fria e invasão alienígena, e é óbvio que Banzai e seus acólitos são os únicos capazes de salvar o dia.

O elenco tem rostos que se tornariam conhecidos em filmes dos anos 80 e 90. O próprio Buckaroo Banzai é vivido pelo ator Peter Weller, que anos depois encarnaria o agente Alex Murphy na primeira versão de “Robocop” e ainda está na ativa, mais recentemente em “Star Trek – Além da Escuridão”, e entre os Cavaleiros de Hong Kong há o Jeff Goldblum e Clancy Brown, além da então jovem tetéia Ellen Barkin. No lado dos vilões temos John Lithgow e Christopher Loyd.

A narrativa do filme é deliberadamente absurda, lembrando a linguagem das histórias em quadrinhos. Talvez por isso não tenha agradado ao público em geral, mas se tornou um cult entre os nerds e geeks. O filme envelheceu ou pouco para o público atual, principalmente os efeitos especiais e a trilha sonora, mas seu estilo seria mais adequado ao atual momento do cinema americano, com produções baseadas ou inspiradas em personagens de quadrinhos.

A óbvia intenção do diretor era criar uma série com o personagem, tanto que nos créditos finais é prometida uma sequência intitulada “Buckaroo Banzai Against the World Crime League”,   mas dado o pouco êxito comercial, tal filme jamais foi feito, exatamente como ocorreu com “Doc Savage – O Homem de Bronze”. No fim dos anos 90 a Fox cogitou de criar uma série de TV, mas que não vingou. Porém o personagem apareceu em Graphics Novels, livros e videogames.

Será que um dia veremos as tão prometidas sequencias desses personagens no cinema ou na TV, uma refilmagem atualizada ou, em um delírio de fã, quem sabe os dois não protagonizem um crossover? Certamente ambos teriam muito que conversar, ao menos enquanto não estivessem salvando o mundo…

P.S: OS filmes são relativamente fáceis de se encontrar nos torrents da vida, porém legendas para o de Doc Savage são difíceis. Já o Buckarro Banzai está mais acessível aqui.

Enhanced by Zemanta

Fugindo da Ratoeira Humana

 ”Escape from Tomorrow” e o fetiche de se filmar um suspense na Disney World

Essa semana foi divulgado o primeiro trailer de um filme de suspense intitulado “Escape from Tomorrow”. Escrito e dirigido pelo estreante Randy Moore, a premissa – e o trailer – prometem: um homem de meia idade tenta manter a pose após perder o emprego e leva as filhas para um passeio na DisneyWorld, e se envolve com duas adolescentes estrangeiras, e pelo trailer, a coisa desanda  para delírios surreais e cenas absurdas. Mas o detalhe bizarro da produção é que ela foi filmada realmente no parque da Disney, de forma dissimulada e, obviamente, sem autorização alguma. Só esse fato já trouxe publicidade gratuita ao filme. Se os donos dos Vingadores vão mandar o Hulk e uma penca de advogados darem uma coça no diretor por essa traquinagem, aí é que mora o suspense. Até o momento ele só foi exibido durante o Festival de Sundance, causando boa impressão no público, mas não se sabe se conseguirá entrar em circuito comercial.

Mas, por mais estranha que seja a ideia, Randy Moore não foi o primeiro a ter vontade de filmar um suspense no parque do pai do Mickey Mouse. Sim, o mestre do gênero, Alfred Hitchcock teve a mesma inspiração nos anos 60. Em “The Blind Man”, o protagonista seria um pianista cego que recebe um transplante de córnea. E ao estrear sua visão com sua família na Disney World, ele descobre que o seu doador de córneas foi, de fato, assassinado, pois começa a ter visões do assassino e dos últimos momentos do homem morto. O roteiro seria escrito por Ernest Lehman, e o pianista seria interpretado por James Stewart.

Mas Walt Disney deve ter dito algo parecido com “Má nem fudenu!” para Hitchcock, provavelmente por ter assistido a “Psicose” e temer que o Mancha Negra saísse esfaqueando a Margarida enquanto ela tomava banho,  logo após empalhar o corpo de sua mãe, Vovó Donalda. E com a negativa do criador do Mickey, o projeto acabou arquivado, e faz parte daquela grande lista de filmes jamais realizados. E se Hitchcok invejava Disney porque, caso não gostasse de um autor, simplesmente poderia apagá-lo, deve ter tido vontade de que milhares de pardais desovassem fezes na cabeça de Disney por ter que abortar seu projeto. E, quem sabe com essa ideia em mente, ele tenha partido para outra empreitada intitulada “Os Pássaros”…

A esta altura Hitchcock deve estar rindo por último pela vingança póstuma cometida por Randy Moore. E se  ele estiver com  Disney por perto, deve estar gritando para ele:”chupa, Mickey!”.

Well, assistam ao trailer.

Enhanced by Zemanta

Meu Nome é Walther, Carl Walther

 

James Bond e sua fiel Walther PPK

Dado o aniversário de 50 anos da franquia James Bond no cinema, os sites e portais pululam com textos falando a respeito de diversos elementos do filme:a trilha sonora, as mulheres, os carros, os atores, etc. Inclusive já havíamos falado sobre o agente secreto a serviço de Sua Majestade em outros textos aqui da Blodega. Só pra ser do contra, vamos falar das armas de James Bond. Mas não daquelas traquitanas tecnológicas e inverossímeis que o especialista “Q” demonstra e empurra ao agente com mais ênfase do que camelô da Galeria Pajé.

Mas como bem diria um leitor atento: ”porra, Moziel, todo mundo sabe que o James Bond só usa pistola Walther PPK! Vai enrolar só pra falar isso?” Bem, como todo fã sabe, a pistola preferida por James Bond é a alemã Walther PPK, mas ao longo da franquia houveram algumas pequenas variações, mas sempre pendendo para o fabricante germânico. Em suma, o inglês era mais leal a um fabricante de armas alemão do que a suas mulheres. Mas vamos a um pouco de história. E se tiver impaciente, tá liberada uma rodada de vodka-martini no balcão dessa blodega.

Primeiro, um rápido resumo da história dessa arma. A Walther, uma fábrica fundada em fins do século XIX, começou a produzir a pistola Walther PP (Pistola Policial) em 1929 para atender a demanda das forças policiais alemãs. Ela teria adotado soluções mecânicas que, praticamente, seriam copiadas e seguidas pelos fabricantes de pistolas, sendo uma das principais a adoção da dupla ação, ou seja, mesmo com o cão na posição de repouso, basta apertar o gatilho para efetuar o disparo, sem necessidade de armá-lo para o primeiro tiro. Uma mecânica mais simples e confiável, se comparadas as pistolas antigas e um acabamento primoroso tornaram a arma famosa e fabricada até hoje. Da versão PP surgiu a versão PPK, menor e mais portável, que se tornou uma das preferidas pelos oficiais nazistas. Seus detalhes influenciam até hoje a fabricação de pistolas semiautomáticas mundo afora. Praticamente todas as pistolas usadas no mercado civil brasileiro adotam um desses calibres (7,65mm e .380) e usam alguma solução mecânica inspirada nessa pistola, só pra citar um exemplo próximo.

Leve, de pequenas dimensões, precisa e capaz de portar 8 cartuchos 7,65mm (.32 ACP) ou 7 no calibre 9mm Curto (.380 ACP), com um acabamento impecável e aparência elegante, é, definitivamente, a arma que combina com um smoking de corte impecável, digna de ser portada nos ambientes mais blasés. Acredite, se você entrasse na mansão de algum gênio do mal durante uma festa elegante portando uma Magnum 44, um Colt 45 ou uma Desert Eagle .50, a Glória Kalil seria a primeira a lhe achar um bronco deselegante. Até quem tem permissão para matar precisa seguir regras de etiqueta. Tá pensando que é quem, o Dirty Harry? Só faltaria trocar a dose de vodca-martini por uma lata de cerveja Itaipava…

Mas quase que a PPK não se tornava a arma padrão de James Bond. Inicialmente em seus romances, Ian Flemming dotou o agente “00” com uma simples pistola Beretta calibre 6,25mm (.25 ACP), arma de diminutas dimensões e que calça um calibre pequeno, considerado por muitos como “anêmico”, ou seja, que não oferece muito “poder de parada”. E um dos que concordavam com isso era o colecionador inglês Geoffrey Boothroyd, que achou absurdo um assassino do governo usar uma arma tão fraca e escreveu ao autor dos livros criticando-o. Ian Flemming, ao invés de ficar com o discurso “mimimi-é inveja-faz melhor”, encarou aquilo como crítica positiva e procurou o colecionador buscando conselhos nessa área. O especialista sugeriu que o agente devesse usar ao menos uma pistola calibre .32 ou, se necessário, um revólver calibre .38. E quando perguntado qual arma seria a mais indicada a um agente do MI-6, ele foi enfático em sugerir a pistola alemã Sauer 38H, uma arma de calibre 7,65mm (.32 ACP) fabricada até fins da II Guerra Mundial, e que muitos consideravam, a época, como a melhor pistola do mundo, dada as soluções mecânicas adotadas, confiabilidade e acabamento. Mas por não ser mais produzida, a sugestão do inglês recaiu sobre a também alemã Walther PPK. Grato, Ian Flemming promoveria Boothroyd a major, armeiro de sua majestade e personagem em seus livros, aparecendo pela primeira vez no romance “Dr No” e, de certa forma, sendo um precursor do personagem “Q” nos cinemas.

Iconicamente, Flemming cria a cena na qual “M” obriga o seu agente a trocar a ineficiente Beretta pela alemã PPK, e essa cena é emulada no primeiro filme da franquia, “O Satânico Dr.No” . Aliás, consta que a própria fábrica italiana protestara veementemente contra essa cena, alegando que depunha contra a qualidade de suas armas. Porém, uma curiosidade: a Beretta usada por Sean Connery no filme é uma modelo 34, de calibre 7,65mm, porém essa faz o “papel” de uma 6,25mm. Já a primeira Walther que Bond usa no cinema é a sua irmã maior, a PP, que é apresentada como PPK. Afora esse pequeno detalhe, a Walther PPK seria uma companheira presente em toda a franquia, com algumas breves exceções.

No filme seguinte, “Moscou Contra 007”, finalmente a PPK dá as caras. Mas, curiosamente, nos cartazes promocionais do filme, Sean Connery usa uma outra pistola Walther, a LP-53,  uma arma de ar comprimido que não é utilizada no filme, e foi usada meio que de improviso por não se ter disponível uma PPK no estúdio durante a sessão de fotos.

No terceiro filme da franquia “007 Contra Goldfinger”, a PPK está lá, mas James Bond usa também, em algumas cenas, um revólver Smith&Wesson 36 calibre .38, como teria aconselhado Geoffrey Boothroyd. Em outras também aparece em suas mãos uma Walther P-38, uma arma derivada da PP e usada pelas forças alemãs na II Guerra Mundial, que usa um calibre maior, o 9mm Parabellum. Mas, no geral, Sean Connery se mantém usando a PPK nos demais filmes.

Roger Moore assume a franquia e mantém a PPK em seu coldre, mas em uma das cenas no seu filme de estreia, “Viva e Deixe Morrer”, ele aparece usando um revólver S&W 29 44 Magnum, praticamente uma heresia para um agente inglês, todavia usando a PPK nos filmes seguintes, com exceção de “Octopussy”. Nesse filme, o agente troca sua pistola por uma versão mais moderna, o modelo P5. Bem similar a PPK, porém em calibre 9mm Parabellum. Coincidência ou não, Sean Connery usa o mesmo modelo no filme “Nunca Mais Outra Vez”, lançada no mesmo ano fora da franquia oficial para concorrer com o filme de Roger Moore. Praticamente uma atualização da PP e PPK em um calibre bem popular nos meios policiais e militares nos anos 80, a P5 diferencia pouco de sua inspiradora, mesmo se tratando de uma arma um pouco maior e em calibre mais poderoso, mantendo o design básico e o acabamento impecável. Mas o agente voltaria a usar o modelo clássico nos filmes seguintes.

Timothy Dalton passa pela franquia sem maiores mudanças nesse quesito, mas a mudança mais palpável vem no segundo filme com o ator Pierce Brosnan. Se no primeiro filme, “Goldeneye”, o ator se ateve a tradição, a partir de “O Amanhã Nunca Morre” ele troca a velha PPK pela versão moderna P-99, uma pistola com características bem mais adequadas as forças policiais e militares modernas:armação em polímero e ferrolho em liga leve, carregador com grande capacidade (16 munições), uso do calibre 9mm Parabellum, ação dupla com cão embutido, e anunciada com o slogan “a primeira pistola para o próximo século”. E ter James Bond como garoto-propaganda seria apenas a cereja no bolo. E tanto que, nos filmes seguintes das franquias, Pierce Brosnan se tornou usuário do novo modelo da Walther.

O mais novo Bond, Daniel Craig, no filme de estreia, “Cassino Royale”, usa ambos os modelos, o clássico PPK e o moderno P-99, e na sua sequência direta, “Quantum of Solace”, retoma o uso do modelo clássico. E, pelas fotos promocionais do novo filme, “Skyfall”, a clássica PPK se impôs novamente a serviço secreto de sua majestade. Pelo visto, mesmo quando pistolas de raios se tornarem comuns, James Bond continuará usando sua Walther PPK. Aparentemente, ela nunca lhe negou fogo…

Enhanced by Zemanta

Uma Confraria de Tolos

Trinta Centímetros de Paraíso

Ontem, falando de cachorro-quente, me lembrei daquele que foi, provavelmente, o pior vendedor de cachorro-quente da literatura de ficção, já que comia mais do que vendia, espantava a maioria dos clientes e mais permanecia sentado se queixando, arrotando e peidando do que empurrando seu carrinho pelas ruas de New Orleans. Um glutão gordo e malvestido, sempre usando um cachecol e um boné verde de caça, chamado Ignatius J.Reilly, protagonista do romance cômico “Uma Confraria de Tolos”.

Mas ser vendedor de cachorro-quente é apenas uma das tentativas as quais sua mãe o obriga a se submeter para conseguir algum dinheiro para ambos. Morando com a mãe e esnobando o mundo moderno como um todo, o jovem balofo é um poço de arrogância, pseudointelectualismo, hipocondria, malandragem e nenhum senso estético, que passa boa parte de seu tempo livre assistindo a filmes que detesta nos cinemas da cidade, tecendo críticas em alto e bom som, para desespero dos demais clientes e dos donos de cinema. Isso quando não está enfiado em seu quarto rascunhando observações e anotações aleatórias sobre tudo que o cerca. Sentindo-se deslocado nesse tempo louco e maldizendo a roda da fortuna por seus infortúnios, oprimido por uma mãe dominadora e tentando impressionar sua amante da época da faculdade, por quem nutre uma relação de amor e ódio, Ignatius se ampara nos escritos do pensador Boécio, se defendendo do mundo com retórica afiada e observações impertinentes

Fazendo jus ao título, não há um personagem digno de ser um bom exemplo de comportamento. A fauna que habita a New Orleans criada por John Kennedy Toole é composta por policiais tapados ou corruptos, empresários incompetentes, cafetinas trapaceiras, velhos reacionários, homossexuais boêmios e malandros de todo tipo que pululam o French Quartier. E diante de tal situação, por mais repulsivo que seja o anti-herói da história, inevitavelmente acabamos por simpatizar com a criatura. E o autor consegue tecer pequenas histórias paralelas desses personagens coadjuvantes, histórias essas que acabam por se cruzar e culminar em um clímax hilário.

Certamente há muito de autobiográfico no personagem criado por Toole. E a história do autor é tão ou mais fascinante do que a de seu livro. John Kennedy Toole, um jovem professor com tendências a depressão. Com apenas dois livros escritos e jamais publicados, Toole resolve dar cabo de si usando o kit carro fechado-mangueira-cano de escapamento lá pelos idos de 1969. Sua mãe, inconformada com a injustiça, enche os pacovás de diversos editores, até que o editor Walker Percy se digna a ler o manuscrito. E o adora. Finalmente o livro é publicado em 1980, e no ano seguinte o seu autor ganha um prêmio Pulitzer póstumo. Hoje é um livro cultuado dentro do cânone da literatura americana contemporânea, tendo fãs e admiradores fiéis – incluindo o escritor Roberto Bolaños. Aqui no Brasil há anos que não era publicado, e os exemplares em sebos eram disputados a golpes de alfange. Todavia uma edição recente foi lançada há pouco tempo pela Bestbolso a um preço honesto.

A estrutura do livro ficaria ótima se levada às telas, e quase certamente renderia um filme por demais hilário. Há anos que se tenta levar essa história para o cinema, porém por uma fatídica coincidência, os atores então cotados para encarnarem o Dom Quixote do Big Easy – comediantes famosos, talentosos e rotundos – acabam morrendo antes. John Belushi, John Candy e Chris Farley são exemplos de atores escolhidos para usarem o manto – ou, no caso, o boné de caçador – de Ignatius. Mais recentemente foi divulgada a notícia de que o comediante Zach Galifianakis faria esse papel, e no momento não consigo pensar em nenhum ator conhecido que se encaixe tão bem, até porque os personagens que Zack fez nos filmes “Se Beber Não Case” ou “Um Parto de Viagem” tinham um quê de Ignatius.

Levo fé que, se o Zack não morrer antes, farão um bom filme. Mas como Hollywood tem o condão de estragar boas ideias, sugiro que leiam o livro. Espero que o diretor e o roteirista façam o mesmo…

Enhanced by Zemanta

Soldados da Fortuna

Gritar “alerta” e deixar passar os mercenários

Soldados sem pátria, contratados para combaterem em guerras que não são suas, além do patriotismo ou do senso do dever, os soldados mercenários são quase tão antigos quanto a guerra propriamente dita. O nome “mercenário” já carrega uma conotação deveras pejorativa, já que usamos normalmente para definir todos que topam fazer tudo por dinheiro. Maquiavel, que não era exatamente um santo, tinha sérias reservas quanto ao uso de tropas mercenárias por soberanos, atribuindo-lhes uma natureza volátil e traiçoeira, já que não tinha compromissos patrióticos ou lealdade com algum nobre, e sim apenas com o seu soldo.

Porém, a imagem mais evocada pelo atual inconsciente coletivo está mais associada às atividades pós- Segunda Guerra Mundial desse tipo de soldado, egressos e veteranos de guerras e tropas regulares, que ofereceram seu know-how de combates em diversos locais com política instável e constantes problemas de ditaduras violentas, golpes militares e guerras civis, como a África pós-colonialismo ou ditaduras na América Latina, além de seu uso por governos e corporações em “guerras sujas” onde forças regulares, por um motivo ou outro, não poderiam ser usadas, quando o interesse econômico e político faz com que se interfira no cenário político desses países. Casos famosos são a frustrada tentativa de golpe na Cuba comunista financiada pela CIA para derrubar Fidel Castro no episódio conhecido como “Invasão da Baía dos Porcos”  ou o golpe de estado na Guatemala em 1954 para derrubar o governo que ameaçava o interesse de multinacionais lá instalada, principalmente a United Fruit – episódio que deu origem ao termo “República de Bananas”.

Exatamente essa imagem do uso de forças mercenárias se moldou na cultura popular, seja na literatura ou no cinema. E uma das principais obras da literatura que praticamente criou os arquétipos seguidos até hoje foi escrita nos anos 70 por Frederick Forsyth. O romance “Cães de Guerra” é largamente baseado nas experiências do autor como correspondente de guerra durante a Guerra Civil Nigéria-Biafra. No romance, o protagonista “Cat” Shannon, um experiente mercenário, é contatado por um representante de corporações britânicas interessadas na situação política de um fictício país africano, Zangaro.

O ritmo do livro está longe de ser de uma ação vertiginosa. Ao contrário, o autor enfatiza todos os detalhes dos bastidores para preparar a ação. No primeiro ato, Shannon visita o país para analisar as condições do governo e das forças militares locais. Depois, boa parte do livro se dedica a mostrar a peregrinação de Shannon e seus aliados por países europeus para recrutar homens, conseguir armas , munições, transporte e documentação, sendo uma detalhada radiografia do mercado negro, para enfim mostrar a ação final, um golpe de Estado cujo objetivo é pôr no poder um presidente que favoreça corporações de mineração, interessadas no país após descobertas de importantes jazidas e pouco à vontade com o instável ditador local.

Todavia o autor dá espaço para desenvolver a personalidade do protagonista da história. A princípio um anti-herói violento que luta por uma causa nada nobre e justa – depor um ditador para colocar outro – paulatinamente o soldado velho de guerra mostra uma faceta mais humana, e ao final acaba se revelando mais nobre do que aparentava. Isso acabou criando outro arquétipo, a do mercenário que, por crise de consciência ou outro motivo, acaba renegando seus patrões e procura realizar o que julga correto e justo, algo que certamente vocês já viram em diversos filmes sobre o tema.

Ainda na literatura, uma série que bebeu bem dessa fonte foi “SOB’s”, escrita por Jack Hild. Nela, o veterano do Vietnã Niles Barrabás reúne seus homens para prestar seus serviços à CIA em missões clandestinas mundo afora. Publicado pelo selo “Golden Eagle”, o mesmo dos livros do “Mack Bolan”, a série durou de 1983 a 1989. Mesmo pegando muitos elementos encontrados no livro de Forsyth, ao contrário desse, a série não primava pela verossimilhança ou “seriedade”, sendo mais voltada a aventura e escapismo, com personagens bem definidos entre “mocinhos” e “bandidos”. Como bom mercenário, Niles não tinha maiores problemas de consciência, até porque o autor fazia questão de colocá-los em causas “nobres e justas”, mesmo que ilegais, como salvar o bispo sul-africano Desmond Tutu de um atentado, recuperar o tesouro de Hitler na Alemanha Oriental combatendo neonazistas e agentes da Stasi, massacrando soldados de elite da Spetnaz nos confins da Sibéria ou sabotando o uso de novas armas químicas soviéticas no Afeganistão. Mas como era de praxe, eram bem explorados os detalhes referentes a ação e as armas empregadas. No Brasil essa série chegou a ser publicada pela Nova Cultural nos anos 80.

Nos quadrinhos, a Marvel lançou nos anos 80 uma série dentro do selo “Novo Universo” intitulada M.E.R.C sobre o mercenário Mark Hazzard, que enfatizava mais os problemas que seu “trabalho” traziam a sua vida em família. Ao contrário das outras séries desse selo, que tinham abordagem super-heroística tradicional, a série M.E.R.C era bem mais realista, com histórias relativamente violentas.

Invadindo o Cinema

Pouco depois do sucesso do livro de Forsyth, surgiram alguns filmes seguindo essa estrutura, como por exemplo “Selvagens Cães de Guerra” , que apesar do título em português, não é baseado no livro de Forsyth. Sua adaptação oficial  só seria lançada no início dos anos 80, dirigida por John Irvin e protagonizada por Christopher Walken. O roteiro do filme é, em linhas gerais, fiel à estrutura do livro, mas modifica alguns detalhes e omite outros tantos, principalmente quanto as motivações e personalidade do personagem principal. Para os fãs de filmes de ação de hoje, acostumada a edição estilo videoclipe, é quase certo que o achem enfadonho, já que como no livro, a história se concentra no planejamento da ação, que ocorre apenas nos minutos finais do filme. Mas e um bom exemplo dos roteiros típicos dos anos 70 e início dos 80, que dá tempo para a história se desenvolver corretamente e é voltada a um público mais adulto, mesmo sem a pretensão de ser mais do que um filme comercial bem feito.

Convenhamos que o há um certo apelo romântico na figura do mercenário – romântica no sentido de idealizado, antes que alguém me lance contra uma mina Claymore. Sem vínculo com governos ou hierarquia militar, viajando por países exóticos e eliminando ditadores sanguinários, os mercenários viraram personagens constantes em filmes de ação nos anos 80.Quase todos os grandes heróis de porradaria do cinema dessa época viveram, em um momento ou outro, algum personagem mercenário. E o ápice desses filmes é o justamente intitulado “Os Mercenários”  , lançado em 2010 e reunindo um elenco superlativo em testosterona e pólvora, encabeçado por Sylvester Stallone e Jason Sthatan e com participação de Arnold Schwarzenegger e Bruce Willis. Seguindo a fórmula consagrada por “Cães de Guerra”, com um grupo de mercenários é contratado para derrubar o governo de um país fictício na América Latina. Mesmo com uma estrutura de roteiro semelhante e explorando eventuais dilemas éticos dos personagens, a ênfase aqui é na ação ininterrupta e inverossímil, mais de agrado aos fãs do gênero. E o resultado foi tão positivo que está para ser lançada sua sequência ao fim desse mês , acrescentando ao elenco brucutu nomes como Van Damme e Chuck Norris.

Mercenários Pós-Modernos

Aos poucos a imagem de mercenários vem mudando na opinião pública. Se antes eram grupos autônomos, hoje o ramo está bem mais profissional e envolve cifras astronômicas. No mundo pós-11 de setembro, uma tendência das forças americanas foi terceirizar algumas tarefas militares no sentido de desburocratizar a máquina militar. Dessa iniciativa surgiram empresas privadas que contrataram veteranos de várias armas e unidades especiais para oferecer serviço de segurança e escolta a dignatários e diplomatas, sendo a mais conhecida a BlackWater (atual Xe). Envoltos em uma imagem de eficiência e bons salários, os soldados privados a serviços dessas empresas acabaram caindo em infâmia quando os casos de abusos, assassinatos de civis inocentes e impunidade vieram a público. Não obstante tudo isso, o negócio de terceirização de segurança se tornou um negócio bilionário. Desconheço que já tenha saído algum romance ou filme com essa nova geração de mercenários como protagonista, mas um retrato frio e pouco glamouroso desse mundo pode ser conferido no excelente livro “Blackwater – A Ascensão do Exército Mercenário Mais Poderoso do Mundo”, do inglês Jeremy Scahill. Pois é, já não fazem mais mercenários como nos bons tempos…

P.S: E se você quiser ficar atualizado com os últimos babados dessa galera que agita altas confusões pelo mundo, é só ler a revista “Soldier of Fortune

Enhanced by Zemanta

Sonham os Androides com Sintetizadores Elétricos?

A trilha Sonora de “Blade Runner”

O temo passa, o tempo voa, e ontem foi o 30º aniversário de lançamento do filme “Blade Runner – O Caçador de Androides”. Obviamente você já teve ter lido em vários locais sobre esse filme, que não obstante os produtores obrigarem o diretor a incluir um “final feliz” usando sobras de filmagem de “O Iluminado” e fazerem Harrison Ford a dublar uma narração em “off” para tornar o filme mais digerível para as massas, foi um fiasco de bilheteria na época do lançamento, mas se impôs como um filme “cult”, tornando famoso o autor do conto no qual se inspirou o filme e com seu visual e prognóstico pessimista para o futuro influenciando a ficção científica dos anos seguintes, inclusive o movimento cyberpunk. Por essas e outras, quando teve mais cacife, o diretor resolveu remontar o filme ao seu gosto, relançando-o no cinema nos anos 90 e adicionando algumas cenas sutis, mas significativas, que tornavam o final dúbio e sombrio. Porém não é sobre o filme que pretendo falar, pois além das várias versões disponíveis para ele, sua trilha sonora também está disponíveis em vários sabores. Bem, oficialmente há duas versões disponíveis, já extra-oficialmente esse número é um pouco maior.

O responsável pela trilha sonora foi o músico grego Vangelis Papathanassiou, que tinha ficado famoso pelo Oscar da trilha sonora de “Carruagens de Fogo”, até hoje associada no inconsciente coletivo a corredores em câmera lenta. Mesmo levado ao estrelato, Vangelis não era exatamente um pop star adepto de muita exposição, e na época de “Carruagens de Fogo”, muito se especulava sobre quem de fato seria essa figura, até porque nessas eras pré cambrianas Internet, informações eram desencontradas e raras. Um ex-colega de trabalho até me comentou uma das teorias vigentes naqueles tempos de que o Vangelis era, na verdade, um tal de João Evangelista, que antes da fama, tocava teclados Casio na Praça Mauá em troca de uns cobres…

Foco, Moziel, Foco! Voltemos a Vangelis e sua trilha sonora. Com o uso predominante de sintetizadores – principalmente o seu preferido, o Yamaha CS80 – o grego criou o contraponto sonoro perfeito ao futuro cult movie, e seus temas se tornaram tão ou mais conhecidos que o próprio filme- é quase certo que você já tenha escutado o “End Title” ou o “Love Theme”, mesmo que nunca tenha assistido ao filme. Na época, sem acesso aos equipamentos modernos de mixagem hoje disponíveis, Vangelis suou bastante a camisa ao gravar essa trilha. Porém, ao contrário das trilhas sonoras típicas dos anos 80, repleta de sintetizadores, essa não ficou nem um pouco datada, e ainda hoje soa moderna.

Porém, quando do lançamento do filme, a trilha sonora lançada em LP não foi a executada pelo próprio Vangelis, e sim pela New American Orchestra. Ou seja, os produtores preferiram regravar todos os temas do filme com uma orquestra sinfônica do que aproveitar o material usado no filme gravado pelo próprio compositor. Qual o porquê dos produtores perderem mais tempo e dinheiro fazendo isso? Há muitas lendas e histórias a respeito, normalmente envolvendo desentendimento entre produtores, diretor e compositor ou imposições contratuais de direitos de uso das composições. O fato é que quem fez esse trabalho deve ter feito valer seu salário, já que recriou “de ouvido” os temas da trilha sonora, pois pelo que consta, Vangelis não escrevia suas músicas em partituras. O resultado é que as músicas são predominantemente acústicas, com algumas adições de efeitos eletrônicos.

Essa é a versão mais comum e fácil de encontrar aqui no Brasil, sendo lançada em CD e LP. Pessoalmente gosto bastante dessa versão, mas sou suspeito em falar. Primeiro, porque foi exatamente o primeiro CD que comprei quando adquiri meu primeiro aparelho CD-Player, e segundo porque sempre preferi música acústica a eletrônica. Simplesmente adoro o solo de Flugelhorn de Chuck Findley em “Blade Runner Blues”, o solo de saxofone alto em “Love Theme” e o piano de “Memories of Green”. Ao todo são oito faixas (a última é uma versão mais curta da faixa 5, o “End Title”) em pouco mais de trinta minutos de músicas.

Esse lançamento acabou meio que criando um anseio entre os colecionadores por obter a versão “original” dessa trilha sonora, havendo alguns lançamentos “não-oficiais” disponíveis mundo afora, além de versões comemorativas lançadas em conjunto com DVD ou BD. Porém, a versão executada pelo próprio Vangelis seria lançada oficialmente nos anos 90, após o diretor Ridley Scott relançar o filme nos cinemas com a edição que ele queria na época. Em relação a versão lançada nos anos 80, essa versão possui 13 faixas, uma delas com o nome alterado em relação a primeira versão (“Farewell” se tornou “Tears in Rain”). Ass faixas adicionais não aparecem no filme, ou porque na época não foram incluídas ou por terem sido compostas posteriormente. Outro bônus foi a adição de diálogos do filme entre as faixas, com destaque para o belo monólogo final do replicante vivido por Rutger Hauer na faixa “Tears in Rain”. Na época eu obtive uma versão importada disponível em algumas lojas. No encarte, Vangelis declara que se viu impossibilitado de lançar essas músicas quando do lançamento da versão original do filme, mas sem entrar em detalhes do porquê.

Mesmo sendo o trabalho original do compositor e responsável pela trilha sonora, pelos motivos que já citei, acabei preferindo as faixas da versão da New American Orchestra. O que não significa que esta seja pior. Au contraire, principalmente para os fãs de Blade Runner e os de Vangelis. Sugiro que escutem ambas e escolham a sua favorita.

Enhanced by Zemanta

Nem Vem com Garfo que Hoje é Dia de Sopa

 Doze anos da segunda morte de Simonal

Alguém já deve ter lhe avisado mais cedo que hoje é o aniversário de morte de um  grande artista negro, um cantor que mobilizava multidões em estádios. Não, não é dele que estamos falando, e sim de  Wilson Simonal, um caso ímpar na história da música popular brazuca. De uma ascensão estratosférica ao completo oblívio, sua história de vida tem lances dramáticos e reviravoltas dignas de algum romance melodramático barato. Se hoje ele é mais conhecido por ser pai dos cantores Max de Castro e Simoninha, nos anos 60 e início dos 70 ele tinha uma presença de palco que deixava o público em suas mãos. São doze anos que ele faleceu, mas para a música brasileira ele já era um cadáver há décadas.

Um resumo do resumo: de origem humilde, criado sem pai, negro e pobre, o garoto Wilson Simonal foi, aos poucos, se envolvendo com o mundo artístico, meio que apadrinhado por Carlos Imperial. De uma banda de curta duração – os “Dry Boys”, ou “garotos enxutos” – passando por Crooner de boate ,primeiras gravações e sua parceria com a dupla Miele e Boscoli no Beco das Garrafas, logo o ex sargento do exército seria apresentador de TV e, ao lado da banda Som Três, formataria aos poucos seu estilo musical sob várias influências, criando junto com Imperial uma versão jovem do samba intitulada “pilantragem”, que fazia apologia ao estilo de vida que Simonal viria a protagonizar: carrões bonitos, muitas mulheres, ostentação e curtição. Com o sucesso aumentando ao longo dos anos 60, o ápice seria o show do Maracanãzinho em 1969, onde Simonal roubou o show e “regeu” uma multidão de 30 mil espectadores. Nessa década seus sucessos estavam na boca do povo: “País Tropical”, “Nem Vem que Não Tem”, “Sá Marina”, “Mamãe Passou Açúcar em Mim”. Mesmo sendo esnobado pelos críticos “sérios”, suas músicas eram, por vezes, de letras simples, porém seus arranjos eram bem elaborados, e até temas de domínio publico ou infantis como “Meu Limão, meu Limoeiro” soavam como peças musicais preciosas.

Já a história da derrocada é controversa, dúbia, mal explicada: mesmo com dinheiro entrando a rodo, a contabilidade de Simonal não fechava. Há quem diga que foi problema em gerir seu capital, outros que havia desvio de dinheiro. Na época Simonal achou que estava sendo roubado, demite seu contador e esse o processa na justiça trabalhista. E o que ele faz? Chama os “hômi” pra dar uma prensa no seu contador. O que poderia ser uma história folclórica, dessas que escutamos em mesa de bar, de alguém que consegue algo por ser amigo de autoridades, toma uma proporção séria e grave, já que o contador suspeito de desfalque é levado por agentes do DOPS e torturado para assumir o suposto crime. A esposa do contador presta queixa pelo sumiço do marido e o caldo engrossa. Para tentar escapar de um processo, uma história rocambolesca é criada para justificar a presença de agentes da repressão política nessa história, e nessa mixórdia o Simonal se assume como colaborador do regime militar, assinando inclusive um declaração nesse sentido. Um ato inconsequente que lhe faria cair em desgraça pelo resto de sua vida.

Ele já não era bem visto pela “patrulha ideológica”, pois não se assumia contra o regime. E pior, ainda exaltava o “Brasil Grande” em músicas como “País Tropical” enquanto havia exilados, torturados e mortos, e para a oposição ao governo isso era um pecado mortal. E ainda por cima se descobre que era dedo duro? Foi um prato cheio. A imprensa em peso o tachou de X-9 do governo militar, a reboque do “Pasquim”, o célebre jornal de Ipanema que fazia frontalmente oposição ao regime militar e criticava pesadamente qualquer um que o apoiasse. A fama pegou e a carreira de Simonal começou a entrar numa espiral descendente.

Convenhamos que sua arrogância ao tentar renegociar as condições de seus contratos junto ao patrocinador Shell e a Rede Globo não ajudavam muito. Nos anos seguintes, o boicote se generalizou, e por mais que o público sentisse falta das músicas de Simonal, as portas fecharam-se na sua cara. Alguns amigos lhe foram fieis até o fim, mas a grande maioria da classe artística não queria vincular seu nome ao de Simonal. Este se viu em dificuldades financeiras, entrou em depressão e se tornou alcoólatra, vindo justamente a falecer por consequência do consumo excessivo de álcool. E antes disso tentou, de toda forma, reverter a fama de dedo duro do Regime Militar.

Nota-se que há alguns anos existe uma movimentação no sentido de se “anistiar” o nome de Simonal, tanto que a primeira vez que ouvi falar sobre a causa de seu ostracismo foi em uma matéria na revista “VIP” que, justamente, já vendia a tese de que ele teria sido vítima da patrulha ideológica. A principal peça nesse sentido é o documentário “Simonal – Ninguém Sabe o Duro Que Dei”, de 2009, que a época fez bastante sucesso e trouxe à tona a discussão sobre a veracidade ou não de sua fama de alcaguete. Além de resgatar raras imagens da época e registrar o depoimento de artistas que conviveram com o pilantra, os produtores conseguiram o depoimento de Raphael Viviani, o contador acusado de desfalque e que foi torturado à mando de Simonal. Há também o depoimento dos colunistas do “Pasquim”, Jaguar e Ziraldo, que admitem que, a época, havia a tendência de se polarizar e extremar opiniões e de que não havia evidência mais forte de que ele realmente era um agente do sistema ou que o apoiava diretamente.

Pouco depois do filme sai a biografia “Nem vem que Não Tem – A Vida e o Veneno de Wilson Simonal”, de Ricardo Alexandre. O retrato que o filme e, principalmente, a biografia passam é de que Simonal teria, de fato,contatos entre os agentes do regime, porém é pouco provável que ele fosse delator, mas que ele teria sido “ideologicamente irresponsável” e inconsequente ao agir daquela forma. Em suma: ele errou, mas não era dedo-duro e que ele pagou um preço alto demais. E sua atitude ostensivamente arrogante para um negro era uma afronta a algumas pessoas da elite, o que serviu de munição adicional aos seus detratores.

O assunto ainda gera opiniões fortes, defesas apaixonadas e acusações pesadas, principalmente nessa época que até o mais banal assunto acaba se tornado briga entre petistas e tucanos. É compreensível até demais que exista essa necessidade de se passar a limpo os fatos relacionados ao nome de Simonal, principalmente por parte de seus parentes. O risco é cairmos na simples dicotomia esquerda/direita, se deixando influenciar por este ou aquele rótulo ideológico.

Outro livro mais recente e o qual ainda não li – infelizmente – é “Simonal: quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga “, de Gustavo Alonso. Pelas resenhas que li a respeito, o enfoque desse livro procura contextualizar o caso de Simonal dentro da realidade política e musical daqueles tempos complicados, traçando paralelos com outros artistas e procurando analisar as entranhas do regime e as obscuras ligações entre este e os artistas populares.

Se quiser tirar suas próprias conclusões, recomendo que assista ao documentário e leia os livros de Ricardo Alexandre e Gustavo Alonso, nem que seja apenas para se divertir com as histórias ou se admirar com preciosos registros em vídeo, como o dueto com Sarah Vaughan. Ou simplesmente ignore esse quiproquó ideológico e conheça a arte de Simonal, que independente dos motivos, acabou que o Brasil se viu privada dessa arte nos últimos anos.

Enhanced by Zemanta

Você Escolheu Errado o Seu Super-Herói?

Uma coisa precisamos reconhecer: a Warner/DC tem feito um excelente trabalho em suas animações. Se os filmes, por vezes, beiram o sofrível – vide os desastrosos “Lanterna Verde” e “Mulher Gato” – nas animações o resultado costuma agradar aos fãs dos quadrinhos, até porque tendem a serem mais fiéis as histórias, e em alguns casos o roteiro é praticamente idêntico ao quadrinho no qual se baseiam, vide exemplos recentes como “Batman:Ano Um” ou “Grandes Astros:Superman”. O mais novo lançamento é a animação “Superman vs The Elite”. Nessa nova história, o Super-Homem (Superman meus colarinhos!) encontra um grupo de superpoderosos liderados por Manchester Black, dispostos a combaterem o mal, porém sem maiores limites. Isso entra em conflito com os valores defendidos pelo Homem de Aço, que mesmo sendo quase um deus, opta por não cruzar uma linha autoimposta, incluindo matar seus oponentes ou interferir na lei ou no governo de nações soberanas, algo que os novos “heróis” consideram ultrapassado e que, a princípio, seduz boa parte da população.

Para quem acompanha quadrinhos há tempos, o grupo retratado nessa história é uma óbvia referência e paródia a um grupo de personagens do selo Wildstorm chamado “The Autority”, e que se propunham a salvar o mundo, não se importando com a contagem de corpos. Criado por Warren Ellis nos escombros de personagens medíocres do título “Stormwatch”, tornou-se um dos maiores sucessos no fim dos anos 90. Na história, o grupo, liderado pela inglesa Jenny Sparks, se propunha a combater qualquer ameaça ao mundo, não se curvando a leis ou respeitando a soberania de governos. A criatividade de Ellis ia além de criar heróis violentos e politicamente incorretos, e as primeiras histórias escritas por ele tem sacadas e ideias ótimas, com diálogos irônicos e personagens moralmente dúbios, porém fascinantes, incluindo um casal de heróis homossexuais inspirados em Super-Homem e Batman, chamados Apolo e Meia-Noite, um xamã viciado em drogas chamado “O Doutor” e a própria Jenny Sparks, de longe o melhor personagem feminino criado nessa década, na minha humilde opinião. A qualidade das histórias se tornou irregular após a saída de Ellis, passando por autores como Mark Millar, Ed Brubacker, Grant Morrisson e Garth Ennis. Inegavelmente, o sucesso do título teve influência no mercado. Coincidência ou não, em “Os Supremos”, a versão no universo Ultimate d’Os Vingadores, escrita inicialmente por Mark Millar, há muitos conceitos e ideias inspiradas em “The Authority”.

Na verdade o êxito dos personagens violentos do “The Autority” é o ápice de um processo iniciado no fim dos anos 80, com o advento da Era Moderna dos quadrinhos de super-heróis, que como todo nerd sabe, tem como divisor de águas histórias como “Watchmen” e “Batman – O Cavaleiro das Trevas”. Parte das histórias com conteúdo mais maduro se deve a chamada “invasão britânica”, com autores do velho mundo do naipe de Alan Moore e Neil Gaiman trazendo boas ideias ao mercado americano. A proposta de trazer mais realismo aos quadrinhos de super-heróis acabou servindo de pretexto pra tornar as histórias mais violentas, e o pior desse mundo é bem representado pela produção da editora Image, cujos criadores (egressos das duas grandes editoras, Marvel e DC) enfatizaram o visual das histórias e deixaram a qualidade do roteiro em segundo plano, criando personagens meramente violentos, amorais ou simplesmente politicamente incorretos, mas sem um pano de fundo mais sustentável.

Mesmo agradando ao público, a opção por super-heróis violentos era algo que ia contra o arquétipo do herói clássico. Se logo no início os principais ícones do que viria a se tornar a DC, os personagens Super-Homem e Batman chegaram a cometer excessos contra bandidos, cruzando a linha, o co-fundador Jack Liebowitz, para evitar problema com órgãos de censura, criou um código de conduta interno para limitar as ações de seus personagens, não dando margem para que fossem acusados de mau exemplo. Mesmo pensando na viabilidade a longo prazo de seu negócio, um dos fundadores da DC acabou criando a marca principal dos super-heróis dessa era, e que sobreviveria até os anos atuais.

E o personagem Super-Homem é bem icônico quanto a essa filosofia de agir praticamente como um escoteiro. Sendo o primeiro Super-Herói dos quadrinhos, o personagem é um símbolo desses valores, um ser tão poderoso, porém que não se corrompe ao seu poder, mantendo a retidão moral de um simples garoto do Kansas, mesmo que possa transformar carvão em diamante com um aperto de sua mão. Comparações messiânicas são quase inevitáveis, e mesmo sendo publicado por décadas em diversos títulos, o personagem ainda é popular e rende boas histórias nas mãos certas.

Não deixa de ser simbólico que o inimigo do Super-Homem (e de seus valores) use como uniforme uma camisa com a Union Jack estampada. Mais do que uma referência a personagem Jenny Sparks, podemos interpretar, num exercício de semiótica nerd de botequim, como o confronto entre a “velha escola” e a “nova escola”, bem representada pela “invasão britânica”. Em tempo: esta animação é baseada na história publicada na Action Comics 771 de título “What’s So Funny About Truth, Justice & the American Way?“, lançada em 2001, bem no olho do furacão do sucesso editorial de “The Authority”, praticamente um manifesto em defesa dos valores defendidos pelos heróis da velha guarda. Aqui no Brasil saiu sob o título “Olho por Olho” em um especial da Panini lançado em 2008.

Lembra outra história lançada nos anos 90 que contrapôs a filosofia dos heróis clássicos com o “modus operandi” violento dos heróis modernos: a minissérie“O Reino do Amanhã”, de Mark Waid e Alex Ross, que retrata um futuro sombrio no qual os super-heróis clássicos se afastam e dão lugar aos novos métodos de uma geração de poderosos violenta e inconsequente, que leva a raça humana a um dilema, forçando os heróis a voltarem de seu exílio para tentar “por na linha” os mais jovens. Na época muitos brincaram que a história era um crossover “DC vs Image” não oficial.

No frigir dos ovos, heróis violentos são bons ou ruins? Bem, ao surgirem nos anos 80, após décadas de restrições impostas por auto regulamentações, as alterações foram mais do que bem-vindas. Porém, como todo modismo, mesmo uma boa ideia, quando repetida à exaustão, se transforma em lugar-comum, principalmente nas mãos de autores medíocres. Tanto que mesmo os autores que foram os precursores dessas tendência foram na contramão em anos recentes e criaram histórias e personagens que prestavam tributo ou referência aos clássicos personagens da era de ouro dos quadrinhos e até dos pulp fiction. Alan Moore com “Tom Strong”, “Supremo” e “Liga Extraordinária” e Grant Morrisson com “Grandes Astros:Superman”. Ou seja, há espaço para tudo, desde que as histórias sejam bem escritas.

Enhanced by Zemanta

A Hipótese Ninja

 

Os Verdadeiros Homens de Preto

Não poderia tecer um texto sobre cultura nipônica sem mencionar os Ninjas , os guerreiros do Japão feudal que se especializaram nas artes da camuflagem, espionagem, infiltração e assassinato, arte essa que receberia o nome de Ninjutsu. No imaginário popular eles são a antítese dos Samurais, pois não estariam limitados pelo rígido código Bushido, sendo inclusive mercenários. De simples menção no texto anterior, o assunto se estendeu umpouco e rendeu esse pequeno apêndice.

Nos anos 80, com a popularização dos filmes de ação, uma subgênero que misturava os gêneros policial, ação e artes marciais foram o de filmes de ninjas, que passaram a explorar todo o potencial desse personagem.

Porém, em boa parte dessas produções, ao ninja era praticamente atribuído super poderes ou habilidades místicas, tamanha a extensão de suas façanhas, que envolviam até invisibilidade, caminhar sobre a água e de sumir e aparecer da forma mais imprevista possível. Tanto que hoje, no imaginário coletivo, o termo “ninja” tem a conotação de alguém capaz dos feitos mais incríveis ou impossíveis. Talvez o melhor (ou pior) exemplo é a série “American Ninja”, conhecida aqui como “Guerreiro Americano”, com Michael Dudikoff, que deve conter todos os clichês possíveis dessa categoria de filmes em suas quatro sequências.

Mas tenho que admitir que, apesar de toda ruindade cinematográfica e nenhum compromisso com verossimilhança ou bons roteiros, filmes de ninjas são divertidos, e isso ficou tão icônico que por ninjas em filmes deve ter se transformado na maneira mais fácil de tornar um filme interessante. Acreditem, até criaram uma paródia de “9 ½ Semanas de Amor”  chamada “9 ½ Ninjas”. Desse modismo surgiu há alguns anos o site “ninja hypothesis”, infelizmente desativado, que defendia a tese de que muitos filmes se tornariam bem melhores e mais divertidos se fossem inseridos ninjas no contexto de suas histórias.

Após tanta exposição, os pobres ninjas foram paulatinamente substituídos por temáticas similares nos filmes picaretas, preferencialmente por kickboxers, que foi outra vertente bem explorada no fim dos anos 80 e início dos 90. Mas com o inato talento de sumirem e aparecerem onde menos se espera, os ninja vez por outra voltam a protagonizar filmes, séries, desenhos animados e o escambau. Exemplos recentes são o mangá/anime “Naruto”, o filme “Ninja Assassino” , que leva a violência e a inverossimilhança a níveis sem precedentes, e os divertidos “Ninja Vs Zombies” e Ninjas Vs Vampires”.

Querendo acrescentar mais este “Guilty Pleasure” a sua lista tosca, eis uma breve lista de “crássicos” do gênero. Esqueça seu crítico de cinema interior e não leve nada a sério. Será diversão garantida.

A Vingança do Ninja

O Ultimo Ninja

Ninja 3 – A Dominação

Guerreiro Americano:

9 ½ Ninjas

Loucademia de Ninjas

Ninjas VS Vampires

Receba a Blodega

Digite seu email:

Desenvolvido por FeedBurner

Olha o Passaralho!

RSS

Clientela