Grandes Bebedores
Meia-Noite em Paris é uma Festa

Gertrude Stein, Modernismo e a Geração Perdida na Paris dos Loucos Anos 20
No novo filme de Wood Allen, “Meia-Noite em Paris”, o protagonista Gil, um roteirista que aspira se tornar romancista e que se sente fascinado pelo passado, se enamora pela cidade de Paris, e durante um passeio à noite para fugir do tédio e da família chata pra cacete conservadora de sua noiva, ele consegue voltar ao passado, sabe-se lá por qual meio, mais especificamente aos anos 20 do século passado, encontrando-se com diversos artistas daquela época: Cole Porter, o casal F.Scott e Zelda Fitzgerald, Ernest Hemingway, Pablo Picasso, Buñuel, Dali, T.S.Eliot, Cole Porter, Djuna Barnes… Entre mostrar Paris como um cenário belíssimo digno de um quadro de Monet e discutir questões como a nostalgia, as incursões de Gil ao passado são de uma leveza e humor deliciosos, o que faz a alegria dos amantes da leitura, que se entusiasmam juntamente com o personagem ao interagir com os artistas do passado e ao reconhecerem as referências contidas, com uma divertida conversa com surrealistas sobre viagem no tempo e inspiração para o filme “O Anjo Exterminador”, de Buñuel. Mas Gil quase vai ao êxtase quando Hemingway o leva para conhecer Gertrude Stein (Kathy Bates), que se propõe a ler o manuscrito do romance que tenta concluir. E nessa busca do tempo perdido ainda há espaço para Gil disputar com Hemingway e Picasso o afeto de uma bela modista francesa.
Allen usa esse mote para passear por uma época que o personagem Gil julga ser uma “era de ouro”, algo que ele vem a questionar ao longo da história, resgatando os personagens e protagonistas reais de um tempo no qual Paris, de fato, serviu de cenário para diversas histórias tão ou mais fascinantes quanto a do filme, e que moldaram a arte ocidental da primeira metade do século passado, já que para lá migraram a vanguarda cultural da Europa e a “Geração Perdida” dos Estados Unidos, e o ventre dessa besta chamado modernismo foi um sobrado no número 27 da Rue de Fleurus. E no olho dessa tempestade de “ismos”, meio que comandando essa massa crítica criativa, havia uma mulher americana que conheceu e influenciou os grandes artistas que passaram por Paris naqueles anos, e cuja presença foi fundamental para o estabelecimento da arte moderna nas primeiras décadas do século XX. Sem Gertrude Stein dificilmente os movimentos que brotaram nessa época ganhariam o mundo.
Desde 1902 que a americana Gertrude e seu irmão Leo Stein, partiram para o degredo voluntário em Paris em busca de algo mais próximo do conceito de civilização, a exemplo de muitos jovens americanos abonados de seu tempo. Estabelecendo-se no famoso endereço na Rive Gauche, eles se tornaram catalisadores do movimento modernista que ali brotava, já que em seus primeiros anos na cidade eles ajudaram muitos artistas plásticos em início de carreira ao comprar seus trabalhos, os quais eram vistos com reserva, para dizer o mínimo, pelo público em geral, que ainda não digeria muito bem os conceitos novos. Na verdade nem os Stein entendiam direito, pois durante anos eles mantiveram um Cézanne pendurado de ponta-cabeça até serem alertados pelo próprio. Praticamente nenhum milímetro das paredes do sobrado estava livre de algum quadro, os quais eram adquiridos quase a preço de custo e que valeriam uma fortuna nos anos seguintes, pois carregavam assinaturas dos então anônimos e verdes Cézanne, Matisse e Picasso, que nesse tempo estava mais pra azul do que verde. Leo Stein fez a alegria de muito pintor iniciante, comprando seus quadros aos montes, e os ajudou divulgando tais obras e convencendo o mundo que ali estava o futuro da arte.
Todavia foi a irmã Gertrude que se tornou célebre entre a comunidade artística estabelecida em Paris, com a qual fez amizade e que passou a freqüentar o endereço, convertido em um point para todo candidato a artista moderno, fosse romancista, contista, poeta, dramaturgo, músico ou fotógrafo, por vezes surrealistas, dadaístas ou cubistas, além de editores e a imprensa cultural. Em determinada época havia algum burburinho praticamente toda noite. A lista de habitués é uma verdadeira aula de história da arte que, além dos já citados pintores, tinha F.Scott Fitzgerald (e sua esposa Zelda), Ernest Hemingway, Jean Cocteau, Ezra Pond, T.S Eliot, Virgil Thompson e um longo etc. que inclui James Joyce. Porém o irlandês foi barrado no baile, pois consta que Gertrude, escritora com pretensões modernistas, via nele um concorrente de peso no mesmo estilo hermético que adotara, e o que é pior, reconhecidamente mais talentoso. E como diz o personagem Hemingway no filme de Allen ao recusar a leitura do manuscrito de Gil, um escritor odeia outro colega mais talentoso. Toda essa patota era recebida por Gertrude em sua casa para que planejassem o futuro das artes enquanto enxugavam a adega dos Stein. Não é de se admirar que muitos jovens com pretensões artísticas recomendados por veteranos iam pedir a benção daquela senhora, que nem sempre se preocupava em averiguar se a recomendação por parte de algum conhecido era procedente.
Mas por maior que fosse o sobrado, nem sempre havia tanto espaço para tamanhos egos. Hemingway e Fitzgerald se estranhavam pelas infinitas vezes em que Gertrude os comparava e os elogiava respectivamente e em segredo, o que deve ter rendido um murro no queixo dela durante uma luta de boxe com Hemingway e aumentou o consumo de bebida dos Fitzgerald em alguns hectolitros. Matisse se enciumava da amizade de Gertrude e Picasso, que tinha ciúmes dela com o também cubista Juan Gris, o qual cogitou colar seus bigodes com o de Stein, sem sucesso, até porque da fruta que Gris muito apreciava, Gertrude chupava até o talo. Aliás, a relação entre Gertrude e Picasso é um caso à parte, parecia um casamento, só não tinha o sexo, pelos motivos supracitados. Mas esse casamento gerou, se não filhos, muitas histórias. Em 1905, após posar para Picasso e contemplar o resultado, Gertrude reclamou da pouca semelhança, ao qual Picasso retruca que um dia ela se pareceria com o quadro – o que não deixa de ser sacanagem. E na época que Picasso tentou abandonar a pintura pra se tornar poeta, ela lhe perguntou de onde tirara a idéia de que qualquer um pode ser poeta, e ele respondeu: ”lendo seus poemas”. Ambos brigariam em definitivo, ironicamente e indiretamente por causa de Juan Gris, morto prematuramente. Gertrude acusou Picasso de não ter dado a devida atenção ao colega falecido, e isso rendeu uma última e definitiva briga entre os dois. Esse povo não era fácil.
Famosa por cunhar o verso ”Uma Rosa é uma rosa é uma rosa” e diversas frases e afirmações de efeito, a maioria exaltando sua genialidade, além de ter cunhado o termo “Geração Perdida” para descrever seus contemporâneos, Stein arrancou muitos desses artistas do anonimato e travou amizades e inimizades com alguns deles, inclusive com seu irmão Leo, que rompeu com ela e abandonou o sobrado parisiense, levando alguns dos quadros. Ironicamente, após esse bando de boêmios se tornarem mundialmente famoso e a vanguarda por eles inventada se tornar o novo stablishment cultural, a própria Gertrude Stein não tinha uma obra editada, muito em parte porque seus escritos seguiam um estilo próprio, enveredando por experimentalismos de influência dadaísta, com poemas de versos repetitivos ou prosa que considerava a vírgula um acessório inútil, algo que torna a leitura um desafio árido, o que deve ter repelido a maioria dos editores. E para terminar de lascar, James Joyce, aquele cujo estilo era muito similar ao seu, encontrou seu lugar na posteridade ao ter publicado o romance “Ulisses”, que também só foi aceito para ser editado pela também americana Sylvia Beach, proprietária da Shakespeare and Company, famosa livraria e outro importante endereço para a cultura parisiense . Se a leitura de Ulisses é um desafio para muitos – esse humilde blodegueiro incluído – há quem diga que os textos de Gertrude seriam um desafio ainda maior.
Por fim, após passar por três décadas e uma Guerra Mundial, da qual participou como voluntária e ganhou até umas medalhas, Gertrude tem um livro editado em 1933, chamado “A Autobiografia de Alice B.Toklas”, que era sua parceira desde 1908 e cuja arte residia nos pratos que preparava, e apesar do título, tudo saiu das mãos de Gertrude, cuja intenção seria escrever aqueles acontecimentos sob o teto do sobrado com tanta gente então famosa sob a ótica de Alice. Sem apelar para estilos rocambolescos e abandonando sua guerra pessoal contra o uso de vírgulas, a narrativa convencional se tornou um sucesso, já que se tratava basicamente de fofoca com um monte de artistas de renome, e é claro, sem esquecer de por Gertrude no seu devido lugar, já que “Alice” decreta, nas primeiras linhas, que só reconhecia três gênios: Gertrude Stein, Pablo Picasso e Alfred North Whitehead. Nessa ordem. Nem todos gostaram do retrato pincelado pela velha matrona, seu irmão afirmou que era quase tudo mentira e Hemingway esperaria três décadas para revidar, dessa vez não com cruzados de boxe, e sim no romance “Paris é uma Festa”, onde ele dá sua versão daqueles anos e Gertrude é descrita em tons pouco lisonjeiros. Como Gertrude cometeu a indelicadeza de morrer em 1946 privando Hemingway de uma réplica ou opinião,
Gertrude aproveitou a tardia fama e até chegou a voltar ao seu país de origem, décadas após tê-lo trocado pela França, mas voltou para seu sobrado, de onde ainda viria os nazistas brincarem de passo de ganso nas ruas de Paris até serem expulsos pelas forças aliadas. Da Rue de Fleurus ela só sairia morta, o que aconteceu em 1946, deixando uma viúva, uns poucos quadros daqueles tempos e um puta de um legado cultural para o ocidente.
Por uma dessas gozações do destino, esse fanfarrão, sua eterna amante e “autora” de seu livro de maior sucesso, Alice B.Toklas, sempre esteve à margem do agito cultural no qual Gertrude estava enfurnada, mas após a morte dela, Alice viria a escrever e publicar um livro: “The Alice B Toklas Cookbook”. Sim, um livro de receitas. Até porque comer é também uma arte, principalmente em Paris.
Ruy Castro – Ele é Carioca

Texto de minha autoria originalmente publicado no site Mínimo Múltiplo pra tirar a poeira das prateleiras da Blodega
Antes de tudo, uma rápida correção: na verdade, Ruy Castro é mineiro de nascença, mais especificamente de Caratinga. Mas se tornou tão – ou mais – carioca quanto qualquer um nascido no Rio de Janeiro, tanto que recebeu o título de cidadão benemérito da Cidade Maravilhosa. Isso, para mim, já é mais do que suficiente para justificar o título deste texto, que é uma óbvia alusão ao nome de uma famosa música da bossa nova (a qual também empresta seu título a um dos livros de Ruy). Além disso, ele certamente já fez mais em prol da imagem carioca do que qualquer governante ou burocrata nas últimas décadas, e, apesar de Garotinhos, Rosinhas e Maias, para ele o Rio continua lindo. Pode se considerar Ruy Castro o mais carioca dos escritores mineiros, e olha que não falta séria concorrência nessa área: Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos… Ruy, porém, conta com a nítida vantagem de ainda estar vivo.
Meu primeiro contato com o jornalista e escritor foi justamente em matérias de revistas como “Set” e “Playboy”, em que seus textos, cheios de informação e humor, se destacavam dos demais. Em uma dessas matérias na “Set” sobre críticos de cinema, aliás, saiu a informação de que ele nunca fora pegar o diploma de jornalista, um detalhe pitoresco e digno de se tornar lenda. Logo seu nome me chamaria a atenção e, onde quer que ele estivesse impresso, já era por mim considerado certificado de qualidade. Passei a conferir livros e antologias cujas organização e tradução ficaram em suas mãos, e, assim, em minha juventude fui apresentado às crônicas e contos de Woody Allen para a New Yorker em “Cuca Fundida”, aos escritos de H.L. Mencken em “O Livro dos Insultos” e aos bombons com fel das tiradas witty de “O Melhor do Mau Humor”, por obra e graça de Ruy Castro. E daí para ler os livros de sua autoria foi um pulo, um vício saudável que mantenho até hoje.
Mais uma breve retificação, antes de continuar: Ruy Castro não terminou o curso de jornalismo – na realidade, ele levou bomba, concluiu Ciências Sociais, mas de fato nunca quis saber de pegar o diploma. Mas diploma não lhe fez muita falta, não. Atuando na imprensa desde 1967, quando começou como um simples foca no Correio da Manhã, foi picado pela mosca das letras após Paulo Francis o chamar como colaborador fixo para o Correio e para a famosa, mas efêmera, revista Diners. A partir daí, é história, e nessas mais de quatro décadas ele já passou por diversos jornais e revistas, muitos já extintos, e conviveu com monstros das letras, como Francis. E foi “culpa” de Francis também o estilo de escrever de Ruy, pois este costumava assinar apenas os textos sérios e usar pseudônimos para os textos mais fanfarrões, até o dia em que o amigo perguntou o porquê, já que os de humor eram justamente os melhores. Então, em pouco tempo, os textos “sérios” de Ruy foram perdendo a sisudez e se deixaram contaminar pelo bom humor que lhe é peculiar, “como um Dr. Jeckyl, quando passou a se transformar em Mr. Hyde mesmo sem beber a gororoba”, diz ele em “O Leitor Apaixonado” num texto justamente sobre Francis.
E seu estilo é bem característico, sempre com uma alegoria ou metáfora inteligente e hilária para soltar no meio do texto, fazendo citações e referências sofisticadas sem se tornar afetado ou esnobe, enquanto nos fornece uma torrente de informações. Tudo sem que nos cansemos ou percebamos, de tão leve e agradável que se torna a leitura. É como ouvir uma boa história em uma mesa de bar enquanto bebericamos um chope estupidamente gelado. Ou, em suas palavras, quando se refere às crônicas, em sua coletânea “Ungáua!”: “A crônica, ainda mais quando praticada por cariocas, é o feudo da conversa fiada e nela, todo assunto é válido, desde que irrelevante”.
O grande público, contudo, conhece mais Ruy Castro por suas ótimas biografias. No início dos anos 1990, lançou o livro-reportagem “Chega de Saudade – A História e as Histórias da Bossa Nova”, conseguindo a proeza de ressuscitar o interesse pela então combalida e esquecida Bossa Nova, a deliciosa e sofisticada mistura de samba e jazz que embalou os jovens cariocas no final dos anos 1950. Com o livro, trouxe à tona a história dos precursores e protagonistas daqueles anos dourados da música brasileira. Pouco depois, escreveu “O Anjo Pornográfico – A Vida de Nelson Rodrigues”, mostrando que a vida do mais imoral dos escritores brasileiros foi tão ou mais emocionante e trágica quanto sua obra. Com esta biografia do “reacionário”, Ruy alcançou o mesmo feito conseguido com a bossa nova, ao despertar no público da nova geração o interesse pela obra de Nelson. Além da biografia, também foi responsável por organizar e relançar a obra literária do autor de “Vestido de Noiva”.
Antes de se dedicar de corpo e alma a um único biografado, Ruy presenteou o público com “Saudades do século 20”, uma declaração de amor (e de profundo conhecimento) à cultura americana dos anos 1920 aos 1960, em que aborda de forma breve a biografia de 13 personalidades da música, literatura e cinema americanos daquele período.
Na área de biografias, Ruy ainda reconstituiria a trajetória do jogador Garrincha e da “pequena notável” Carmen Miranda. Mas ambos foram um parto para o autor, por motivos diversos. No caso de “Estrela Solitária – Um Brasileiro Chamado Garrincha”, de 1995, a editora Companhia das Letras enfrentou um processo movido por parentes de Garrincha, menos por se sentirem ofendidos do que por oportunismo financeiro de algum advogado, mal que assolou Garrincha até depois de morto. O processo proibiu o livro de circular por um bom tempo, até a editora conseguir um acordo financeiro que satisfizesse as partes. Por esse episódio, Ruy nunca perde oportunidade de, em diversos artigos, demonstrar sua insatisfação e repúdio perante a sanha monetária de descendentes de mortos famosos.
“Carmen – Uma Biografia” igualmente demorou para sair. Uns dez anos, por sinal. Foi lançado em 2005, e, nas dedicatórias, havia uma em especial para alguns médicos, sem os quais aquele livro não seria possível. Isso se explica pelo fato de Ruy ter diagnosticado um câncer na garganta enquanto escrevia a biografia, e durante sua conclusão, passou por um severo tratamento. Como um de seus ídolos no cinema, Humphrey Bogart, que teve câncer no esôfago, Ruy não se entregou à doença. Além de sua persistência e dedicação ao trabalho, porém, tinha décadas de avanços na medicina a seu favor, o que lhe permitiu sobreviver à doença e ao tratamento e finalizar o livro. “Carmen salvou minha vida”, costuma afirmar.
Célebre por suas biografias, Ruy é prolixo o bastante para não se resumir a elas, mesmo porque sempre jura de pés juntos nunca retornar a uma enquanto conclui outra. Escreveu romances, como “Bilac vê estrelas” e “Era no Tempo do Rei”, mas seus textos são, na maioria, dedicados às suas paixões: música, literatura, cinema. E futebol, obviamente. Alguns de seus artigos para jornais e revistas já foram reunidos em antologias. Sobre música brasileira e bossa nova, temos “A Onda que se Ergueu no Mar”, meio que complementando o “Chega de Saudade”. Sobre música, principalmente americana, “Tempestade de Ritmos”. Cinema? “Um Filme é Para Sempre”. Faltou literatura? Não mais: “O Leitor Apaixonado” está aí nas livrarias. Ainda temos Ipanema em “Ela é Carioca”. E o futebol, além de “Estrela Solitária”, está nas páginas de “Flamengo – O Vermelho e o Negro”. Acha pouco ainda? Procure em jornais como a “Folha de São Paulo” ou revistas como a “Brasileiros”, que você terá uma boa chance de encontrar algum texto de autoria de Ruy, desde uma breve crônica até uma extensa matéria sobre algumas de suas paixões.
Enquanto esperamos o que Ruy Castro ainda aprontará, sugiro aos leitores irem tomando intimidade com seu trabalho lendo algumas de suas crônicas disponíveis na internet. Em algumas, quase dá pra sentir a maresia de Ipanema. Basta o jeitinho de ele andar – ou escrever.
Grandes Bebedores: H.L.Mencken

Como passei o último fim-de-semana enxugando hectolitros de cerveja na companhia de amigos, enquanto curto a ressaca resolvo homenagear os famosos colegas de copo com uma categoria nova na blodega: bêbados famosos. E para inaugurar a Sala Vip dessa blodega, uma figura pra lá de ilustre e elegante, o jornalista H.L.Mencken, que bem podia reivindicar a posição de santo padroeiro do jornalismo, se ele acreditasse nessas coisas.
E quem, por cargas d’aguardente foi Mencken?
Henry Louis Mencken, ou H.L.Mencken foi um jornalista, ensaísta, crítico e editor americano, nascido em Baltimore em setembro de 1880, cujo estilo influenciou gerações de jornalistas e escritores americanos e mundo afora. Seu modus operandi iconoclástico basicamente se resumia a expor ao ridículo idéias e argumentos, com floreio e estilo, mostrando que o rei além de estar pelado, tinha o pau pequeno. E nada era sagrado para ele. E sua arma demolidora era o humor rebuscado, além de uma série de frases e referências de entortar o juízo de um eventual antagonista. O “American Way of Life” foi empenado a marretadas retóricas. Mencken desprezava o chamado homem de classe média americano, classe a qual se referia pejorativamente como “Booboisie”, normalmente lhe reservando adjetivos pouco louváveis, de “besta” pra baixo. O próprio regime democrático era por ele definido como “a arte de gerir o circo a partir da jaula dos macacos”.
Era assumidamente elitista, não defendendo a supremacia de uma raça, nacionalidade ou credo sobre outra, e sim a superioridade intelectual de poucos indivíduos em relação a grande maioria. Para Mencken, o ser humano é, em grande parte, um grande embusteiro, covarde e incompetente na maioria de suas atribuições. Ele foi um dos mais acirrados ateus de seu – e de outro –tempo. E para ele religião alguma merecia maior reverência. Os grupos fundamentalistas americanos como os puritanos, a igreja Batista e os metodistas eram alguns de seus alvos preferidos. Seus artigos frequentemente desconstruíam com fina ironia e elegância todo e qualquer argumento que sustentasse dogmas religiosos, desqualificando a existência de Deus e ridicularizando seus representantes, carinhosamente chamados de “cambistas do paraíso”. O artigo “Cerimônia Memorial” enterra todas as divindades na mesma vala comum e a cobre com uma pá de cal. Isso décadas antes de Richard Dawkins começar sua rixa pessoal com o Todo-Poderoso. E com mais finesse e graça do que o professor inglês. Sorry, Dawkins. Nem sua terra natal, Baltimore, era poupada, já que, segundo ele, “trocava de moda a cada estação e de preconceito a cada geração”. E muito menos sua profissão. O famoso artigo de 1920, “Sobre Jornalismo” traça um retrato sem retoques da imprensa à sua época. E nesses tempos de gripe suína, o ofício de vender bichos-papões à população não mudou muito nesses quase noventa anos.
Com todos esses predicados politicamente incorretos, Mencken era de uma popularidade incrível nos anos 20 e 30. A partir de seu bunker no Baltimore Sun, distribuía petardos e obuses verbais a torto e a direito, e seus artigos, ensaios, contos e críticas eram devorados por todos, inclusive pelo homem médio a quem tanto esculhambava. Um mistério inescrutável, já que a concorrência procurou emular o jeitão de Mencken, tentando criar seus clones em cativeiro e devidamente domesticados, o que normalmente se revelava um fiasco, já que as imitações baratas nem chegavam aos pés do original.
Mencken se tornou célebre ao cobrir o “Julgamento do Macaco”, quando um professor do Tenessee foi processado por ensinar a Teoria da Evolução em 1925. Em seus artigos, Mencken desqualificou os criacionistas com tiradas como afirmar que os macacos é quem deveriam processar os homens ou de que os criacionistas acreditariam que Jonas engolira uma baleia se isso estivesse na Bíblia. Esse episódio inspirou a peça “O Vento Será Tua Herança”, cujo personagem E. K. Hornbeck era visivelmente o próprio Mencken. Na primeira versão para o cinema, foi vivido por Gene Kelly.
Ele e seu sócio da esnobe revista “Smart Set”, George Jean Nathan, eram dois fanfarrões que espalharam o terror entre os autores da época, já que as críticas de ambos poderiam reduzir a pó as pretensões literárias de algum pobre candidato a escritor. A dupla era implacável e irônica, e nem autores consagrados ou clássicos eram perdoados. Dostoiévsk encabeçou a sua lista de escritores mais chatos de todos os tempos. Em compensação, quando gostava de um artista, movia céus e pedras para exaltá-lo. Mencken elevou a categoria de gênio escritores como Joseph Conrad, Edgar Allan Poe, Mark Twain e Ambrose Pierce. Admirava o filósofo Friedrich Nietzsche, idolatrava a música clássica, principalmente Beethoven. Poesia e artes plásticas ele considerava como “menores”, e gêneros musicais mais populares, como o Jazz recém-nascido e ainda cru, coisa indigna de civilizados. Mesmo temido, circulou livremente no meio da elite cultural americana daqueles anos.
Alguns de seus artigos eram pura gozação, como aquele famoso sobre o “dia da banheira”, onde ele criava uma ficcional, enciclopédica e absurda história da invenção da banheira que, durante um bom tempo, foi citada em outras publicações como verdadeira. Imagina isso hoje em dia em tempos de Internet e hoaxes fáceis.
Sua popularidade caiu um pouco durante e após a II Guerra Mundial, já que era assumidamente germanófilo, além de ser contra o presidente Roosevelt e a política do New Deal. Em 1948 teria um derrame que o deixou incapaz de ler ou escrever, o que deve ter deixado muita gente aliviada. Morreria – ou melhor, foi “assumir suas funções públicas no inferno” – em 26 de janeiro de 1956. Para quem quiser conhecer mais sobre o trabalho do sujeito não falta material. Em português, o jornalista Ruy Castro organizou uma coletânea de artigos, frases e pensamentos de H.L. Mencken em “O Livro dos Insultos”. Há também “O Diário de H.L.Mencken”, escrito por Charles A. Fecher. Todavia essa biografia não é tão bem vista por alguns por tentar rotular algumas declarações e posições de Mencken como racistas e anti-semitas. Uma biografia mais recente – “Mencken, The American Iconoclast” – foi escrita por Marion Elizabeth Rodgers em 2005, mas ainda não está disponível em português. E na rede não faltam sites e reproduções de seus textos mais famosos.
E o porquê de Mencken estar inaugurando essa galeria de grandes bebedores? Bem, pelo que consta, Mencken não era o tipo que bebia como se o estoque de etanol do mundo fosse acabar nas próximas horas, se compararmos a outros que, certamente, freqüentarão esse cantinho de nosso boteco. Mas ele apreciava bastante o precioso líquido, já que para ele uma noite perfeita poderia se resumir a ouvir música clássica e encher a cara com um amigo enquanto ambos frescavam de Deus e do mundo. Além do mais, em plena vigência da Lei Seca, ele defendia abertamente a liberação do consumo de bebidas alcoólicas. Um de seus mais famosos artigos, “O Periélio da Proibição”, era um ataque bem fundamentado à emenda constitucional que – teoricamente – privava os americanos de molharem suas gargantas com algo mais substancial do que água ou suco de uva, mostrando seus pontos fracos e que era, no frigir dos ovos, um retumbante fracasso, até porque todo mundo estava pouco se fodendo pra Lei Seca e enchia a cara do mesmo jeito. Em outro divertidíssimo texto, também escrito nesse período negro para os bebuns, ele defendeu a teoria de que as pessoas seriam melhores se a atmosfera estivesse borrifada com álcool, “obrigando” a todos de se manterem levemente altos, sem o perigo de ninguém ficar sóbrio o suficiente para cometer desvarios como iniciar guerras. Ou seja, motivo mais do que suficiente para freqüentar nosso pé-sujo virtual.


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