Miolo de Pote

Qualquer assunto que seja pertinente. Ou não.

Razões Impuras das Críticas

Crítica existe desde que o mundo é mundo, ou até antes disso, pois no sétimo dia alguém com certeza deve ter chegado ao Criador pra tecer algum comentário sobre sua mais recente criação, a Criação. Há quem leve numa boa e até melhore seu trabalho baseado nas críticas. Há quem cague e ande solenemente, tal qual cavalo do exército em 7 de setembro, outros procuram desqualificar os críticos lhe imputando adjetivos pouco louváveis. E há quem leve para o lado pessoal e queira até sair no braço.

E a coisa piorou muito nesses dias nos quais as redes sociais reverberam qualquer assunto inútil e dá voz a todo e qualquer um que queira se manifestar, se tornando uma verdadeira terra de Marlboro para celebridades que nela se aventuram. Mais acostumadas a elogios e paparicos dos fãs, nem sempre tais celebridades encaram bem os mais ferinos comentários.

Na falta de coisa melhor pra fazer, eis uma pequena compilação de “causos” que rolaram nas redes envolvendo famosos e seu público nem sempre tão respeitável, “causos” esses que abrangem desde a perplexidade, passando pela reação raivosa e chegando até às vias de fato.

Apesar de Vocês, Vai Passar

Um que há pouco tempo recebeu dos internautas adjetivos de fazer corar roteirista de pornochanchada foi Chico Buarque, que acabara de lançar seu novo trabalho, intitulado “Chico”, e soube usar essa nova mídia para divulgá-lo, com site oficial, webcam ao vivo e tudo que o pacote tem a oferecer. Incluindo as críticas de sempre oriundas do ecosistema da web. Mais polidamente, ele gravou um  vídeo no qual comenta a respeito das críticas  que viu na Internet sobre seu último trabalho, com um misto de surpresa e bom humor àquele bestiário de bizarrices que nós, frequentadores do ciber botequim, já nos habituamos.

Além dos haters e trolls de praxe, levemos em consideração que boa parte da crítica que descarrega ogivas verbais contra a obra de Chico tem um puta viés ideológico, que mais se preocupa com as escolhas políticas do autor do que com a obra em si. Admito que rimar “sacrifício” com “mulher sem orifício” não é dos mais felizes momentos de sua carreira, ao ponto da (in)Veja rotular como a pior rima da MPB dos últimos tempos. Ô povo de memória curta! Será que isso é pior do que “Eu tive um dia difícil/Dinheiro você já tem/Eu te ofereço meu míssil”? Ou os críticos nunca ouviram a banda Pimenta Nativa cometer o insuperável refrão “Maria Joaquina de Amaral Pereira Góes/Você CONTRIBÓI/Para o Meu Viver”? Isso ainda tem potencial pra causar danos irreversíveis ao neocórtex de quem escutar.

Amor é Prosa, Sexo é Poesia, e Despeito é uma Merda

Pior fez seu colega artista Arnaldo Jabor, cineasta que passou os últimos anos menos produzindo filmes e mais tecendo comentários genéricos e platitudes em um jornal televisivo. Seu espanto e repúdio com os internautas se deu originalmente quando percebeu que muitos textos apócrifos e edulcorados com aquele adoçante de autoajuda lhe eram atribuídos, algo que acontece constantemente com escritores famosos, de Luís Fernando Veríssimo a Shakespeare. Claro que, por tabela, afirmou que não tinha vontade de ter twitter nem blog.

Por estas ironias da vida, o próprio Jabor se contradiz e cria uma conta no Twitter ano passado para ajudar a divulgar seu filme “A Suprema Felicidade”,que quando lançado, recebeu uma enxurrada de críticas negativas da imprensa em geral. E o que ele faz? Praticamente chamou todo mundo que não gostou de seu filme de burro.Bela estratégia, Jabor! E onde fica o sexo e o amor?

A Axé Music e a Lei de Godwin

A mais recente polêmica envolveu a cantora Cláudia Leitte, que reagiu de forma um tanto ríspida aos comentários sobre sua participação no mais recente “Rock in Rio“, já que ela não é exatamente uma representante do gênero musical que dá título ao festival. Nem vou entrar no mérito do nome, que desde o início não se restringiu ao Rock, tampouco ao Rio de Janeiro. No que me concerne podem levar  até o Ovelha, com  cabelo liso e tudo.

Só que a baiana não gostou nada das gracinhas que se espalharam pelas redes sociais nos últimos dias. Talvez irritada com a repetição ad nauseaum do apelo em levar o Metallica e o Iron Maiden para tocar no Carnaval da Bahia como uma forma de retaliação, a cantora soltou um post com um tom acima do cordial, comparando seus críticos ao bigodudo austríaco, o que está rendendo ainda mais discussão. Os fãs, como de praxe, usam o argumento de ouro para qualquer crítica: isso é inveja de gente recalcada. Para os detratores, ela apelou, já que invocar qualquer coisa referente ao velho Social Nacionalismo em uma discussão virou sinônimo de falta de argumentos. Sinceramente não sei como ainda não fizeram um vídeo usando aquela manjada cena do filme “A Queda” satirizando o episódio. Ei, taí uma boa ideia! Não demorou muito e fizeram esse favor.

Por mim ela, as bandas de metal e seus respectivos fãs podem ir tudinho ralar o cu nas ostras para o Festival do Rio das Ostras. Só não gostei dela mencionar o santo nome de John Coltrane na história. Como diria Aretha Franklin em “Os Irmãos Cara-de-Pau”: “Não Blasfemem Aqui Dentro!”. Devia Claudinha ter seguido o exemplo luminar de sua conterrânea poetisa Clara Perez, que afirmou categoricamente “”Se Jesus Cristo não agradou todo mundo, não é eu que vai agradar!”, e desencanar dessas picuinhas.

Mula Indomável

Mas quem se superou em reação às críticas foi o, aham, cineasta alemão Uwe Boll, famoso por transpor diversos videogames para a tela do cinema, com resultados bem regulares:ou seja, todos os seus filmes são igualmente odiados pelos fãs dos games originais e nerds em geral. Mas deve existir alguém que apreciou filmes como “Bloodrayne”, “Em Nome do Rei” , “Postal” , “Far Cry” ou ”Alone in The Dark”, só não conheço. Au contraire, alguns desses filmes que citei costumam aparecer em listas de piores filmes de todos os tempos, e existe até uma petição online implorando para que essa criatura pare de produzir seus, aham, filmes. Por essas e outras que essa figura ímpar está para o cinema num patamar semelhante ao de Rob Liefeld nos quadrinhos.

Mas o temperamento irascível desse alemão picareta não o deixa levar desaforo para casa, e ele fez mais do que xingar muito no Twitter. Além de responder as críticas em uns três tons abaixo, ele resolveu seguir os ensinamentos da escola filosófica alemã na linha de argumentos combativos para provar seu ponto de vista: literalmente chamou seus críticos para o pau, pois sendo pugilista amador, organizou uma luta de boxe entre ele e alguns blogueiros, e em todas o “Olho de Tigre” alemão os fez beijar a lona. Isso sim é que é vencer com argumentos sólidos acima da cintura. Se Niezstche criou a filosofia a golpes de martelo, Boll complementou a obra inconclusa de Schopenhauer sobre a dialética erística, acrescentando jabs, diretos e cruzados aos recursos argumentativos para se vencer um debate sem ter razão. Por que Silvester Stallone não pensou nisso pra calar a boca de seus críticos?

Uwe Boll pode até não ser considerado um diretor competente (na verdade nem sei se pode ser considerado diretor), mas temos que admitir que ele tem estilo para rebater críticas. E para tecê-las, também, já que há poucos dias ele desceu o malho em Michael Bay, Terrence Malick e Lars Von Trier. Se os fãs desses diretores cult – Michael Bay tá no meio por acidente – se ofenderem e disserem que é inveja do alemão, eis o xeque-mate argumentativo derradeiro dessa criatura. No final das contas, até que ele subiu no meu conceito.

Resumo da ópera: Quem tá na chuva é pra se molhar foder queimar, como diria o filósofo pré-socrático Vicente Matheus. Se não aguenta críticas, é melhor ficar no anonimato sossegado, como por exemplo administrando uma blodega virtual…

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Desculpem o Transtorno

“Estamos em Reformas Para Melhor Servi-lo”

Os poucos porém fiéis clientes dessa blodega devem ter percebido uma mudança no visual. Adiando há meses essa repaginada, nas últimas semanas tomei vergonha na cara e espalhei jornais velhos pelos pisos virtuais do estabelecimento para dar uma demão nova de pixels. Ainda estamos em ajustes, já que, pra variar, a coisa encrencou na visualização no Internet Explorer. Mas depois de bater cabeça fiz macumba pra Bill Gates consegui achar o problema e a “reforma” está quase concluída, faltando só alguns pequenos detalhes. E em breve você poderá apreciar o novo visual da Blodega e exclamar em alto e bom som:

“DEMOROU TANTO PRA SAIR ESTA MERDA?!”

Aos que não gostaram, ao menos apreciem a auxiliar de pintura que ilustra este post enquanto não sai posts novos.

Eric Clapton: Back (in your) Home

Dicas de excelentes DVD’s ao vivo do deus da guitarra

Após 10 anos desde sua última passagem pelo Brasil, o guitarrista inglês Eric Clapton vai arrastar sua carcaça veterana novamente por terras Tupiniquins nas próximas semanas. E como de costume quando grandes nomes da música pop aportam por aqui, o valor dos ingressos é de deixar preocupada a vida de qualquer fã, por mais que ele prometa não se preocupar mais na vida algum dia

Mas você não precisa negociar sua alma em uma encruzilhada com Robert Johnson para apreciar as músicas de Eric Clapton ao vivo. Caso você não tenha tempo ou grana para prestigiar aquele que muitos chamam de deus, não fique triste nem se zangue com o que vou lhe sugerir: assistir entre as diversas opções de shows ao vivo registradas em DVD.  Com sorte, quem sabe você acaba se instigando e dando um jeito de ir vê-lo ao vivo e a cores.

E justamente por conta de sua iminente vinda, percebi nas últimas semanas uma maior oferta de títulos com Eric Clapton no título. Claro que há muita coisa oportunista e cuja qualidade não faz jus ao artista, com DVD´s com mero som Stereo e imagem de menor qualidade. Para garantir que sua grana – ou sua conexão de Internet – sejam bem empregadas, eis-me aqui com três dicas de DVD´s de apresentações ao vivo.

24 Nights
Esse é antigo e relativamente fácil de encontrar, inclusive em lojas de departamentos, e a preço bem convidativo. Justamente por ser um registro antigo, o som é apenas Stereo 2.0, e a qualidade da imagem (com aspecto 4×3) não é tão boa se comparada as mais recentes. Não obstante estas limitações técnicas, este DVD se destaca de outros registros mais antigos lançados em mídia digital, sendo seu primeiro álbum ao vivo desde 1980, e que abrange tanto sua faceta roqueira quanto a de bluesman. Produzida no início dos anos 90, a gravação contempla as apresentações de Clapton no Royal Albert Hall, em Londres. Durante as diversas noites que lá tocou, o músico foi acompanhado por 4 formações diferentes de músicos. Dessas formações, três foram bandas, denominadas “4 pieces”, “blues” e “9 pieces”, respectivamente. O quarto acompanhamento foi a National Philarmonic Orchestra regida pelo maestro Michael Kamen. Phil Collins aparece em algumas faixas ajudando na percussão. Também disponível em Cd Duplo.

One More Car, One More Rider
Coincidentemente esta foi a última turnê de Clapton que passou no Brasil, cujas músicas são uma mistura de sucessos antigos e do então lançado CD “Reptile”, cuja música-título é meio que uma homenagem a João Gilberto, e à época Clapton declarou sua admiração pelo trabalho do artista brasileiro.

E falando em “Reptile”, ele merece um breve parêntesis. Este disco, lançado no início dos anos 2000, na minha modesta opinião foi um retorno à qualidade meio perdida nos lançamentos dos anos anteriores, nos quais Eric chegou a flertar hereticamente até com a música eletrônica no disco “Pilgrim”. Há músicas com levada blues e rock, bem como baladas mela-cueca. O disco inteiro tem canções legais, com aquelas letras simples e sem muitas firulas. ”Got You On My Mind”, “Superman Inside” e a minha preferida “Broken Down” são músicas que não cansei de ouvir até hoje.  Há até um excelente cover de James Taylor, “Dont’t Let me Be Lonely Tonight”. Está entre os meus preferidos, ao lado do velho “Slowhand” e do excelente e mais recente trabalho “The Road to Escondido”.

Mas voltemos ao DVD, que registra a turnê mundial de “Reptile”, que seria a última de Clapton conforme ele declarara. E como sabemos, ele não cumpriu sua promessa, para satisfação dos seus acólitos. Infelizmente não tem “Broken Down”, porém as mais de duas horas de música compensam, incluindo as clássicas de sua carreira – sem trocadilhos, please – como “Cocaine”, “Wonderfull Tonight”, “Tears in Heaven” e “Layla”, com uma banda excelente.

E falando em “Layla”, após esta faixa a banda some do palco sem maiores explicações e retorna logo depois para tocar as últimas faixas. Minha esposa costuma fazer pilhéria com este fato, comentando que Eric e a banda vão tomar algum “estimulante”, e que o finado  tecladista Billy Preston exagera na dose, já que na faixa seguinte ele está bem mais entusiasmado do que todos os demais integrantes enquanto canta a música de sua autoria “Will It Go Round In Circles“. Mando-a parar de maledicências e explico que esta música é a mais conhecida dele, o que justifica seu entusiasmo, e que pare de pensar besteira…

Por ser um registro mais recente, este claramente tem a vantagem de ser tecnicamente melhor trabalhado do que os lançamentos mais antigos em termos de imagem e som. A qualidade da imagem está ótima, em formato 16:9, e o som DTS o fará se sentir no próprio show ao vivo. Quando lançado era bem fácil encontrar o CD e o DVD, e ainda hoje ainda dá para encontrá-lo em lojas on-line brazucas com relativa facilidade, e com sorte até por um precinho razoável (hoje mesmo eu o vi em uma Saraiva por menos da metade do preço que paguei). Só não me pergunte o que diacho o símbolo do Linux Ubuntu está fazendo estampado em uma das guitarras Fender que Eric usa durante o show (viu, alan geek?)…

Crossroads Guitar Festival 2010
Há alguns anos Clapton criou a fundação Crossroads para a reabilitação de viciados em drogas, uma alusão clara a sua dependência que o acometeu e quase afunda sua carreira nos anos anteriores, e frequentemente promove shows e leilões para arrecadar grana para esta fundação. E uma dessas iniciativas é o Crossroads Guitar Festival, que reúne diferentes monstros da guitarra, incluindo o próprio, e contemplando diversos estilos de blues e rock. Há registros em DVD dos três festivais que ocorreram em 2004, 2007 e 2010. O último, realizado em Chicago, o berço do Blues Elétrico, está disponível nos formatos DVD e BD, ambos duplos. Para quem aprecia o estilo, o show é um desfile de veteranos, como Robert Cray, Buddy Guy, Jimmie Vaughan, Johnny Winter e Jeff Beck, junto com novos talentos, como o John Mayer Trio, além de rostos mais conhecidos do pop, como Sherryl Crown e os barbudos do ZZ Top. E o veterano ator Bill Murray faz às honras como um bem-humorado mestre-de-cerimônias

E quando eu uso o termo “veteranos” não é exagero, já que o não tão novo Clapton parece um menino, se comparado a seus colegas mais “experientes”, com alguns precisando até de oxigênio ou cadeira de rodas!

Na última música, o lendário B.B King dá as caras para cantar “The Thrill is Gone” em uma Jam Session com Clapton, Cray e Vaughan. Mesmo octogenário e trazido ao palco em cadeira de rodas, o dono da Lucille dá sua palhinha e ainda contribui com sua anuência a cada solo de seus colegas, como se aprovasse suas técnicas. Por fim, todos que participaram do festival entram no palco para fechar com estilo a noite.

Por aqui você consegue encontrar o DVD ou o BD em lojas especializadas ou em lojas on-line, mas por ser importado, o preço é bem salgado. Vez por outra o BD entra em promoção na Amazon inglesa, e acaba sendo mais vantagem pedi-lo, e os prazos costumam ser mais céleres do que a loja americana, podendo levar de 10 a 15 dias. E nesses dias devido a “frebre Clapton”, os DVD’s das duas edições anteriores também podem ser encontrados com relativa facilidade em lojas especializadas.

Minha parte eu já fiz. Agora cabe a você providenciar o Bourbon ou a cerveja e curtir com os amigos que compartilhem dessa mesma devoção.

 

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Vai, Doa!


Ô cabra feio!

Apesar de me meter,de enxerido, nos meios das redes sociais, há algumas figuras que, por um motivo ou outro, não conhecia, não obstante sua fama nesse meio. E uma dessa figuras só ouvi falar após a pobre ter quase morrido após ser atropelada por um ônibus, a blogueira Carol, conhecida como @tchulimtchulim. Tá, já tinha ouvido falar antes dela, mas por conta de uma hashtag no twitter, no mínimo, estranha. Mas tergiverso. Ela explica tudo em um texto no seu blog.

Após o acidente, ela e os colegas levantaram uma campanha de doação de sangue, convocando  os seguidores a doarem, inicialmente para repor o sangue utilizado durante os procedimentos em Carol, mas daí a coisa tomou um vulto maior e se criou até um Tumblr e o twitter @vaidoa para a campanha “Vai, Doa” .

Pessoalmente já doei sangue algumas vezes no Hemocentro de João Pessoa, mas desde que me mudei que acabei não correndo atrás do hemocentro daqui de São José dos Campos. Além de descobrir através dos links onde diacho fica o hemocentro daqui, essa campanha acabou por dar o incentivo que faltava para que eu voltasse a doar sangue.

Mas sem muita enrolação, lá no site da campanha há maiores explicações sobre como proceder e quais os requisitos para doação de sangue. Fiz minha parte hoje pela manhã, e já enviei a foto dessa criatura feia sendo ordenhada. E posso dizer que fui muito bem atendido e paparicado pelo pessoal de lá, com direito a lanche e a ganhar uma carteirinha do Clube do Mickey de doador. Inclusive uma das enfermeiras é que se ofereceu para tirar a foto que ilustra esse post. E, como de praxe, é oferecido um lanche logo após a doação. Como já estava próximo da hora do almoço, preferi fazer a refeição propriamente dita em um restaurante próximo. E claro que tratei de repor o sangue retirado o mais rápido possível, como podem ver.

E antes que algum desavisado queira seguir meu exemplo, se lascar e depois por a culpa em mim, é recomendável a abstinência alcoólica ao menos por 12 horas após a doação. Não obstante, molhar a garganta após uma doação de sangue já é meio que uma “tradição” minha desde a primeira vez que o fiz. Tanto que na última doação, eu e meu amigo Cabeção Neolan acabamos com o estoque de cerveja Xingu do barzinho após doarmos sangue para a tia de um outro amigo e sermos solenemente dispensados do trabalho. Além do mais, recomendam que se beba bastante líquido após a doação. Entoncis…

Portanto, doe sangue. Mas se for beber logo depois, é por sua conta e risco

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Ruy Castro – Ele é Carioca

Texto de minha autoria originalmente publicado no site Mínimo Múltiplo pra tirar a poeira das prateleiras da Blodega

Antes de tudo, uma rápida correção: na verdade, Ruy Castro é mineiro de nascença, mais especificamente de Caratinga. Mas se tornou tão – ou mais – carioca quanto qualquer um nascido no Rio de Janeiro, tanto que recebeu o título de cidadão benemérito da Cidade Maravilhosa. Isso, para mim, já é mais do que suficiente para justificar o título deste texto, que é uma óbvia alusão ao nome de uma famosa música da bossa nova (a qual também empresta seu título a um dos livros de Ruy). Além disso, ele certamente já fez mais em prol da imagem carioca do que qualquer governante ou burocrata nas últimas décadas, e, apesar de Garotinhos, Rosinhas e Maias, para ele o Rio continua lindo. Pode se considerar Ruy Castro o mais carioca dos escritores mineiros, e olha que não falta séria concorrência nessa área: Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos… Ruy, porém, conta com a nítida vantagem de ainda estar vivo.

Meu primeiro contato com o jornalista e escritor foi justamente em matérias de revistas como “Set” e “Playboy”, em que seus textos, cheios de informação e humor, se destacavam dos demais. Em uma dessas matérias na “Set” sobre críticos de cinema, aliás, saiu a informação de que ele nunca fora pegar o diploma de jornalista, um detalhe pitoresco e digno de se tornar lenda. Logo seu nome me chamaria a atenção e, onde quer que ele estivesse impresso, já era por mim considerado certificado de qualidade. Passei a conferir livros e antologias cujas organização e tradução ficaram em suas mãos, e, assim, em minha juventude fui apresentado às crônicas e contos de Woody Allen para a New Yorker em “Cuca Fundida”, aos escritos de H.L. Mencken em “O Livro dos Insultos” e aos bombons com fel das tiradas witty de “O Melhor do Mau Humor”, por obra e graça de Ruy Castro. E daí para ler os livros de sua autoria foi um pulo, um vício saudável que mantenho até hoje.

Mais uma breve retificação, antes de continuar: Ruy Castro não terminou o curso de jornalismo – na realidade, ele levou bomba, concluiu Ciências Sociais, mas de fato nunca quis saber de pegar o diploma. Mas diploma não lhe fez muita falta, não. Atuando na imprensa desde 1967, quando começou como um simples foca no Correio da Manhã, foi picado pela mosca das letras após Paulo Francis o chamar como colaborador fixo para o Correio e para a famosa, mas efêmera, revista Diners. A partir daí, é história, e nessas mais de quatro décadas ele já passou por diversos jornais e revistas, muitos já extintos, e conviveu com monstros das letras, como Francis. E foi “culpa” de Francis também o estilo de escrever de Ruy, pois este costumava assinar apenas os textos sérios e usar pseudônimos para os textos mais fanfarrões, até o dia em que o amigo perguntou o porquê, já que os de humor eram justamente os melhores. Então, em pouco tempo, os textos “sérios” de Ruy foram perdendo a sisudez e se deixaram contaminar pelo bom humor que lhe é peculiar, “como um Dr. Jeckyl, quando passou a se transformar em Mr. Hyde mesmo sem beber a gororoba”, diz ele em “O Leitor Apaixonado” num texto justamente sobre Francis.

E seu estilo é bem característico, sempre com uma alegoria ou metáfora inteligente e hilária para soltar no meio do texto, fazendo citações e referências sofisticadas sem se tornar afetado ou esnobe, enquanto nos fornece uma torrente de informações. Tudo sem que nos cansemos ou percebamos, de tão leve e agradável que se torna a leitura. É como ouvir uma boa história em uma mesa de bar enquanto bebericamos um chope estupidamente gelado. Ou, em suas palavras, quando se refere às crônicas, em sua coletânea “Ungáua!”: “A crônica, ainda mais quando praticada por cariocas, é o feudo da conversa fiada e nela, todo assunto é válido, desde que irrelevante”.

O grande público, contudo, conhece mais Ruy Castro por suas ótimas biografias. No início dos anos 1990, lançou o livro-reportagem “Chega de Saudade – A História e as Histórias da Bossa Nova”, conseguindo a proeza de ressuscitar o interesse pela então combalida e esquecida Bossa Nova, a deliciosa e sofisticada mistura de samba e jazz que embalou os jovens cariocas no final dos anos 1950. Com o livro, trouxe à tona a história dos precursores e protagonistas daqueles anos dourados da música brasileira. Pouco depois, escreveu “O Anjo Pornográfico – A Vida de Nelson Rodrigues”, mostrando que a vida do mais imoral dos escritores brasileiros foi tão ou mais emocionante e trágica quanto sua obra. Com esta biografia do “reacionário”, Ruy alcançou o mesmo feito conseguido com a bossa nova, ao despertar no público da nova geração o interesse pela obra de Nelson. Além da biografia, também foi responsável por organizar e relançar a obra literária do autor de “Vestido de Noiva”.

Antes de se dedicar de corpo e alma a um único biografado, Ruy presenteou o público com “Saudades do século 20”, uma declaração de amor (e de profundo conhecimento) à cultura americana dos anos 1920 aos 1960, em que aborda de forma breve a biografia de 13 personalidades da música, literatura e cinema americanos daquele período.

Na área de biografias, Ruy ainda reconstituiria a trajetória do jogador Garrincha e da “pequena notável” Carmen Miranda. Mas ambos foram um parto para o autor, por motivos diversos. No caso de “Estrela Solitária – Um Brasileiro Chamado Garrincha”, de 1995, a editora Companhia das Letras enfrentou um processo movido por parentes de Garrincha, menos por se sentirem ofendidos do que por oportunismo financeiro de algum advogado, mal que assolou Garrincha até depois de morto. O processo proibiu o livro de circular por um bom tempo, até a editora conseguir um acordo financeiro que satisfizesse as partes. Por esse episódio, Ruy nunca perde oportunidade de, em diversos artigos, demonstrar sua insatisfação e repúdio perante a sanha monetária de descendentes de mortos famosos.

“Carmen – Uma Biografia” igualmente demorou para sair. Uns dez anos, por sinal. Foi lançado em 2005, e, nas dedicatórias, havia uma em especial para alguns médicos, sem os quais aquele livro não seria possível. Isso se explica pelo fato de Ruy ter diagnosticado um câncer na garganta enquanto escrevia a biografia, e durante sua conclusão, passou por um severo tratamento. Como um de seus ídolos no cinema, Humphrey Bogart, que teve câncer no esôfago, Ruy não se entregou à doença. Além de sua persistência e dedicação ao trabalho, porém, tinha décadas de avanços na medicina a seu favor, o que lhe permitiu sobreviver à doença e ao tratamento e finalizar o livro. “Carmen salvou minha vida”, costuma afirmar.

Célebre por suas biografias, Ruy é prolixo o bastante para não se resumir a elas, mesmo porque sempre jura de pés juntos nunca retornar a uma enquanto conclui outra. Escreveu romances, como “Bilac vê estrelas” e “Era no Tempo do Rei”, mas seus textos são, na maioria, dedicados às suas paixões: música, literatura, cinema. E futebol, obviamente. Alguns de seus artigos para jornais e revistas já foram reunidos em antologias. Sobre música brasileira e bossa nova, temos “A Onda que se Ergueu no Mar”, meio que complementando o “Chega de Saudade”. Sobre música, principalmente americana, “Tempestade de Ritmos”. Cinema? “Um Filme é Para Sempre”. Faltou literatura? Não mais: “O Leitor Apaixonado” está aí nas livrarias. Ainda temos Ipanema em “Ela é Carioca”. E o futebol, além de “Estrela Solitária”, está nas páginas de “Flamengo – O Vermelho e o Negro”. Acha pouco ainda? Procure em jornais como a “Folha de São Paulo” ou revistas como a “Brasileiros”, que você terá uma boa chance de encontrar algum texto de autoria de Ruy, desde uma breve crônica até uma extensa matéria sobre algumas de suas paixões.

Enquanto esperamos o que Ruy Castro ainda aprontará, sugiro aos leitores irem tomando intimidade com seu trabalho lendo algumas de suas crônicas disponíveis na internet. Em algumas, quase dá pra sentir a maresia de Ipanema. Basta o jeitinho de ele andar – ou escrever.

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Lendários Notívagos


Edward Hopper e a Esquina mais Famosa do Mundo das Artes

Hoje ao adentrar em uma pequena loja vi um poster iluminado com LED’s que me chamou a atenção pela referência nele oculta que me lembrou um famoso quadro do movimento realista americano, movimento este que era um contraponto ao modernismo que surgia concomitante na Europa.

Edward Hopper, um dos mais conhecidos expoentes desse movimento artístico que predominou no cenário americano nas primeiras décadas do século XX, trabalhou durante 10 anos como ilustrador de revistas, o que lhe serviu como uma escola para apurar seu estilo, e seu quadro mais conhecido é “Notívagos” (Nighhawks), de 1942. É quase certo que você já o tenha visto em alguma ilustração, ou ao menos alguma referência, homenagem ou paródia a esta pintura de óleo sobre tela.

Hopper se especializou em reproduzir tipos e cenários tipicamente urbanos, em situações cotidianas com as quais o observador poderia se identificar, mas deixando margem para interpretações individuais. A composição desse quadro em especial, praticamente uma cena cinematográfica mostrando um um restaurante de esquina à noite, com alguns poucos clientes e um balconista, costuma ser interpretada pelos críticos como ilustrando a alienação e solidão do indivíduo em ambientes urbanos, mesmo quando no meio de uma multidão ou ao lado de outros cidadãos.   Mesmo dentro do cenário iluminado do restaurante , em contraste com a escuridão da rua, há uma predominância de cores frias, com exceção da mulher de vestido vermelho, a qual não sabemos se está acompanhada do cavalheiro ao lado ou se é apenas mais uma solitária notívaga.

Mesmo perdendo terreno nos anos seguintes para o movimento abstrato, a obra de Hopper ainda influenciaria a Pop Art décadas depois, e seu quadro mais famoso ganharia diversas homenagens e paródias na cultura pop, compondo o cenário em filmes, séries e desenhos animados, como em algum episódio dos Simpsons ou nas páginas de “Batman – Ano Um”, só para citar exemplos bem caros aos nerds. Uma série dessas paródias e homenagens pode ser vista no blog Nighhawks Forever.

Um poster que parodia esse quadro e que se tornou tão ou mais famoso que o original é o intitulado “Boulevard of Broken Dreams”, uma ilustração de 1984 do artista austríaco Gottfried Helnwein, na qual os “falcões da noite” são substituídos por ícones de distintas gerações da cultura americana: Humphrey Bogart, James Dean, Marilyn Monroe e Elvis Presley, que em circunstâncias normais nunca teriam se encontrado na vida real, o que justificaria o título da obra.

E depois de tanto enrolar é que eu finalmente chego ao poster que vi hoje, e que indiretamente faz referência ao trabalho de Hopper. Pesquisando um pouco descobri que o dito cujo é intitulado “Legendary Crossroads”, um poster do artista canadense Chris Consani, e lá estão os personagens retratados em “Boulevard…” no que parece ser uma espécie de “saideira” desse memorável encontro onírico, numa serenata improvisada no meio da rua. E vasculhando o trabalho desse artista, é possível encontrar outros posteres cujos protagonistas são o mesmo quarteto de famosos, e que estão disponíveis para venda.

No final das contas, a influência de Hopper ainda se faz sentir, mesmo que indiretamente, na moderna cultura popular. Lembrem-se disso ao reconhecerem esse quadro ou suas referências, nem que seja em alguma parede de loja ou na sua série preferida.

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Trollando a Ditadura


As “trolladas” no Regime Militar

Dizem que o ano de 1968 ainda não terminou, fazendo referência ao livro do Zuenir Ventura. O período da Ditadura Militar é um episódio historicamente recente e que ainda desperta discussões e polêmicas. Tanto que atualmente é o tema central de uma novela do SBT, “Amor e Revolução”. E uma das marcas desta época foi a rigorosa censura, que impedia que qualquer coisa que atentasse contra a moral e os bons costumes viessem a público. Como boa parte da classe artística era contra o regime, a censura também perseguia qualquer manifestação que criticasse o governo ou fosse considerada propaganda “subversiva”. E sempre que a liberdade de expressão é, de alguma forma ameaçada nos nossos dias, essa época é sempre lembrada como tempos sombrios para a cultura e a imprensa.

Mas isso não impedia que, vez por outra, alguns conseguissem dar um drible nos censores e sacanear o regime em praça pública, em atitudes que hoje a geração Y tranquliamente chamaria de “trollar”. Para a geração Ipod, lembro aqui uns cinco casos nos quais os autores deliberadamente deram uma sacaneada no regime. Ei-los:


Apesar de Você, Ó!

A arte como um todo foi um foco de resistência ideológica, e a censura fazia marcação cerrada em cima da produção artística daqueles considerados “subversivos”. Na música, autores faziam malabarismos metafóricos para, no subtexto, cravar uma estaca nos peitos do regime. Às vezes colava, às vezes não. Um dos mais visados compositores daqueles tempos era Chico Buarque, e o fato de ter seu nome em alguma composição que passava pelo crivo dos censores já era motivo prévio para tacar um carimbo de foda-se censurado. Tanto é que ele chegou a adotar o pseudônimo de Julinho de Adelaide para assinar algumas de suas músicas. Há várias músicas de Chico que fazem referência ao quadro político do país, como “A Rita”, uma corruptela de a dita (dura) que levou seu sorriso e emudeceu seu violão, ou “Cálice”, um trocadilho com “cale-se”. Todavia a melhor que passou foi “Apesar de Você”, um puta desabafo contra o governo Médici, que passou incólume sob a tesoura da censura, mesmo com letra agressiva contra o General Presidente de então. A história que Chico contou é de que a música se referia a um antigo amor, uma mulher muito mandona e autoritária. Quando alguém prestou atenção na letra e percebeu que a “mulher” era o General Médici, o pau comeu e a música foi proibida, mas depois de semanas tocando em tudo que é rádio e com o disco sendo vendido nas lojas. E, apesar de tudo, o amanhã foi outro dia, de fato.


Todos os Olhos

Ainda na música, outra afronta descarada ao sistema que só veio à tona em anos recentes foi o disco de Tom Zé, “Todos os Olhos” , no qual o artista do tropicalismo, juntamente com o poeta Décio Pignatari, resolveram fotografar um brioco em close com uma bola de gude encaixada. Sim, os malucos resolveram por um cu em uma capa de LP para ser exposto ao público em lojas.

Bem, para os que ainda não conhecem, a figura acima é capa do disco em questão, que ficou famosos mais pela capa que por suas músicas, pois em plena vigência do AI-5, o poeta concretista Décio Pignatari resolveu sacanear com a censura e sugeriu que fotografassem uma bola de gude em cima do orifício monossilábico posterior (popularmente conhecido como cu) para servir de capa de disco. A ideia era expor um cu nas lojas para desmoralizar o regime. Tom Zé topou, com certa relutância, até porque quem tem cu tem medo, principalmente nos anos de chumbo. O resultado é o que você deve estar vendo no topo do post. Quando a história veio à tona em an(u)ons recentes, até a revista “Sexy” colocou um apelo para se descobrir quem teria sido a modelo que expôs a sua parte da anatomia onde o sol não bate. Bem, tinha amigo meu que desconfiava que era o “pranóis” de Caetano Veloso

Mas o irônico é que em 2005, em uma matéria na revista “Carta Capital”, uma nova versão, até mesmo desconhecida pelo Tom Zé, veio à tona. Em suma, depois de herCÚleas tentativas de se reproduzir a ideia de Pignatari, as fotos da bola sobre o brioco não ficaram muito fotogênicas, e o fotógrafo acabou preferindo colocar a bola na boca da modelo, tendo um resultado mais satisfatório.

É uma pena, pois caiu um mito dos mais arraigados da MPB. Até o Tom se surpreendeu com a notícia de que o cu era uma boca, no frigir dos ovos. Já o Décio já está cansado de tanto falar nesse bendito butico, que no fim das contas, nem furico era.


A Tonga da Milonga do Kabuletê

Entre as inúmeras parcerias que o poeta e compositor Vinícius de Moraes, a com Toquinho rendeu músicas que se tornaram clássicas da Música popular. Mesmo evitando temas mais espinhosos, vez por outra o poetinha tinha alguma rusga com a censura. Um belo dia a dupla resolveu sacanear com a censura ao inserir um palavrão cabeludo no meio de uma letra bem humorada, porém escrito em dialeto nagô. A sugestão teria vindo da então esposa de Vinícius, Gesse Gessy, que tascou a expressão “a tonga da milonga do kabuletê”, que em bom português significa “os pêlos do cu da mãe”, segundo explicara a esposa baiana do poeta. Como Vinícius tinha certeza que não se ensinava nagô na Academia das Agulhas Negras, mandou ver, e se divertiu ao xingar os milicos sem ser incomodado.


“Eu Quero Mocotó!!”

Mas censor nem sempre era a figura do cão. Como todo bom burocrata e funcionário público, ele estava ali fazendo o seu trabalho. E em muitos casos acabava surgindo alguma amizade entre censores e artistas, e a tesoura acabava pegando leve. A turma do Pasquim se tornou famosa por ludibriar e levar na conversa muitos dos censores que ficavam em sua redação, por vezes à custa de muito uísque Buchanan’s, que acabava “lubrificando” a relação entre censura e um dos semanários mais críticos ao regime. Numa dessas, a censora de plantão, D.Marina, liberou uma reprodução do quadro “O Grito do Ipiranga”, de José Américo, com a frase “Eu Quero Mocotó!” saindo de D.Pedro I. Os militares não gostaram nem um pouco e mandaram a redação inteira para o xilindró durante dois meses. Mas o jornal não deixou de ser editado, pois os colegas da patota do Pasquim se reuniram e tocaram a publicação durante a ausência de seus titulares, e a versão publicada é que todos estavam “acometidos de gripe”. Depois dessa presepada, os editores tinham que ir diretamente a Brasília negociar a liberação das edições seguintes.

Para servir de saideira, uma ótima para ilustrar o nível intelectual daqueles que comandavam a repressão, e mesmo não sendo a intenção dos artistas, expôs ao ridículo as autoridades, que não eram exatamente famosas por sua cultura e inteligência. Em 1965 a peça “Electra” foi encenada no teatro municipal, e a trama chocou os mais conservadores, que chamaram o elenco “aos costumes”, e a polícia ficou doida para prender quem escrevera aquela pouca-vergonha a pedido do DOPS. Claro que ninguém ali percebeu o pequeno detalhe que o texto era uma tragédia grega escrita uns 400 anos antes de Cristo por um tal de Sófocles, coincidentemente  o pai da tragédia grega. E claro que não se poderia perder este mote para se tirar sarro do regime, e a tragédia virou comédia nas mãos de Sérgio Porto e seu FEBEAPÁ – Festival de Besteiras que Assola o País.

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Mandrake


A Grande Arte de Rubem Fonseca na Tela Pequena

Na minha época de pretenso maldito e misantropo em progresso, uma de minhas leituras favoritas eram os livros e contos de Rubem Fonseca. Mesmo que você não sinta vontade de que a humanidade se exploda, tal obra é recomendadíssima. Contista de mão cheia, a maioria dos seus contos são policiais, fruto de sua experiência profissional na Polícia Civil. Cheios de detalhes do submundo carioca e recheados de violência crua, normalmente os personagens de suas histórias são cínicos, hedonistas e intercalam palavrões com citações eruditas em diálogos insóllitos. Contos como “O Cobrador” e “Feliz Ano Novo” mostram marginais e psicopatas cometendo assassinatos com requintes de crueza, e “225 Gramas” é um dos mais perturbadores de sua obra, ao descrever um último encontro inusitado entre um homem e uma antiga amante durante uma autópsia. Mas há alívios cômicos, e “Corações Solitários” ou “AA” são exemplos deliciosamente irônicos

Mesmo não costumando retornar personagens, alguns acabam voltando em contos e romances. E um deles é o advogado criminalista Mandrake, protagonista de alguns contos e romances. Tal advogado, em sociedade com um judeu chamado Wexler, costuma resolver os cu-de-boi que seus clientes abastados se enfiam e que, por um motivo ou outro, não podem apelar para a polícia. Transitando livremente entre o jet-set carioca, delegacias e ambientes pouco recomendados, suas paixões são os charutos, os vinhos e as mulheres. Um dos romances de Rubem Fonseca protagonizado por Mandrake, “A Grande Arte”, inspirou o filme homônimo de Walter Salles. No romance, para se vingar de um grupo de assassinos habilidosos no uso de facas de combate, o advogado aprende a arte do percor – perfurar e cortar – e passa a perseguir aqueles que o feriram. Pessoalmente sempre gostei da primeira metade do romance, mas sempre me deu a impressão que a história se torna complexa e perde rumo e ritmo.

Tergiverso, todavia. O motivo de abordar a obra do inacessível escritor avesso a badalações e entrevistas é o lançamento tardio em DVD da excelente série de TV baseada no personagem Mandrake, produzida pelo canal HBO e a produtora Conspiração Filmes em 2005. Tecnicamente impecável, filmada em película e com trilha sonora calçada no Jazz (o tema de abertura é “Work Song”, de Charles Mingus), a aparente proposta da série foi trazer um clima de filme noir a histórias passadas, em sua maioria, no Rio de Janeiro. Longe do lugar-comum de mostrar o clima alegre e ensolarado dos cariocas, a fotografia escura dá o tempero de literatura pulp, e a produção conseguiu criar uma linguagem de apelo universal, mas sem perder a identidade brazuca, com temática adulta, apelo erótico e alguma violência.

A direção da maioria dos episódios ficou a cargo do filho de Rubem, José Henrique Fonseca, que assina o roteiro em parceria com Felipe Braga e Tony Belloto. Tais roteiros são fiéis ao espírito do personagem, claramente fanfarrão, bom vivant, cara de pau e mulherengo, mas que alivia seu karma ajudando gratuitamente quem precisa de apoio jurídico mas que não pode pagar. A influência da literatura policial noir é sentida em episódios como “Eva”, cujo roteiro é claramente inspirado em “O Sono Eterno”, de Raymond Chandler. Mesmo baseado nos contos do pai, a maioria das histórias são originais, mas mantendo algumas referências, como no episódio “Dia dos Namorados”, que referencia um dos contos publicados no livro “Feliz Ano Novo”, na qual um diplomata se mete em uma enrascada digna de Ronaldo Fenômeno. E em quase todas há alguém importante ou bem financeiramente que está em uma situação de chantagem ou extorsão, e Mandrake atua muitas vezes como detetive, um Phillip Marlowe com mais malandragem e gingado.

Não preciso dizer que o ator Marcos Palmeira ficou bem à vontade no papel-título, o maior consumidor de Periquita (o vinho português, mente poluída) do Rio de Janeiro. Não é para menos, já que muitas beldades, com perdão do trocadilho, acabam na vara do advogado. E que beldades. Ao longo dos treze capítulos, criaturas mimosas como Suzana “Tiazinha” Alves, Gisele Itié, Gianne Albertoni, Bruna Lombardi, Monica Martelli e Erica Mader se deixam levar pela conversa mole do advogado, o que enche a testa de Berta Bronstein (Maria Luisa Mendonça) de tanta ponta que dá pena. E não preciso nem falar que ficam bem desinibidas durante os episódios.

Outros destaques do elenco são o sócio Wesxley (o sempre ótimo Mielle) e o antigo amigo de infância, sócio involuntário em triângulo amoroso e policial Raul (Marcelo Serrado), que ajuda o amigo quando este se mete em uma enrascada na qual nem sua cara de pau consegue tirá-lo. Certamente é dele os mais engraçados diálogos, já que, ao contrário do amigo, Raul é tão fino quanto parede de castelo, inclusive com as mulheres. Curiosamente o hoje famoso comediante Marcelo Adnet participa como um jovem estagiário de Direito.

Na época, a HBO produziu 8 episódios, e posteriormente filmou mais 5. Infelizmente após estes 13 episódios nenhum material foi produzido, e um eventual lançamento em DVD ficou apenas na promessa, sendo efetivado só agora, e no mercado estrangeiro. Mas nada que um cartão de crédito internacional não resolva, além de, é claro, as opções alternativas disponíveis na grande rede mundial de computadores. Uma boa pedida para quem gosta de boas atrizes pagando peitinho histórias policiais.

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Retrato em Branco e Preto


…a maltratar meu coração

Uma das mais bonitas músicas brasileiras, a composição de Tom Jobim e a letra de Chico Buarque combinaram de tal forma que resultou em uma canção bela e triste, a trilha sonora adequada para curtir um amor do passado.

Mas a música de Tom Jobim se chamou originalmente “Zingaro”. Ao compor a melodia, Jobim imaginou a história por trás da música como a de um cigano triste que vendera seu instrumento. A irmã de Jobim chegou depois a afirmar que o “cigano” seria o próprio Jobim, meio solitário em sua estada nos Estados Unidos. Seria gravada pela primeira vez no LP “A certain Mr. Jobim”, de 1965.

Chico Buarque entraria em cena depois, ao compor a letra e dar o título Retrato em Branco e Preto, uma letra sobre desencanto amoroso. Jobim teria dado carta branca ao letrista e acabou que a letra saiu totalmente diferente da ideia original de Jobim.

Musicalmente, Retrato em Branco e Preto é simples e genial, pois usa variações sobre poucas notas, marca registrada de Jobim, que sabia dar cor a arranjos simples. A música se tornou um clássico da música popular, e recebeu interpretações diversas, na voz de Chico, Tom e Elis Regina, Raphael Rabelo e Ney Matogrosso. A mais marcante, sem dúvida, é uma das versões gravadas por João Gilberto. Vânia Bastos e Ana Carolina são mais dois exemplos de vozes femininas que já gravaram esta música.

As versões instrumentais também são dignas de nota. Chet Baker, na trilha sonora do documentário “Let´s Get Lost“, a toca com seu trompete belamente acompanhado pelo violão de Nicola Stilo. Outra versão instrumental que vale a pena ser ouvida é a de Joe Henderson,  que gravou um disco com músicas de Jobim, “Double Rainbow“. Seu sax tenor prestou uma justa homenagem ao maestro Jobim.

 

Já conheço os passos dessa estrada
Sei que não vai dar em nada
Seus segredos sei de cór
Já conheço as pedras do caminho
E sei também que ali sozinho
Eu vou ficar, tanto pior
O que é que eu posso contra o encanto
Desse amor que eu nego tanto
Evito tanto
E que no entanto
Volta sempre a enfeitiçar
Com seus mesmos tristes velhos fatos
Que num álbum de retrato
Eu teimo em colecionar
Lá vou eu de novo como um tolo
Procurar o desconsolo
Que cansei de conhecer
Novos dias tristes, noites claras
Versos, cartas, minha cara
Ainda volto a lhe escrever
Pra lhe dizer que isso é pecado
Eu trago o peito tão marcado
De lembranças do passado
E você sabe a razão
Vou colecionar mais um soneto
Outro retrato em branco e preto
A maltratar meu coração

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Vou Ali e Já Volto

Não que faça muita diferença na periodicidade irregular de postagem dessa blodega, mas estarei devidamente ausente na próxima quinzena, e se tudo der certo, a uma distância segura de computador e Internet. Claro que meus planos de abstinência cibernética podem não dar certo, e corre-se o risco de aparecer alguma novidade por aqui nesse período. Só não apostaria muito. Amplexos e ósculos nos sócios remidos da Blodega e até mais.

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Bate-Boca

  • Moziel T.Monk: Pessoalmente eu nunca vi disponível esse tipo de material online. Por ser algo relativamente antigo, é...
  • Ricardo: Tenho saudades das histórias e gostaria de saber em que site eu consigo ler online ou baixar. Grato Ricardo
  • Ribamar: Branchu é o nada de onde todo vazio provém
  • padre levedo: ouça isto, Moziel http://www.youtube.com/watch?v =wdX6ly6ftUM
  • Moziel T.Monk: Sim, tanto que deixo claro no texto que a história foi criação de David Nasser, apesar de na época de...

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