Naftalinas
Textos reeditados de antigos sites e blogs os quais coleborei, mas tudo respeitando o prazo de validade
Layla

O único álbum de uma banda que se tornou clássico
Por mais que a carreira de Eric Clapton o conduzisse a ser um rock star, ele deliberadamente evitava que isso ocorresse. Isso o fez sair da banda Yardbirds quando essa assumiu uma veia mais pop, pois ele preferia dedicar fidelidade ao Blues. Para Clapton, era melhor ser um coadjuvante em alguma banda de Blues do que um bandleader de um grupo mais pop. Mas isso não impedia que ele se tornasse popular e famoso entre os jovens ingleses, pois na época em que tocava na John Mayal and The BluesBreakers foi que a cidade de Londres se viu pichada com as inscrições “Eric is God”.
Por esse seu desejo quase obsessivo de não se tornar uma estrela que, em 1970, após já ter gravado seu disco solo, que ele montou uma banda. E para não querer se sobressair em relação a seus colegas, essa banda foi batizada de Derek and The Dominos. Ele era apenas mais um na banda, que tinha Bobby Whitlock aos teclados e nos vocais, Carl Radle no baixo e Jim Gordon na batera, que eram dissidentes da banda Delanie and Bonnie and Friends, além do próprio Eric nos vocais e guitarra.
Por melhor que fosse a banda, ela acabou gravando apenas um álbum duplo, intitulado Layla And Others Assorted Love Songs. Gravado em Miami entre agosto e setembro de 1970, o disco seria lançado no final daquele ano. As catorze faixas que seguiam entre o rock, blues e country mostravam um Eric Clapton em excelente forma e fase, antes de seus problemas com drogas ilícitas e álcool.
Infelizmente a crítica recebeu o álbum com frieza na época de seu lançamento, e a própria banda passou por intempéries que acabaram com ela, como a morte do guitarrista Duane Allman, que participara das gravações do álbum e seria considerado pela revista Rolling Stone como o segundo maior guitarrista de todos os tempos, atrás apenas de Jimi Hendrix. Hendrix, por sinal, também morreria meses antes e também abalaria a todos, pois passara seus últimos meses de vida na Inglaterra, impressionando a todos, inclusive Eric, com seu estilo de tocar guitarra. A faixa 11, “Little Wings”, é uma homenagem da banda a Jimi. Para terminar de lascar tudo, o baterista da banda seria internado sob o diagnóstico de esquizofrenia após matar a própria mãe. Pense numa banda zicada!
A banda ainda chegou a excursionar pelos EUA e gravar um álbum ao vivo, mas acabaram se separando antes do segundo disco de estúdio. O próprio Clapton praticamente deixou de tocar devido a seus problemas com drogas, e só voltaria a engrenar sua carreira a partir de 1973. Hoje, o álbum é considerado uma obra-prima, o ápice da carreira jovem de Clapton e normalmente figura entre os maiores álbuns de todos os tempos em eventuais listas que surgem nas publicações especializadas.
O High Society leva chifre e não tem ciúmes
A música-título, Layla, tem como inspiração, além do conto árabe “Majnun e Layla”, a paixão de Eric Clapton pela então esposa do ex-Beatle George Harrison, Patti Boyd-Harrison. Ela deixaria Harrison a ver navios e viveria com Clapton até 1988. Mas o serviço de galha de Clapton com seu amigo rendeu uma das mais belas músicas do pop-rock, que em sua versão original, tem o belíssimo solo de piano composto e executado pelo baterista Jim Gordon. Eric revisitaria a música no álbum “Unplugged”, gravado ao vivo na MTV, praticamente reconstruindo a canção original.
E o corn…digo, George Harrison? Bem, ao que parece, o caso não abalou tanto assim a amizade, tanto que o casamento acabou, mas eles continuaram amigos, tanto que Eric prestou uma homenagem a Harrison após sua morte com o Concert for George, em 2002, e ao regravar a música “Loves Come to Everyone” no álbum “Back Home”, de 2005. Por sinal, essa música já teve uma versão em português surpreendentemente literal, que fez sucesso na voz de Zizi Possi. Mas esse é outro assunto…
Vitrola de Ficha
E para uma amostra grátis, comparem as duas versões da música-tema do affair Clapton-Patty-Harrison. A primeira é a original, de 1970. A outra é a versão “desplugada” (ou acústica, como preferir) de 1992. Sigam a bolinha e acompanhem a música
And nobody’s waiting by your side?
You’ve been running and hiding much too long.
You know it’s just your foolish pride.
Layla, you’ve got me on my knees.
Layla, I’m begging, darling please.
Layla, darling won’t you ease my worried mind.
I tried to give you consolation
When your old man had let you down.
Like a fool, I fell in love with you,
Turned my whole world upside down.
Let’s make the best of the situation
Before I finally go insane.
Please don’t say we’ll never find a way
And tell me all my love’s in vain.
Nunca Aposte Sua Bunda

Existe um conto do Edgar Allan Poe intitulado “nunca aposte sua cabeça com o diabo” com um certo cunho moral sobre um indivíduo que, para comprovar suas razões e seus pontos de vista, sempre apostava sua cabeça com o diabo (dã!). Conhecendo Poe, você pode presumir que o destino do infeliz não foi dos melhores. Não vou dar recomendações morais para nunca apostar sua cabeça com o diabo. Este caráter moral eu deixo para o velho Edgar.O que venho recomendar aqui aos jovens leitores é: nunca apostem sua bunda. Nem com o diabo, nem com ninguém!
Por mais que você tenha certeza, convicção absoluta ou não haja sombra de dúvida, nem assim aconselho você a colocar a saúde de suas pregas em questão como fiel de uma aposta. Mesmo que a aposta verse sobre o formato do planeta ou de seus testículos, resista a tentação de afirmar sua certeza e conhecimento sobre algum assunto bradando “eu dou o cu de festa se estiver errado!”. Por menor que seja o risco de se perder a aposta, ele existe. E perder uma aposta cuja paga envolva a prática meio involuntária do amor uranista, qualquer risco é grande demais.
Para ilustrar esta crônica de cunho moral, me permitam relatar uma pequena história envolvendo Bira, o Bruto, e um incauto jovem que atendia pelo nome de Marcos Vinícius, ambos alunos do ensino superior em uma mesma universidade. Nestas contendas intelectuais que surgem nos corredores do campus e nas mesas de botequim, eis que ocorre entre estes dois personagens uma divergência de opinião sobre algum assunto obscuro ou complexo, como teoria do caos, mecânica quântica ou cinema iraniano. Não importa. O que é relevante é que alguém resolveu apostar o brioco e o outro aceitou. Um dos dois estava errado, e pela aposta, este deveria ceder o ás-de-copas para pagar a aposta. Não preciso dizer que um terceiro, um professor que era autoridade no assunto (o assunto da aposta, e não em dar a bunda) acabou por dar razão ao Bira, que além de bruto, é escroto e cara de pau. Ao saber que vencera a aposta, uma frase se tornou comum de se escutar na faculdade: ”Marcos Vinícius, estás me devendo!”, obviamente seguida do gesto envolvendo os dedos polegar e indicador formando o característico anel.
O campus inteiro estava ciente da aposta e da dívida, e as cobranças públicas estavam cada vez mais constrangedoras. Mas o ápice das mesmas ocorreu quando, no início de um semestre, o diretório acadêmico organizou um evento para recepção dos calouros. Em um palanque, as autoridades acadêmicas diziam algumas palavras. Alguma alma sebosa acabou chamando o veterano aluno Bira, uma verdadeira instituição dentro da universidade, para falar ao microfone, em cima do palanque. Ele falou aos alunos novos, explicou um pouco sobre a rotina acadêmica, soltou umas piadinhas infames com alguns dos professores. Mas ao final, ele pergunta ao público: “Cadê Marcos Vinícius? Ele ta por aí?”. Ao vê-lo tentando se esconder entre algumas jovens calouras, Bira aponta para ele e grita, fazendo com a outra mão o característico gesto com os dedos indicador e polegar:
“MARCOS VINÍCIUS, ESTÁS ME DEVENDO!”.
Agora todo mundo no campus estava sabendo da aposta. Mas a solução parece fácil, não? Era só Marcos Vinícius conversar com o Bira e pedir educadamente que ele parasse com estas cobranças públicas, já que estava ficando feia a situação. E foi isso que Marcos acabou fazendo, e para sua surpresa, o Bira aceitou numa boa, cessando as cobranças públicas. Mas poucas semanas depois, Marcos chama o Bira e pede para que ele volte a cobrar a aposta. “Mas por quê?”, perguntou Bira, segurando o riso e já prevendo a resposta: “É que todo mundo está pensando que eu paguei a porra da aposta!”.
Ou seja, jovens, nunca apostem a sua bunda, pois sempre existe a possibilidade de se perder a aposta. A não ser que a sua intenção seja essa…
Dirty Harry, Smith & Wesson

Hoje o veterano ator Clint Eastwood completa 80 anos, sendo um dos mais respeitados diretores americanos da atualidade. Aproveitando a data reedito este texto dos tempos do Busilis sobre um de seus mais famosos personagens: Harry Calahan, ou Harry, o Sujo. Make my day!
Na época do lançamento de “Tropa de Elite”, alguns críticos soltaram os cachorros e se indignando com o fato do protagonista do filme, o violento Capitão Nascimento (vivido por Wagner Moura) ser aclamado como herói pelo público, mesmo usando de expedientes ilegais e violentos. Ô racinha, não pode ver o povo vibrar quando bandido se fode nas telas do cinema que já começa a levantar tese de sociologia. Deixa o povo se divertir, cazzo. Já não basta ver os meliantes se safando por conta de brechas da lei ou incompetência das autoridades? Por isso o povo lava a alma quando, na ficção, um meganha bota pra lascar nos bandidos.
Mas o Capitão Nascimento é apenas mais um personagem do cinema que leva fama de fascista. O patrono dos policiais do cinema que fazem justiça a seu modo é um inspetor de San Francisco que passou os anos 70 e 80 pegando pesado com a malandragem que se beneficiava da moleza legal, naqueles anos anteriores ‘a “tolerância zero”. Os cinéfilos devem conhecer Harry Callahan, ou seu apelido Dirty Harry, o Harry, o “Sujo”. Vivido por Clint Eastwood no cinema, o policial mais grosso de San Francisco ainda hoje tem sua legião de fãs, e quem não o conhece merece ser apresentado.
O contexto da época favoreceu a simpatia popular por um policial que não era totalmente certinho e que questionava o sistema judiciário, algo novo no início dos anos 70 nos States. Durante os anos 60, as leis americanas acabaram se tornando brandas, muito em parte por conquista das lutas pelos direitos civis. Se por um lado houve um esforço genuíno no sentido de dar as minorias étnicas alguma dignidade, por outro lado as leis mais lenientes e penas mais brandas acabaram por deixar muitos criminosos nas ruas, e a sensação de impunidade logo tomaria conta da população.
Mas deixemos a sociologia de botequim de lado. O fato é que, com as devidas proporções, o impacto do filme causou lá uma polêmica semelhante a que vimos por aqui com “Tropa de Elite”, e “fascista” também é um dos adjetivos que acabaram acompanhando Harry Callahan em sua carreira policial. Mas nem por isso deixou de ser um sucesso no cinema, participando de cinco filmes, ao todo.
A estreia se deu em 1971, com “Perseguidor Implacável” (Dirty Harry), dirigido por Don Siegel. Nesse filme, o personagem-título já mostra a que veio ao impedir um assalto a banco logo nos primeiros minutos. Como cartão de visitas, o inseparável revólver Smith & Wesson 29 com seis polegadas de cano e em calibre 44 Magnum, na época uma das mais poderosas munições para revólveres. E além da poderosa munição, outra de suas marcas: as frases contundentes, já que o malcriado Callahan era tão rápido com a língua quanto com seu Magnum, e as expressões “Do you feel lucky, punk?” ou “Go ahead, make my day” já foram incorporados a cultura pop. Ouvi-las do lado errado da mira de um revólver não é um momento muito agradável aos meliantes.
Já nesse filme descobrimos duas características que perseguiriam o personagem: a irritação e desaprovação de seus superiores com seus métodos, a burocracia e paternalismo da justiça em benefício dos bandidos e a pouca sorte dos eventuais parceiros, que acabariam mortos ou bastante feridos. O vilão da vez é o maníaco Scorpio, que sequestra e tortura crianças. No decorrer do filme, Harry usa de seus métodos pouco ortodoxos para encontrar o bandido e obter informações. A cena em que ele persegue e pisa na perna ferida de Scorpio é antológica, e naquele tempo causou algum impacto. Mas ajudou bastante antipatizarmos com o vilão, e o ator Andrew Robinson, que interpretou o psicopata Scorpio, foi deveras competente em transformá-lo num personagem asqueroso. Obviamente a justiça coloca o bandido na rua, e na segunda vez em que Harry persegue e confronta o bandido, ele não se preocupará com papelada nem com processo criminal.
Mesmo jogando seu distintivo fora ao final do primeiro filme, os produtores devem ter gostado do resultado e deram um jeito para que ele continuasse a bater ponto para a Polícia de San Francisco, e uma sequência foi filmada em 1973, dessa vez com Ted Post na direção. Nesse segundo filme, intitulado “Magnum 44″ (Magnum Force), ficou famosa a abertura que mostra o revólver coadjuvante e a narrativa em off descrevendo suas potencialidades. Nesse filme, os criminosos são jovens policiais que se organizaram em um esquadrão da morte para eliminar chefões mafiosos que escapavam à lei, algo que se tornou notório aqui no Brasil naquela década e que é mencionado por Dirty Harry. Seria uma causa que poderia, à primeira vista, angariar a simpatia de Callahan, mas mesmo conhecido por eventualmente desobedecer a seus superiores e aplicar a lei a seu modo, Harry está do lado da lei, e deixa isso bem claro ao perseguir seus colegas de farda.
Dois anos depois, James Fargo dirige “Sem Medo da Morte”(The Enforcer). Dessa vez os burocratas empurram uma parceira feminina, a inspetora Kate Moore (Tyne Daly), e o crime a ser enfrentado é um grupo terrorista urbano local, uma provável referência à quadrilha terrorista alemã Baader-Meinhof, que rouba armas militares e planeja sequestrar o prefeito. Mesmo relutante, ele acaba se entrosando com sua nova parceira. Só mesmo Dirty Harry pra ser suspenso com estilo, praticamente pedindo pra triplicar sua suspensão e devolvendo o distintivo ao seu superior como “um supositório de sete pontas”. Sua parceira levanta a questão pseudofreudiana sobre a preferência dele por uma arma tão grande e poderosa, já que seus colegas se contentavam normalmente com um Magnum .357. Será que Callahan estaria compensando alguma coisa? Mas ele deixa claro que sua preferência é meramente técnica e operacional. Às vezes, um charuto é apenas um charuto, e um Magnum .44 é apenas um Magnum .44.
O personagem sobrevive ao crime organizado da Califórnia e aos anos 70 e retorna em 1983 em “Impacto Fulminante” (Sudden Impact), dessa vez dirigido pelo próprio Eastwood. E talvez por isso o melhor da série. E a primeira cena de ação é antológica, com Callahan interrompendo um assalto a um restaurante ao apresentar seus “amigos” Smith e Wesson aos meliantes. O crime a ser investigado é uma série de homicídios nos quais as vítimas têm suas “partes baixas” estouradas por tiros, e a suspeita é uma artista plástica (Sondra Locke, a época casada com Clint), que fora estuprada com sua irmã. Ao mesmo tempo em que investiga a série de crimes, Callahan tem que lidar com a máfia local, que está puta porque seu chefe morreu enfartado enquanto o jeitoso Harry o confrontava com seus crimes durante a cerimônia de casamento da neta do mafioso. Pense num menino educado! E, antologicamente, ele acaba tendo que mais uma vez substituir sua arma. Todo policial costuma ter uma arma pequena como reserva, mas isso não seria o estilo Dirty Harry, e para substituir seu revólver perdido durante uma emboscada, ele usa nada menos que uma pistola Automag .44 Automagnum, ainda mais poderosa que seu revólver.
Os anos oitenta brindaram o cinema com versões anabolizadas de justiceiros e combatentes, que não se furtavam em usar de extrema violência contra toda espécie de elemento. As características dos filmes de Dirty Harry se tornaram clichês repetidos à exaustão em filmes baratos. E podemos citar o filme “Stallone Cobra” como o repositório de todo tipo de clichê dos filmes policias e de ação daquela década, quase uma paródia involuntária. E a própria vida real apresentava criminosos mais violentos e perigosamente armados. Harry Callahan pareceria um escoteiro, o Magnum .44 já não era o revólver mais poderoso do mundo há muitos anos e sua aposentadoria parecia inevitável. Mas Dirty Harry tem mais estilo no bolso do paletó do que todos os exterminadores, rambos e cobras oitentistas. E seu pedido de aposentadoria foi adiado em 1988 com o lançamento de “Dirty Harry na Lista Negra”(The Dead Pool), no qual celebridades que constam em uma espécie de “bolão pé-na-cova” estão sendo assassinadas, e seu nome estaria na tal lista. Em linguagem e estilo, é o mais diferente de todos os filmes, com direito a músicas de Gun´s´Roses ao lado dos temas tradicionais de Lalo Schifrin e Jerry Fielding. Para quem não conhecia o personagem, parecia mais um filme policial daqueles anos, sem nada demais. Mas Harry estava lá para fazer justiça, nem que tivesse que usar um lançador de arpão ao invés do seu velho Magnum, e ainda com tempo para ter um caso com uma repórter (não antes de quebrar sua câmera).
Hoje em dia Harry Callahan ainda faria sucesso em um eventual novo filme? Considerando que um bocado de velhuscos andou retornando às telas, não seria surpresa Clint ressuscitar uma de suas mais famosas crias. Mas acho pouco provável, já que o ator e diretor anda envolvido em projetos mais intimistas, como “Cartas de Iwo Jima” , “A Conquista da Honra”, “Gran Torino” e “Invictus”, bem longe do cinema de ação. E dificilmente outro ator emprestaria o carisma de Clint ao personagem. Mas o amável leitor e querida leitora podem assistir aos cinco filmes da série, todos disponíveis em DVD e Blu-Ray com Clint Eastwood sentando o dedo em seu Magnum .44, e de vez em quando a Amazon Inglesa costuma disponibilizar o box com os 5 filmes num precinho camarada. Se dê este gostinho!
Sinhá Gorda

A sinhá já estava na mesa do café da manhã, pronta como sempre ficava nas manhãs quentes. Gorda como ela só, adorava brincar de que ela era a escrava, assim que o Barão saia de casa. Fazia o papel de escrava e mandava eu lhe dar chicotadas, sendo eu o seu algoz. Depois de algumas chicotadas e tapas ele pedia pra lhe beijar. Isso não, eu era escravo. Podiam me matar no tronco, mas beijar aquela mulher não dava. O Barão só aguentava por que foi dela que ele herdou todas as terras que tinha. Além disso, ele tinha todas as escravas mais novas à hora que quisesse.
Todos os dias de manhã cedo era a mesma brincadeira. A Sinhá se divertia. Parecia uma porca de quatro no chão pedindo pra apanhar. A minha sorte, ou azar, é que nunca o barão pegou no flagra aquela cena ridícula. Nem mesmo ninguém contava para ele, até porque o capitão, que nos vigiava na senzala, achava aquilo um castigo bem pior que ir pro tronco.
Mas um dia a coisa parecia que ia mudar. Ela acordou logo cedo e vendo que não havia jeito de me beijar, nem amarrado, me fez uma proposta tentadora. Eu teria que beijá-la e ainda ir às vias de fato com ela, por pelo menos duas horas. Se fizesse isso teria minha carta de alforria. Bom, era um verdadeiro de
safio, afinal dar palmadas e chicotadas ainda é suportável, mas beijar e pegar a mulher do Barão, e ainda por cima por duas horas, é algo asqueroso, que dá até náuseas. Nem depois de vários litros de pinga da braba, daquela pega fogo mesmo. Mas havia uma compensação, muito boa por sinal. A minha liberdade. Algo que eu havia lutado desde sempre, já havia tentado fugir várias vezes, ido pro tronco outras tantas, só para ganhar a liberdad

e. Agora ela estava ali, na minha frente, de bandeja. Era só passar duas horas com a porca gorda da Sinhá.
Depois de muito pensar e medir os prós e contras da proposta, resolvi aceitar, mas algo me deixava nervoso. Se fosse pego pelo Barão, ele arrancaria meu couro, e finalmente teria um motivo para matar a gorda de sua esposa, sem problemas com a lei. Mas esse problema, o possível flagra que o Barão podia dar nesse verdadeiro desafio, fora resolvido com maestria pela Sinhá. Ela inventou uma visita a uma tia distante, falou que há tempos não a via e que era realmente necessário ir até lá, pois a tia imaginária estava à beira da morte. Eu entrei na história, pois ela exigiu que um escravo grande e forte fosse lhe fazendo companhia, para sua segurança e para carregar sua enorme bagagem. O Barão apenas comentou que eu tivesse cuidado, pois as frutas do seu pomar só ele podia colher. Isso num tom de voz ameaçador. Deu-me um frio na espinha. Mas valia a pena correr o risco, afinal era minha liberdade.
O problema foi à data marcada para a viagem, dia 12 de maio de 1888. Só podia ser nesse dia, pois a colheita do café já haveria acabado e o Barão podia abrir mão do meu trabalho no campo. Esperei alguns meses, ainda tendo que brincar de ser senhor e ela de escrava branca. Finalmente o dia chegou, a viagem foi tranqüila, sem sobressaltos além das tentativas quase insanas dela se agarrar no meu membro em plena estrada. Era uma tarada e devia estar necessitada. Chegamos a um lugar deserto, uma casa meio abandonada, que ficava a muitas léguas da casa grande. Ela me falou – É aqui, prepare-se para ser meu – a boca dela salivava. Eu estava maluco, mas precisava fazer aquilo. Entramos na casa e nem deu tempo de pensar, ela já estava sobre mim, e caí no chão com o peso. Minhas velhas e surradas roupas voaram longe e facilmente foram arrancadas. A Sinhá gritava e uivava, como se estivesse no cio. Nunca vi nada tão medonho. Fiz todo o ritual combinado, a beijei e todo o resto. Depois de tudo feito, e passando mal, recebi dela a minha carta assinada pelo Barão, conforme o prometido. Nunca fiquei tão feliz. Abri a porta e a deixei lá, sai correndo e gritando com a carta na mão. Finalmente livre. Só consegui chegar à cidade no dia seguinte, pois estava demasiado longe. Ao entrar gritando de euforia vi que vários negros também gritavam. Já passavam das 4 da tarde do dia 13 de maio de 1888. Todos eles corriam feito loucos gritando, dizendo que estavam livres. Não entendi nada, afinal havia passado um dia fora. Encontrei um amigo de senzala e o mostrei minha carta. Ele sabia de todo o martírio que havia feito pra consegui-la e apenas riu na minha cara. – Rapaz, você fez tudo em vão, a Princesa Isabel acabou de assinar a lei Áurea, libertando todos nós. Estamos todos livres! E você pegou a Sinhá Gorda! – Não sei se chorava de alegria ou tristeza, mas o fato é que aprendi a nunca mais confiar em mulheres taradas.
Uma Paranóia Patológica
![]()
Quando o ranzinza Donald foi promovido a agente da CIA
Nos anos 50 o livro do psicólogo Fredric Wertham, “Seduction Of Inocent”, acusou os quadrinhos americanos de induzirem a juventude ao crime. Esse livro é inédito em português, e por aqui não trouxe maiores consequências diretas, não obstante esta mídia sofrer de todo tipo de acusação por aqui em décadas passadas. Mas guardadas as devidas proporções, outro livro publicado ao sul do Equador também demonizou os singelos personagens dos quadrinhos. Se o psicólogo alemão acusava Batman e Robin de viadagem, o Pato Donald virou instrumento de alienação das massas em prol do imperialismo americano no livro “Para Ler o Pato Donald – Comunicação de Massa e Colonialismo”, escrito no Chile em 1972.
O embrião do livro foi o seminário “Subliteratura e modo de combatê-la”, e os autores, o argentino radicado no Chile Ariel Dorfman e o belga Armand Mattelard, eram funcionário da Quimantú, antiga editora de quadrinhos Zig-Zag que fora estatizada por Salvador Allende. Usando da semiótica – e da grana do contribuinte chileno, diga-se de passagem – os dois então jovens autores empunharam a lupa ideológica para decifrar o significado oculto nos aparentemente infantis e inocentes personagens de Walt Disney. E o que descobriram foi uma conspiração engendrada pelo grande satã americano para alienar as massas e divulgar sub-sub-repticiamente a ideologia capitalista e pequeno-burguesa.
Por exemplo, o Pato Donald, o sobrinho do Tio Patinhas e que comumente é usado como mão-de-obra barata nas aventuras do seu tio sovina, é um agente do imperialismo, corruptor da inocência infantil e sexualmente pervertido, mas não por se abster do uso de calças, e sim porque sua família não tem pais ou laços de parentescos diretos, e ninguém sabe quem é filho de quem. E, claro, Tio Patinhas em suas viagens mundo afora em busca de riquezas e aventuras seria a essência do capitalismo selvagem, que invade as culturas dos países “subdesenvolvidos” para sugar suas riquezas materiais até o talo. Mas tem acusação pra todo mundo. Até o sortudo Gastão serve de exemplo de conformismo pequeno-burguês. Patópolis seria o próprio EUA, centro do mundo civilizado, e o “resto do mundo” seriam os países periféricos e em desenvolvimento, obviamente inferiores em relação à “matriz”. Nem os Irmãos Metralha escapam da condenação de não serem marxistas o bastante, já que querem expropriar o capital da classe dominante apenas para eles próprios se aburguesarem. Mas cá entre nós, mais comunista do que isso eu não posso conceber.
Pior que essa mixórdia já foi, e ainda é levada a sério. Eu mesmo fui apresentado a esta obra por um professor de OSPB (isso ainda existe?) no segundo grau, e numa primeira leitura foi como um choque, e me surpreendi com o significado oculto e, admito, até levei a sério essa grande conspiração de idiotização mundial. E logo achei que Walt Disney e Carl Barks ganhavam dólares diretamente da CIA para conceber ardilosas histórias. Tudo bem que durante a II Guerra Mundial, praticamente sob encomenda do governo americano, Disney produziu desenhos e criou personagens para simbolizar a política de boa vizinhança entre os países americanos, saindo dessa safra o galo mexicano Panchito e o papagaio malandro Zé Carioca. Mas daí a extrapolar que há todo um plano maligno para deturpar os valores das crianças do mundo, convenhamos, é dose difícil de engolir. Mas essa ideia foi muito popular nos anos 70 e 80. Mas como diria Freud, às vezes um charuto é só um charuto. E um ceticismo saudável é sempre bem-vindo. E analisando friamente, hoje podemos ver que essas ideias são apenas frutos de paranoia esquerdista e doutrinação marxista. Os autores apenas pegam das histórias os elementos que venham a corroborar suas ideias, forçando a barra nas interpretações e chegando a adulterar o significado dos quadrinhos, substituindo o texto original por outros mais convenientes à reforçar sua tese, o que não deixa de ser um estelionato intelectual.
E, na verdade, se extrapolarmos a percepção e forçarmos a barra, veremos conspiração e perversão em qualquer obra infantil. Um dos autores do livro, Ariel Dorfman, ainda escreveria “Super-Homem e seus amigos do Peito”, levando a mesma teoria aos heróis dos quadrinhos americanos. Em anos mais recentes, é comum vermos pastores mais exaltados afirmarem que os funcionários da Disney são tarados, homossexuais e maconheiros que enchem os desenhos com símbolos fálicos e mensagens de conotação sexual em suas produções infantis. Mas cá entre nós, quem vê pica em tudo que é canto é, no mínimo, suspeito…
Em cima desse mote, o sacana Ruy Goiaba parodiou a ideia central do livro chileno ao enxergar uma grande conspiração urdida por Maurício de Souza com seus personagens ao escrever “Para Ler a Turma da Mônica”, que inclusive já foi publicado na revista “Playboy”. Porém tem gente que leva a piada a sério e há poucos meses um artigo intitulado “Violência na Turma da Mônica” causou rebuliço entre os fãs dos quadrinhos ao tentar trazer significados negativos aos personagens de Maurício de Souza.
Mesmo que hoje muitos ainda comprem as ideias desse livro, que se encontra ainda disponível, só mesmo os esquerdistas mais xiitas poderiam levar tamanha teoria conspiratória a sério. No livro “Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano”, uma obra dedicada a descascar com sólidos argumentos e fina ironia o mito de que a culpa do subdesenvolvimento latino é pura e exclusivamente dos planos malignos oriundos do Primeiro Mundo, seus três autores dedicam algumas páginas à obra chilena, e procuram explicar o motivo do sucesso do livro “Para Ler o Pato Donald” entre os que ele intitula “idiotas latino-americanos”:
“..está escrito em clave paranoica, e não há nada que excite mais a imaginação de nossos idiotas do que acreditar-se objeto de uma conspiração internacional encaminhada para subjugá-los. Para esses desconfiados seres sempre existem uns ‘americanos’ tentando enganá-los, tratando de roubar-lhes seus cérebros, arruinando-os nos centros financeiros, impedindo-lhes de criar automóveis ou peças sinfônicas, intoxicando-lhe a atmosfera, ou combinando com os cúmplices locais a forma de perpetuar a subordinação intelectual que padecemos”
Acho que nem o Professor Ludovico falaria melhor
Super-Homem x Ku Klux Klan

A cultura ocidental ajudou a divulgar em filmes a figura da Ku Klux Klan, a organização racista americana. A Ku Klux Khan teve um início até inocente, quando uns ex-soldados confederados se reuniram sem maiores pretensões no Tenessee, mas a organização cresceu e assumiu um caráter conservador e intolerante contra os negros que conseguiram a liberdade após a conclusão da guerra. Açoites públicos, linchamentos, estupros e castrações espalharam o horror entre os negros, que passaram a temer os homens de capuz branco e as cruzes em chamas. Desde então, a organização passou por altos e baixos, com períodos de intensa atividade intercalados por momentos em que o grupo ficava nas sombras. Em 1872, a organização foi reconhecida como um grupo terrorista e foi perseguida pelo governo. Décadas depois, em 1915, o filme “O Nascimento de uma Nação” contava os primeiros anos da nação americana e fazia apologia da atividade dos homens da Klan, contribuindo para o seu ressurgimento. Até o início da II Guerra Mundial, a KKK esteve em plena ativa. Mas a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra, justamente contra nações que defendiam ideias semelhantes às da Ku Klux Klan, tirou qualquer viabilidade da organização se manter popular.
Mas uma enorme cruz em chamas foi vista pouco mais de dois meses após o final da guerra na encosta do Stone Montain, em Atlanta. Os homens de capuz branco estavam de volta à atividade, e escolheram a capital da Geórgia como sua nova sede.
O Herói do mundo real
Um jovem de trinta anos chamado Stetson Kennedy era natural de Atlanta, mas ao contrário de muitos de seus conterrâneos sulistas e seus antepassados, ele não concordava com o ideário racistas propagadas pela Klan, e se sentiu na obrigação de fazer algo para combater essa praga ao seu modo, escrevendo artigos para periódicos. Infelizmente, a KKK era apenas o braço armado e extremista de uma mentalidade arraigada na elite branca do Sul, e a retórica parecia ser insuficiente para combater a Klan.
Usando um nome falso e o fato de que um tio seu já havia sido um Klansman, Kennedy conseguiu entrar e se infiltrar no grupo local da Klan, logo se tornando parte dos Klavalheiros, que era a polícia secreta da organização. O que ele observou, de imediato, é que a maioria dos que faziam parte da Klan eram homens de pouca instrução e sem futuro profissional promissor. Logo ele se familiarizou com os rituais secretos e conheceu a identidade dos líderes locais. Na prática, a Klan agia apenas pelo fator intimidação, já que os linchamentos eram praticamente inexistentes, e os líderes usavam este poder para extorquir sindicatos locais, entre outras atividades criminosas envolvendo contrabando de armas e bebidas.
Com tais informações, Kennedy comunicou os delitos e as atividades da organização as autoridades, incluindo o procurador-geral e o governador, com detalhes que poderiam levar ao desbaratamento da organização e de suas atividades. Infelizmente nada surtiu maior efeito contra a KKK. Frustrado em seu intento, Kennedy resolveu pedir ajuda ao maior super-herói. Super-Homem iria usar seus músculos de aço contra a intolerância racial.
Chamem o Super-Homem
Mas antes que os leitores me acusem de ter bebido algo muito forte, vamos esclarecer. Kennedy percebeu que muito da força de uma organização secreta vem dos rituais e códigos cujo conhecimento era restrito aos iniciados. Muitos desses rituais observados por Kennedy eram até meio infantis.
Nessa época, o programa de rádio As Aventuras do Super-Homem era transmitido toda a noite, para deleite da garotada que acompanhava as aventuras do filho de Krypton. Kennedy resolveu usar este programa para levar a público os maiores segredos da KKK. Antes, Super-Homem já havia usado seus poderes contra Mussolini, Hitler e companhia. Os produtores do programa adoraram a ideia de Kennedy e, a partir das informações fornecidas, os roteiristas escreveram um mês inteiro de aventuras do Homem de Aço contra os homens de lençol branco. Veio à tona toda a estrutura e rituais dos Klans, e a crianças estavam brincando de Super-Homem contra KKK usando as mesmas palavras em código utilizadas pelos klansmem. Claro que os membros entraram em polvorosa quando viram seus rituais sagrados sendo usados como brincadeira de pirralhos. Senhas foram mudadas, e as novas foram imediatamente informadas aos roteiristas, que cuidaram de inseri-las nos programas seguintes. Ao final da aventura, é claro que Super-Homem prendeu e venceu seus inimigos.
E no mundo real os efeitos foram ainda mais devastadores. As reuniões seguintes tiveram presença próxima de zero, e ninguém mais se interessou em se vestir de capuz branco. Mesmo sem destruir a Klan em definitivo, a ação de Stetson Kennedy e a ajuda do Super-Homem foram o principal fator que impediram o ressurgimento da Klan no período pós-guerra.
Alguém Ainda Vigia os Vigilantes?

Entre setembro de 1986 e outubro de 1987, a DC lança a minissérie “Watchmen”, que acabou se tornando um clássico do gênero, e junto com outras obras como Cavalheiro das Trevas, redefiniu o gênero de super-heróis nos quadrinhos. Para se ter uma ideia de sua relevância e importância, ganhou diversos prêmios concedidos à indústria de quadrinhos, como o Kirby e o Eisner, além de ser a primeira obra em quadrinhos a receber o prêmio Hugo, destinado a obras de ficção científica, e estar incluído na lista dos 100 romances mais importantes do século XX elaborada pela revista Time.
Mas qual o segredo de uma história que, mesmo em um contexto tão diferente, consegue se manter ainda atual e com o mesmo impacto de quando lançado? Não há uma resposta fácil, e explorar todos os elementos dessa história não caberia nesse espaço. Mesmo assim, tentaremos explicar.
Leia Tudim... »
Escrever é Obsoleto?

“Cacete! Como atualizo meu twitter nessa porra?”
Nesses tempos em que a sociedade pós-industrial promete livrar as pessoas de uma série de afazeres manuais e arcaicos, temo que isso venha a se estender a boa e velha prática da escrita. Ao menos é a impressão que temos ao percorrer a Internet. Dá a impressão que perder tempo lendo ou escrevendo é algo tão ultrapassado quanto sites em HTML puro, uma excrescência do início da Internet comercial, lá pelo já longínquo meio dos anos noventa. E escrever quilometricamente, como eu costumo fazer quando não me contenho, então deve ser considerada uma excentricidade das mais esquisitas.
Hoje o conteúdo típico de boa parte dos blogs é postar vídeos do Youtube ou linkar algo interessante perdido no mar de bits da velha rede mundial. E com o twitter, alguns nem se dão mais ao trabalho de postar em blogs. Nada contra, mas mesmo quem faz isso seria bom agregar algum comentário ao post, algo que nem sempre ocorre, ou quando ocorre, é bem provável que o blogueiro incorra em algum erro gramatical ou deliberadamente rasgue a gramática e escreva no famigerado miguxês.
Será que é elitismo querer escrever, e ainda por cima, tentar escrever corretamente? Para alguns linguistas, o uso da gramática normativa e a ignorância de variações dela seriam usados como instrumentos de dominação da elite, e até cunharam o termo “preconceito linguístico”. No Brasil, o autor que mais divulga essas ideias é Marcos Bagno, e um de seus livros mais conhecidos é “Preconceito Linguístico”. Na prática, o que ele propõe é que a linguagem falada é dinâmica e incorpora novos trejeitos de falar concomitante a colocar em desuso formas arcaicas da língua, enquanto que a gramática normativa é estanque e demora a incorporar esses aspectos novos, além de insistir no uso de regras arcaicas. E os grupos regionais ou socialmente inferiores sofreriam preconceito por não dominarem o correto português ou de usarem dialetos ou costumes regionais. Os linguistas praticamente abominam pessoas como o professor Pasquale, que disseminam o uso correto da língua portuguesa. E, por tabela, preconizam o abandono da gramática, e que o importante é que a mensagem seja compreendida por quem recebe.
Em parte até concordo, mas dá pra notar certo rancor marxista nesse discurso, e não creio ser viável simplesmente ignorar a gramática normativa, senão essa porra vira um cabaré. Extrapolando essa teoria, o miguxês tão difundido pelos jovens seria uma variação linguística aceitável, e que os “elitistas” da internet, seja lá o que isso signifique, estão apenas implicando com os pobres blogueiros, fotoblogueiros, orkuteiros e twitteiros. E em última análise, escrever não é tão importante assim…
Mas vamos e convenhamos, até entendo que um pobre que vive no fiofó do sertão está pouco se fodendo para o uso correto da próclise, até porque ele não teve a oportunidade de obter uma educação formal. Mas esse argumento justifica um jovem que, teoricamente, teve acesso à educação em seu ensino fundamental e médio escrever de uma forma tão tortuosa? A desculpa maior é ganhar tempo para passar torpedos via SMS ou escrever em programas de mensagens instantâneas. O que importa é passar a mensagem de forma inteligível, né? No cu, pardal!
Mas além do miguxês, é comum em blogs encontrarmos erros crassos de ortografia nos posts. A principal linha de defesa é que quem bloga o faz com urgência, pois se torna mister passar uma informação ou novidade no mais curto tempo possível, já que fatos e notícias se tornam velhos em questão de horas. E o pior, não dá nem pra embrulhar o peixe com eles. Mas isso não é nada que um corretor ortográfico não resolva, oras. E mesmo que os editores de ferramentas de blogs não possuam (ainda) essa facilidade, nada impede que o blogueiro digite o texto no Word (ou seu editor preferido) e depois copie e cole no blog. Até porque copiar e colar é uma prática comum em muitos blogueiros…
Admitamos que a língua portuguesa e suas regras seja um peteleco nos bagos, mas nós devemos ter um mínimo de boa vontade para tentarmos aprender suas nuances. Claro que, na prática, não dá pra querer usar as quatro regências do verbo “assistir”, e que realmente algumas regras acabam mesmo caindo em desuso, até mesmo na imprensa formal.
E por experiência própria, posso garantir que a maneira mais prática de se familiarizar com a ” última flor do Lácio, inculta e bela ” é lendo bastante. E escrevendo, também. E para mim acho que perderia mais tempo tentando verter meus pensamentos para algo tão esdrúxulo quanto essa linguagem cibernética.
Mas para facilitar a vida de fósseis como eu, caso o miguxês se torne obrigatório em um futuro próximo (pouco depois do homossexualismo compulsório), nos últimos dias foi divulgado um tradutor para miguxês , muito útil para quem ainda encontra dificuldades em ignorar a nossa gramática normativa nesse idioma que dói nos olhos e que se perpetua em blogs, fotologs fofuchos, páginas do orkut e perfis no twitter, categoria internética que se espalha mais rapidamente que aqueles bichos fofos de Jornada nas Estrela, os Pingos .
E antes que seja realmente acusado de elitista, ou pior, de alguém apontar algum erro de semântica, concordância, regência ou o caralho a quatro neste texto, não me jacto em ser perfeito ou correto. Certamente há algum erro crasso aqui ou em qualquer outro dessa humilde blodega. Infelizmente a patroa vetou minha proposta em contratar uma jovem estudante de letras fisicamente palatável para revisar meus textos.
P.S – Depois de ver o tradutor português-miguxês acima citado, creio que minha contribuição às letras virtuais será desenvolver um conversor Tourette para textos internéticos, capaz de transformar uma bula papal em um festival de impropérios de fazer corar a finada Dercy Golçalves.
Os “Cabra”!

O irlandês Garth Ennis é famoso por enfiar nas suas histórias bastante violência gráfica, diálogos inusitados, palavrões aos montes, abordagens politicamente incorretas e muito humor negro, algo como uma versão Ultimate de Quentin Tarantino para os quadrinhos. Quem leu “Hellblazer” ou “Justiceiro” na fase Garth Ennis sabe do que eu falo. Ele também foi responsável por pegar um personagem obscuro da DC para protagonizar um divertidíssimo título mensal: “Hitman”. Além de assumir personagens já criados, a figura já criou outros personagens em séries regulares ou minisséries, como Bloody Mary ou Preacher. Os fãs do escritor sempre aguardam ansiosos por algum lançamento com sua assinatura, seja uma minissérie ou um título regular. Por isso, o anúncio de uma nova série mensal escrita por Ennis para a Wildstorm em idos de 2006 pode causou taquicardia em muitos fãs.
Os Rapazes de Ennis
Ennis não é muito chegado a super-heróis tradicionais, e sempre que pode ele deixa isso bem claro, da forma mais retumbante possível, seja matando-os ou expondo-os ao ridículo. Quem leu a Graphic Novel “Justiceiro Massacra o Universo Marvel” sabe muito bem disso. Nessa história, Frank Castle teve sua família morta não por testemunhar uma execução da máfia no Central Park, e sim por estar no meio de um combate entre heróis e vilões, e sua sanha vingativa se volta contra todo e qualquer poderoso que usasse cueca por cima da calça. Também é hilária cena no primeiro número de Hitman na qual o assassino Monaghan detona um pomposo grupo de super seres mascarados em menos de três quadrinhos.
O irlandês voltou a esse tema na série mensal da Wildstorm e escrita por ele, “The Boys”. No universo de Ennis, grandes poderes não trazem grandes responsabilidades, e os super-heróis se comportam de maneira arrogante e irresponsável, sem se importar com os danos que possam causar a inocentes, se estabelecendo acima da lei. Nesse contexto, um grupo a serviço da inteligência americana é responsável por manter os super-heróis “na linha”, e caso seus atos fujam ao controle, os “rapazes” estarão lá para mostrar quem realmente manda. E a página de abertura do primeiro número é bem emblemática, já que mostra um herói mascarado (que lembra bastante o Capitão América) tendo o crânio esmagado por uma bota. Meio George Orwell, mas com estilo. Com desenhos a cargo de Darick Robertson, o Garth Ennis não esconde a pretensão de alcançar o mesmo sucesso em um título regular que atingira com o polêmico e aclamado Preacher, que teve 66 números. Ennis planeja escrever 70 números.
O grupo é liderado pelo escroto e inescrupuloso Billy Butcher, que volta a reunir seus colegas de ofício “The Frenchman”, “The Female (Of The Species)” e “Mother’s Milk”. Cada um teria motivos de sobra para querer ver a caveira dos super-heróis. Por exemplo, o novato conhecido como Wee Hughie é recrutado porque sua namorada foi morta na sua frente devido a ação de um super-herói, deixando-o apenas com as lembranças (e os braços decepados da amada). O próprio Butcher revela que sua esposa teria sido estuprada por um dos “grandes” super-heróis, e morrido ao abortar um feto metahumano.
Os eventos da série não ocorrem em nenhum universo de eventos já existentes na DC ou na Wildstorm, o que deve ser um alívio para os fãs de outros heróis. Mas nem por isso Ennis evita referências óbvias a personagens populares e conhecidos, como o grupo de heróis adolescentes Teenage Kix, bem inspirado nos Novos Titãs. Claro que você nunca veria uma orgia na Torre Titã. E há também “Os Sete”, claramen
te inspirado na Liga da Justiça, cujo trio de principais e veteranos heróis – Patriarca, Black Noir e Rainha Maeve – são versões no Super-Homem, Batman e Mulher-Maravilha. Apesar de publicamente terem a imagem de heróis honrados, eles são totalmente inescrupulosos e pervertidos. Uma cena antológica e hilária é quando uma nova e ingênua heroína é recepcionada pelo líder Patriarca e descobre a verdadeira natureza do grupo ao ser obrigada a fazer sexo oral com ele.
Talvez por estas e outras a DC simplesmente deixa de publicar a série em janeiro de 2007, após 6 números. Não se sabe exatamente o que motivou a decisão, já que as declarações públicas, tanto da editora quanto do escritor, são meio reticentes. O que se especula é que as referências nada respeitosas a personagens medalhões da editora podem não ter agradado a alguns, não obstante a editora já ter publicado algo tão polêmico quanto Preacher, onde literalmente Deus e o mundo eram execrados sem piedade. Como comentou Eudes, do Rapadura Açucarada, tirar sarro de Deus pode, mas não mexa com o Super-Homem.
Para sorte dos fãs, os direitos dos personagens não ficaram com a editora, e Garth levou a história para a editora Dynamite, que continuou a publicar a série a partir do que seria o número 7, e continua editando até o presente momento. À época, Ennis já declarou que os números que já foram lançados pela Wildstorm pareceriam um passeio na Vila Sésamo comparados ao que sairia em seguida. E a promessa foi devidamente cumprida, com direito à violência gratuita, perversões sexuais de vários sabores, teorias conspiratórias e mais elementos tradicionais dos quadrinhos sendo impiedosamente sacaneados. A minissérie “Herogasm” é um chute nos bagos nos grandes crossovers e sagas envolvendo diversos heróis enfrentando uma grande ameaça, e o grupo G-Men transforma os conhecidos mutantes da Marvel em desajustados, mercenários e traumatizados com abuso infantil.
Bem, nem preciso dizer que, até o presente, nenhuma editora brasileira anunciou que pretende trazer essa série para cá. Quem quiser ler esse material terá que apelar para as importadoras, ou se preferir, ler os scans. Inclusive já rola na rede uma versão traduzida para o português pelo pessoal do Vertigem HQ
Update: No início desse ano a Devir anunciou a intenção de trazer, entre outros títulos, a série de Garth Ennis para o Brasil. Preparem os bolsos!




![Reblog this post [with Zemanta]](http://img.zemanta.com/reblog_e.png?x-id=38800dd8-1e85-4b57-b4cb-6a7d10aa7679)

No final daquele ano, a Editora Abril lança a revista mensal “A Era dos Halley”, contando as aventuras da família passando por diversas civilizações. O roteiro das histórias era escrito por Luiz Antônio Aguiar, e os desenhos ficaram a cargo de Roberto Kussumoto. Além das histórias, textos de informação sobre cometas ocupavam algumas páginas, cuja autoria era do Dr. Ives do Monte Lima. Também se anunciou a produção de um longa-metragem para o cinema com a Família Halley, em clima de superprodução, para os padrões do cinema brasileiro.![Reblog this post [with Zemanta]](http://img.zemanta.com/reblog_e.png?x-id=2a657137-a6aa-8817-aab0-88c71c7c76d3)
![Reblog this post [with Zemanta]](http://img.zemanta.com/reblog_e.png?x-id=c477f8b4-d221-826b-ab45-51a2b4ab8fa7)
Se Ligue na Blodega!