Archive for the ‘Papo de Blodega’ Category
Blogday 2010

Passando rapidinho na Blodega só para não deixar o Blogday passar em branco. Como de praxe, indico cinco outros blogs para que meus 13 leitores prestigiem também. Sem enrolar muito, vamos a eles:
- Apesar de normalmente dar preferência por divulgar sites menos conhecidos, não poderia deixar a oportunidade de avisar aos navegantes que o senhor Nelson Morais, o maior contrabandista de trocadilhos do Atlântico, voltou com uma nova versão do Blog Ao Mirante Nelson. Apesar dele mesmo ter escrito no seu antigo blog que não existe ex-blogueiro, ele ficou alguns meses fora desse vício, mas acabou voltando. Bem-vindo de volta, então. E aproveitem que é um blog bem fresquinho -no bom sentido, obviamente.
- O Nerds Somos Nozes eu indiquei ano passado, mas este ano vou indicar novamente. Primeiro por ser um ótimo blog que não se limita a republicar releases de filmes hollywoodianos ou boatos bestas que alimentam o hype sobre produções em curso. Lá há uma variedade de assuntos abordados, e com uma profundidade maior do que a geralmente vista em outros blogs. E justamente hoje eles publicaram um texto cometido por este blodegueiro que vos fala.
- Ainda dentro do universo nerd, um blog que mostra o “lado negro” deste universo, com textos polêmicos e provocativos. Este é o Nerdevils. Um dos comparsas é também editor do NSN, O Filipe Siqueira, também conhecido nas esferas arcanas como Voz do Além.
- O Farrazine é um blog dedicado a divulgar a revista virtual de mesmo número, e aproveito que sua edição mais recente foi disponibilizada há poucos dias para divulgá-la também. Vão lá e baixem-na. Informação e entretenimento naquele precinho.
- Por fim, uma relativamente novata nesse mundo dos blogs, a jovem Acullen e seu blog Don’t Panic. Apesar da referência à Douglas Adams e ao “Guia do Mochileiro da Galáxia”, o foco de seu blog são suas experiências com a sétima arte, resenhando e divulgando diversos filmes dos mais variados gêneros e anos de produção.
Bem, é isso. Bom Blogday a todos.
Retrato de Uma São Paulo Ideal
Nos últimos dias aqui pros lados onde ora me escondo o clima anda mais seco que a bunda do Lawrence da Arábia – se bem que, segundo as más línguas, não faltava quem quisesse regá-la. Mas o que importa é que o diacho da umidade aqui tá caindo no mesmo ritmo que a intenção de voto em José Serra, o que acarreta uma série de problemas, como de praxe. Aliás, São Paulo tem algum problema pessoal com o clima, ou vice-versa, já que ambos tem uma relação tempestuosa (com perdão do trocadilho), seja por chuvas torrenciais ou extremos climáticos ao longo de um único dia – a piada corrente é ter as 4 estações durante o horário comercial. Agora a praga da vez é o tempo seco. Na última sexta-feira foi registrado o dia mais seco do ano, o que deve ter sido pretexto mais do que suficiente para que muitos corressem em busca de socorro no boteco mais próximo – caso o fato de ser uma sexta-feira já não fosse pretexto forte o bastante.
Vendo esta situação periclitante me lembrou um texto do velho jornalista H.L.Mencken, de quem já falamos aqui nessa blodega. Em um texto ousado, se considerarmos a vigência da famigerada Lei Seca nos EUA, Mencken propõe para resolver os males do mundo que a humanidade fosse mantida ligeiramente alta. Segundo sua teoria, o homem, após uma pequena dose de algo mais forte do que água, seria incapaz de vilanias e crueldades, se tornando um pai melhor e uma pessoa mais gentil, sem a propensão de começar guerras ou coisas do tipo. E a proposta técnica para se concretizar isso seria aspergir a atmosfera com a dose adequada para que ninguém ficasse suficientemente sóbrio para fazer bobagens, como escrever manifestos do tipo “são paulo para os paulistas” ou eleger Maluf para algum cargo político.
Baseado na proposta do honorável Mencken, adapto sua sugestão para resolver os males da Paulicéia Desvairada, e já que está faltando umidade no ar, que a umedeçamos artificialmente, mas usando algo mais colorido do que água e que contenha mais que hidrogênio e oxigênio em sua composição química. E isso resolveria não só a sua momentânea secura. Esta solução certamente daria fim a uma série de problemas dessa metrópole. Com a população meia dose mais alta que o normal ela certamente deixaria de ser tão estressada e, por vezes, sisuda e biliosa, e as relações humanas melhorariam consideravelmente nessa selva de concreto. Até o trânsito melhoraria, já que estaria todo mundo incapaz de dirigir, de acordo com a Lei Seca, e aí não teríamos mais carros nas ruas. Todo mundo finalmente relaxaria nessa cidade, como bem desejava a ex-prefeita Marta Suplicy.
Se a ideia pode parecer absurda, principalmente pelos aspectos técnicos e práticos envolvidos, passaria a batata quente para entendidos no assunto. Quem sabe os engenheiros do ITA ou, quiçá, algum colega engenheiro da UFCG, mais especificamente aqueles que faltavam às aulas de cálculo às sextas para tomarem (cerveja) no CU – Cantinho Universitário, aquele bar em frente ao Campus. Estes certamente teriam o conhecimento e a inspiração para desenvolverem o aparato técnico capaz de levar a dose diária de Absolut às narinas de cada cidadão paulistano. E devidamente calibrada, para que ninguém recebesse sua dose em excesso, o que acarretaria milhares de cidadãos se agarrando e dizendo “voxê é meu amiguuu…”. Mas aí é problema para os engenheiros.
E digo mais: o candidato que apoiar essa iniciativa terá meu voto. Até lá, teremos que improvisar à moda antiga para vencer o ar seco. Garçom, mais uma!
Os Diálogos de Botequim de Platão

Versão para os diálogos de Platão e Sócrates em um botequim de Atenas.
Sócrates e Platão se encontram no boteco de Esculápio chamado “O Partenon da Cerveja” para filosofar sobre os mais variados assuntos, obviamente acompanhados de um bom chope. Quando Platão chega, Sócrates já está em seu segundo chope.
- Puxa aí a cadeira, efebo. E aí, vai de chope? Eu já pedi algo para beliscarmos, também.
- Opa, tamos aí. E aí, por onde começamos?
- Para iniciar nosso diálogo de hoje, defina o que é um homem, meu jovem.
- Para mim, um homem é um bípede implume.
- Meio vago esse eu conceito, meu jovem. Ah, Esculápio trouxe o tira-gosto.
- O que é isso?
- Para você, deve ser um homem. Para mim, é um galeto assado. E é uma delícia com uma cerveja gelada. Esculápio, coloca aí no pendura, tá certo?
O garçom interpela:
- Fiado é foda, né, Sócrates? E quando tu vai me pagar estes penduras todos?
- Você precisa se conhecer primeiro, jovem, antes de perguntar as coisas aos outros. Por exemplo, já se questionou a respeito da democracia grega, do direito do cidadão, do porquê destes aumentos abusivos no preço da cerveja?
- Vai te lascar, Sócrates! Você com essa mania feia de responder aos outros com outra pergunta. O povo já ta puto contigo e quer ver tua caveira. Que cara mais mala!
- Apenas questiono as coisas e irrito, mesmo. Não tenho culpa se os poetas não sabem poesia ou e os governantes não sabem governar. Ou se os garçons não sabem fazer um galeto decente ou servir um chope com colarinho bem tirado, por exemplo.
- O galeto está ótimo, e não reclame que é fiado.Vou ao Oráculo de Delfos saber se vou receber esta grana algum dia…
- Ótimo. E se for sacrificar algum bode para ele, aproveita e prepara uma buchada para nós.
Platão interrompe e toma a palavra:
- Bem, admito que meu conceito de homem é meio vago. Mas um bípede com penas não necessariamente seria uma galinha. Por exemplo, o Clóvis Bornay tem plumas, mas é homem.
- Não o chamaria exatamente de homem -contradiz o garçom Esculápio.
- Não? E de que, exatamente, você chamaria?
- Citando o pré-socrático e porteiro Severino: “Mas é uma bichona!”.
- Mas que raça desunida…-diz Sócrates, com um sorriso maroto nos lábios
- Aí dentro, Sócrates! – reage Esculápio
- Criados e escravos são realmente raças inferiores a nós, pensadores – conclui Platão, ao interromper o garçom
- Inferior é a puta que pariu, Platão. Deixe dessa viadagem. Até porque você gosta mais é de ver um escravo por cima de você.
- O que você quer dizer com isso?
- Só sei que eu não sei de nada. Vou pegar a cerveja – diz o garçom, que ao se afastar, resmunga entre os dentes:
- Mas quem quiser saber quem é “o homem de Platão”, é só ir na Sauna Spartacus…
Platão volta ao diálogo com Sócrates:
- Olha só, Sócrates. Estava escrevendo uma alegoria representando o mundo real e o mundo das ideias. Eu vejo as pessoas como se estivessem presas em uma caverna, vendo apenas as sombras das coisas, enquanto a realidade está fora da caverna, e nós, filósofos, ousamos sair da caverna…
Esculápio, o garçom, volta e mais uma vez se intromete no diálogo:
- De novo esta história de caverna, menino? Isso tudo é falta de mulher! Você tem que parar de andar com esta bicha velha do Sócrates e esquecer estas suas paixões platônicas, jovem. Para curar uma paixão platônica, só uma trepada homérica! Vá visitar as bacantes e se distrair um pouco, pois você precisa sair da caverna.
- Esculápio, vai ver se eu estou na Acrópole, vai. E traga outra bem geladinha.
- Agora só tem Nova Schin!
- Nova Schin? Prefiro beber cicuta. Eca!
Saxofonistas da Blodega: Paulo Moura

Infelizmente esta versão do “Saxofonistas da Blodega” tem uma nota triste, pois o homenageado dessa vez não mais está tocando conosco, pois acordei com a má noticia de que Paulo Moura foi convocado pra grande orquestra do além-túmulo, ironicamente a poucos dias de seu aniversário de 78 anos, que seria no próximo dia 15. Uma perda sem tamanho para a música instrumental brasileira. Mas se o artista se vai, a sua obra fica. E que obra, já que este senhor saxofonista e clarinetista gravou seu primeiro disco nos anos 50, fez parte de orquestras diversas, gravou ao lado de vários nomes da Musica Brasileira e atuava até pouco tempo, gravando recentemente duetos ao lado de Yamandú Costa, João Donato ou Armandinho, transitando entre o Jazz, o Chorinho e o erudito com desenvoltura e talento.
Para lembrar aos que o conhecem e apresentá-lo aos que não tiveram a sorte de ouvi-lo ainda, um dueto com o saudoso Raphael Rabelo, em que ambos tocam “Ronda” e “Sampa”, primeira faixa do disco “Dois Irmãos”.
Um excelente texto em tributo ao músico foi escrito por Júlio César de Barros, e vale a pena lê-lo. E curtam ainda este vídeo do Paulo tocando o chorinho “Pro Paulo”.
De Volta Para a Blodega Sem-Futuro

- Ontem se comemorou os 25 anos do lançamento do filme “De Volta Para o Futuro”. Como há muitos que ainda não assistiram este clássico dos anos 80, sugiro enfaticamente que sane esse erro o mais rápido possível. Se eu tivesse um DeLorean equipado com Capacitor de Fluxo resolveria ligeirinho os problemas de prazo dessa blodega, e finalmente publicaria o texto sobre filmes cujo tema são viagens temporais, mesmo que leve uma década para escreve-lo. Para homenagear essa data tão relevante para a geração Tela Quente, um trecho do primeiro filme da trilogia, no qual o personagem Marty McFly, em pleno ano de 1955, cria o mais famoso paradoxo temporal da música popular americana: interpreta “Johnnie B.Goode” anos antes da música ser composta, e indiretamente “inspira” o seu criador, Chuck Berry, a compô-la.
- Dizia Bertold Brecht que triste era a nação que precisava de heróis. Mas pior é a nação que precisa ver outra se foder todinha para ter um resquício de alegria. Mas se os argentinos se lembrarão do dia 3 de julho por muito tempo, o 4 de julho é igualmente triste para eles, ao menos para os amantes da música, já que o grande Astor Piazzolla foi fazer um Jam Session com os anjos nessa data no ano de 1992. Se muitos brasileiros têm ojeriza pelos hermanos do cone sul, só o fato de eles terem presenteado o mundo com Piazzolla – e a Keyra Agustina, diga-se de passagem – os redime de qualquer pecado.
Entre suas centenas de composições, a mais conhecida é “Adiós Nonino”, uma elegia em homenagem ao seu pai falecido, que tem inúmeras versões, já que ao longo de sua carreira o músico experimentou várias formações, passando por quartetos, quintetos, nonetos com guitarras elétricas e eventualmente acompanhado por orquestras. Esta versão do vídeo já é nos últimos anos de sua carreira, e é a minha formação preferida. Esqueça a porra das vuvuzelas e do seu ódio atávico pela Argentina e aprecie sem moderação.
E pra não dizer que não falei da copa: Larissa Riquelme é uma teteiazinha, hein? Primeiro ela prometeu desfilar nua em praça pública se o Paraguai ganhasse a copa. Depois reconsiderou e diminuiu a exigência, bastando sua seleção chegar as semifinais. Por fim, mesmo após a derrota para a Espanha, ela disse que posaria nua assim mesmo. Pelo visto, com uma conversa boa e alguma insistência, acho que ela se deixaria convencer por 50 Guaranis e um celular MP7.
Agora com licença. Vou alugar um De Lorean para tentar assistir a uma apresentação de Piazzolla ao vivo, e no caminho tento atropelar o Dunga e o Felipe Melo. Allons-y!
Relembrando Clifford

Ano passado o site Mínimo Múltiplo, do colega Lucas Colombo, publicou este meu texto sobre o trompetista Clifford Brown. Para relembrar o aniversário de sua morte, republico aqui na Blodega o texto, principalmente nestes tempos de vuvuzela estuprando nossos tímpanos.
Se o pop decidir elevar o 25 de junho a dia santo devido à recente morte de Michael Jackson, os acólitos do Jazz têm prerrogativa e preferência pela data, pois em 1956, na fatídica madrugada de 25 para 26, morria em um acidente de carro o jovem trompetista Clifford Brown, que contava com 26 anos incompletos e estava em plena atividade. Mais do que um futuro promissor não cumprido, sina de muitos artistas mortos precocemente, ele já era mais do que uma promessa e já havia deixado sua marca no gênero, tanto por seu talento com o instrumento quanto por seu perfil incomum. Se hoje o consumo de drogas está associado à “atitude” dos artistas de rock e congêneres, devo abrir um parêntesis para lembrar que, há décadas, muitos artistas de Jazz consumiam doses industriais das drogas então disponíveis, muitos em busca de inspiração e combustível para longos solos e improvisos. Por exemplo, se Tim Maia costumava praticar sua versão de Triatlon (maconha, uísque e cocaína), Billie Holiday, em certa época, praticava uma espécie de “pentatlon” toda noite: fumava ópio, seguido de maconha, engolia vários comprimidos (provavelmente anfetaminas e barbitúricos) com a ajuda de generosas doses de uísque e, antes de dormir, enchia as veias de heroína. Só metade disso derrubaria um dinossauro. Do rock, inclusive.
Mas não é de Lady Day que estamos falando agora. Citei-a apenas para contextualizar o ambiente do Jazz naquelas décadas e lembrar que as drogas ceifaram muitos talentos, como Charlie Parker e Fats Navarro, só para citar instrumentistas de sopro, além de comprometer a carreira de alguns, levando-os a problemas legais ou a perder a licença de músico, como John Coltrane. Num ambiente desses, em que os grandes acreditavam que era necessário se entupir de drogas até o coração pedir falência para poderem alcançar o nirvana artístico, Clifford Brown era uma aberração, no bom sentido, pois consta que ele era totalmente limpo. Não fumava, não cheirava, não injetava (e não mentia, até onde se sabe), e a bebida mais forte que bebera provavelmente foi leite maltado. Também não era um deslumbrado com a fama e a grana, sendo de uma humildade quase desconcertante, além de ter um bom senso para negócios pouco comum aos do ramo, e tido como um doce de pessoa por seus pares. Era uma verdadeira avis rara no meio jazzístico. Só tinha um azar danado com automóveis, já que se envolveu em três acidentes sérios, sendo o último fatal. E por acaso não era ele quem dirigia naquela noite, e sim a esposa do pianista Richie Powell, que também estava com eles. Ironicamente, enquanto outros de seus pares sucumbiam às drogas, ele morreu dessa forma tão casual e absurda.
Além do péssimo histórico com veículos, poderia se dizer que as circunstâncias conspiraram contra as possibilidades artísticas de Brown, desde começar tarde a aprender música, passar a juventude escondido nos cafundós do Delaware, ganhar uma bolsa de música para uma universidade sem departamento de música (é sério!) e ficar fora de cena por meses devido a um (adivinhem) acidente de carro pouco depois de alguns medalhões passarem a prestar atenção em seu talento. São “coisas” que poderiam comprometer irremediavelmente a carreira de muitos artistas, ou no mínimo protelar tudo para um reconhecimento tardio.
Encorajado por Dizzie Gillespie, Brown foi persistente e começou, de fato, sua carreira profissional apenas em 1951, e nos meses seguintes tocaria nos grupos de Chris Powell e Tadd Dameron, até se juntar a Lionel Hampton em uma turnê europeia e ser “descoberto” por músicos do velho continente, que o convidaram a gravar com eles, em idos de 1953. No ano seguinte estaria solto o suficiente para o consagrado baterista bebop Max Roach lhe fazer a indecorosa proposta de comporem um quinteto, tendo o trompetista como líder. Daí pra frente foi história, infelizmente curta. E boa parte dessa história foi registrada pela gravadora EmArcy. E essa fase pode ser conhecida no box “Brownie”, lançado pela Polygram e que faria esse que vos fala muito feliz caso uma boa alma lhe desse de presente.
Clifford Brown era de uma versatilidade a toda prova, já que não se acanhava em dedilhar nervosamente cada nota em uma formação de quinteto ou de se suavizar ao ser acompanhado por orquestra de cordas, algo que costumava assombrar outros que ousassem fazê-lo. Também serviu de auxílio luxuoso a vozes femininas de estilos tão distintos quanto Sarah Vaughan, Dinah Washington e Helen Merrill.
Não deixa de ser um exercício interessante imaginar como seria o cenário do Jazz se Brown não morresse tão prematuramente ou se fosse notado anos antes. Herdeiro do estilo de Fats Navarro, em poucos anos se tornaria tão importante que chegava a eclipsar outros trompetistas de seu tempo, como Chet Baker e Miles Davis. A propósito, Miles soube aproveitar o hiato deixado pela ausência de Brown. Não que o substituísse, mas sem um talento como Brown atraindo a atenção para si ou um sucessor tão bom quanto, a metamorfose ambulante do Jazz encontrou o caminho aberto e nas décadas seguintes reinventaria o gênero de várias formas, tornando-o cool ou misturando-o ao rock e à música eletrônica (depois de levar um par de chifres do Jimi Hendrix, dizem as más línguas).
Na prática, porém, Clifford não deixou herdeiros imediatos, mas sua importância para o gênero é constantemente lembrada. Uma das mais singelas homenagens é o standard “I Remember Clifford”, de Benny Golson. Helen Merrill e Arturo Sandoval dedicaram álbuns a essa figura ímpar do Jazz. E ainda hoje alguns artistas lhe devem um mínimo de influência, como Ray Hargrove. Mas nada do que eu fale se compara a escutar o próprio. E no Youtube ainda tem alguns bons registros do “Brownie” em ação. Relembremos.
Nunca Aposte Sua Bunda

Existe um conto do Edgar Allan Poe intitulado “nunca aposte sua cabeça com o diabo” com um certo cunho moral sobre um indivíduo que, para comprovar suas razões e seus pontos de vista, sempre apostava sua cabeça com o diabo (dã!). Conhecendo Poe, você pode presumir que o destino do infeliz não foi dos melhores. Não vou dar recomendações morais para nunca apostar sua cabeça com o diabo. Este caráter moral eu deixo para o velho Edgar.O que venho recomendar aqui aos jovens leitores é: nunca apostem sua bunda. Nem com o diabo, nem com ninguém!
Por mais que você tenha certeza, convicção absoluta ou não haja sombra de dúvida, nem assim aconselho você a colocar a saúde de suas pregas em questão como fiel de uma aposta. Mesmo que a aposta verse sobre o formato do planeta ou de seus testículos, resista a tentação de afirmar sua certeza e conhecimento sobre algum assunto bradando “eu dou o cu de festa se estiver errado!”. Por menor que seja o risco de se perder a aposta, ele existe. E perder uma aposta cuja paga envolva a prática meio involuntária do amor uranista, qualquer risco é grande demais.
Para ilustrar esta crônica de cunho moral, me permitam relatar uma pequena história envolvendo Bira, o Bruto, e um incauto jovem que atendia pelo nome de Marcos Vinícius, ambos alunos do ensino superior em uma mesma universidade. Nestas contendas intelectuais que surgem nos corredores do campus e nas mesas de botequim, eis que ocorre entre estes dois personagens uma divergência de opinião sobre algum assunto obscuro ou complexo, como teoria do caos, mecânica quântica ou cinema iraniano. Não importa. O que é relevante é que alguém resolveu apostar o brioco e o outro aceitou. Um dos dois estava errado, e pela aposta, este deveria ceder o ás-de-copas para pagar a aposta. Não preciso dizer que um terceiro, um professor que era autoridade no assunto (o assunto da aposta, e não em dar a bunda) acabou por dar razão ao Bira, que além de bruto, é escroto e cara de pau. Ao saber que vencera a aposta, uma frase se tornou comum de se escutar na faculdade: ”Marcos Vinícius, estás me devendo!”, obviamente seguida do gesto envolvendo os dedos polegar e indicador formando o característico anel.
O campus inteiro estava ciente da aposta e da dívida, e as cobranças públicas estavam cada vez mais constrangedoras. Mas o ápice das mesmas ocorreu quando, no início de um semestre, o diretório acadêmico organizou um evento para recepção dos calouros. Em um palanque, as autoridades acadêmicas diziam algumas palavras. Alguma alma sebosa acabou chamando o veterano aluno Bira, uma verdadeira instituição dentro da universidade, para falar ao microfone, em cima do palanque. Ele falou aos alunos novos, explicou um pouco sobre a rotina acadêmica, soltou umas piadinhas infames com alguns dos professores. Mas ao final, ele pergunta ao público: “Cadê Marcos Vinícius? Ele ta por aí?”. Ao vê-lo tentando se esconder entre algumas jovens calouras, Bira aponta para ele e grita, fazendo com a outra mão o característico gesto com os dedos indicador e polegar:
“MARCOS VINÍCIUS, ESTÁS ME DEVENDO!”.
Agora todo mundo no campus estava sabendo da aposta. Mas a solução parece fácil, não? Era só Marcos Vinícius conversar com o Bira e pedir educadamente que ele parasse com estas cobranças públicas, já que estava ficando feia a situação. E foi isso que Marcos acabou fazendo, e para sua surpresa, o Bira aceitou numa boa, cessando as cobranças públicas. Mas poucas semanas depois, Marcos chama o Bira e pede para que ele volte a cobrar a aposta. “Mas por quê?”, perguntou Bira, segurando o riso e já prevendo a resposta: “É que todo mundo está pensando que eu paguei a porra da aposta!”.
Ou seja, jovens, nunca apostem a sua bunda, pois sempre existe a possibilidade de se perder a aposta. A não ser que a sua intenção seja essa…
Clark After Dark Vuvuzelas

Se você, caro leitor ou amada leitora, já está de saco cheio de ouvir Galvão Bueno, copa do mundo, e principalmente o nome VUVUZELA, chegou à b(l)odega certa. Sinceramente não sei o que é mais irritante: chamar uma corneta de plástico de vuvuzela ou o som da dita. Aliás, até o som da pronúncia de “vuvuzela” dói no meu ouvido. E para meu azar, esse “neologismo” caiu no gosto da imprensa por conta da copa na África do Sul, e todos os estagiários de jornalismo adoram mencioná-la sem moderação.
Mas já que estamos falando em instrumentos de sopro com nome estranho, citemos um mais interessante: flugelhorn. E que diacho é um flugelhorn? Digamos que seja uma espécie de trompete mais gordinho, e que produz um som mais, podemos dizer, aveludado. E alguns artistas do Jazz o preferiram ao popular trompete. E para purgar o diacho das vuvuzenas de meus pavilhões auditivos resolvi apelar para um dos grandes mestres deste instrumento: Clark Terry, um verdadeiro jazzista antediluviano e que ainda está na ativa no alto de seus quase 90 anos, tendo tocado ao lado de feras como Duke Ellington, Count Basie e Quincy Jones, além de ter influenciando músicos ao longo das décadas.
Mesmo não tendo conspirado para virar o Jazz do avesso por várias vezes, como Miles Davis, ou se tornado um arauto do tradicionalismo como Winton Marsalis, a obra de Clark Terry resistiu à prova do tempo, e meio que comendo pelas beiradas, já que não é tão lembrado ou citado quanto outros monstros, como Chet Baker. E com a vantagem de ter sobrevivido à maioria de seus colegas de ofício contemporâneos. Tanto que este ano ele foi um dos homenageados pelo Grammy agraciados com o Lifetime Achievement Award, prêmio também concedido postumamente à Michael Jackson na mesma cerimônia. Também estou vendo que este camarada enterrou muito musico, e ainda está com fôlego para enterrar mais alguns.
Por isso ignorem as vuv…Ah, dane-se que não vou mais citar este nome. Apenas escutem esta versão de “Angel Eyes”, do disco “Clark After Dark”, de 1978. E aproveite o Dia dos Namorados para rolar um clima com a patroa.
Mais sobre o coroa do flugelhorn em seu site oficial
O Angu da Pagu

Como bem lembrou a Dolphin do She-NSN, hoje é o centenário de nascimento de Patrícia Galvão, a Pagu, a musa do movimento Modernista e amante de Oswald de Andrade, um dos mentores do Movimento Antropofágico, que como só frequentadores da blodega sabem, é aquela mania de gente comer gente.
Obviamente que ela foi mais do que amante e esposa de escritor ranzinza. Como militante comunista, ativista cultural e escritora, Pagu se tornou um símbolo feminino de emancipação, tanto que sua vida foi tema do filme “Eternamente Pagu”, de 1988. E um ótimo exemplo para se lembrar em tempos de mulheres de plástico.
Para não deixar a data passar em branco, segue abaixo um vídeo para deleite acústico e – porque não – visual: Maria Rita cantando, ao vivo, a música “Pagu”. Dê asas às suas cobras!
Dia das Mães

O dia está lindo, e ela acorda com o sol entrando pela janela e o marido pela porta, trazendo uma bandeja com seu café da manhã. Ovos fritos cremosos, capuccino, torradas com geleia de amoras, bolo de milho, suco de acerola e iogurte natural. Ela finge dormir para ser acordada com um beijinho na nuca e palavras suaves no ouvido. Ela sorri e se senta, ajeitando a bandeja sobre suas pernas. Seu marido coloca uma torrada em sua boca. Ela morde um pedaço. Ele tira um papel do bolso para ler. È um poema sobre as mães. Mas o primeiro verso sai meio estranho.
-MULÉ, CADÊ O MEU MEIÃO?!
A contragosto ela desperta do sonho e acorda emburrada, enquanto seu marido está revirando as roupas da gaveta. Ele está de calção, segurando um par de chuteiras e uma bola. Recompondo-se de ser tão abruptamente arrancada de um sonho agradável, ela tem uma clara e rara percepção da realidade.
- TU VAI JOGAR FUTEBOL?
- Claro. Tu não sabe que todo domingo eu vou para o futebol com os meus amigos?
- Mas logo hoje você vai?
- Sim. Até onde sei, hoje é domingo. Dormiu demais, mulher?
- TU VAI JOGAR FUTEBOL NO DIA DAS MÃES?
- Hmmm…Não entendi. É pecado?
- Deveria ser crime. Vai me deixar sozinha com seus filhos hoje? Quero o divórcio!
Como se tivesse lembrado de algo importante, ele coça a cabeça e revela.
- Ah, mulher. Você estraga as surpresas. Eu tava só disfarçando para ir pegar seu presente.
- Não vem com esse papo. Ano passado foi a mesma coisa, e você me apareceu no fim da tarde com uma porra de uma chopeira de presente.
- Pensei que havia gostado.
- Ah, adorei a chopeira. Serviu muito para que eu servisse chope para você enquanto assiste aqueles jogos inúteis da terceira divisão. E ainda tenho que aguentar suas queixas por causa do colarinho…
- Já expliquei que o colarinho protege o chope da oxidação…
- Oxidação o cacete. Cadê meu presente?
- Bem, tu não és minha mãe…Vai cobrar dos teus filhos.
- Tudo bem. Vai pedir a sua mãe para esquentar a janta quando chegar de suas happy hour.
- Ei, brincadeirinha. Eu comprei seu presente. Vou pegá-lo agora.
- Jura?
- Claro, minha mãezinha. E é a sua cara. Espere-me que eu volto a tempo para o almoço. Ei, você não ia almoçar com a sua mãe?
- NÓS VAMOS almoçar com a minha mãe.
- Mas e a minha mãe? Tenho que passar na casa dela…
- Esqueceu o presente dela também, filho ingrato? Se vire!
- Tudo bem. Vou pegar o seu presente. Mas cadê o meu meião?
- E pra quer tu quer meião, porra? Tu vai jogar, né? Seu cabra safado!
- É que não quero ir de chinelo, e já estou com a chuteira aqui na mão, mesmo…
- Se você for jogar, sugiro que dê o presente de sua mãe, pois vai precisar da boa vontade dela. E do sofá dela, e da comida dela…
- O que você quer dizer, benzinho?
- Uma temporada na casa de sua mãe deve clarear suas ideias.
- Linda, tente entender que todo dia é dia das mães. Esse negócio é só invenção para o comércio vender mais.
- Esse papo pode colar com nosso filhinho, seu gaiato, mas não vem com essa para cima de mim. Quero presente e você cheiroso para o almoço na casa de mãe. Falando nisso, comprou meu presente para eu levar para minha mãe?
- Mas agora fudeu. Tem mais essa?
- Você não comprou a caixa de CD´s do Roberto Carlos que eu pedi?
- Isso é um pesadelo. Olha, quando eu for pegar o seu presente, eu passo na banquinha do Moacyr e compro.
- Banquinha do Moacyr? Lá só tem CD pirata!
- Mas tem toda a coleção do Roberto Carlos em MP3. Cabe tudo em um único CD. Bem mais prático. E roda naquele aparelho de DVD que eu ainda estou pagando.
- Agora tá jogando na cara, é?
- Ah, não é você que tem que escutar a minha mãe reclamando porque dei este DVD para a sua mãe no Natal, enquanto eu dei pra coitada um walkman vagabundo…
Nisso surgem os dois filhos do casal, carregando presentes para a mãe.
- Feliz dia das mães!
Os pimpolhos abraçam sua mãe, que os beija e senta na cama para abrir os presentes. Aproveitando o momento, o marido acha o seu meião sujo atrás do frigobar e sai de fininho do quarto, encontrando com o colega que o espera no lado de fora.
- Que demora pra se arrumar, pô!
- Ah, tu não sabe o que eu tive que inventar para poder sair. Falando nisso, comprou o presente de sua mãe?
- Minha mãe já morreu.
- Sorte a sua, sorte a sua…







![Reblog this post [with Zemanta]](http://img.zemanta.com/reblog_e.png?x-id=6a03aa78-7a40-4374-b0dc-6f136fd2f749)
![Reblog this post [with Zemanta]](http://img.zemanta.com/reblog_e.png?x-id=e9435226-2043-472e-9a57-273c0a0d98ee)