Ração de Traça

Livros que caem no balcão dessa blodega e que podem render um bom papo no recinto

Elis Hurricane

 

A biografia de Elis Regina em nova versão aditivada

Nota do Blodegueiro: Aos 30 anos da morte da Elis Regina, republico este texto do velho Busilis quando foi reeditada sua biografia pela Ediouro há 5 anos como pequena homenagem a cantora dos bêbados e equilibristas. Como nesse mundo há mais bêbados do que equilibristas, curtam com moderação. E lembrem-se: Cinzano mata!

Elis Regina Carvalho Costa. Uma baixinha gaúcha meio estrábica, com uma voz poderosa e uma personalidade idem, que iniciou uma carreira promissora cantando baladas e rocks despretensiosos no seu primeiro disco, “Viva a Brotolândia”, após anos se apresentando em rádios gaúchas como talento prodígio. Sua voz e atitude no palco a levaram a chegar ao Rio em pleno golpe militar. E seu golpe foi ajudar a enterrar o então agonizante movimento da Bossa Nova, um estilo que a esnobou e que ela também não simpatizava. Chegou ao estrelato nos antigos festivais de música popular, pilotou um programa de TV e chegou a ser a cantora mais bem paga do país. Elis poderia ser uma cantora das multidões, mas preferiu aperfeiçoar sua arte e se identificou e se aproximou da nata cultural do país, sendo apontada como elitista. E, de certa forma, ela era, já que seus espetáculos e shows estavam longe de serem populares, shows estes mais voltados a um público sofisticado. Em vida seus discos não vendiam tanto, se comparados a outros artistas com maior penetração popular.

Como pessoa, era uma figura controversa, de personalidade contraditória, pois em poucos minutos poderia dizer exatamente o contrário do que afirmara antes, e vivia uma relação de amor e ódio com seus amores e amigos, e seu relacionamento com a família passava por altos e baixos, até praticamente romper com os pais.  De origem humilde, com hábitos simples e sem herdar uma grande cultura, Elis tinha uma forte necessidade de se auto-afirmar no meio artístico onde de repente se viu lançada. A relação entre ela e seu primeiro marido, o músico e produtor Ronaldo Bôscoli, era o clássico exemplo de viver entre tapas e beijos, já que ambos tinham forte personalidade. Até com seu segundo marido, o pianista Wagner Tiso, bem mais tranquilo que Bôscoli, a relação foi tumultuada. Ou seja, como toda mulher baixinha, era braba pra cacete.

Mas sua voz e interpretação prestaram um enorme serviço à música brasileira. A sua pungente interpretação de “Atrás da Porta”, de Chico Buarque, é um dos grandes momentos de nossa música. Morreu aos 37 anos incompletos, por ingerir uma mistura de cocaína e Cinzano, no dia 19 de janeiro de 1982, em um episódio que ainda provoca polêmica entre seus amigos e parentes e do qual até hoje o seu namorado a época, Samuel McDowell, não gosta de comentar. Tanto que no especial “Por Toda a Minha Vida”, veiculado pela Rede Globo no final de 2006 e que dramatizava a biografia de Elis, a causa da morte sequer é mencionada. Seu funeral causou uma comoção pouco vista até então, mostrando uma popularidade que surpreendeu a muitos. Foi alçada a condição de maior cantora do Brasil, um posto do qual dificilmente será tomado. Sua filha com César Camargo Mariano, Maria Rita, hoje vive uma carreira promissora como cantora, mas procura uma identidade própria fora da sombra de sua mãe. Um senhor desafio, diga-se de passagem

Mesmo com tantos elementos dignos de uma tragédia grega, a história de Elis nunca foi levada ao cinema, e só posta no papel em uma única biografia, escrita pela jornalista e amiga Regina Echeverria e lançada poucos anos após sua morte.

O livro “Furacão Elis” é, basicamente, a transcrição quase literal dos depoimentos de parentes e amigos de Elis, reunidos pela jornalista e organizados em ordem cronológica. Mas se comparada a outras biografias de outros personagens da música, o livro de Regina carecia de algumas informações, deixando lacunas em momentos relevantes da vida da cantora, que certamente interessaria aos fãs, como a época em que Elis apresentava o programa “O Fino da Bossa” ao lado de Jair Rodrigues. No livro “Noites Tropicais”, de Nelson Motta, o autor descreve muito melhor essa época da vida de Elis. Inclusive o produtor Nelson Motta foi amante de Elis na fase final do casamento dela com Bôscoli, e seu depoimento está no livro de Echeverria. Talvez pelo relativo pequeno número de entrevistados, e principalmente por algumas ausências, a mais sentida sendo a de Jair Rodrigues, que foi colega de palco e amigo de Elis, que o livro poderia ser considerado incompleto.

Mas essas lacunas foram parcialmente preenchidas na nova edição da biografia de Elis. Lançada em 2006, quando se fez 25 anos da morte da cantora, essa nova edição vem em um formato maior que a original, e traz mais fotos. Como o livro estava fora de catálogo há alguns anos, a autora resolveu relançar sua obra, dessa vez pela Ediouro, e acrescentou novos depoimentos ao texto original, como o do já citado Jair Rodrigues e o de Fernando Faro, responsável pela direção do último espetáculo de Elis, “Trem Azul”. O lançamento é oportuno para os novos leitores que quiserem conhecer a vida dessa cantora, cuja obra ainda é referência da música brasileira.

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Meia-Noite em Paris é uma Festa

Gertrude Stein, Modernismo e a Geração Perdida na Paris dos Loucos Anos 20

No novo filme de Wood Allen, “Meia-Noite em Paris”, o protagonista Gil, um roteirista que aspira se tornar romancista e que se sente fascinado pelo passado, se enamora pela cidade de Paris, e durante um passeio à noite para fugir do tédio e da família chata pra cacete conservadora de sua noiva, ele consegue voltar ao passado, sabe-se lá por qual meio, mais especificamente aos anos 20 do século passado, encontrando-se com diversos artistas daquela época: Cole Porter, o casal F.Scott e Zelda Fitzgerald, Ernest Hemingway, Pablo Picasso, Buñuel, Dali, T.S.Eliot, Cole Porter, Djuna Barnes… Entre mostrar Paris como um cenário belíssimo digno de um quadro de Monet e discutir questões como a nostalgia, as incursões de Gil ao passado são de uma leveza e humor deliciosos, o que faz a alegria dos amantes da leitura, que se entusiasmam juntamente com o personagem ao interagir com os artistas do passado e ao reconhecerem as referências contidas, com uma divertida conversa com surrealistas sobre viagem no tempo e inspiração para o filme “O Anjo Exterminador”, de Buñuel. Mas Gil quase vai ao êxtase quando Hemingway o leva para conhecer Gertrude Stein (Kathy Bates), que se propõe a ler o manuscrito do romance que tenta concluir. E nessa busca do tempo perdido ainda há espaço para Gil disputar com Hemingway e Picasso o afeto de uma bela modista francesa.

Allen usa esse mote para passear por uma época que o personagem Gil julga ser uma “era de ouro”, algo que ele vem a questionar ao longo da história, resgatando os personagens e protagonistas reais de um tempo no qual Paris, de fato, serviu de cenário para diversas histórias tão ou mais fascinantes quanto a do filme, e que moldaram a arte ocidental da primeira metade do século passado, já que para lá migraram a vanguarda cultural da Europa e a “Geração Perdida” dos Estados Unidos, e o ventre dessa besta chamado modernismo foi um sobrado no número 27 da Rue de Fleurus. E no olho dessa tempestade de “ismos”, meio que comandando essa massa crítica criativa, havia uma mulher americana que conheceu e influenciou os grandes artistas que passaram por Paris naqueles anos, e cuja presença foi fundamental para o estabelecimento da arte moderna nas primeiras décadas do século XX. Sem Gertrude Stein dificilmente os movimentos que brotaram nessa época ganhariam o mundo.

Desde 1902 que a americana Gertrude e seu irmão Leo Stein, partiram para o degredo voluntário em Paris em busca de algo mais próximo do conceito de civilização, a exemplo de muitos jovens americanos abonados de seu tempo. Estabelecendo-se no famoso endereço na Rive Gauche, eles se tornaram catalisadores do movimento modernista que ali brotava, já que em seus primeiros anos na cidade eles ajudaram muitos artistas plásticos em início de carreira ao comprar seus trabalhos, os quais eram vistos com reserva, para dizer o mínimo, pelo público em geral, que ainda não digeria muito bem os conceitos novos. Na verdade nem os Stein entendiam direito, pois durante anos eles mantiveram um Cézanne pendurado de ponta-cabeça até serem alertados pelo próprio. Praticamente nenhum milímetro das paredes do sobrado estava livre de algum quadro, os quais eram adquiridos quase a preço de custo e que valeriam uma fortuna nos anos seguintes, pois carregavam assinaturas dos então anônimos e verdes Cézanne, Matisse e Picasso, que nesse tempo estava mais pra azul do que verde. Leo Stein fez a alegria de muito pintor iniciante, comprando seus quadros aos montes, e os ajudou divulgando tais obras e convencendo o mundo que ali estava o futuro da arte.

Todavia foi a irmã Gertrude que se tornou célebre entre a comunidade artística estabelecida em Paris, com a qual fez amizade e que passou a freqüentar o endereço, convertido em um point para todo candidato a artista moderno, fosse romancista, contista, poeta, dramaturgo, músico ou fotógrafo, por vezes surrealistas, dadaístas ou cubistas, além de editores e a imprensa cultural. Em determinada época havia algum burburinho praticamente toda noite. A lista de habitués é uma verdadeira aula de história da arte que, além dos já citados pintores, tinha F.Scott Fitzgerald (e sua esposa Zelda), Ernest Hemingway, Jean Cocteau, Ezra Pond, T.S Eliot, Virgil Thompson e um longo etc. que inclui James Joyce. Porém o irlandês foi barrado no baile, pois consta que Gertrude, escritora com pretensões modernistas, via nele um concorrente de peso no mesmo estilo hermético que adotara, e o que é pior, reconhecidamente mais talentoso. E como diz o personagem Hemingway no filme de Allen ao recusar a leitura do manuscrito de Gil, um escritor odeia outro colega mais talentoso. Toda essa patota era recebida por Gertrude em sua casa para que planejassem o futuro das artes enquanto enxugavam a adega dos Stein. Não é de se admirar que muitos jovens com pretensões artísticas recomendados por veteranos iam pedir a benção daquela senhora, que nem sempre se preocupava em averiguar se a recomendação por parte de algum conhecido era procedente.

Mas por maior que fosse o sobrado, nem sempre havia tanto espaço para tamanhos egos. Hemingway e Fitzgerald se estranhavam pelas infinitas vezes em que Gertrude os comparava e os elogiava respectivamente e em segredo, o que deve ter rendido um murro no queixo dela durante uma luta de boxe com Hemingway e aumentou o consumo de bebida dos Fitzgerald em alguns hectolitros. Matisse se enciumava da amizade de Gertrude e Picasso, que tinha ciúmes dela com o também cubista Juan Gris, o qual cogitou colar seus bigodes com o de Stein, sem sucesso, até porque da fruta que Gris muito apreciava, Gertrude chupava até o talo. Aliás, a relação entre Gertrude e Picasso é um caso à parte, parecia um casamento, só não tinha o sexo, pelos motivos supracitados. Mas esse casamento gerou, se não filhos, muitas histórias. Em 1905, após posar para Picasso e contemplar o resultado, Gertrude reclamou da pouca semelhança, ao qual Picasso retruca que um dia ela se pareceria com o quadro – o que não deixa de ser sacanagem. E na época que Picasso tentou abandonar a pintura pra se tornar poeta, ela lhe perguntou de onde tirara a idéia de que qualquer um pode ser poeta, e ele respondeu: ”lendo seus poemas”. Ambos brigariam em definitivo, ironicamente e indiretamente por causa de Juan Gris, morto prematuramente. Gertrude acusou Picasso de não ter dado a devida atenção ao colega falecido, e isso rendeu uma última e definitiva briga entre os dois. Esse povo não era fácil.

Famosa por cunhar o verso ”Uma Rosa é uma rosa é uma rosa” e diversas frases e afirmações de efeito, a maioria exaltando sua genialidade, além de ter cunhado o termo “Geração Perdida” para descrever seus contemporâneos, Stein arrancou muitos desses artistas do anonimato e travou amizades e inimizades com alguns deles, inclusive com seu irmão Leo, que rompeu com ela e abandonou o sobrado parisiense, levando alguns dos quadros. Ironicamente, após esse bando de boêmios se tornarem mundialmente famoso e a vanguarda por eles inventada se tornar o novo stablishment cultural, a própria Gertrude Stein não tinha uma obra editada, muito em parte porque seus escritos seguiam um estilo próprio, enveredando por experimentalismos de influência dadaísta, com poemas de versos repetitivos ou prosa que considerava a vírgula um acessório inútil, algo que torna a leitura um desafio árido, o que deve ter repelido a maioria dos editores. E para terminar de lascar, James Joyce, aquele cujo estilo era muito similar ao seu, encontrou seu lugar na posteridade ao ter publicado o romance “Ulisses”, que também só foi aceito para ser editado pela também americana Sylvia Beach, proprietária da Shakespeare and Company, famosa livraria e outro importante endereço para a cultura parisiense . Se a leitura de Ulisses é um desafio para muitos – esse humilde blodegueiro incluído – há quem diga que os textos de Gertrude seriam um desafio ainda maior.

Por fim, após passar por três décadas e uma Guerra Mundial, da qual participou como voluntária e ganhou até umas medalhas, Gertrude tem um livro editado em 1933, chamado “A Autobiografia de Alice B.Toklas”, que era sua parceira desde 1908 e cuja arte residia nos pratos que preparava, e apesar do título, tudo saiu das mãos de Gertrude, cuja intenção seria escrever aqueles acontecimentos sob o teto do sobrado com tanta gente então famosa sob a ótica de Alice. Sem apelar para estilos rocambolescos e abandonando sua guerra pessoal contra o uso de vírgulas, a narrativa convencional se tornou um sucesso, já que se tratava basicamente de fofoca com um monte de artistas de renome, e é claro, sem esquecer de por Gertrude no seu devido lugar, já que “Alice” decreta, nas primeiras linhas, que só reconhecia três gênios: Gertrude Stein, Pablo Picasso e Alfred North Whitehead. Nessa ordem. Nem todos gostaram do retrato pincelado pela velha matrona, seu irmão afirmou que era quase tudo mentira e Hemingway esperaria três décadas para revidar, dessa vez não com cruzados de boxe, e sim no romance “Paris é uma Festa”, onde ele dá sua versão daqueles anos e Gertrude é descrita em tons pouco lisonjeiros. Como Gertrude cometeu a indelicadeza de morrer em 1946 privando Hemingway de uma réplica ou opinião,

Gertrude aproveitou a tardia fama e até chegou a voltar ao seu país de origem, décadas após tê-lo trocado pela França, mas voltou para seu sobrado, de onde ainda viria os nazistas brincarem de passo de ganso nas ruas de Paris até serem expulsos pelas forças aliadas. Da Rue de Fleurus ela só sairia morta, o que aconteceu em 1946, deixando uma viúva, uns poucos quadros daqueles tempos e um puta de um legado cultural para o ocidente.

Por uma dessas gozações do destino, esse fanfarrão, sua eterna amante e “autora” de seu livro de maior sucesso, Alice B.Toklas, sempre esteve à margem do agito cultural no qual Gertrude estava enfurnada, mas após a morte dela, Alice viria a escrever e publicar um livro: “The Alice B Toklas Cookbook”. Sim, um livro de receitas. Até porque comer é também uma arte, principalmente em Paris.

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Mandrake


A Grande Arte de Rubem Fonseca na Tela Pequena

Na minha época de pretenso maldito e misantropo em progresso, uma de minhas leituras favoritas eram os livros e contos de Rubem Fonseca. Mesmo que você não sinta vontade de que a humanidade se exploda, tal obra é recomendadíssima. Contista de mão cheia, a maioria dos seus contos são policiais, fruto de sua experiência profissional na Polícia Civil. Cheios de detalhes do submundo carioca e recheados de violência crua, normalmente os personagens de suas histórias são cínicos, hedonistas e intercalam palavrões com citações eruditas em diálogos insóllitos. Contos como “O Cobrador” e “Feliz Ano Novo” mostram marginais e psicopatas cometendo assassinatos com requintes de crueza, e “225 Gramas” é um dos mais perturbadores de sua obra, ao descrever um último encontro inusitado entre um homem e uma antiga amante durante uma autópsia. Mas há alívios cômicos, e “Corações Solitários” ou “AA” são exemplos deliciosamente irônicos

Mesmo não costumando retornar personagens, alguns acabam voltando em contos e romances. E um deles é o advogado criminalista Mandrake, protagonista de alguns contos e romances. Tal advogado, em sociedade com um judeu chamado Wexler, costuma resolver os cu-de-boi que seus clientes abastados se enfiam e que, por um motivo ou outro, não podem apelar para a polícia. Transitando livremente entre o jet-set carioca, delegacias e ambientes pouco recomendados, suas paixões são os charutos, os vinhos e as mulheres. Um dos romances de Rubem Fonseca protagonizado por Mandrake, “A Grande Arte”, inspirou o filme homônimo de Walter Salles. No romance, para se vingar de um grupo de assassinos habilidosos no uso de facas de combate, o advogado aprende a arte do percor – perfurar e cortar – e passa a perseguir aqueles que o feriram. Pessoalmente sempre gostei da primeira metade do romance, mas sempre me deu a impressão que a história se torna complexa e perde rumo e ritmo.

Tergiverso, todavia. O motivo de abordar a obra do inacessível escritor avesso a badalações e entrevistas é o lançamento tardio em DVD da excelente série de TV baseada no personagem Mandrake, produzida pelo canal HBO e a produtora Conspiração Filmes em 2005. Tecnicamente impecável, filmada em película e com trilha sonora calçada no Jazz (o tema de abertura é “Work Song”, de Charles Mingus), a aparente proposta da série foi trazer um clima de filme noir a histórias passadas, em sua maioria, no Rio de Janeiro. Longe do lugar-comum de mostrar o clima alegre e ensolarado dos cariocas, a fotografia escura dá o tempero de literatura pulp, e a produção conseguiu criar uma linguagem de apelo universal, mas sem perder a identidade brazuca, com temática adulta, apelo erótico e alguma violência.

A direção da maioria dos episódios ficou a cargo do filho de Rubem, José Henrique Fonseca, que assina o roteiro em parceria com Felipe Braga e Tony Belloto. Tais roteiros são fiéis ao espírito do personagem, claramente fanfarrão, bom vivant, cara de pau e mulherengo, mas que alivia seu karma ajudando gratuitamente quem precisa de apoio jurídico mas que não pode pagar. A influência da literatura policial noir é sentida em episódios como “Eva”, cujo roteiro é claramente inspirado em “O Sono Eterno”, de Raymond Chandler. Mesmo baseado nos contos do pai, a maioria das histórias são originais, mas mantendo algumas referências, como no episódio “Dia dos Namorados”, que referencia um dos contos publicados no livro “Feliz Ano Novo”, na qual um diplomata se mete em uma enrascada digna de Ronaldo Fenômeno. E em quase todas há alguém importante ou bem financeiramente que está em uma situação de chantagem ou extorsão, e Mandrake atua muitas vezes como detetive, um Phillip Marlowe com mais malandragem e gingado.

Não preciso dizer que o ator Marcos Palmeira ficou bem à vontade no papel-título, o maior consumidor de Periquita (o vinho português, mente poluída) do Rio de Janeiro. Não é para menos, já que muitas beldades, com perdão do trocadilho, acabam na vara do advogado. E que beldades. Ao longo dos treze capítulos, criaturas mimosas como Suzana “Tiazinha” Alves, Gisele Itié, Gianne Albertoni, Bruna Lombardi, Monica Martelli e Erica Mader se deixam levar pela conversa mole do advogado, o que enche a testa de Berta Bronstein (Maria Luisa Mendonça) de tanta ponta que dá pena. E não preciso nem falar que ficam bem desinibidas durante os episódios.

Outros destaques do elenco são o sócio Wesxley (o sempre ótimo Mielle) e o antigo amigo de infância, sócio involuntário em triângulo amoroso e policial Raul (Marcelo Serrado), que ajuda o amigo quando este se mete em uma enrascada na qual nem sua cara de pau consegue tirá-lo. Certamente é dele os mais engraçados diálogos, já que, ao contrário do amigo, Raul é tão fino quanto parede de castelo, inclusive com as mulheres. Curiosamente o hoje famoso comediante Marcelo Adnet participa como um jovem estagiário de Direito.

Na época, a HBO produziu 8 episódios, e posteriormente filmou mais 5. Infelizmente após estes 13 episódios nenhum material foi produzido, e um eventual lançamento em DVD ficou apenas na promessa, sendo efetivado só agora, e no mercado estrangeiro. Mas nada que um cartão de crédito internacional não resolva, além de, é claro, as opções alternativas disponíveis na grande rede mundial de computadores. Uma boa pedida para quem gosta de boas atrizes pagando peitinho histórias policiais.

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A Imperfeição é Bela

Do Big Bang, Assimetrias e a Beleza do Imperfeito
Ontem uma notícia com alto potencial de polêmica chamou a atenção de muitos: o Papa Bento XVI afirmou que Deus estaria por trás do Big Bang, que é a teoria vigente acerca da criação do Universo. Além da velha disputa entre ciência e religião e toda polêmica perene que isso provoca, isso me remeteu ao tema de um livro recentemente lido por este blodegueiro: “Criação Imperfeita”, do Marcelo Gleiser, e aproveito o mote para finalmente comenta-lo. Afinal, o Gleiser já é cliente VIP aqui da Blodega, pois já comentei sobre outro livro do físico brazuca há alguns meses.

Para Gleiser, Deus provavelmente não teve nada com o Big Bang (olha o Heisenberg aí, gente!), mas a maioria dos cientistas concordaria com o Papa, mesmo que inconscientemente.  Ou seja, boa parte da comunidade científica que está em busca de uma Teoria do Tudo estaria, inconscientemente, em busca de Deus,  e essa necessidade por tal teoria seria uma forma rebuscada de monoteísmo atávico  E mais, provavelmente não saberemos em todos os detalhes sobre a origem de tudo e tampouco unificaremos as teorias existentes em uma teoria final, e esta busca seria semelhante a tentar buscar uma deidade por trás de tudo. E isso vem de um acadêmico que gastou boa parte dos anos em busca justamente de uma teoria dessas. O fulcro do livro seria o desencanto do autor pela frustrante busca da ciência por uma “teoria final”, algo que explique a todos os fenômenos sem deixar lacuna alguma.

Isso porque, por mais avançado que o conhecimento humano esteja, na prática todas os modelos físicos e matemáticos existentes não passam de gambiarras. Ótimas e elegantes gambiarras, que servem com eficácia ao propósito para o qual foram criadas, mas que falham miseravelmente em outras situações. Para ilustrar isso, o exemplo mais óbvio é todo o cálculo e todas as teorias da física  criados por Issac Newton, o menino criado por vó cientista que pariu a Física Clássica. Graças a estas teorias podemos calcular a trajetória de um míssil balístico ou o período de órbita de um planeta em torno do sol (se forem três corpos em jogo o bicho complica, mas não é o caso agora). Mesmo que não saibamos porque dois corpos se atraem mutuamente em razão de suas massas e da distância que os separam, sabemos COMO isso ocorre, e todo este conhecimento é deveras útil para as atividades cotidianas, como catapultar um sobrinho chato por cima do muro de um canil, mas acaba não servindo para explicar os fenômenos do muito pequeno, o mundo subatômico de partículas, átomos, moléculas e ondas. Por isso, os cientistas precisaram criar a Física Quântica e a teoria da relatividade (especial e Geral) para dar um jeito na bagunça. Em suma, para cada situação dos fenômenos da natureza, existe uma teoria. Entre saber como um líquido se comporta ao sair de uma garrafa de cerveja para o copo e saber como era a natureza da matérias nos primeiros segundos de existência do universo é uma distância imensa.

E quando se trata de tentar explicar o universo, sua origem e seu destino ou os primeiros segundos após o Big bang, aí é coisa para se tomar chá de cogumelos. Como se trata de um campo restrito a conjecturas e hipóteses que não podem ser integralmente testadas, a cada nova evidência sobre o comportamento dos tijolos básicos da matéria – normalmente obtidas nos aceleradores de partículas – as explicações sofrem remendos e modificações. Antes disso, Gleiser dá exemplos históricos de como a busca por um modelo perfeito e simétrico do universo, por mais que produzissem teorias estética e mecanicamente funcionais, acabaram por se revelar completamente erradas diante dos fatos e das descobertas científicas subsequentes. Basta lembrar os modelos que inseriam a Terra no centro de tudo e com os astros girando em círculos perfeitos e envoltos em sólidos cristalinos, mas que tiveram que ser postos de lado diante das órbitas elípticas de Kepler.

O próprio autor, reconhecendo quão difícil é absorver as ideias e teorias envolvendo a criação do universo, até sugere ao leitor pular dezenas de capítulos do livro – as partes 2, 3 e 4 – nas quais ele nos atualiza sobre estas teorias sobre o tempo,a matéria e a própria vida. E admito que, mesmo para os leitores habituados com literatura de divulgação científica e a prosa de o autor, tais teorias não são fáceis de absorver – ao menos sóbrio e careta. Mas os capítulos que compõem a parte 1 introduzem a ideia de Gleiser através da necessidade e temores humanos sobre o desconhecido e os fenômenos da natureza são de bem mais fácil digestão.

A princípio o leitor pode pensar que o autor queira tecer críticas em relação à religião, como vem se tornando comum na literatura de divulgação científica. Mas ao contrário, ele acaba por tecer sérias críticas quanto a esta posição frontalmente contra as religiões, normalmente encabeçada por Richard Dawkiws ou Sam Harris e seguidos por Daniel Dennett e Chirstopher Hitchens, os “Quatro Cavaleiros do Apocalipse” que declararam uma vendetta pessoal contra o Todo Poderoso, comparando seu radicalismo ao radicalismo religioso.

Gleiser meio que atribui essa necessidade humana de uma teoria unificada que a tudo explique a necessidade humana de crer em uma deidade monoteísta, uma maneira de tentar inserir Deus na Criação, uma consciência cósmica com propósito definido em relação a criação. E que, portanto, tal criação seria perfeita e simétrica, de beleza e elegância singular. E , após anos pesquisando e procurando o caminho para a Teoria Final – esperança hoje depositada na Teoria das Supercordas – a conclusão a que ele chega é que essa pode ser uma busca infrutífera e contraproducente, e que talvez seja mais sensato admitir que o conhecimento humano, por mais avançado que venha a ser, não conseguiria explicar a tudo, que a natureza seja, de fato, assimétrica, sendo puramente um capricho humano a vontade de encontra simetria em tudo e associá-la imediatamente a beleza e perfeição. E argumenta bem que algo assimétrico e imperfeito não é, necessariamente, feio ou deselegante. E não deixa de ser um bom exemplo apelar para as marcas sutis nos rostos de Marylin Monroe ou da Cindy Crawford. Ora, cientista também gosta da fruta e aprecia, oras!

No frigir dos ovos, o autor clama a todos a sentirem a responsabilidade de serem algo raro e exclusivo no universo, caso sejamos fruto de uma série de fenômenos casuais que resultaram no surgimento da vida unicamente neste ponto do universo. Se não somos frutos do desígnio de um plano maior e estamos aqui praticamente por acidente, então é responsabilidade nossa manter acessa a chama da vida nesse ponto do universo, já que pode ser bem possível que sejamos os únicos a apreciar e tentar entender tamanha vastidão, e nesse caso não teríamos uma consciência maior a quem recorrer e a quem entregar a responsabilidade de nosso destino.

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Vaporpunk

Steampunk lusófono

Mais uma vez volto ao tema “Steampunk”, que já abordei aqui antes. Percebo um discreto, porém constante, crescimento no interesse, adesão e curiosidade quanto ao segmento de ficção científica steampunk, principalmente na Internet, que vem divulgando iniciativas por todo o país contos de entusiastas amadores, escritores profissionais e obras lançadas recentemente. Há algum tempo comentei sobre a coletânea de contos “Steampunk”, e mencionei uma segunda coletânea sobre o tema que estava prestes a ser lançada, prometendo um comentário sobre ela. E admito que é um material fascinante a se trabalhar, moldando a história recente sob outros caminhos e misturando personagens reais e fictícios com extrapolações tecnológicas compatíveis com tal contexto histórico, além de acrescentar nessa mistura elementos do sobrenatural e fantástico. Recentemente foi destaque na imprensa em geral o lançamento de livros que mesclavam clássicos da literatura brasileira com elementos fantásticos, despertando críticas moderadas a irascíveis

Lançada pela editora Draco em fins de julho, o livro “Vaporpunk – Relatos steampunk publicados sob as ordens de suas majestades” reúne relatos em língua portuguesa de autores brasileiros e lusitanos. São oito histórias  sob a temática do Steampunk, e a maioria ambientadas fora do circuito anglo-vitoriano, o cenário mais comum das histórias do gênero.  Ao invés de Londres, temos cidades e paisagens brasileiras ou portuguesas. Aqui uma breve comparação com a coletânea anterior, já que ambas são, até o momento, as que tomaram a iniciativa de reunir histórias brasileiras e portuguesas do gênero. Enquanto o livro da Tarja editorial contem 9 contos em pouco menos de 200 páginas, o da Draco possui oito histórias distribuídas em cerca de 300 páginas, o que abre um maior espaço para o desenvolvimento das tramas e personagens. Tanto que os organizadores, Gerosn Lodi-Ribeiro e Luis Filipe Silva deixam isso claro no prefácio, e preferem denominar as histórias de “noveletas” e não de contos, dada a narrativa mais extensa e passível de contemplar mais elementos do que contos mais curtos. O aspecto geral das histórias em “Steampunk” é um clima de aventura leve e gostosa de ler, com algumas poucas histórias mais sombrias e sisudas e ancoradas principalmente em ficção científica. Já nesta coletânea as histórias são mais pesadas, violentas e sérias, com fortes elementos sobrenaturais permeando boa parte delas, com direitos a deuses pagãos, vampiros e lobisomens. Não que eu esteja afirmando que um seja melhor que o outro, apenas estou levantando algumas diferenças significativas, e afirmo que gostei bastante de ambos. Mas há mais pontos em comum, como o uso de personagens históricos reais ou fictícios da literatura fantástica de fins do século XIX e o de personagens fictícios e reais da história e literatura brasileira.

Após este breve comparativo, comentemos sobre os oito contos desse livro, com o cuidado de não revelar detalhes importantes (vai que algum autor esteja lendo isso e me espinafre :) ).

- A primeira história, “A Fazenda-Relógio”, de Octávio Aragão, mostra as consequências sociais e políticas do advento do automatismo a vapor na agricultura brasileira, com autômatos substituindo a mão-de-obra escrava e relegando os negros à uma sobrevida fora das fazendas, o que faz surgir uma espécie de movimento ludista entre os ex-escravos. Destaque para a participação de um personagem clássico de um romance de Machado de Assis e de personagens históricos, como o Visconde de Mauá e Conde D’Eu.

- “Os Oito Nomes do Deus sem Nome”, Yves Robert mostra a ascensão do Império Português ante a França e a Inglaterra, potências estas que se unem para tentar descobrir o porquê das circunstâncias tanto favorecerem a nação de Portugal, segredo que envolve um pacto secreto entre a família real portuguesa e forças de origem pagã oriundas das colônias africanas.

- Flávio Medeiros Jr, que também está presente na coletânea “Steampunk –Histórias de um Passado Extraordinário” com o conto “Por um Fio”, retoma o mesmo universo de eventos desse conto em “Os Primeiros Astecas na Lua” de uma forma bem mais ampla, mostrando os bastidores de espionagem da “guerra fria” entre França e Inglaterra, usando e abusando de personagens das histórias de H.G.Wells e Julio Verne, inclusive usando os próprios autores como personagens, além da participação de outros personagens do universo de Arthur ConanDoyle. Pessoalmente foi a história que mais me divertiu pela maneira como ele reuniu tantos elementos e referências de forma harmoniosa, dentro do contexto de sua história.

- O organizador da coletânea, Gerson Lodi-Ribeiro, participa com a história “Consciência de Ébano”, sobre uma República fundada por negros em parte do território brasileiro e uma ordem secreta mantenedora do segredo dessa república, um acordo com uma criatura sobrenatural que lhes dá vantagem estratégica em ações militares e de espionagem, sob a ótica do desconforto e dilema moral de um dos mais novos membros dessa ordem. De todos é o que tem a conclusão mais pesada e perturbadora.

- “Unidade em Chamas”, do português Jorge Candeias, mostra a supremacia militar de Portugal com o advento das passarolas, espécie de dirigíveis concebidos por Bartolomeu de Gusmão, que na história são mostradas como eficientes armas militares contra o inimigo francês. Mas o foco principal é o conflito racial em uma unidade de passaroleiros que recebe, à contragosto, o reforço de tripulantes oriundos das colônias africanas, o que fez crescer uma tensão entre os portugueses e os colegas negros.

- Na noveleta do paulista Carlos Orsi, um jovem Charles Darwin é narrador e protagonista de “A Extinção das Espécies”, testemunhando, em sua viagem no “Beagle” pela América do Sul as maravilhosas e aterradores possibilidades tecnológicas advindas das invenções de um grupo secreto de engenheiros e construtores que criam autômatos e dispositivos nano tecnológicos baseados num método intitulado Waldman-Ingolstadt, uma referência a elementos do livro“Frankeinstein”.

- Um Brasil do Segundo Império incentivando a pesquisa científica sob as bençãos de D.Pedro II, aspirando a grandeza das potências mundiais e atraindo a atenção  e cobiça de países vizinhos e do império britânico é o mote de “O Dia da Besta”, que também traz a Princesa Isabel como uma piloto de aeronaves e líder de uma gangue de piratas que combatem e pilham ilegalmente os inimigos da coroa brasileira. Todos eles se confrontam com uma ameaça de origem desconhecida, uma criatura metamórfica encontrada nos restos de um naufrágio.

- A noveleta que fecha a coletânea é “O Sol é Que Alegra o Dia…”, um interessante exercício de especulação sobre a vida de um personagem real,  o padre português Manoel Antonio Gomes, mais conhecido como Padre Himalaya, alcunha ganha devido a sua avantajada altura. Padre e cientista, ele teria concebido um aparelho para aproveitar a energia solar no início do século XX, o Pyrheliophero, obtendo altíssimas temperaturas apenas usando a energia solar. Mas seu invento foi eclipsado – com perdão do trocadilho infame -pelos interesses econômicos da emergente indústria petrolífera e automotiva. Na noveleta, o autor João ventura reconta a biografia do padre inventor caso o seu invento conseguisse se sobrepor a escolha dos combustíveis fósseis, com lances de sabotagem e guerra industrial, mostrando uma alternativa bem mais sustentável e ecológica ao rumo escolhido há décadas.

Além da qualidade de todos os textos ali reunidos, a arte gráfica em si chama a atenção, tanto pela gramatura do papel quanto pelo design de capa e de algumas páginas internas. Em suma, um belo investimento para os fãs de literatura fantástica ou para aqueles que querem ingressar nesse segmento tão promissor e com grande potencial de crescimento. E a editora já prometeu outra coletânea dessa natureza para o ano que vem, a qual vem sendo referenciada com o título Dieselpunk. Esperemos ansiosos, então.


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Livros Perigosos Para Garotos


Cultura e Traquinagens Para Crianças de Todas as Idades

Nos meus tempos de criança a fonte de informações inúteis era o “Almanaque Alfa”, que era dado aos alunos de escolas públicas dentro de Projeto Alfa, uma das várias iniciativas do governo para minimizar a defasagem educacional no ensino fundamental. Tal Almanaque era distribuído juntamente com os livros didáticos desse projeto. Em dois volumes, lá havia informações fascinantes a qualquer garoto que já dominasse o rudimento da leitura e que tinha a natural curiosidade das crianças. Havia instruções de como usar ou construir brinquedos artesanais como piões, pipas, estilingues e apitos,  ensinava regras de jogos e brincadeiras de rua,  tinha instruções para produzir adubo orgânico, desentupir pias e criar formigueiros em vasilhames de maionese, produzir fogo sem fósforos, e achar os pontos cardeais sem bússola, além de informações sobre personagens, fatos históricos e lendas do folclore regional. Uma pequena enciclopédia, que infelizmente se perdeu na bacia das almas e virou ração de traça há algumas décadas.

Naqueles tempos também havia o “Almanaque do Escoteiro Mirim”, editado várias vezes desde os anos 70 e em diversos formatos. A depender da edição, cada volume era temático, e a depender do tema recebia o título de um personagem Disney. Por exemplo, o manual do Tio Patinhas tratava de dinheiro e finanças e todo tipo de curiosidade sobre a criação das moedas, o da Vovó Donalda trazia receitas e a história dos alimentos. Havia também a coleção completa em capa dura e vários volumes, A Biblioteca do Escoteiro Mirim, no qual a lombada de todos, quando unida, formava uma gravura com os personagens Disney. Dia desses vi em um sebo esta coleção completa, pela bagatela de 150 mangos. Havia também uma edição de luxo única em capa dura, o Supermanual do Escoteiro Mirim, com direito a cadeado na capa. No fim dos anos 80 a Abril chegou a relançar a coleção em brochura pela Nova Cultural. Não preciso dizer que eu babava por este material em minha infância, mas infelizmente não tinha como adquiri-los, já que o “papa-figo” da esquina não pagava pelos órgãos internos que procurava nas crianças, o que inviabilizava qualquer negociação com um de meus rins. Mas os Almanaques Alfa supriram boa parte de minha curiosidade infantil.

Pra que tantas reminiscências? É que hoje que sou pai e meu filho mais velho já tem aquela curiosidade natural em procurar informações em livros, senti a falta de um tipo de literatura dessas, que ao mesmo tempo que informa, estimula as brincadeiras ao ensinar às crianças a criarem seus brinquedos e as regras das brincadeiras de rua. Cheguei a cogitar a compra dos livros em sebos, mas relutei principalmente por conta de muitas informações estarem desatualizadas. Não que a tecnologia em construção de pipas tenha mudado muito nas últimas três décadas, mas há outras informações de conhecimento geral que certamente estão defasadas. Além do que, imaginei que  esse tipo de literatura tivesse pouco apelo a esta geração criada por pais que foram (des)educados pelo Show da Xuxa, que seguia o preceito de que toda criança deve ser tratada como retardada até que se prove o contrário, uma geração que só quer saber de Videogame e Internet, expandindo exponencialmente a piada sobre filho criado por vó em condomínio fechado, empinando pipa em ventilador e jogando bola de gude em carpete. E apesar do Google ter mais informação do que qualquer manual Disney, nem sempre o infante terá o interesse em procurar especificamente aquela informação, mais interessado em descobrir as trapaças e senhas para algum jogo on-line.

Mas o que havia passado totalmente batido por minha miopia é que um livro, lançado por aqui há três anos e escrito por dois irmãos ingleses – Conn e Hal Iggulden – resgatou para os dias de hoje esse tipo de literatura, e ainda conseguiu a proeza de se tornar um best-seller: “O Livro Perigoso Para  Garotos”. A ideia dos dois irmãos foi justamente resgatar as brincadeiras de antigamente para a geração pós-Pokemon, além das pérolas de conhecimento geral, o que inclui aforismos de autores famosos, expressões em latim e a biografia de grandes vultos e heróis da história. Para os pais super protetores e politicamente corretos de hoje, que sequer permitem que o seu filho vá a padaria da esquina comprar pão e gastar o troco com balas, esse livro pode ser um pesadelo. Não que tenha lá receita para se fazer bomba caseira com produtos de limpeza (isso tem em outros livros), mas há uma série de experiências e construções que exigem o uso de canivetes, fósforos e substâncias diversas,  o que deve dar úlcera nas mães mais paranoicas. Dificilmente algum moleque viabilizará a construção de uma casa em uma árvore, algo tradicional em outros países, mas aprenderá a fazer tinta invisível com substâncias orgânicas, como a urina, sendo mais recomendável o sumo do limão ou leite, e saberá construir um bom arco e flecha ou estilingue, para terror da sua progenitora. A edição brasileira ganhou sabor local ao ter fatos e personagens locais acrescentados ao texto original. Pode até parecer algo politicamente incorreto nos dias de hoje nos quais os pais são estimulados a mimar e superproteger os filhos para não traumatizá-los. Mas que seja, esta geração precisa de um pouco mais de incorreção política, oras!

Há pouco tempo a Galera Record – divisão de literatura infanto-juvenil da Record – lançou uma edição de bolso desse livro, compilando o conteúdo do original e adicionando algumas novidades, dividido em dois volumes, que vem em uma caixa de cartão para protegê-lo. Ao menos dá mais praticidade, considerando que é um pequeno manual para traquinagens, o qual eventualmente acaba sendo levado para lá e para cá, nem que seja para ser mostrado a algum coleguinha. Foi essa edição que acabei comprando para presentear meu filho mais velho, que anda devorando seu conteúdo e pondo em prática algum de seus ensinamentos. Claro que comentei entredentes que o livro ensinava a explodir coisas para que minha esposa ouvisse, só para vê-la por alguns segundos de cabelo em pé…

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Histórias dos Quadrinhos que Não estão no Gibi – Parte 3


A Guerra dos Gibis 2 – Maria Erótica e o Clamor do Sexo

A tão esperada sequência de “A Guerra dos Gibis“, do jornalista baiano Gonçalo Junior, foi lançada no fim do mês passado sob o título “Maria Erótica e o Clamor do Sexo – Imprensa, Pornografia, Comunismo e Censura na Ditadura Militar – 1964/1985″, ou simplesmente “A Guerra dos Gibis 2″. Na verdade, esclarece o autor no posfácio, o conteúdo desse livro é que deu origem ao primeiro, já que o tema de “Maria Erótica…” surgiu como matéria de um fanzine e se transformou em um Trabalho de Conclusão de Curso de jornalismo, e o primeiro “A Guerra dos Gibis” seria um retrospecto introdutório para o assunto principal – quadrinhos e a censura no regime militar de 64. Mas o autor reuniu tanto material e depoimentos no período de 1987 e 2006 que foi o suficiente para se fazer não apenas um TCC, e tampouco um livro, e sim três, e o primeiro foi justamente “A Guerra dos Gibis”, que abrange a década de 30 até 1964. Ao contrário do anterior, que foi editado pela “Companhia das Letras”, esta edição foi lançada sob o selo de uma editora estreante, a “Peixe Grande”. A diagramação traz, além do texto, a reprodução de diversas capas e ilustrações de revistas do período focado, sendo oito dessas páginas coloridas no início do livro, além de, para introduzir cada capítulo, três páginas com capas, ilustrações e comentários, deixando o livro visualmente bem atrativo, um trabalho de diagramação de Toninho Mendes.
À primeira vista o leitor pode imaginar que o livro se resume ao tema quadrinhos eróticos e sua relação nada agradável com o regime militar e a censura então vigente. Todavia, o buraco é bem mais embaixo (e mais apertadinho), e o autor consegue montar um verdadeiro mosaico da realidade editorial do período, e não só das revistas em quadrinhos. E mais importante, resgata e faz justiça a importantes nomes dos quadrinhos nacionais, como Claudio Seto, o criador da fogosa e ingênua Maria Erótica do título, falecido em 2008. Outro esclarecimento importante é que não são abordadas as revistas pornográficas, pois estas eram completamente clandestinas nesse período, até porque as regras eram bem rígidas, como nunca mostrar bundas por inteiro ou mais de um seio. Mamilos e pelos pubianos eram proibidos. E nu total frontal ou cenas de penetração, nem em sonho. A imaginação que se virasse com o pouco que se podia mostrar. Sobre as revistas pornográficas o autor dedicou algumas páginas em “A Guerra dos Gibis”, ao falar de Carlos Zéfiro e seus catecismos.

Como bom pesquisador que é, Gonçalo não se limita a narrar os fatos em simples sequência cronológica, preferindo se dar ao trabalho de contextualizar e enriquecer a narrativa. Por isso somos brindados com uma breve descrição da imigração japonesa ao Brasil e da história do mangá no Japão e sua influência na educação e formação dos descendentes dos imigrantes nipônicos para explicar o traço de artistas de origem nissei, como Minami  Keizi e Claudio Seto. Até o obscuro episódio da Shindo Renmei (tema do livro “Corações Sujos”, de Fernando Morais) é resgatado para contar a história da família de Seto. Por ser o mangá algo completamente estranho às editoras brasileiras de então, muitos desenhistas de origem nipônica tiveram dificuldade em encontrar trabalho por seus traços e técnicas narrativas serem pesadamente inspirados neste estilo. Outro parêntesis deveras didático se dá no capítulo 3, no qual Gonçalo faz uma pequena antologia da evolução do erotismo no Brasil desde os tempos do império e sua relação com a censura oficial.

Com uma narrativa que consegue fluir naturalmente, se atendo ao rigor jornalístico sem ser cansativa, Gonçalo enriquece a história ao detalhar os bastidores do Governo Militar, principalmente dos órgãos de censura, e fatos envolvendo outros nomes do ramo editorial, como a Abril, a Bloch e a Editora Três, trazendo a história da operação de guerra para convencer o governo a liberar a versão brasileira da americana Playboy, a corrida para se publicar o primeiro nu frontal após a liberação da censura, os lances dramáticos envolvendo a prisão e tortura de Paulo Fukue e os atentados a bancas que vendiam material “subversivo”. Há a menção de editoras, publicações e personagens, como os bolsilivros da editora Monterrey, cujo carro-chefe era a sensual espiã Brigitte, filha de Giselle, a espiã nua que abalou Paris. Também são citados, mesmo que superficialmente, o nome de duas autoras icônicas deste período: Adelaide Carraro e Cassandra Rios, cujos textos eróticos foram perseguidos com igual fervor pela censura. E os episódios icônicos do período também estão lá, desde a queda de Goulard até o tempo das Diretas Já, passando pelas bombas na OAB e Riocentro e pela tanga de crochê do Gabeira no caminho. Ao retomar os abusos cometidos por autoridades obtusas em nome de uma suposta moral ou combate ao comunismo, nos surpreendemos e nos revoltamos com os absurdos daqueles tempos, absurdos estes que minaram a carreira e sonhos de muitos artistas, e que em última análise, pode ser responsabilizada por abortar vôos mais altos dos quadrinhos nacionais.

Maria Erótica

Mesmo com tantos coadjuvantes e pequenas histórias paralelas, o fio condutor dessa trama é a história de duas editoras, Edrel e Grafipar, seus artistas e empresários, e o livro é dividido em duas partes.  Os primeiros oito capítulos do livro formam a primeira parte, intitulada “A Edrel e a Subversão do Sexo”, e abrange as aventuras e desventuras das editoras paulistas nos primeiros anos de chumbo, se concentrando mais especificamente na Edrel e de um de seus fundadores, o desenhista Minami Keizi. A editora Edrel surgiu dos restos mortais da editora Pan-Juvenil, tendo como sócios Minami Keizi, Jinki Yamamoto e Marcilio Valenciano, se destacando das demais editoras pequenas de São Paulo porque, além de produzir revistas com alta carga de erotismo, estilo “Garotas e Piadas”, montou uma equipe de desenhistas nacionais e produziu histórias voltadas ao público adulto, com temas que iam além do erotismo, abrangendo o terror, faroeste, aventuras de guerra, infantil, histórias de samurai e sátiras de costume, praticamente introduzindo de forma pioneira o estilo mangá em algumas histórias. Aos trancos e barrancos, a editora prospera nos primeiros anos, apesar da perseguição da censura, agravada após 1968, com o AI-5 e o estabelecimento da censura prévia. As publicações eróticas se tornaram um dos alvos preferenciais da censura, sob a alegação de que seria propaganda comunista com a finalidade de minar os valores morais e familiares da sociedade, o que facilitaria a implantação de um regime de esquerda no país.

O sucesso inicial da editora se deveu em grande parte à visão editorial de Minami, que deu chance a artistas novatos como  o próprio Claudio Seto, Fernando Ikoma e Paulo Fukue, liberando-os para criarem histórias inovadoras, tanto em seu traço quando na temática. Todavia a editora acabou seguindo o fadário ao qual a maioria das pequenas editoras brazucas parece destinada, e após a saída de Minami e Jinki da sociedade, o sócio remanescente não soube guiar os rumos da empresa. Minami ainda tentaria se manter no ramo ao fundar outra editora, a M&C, mas que foi inviabilizada pela patrulha cerrada da censura, representada por órgãos federais ou por autoridades locais. O inferno burocrático que Minami encarou, em sua calma oriental, tiraria o juízo de qualquer cristão, já que os critérios de aprovação eram pouco claros e subjetivos, além das publicações estarem sujeitas a apreensões por ordem de juízes ou delegados, mesmo quando liberadas para venda pelos órgãos federal. Aqui, em especial, o autor se debruça nos detalhes que envolviam a análise e posterior aprovação/negação da censura para as revistas, um verdadeiro malabarismo para os editores em um processo demorado que comprometia os prazos de lançamento. As apreensões e a periodicidade incerta acabaram minando as finanças da editora. As editoras maiores, como a Abril, mesmo sob este fogo cerrado dos moralistas, ainda tinha poder de barganha para liberar edições e matérias, garantindo periodicidade às suas revistas, algo que as pequenas não tinham. Minami não aguentou muito tempo e jogou a toalha.

A segunda metade do livro se concentra na história da editora curitibana Grafipar, cuja origem remonta ao imigrante libanês Said El-Khatib, que de caixeiro viajante se torna distribuidor e editor de livros, e após bem-sucedidas incursões na publicação de livros educacionais, como dicionários e enciclopédias, se aventura no ramo editorial erótico por influência do filho caçula Faruk. Este, a contragosto de seu pai e irmão mais velho, cria a então bem-sucedida revista masculina “Peteca” em outubro de 1976, que se propunha a ser a “Playboy dos pobres”, já que a publicação da Abril – que ainda se chamava “Revista do Homem” por imposição da censura – e seus congêneres “Status” e “Ele Ela” eram voltadas a um público de maior poder aquisitivo. Com o sucesso da revista, Faruk decide investir no filão, explorando quadrinhos eróticos, e por coincidência Claudio Seto passara a morar em Curitiba. Seto logo se tornou desenhista e responsável pelos quadrinhos da editora, e passou a convocar novos talentos para lá trabalharem, e nesta editora despontaram nomes que viriam a se tornar conhecidos nos quadrinhos nacionais, como Rodval Matias, Mozart Couto, Flávio Colin, Ataíde Braz, Watson Portela, Julio Shimamoto e outros, alguns dos quais migraram do eixo Rio-SP para viverem em Curitiba. Até o poeta Paulo Leminsky colaborou com argumentos para os quadrinhos. Junto com a Vecchi, a Grafipar foi uma das editoras que mais abriu espaço para o material genuinamente nacional e de qualidade comparável às histórias importadas dos EUA e Europa. Mesmo vivendo um período áureo no fim dos anos 70, quando o regime estava afrouxando o laço, a ironia é que um dos principais fatores que selaram o destino da editora no início dos anos 80, além de algumas decisões editoriais precipitadas e a inflação galopante, foi justamente o fim da censura, que pareceu o rompimento de um dique, soltando um tsunami de publicações pornográficas para atender a demanda popular. Ou citando um clássico moderno da nossa música popular: ”E começou a fuleiragem, e começou a putaria!”, mesmo que os setores mais conservadores tentassem deter essa nova onda.  Por relutar em apelar para a pornografia pura, Faruk perdeu espaço no mercado, fechando as portas em 1983. Antes disso chegou a trazer a revista americana “Penthouse”, maior concorrente da Playboy em solo americano naqueles tempos.

Muito mais do que “outro livro” sobre o regime militar, “Maria Erótica…” é material indispensável para quem quer conhecer e entender a realidade dos quadrinhos nacionais. Para os mais velhos, certamente há o ar nostálgico de relembrar algumas publicações que deixaram um vácuo nos quadrinhos nacionais raramente preenchido. E mesmo para aqueles não diretamente interessados no tema, a reconstituição do período faz esse livro comparável à obra de Elio Gaspari sobre a Ditadura. E ,junto com o primeiro “A Guerra dos Gibis”, forma uma verdadeira aula de história do mercado editorial dos quadrinhos no Brasil. E esperemos, pacientemente, “A Guerra dos Gibis 3″.

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Histórias dos Quadrinhos que Não Estão no Gibi – Parte 2

Dando continuidade ao artigo anterior (se ainda não leu, manda ver), aqui na “Terra Brasilis” há um livro equivalente ao do Gerard Jones que explora a formação do mercado editorial dos quadrinhos brasileiros, abrangendo o período dos anos 30 até idos do início do Regime Militar, de autoria do jornalista Gonçalo Júnior. “A Guerra dos Gibis” é um livro fundamental e indispensável para qualquer um que queira conhecer a história e – porque não – os problemas da indústria de revistas em quadrinhos, popularmente conhecidos entre nós como “gibis”. Como Jones, Gonçalo usa um personagem e sua história como fio condutor: Adolfo Aizen. O então jovem repórter de O Globo tem a ideia de trazer os quadrinhos publicados nos jornais dos EUA , levando-a inicialmente ao seu patrão, Roberto Marinho, que a descarta, e este por fim não desiste e acaba criando “O Suplemento Infantil” para o jornal pós-Revolução de 30, “A Nação”. Essa foi a semente para o pequeno império editorial que o jovem – imigrante e descendente de judeus russos como seus colegas de ofício americanos – criaria anos depois com a fundação da EBAL – Editora Brasil América. E o mais irônico que esse império foi criado sob uma mentira, e uma contravenção já que sua certidão de nascimento brasileira era falsa, e até 2002 a Constituição Brasileira vetava a participação de estrangeiros como sócios ou proprietários em veículos de comunicação, e por toda sua vida Aizen carregou essa espada pendurada sobre o pescoço, uma informação que poderia ser usada por algum inimigo. E inimigos não faltaram. E porque acham que o título do livro é “A guerra dos Gibis”?

Aizen – e os demais editores de quadrinhos e tiras – enfrentaram várias guerras. A primeira delas foi contra seu ex-patrão, Roberto Marinho, que se tocou da bosta que fez ao descartar a ideia dos quadrinhos que Aizen lhe levara de mão beijada. Vendo que o antigo empregado conseguira bons contratos com as distribuidoras de material produzido pelas editoras americanas – os syndicates – e seus suplementos se tornaram revistas avulsas bem vendidas junto ao público infanto-juvenil, Marinho quis abocanhar esta fatia do mercado, e se tornou o primeiro concorrente sério dos quadrinhos de Aizen ao criar O Globo Juvenil, que seria seguido anos depois pelos Diários Associados de Assis Chateaubriant, que criou a revista “O Gury”.

Nesse meio tempo, as opiniões do clero já teciam pesadas críticas contra os quadrinhos importados que eram publicados nessas revistas, sendo o início da ideia geral de que quadrinhos seriam prejudiciais a educação das crianças, ideia ainda hoje encravada no nosso inconsciente coletivo e que vez por outra ainda encontra eco em algum veiculo de comunicação. Tais críticas recrudesceriam a partir dos anos 40, muitas motivadas mais por disputas editoriais entre concorrentes do que em preocupação legítima pelo eventual dano didático que os “gibis” poderiam causar à juventude. Como exemplo, a campanha que o “Diário de Notícias”, de Orlando Dantas, para afetar seu concorrente Roberto Marinho. Mas este discurso encontrou eco nos setores mais conservadores da sociedade, que passaram a atacar os quadrinhos. Se “Chatô” e Roberto Marinho reagiam com campanhas publicitárias ou editoriais agressivos, Adolfo preferia tentar convencer os críticos dos benefícios dos quadrinhos, inclusive publicando revistas com cunho educacional ou retratando personagens da história nacional, incluindo figuras eclesiásticas. Em defesa dos quadrinhos surgiram vozes improváveis, como o do intelectual Gilberto Freyre, e em seu ataque outras figuras carimbadas, como os jornalista Carlos Lacerda e Samuel Wainer, inimigos declarados de Roberto Marinho, e que criticavam os gibis para atingir indiretamente Marinho, mas cujas críticas ressoavam nos meios educacionais, influenciando pais, professores e educadores a se engajarem contra os gibis.

Além das críticas ao veículo em si, outra frente de batalha contra as editoras era a que exigia uma “reserva de mercado” de produto nacional, já que a opção mais prática e barata de importar o material estrangeiro já pronto seduzia os editores, que preferiam este material em detrimento a produzir o seu próprio o que de certa forma criou um problema e paradigma que é seguido até os dias de hoje pelas editoras. Se Aizen foi um pioneiro ao trazer as tiras e os comics americanos para nossa terrinha, ainda hoje o quadrinho nacional tem pouca expressão frente a concorrência estrangeira, com raras exceções.

A pesquisa de Gonçalo envolvendo estas décadas de mercado editorial nos trás ainda a ascensão e queda das editoras de histórias de horror paulistas, a importação da paranoia anti-quadrinhos dos EUA nos anos 50, dá uma pincelada rápida na censura sobre os quadrinhos pornográficos, a tentativa dos quadrinistas nacionais em criar uma reserva de mercado para garantir uma produção nacional, sem sucesso. Mesmo mantendo um rigor jornalístico na narrativa, esta não se torna chata ou enfadonha como poderia se tornar um texto dessa natureza, que por vezes mais se parece com um tratado acadêmico tal o formalismo com que a linguagem se cerca. O texto de Gonçalo é melífluo e qualquer amante dos quadrinhos se deliciará com as histórias que ele tem para contar. Para quem quiser conhecer a prosa de Gonçalo Junior, ele costumava bater ponto no site Bigorna. Curiosamente há um de seus artigos que critica justamente a capa do livro “Homens do Amanhã”, que mencionei na primeira metade desse artigo.

Lançado em 2004, os leitores desse livro há anos anseiam por uma continuação desse trabalho, uma espécie de “Guerra dos Gibis 2”. E isso se tornou realidade recentemente, pois está para ser lançado nos próximos dias o livro “Maria Erótica e o Clamor do Sexo – Imprensa, Pornografia, comunismo e censura na ditadura militar – 1964-1985”, que pode ser considerada uma continuação de “A Guerra dos Gibis”, pois aborda a censura aos quadrinhos no período imediatamente posterior ao abordado naquele livro. Espero em breve tê-lo em mãos para comentar com os frequentadores dessa blodega.

Update 1: Para quem quiser dar uma conferida, quase todo o conteúdo desse livro está disponível no Google Livros

Update 2: Como prometi, comentei “A Guerra dos Gibis 2″ neste outro post aqui

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Histórias dos Quadrinhos que Não estão no Gibi – Parte 1

Quem realmente curte história em quadrinhos e os acompanha há um bom tempo conhece, por vias diretas ou indiretas, alguns aspectos e detalhes do mundo editorial, de como esta arte evoluiu ao longo das décadas, deixando de ser diversão descartável para adquirir status de arte respeitável. Mas para aqueles que não conhecem a história ou são curiosos por mais detalhes sórdidos, por assim dizer, há bons livros no mercado que abordam competentemente o tema. Destaco dois títulos em especial, os quais já li, mesmo que tardiamente, mas que poderia rotular de “obrigatórios” para todo amante da arte sequencial que quer se aprofundar mais no assunto.

Primeiro, falemos da origem de tudo, que é os Estados unidos, onde a indústria dos quadrinhos se tornou uma peça importante na bilionária estrutura dos conglomerados que produzem entretenimento. O ex-roteirista de quadrinhos Gerard Jones caiu em campo e executou uma senhora pesquisa para  desvendar a aurora das editoras. E correndo contra o tempo, já que como bem disse Stan Lee, muitos dos que testemunharam esse início já beiravam idades avançadas, respeitáveis senhores octogenários, nonagenários e até centenários que poderiam levar muita informação para o túmulo.

Mas Gerard Jones conseguiu fazer uma excelente reconstituição da cena do crime em seu livro “Homens do Amanhã”. Mesmo abordando a história até praticamente os anos 00, a foco principal é entre os anos 30 e 50. Para contar a gênese dessa indústria bilionária, o fio condutor da narrativa é um assunto até hoje espinhoso no meio editorial: a luta pelos direitos do personagem Super-Homem, o primeiro super-herói e fulcro de uma das maiores editoras do gênero, a atual DC Comics, que faz parte do conglomerado AOL-Time-Warner. Originalmente criado por dois jovens judeus, Jerry Siegel e Joe Shuster, o personagem rendeu uma fortuna aos editores da DC, enquanto os criadores lutavam por migalhas na justiça.  Partindo de um manifesto à imprensa escrito por Siegel nos anos 70, quando ele e seu colega mal ganhavam o suficiente para se manter enquanto a Time-Warner se preparava para produzir “Superman-O Filme”, Gerard volta bem no passado, para contextualizar a história, tecendo detalhes sobre a geração de judeus imigrantes que tomou de assalto os bairros pobres das grandes cidades americanas. Isso é importante, pois os grandes criadores, desenhistas e editores que viriam a ser tornarem famosos eram, em sua grande maioria, da geração de judeus que se estabeleceu nos States naqueles anos difíceis. E ao reconstituir a história de muitos desses personagens, se descobre detalhes absurdos, bizarros e por vezes nem um pouco lisonjeiro à “lenda pessoal” de muitos desses ícones.

O absurdo maior é saber que o alicerce das editoras e distribuidoras de quadrinhos que se tornaram gigantes editoriais foi cimentado com pornografia, literatura apelativa, contrabando de bebidas, financiamento do crime organizado, tapetão financeiro em sócios ou proprietários de empresas menores, processos judiciais por acusação de plágio ou pura e simplesmente pilantragem e safadeza. Não era incomum um dos fundadores da futura DC, Harry Donenfeld, estar associado a figuras como os gangsteres Frank Costello ou Luck Luciano. E era prática notória um empresário fazer pressão indireta em um concorrente através de seus credores, até que quebre e seja obrigado a vender seu negócio.

Do outro lado dessa equação estava um grupo de jovens socialmente desajustados cujo maior interesse comum eram as histórias de ficção científica de revistas como “Amazing Stories”., que criaram os primeiros “famdom’s”. Eles eram o que poderia se chamar de “nerds” ou “geeks”, caso os termos existissem naqueles tempos. Essa força criativa e jovem se tornou a mão-de-obra  necessária às editoras, quando surgiu o promissor negócio de quadrinhos de super-heróis, e essa rapaziada devidamente influenciada pela literatura fantástica e as pulp magazine dos anos 30 começou a criar os heróis da chamada “Era de Ouro” dos quadrinhos, sendo o divisor e águas um personagem diversas vezes recusado e aproveitado quase que de improviso para protagonizar a revista “Action Comics” 1, um tal de Super-Homem. Depois de seu sucesso, uma enxurrada de super-heróis com superpoderes encheu as revistinhas, que eram vendidas aos milhões.
Enquanto desenha um retrato dessa época inicial do mundo dos super-heróis, Jones começa a destrinchar também a personalidade de alguns de seus criadores. Se Joe Shuster e Jerry Siegel eram tímidos e de uma ingenuidade enorme, outros como Bill Kane tinham malandragem de sobra. Este costumava terceirizar boa parte de seu trabalho a artistas anônimos, recebendo o crédito por todo o trabalho. O próprio Bill Finger, co-criador do Batman, em vida nunca recebeu o devido reconhecimento por sua participação nas histórias iniciais do Homem-Morcego. Kane também usou das armas que seus patrões costumavam usar, forçando a DC a renegociar seu contrato sob a alegação de que era de menor quando o assinara. Outros personagens foram pintados com tintas fortes, como Jack Liebowitz, o manda-chuva da DC durante décadas, responsável por dar um verniz sério e respeitável ao empreendimento e de manter com mão de ferro os direitos sobre os personagens criados para a editora. Mort Weisinger é visto como um manipulador, carrasco de seus subalternos e um malandro capaz de queimar o próprio amigo para lhe tomar uma função.

Gerard Jones acompanha com lupa esta indústria, desde o seu nascimento, passando pela II Guerra Mundial e o surgimento de revistas de Terror e Policiais, que temporariamente desbancaram os Super-Heróis da preferência popular até que a paranóia dos anos 50 trouxesse à tona as teorias do psicólogo Fredric Wertham e a sua “Sedução do Inocente”, colocando os quadrinhos nos bancos dos réus. Testemunha também surgir uma nova geração de super-heróis anos depois, tanto na DC quanto na concorrência, principalmente os que saem da mente de um rapaz que estava meio que por acaso nessas editoras e que atendia pelo nome de Stanley Lieber, mas que assinava suas criações como Stan Lee. O mercado muda, e o que era uma empresa fechada e familiar abre seu capital, e em poucos anos a DC se torna parte do grupo Time-Warner, chegando dessa maneira os nossos dias e sobrevivendo à perseguição de “especialistas” que insistiam que quadrinhos tornam os jovens mais tapados ou criminosos. Nesse ínterim, Siegel e Shuster processam a DC várias vezes, mas sem sucesso, até que o apelo mencionado no início do livro acaba caindo no conhecimento público, o que causa um certo alvoroço e trás algum resultado positivo, por pressão de muitos profissionais do ramo e do próprio público. Mas mesmo isso não conseguiu dar uma definição ao termo, e até hoje os herdeiros dos criadores do Homem de Aço ainda lutam na justiça contra a DC para reaver os direitos sobre um personagem mundialmente conhecido e que rendeu uma imensa fortuna aos donos de seus direitos nessas décadas todas. Decisões recentes favoreceram a esposa e filha do finado Siegel, mas ainda há muita água para correr sob a ponte.

Esse livro foi lançado no Brasil pela Conrad em 2006, mas acabei só lendo-o há poucas semanas. Em parte por desconhecer o tema abordado até pouco tempo, não obstante o título “Homens do Amanhã” ser uma alusão a um dos primeiros apelidos do personagem Super-Homem. Porém, boa parte dessa culpa eu posso atribuir à capa do livro. Alguém poderia me fazer a gentileza de explicar a relação dessa capa com o tema? Tudo bem que a capa da edição americana não é exatamente um primor, mas está diretamente relacionada ao assunto do livro. Imagino quantos leitores este livro ainda não tem devido a esta capa, digamos, equivocada…

(o resto desse artigo sai amanhã, para vocês não se empanturrarem com tanta informação)

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Steampunk – Histórias de um Passado Extraordinário

Steampunk seria uma variação em cima do gênero de ficção científica Cyberpunk. Ah, tá, em o que cazzo é cyberpunk? A pergunta é a sério mesmo? Bem, leiam “Neuromancer”, assistam a “Matrix”, vão a Wikipédia e estamos conversados. Grosso modo, o Steampunk é um movimento literário de ficção científica com histórias e temáticas ambientadas entre o século XIX e XX, adotando avanços tecnológicos compatíveis com a tecnologia então disponível, predominantemente as máquinas a vapor (daí o termo “steam”, vapor em inglês) e elétricas. O exemplo mais óbvio seriam as histórias de Júlio Verne, que com certeza inspiram a estética desse movimento. Mais sobre esse gênero e estética nessa matéria do Gurias Nerd e no próprio site brazuca Steampunk. Em suma, a estética e temática Steampunk dá muito pano pra manga, principalmente ao se usar a história como pano de fundo ou personagens reais e ficcionais desta época, algo bem fascinante.

Curioso, soube há algum tempo que a editora Tarja lançou uma coletânea de contos sobre a temática Steampunk só com autores brazucas, e na medida do possível adquiri a coletânea. “Na medida do possível” porque, por ser lançamento de uma editora menor, não foi fácil encontrar um exemplar em lojas físicas, e tive que apelar para as poucas lojas on-line que dispunham de algum exemplar para venda. E, cá entre nós, achei um pouco salgado o valor de praticamente 40 paus para um livro de menos de 180 páginas. Mas imagino que se deva a uma tiragem menor e as próprias condições de uma editora que não seja uma das grandes do mercado nacional.

Mas isso é detalhe. Vamos ao que interessa. A proposta do livro da Tarja Editorial foi a de reunir contos de autores nacionais, que obviamente procuraram ambientar suas histórias e protagonistas com o tempero brasileiro, seja usando figuras históricas nacionais ou personagens de nossa ficção, um exercício de imaginação deveras interessante. Como uma coletânea de vários autores, o resultado é um tanto irregular, mas não deixo de registrar que o saldo é, de longe, positivo.

O primeiro conto, “Assalto ao Trem Pagador”, mostra uma Londres dominada por avanços tecnológicos promovidos por institutos de tecnologia como o Bartolomeu de Gusmão, de onde vem o engenheiro Claudio, que se une a colegas estrangeiros em uma trama envolvendo sociedades secretas, conspirações e a unificação da Alemanha em fins do século XIX. A narrativa talvez não tenha fluído tão bem porque, além de uma história curta, o autor se preocupou bastante em detalhar os aspectos técnicos do conto.

O segundo conto tem como protagonista o “Prometeu Moderno”  Vickor Frankeinstein, que aqui se dedica a criar autômatos mecânicos após fracassadas tentativas em suas experiências com corpos humanos, tendo sucesso em mudar os rumos da humanidade ao criar uma geração de autômatos, que se tornam parte da sociedade moderna e protagonizam crises, guerras de classe, batalhas corporativas e conflitos bélicos ao lado ou contra os humanos na aurora do século XX. Usa o velho arquétipo da criatura contra o criador, mas tem mérito por encaixar essa situação em um contexto histórico, inclusive utilizando personagens reais como Charles Darwin e Karl Marx. O tema de máquinas pensantes e um conflito com humanos é retomado com algum lirismo em outro conto da coletânea, “Uma Vida Possível Atrás das Barricadas”.

Em a “Flor do Estrume”, se percebe um esforço por parte do autor em emular o texto típico dos escritores realistas do século XIX, como Machado de Assis, até porque o narrador e protagonista é Brás Cubas, tendo como coadjuvante de luxo o personagem Quincas Borba com toda a sua filosofia Humanística. Ambos são convidados a participar de um empreendimento medicinal avançado que estaria criando o primeiro antibiótico, e em terras brazucas. É uma experiência literária rica e divertida pela mistura de Realismo Literário com ficção científica.

“A Música das Esferas” é uma movimentada aventura passada na capital nacional no início do século XX envolvendo dois jovens amigos: o jornalista Eduardo e o jovem Adriano, uma espécie de nerd vitoriano que se dedica aos estudos da engenharia à contragosto da família, que deseja vê-lo advogado. Ambos se vêem envolvidos em uma investigação sobre a morte de um cientista e o risco potencial de um de seus inventos.

“O Plano de Robida: Un Voyage Extraordinaire” narra o encontro de um oficial brasileiro que, ao lado de Santos Dumont, se vê prisioneiro de um vilão aos moldes de Róbur, do Julio Verne. No caso Robida, de posse de tecnologia roubada da civilização atlante, ataca o império brasileiro com pretensões megalomaniacas. Pela sua brevidade é a história com mais gosto de “quero mais” de toda coletânea.

“O Dobrão de Prata” é mais um conto de terror envolvendo um professor ambicioso que contrata marinheiros para buscar um tesouro submerso no mar. “Cidade Phantástica” é um conto de ação e aventura, tendo como protagonista um agente da Polícia dos Caminhos de Ferro, João fumaça, bom com as palavras e com as armas, misturando elementos de faroeste e Julio Verne com personagens tirados de outras obras, como um casal saído direto de um dos contos de Sherlock Holmes, “A Ponte Thor”, tendo como vilões um personagem de Julio Verne e um vilão da literatura romântica brasileira, que conspiram para criar uma poderosa arma.

O conto que fecha a coletânea mostra um mundo onde a Inglaterra e França combatem em uma versão vitoriana da “Guerra Fria”, e suas maiores armas são as aeronaves de Rúbor e os submarinos de Nemo. A história mostra o que poderia ser o derradeiro confronto entre estes dois monstros da literatura, crias de Julio Verne, em um universo de eventos bem diverso.

Para os que queiram entrar e conhecer este universo ficcional, recomendo a leitura desse pequeno livro. E, coincidentemente, descobri por acaso que outro livro com proposta similar está para ser lançado por outra editora, a Draco. Na melhor oportunidade conferirei, com certeza.

Nota: Acabei editando o texto original porque, alertado por Romeu Martins,   autor de um dos contos, andei dando “spoilers” que poderiam estragar o prazer da leitura de seu conto. Acho que acabei me entusiasmando na resenha. Peço desculpas aos que já leram, mas como diria FHC, tentem esquecer o que eu escrevi :)

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