Ração de Traça

Livros que caem no balcão dessa blodega e que podem render um bom papo no recinto

Histórias dos Quadrinhos que Não estão no Gibi – Parte 1

Quem realmente curte história em quadrinhos e os acompanha há um bom tempo conhece, por vias diretas ou indiretas, alguns aspectos e detalhes do mundo editorial, de como esta arte evoluiu ao longo das décadas, deixando de ser diversão descartável para adquirir status de arte respeitável. Mas para aqueles que não conhecem a história ou são curiosos por mais detalhes sórdidos, por assim dizer, há bons livros no mercado que abordam competentemente o tema. Destaco dois títulos em especial, os quais já li, mesmo que tardiamente, mas que poderia rotular de “obrigatórios” para todo amante da arte sequencial que quer se aprofundar mais no assunto.

Primeiro, falemos da origem de tudo, que é os Estados unidos, onde a indústria dos quadrinhos se tornou uma peça importante na bilionária estrutura dos conglomerados que produzem entretenimento. O ex-roteirista de quadrinhos Gerard Jones caiu em campo e executou uma senhora pesquisa para  desvendar a aurora das editoras. E correndo contra o tempo, já que como bem disse Stan Lee, muitos dos que testemunharam esse início já beiravam idades avançadas, respeitáveis senhores octogenários, nonagenários e até centenários que poderiam levar muita informação para o túmulo.

Mas Gerard Jones conseguiu fazer uma excelente reconstituição da cena do crime em seu livro “Homens do Amanhã”. Mesmo abordando a história até praticamente os anos 00, a foco principal é entre os anos 30 e 50. Para contar a gênese dessa indústria bilionária, o fio condutor da narrativa é um assunto até hoje espinhoso no meio editorial: a luta pelos direitos do personagem Super-Homem, o primeiro super-herói e fulcro de uma das maiores editoras do gênero, a atual DC Comics, que faz parte do conglomerado AOL-Time-Warner. Originalmente criado por dois jovens judeus, Jerry Siegel e Joe Shuster, o personagem rendeu uma fortuna aos editores da DC, enquanto os criadores lutavam por migalhas na justiça.  Partindo de um manifesto à imprensa escrito por Siegel nos anos 70, quando ele e seu colega mal ganhavam o suficiente para se manter enquanto a Time-Warner se preparava para produzir “Superman-O Filme”, Gerard volta bem no passado, para contextualizar a história, tecendo detalhes sobre a geração de judeus imigrantes que tomou de assalto os bairros pobres das grandes cidades americanas. Isso é importante, pois os grandes criadores, desenhistas e editores que viriam a se tornar famosos eram, em sua grande maioria, da geração de judeus que se estabeleceu nos States naqueles anos difíceis. E ao reconstituir a história de muitos desses personagens, se descobre detalhes absurdos, bizarros e por vezes nem um pouco lisonjeiro à “lenda pessoal” de muitos desses ícones.

O absurdo maior é saber que o alicerce das editoras e distribuidoras de quadrinhos que se tornaram gigantes editoriais foi cimentado com pornografia, literatura apelativa, contrabando de bebidas, financiamento do crime organizado, tapetão financeiro em sócios ou proprietários de empresas menores, processos judiciais por acusação de plágio ou pura e simplesmente pilantragem e safadeza. Não era incomum um dos fundadores da futura DC, Harry Donenfeld, estar associado a figuras como os gangsteres Frank Costello ou Luck Luciano. E era prática notória um empresário fazer pressão indireta em um concorrente através de seus credores, até que quebre e seja obrigado a vender seu negócio.

Do outro lado dessa equação estava um grupo de jovens socialmente desajustados cujo maior interesse comum eram as histórias de ficção científica de revistas como “Amazing Stories”., que criaram os primeiros “famdom’s”. Eles eram o que poderia se chamar de “nerds” ou “geeks”, caso os termos existissem naqueles tempos. Essa força criativa e jovem se tornou a mão-de-obra  necessária às editoras, quando surgiu o promissor negócio de quadrinhos de super-heróis, e essa rapaziada devidamente influenciada pela literatura fantástica e as pulp magazine dos anos 30 começou a criar os heróis da chamada “Era de Ouro” dos quadrinhos, sendo o divisor e águas um personagem diversas vezes recusado e aproveitado quase que de improviso para protagonizar a revista “Action Comics” 1, um tal de Super-Homem. Depois de seu sucesso, uma enxurrada de super-heróis com superpoderes encheu as revistinhas, que eram vendidas aos milhões.
Enquanto desenha um retrato dessa época inicial do mundo dos super-heróis, Jones começa a destrinchar também a personalidade de alguns de seus criadores. Se Joe Shuster e Jerry Siegel eram tímidos e de uma ingenuidade enorme, outros como Bill Kane tinham malandragem de sobra. Este costumava terceirizar boa parte de seu trabalho a artistas anônimos, recebendo o crédito por todo o trabalho. O próprio Bill Finger, co-criador do Batman, em vida nunca recebeu o devido reconhecimento por sua participação nas histórias iniciais do Homem-Morcego. Kane também usou das armas que seus patrões costumavam usar, forçando a DC a renegociar seu contrato sob a alegação de que era de menor quando o assinara. Outros personagens foram pintados com tintas fortes, como Jack Liebowitz, o manda-chuva da DC durante décadas, responsável por dar um verniz sério e respeitável ao empreendimento e de manter com mão de ferro os direitos sobre os personagens criados para a editora. Mort Weisinger é visto como um manipulador, carrasco de seus subalternos e um malandro capaz de queimar o próprio amigo para lhe tomar uma função.

Gerard Jones acompanha com lupa esta indústria, desde o seu nascimento, passando pela II Guerra Mundial e o surgimento de revistas de Terror e Policiais, que temporariamente desbancaram os Super-Heróis da preferência popular até que a paranóia dos anos 50 trouxesse à tona as teorias do psicólogo Fredric Wertham e a sua “Sedução do Inocente”, colocando os quadrinhos nos bancos dos réus. Testemunha também surgir uma nova geração de super-heróis anos depois, tanto na DC quanto na concorrência, principalmente os que saem da mente de um rapaz que estava meio que por acaso nessas editoras e que atendia pelo nome de Stanley Lieber, mas que assinava suas criações como Stan Lee. O mercado muda, e o que era uma empresa fechada e familiar abre seu capital, e em poucos anos a DC se torna parte do grupo Time-Warner, chegando dessa maneira os nossos dias e sobrevivendo à perseguição de “especialistas” que insistiam que quadrinhos tornam os jovens mais tapados ou criminosos. Nesse ínterim, Siegel e Shuster processam a DC várias vezes, mas sem sucesso, até que o apelo mencionado no início do livro acaba caindo no conhecimento público, o que causa um certo alvoroço e trás algum resultado positivo, por pressão de muitos profissionais do ramo e do próprio público. Mas mesmo isso não conseguiu dar uma definição ao termo, e até hoje os herdeiros dos criadores do Homem de Aço ainda lutam na justiça contra a DC para reaver os direitos sobre um personagem mundialmente conhecido e que rendeu uma imensa fortuna aos donos de seus direitos nessas décadas todas. Decisões recentes favoreceram a esposa e filha do finado Siegel, mas ainda há muita água para correr sob a ponte.

Esse livro foi lançado no Brasil pela Conrad em 2006, mas acabei só lendo-o há poucas semanas. Em parte por desconhecer o tema abordado até pouco tempo, não obstante o título “Homens do Amanhã” ser uma alusão a um dos primeiros apelidos do personagem Super-Homem. Porém, boa parte dessa culpa eu posso atribuir à capa do livro. Alguém poderia me fazer a gentileza de explicar a relação dessa capa com o tema? Tudo bem que a capa da edição americana não é exatamente um primor, mas está diretamente relacionada ao assunto do livro. Imagino quantos leitores este livro ainda não tem devido a esta capa, digamos, equivocada…

(o resto desse artigo sai amanhã, para vocês não se empanturrarem com tanta informação)

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Steampunk – Histórias de um Passado Extraordinário

Steampunk seria uma variação em cima do gênero de ficção científica Cyberpunk. Ah, tá, em o que cazzo é cyberpunk? A pergunta é a sério mesmo? Bem, leiam “Neuromancer”, assistam a “Matrix”, vão a Wikipédia e estamos conversados. Grosso modo, o Steampunk é um movimento literário de ficção científica com histórias e temáticas ambientadas entre o século XIX e XX, adotando avanços tecnológicos compatíveis com a tecnologia então disponível, predominantemente as máquinas a vapor (daí o termo “steam”, vapor em inglês) e elétricas. O exemplo mais óbvio seriam as histórias de Júlio Verne, que com certeza inspiram a estética desse movimento. Mais sobre esse gênero e estética nessa matéria do Gurias Nerd e no próprio site brazuca Steampunk. Em suma, a estética e temática Steampunk dá muito pano pra manga, principalmente ao se usar a história como pano de fundo ou personagens reais e ficcionais desta época, algo bem fascinante.

Curioso, soube há algum tempo que a editora Tarja lançou uma coletânea de contos sobre a temática Steampunk só com autores brazucas, e na medida do possível adquiri a coletânea. “Na medida do possível” porque, por ser lançamento de uma editora menor, não foi fácil encontrar um exemplar em lojas físicas, e tive que apelar para as poucas lojas on-line que dispunham de algum exemplar para venda. E, cá entre nós, achei um pouco salgado o valor de praticamente 40 paus para um livro de menos de 180 páginas. Mas imagino que se deva a uma tiragem menor e as próprias condições de uma editora que não seja uma das grandes do mercado nacional.

Mas isso é detalhe. Vamos ao que interessa. A proposta do livro da Tarja Editorial foi a de reunir contos de autores nacionais, que obviamente procuraram ambientar suas histórias e protagonistas com o tempero brasileiro, seja usando figuras históricas nacionais ou personagens de nossa ficção, um exercício de imaginação deveras interessante. Como uma coletânea de vários autores, o resultado é um tanto irregular, mas não deixo de registrar que o saldo é, de longe, positivo.

O primeiro conto, “Assalto ao Trem Pagador”, mostra uma Londres dominada por avanços tecnológicos promovidos por institutos de tecnologia como o Bartolomeu de Gusmão, de onde vem o engenheiro Claudio, que se une a colegas estrangeiros em uma trama envolvendo sociedades secretas, conspirações e a unificação da Alemanha em fins do século XIX. A narrativa talvez não tenha fluído tão bem porque, além de uma história curta, o autor se preocupou bastante em detalhar os aspectos técnicos do conto.

O segundo conto tem como protagonista o “Prometeu Moderno”  Vickor Frankeinstein, que aqui se dedica a criar autômatos mecânicos após fracassadas tentativas em suas experiências com corpos humanos, tendo sucesso em mudar os rumos da humanidade ao criar uma geração de autômatos, que se tornam parte da sociedade moderna e protagonizam crises, guerras de classe, batalhas corporativas e conflitos bélicos ao lado ou contra os humanos na aurora do século XX. Usa o velho arquétipo da criatura contra o criador, mas tem mérito por encaixar essa situação em um contexto histórico, inclusive utilizando personagens reais como Charles Darwin e Karl Marx. O tema de máquinas pensantes e um conflito com humanos é retomado com algum lirismo em outro conto da coletânea, “Uma Vida Possível Atrás das Barricadas”.

Em a “Flor do Estrume”, se percebe um esforço por parte do autor em emular o texto típico dos escritores realistas do século XIX, como Machado de Assis, até porque o narrador e protagonista é Brás Cubas, tendo como coadjuvante de luxo o personagem Quincas Borba com toda a sua filosofia Humanística. Ambos são convidados a participar de um empreendimento medicinal avançado que estaria criando o primeiro antibiótico, e em terras brazucas. É uma experiência literária rica e divertida pela mistura de Realismo Literário com ficção científica.

“A Música das Esferas” é uma movimentada aventura passada na capital nacional no início do século XX envolvendo dois jovens amigos: o jornalista Eduardo e o jovem Adriano, uma espécie de nerd vitoriano que se dedica aos estudos da engenharia à contragosto da família, que deseja vê-lo advogado. Ambos se vêem envolvidos em uma investigação sobre a morte de um cientista e o risco potencial de um de seus inventos.

“O Plano de Robida: Un Voyage Extraordinaire” narra o encontro de um oficial brasileiro que, ao lado de Santos Dumont, se vê prisioneiro de um vilão aos moldes de Róbur, do Julio Verne. No caso Robida, de posse de tecnologia roubada da civilização atlante, ataca o império brasileiro com pretensões megalomaniacas. Pela sua brevidade é a história com mais gosto de “quero mais” de toda coletânea.

“O Dobrão de Prata” é mais um conto de terror envolvendo um professor ambicioso que contrata marinheiros para buscar um tesouro submerso no mar. “Cidade Phantástica” é um conto de ação e aventura, tendo como protagonista um agente da Polícia dos Caminhos de Ferro, João fumaça, bom com as palavras e com as armas, misturando elementos de faroeste e Julio Verne com personagens tirados de outras obras, como um casal saído direto de um dos contos de Sherlock Holmes, “A Ponte Thor”, tendo como vilões um personagem de Julio Verne e um vilão da literatura romântica brasileira, que conspiram para criar uma poderosa arma.

O conto que fecha a coletânea mostra um mundo onde a Inglaterra e França combatem em uma versão vitoriana da “Guerra Fria”, e suas maiores armas são as aeronaves de Rúbor e os submarinos de Nemo. A história mostra o que poderia ser o derradeiro confronto entre estes dois monstros da literatura, crias de Julio Verne, em um universo de eventos bem diverso.

Para os que queiram entrar e conhecer este universo ficcional, recomendo a leitura desse pequeno livro. E, coincidentemente, descobri por acaso que outro livro com proposta similar está para ser lançado por outra editora, a Draco. Na melhor oportunidade conferirei, com certeza.

Nota: Acabei editando o texto original porque, alertado por Romeu Martins,   autor de um dos contos, andei dando “spoilers” que poderiam estragar o prazer da leitura de seu conto. Acho que acabei me entusiasmando na resenha. Peço desculpas aos que já leram, mas como diria FHC, tentem esquecer o que eu escrevi :)

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Como um Bando de Porra-Louca Salvou Hollywood do Buraco

Se você não estava no último fim-de-semana enchendo a cara de cerveja ao som de SteppenWolf com certeza ouviu dizer que o velho ator Dennis Hopper morreu vitimado pelo câncer de próstata, o que não deixa de ser uma piada cósmica, considerando seu histórico de bebedeiras, abusos com drogas, pés na jaca envolvendo violência doméstica e armas de fogo, coisinhas  miúdas que poderiam ter feito o serviço sujo décadas antes. Mas esqueçamos as ironias, pois não deixa de ser de um simbolismo triste sua morte neste momento no qual tanto se fala sobre a (falta de) qualidade do cinema americano, pois ele foi um dos responsáveis pelo divisor de águas na história de Hollywood com o filme “Sem Destino”, que inaugurou uma era do cinema americano que é considerada a mais fértil artisticamente falando. Esse período criativo da indústria de entretenimento americana é tema do livro “Easy Riders, Raging Bulls”, do jornalista Peter Biskind. Na época que foi lançado, lá pelos idos de 1998, a revista “Set” fez uma ótima matéria sobre este período retratado pelo livro, mas ele permaneceu inédito em português por muito tempo e só saiu no fim do ano passado com o título “Como a Geração Sexo, Drogas e Rock’N'Roll Salvou Hollywood”, e imediatamente o adquiri e o li de forma viciante. Na verdade eu pretendia escrever esse texto há meses, mas foi preciso alguém morrer para que eu tomasse uma atitude. Valeu, Dennis Hopper! Agora senta que lá vem história!

Apesar de “Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas” ser citado como o primeiro filme que indicou o caminho que a Meca do Cinema seguiria na década seguinte, o que realmente é o marco inicial é o filme “Sem Destino”, com Peter Fonda, Dennis Hopper e Jack Nicholson, que foi produzido e filmado por um bando de porra-loucas, dirigido pelo próprio Dennis Hopper, custado uma ninharia e rendido uma grana preta de retorno para uma produtora independente – a BBS de Bert Schneider, Bob Rafelson e Steve Blaumer. E veio em boa hora, já que o velho sistema de estúdios de Hollywood agonizava desde o pós-guerra e no fim dos anos 60 teve a pior arrecadação de sua história. Grandes empresas estavam comprando os estúdios e tentando transformar aquilo num negócio puramente rentável. Mas para surpresa das raposas velhas dos estúdios e dos novos executivos, a porralouquice parecia ser lucrativa, e o sangue novo que estava surgindo mostrou o novo caminho para que o público voltasse a lotar as salas de cinema, e ainda por cima produzindo obras de qualidade artística comparável ao que o cinema europeu e seu “cinema de autor” já fazia. Foi uma época que os diretores, antes meros funcionários pau-mandados dos donos de estúdio e produtores, tomaram o poder em suas mãos e conseguiram por em prática suas ideias, sonhos, visões e conceitos. E, de acordo com Peter Biskind e muitos cinéfilos, foi a época mais criativa do cinema americano, quando o cinema mainstream produzia filmes de inegável qualidade artística e com retorno de bilheteria, o melhor de dois mundos. Esse paraíso na terra dos cinéfilos teve seu alfa e ômega: os filmes “Sem Destino” e “Touro Indomável”, daí o título do livro – “Easy Riders, Raging Bulls”. E é esse período entre 1969 e 1980 que Peter Biskind explora com riqueza de detalhes, dando nomes aos bois envolvidos, sejam eles atores, roteiristas, diretores, produtores ou críticos.

Nos anos 70, os diretores novos invadiram à força o território dos produtores e tiveram respaldo devido à recepção do público e elogios da crítica, sendo a renomada crítica Pauline Kael a maior divulgadora e defensora desse novo movimento junto à imprensa, movimento este que trouxe diretores como Martin Scorcese, Francis Ford Copolla, William Friedkin, Peter Bogdanovich, Roman Polansky, Michael Cimino, Robert Altman, Mike Nichols e John Boorman, todos com total liberdade criativa e financeira.

Mas a pesquisa e narrativa de Biskind não se resume à trajetórias artísticas e detalhes de produção, pois suas entrevistas e pesquisas trouxeram à tona um mosaico comportamental daqueles tempos da “Nova Hollywood”. Em suma, o subtítulo “Geração Sexo, Drogas e Rock’N'Roll…” é devidamente justificado. E tal crônica não poupa ninguém e não deixa nenhum esqueleto quieto nos armários. O lado negro é mostrado sem muito pudor, e o que se conclui após se ler este livro é que praticamente todos os envolvidos tinham algum vício em drogas, alguma perversão sexual mal resolvida, um ego maior que a tela de cinema IMAX, algum episódio de infidelidade conjugal ou era simplesmente um grande filho da puta. E quando falo todos, isso inclui atores, produtores, roteiristas e o escambau. Só faltou o lanterninha e o pipoqueiro. E muitos preenchiam todos estes requisitos simultaneamente. A grande maioria era viciada em cocaína, maconha ou alguma outra droga sintética, e pelo que lemos podemos concluir que só Hollywood deve ter sido responsável por triplicar o PIB colombiano devido ao seu consumo de pó nos anos 70. O que poderia ser um exercício de mero sensacionalismo é bem embasado, já que ele deixa bem claro quando as versões de um mesmo fato narrado pelos envolvidos não bate.

Os únicos que são poupados neste aspecto são George Lucas e Steven Spielberg, que são mostrados como nerds, na pior acepção da palavra. Mas especificamente Lucas, que é “acusado” de ter “traído o movimento” para se tornar um cineasta meramente comercial, alguém que sucumbiu ao lado negro da força. E sobra para a então esposa de Spielberg, Amy Irving, descrita como manipuladora e interesseira.

Mas nem tudo são flores. Com tanta liberdade, dinheiro, ego e pó, muitos diretores acabaram se excedendo e cometendo desvarios e absurdos em nome de seu “cinema autoral”. Ao lado de sucessos como “Operação França”, “O Exorcista”, “O Franco Atirador”, “A Última Sessão de Cinema”, “Amargo Pesadelo” ou “Chinatown”, surgiram muitos filmes que não deram em nada ou se tornaram fracassos retumbantes. O próprio Dennis Hopper, embriagado pelo sucesso de “Sem Destino”, embarcou em um projeto pessoal no filme “The Last Movie”, que foi um total fracasso, não obstante ter ganho o Premio da Crítica no Festival de Veneza. Outros diretores com o ego – e narizes – inflados cometeram seus filmes que, por excessos e preciosismos, acabavam estourando o orçamento e nem sempre recuperavam o investimento, e quase sempre causava úlcera nos produtores. Friedkin, após o sucesso de “O Exorcista” e “Operação França”, resolveu refilmar o filme francês “O Salário do Medo” como “O Comboio do Medo”, decuplicando o orçamento e dando com os burros n’água. Francis Ford Copolla decide transpor a história de “O Coração das Trevas” para a Guerra do Vietnã, filmando em plena selva das Filipinas na época das chuvas e torturando a equipe com suas megalomanias, o que custou meses de filmagem, uma fortuna para manter a logística e reconstruir cenários destruídos por furacões, além de um ataque cardíaco em Martin Sheen antes de “Apocalipse Now” ficar concluído. Tais fracassos serviram apenas como munição para os executivos tomarem o poder nas suas mãos mais uma vez, e a gota d’água foi “O Portal do Paraíso”, de Michael Cimino, que conseguiu a proeza de levar o orçamento para 44 milhões para uma bilheteria de um pouco mais de um milhão de doletas, o que deixou a United Artists no buraco e a levou à falência. Neste mesmo ano Scorcese lançou “Touro Indomável”, que também foi um fracasso de público e tirou toda a credibilidade do diretor junto à indústria. O resumo desta orgia foi que muitos diretores se queimaram e alguns levaram anos para se recuperar, enquanto outros jamais voltaram a ter a mesma credibilidade. Alguns tiveram que se “vender”, associando seu nome a projetos sem tanto valor artístico para voltarem à direção. Alguns ainda esperam a chance de produzir sua obra definitiva.

Nesse meio tempo os dois “nerds” acabaram se tornando os responsáveis pelo cinema americano como conhecemos hoje. Enquanto Lucas estava associado a Copolla e aguardando uma chance na produtora malsucedida Zootrope, o sucesso lhe chegou após “Loucuras de Verão”, e “Guerra nas Estrelas”, que trouxe novidades como o licenciamento de produtos e a participação nos lucros. A contribuição de Spielberg foi com “Tubarão”, que se tornou o primeiro filme a usar a publicidade na TV em larga escala, algo impensável anos antes. Após estes filmes, a indústria mudou consideravelmente. Se antes os filmes eram lançados aos poucos, com temporadas curtas em cada local, levando-se semanas ou meses para se aferir o verdadeiro retorno do filme, se tornou praxe o lançamento simultâneo em larga escala, por vezes mundial, com a estreia em uma sexta-feira muitas vezes selando o destino do filme e mostrando se ele será um sucesso ou fracasso. Nasciam os blockbusters.

Com os executivos novamente dando as cartas, a indústria de cinema americana foi se tornando apenas uma fábrica de sucessos com retorno garantido sem muita prioridade para os aspectos mais artísticos. Roteiros são modificados apenas para se vender mais produtos licenciados, diretores seguem fórmulas prontas e produtores enchem filmes com efeitos mirabolantes e cenas de ação. Até mesmo o segmento do cinema independente que se mantém até hoje se tornou sinônimo de filmes cult para um público mais restrito,e até estes costumam seguir fórmulas. Hoje diretores talentosos que conseguem levar seus projetos adiante são raros, uma espécie de exceção que comprova a regra. E a cada ano que se passa o orçamento dos filmes se multiplica, já que envolvem pesados esquemas de divulgação e gastos com caríssimos efeitos especiais e digitais de última geração. O autor do livro o conclui com uma nota melancólica sobre estes novos tempos e sobre o destino de muitos dos responsáveis pela revolução artística dos anos 70, pontuando tudo com a descrição dos últimos dias do diretor Hal Ashby.

Considerando que este livro foi escrito no fim dos anos 90, podemos avaliar que hoje a indústria ainda está pior, pois nunca antes se adaptou ou se reaproveitou tanto material antigo, denotando uma óbvia falta de vontade de se apostar no criativo e no novo, se preferindo investir na nova onda salvadora da indústria, o 3D digital. Os lucros podem até estar nas nuvens, mas há o prenúncio de uma crise de criatividade forte, além do desafio de se lidar com a pirataria digital e a distribuição de filmes via Internet. Ler esse livro pode dar uma ideia de como as coisas chegaram a este ponto, e recomendo enfaticamente a qualquer um que goste de cinema.

Um adendo: Há um documentário baseado neste livro que foi lançado em 2003. Não sei se já passou em algum canal por assinatura da TV brasileira, mas seu DVD não chegou ainda por estas terrinhas.

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História do Brasil Para Politicamente Incorretos

Não acredite em tudo que você lê na escola…

Há uma frase creditada ao baixinho do Napoleão Bonaparte sobre a história, que seria uma série de mentiras sobre as quais se chegou a um acordo, ao menos segundo o general que eternizou aquela posição comprometedora para se perder uma guerra. Além da história ser contada pelos vencedores, como se costuma dizer, nem sempre a objetividade aos fatos é seguida, e muitas vezes o autor se deixa levar por aspectos diversos, como o ideológico, distorcendo tais fatos, ou no afã de elevar a ícones e criar uma identidade cultural para uma nação emergente o historiador doura por demais a pílula e maquia os fatos de tal maneira que a história parece romance barato ou roteiro de filme. Washington Irving que o diga…

Além disso tudo, o ensino de história aqui no Brasil ainda tem outros fatores que o torna meio complicado. A maioria dos alunos pouco se fode para aprender essa matéria, seja pela alegada inutilidade de tal conhecimento para a vida prática e profissional ou pelo pouco apelo das aulas, muitas vezes ministradas de forma burocrática por professores mal remunerados e desatualizados.

Na minha vida escolar vivi dois momentos do ensino de história – sim, estou ficando velho, porra! Nos meus primeiros anos de achatamento glúteo em bancos escolares o regime militar ainda queimava as últimas pontas, e o padrão de ensino de história, geografia e educação moral e cívica (sim, tinha esta porra)  era mostrar um Brasil grande, ufanista e que vai para frente. E no caso específico de História, os fatos e personagens eram retratados da forma mais heroica, patriótica e poética possível – mais alguém aí ainda se lembra dos posteres com os “Vultos da Pátria”? Infelizmente naqueles anos finais do governo do General Figueiredo, quase ninguém mais levava esta imagem a sério, e o ufanismo do governo militar estava mais próximo de uma caricatura canhestra do que da verdade. Daí que nos anos da abertura política houve uma gradual mudança no modo como os fatos históricos eram ensinados, questionando-se a imagem perfeita e heroica que recebemos anos antes, um viés quase iconoclástico em alguns casos.

O detalhe é que, se enxergarmos mais de perto, notaremos um quê da ideologia de esquerda impregnada nessa abordagem, a qual foi adotada por boa parte dos livros didáticos de primeiro e segundo graus. Se num primeiro instante resgatou da caricatura os fatos e personagens da história oficial, esta “versão” acaba criando outras distorções para que se encaixem nas teorias e visão de mundo defendidas por tais ideologias.

Para ir na contramão dessa visão que foi lançado recentemente o livro “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil”. O autor,  o jovem jornalista curitibano Leandro Narloch, parece ter se norteado por dois princípios para compor seu livro: escolher verdades caras à nossa história oficial e já consolidadas no senso comum do brasileiro para questiona-las, e questionar estas verdades da forma mais provocativa e “politicamente incorreta”, se opondo diretamente a visão “marxista” e “esquerdista” da história. Há uma quantidade de episódios que poderiam ser explorados, mas ele escolheu alguns a dedo.

Sabia que Zumbi de Palmares, o ícone da libertação dos escravos, tinha escravos, bem como diversos outros negros alforriados? Ou que o genocídio dos nativos foi provocado, em maior escala, pelos próprios índios, como também o desmatamento da mata Atlântica? Quem sabe então o fato de que Aleijadinho é mais provavelmente um personagem fictício que histórico não seja novidade, ou que alguns ícones brasileiros, como a feijoada e o samba, tem mais aspectos da cultura europeia em sua origem do que muitos gostariam de admitir? Pra ser sincero, eu sabia, pois os fatos reunidos neste livro não são bombásticos tampouco novidade para aqueles que gostam do assunto e que costumam ler livros e artigos recentes, já que nos últimos anos saíram muitos livros bons sobre episódios específicos da história do Brasil trazendo nova luz a fatos consumados da historiografia oficial ensinada nas escolas, além de diversas revistas mensais especificas de história. Mas isso não tirou o sabor e o prazer de ler este livro, que além da polêmica inicial, traz informações e detalhes interessantes para defender as teses apresentadas, mais voltado ao público leigo e dentro da proposta de ser um “Guia”. O livro é interessante e leva ao leitor que ainda se prende ao que foi ensinado na escola a constatar que não foi bem assim.

Um dos melhores capítulos é sobre a Guerra do Paraguai, cuja historiografia se baseia principalmente na tese defendida pelo historiador Júlio José Chiavenato de que o Paraguai foi vítima de um complô do império inglês que jogou os países da América do Sul contra a pequena e emergente potência do Cone Sul, que seria um verdadeiro prodígio de avanço e governo e uma ameaça a hegemonia britânica, e  por conta disso sofreu um verdadeiro genocídio nas mãos do exército brasileiro, isso tudo de acordo com Chiavenato. Porém esta tese, ainda adotada por diversos livros didáticos, foi duramente questionada em idos dos anos 90 a partir das ideias do professor Francisco Doratioto, autor de “Maldita Guerra”, cuja visão é de que Solano Lopez era um ditador megalomaníaco e um militar incompetente, que em sua mania de grandeza levou sua nação à uma guerra inútil e perdida. Outro capítulo que deve causar ganas nos acólitos marxistas é onde ele comenta sobre alguns líderes símbolos da esquerda no Brasil, como Luis Carlos Prestes ou Carlos Mariguela, mostrando um retrato pouco louvável destes, que não são mais do que incompetentes, na mais suave hipótese além de tirar o verniz heroico da resistência ao regime militar por parte dos grupos de esquerda e minimizar a truculência do regime.

Pessoalmente achei o estilo narrativo do autor uma faca de dois gumes. Sua vantagem é que, associada a um humor e ironia leves tornam a leitura fluida e agradável, certamente agradando àqueles não tão habituados a ler sobre o tema, além de ir contra o senso comum hoje adotado para a história,  obviamente ancorado e embasado em documentação oficial e publicações sérias. Todavia, no afã de ser politicamente incorreto e de irritar o máximo de pessoas possível, em algumas partes achei que perdeu um pouco a objetividade, principalmente no capítulo sobre Santos Dumont, no qual assume a tese da invenção do avião ter realmente sido americana. Não que eu defenda cegamente a tese contrária e tão em voga por aqui de que o brasileiro é o inventor do avião. Até já falamos aqui a respeito deste fato , apenas acredito que este tema merecia uma abordagem mais equilibrada. Porém nem sempre equilíbrio se traduz em polêmica. E acredito que os acrianos também vão odiar o capítulo sobre o quiproquó envolvendo o Estado, mais especificamente pela tese do autor de que o Brasil fez um péssimo negócio ao lutar pela anexação do Acre…

No mais, gostaria muito de acreditar que tais iniciativas ajudassem a formar alunos mais questionadores que buscassem mais profundidade nos fatos históricos, e que isso viesse a estimular os professores a dinamizarem suas aulas de história, mostrando facetas nem sempre mostradas no programa adotado ou no livro didático. Mas devo estar bêbado pra achar que isso vá ocorrer…

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A Estante Voadora

Livros que você larga e não quer mais pegar

Dizem que tem livros que a gente pega e não consegue largar. Já Millôr Fernandes parafraseou a assertiva ao afirmar que tem livros que a gente larga e não quer mais pegar. Pior que isso acontece, mesmo. Há livros que por algum motivo a gente não quer nem mais ver, mesmo que fosse ilustrado com fotos da Flávia Alessandra. Às vezes pode ocorrer por não termos maturidade ou bagagem cultural o suficiente pra absorver as sutilezas do autor. Ou porque o livro é uma bosta, mesmo.  E comigo não é diferente. Como todo leitor inadimplente, tenho a estante cheia de livros que comprei, mas que ainda não li, e estão acumulando poeira há anos. Eis aqui a lista de alguns e o motivo pelo qual adiei sine die a leitura deles.

The Secret – O Segredo
Comecei a ler só pra saber por que cargas d’água falam tanto desse livro que tem mais filhote que “O Código DaVinci”. E precisei de pouco mais de dez páginas pra entender que a proposta do livro é falar sobre o pensamento positivo. Parece só uma versão reciclada e metida de “O Poder Infinito de Sua Mente”, que vendeu os tubos em seu tempo. Pus em prática seus ensinamentos e passei a rejeitar o livro em minha mente para que eu nunca mais eu o veja pela frente.

Biografia do Roberto Marinho
Li os primeiros capítulos e não consegui passar disso. Sei que foi ingenuidade imaginar isenção e objetividade de uma biografia do dono da Globo escrita por um jornalista da Globo, mas imaginei que Pedro “isso é coisa de viado” Bial tentaria disfarçar mais um pouco. Vamos babar, mas o ex-corno da Giuliana Gam quis estabelecer um recorde sul-americano em termos de bajulação ao balançar os ovos do chefe morto. Quem sabe daqui a uns cinqüenta anos surja uma biografia mais isenta, e nela se comprove minha teoria de que Roberto Marinho transferiu seu cérebro para o corpo do Vitor Fasano…

Ulisses
Com uma margem de sobra podemos dizer que esse é o livro mais comentado e menos lido. A obra-prima de James Joyce já gerou todo tipo de leitura e teoria e é considerado um marco da literatura moderna. E claro que comprei o calhamaço e comecei a ler justamente em um Bloomsday, e com toda pompa e circunstância: numa mesa de bar e bebendo cerveja escura. A leitura fluiu tão bem quanto a cerveja, mas depois tentei ler em casa já sóbrio e a leitura não engrenou. Pelo visto, vou lê-lo aos poucos, sozinho em mesas de bar. E como raramente eu vou sozinho a bares, nesse ritmo devo levar uns dez anos e dezenas de hectolitros de cerveja escura pra terminar esse livro. Mas como disse T.S.Eliot, todos nós somos devedores a este livro e nenhum de nós pode escapar. Saúde!

O Imbecil Coletivo
Tentei ler a obra-prima de Olavo de Carvalho, o pensador mais odiado pela nossa esquerda, logo em seu lançamento, e juro que achei a introdução chata. Mas admito que a culpa foi minha, que precisava de um mínimo de conhecimento e leitura que, a duras penas, tive que admitir que não tinha. Acho que já tá na hora de tentar de novo. Pelo menos tenho maturidade pra admitir mais rapidamente minha ignorância, se não conseguir de novo.

A Idade da Razão
Não que esse livro seja hermético ou difícil, mesmo sendo escrito por Jean-Paul Sartre, o mesmo de “O Ser e o Nada”. O problema é que até umas quarenta páginas não vi nada na narrativa, história ou personagem que me entusiasmasse. E já tentei ler duas vezes isso. Quem sabe quando eu chegar na tal idade da razão eu venha a me interessar pelo livro. Mas até o momento não tenho razão nenhuma para tentar lê-lo.

A Casa dos Budas Ditosos
Não, o livro não é ruim, pelo menos acho eu. A culpa por não conseguir lê-lo é do próprio autor. Antes desse livro, li do Ubaldo “Diário do Farol”, sobre um misantropo e sociopata e seu fadário de manipulação e vingança. Uma leitura atordoante se você se envolve com a narrativa. Saí tão tonto que não engrenei a leitura do outro livro do autor. Precisei ler um gibi do Tio Patinhas pra recuperar um pouco da sanidade e fé na raça humana.

Kama Sutra
Antes que imaginem que virei celibatário, o único motivo pelo qual evito atualmente esse livro é uma séria hérnia de disco, que suspeito ter sido causada pelo dito livro. E não é porque ele é pesado, não. Se não entendeu, tente adotar a posição giratória ou a da rachadura do bambu, marcando hora com um fisioterapeuta antes (bem, se ela for mulher e bonita, pode testar as posições com ela).

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Ágora

O Fim de uma Era e o Início da Idade das Trevas

Vi pela primeira vez sobre a fascinante e trágica história da destruição da biblioteca de Alexandria e a morte de sua última guardiã no livro “Cosmos”, de Carl Sagan, mais especificamente no capítulo “Quem Responde Pela Terra?”, onde o cientista apresenta a cidade de Alexandria como o centro cultural do mundo antigo, cuja biblioteca continha o repositório de todo conhecimento humano acumulado desde a sua fundação, três séculos antes de Cristo,nas cinzas do império de Alexandre, o Grande, cujo general Ptolomeu assumiu a parte do Egito e originou uma dinastia que se findaria com a célebre rainha Cleópatra. A biblioteca, além de conter cópias de preciosos documentos científicos e artísticos, encorajava a busca pelo conhecimento, incentivando o pensamento lógico. A título de exemplo, não deixa de ser assombroso sabermos que, centenas de anos antes de Cristo, um sábio chamado Erastótenes conseguiria, usando apenas o raciocínio lógico, sombras e um desocupado que contasse a distância entre Siena e Alexandria em passos, conseguiria medir a circunferência da Terra com espantosa precisão. Mesmo quando o Império Romano estendeu seu braço para o Egito, a biblioteca manteve seu trabalho, coletando informação e formando pensadores. Infelizmente, nos anos em que o Império Romano se desfazia e o cristianismo ascendia para formar a poderosa igreja de Roma, séculos de saber acumulado foram carbonizados. Perdeu-se muito em ciência e cultura. Das pouco mais de cem tragédias de Sófocles, apenas sete chegaram aos nossos dias, e o conhecimento em astronomia foi retomando apenas durante o Renascimento.

O último guardião do saber da biblioteca de Alexandria foi uma mulher de nome Hipácia (ou Hipátia). Como se não fosse suficiente ser uma pensadora livre e independente em uma época na qual as mulheres estavam à sombra de seus homens, Hipátia era astrônoma, física, matemática e professora de filosofia. E ao que consta, ainda cometia a ofensa de ser bela. Nascida 370 anos depois de Cristo, esta extraordinária mulher esteve no meio de uma turbulenta transição, com os cristãos tendo sua religião aceita como oficial após séculos de martírio nas mãos de judeus e romanos. Por sua amizade e influência  junto ao governador romano em Alexandria, além de representar com sua ciência e filosofia os valores vinculados ao paganismo outrora vigente, Hipátia despertou a ira do bispo Cirilo, que incitou uma turba de cristãos furiosos que a arrastaram pelas ruas, rasgando suas roupas e a esfolando viva com conchas afiadas. Seu trabalho acabou sendo destruído e grande parte de suas descobertas morreu com ela, naquele sombrio ano de 415 d.C. E Cirilo se tornou santo da igreja Católica. 

Tão trágico episódio da história ganha uma versão cinematográfica nas mãos do talentoso diretor espanhol Alejandro Almedábar no recente filme “Ágora”, lançado ano passado na Espanha, trazendo a premiada atriz Rachel Weisz no papel da filosofa Hipátia. O filme mostra, na primeira parte, Hipátia ensinado filosofia e discutindo teorias sobre a movimentação dos astros, despertando a atenção e afeição dos homens, mas ignorando as investidas para dedicar sua vida à busca do conhecimento. Mas não é exatamente uma época boa para se mostrar erudição, principalmente se você for mulher, em pleno  crescimento do movimento cristão afrontando as crenças milenares dos egípcios em Alexandria, numa crescente tensão que culmina em uma insurreição sangrenta e na destruição do acervo da biblioteca. Mesmo com os líderes da cidade aderindo à nova religião, Hipátia ainda consegue manter seus estudos, mas as tensões aumentam, com as facções cristãs mais extremadas gaugando o poder e perseguindo seus antagonistas, iniciando com os sacerdotes  até um clímax inevitável.

O roteiro, escrito pelo próprio diretor, parece fazer pequenas concessões para tornar a história mais palatável ao público em geral, sendo o mais visível o destino de Hipátia, que é “amaciado” no filme, poupando o espectador de testemunhar a morte horrível descrita pelos registros históricos. Há uma tensão romântica por parte de alguns personagens, como o governador romano Orestes e o escravo Davus, ambos apaixonados e encantados pela personalidade forte de Hipátia, que renuncia à eventuais romances e casamentos em prol de sua ciência e filosofia. Mas isso não chega a atrapalhar o filme. O diretor usa um recurso narrativo interessante para intercalar algumas partes do filme, afastando a câmera até o espaço, onde vemos o planeta flutuando no infinito e a cidade de Alexandria como um pequeno ponto no globo, mostrando simultaneamente aquilo que Hipátia buscava e a insinificância da cidade perante o universo. Rachel Weiz está ótima como Hipátia, e nós nos pegamos torcendo para ela desvendar os mistérios sobre as órbitas celestes tanto quento torceríamos para qualquer mocinho desvendar um segredo que nós já sabemos de antemão, tendo ela pouquíssimas ferramentas à disposição, além do seu próprio raciocínio lógico. Na história, Almédabar especula sobre uma possível descoberta de teorias heliocêntricas e órbitas elípticas, algo que se revelaria verdadeiro, mas que só viria a ser provado e aceito quando Johannes Kepler criou suas três leis no século XVII.

Os cristãos mais ortodoxos podem se ofender e achar que o filme é uma propaganda anticristã, mas é tão anticristão quanto qualquer filme que fale sobre a inquisição ou caça às bruxas. O filme critica mais a intolerância e a ignorância humanas do que uma religião específica. Mas claro que qualquer religioso fundamentalista não se sentirá à vontade ao ver a palavra de Deus sendo usada para queimar conhecimento e lançar a humanidade na obscuridade. O filme conseguiu me comover mais do que algum melodrama apelativo e açucarado, e garanto que qualquer um que admire e aprecie o conhecimento e pensamento humanos irá lamentar os atos cometidos no passado e relembrados por Almédabar.

E voltando à “Cosmos”, a mais chocante observação de Sagan a respeito desse episódio é que, apesar de hoje virmos quão trágico e relevante ele foi, a época praticamente não houve ninguém entre a população que pranteasse a queima do acervo e a inexorável trajetória da história humana rumo à era das trevas. Sagan atribui isso ao fato de que o conhecimento acumulado e desenvolvido ali pouco ou nada tinha com o povo, que não usufruiu de nenhum benefício ou conhecimento advindo da biblioteca e de seus sábios, o que os deixou totalmente indiferentes ao fatídico destino. Hoje, em uma perspectiva histórica, podemos dimensionar a extensão do episódio, cuja consequência maior foi uma estagnação de praticamente mil anos, já que o conhecimento humano só retomou os trilhos fixados naqueles tempos muitos séculos depois, quando nomes como Copérnico, Giordano Bruno, Galileu Galilei e Kepler arriscaram o próprio rabo para fazer avançar a ciência. Podemos apenas especular como estaria o desenvolvimento do saber humano hoje se tal conhecimento não tivesse sido destruído,   E se Newton humildemente afirmou que enxergou tão longe porque se debruçou sobre o ombro de gigantes, nada mais justo do que colocar Hipátia entre tais gigantes.

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O Espírito de Sherlock Holmes

Apresentado ao mundo em 1887 no romance “Um Estudo em Vermelho”, Sherlock não é o primeiro detetive do gênero policial, mas se tornou o mais famoso, e mesmo quem nunca tenha chegado perto de alguma das histórias do Arthur Conan Doyle já ouviu falar dele, e a mística envolvendo o personagem é tão grande que muitos devem imaginar que ele realmente existiu, e a imagem criada pelo ilustrador Sidney Paget e o teatrólogo William Gillete já está devidamente gravada em nosso inconsciente coletivo. E mesmo criado há mais de um século, Sherlock Holmes reencarnou inúmeras vezes na cultura popular nestas décadas todas, nunca saindo de moda para seus fãs e ressurgindo para o grande público vez por outra ,lhe garantindo mais seguidores.

Para alguém que,eventualmente não conheça nada sobre o personagem, uma rápida biografia: Sherlock Holmes é um consultor e detetive londrino que emprega a observação, dedução e método científico para resolver casos de difícil resolução para a Scotland Yard ou para clientes com muitos esqueletos no armário e que precisam de discrição. Seus insólitos casos são narrados pelo médico e veterano de guerra Watson, que o conheceu quando ambos dividiam um imóvel à Baker Street, 221B, e que o acompanha em seus casos, quase sempre se surpreendendo com as conclusões quase sobrenaturais de seu amigo. Além de sua incrível capacidade de observação e profundo conhecimento de qualquer assunto que possa ser usado na dedução dos crimes, consta que Sherlock Holmes seja um hábil pugilista e adepto de uma variante do jiujitsu, o baritsu, apesar de raramente apelar para violência física. Também toca violino e é usuário de cocaína. Nascido provavelmente em 1856, provavelmente teria morrido em fins dos anos 20. Mas morreu pra você, fã ingrato, pois para muitos Sherlock existe e ainda está vivo. E o maior argumento para isso é que, sendo uma personalidade tão ilustre, a sua morte deveria ter sido noticiada no Times de Londres, algo que até hoje não ocorreu, por isso certamente ainda está vivo. Elementar, ora pois!

Arrisco a afirmar que o que mais exerce fascínio no imaginário dos fãs não é o que foi registrado nos contos e romances escritos por Conan Doyle, e sim justamente o que NÃO está escrito. Mesmo devidamente registrados, os casos nos quais Holmes se envolveu, há muitos aspectos nebulosos referentes à biografia do detetive, algumas contradições ou supostas incongruências nas narrativas, eventuais correlações entre a ficção e os fatos reais. Isso é mais do que suficiente para que especialistas no assunto desenvolvessem todo tipo de teoria para preencher estas lacunas. Há inúmeros estudos e tratados nos quais se especula sobre tais questões, levantando hipóteses das mais plausíveis às mais inverossímeis. E talvez esse seja o principal combustível que mantenha acesa a chama do interesse popular.

Há muito material a se especular. Qual universidade Holmes teria frequentado: Oxford ou Cambridge? O que o moldou em sua juventude para que se tornasse tão obstinado em seus estudos criminalísticos e se tornasse tão isolado e quase misantropo? Teria tido mesmo um caso secreto com Irene Adler, de “Escândalo na Boêmia”? Seu irmão Mycroft seria mesmo um agente do governo britânico ou aliado do maior inimigo de Holmes, o professor Moriarty? O que teria feito durante o período de três anos em que foi dado como morto? Seria Holmes homossexual, ou até mesmo uma mulher travestida? Teria descoberto, em suas inúmeras pesquisas, um elixir para prolongar a vida e estaria vivo até hoje? É desses e outros assuntos que estudiosos e sócios das dezenas de sociedades sherlockianas do mundo costumam tratar.

Se nos limitarmos ao universo escrito, há uma miríade de possibilidades. Um dos grandes estudiosos do assunto, Leslie S. Klinger, é responsável pela organização da mais recente edição “definitiva” do personagem, que além de reunir os romances e os contos originalmente publicados pela revista “Strand Magazine”, oferece informações adicionais de peso, frutos de pesquisa entre artigos e livros já publicados a respeito do personagem, espalhados em um ótimo texto introdutório que recapitula a biografia do criador e das criaturas e fornece uma crônica da era vitoriana, contextualizando bem o leitor de primeira viagem, além de centenas de notas de rodapé espalhadas ao longo dos contos e romances. E estas notas nos trazem boa parte das conjecturas e teorias tecidas nas últimas décadas especulando sobre os aspectos menos conhecidos do famoso inquilino de Baker Street. No Brasil essa versão está sendo publicada pela Jorge Zahar Editora.

Ao extrapolarmos o cânone oficial e nos estendermos por outras mídias, incluindo adaptações oficiais, paródias ou simples influências, teremos uma ideia do quão amplo é o universo sherlockiano. Aliás, estas mídias é quem mais contribuiram para perpetuar a imagem coletiva do Holmes, lhe atribuindo características não mencionadas nos textos, como o tradicinal chapéu de caçador – o qual raramente usava nos contos – e a frase “Elementar, meu caro Watson”, que não consta nos escritos de Doyle. Desde 1905 que o personagem aparece em algum filme, animação ou série de TV, sendo os atores mais famosos e marcantes que o encarnaram William Gilette (teatro e cinema mudo), Basil Rathbone (seriado para o cinema dos anos 40) e Jeremy Brett (série de TV dos anos 90).  Tais releituras não se limitam à Inglaterra vitoriana. Sherlock já combateu nazistas durante a II Guerra Mundial, foi ressucitado no século XXII para combater mais uma vez Moriarty, perseguiu o temível Jack, o estripador e até já esteve no Brasil para recuperar um violino roubado de D.Pedro II e desvendar uma série de assassinatos. Mais recentemente, Robert Dowley Jr “baixou” sua versão do espírito sherlockiano no novo filme do diretor Guy Ritchie, mostrando um personagem mais adaptado ao gosto dos fãs de blockbusters do século XXI.

Se formos listar os personagens de ficção que adotam o mesmo método de dedução científica, sendo inspirados, direta ou indiretamente em Sherlock Holmes, teríamos mais outra imensa e enciclopédica lista de “reencarnações”, como vários detetives da literatura policial do naipe de Hercule Poirot ou inspetor Maigret, alguns outros detetives do cinema e TV, como Columbo ou Adrian Monk, passando pelo Dr. House e chegando ao Batman, o maior detetive dos quadrinhos (ao menos na opinião da DC).

O fato é que Sherlock Holmes ainda se manterá na imaginação e no inconsciente coletivo dos fãs ainda por longa data, seja em suas inúmeras releituras, encarnações ou influências, nas mais diversas mídias, se tornando maior que seu criador. Aliás, se tornou consenso entre os fãs que Sherlock e Watson realmente existiram, e este último apenas usava Conan Doyle para reproduzir seus manuscritos. De saco cheio do sucesso de seu personagem, Arthur Conan Doyle decidira matá-lo em um confronto final com seu inimigo Moriarty em “O Problema Final”, no qual ambos trocam sopapos à beira de um penhasco, sobre as cataratas Reichembach, na Suíça, e despencam para a morte. O que ele não contava era com a pressão dos fãs irados que deixaram de comprar a “Strand Magazine” e que exigiam a volta de Holmes. E Conan Doyle precisou trazê-lo dos mortos, ressuscitando-o na história “A Casa Vazia”. Maior prova de sua capacidade de sobrevivência não há,e até hoje ele continua voltando dos mortos para assombrar mais uma geração com sua capacidade de dedução.

Mais Sherlock em Sherlock Holmes Brasil

O Big Brother ainda zela por ti!

Nesses tempos de Reality Show, o mais famoso deles é o intitulado Big Brother, importado da Holanda pela Rede Globo. Isso você já sabe. Mas nem todos os expectadores deste programa sabem qual a referência que inspirou o título. Aprenda aqui conosco e pague uma de intelectual quando algum chato lhe perguntar quem foi para o paredão esta semana.

O Leitor Apaixonado

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Nota do blodegueiro: esse texto deveria ter saído junto com o do Ruy Castro que eu escrevi para o site Mínimo Múltiplo há algumas semanas, mas acabou só saindo agora. Ao menos é uma boa maneira de abrir os trabalhos de 2010. Boa leitura!

Ruy Castro é um escritor apaixonado, e suas paixões envolvem o futebol, o cinema, a música e cultura popular americana pré-anos 1960, Bossa Nova, Samba, o Rio de Janeiro e qualquer assunto que renda uma boa e leve crônica. E claro, a própria escrita, seja em um bom romance ou em algum artigo bem escrito. Com esse leque de interesses, em mais de quarenta anos de jornalismo, obviamente seu currículo acumulou material suficiente pra lotar uma pequena biblioteca.

E parte desse material, espalhado em jornais e revistas pelos quais Ruy passou ou contribuiu, vez por outra é reunido em livros. O mais recente desses é “O Leitor Apaixonado – Prazeres à Luz do Abajur”, lançado em agosto do ano passado. Como Ruy Castro é um dos únicos cuja obra eu adquiro sem hesitar, logo consegui um exemplar que furou a minha fila quilométrica de leitura sem maior cerimônia. Mas só agora me dedico a falar sobre tal livro, e a sugerir sua leitura por todos que gostam de literatura.

O tema dos artigos reunidos é a leitura e o prazer desse hábito “à luz do abajur”, e longe de serem resenhas ou análises críticas, os textos explorar a faceta mais lúdica da leitura e o lado humano dos autores. Os textos tratam predominantemente de livros e seus escritores, mas também abrangem assuntos correlatos, como as capas das revistas “Esquire” e “The New Yorker”, ilustrações “pin ups” reunidas em livros da Taschen, curiosidades lingüísticas no idioma pátrio, a relação entre a ingestão de hectolitros de álcool e o talento de escritor, detalhes biográficos dos grandes vultos das penas nacionais: Paulo Francis, Nelson Rodrigues e Carlos Heitor Cony, biografias de autores internacionais renomados, as tiradas venenosas e de alta classe da turma da mesa redonda do Algonguim, comentários irônicos sobre a mania dos best-sellers, escrito lá pelos anos 80 (e cujos títulos que cita hoje estão praticamente esquecidos), incluindo aí um artigo insuspeito sobre o nosso maior best-seller: Paulo Coelho.

Como de costume, Ruy não se retém ao óbvio, buscando em seu vasto acervo audiovisual informações e fatos não tão conhecidos. Descobrimos coisas curiosas e interessantes, com Ruy desmistificando a aura vanguardista do movimento da Semana de 22 ao mencionar alguns escritores e obras da época, como João de Minas e Luís Martins, cronistas da realidade nua e crua carioca, envolvendo sexo e consumo de drogas, que foram relegados ao segundo plano nos estudos da literatura brasileira que privilegia o modernismo pós- Oswald e Mário de Andrade. Também descobrimos que teve um tempo no qual Oscar Wilde era chegado em mulher e que teve até filho (jura, santa?).

Mas o mote principal do livro é lembrar que leitura é, antes de tudo, uma atividade que deve ser prazerosa. Mas nem tudo são flores na vida do escritor. Certamente devido aos problemas legais que teve ao biografar o jogador Garrincha, Ruy Castro vez por outra menciona em seus textos quão ingrata é a tarefa de biografar personalidades com descendentes ainda vivos. Ou muito vivos, em alguns casos. Aqui há dois textos que tocam no tema, sendo um sobre o neto de James Joyce, que dispõe da obra e biografia do avô famoso como bem lhe convém, a despeito de sua importância para a literatura universal. Outro texto fala diretamente dos problemas envolvendo os filhos de Garrincha e o processo que eles moveram contra a editora, em forma de conselho a quem porventura venha a se aventurar na senda de biografar algum famoso com filhos ou netos ainda vivos. E para endossar isso, o mais recente cu-de-boi envolvendo biografia e descendentes de biografados é o livro “Matar Para Não Morrer”, que narra o episódio envolvendo o corno, escritor e péssimo atirador Euclides da Cunha e o pé-de-lã Dilermando de Assis, cujos netos querem processar a autora do livro. Se a historiadora Mary Del Piore tivesse lido a matéria do Ruy, talvez tivesse pensado duas vezes antes de começar seu livro…

“O Leitor Apaixonado” meio que fecha uma espécie de “trilogia” de livros reunindo artigos de Ruy Castro e organizados por sua esposa, Heloisa Seixas. O primeiro saiu em 2006, reunindo artigos sobre cinema, predominantemente americano e pré-anos 60, e se intitulou “Um Filme é Para Sempre”. No ano seguinte, sob a mesma fórmula, saiu “Tempestade de Ritmos”, com o tema música, e a maioria dos artigos é sobre música americana, principalmente Jazz. Há música brasileira também, mas bem pouco, já que este tema foi reunido em uma antologia anterior, “A Onda que Se ergueu do Mar”, que reuniu artigos sobre Bossa Nova e outros ritmos brasileiros, saindo meio que no rastro de “Chega de Saudade”. Mas em todos estes há a marca característica de Ruy Castro: entregar um calhamaço de informações, muitas até obscuras, sem entediar o leitor, ao contrário, divertindo-o no processo.

Seguindo este ritmo, será que teremos algum livro sobre outra paixão do Ruy, como o futebol, para completar uma tetralogia? Bem, veremos. De qualquer maneira, independente do tema, ler Ruy Castro é garantia de prazer, sob qualquer luz.

O Fim da Terra e do Céu

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Não é novidade pra ninguém a estreia há poucas semanas do filme “2012“, do diretor que quer sempre que o mundo se foda Rolland Emerich, alguém que o nobre frequentador da blodega deve conhecer do outros “crássicos” como “Independence Day”, “Godzilla” e “O Dia Depois de Amanhã”. E como de praxe, o filme vem recheado dos mais previsíveis clichês e inverossimilhanças, o que tem gerado críticas de todo tipo. E claro, o povo não quer nem saber e vai assistir assim mesmo aos montes. Além de fazer o produtor encher o rabo de grana, ainda serve de pauta para programas sem assunto, e mais uma vez o povo discute sobre um provável apocalipse, coisa da qual se pensava estarmos livres até o fim do século. E tudo por culpa do diacho do calendário maia, que acaba em dezembro de 2012. E para por mais lenha na fornalha, o tal filme “2012″ é lançado três anos antes da suposta data fatal. Será que é pra dar tempo dos produtores aproveitarem o lucro do filme?

Só para tranquilizar, isso não é mais uma crítica ou resenha do filme, pois ainda nem assisti a “O Dia Depois de Amanhã”, tampouco “2012″. Aliás, em termos de filmes apocalípticos recentes, preferi assistir a “Presságio” , que abordou bem o tema, equilibrando fenômenos científicos com referências interessantes à elementos bíblicos e um roteiro que prende a atenção do espectador.

A maioria das críticas é quase unânime em estraçalhar os clichês do filme. Mas a crítica mais interessante eu li há duas semanas na coluna do físico Marcelo Gleiser da “Folha de São Paulo”, que pode ser lida aqui . Sua principal crítica ao filme é quanto ao aspecto científico para se tentar explicar os fenômenos que transformam o planeta em paçoca. Onde diacho já se viu neutrinos “sofrerem mutação” e interagirem com o núcleo do planeta?

Mas Rolland Emerich não é o primeiro nem o único a querer encher a tampa de grana com o fim do calendário Maia. Já que este tema tem atraído tanta atenção do público em geral que até a NASA precisou vir a público pra esclarecer estas questões, já que o SAC deles deveria estar puto de tanto desocupado lhes perguntando sobre o fim do mundo em 2012. E para aqueles que acham que os cientistas da NASA não sabem de porra nenhuma, basta procurar pelo tema “2012″ no Buscapé, por exemplo para achar alguns livros oportunistas ansiosos para lhe preparar para o fim iminente. Será que eles aceitam cheque pré-datado para dezembro de 2012? Oras, desde que aqueles malucos dos Borboletas Azuis, lá em Campina Grande, afirmaram que o mundo iria pro saco em 13 de maio de 1980 que venho ouvindo profecias sobre o fim do mundo. E como ainda estamos aqui, podemos dizer que as notícias sobre a fim do mundo foram exageradas.

Mas em se tratando de falar do fim das eras, um livro que eu recomendaria enfaticamente foi escrito não agora, às vésperas de mais um apocalipse anunciado. Na verdade foi lançado em 2001, depois do mundo acabar umas cinco vezes entre 1999 e o início de 2001, ao menos nas visões dos profetas. Foi escrito pelo físico Marcelo Gleiser, atualmente lecionando Física Teórica em Hanover, que ficaria mais conhecido do público anos depois ao apresentar um quadro no “Fantástico”. O livro é “O Fim da Terra e do Céu”, da Companhia das Letras, e o tema abordado é “O Apocalipse na Ciência e na Religião”, como entrega seu subtítulo.

Gleiser se tornou um bom representante brasileiro daqueles acadêmicos que divulgam a ciência entre o público leigo, herança do finado cosmólogo americano Carl Sagan, usando de uma narrativa leve e acessível ao público não iniciado nas complexas teorias da física. Nesse livro é comum encontrarmos breves narrativas ficcionais para ilustrar exemplos e explicações de teorias complexas, bem como também sutis ironias e humor em algumas sentenças, de forma que a leitura flui agradavelmente e você termina o livro se sentindo o maior dos astrofísicos.

157549.jpgA primeira parte do livro Gleiser aborda o temor humano pela morte e finitude, e a necessidade de compreender os fenômenos da natureza e o anseio pelo eterno, culminando com o surgimento de seitas, religiões e superstições ao longo do desenvolvimento do intelecto humano, e a ideia de um “fim de tudo” parece ser comum a varias culturas, mas Gleiser se concentra nas religiões cristãs e nas descrições bíblicas para o Juízo Final, tanto no livro de Daniel no Velho Testamento quanto o Apocalipse de João, no Novo Testamento, que pincelam de forma alegórica os últimos dias, e que ocuparam as mentes de profetas e pensadores, como Santo Agostinho, e atormentaram os cristãos durante boa parte da Idade Média, que vivia em “um estado de expectativa apocalíptica praticamente constante”, principalmente com a chegada do segundo milênio. As guerras, pestes negras e desgraças bem comuns aquela época, associados a aparições celestes de estrelas e cometas sempre eram vistas como um sinal da proximidade do fim dos tempos, e isso se refletiu em obras artísticas, tanto na literatura quanto na pintura.

Ou seja, não é de hoje que aparece profeta vendo sinais do fim das eras em qualquer fato mais aterrador do cotidiano, e narrativas medievais prenunciando o pior são citadas e lembradas, e muitos tentaram decifrar as profecias bíblicas no sentido de obter uma data para o início do fim. Também não é de hoje que algum espertinho tenta levar vantagem com o fim do mundo. Até mesmo Issac Newton, o pai da ciência moderna, acreditava que os cometas seriam instrumentos divinos para a destruição da Terra.

Só depois de Newton a ciência começou a se divorciar da religião, e a sequencia de fatos da Bíblia deixou de ser levada a sério como marco cronológico da Terra e do universo. E como a humanidade, aos poucos Gleiser vai deixando a análise histórica e religiosa e sua narrativa se volta para a ciência, e na segunda parte do livro, o autor explica diversos fenômenos astrofísicos e as possibilidades reais de um evento que venha a eliminar a vida da Terra, como o choque de algum corpo celeste de dimensões razoáveis, um asteroide ou cometa, algo que já aconteceu antes e que possivelmente exterminou os dinossauros e outras formas de vida milhões de anos antes. Sua reconstituição narrativa desse evento consegue ser melhor do que um filme cheio de efeitos, com uma riqueza de detalhes impressionante. Ele lembra que há uma possibilidade razoável de que isso pode voltar a ocorrer, como aconteceu em menor escala em Tunguska, em 1908, quando um pequeno objeto causou devastação em uma área deserta na Sibéria, e de como a cultura popular contemporânea explora essa ideia, principalmente no cinema, citando filmes como “Impacto Profundo” e “Armagedon”. Claro que aprendemos que objetos são estes, como se formam e o que define suas órbitas.

Outra possibilidade para que o mundo vá para o saco está na morte do Sol, e Gleiser nos brinda com uma aula de como as estrelas surgem, como é seu mecanismo de fusão nuclear e quais destinos que aguardam as estrelas, quer seja se tornarem anãs brancas, supernovas ou buracos negros. Qualquer que seja o fim, o consolo é que isso ainda levará bilhões de anos, o que lhe dará tempo mais do que suficiente para tentar entender estes fenômenos. Ou de namorar a Megan Fox, por exemplo, o que for mais fácil.

E pra que nos limitarmos ao fim da Terra, quando o universo inteiro pode desaparecer um dia num futuro beeem distante? Esse fim de REALMENTE tudo é mote para, nas últimas páginas do livro, Gleiser expor as teorias que explicam a gênese do universo, os diversos modelos que surgiram no meio científico nas últimas décadas e o que, teoricamente, pode vir a ocorrer nos incontáveis séculos que o Universo ainda tem pela frente. Talvez essa parte do livro seja a que mais exija atenção do leitor, já que teorias sobre a criação do universo são complexas, e mesmo em uma linguagem voltada para leigos, o assunto se torna meio pesado, mas nada que atrapalhe a leitura.

No final, o livro não nos entrega nenhuma revelação aterradora ou prenúncio imediato de apocalipse, e sim esclarece bem sobre a ideia de juízo final e fim dos tempos, com uma boa dose de ciência e conhecimento, o melhor remédio contra a desinformação e o pânico infundado. Ou resumindo tudo, e citando o compadre Tio Xiko, o fim do mês preocupa mais do que o fim do mundo, e é mais fácil nosso nome descer para o Serasa do que o céu cair em nossas cabeças, como temia o líder dos gauleses Abracurcix, nas histórias do Asterix.

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