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Ágora

O Fim de uma Era e o Início da Idade das Trevas
Vi pela primeira vez sobre a fascinante e trágica história da destruição da biblioteca de Alexandria e a morte de sua última guardiã no livro “Cosmos”, de Carl Sagan, mais especificamente no capítulo “Quem Responde Pela Terra?”, onde o cientista apresenta a cidade de Alexandria como o centro cultural do mundo antigo, cuja biblioteca continha o repositório de todo conhecimento humano acumulado desde a sua fundação, três séculos antes de Cristo,nas cinzas do império de Alexandre, o Grande, cujo general Ptolomeu assumiu a parte do Egito e originou uma dinastia que se findaria com a célebre rainha Cleópatra. A biblioteca, além de conter cópias de preciosos documentos científicos e artísticos, encorajava a busca pelo conhecimento, incentivando o pensamento lógico. A título de exemplo, não deixa de ser assombroso sabermos que, centenas de anos antes de Cristo, um sábio chamado Erastótenes conseguiria, usando apenas o raciocínio lógico, sombras e um desocupado que contasse a distância entre Siena e Alexandria em passos, conseguiria medir a circunferência da Terra com espantosa precisão. Mesmo quando o Império Romano estendeu seu braço para o Egito, a biblioteca manteve seu trabalho, coletando informação e formando pensadores. Infelizmente, nos anos em que o Império Romano se desfazia e o cristianismo ascendia para formar a poderosa igreja de Roma, séculos de saber acumulado foram carbonizados. Perdeu-se muito em ciência e cultura. Das pouco mais de cem tragédias de Sófocles, apenas sete chegaram aos nossos dias, e o conhecimento em astronomia foi retomando apenas durante o Renascimento.
Tão trágico episódio da história ganha uma versão cinematográfica nas mãos do talentoso diretor espanhol Alejandro Almedábar no recente filme “Ágora”, lançado ano passado na Espanha, trazendo a premiada atriz Rachel Weisz no papel da filosofa Hipátia. O filme mostra, na primeira parte, Hipátia ensinado filosofia e discutindo teorias sobre a movimentação dos astros, despertando a atenção e afeição dos homens, mas ignorando as investidas para dedicar sua vida à busca do conhecimento. Mas não é exatamente uma época boa para se mostrar erudição, principalmente se você for mulher, em pleno crescimento do movimento cristão afrontando as crenças milenares dos egípcios em Alexandria, numa crescente tensão que culmina em uma insurreição sangrenta e na destruição do acervo da biblioteca. Mesmo com os líderes da cidade aderindo à nova religião, Hipátia ainda consegue manter seus estudos, mas as tensões aumentam, com as facções cristãs mais extremadas gaugando o poder e perseguindo seus antagonistas, iniciando com os sacerdotes até um clímax inevitável.
O roteiro, escrito pelo próprio diretor, parece fazer pequenas concessões para tornar a história mais palatável ao público em geral, sendo o mais visível o destino de Hipátia, que é “amaciado” no filme, poupando o espectador de testemunhar a morte horrível descrita pelos registros históricos. Há uma tensão romântica por parte de alguns personagens, como o governador romano Orestes e o escravo Davus, ambos apaixonados e encantados pela personalidade forte de Hipátia, que renuncia à eventuais romances e casamentos em prol de sua ciência e filosofia. Mas isso não chega a atrapalhar o filme. O diretor usa um recurso narrativo interessante para intercalar algumas partes do filme, afastando a câmera até o espaço, onde vemos o planeta flutuando no infinito e a cidade de Alexandria como um pequeno ponto no globo, mostrando simultaneamente aquilo que Hipátia buscava e a insinificância da cidade perante o universo. Rachel Weiz está ótima como Hipátia, e nós nos pegamos torcendo para ela desvendar os mistérios sobre as órbitas celestes tanto quento torceríamos para qualquer mocinho desvendar um segredo que nós já sabemos de antemão, tendo ela pouquíssimas ferramentas à disposição, além do seu próprio raciocínio lógico. Na história, Almédabar especula sobre uma possível descoberta de teorias heliocêntricas e órbitas elípticas, algo que se revelaria verdadeiro, mas que só viria a ser provado e aceito quando Johannes Kepler criou suas três leis no século XVII.
Os cristãos mais ortodoxos podem se ofender e achar que o filme é uma propaganda anticristã, mas é tão anticristão quanto qualquer filme que
fale sobre a inquisição ou caça às bruxas. O filme critica mais a intolerância e a ignorância humanas do que uma religião específica. Mas claro que qualquer religioso fundamentalista não se sentirá à vontade ao ver a palavra de Deus sendo usada para queimar conhecimento e lançar a humanidade na obscuridade. O filme conseguiu me comover mais do que algum melodrama apelativo e açucarado, e garanto que qualquer um que admire e aprecie o conhecimento e pensamento humanos irá lamentar os atos cometidos no passado e relembrados por Almédabar.
E voltando à “Cosmos”, a mais chocante observação de Sagan a respeito desse episódio é que, apesar de hoje virmos quão trágico e relevante ele foi, a época praticamente não houve ninguém entre a população que pranteasse a queima do acervo e a inexorável trajetória da história humana rumo à era das trevas. Sagan atribui isso ao fato de que o conhecimento acumulado e desenvolvido ali pouco ou nada tinha com o povo, que não usufruiu de nenhum benefício ou conhecimento advindo da biblioteca e de seus sábios, o que os deixou totalmente indiferentes ao fatídico destino. Hoje, em uma perspectiva histórica, podemos dimensionar a extensão do episódio, cuja consequência maior foi uma estagnação de praticamente mil anos, já que o conhecimento humano só retomou os trilhos fixados naqueles tempos muitos séculos depois, quando nomes como Copérnico, Giordano Bruno, Galileu Galilei e Kepler arriscaram o próprio rabo para fazer avançar a ciência. Podemos apenas especular como estaria o desenvolvimento do saber humano hoje se tal conhecimento não tivesse sido destruído, E se Newton humildemente afirmou que enxergou tão longe porque se debruçou sobre o ombro de gigantes, nada mais justo do que colocar Hipátia entre tais gigantes.
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