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Espetáculo de Velhas Novidades

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Com toda esta conversa sobre a suposta revolução tecnológica promovida pelo filme “Avatar”, estava lembrando as outras “revoluções” técnicas anteriores que aconteceram em Hollywood, as quais foram criadas e implementadas mais como uma tentativa de atrair o público e tentar reverter a queda na arrecadação com bilheteria…Hã, eu acho que já falei isso antes, mas agora é (quase) sério, já que é óbvio para todos que essa nova tecnologia 3D está aí para combater o inimigo da vez que ameaça o cinema: a distribuição digital dos filmes e a pirataria. Se hoje o que faz os produtores arrancarem os cabelos são os DVD’s piratas vendidos pelos camelôs ou a distribuição de filmes pela Internet antes mesmo deles chegarem às salas de cinema, a indústria de filmes enfrentou coisas piores no passado, e nem por isso morreu, apenas se adaptando à nova realidade. Se olharmos em perspectiva a evolução do cinema americano, desde que os estúdios se mudaram de Nova Iorque e se estabeleceram na Califórnia que novas tecnologias foram tornando o cinema mais atrativo. Alguns desses avanços foram incorporados paulatinamente, outros foram vendidos como grandes inovações para aumentar a bilheteria frente a alguma ameaça ou concorrência ao cinema. Alguns  foram incorporados, outros demoraram a ter aceitação total e muitos não vingaram ou foram suplantados por técnicas mais modernas.
Por exemplo, lembremos do som. A era dos grandes estúdios foi consolidada em cima do cinema em preto e branco e mudo durante os anos 20, mas no fim desta década o som já começava a desempregar os músicos que tocavam durante a projeção, sendo o primeiro a usar uma trilha sonora gravada em discos para acompanhar o filme foi “Don Juan,” de 1926, uma aplicação da tecnologia Vitaphone, que permitia sincronizar o som com o filme. Já no ano seguinte a Warner lançou “O Cantor de Jazz“, considerado o primeiro filme falado, que empregava trilha sonora e alguns diálogos, aplicando o sistema desenvolvido pela Western Eletric, o qual teve rápida aceitação entre os estúdios. O advento do som no cinema provocou grandes mudanças e desempregos, desde os músicos necessários em cada sala de projeção quanto os letreiristas que “escreviam” os breves diálogos que eram exibidos entre as cenas, até atores e atrizes que, por conta de problemas de dicção ou sotaque se viram sem carreira do dia pra noite, como a húngara Vilma Banks ou o estridente John Gilbert. Mas criou uma demanda por roteiristas de talento que escrevessem diálogos e histórias que atraíssem o público, e na década seguinte o cinema amadureceu, com o nascimento dos musicais. Mas nem todos aderiram de pronto a novidade. Charles Chaplin relutou em adotar a nova tecnologia, e só o fez de forma plena em “O Grande Ditador“, de 1940, quando seu sucesso já era inegável.
Outra tecnologia bem sucedida foi o cinema em cores. Mesmo o crack de 1929 não afetou tanto a indústria de cinema, que se recuperou da crise econômica, mas a Grande Depressão fez diminuir a arrecadação com bilheterias, e fez surgir os filmes “B” para sessões duplas, como chamariz para mais público pagante. A grande novidade tecnológica da década era o cinema em cores através do Technicolor. A tecnologia começou a ser criada ainda nos anos 1910, mas só se mostrou promissora e adequadamente desenvolvida nos anos 1930. Mesmo quando a empresa Technicolor Motion Picture Corporation conseguiu aperfeiçoar a tecnologia, utilizando as três cores, os estúdios não aderiram em massa, principalmente devido aos custos de se filmar nesta técnica. Inicialmente adotado mais em animações, como as de Walt Disney, foi necessário esperar o fim da década para uma maior aceitação da técnica. O primeiro longa-metragem live-action a empregar a a técnica das trễs cores foi “Vaidade e Beleza”, de 1935. O ano de 1939, um dos mais prolíficos deste tempo e que legou clássicos às gerações seguintes, teve duas grandes produções que se tornaram ótimos veículos para as cores: “E O Vento Levou” e “O Mágico de Oz“, este último combinando imagens monocromáticas com as coloridas. Aos poucos as produções aderiram as cores, mas a fotografia em preto e branco nunca foi totalmente abandonada, voltando a ser utilizada esporadicamente.
Já outras tecnologias não tiveram tanta aceitação para garantir tanta longevidade quanto as cores e o som tiveram. Nos anos 40 não houve o surgimento notável de nenhuma tecnologia nova, apenas a consolidação das já desenvolvidas. No pós-guerra, os estúdios começaram a sentir um decréscimo na arrecadação de bilheteria, algo que piorou nos anos 50 com a televisão invadindo grande parte dos lares americanos, oferecendo entretenimento gratuito às famílias. O cinema sentiu o baque, pois parafraseando um produtor daqueles tempos, se as pessoas podiam ver lixo de graça, porque pagariam para vê-lo? A TV se tornou “o adversário”, já que ameaçava a galinha dos ovos de ouro dos estúdios, que por mais que esperneassem, tiveram que dar adeus a sua era de ouro dos anos passados. E nesse clima de desespero e concorrência que Hollywood voltou a investir em tecnologia para inovar seus filmes. E uma das novidades foi o emprego de técnicas 3D em suas produções, também conhecida como Natural Vision. O primeiro filme foi “A Sombra e a Escuridão“, de 1952, que prometia ao público um leão em seu colo. Mas a tecnologia, mesmo sendo empregada em diversas produções, não era madura o suficiente para produzir resultados satisfatórios ou regulares. Se comparado a atual tecnologia 3D digital, o 3D destes tempos produziam imagens com cores irregulares e causavam desconforto visual ao público, obrigado a usar aqueles óculos de papelão e plástico celofane. Vendido como uma novidade tecnológica e usado de maneira indiscriminada por Hollywood, a novidade teve um “boom” de público breve, sendo considerada a “era de ouro do 3D” o período entre 1952 e 1955, no qual se produziu cerca de 30 filmes por ano em 3D. Alguns destes filmes seriam relançados de forma “convencional” pouco depois quando o modismo esfriou. Antes das atuais tecnologias, o 3D voltaria de forma esporádica nos anos 60, 70 e 80.
Além do 3D, frente à concorrência com a televisão, outras tecnologias lançadas nos anos 1950 foram o Cinerama , que empregava telas curvas com quase 180 graus, som estéreo e 3 projetores para passarem a sensação espacial do filme, o Todd-AO, que usava películas de 70mm e seis canais de som estéreo e o VistaVision, no qual o filme em 35mm era rodado na vertical, conseguindo uma qualidade fotográfica superior sem distorção da imagem. Mas entre as inovações da década que efetivamente “pegaram” uma delas foi o Cinemascope, não obstante seu custo total. Basicamente a imagem era distorcida e alongada com o uso de lentes anamórficas, ocupando toda a tela do cinema e obtendo uma largura com quase o dobro obtido por filmes 35mm convencionais. Isso impulsionou produções épicas, grandes espetáculos visuais, como “O Manto Sagrado“, primeiro filme que empregou esta técnica, a qual foi licenciada pela Fox aos demais estúdios, com exceção da Paramount, que já usava o processo VistaVision, lançando em 1954 o filme “Natal Branco” neste formato. Apesar de relativa aceitação, tais formatos se tornariam obsoletos nos anos seguintes, sendo substituídos por técnicas mais avançadas, como o Panavision.
Mas nem toda a tecnologia e inovação salvou o regime vigente desde os anos 20, e o tempo dos grandes estúdios chegou ao fim no inicio dos anos 60. Reivindicações trabalhistas por parte de roteiristas e atores, além da concorrência dos filmes europeus só pioravam a situação, e os outrora grandiosos estúdios, que mantinham grandes cadeias de cinemas, foram adquiridos por multinacionais e se tornaram apenas meras empresas entre tantas em conglomerados financeiros. A face de Hollywood mudava para permanecer igual, ou quase. E até o fim dos anos 70 o que realmente se inovou foi na qualidade dos roteiros e na liberdade artística dada aos diretores, antes meros funcionários a serviço dos produtores. Mas entre as obras-primas desta época ainda havia espaço para experimentalismos técnicos, sendo alguns explorados pelo marketing do filme. Nos anos 70, auge do cinema-catástrofe, “Terremoto” prometia passar a sensação dos tremores através do sistema de som Sensurround, desenvolvido pelos estúdios Universal, o que seria o equivalente acústico em 1974 ao estardalhaço que “Avatar” está produzindo hoje. Mas poucos filmes subsequentes adotaram este sistema de som, que quase derruba alguns velhos cinemas com sua intensidade sonora, principalmente nos sons graves, além de interferir no som de salas adjacentes exibindo outros filmes. Na prática, o padrão de som que passou a ser ditado nas produções atendia pelo nome de Dolby, que aos poucos começou sua hegemonia técnica justamente nos anos 70, evoluindo até os sistemas de som digitais utilizados hoje.
E qual a moral da história? Aí você decide se a tecnologia 3D vingará e mudará a forma como vemos filmes, sendo a salvação da indústria ou se é apenas um modismo passageiro, e caso Hollywood queira realmente continuar vendendo filmes que passe a ser mais ousada e aposte em histórias criativas que não ofendam a inteligência do público.
Update: Até James Cameron está reclamando do modismo 3D (via Ambrosia)!
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Os Terremotos de Sábado à Noite


Cinema 4D de pobre

Com toda esta conversa sobre a suposta revolução tecnológica promovida pelo filme “Avatar”, estava lembrando as outras “revoluções” técnicas anteriores que aconteceram em Hollywood, as quais foram criadas e implementadas mais como uma tentativa de atrair o público e tentar reverter a queda na arrecadação com bilheteria. Inclusive na Coréia o filme está sendo exibido em “4D”. Antes que imaginem algo quântico, a “quarta dimensão” seria o uso de alguns efeitos na sala de cinema para estimular os outros sentidos. Inclusive até já vi um brinquedo desses de parque de Shopping Center chamado de “Cinema 5D”, que exibe filmes curtos em 3D e adiciona até esguichos de água entre os efeitos. Apesar de que chamar isso de 4D ou 5D me lembra a lógica bizarra de chamar aqueles aparelhos vagabundos que tocam música, passam vídeo, sintonizam TV e o cacete a quatro de MP5 para cima. Se é pra compartilhar as sensações com o público, fico ansioso para que implementem tal recurso em algum filme com muita bebedeira. Já imaginaram distribuírem bebidas no cinema só para você ficar tão melado quanto o personagem?

Mas tudo isso está realmente me lembrando é das peripécias de um ex-colega de trabalho que já incorporava tais recursos nos cinemas paraibanos nos anos 70. Nas horas de ócio, esse meu colega nos divertia com a narração de algumas de suas peripécias juvenis, parte delas justamente durante a projeção de algum filme em um dos cinemas do centro de João Pessoa, como o Plaza, o Municipal ou o Rex, para nossa diversão e deleite. Em um desses episódios, ele e sua turma assistiam a “Os Embalos de Sábado à Noite”, com John Travolta reclamando das meninas que queriam dançar com ele só porque lhe deram. E em plena era Disco, os destaques do filme eram as cenas de dança. E para dar um efeito 3D nestas cenas, ele e sua trupe subiam e ficavam dançando em frente à tela, acompanhando a trilha sonora dos Bee Gees e os passos de Travolta. Mas este avanço tecnológico não foi bem aceito pelo público e nem pelo gerente, que chamou a polícia para descer a borracha nos Tony Manero paraibanos. A correria foi tanta que eles poderiam participar do filme “Carruagens de Fogo”.

"Essa Porra tá desabando mesmo!"

Mas este foi fichinha comparado ao que viria, o precursor do “4D” devidamente testado no velho cinema “Plaza”, um cinemão antigo que deveria caber umas 700 pessoas, tinha uma espécie de “camarote”, com algumas dezenas de cadeiras. Nos anos mais decadentes, normalmente quem subia ao “camarote” era a pirralhada doida pra bagunçar e pra jogar alguma coisa nos pobres espectadores das cadeiras de baixo.

Ainda nos anos 70 foi lançado o filme “Terremoto”, mais um exemplar do subgênero “cinema-catástrofe”, cuja receita era reunir um elenco de estrelas decadentes, cujos personagens viviam seus pequenos dramas pessoais até alguma desgraça das grandes acometer a todos e o elenco ir morrendo ao longo do filme. A desgraça poderia ser um incêndio no arranha-céu, um Boeing em pane ou um transatlântico indo a pique, e em “Terremoto” não deve ser difícil imaginar a causa da catástrofe. Mas o filme trouxe uma inovação técnica em relação aos efeitos sonoros, já que empregava a tecnologia “sensuround”, que deve ter sido o avô do Dolby Surround, THX e coisas do gênero. O prometido é que os efeitos sonoros trariam realismo às cenas de terremoto. Se isso funcionou no velho Plaza e seu sistema de som capenga, vai saber. Mas meu colega ainda deu uma forcinha, pois foi assistir ao filme munido de saquinhos de areia, e sabidamente ficou no camarote do Plaza. E nas cenas onde o chão tremia e o estrondo vibrava a sala, ele derramava a areia lá de cima, e quem tava embaixo se entusiasmava tanto com a novidade tecnológica que imaginava até um tremor de verdade, já que alguns gritavam coisas do tipo “o cinema vai cair!” ou “essa porra tá desabando mesmo!”, pra deleite de meu colega. Nisso James Cameron não pensou.

Mas isso tudo é passado e obsoleto frente aos recursos digitais dos filmes atuais. Esse meu colega já deve ter se aposentado, e a maioria dos cinemas citados nem mais existem, sendo ocupados por lojas de calçados ou agências bancárias. Com exceção do Municipal, que ainda passava filme, mas de um gênero njo qual o efeito “4D” que pode ser proporcionado é uma bela duma esporrada na cara, algo bem fácil de acontecer, dado o tipo de espectador dessas películas…

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