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Espetáculo de Velhas Novidades

Por exemplo, lembremos do som. A era dos grandes estúdios foi consolidada em cima do cinema em preto e branco e mudo durante os anos 20, mas no fim desta década o som já começava a desempregar os músicos que tocavam durante a projeção, sendo o primeiro a usar uma trilha sonora gravada em discos para acompanhar o filme foi “Don Juan,” de 1926, uma aplicação da tecnologia Vitaphone, que permitia sincronizar o som com o filme. Já no ano seguinte a Warner lançou “O Cantor de Jazz“, considerado o primeiro filme falado, que empregava trilha sonora e alguns diálogos, aplicando o sistema desenvolvido pela Western Eletric, o qual teve rápida aceitação entre os estúdios. O advento do som no cinema provocou grandes mudanças e desempregos, desde os músicos necessários em cada sala de projeção quanto os letreiristas que “escreviam” os breves diálogos que eram exibidos entre as cenas, até atores e atrizes que, por conta de problemas de dicção ou sotaque se viram sem carreira do dia pra noite, como a húngara Vilma Banks ou o estridente John Gilbert. Mas criou uma demanda por roteiristas de talento que escrevessem diálogos e histórias que atraíssem o público, e na década seguinte o cinema amadureceu, com o nascimento dos musicais. Mas nem todos aderiram de pronto a novidade. Charles Chaplin relutou em adotar a nova tecnologia, e só o fez de forma plena em “O Grande Ditador“, de 1940, quando seu sucesso já era inegável.
Os Terremotos de Sábado à Noite

Cinema 4D de pobre
Mas tudo isso está realmente me lembrando é das peripécias de um ex-colega de trabalho que já incorporava tais recursos nos cinemas paraibanos nos anos 70. Nas horas de ócio, esse meu colega nos divertia com a narração de algumas de suas peripécias juvenis, parte delas justamente durante a projeção de algum filme em um dos cinemas do centro de João Pessoa, como o Plaza, o Municipal ou o Rex, para nossa diversão e deleite. Em um desses episódios, ele e sua turma assistiam a “Os Embalos de Sábado à Noite”, com John Travolta reclamando das meninas que queriam dançar com ele só porque lhe deram. E em plena era Disco, os destaques do filme eram as cenas de dança. E para dar um efeito 3D nestas cenas, ele e sua trupe subiam e ficavam dançando em frente à tela, acompanhando a trilha sonora dos Bee Gees e os passos de Travolta. Mas este avanço tecnológico não foi bem aceito pelo público e nem pelo gerente, que chamou a polícia para descer a borracha nos Tony Manero paraibanos. A correria foi tanta que eles poderiam participar do filme “Carruagens de Fogo”.

"Essa Porra tá desabando mesmo!"
Mas este foi fichinha comparado ao que viria, o precursor do “4D” devidamente testado no velho cinema “Plaza”, um cinemão antigo que deveria caber umas 700 pessoas, tinha uma espécie de “camarote”, com algumas dezenas de cadeiras. Nos anos mais decadentes, normalmente quem subia ao “camarote” era a pirralhada doida pra bagunçar e pra jogar alguma coisa nos pobres espectadores das cadeiras de baixo.
Ainda nos anos 70 foi lançado o filme “Terremoto”, mais um exemplar do subgênero “cinema-catástrofe”, cuja receita era reunir um elenco de estrelas decadentes, cujos personagens viviam seus pequenos dramas pessoais até alguma desgraça das grandes acometer a todos e o elenco ir morrendo ao longo do filme. A desgraça poderia ser um incêndio no arranha-céu, um Boeing em pane ou um transatlântico indo a pique, e em “Terremoto” não deve ser difícil imaginar a causa da catástrofe. Mas o filme trouxe uma inovação técnica em relação aos efeitos sonoros, já que empregava a tecnologia “sensuround”, que deve ter sido o avô do Dolby Surround, THX e coisas do gênero. O prometido é que os efeitos sonoros trariam realismo às cenas de terremoto. Se isso funcionou no velho Plaza e seu sistema de som capenga, vai saber. Mas meu colega ainda deu uma forcinha, pois foi assistir ao filme munido de saquinhos de areia, e sabidamente ficou no camarote do Plaza. E nas cenas onde o chão tremia e o estrondo vibrava a sala, ele derramava a areia lá de cima, e quem tava embaixo se entusiasmava tanto com a novidade tecnológica que imaginava até um tremor de verdade, já que alguns gritavam coisas do tipo “o cinema vai cair!” ou “essa porra tá desabando mesmo!”, pra deleite de meu colega. Nisso James Cameron não pensou.
Mas isso tudo é passado e obsoleto frente aos recursos digitais dos filmes atuais. Esse meu colega já deve ter se aposentado, e a maioria dos cinemas citados nem mais existem, sendo ocupados por lojas de calçados ou agências bancárias. Com exceção do Municipal, que ainda passava filme, mas de um gênero njo qual o efeito “4D” que pode ser proporcionado é uma bela duma esporrada na cara, algo bem fácil de acontecer, dado o tipo de espectador dessas películas…
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