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Em Busca da Batida (de limão) Perfeita

Já falei sobre o zen e a arte de preparar caipirinhas em outro papo um dia desses, e frisei que um aspecto importante da receita seria a cachaça, e rechacei de imediato algumas marcas tradicionais. Nada de criar polêmica, mas cachaça industrializada dificilmente superará em qualidade e paladar uma boa cachaça artesanal, seja para se fazer caipirinha ou para tomar pura, mesmo. E algumas industrializadas fazem questão de não serem um primor de produto. E só são boas idéias na cabeça de algum publicitário que nunca teve que vomitar as entranhas no dia seguinte por overdose de água de Pirassununga.

Tomou cachaça industrializada...
Cachaça já foi sinônimo de bebida ruim e de péssima qualidade, já que o público para o qual era voltado normalmente era de baixíssima renda e que queria encher a cara com o menor custo possível sem se preocupar com frescuras, como qualidade do produto, bafo de onça ou nível de ressaca próximo à morte, por exemplo. Mas os produtores de cachaça resolveram investir na melhora do produto, tanto na qualidade quanto na imagem junto ao público, e hoje a bebida já goza de excelentes marcas e de um marketing bem favorável, a ponto de preocupar os produtores de run, principal concorrente da cachaça no mercado internacional. Hoje a cachaça mineira é bem famosa, mas cobra o preço dessa fama.
Na minha terrinha, pela última vez que conversei com meu consultor para

...e teve uma ressaca de matar!
assuntos cachacísticos, a quantidade de marcas da branquinha no comércio girava em torno de 300. Sim, trezentinhas. Todavia, com registro (aquelas com lacre do Ministério da Fazenda na tampa) só deveria ter umas 50. E como os mineiros, os produtores paraibanos vem investindo bastante emqualidade e divulgação de seu produto, com ótimas marcas no mercado, como a Serra Preta, Serra Limpa, Rainha e Cigana.
Mas cachaça boa mesmo é aquela que a gente apanha direto do alambique. Lembro das vezes em que, quando viajava profissionalmente pelo interior do Estado, acabava me embrenhando no meio do mato em busca dessas fontes artesanais de água que passarinho (nem o do twitter) bebe. De certa forma parecia uma aventura quase clandestina descobrir essas paragens, onde dava para se conseguir um bom produto por um preço mais que honesto, com direito a degustação preliminar em canequinho (de madeira ou de lasca de côco seco) e uma boa conversa com o dono do pequeno alambique. E nessas é que descobri que a tão endeusada “cana de cabeça”, na realidade é a primeira leva da destilação do produto, que contém impurezas e possui péssima qualidade. A boa cachaça deve ser o “corpo”da produção, que deve descartar a “cabeça”e o “rabo”. Boa cachaça é saborosa e tem aroma agradável, não queimando na garganta e nem provocando rebordosa homérica. E melhor ainda se envelhecida em barris de boa madeira. Envelhecida dois anos então, é melhor do que uísque.

Essa sim é da boa!
Lembro que ao iniciar na profissão de técnico, costumava atender um engenho nos arredores de Santa Rita, a poucos quilômetros de João Pessoa, para com sertar uma pequena central PABX. Logo na primeira visita saí de lá com duas garrafas de cachaça presenteadas pelo pessoal de lá. Não é das minhas marcas preferidas, mas a este preço… Fora que naqueles tempos eu só não bebia acetona pra não tirar o esmalte dos dentes. E obviamente, depois que meus colegas e chefia descobriram isso, nunca faltou “voluntário” para me dar carona a estes atendimentos técnicos. E nos posteriores empregos nos quais precisava viajar, oportunamente aparecia uma boa alma pra compartilhar do “segredo” de onde comprar uma branquinha, principalmente nas cidades do Brejo paraibano. E atendimentos em lugares como Sapé, Guarabira, Areia, Bananeiras e Solânea tinham o “plus a mais” dessas visitas etílicas, onde parte da diária de convertia em alguns litros de cachaça “para uso medicinal”.

Pode tomar que garanto que essa é da boa!
Com o tempo deixei a vida de turista acidental, mas sempre que possível dava pra encomendar a um colega samaritano em viagem a estes locais privilegiados. E na falta desses, sempre dava uma escapulida à Cachaçaria Philipéia, onde o proprietário, cujo nome infelizmente esqueci por pura amnésia alcoolica, acho que é Roberto, além de fornecer cachaça trazida diretamente de algum desses alambiques, compartilhava seu vasto conhecimento sobre o assunto, em um ambiente bem freqüentado e de aparência deliberadamente rústica. Acompanhado de um caldo de peixe ou mocotó, ou ainda de algumas frutinhas.

Cachaçaria Philipéia, o templo da perdição etílica (Foto de Sarah Falcão, clique na imagem para ir a seu álbum)
Como no momento estou aqui no interior de São Paulo, preciso descobrir quais as boas cachaças que tenho a mão. Observei que pela proximidade com Minas Gerais, há algumas marcas mineiras disponíveis nas prateleiras. Preciso começar a descobrir alguma boa substituta para minhas brejeiras paraibanas, e a um preço honesto. Porque ainda não estou mijando ouro em pó para pagar quase trezentas pilas numa garrafa de Anísio Santiago. Há outras marcas mais conhecidas disponíveis as quais já tive oportunidade de bebericar, como a carioca Nêga Fulo e a paulista Sagatiba, as quais não são ruins, mas tem um sabor bem diferente das cachaças as quais apreciava lá pras bandas da Paraíba. Mas claro que já estou cavando alguma amizade que conheça essas paragens e algum bom alambique. Mas isso parece quase tão difícil quanto conseguir um fornecedor de drogas ilícitas.
No momento estou iniciando essa epopéia provando umas doses de uma garrafa a mim presenteada por um colega de trabalho chamada “Villa Velha” (a cachaça, não o colega). Com certeza á melhor que 51, 21 ou qualquer coisa oriunda de Pirassununga com número e não nome no rótulo. Mas perseguirei minha busca, nem que morra (de cirrose) tentando. E quem estiver aí em João Pessoa, dê uma passadinha na Cachaçaria Philipéia e tome uma por mim
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