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Por um Punhado de Latinhas

Nota do Blodegueiro:Semana passada tive um estranho sonho cujos pormenores são muito lisérgicos pra relatar, mas em uma parte dele me vi em uma loja diante de uma edição especial de CD do Celso Blues Boy com capa de couro e outras cositas. No sonho acabei não comprando porque custava mais de setenta pratas – até em sonho continuo sovina – mas serviu para resgatar a lembrança do artista e um texto inconcluso na minha pasta de pendências. E qual a minha surpresa ao pesquisar no dia seguinte e descobrir que, após um longo hiato de doze anos, há um disco novo dele na praça, intitulado “Por Um Monte de Cerveja”. Regozijado pela novidade e pela intervenção divina de algum santo da Igreja de Eric Clapton que me “avisou” desse retorno, e aproveito para finalmente apresentar aos frequentadores dessa Blodega aquele que é considerado o pai do Blues com sotaque brasileiro.
No meio daquela orgia musical do Rock Nacional da primeira metade dos anos 80, quando alguma banda nova, normalmente influenciada pelo Punk ou pelo New Wave, era lançada ao sucesso a cada semana graças a algum clipe tosco exibido no “Fantástico” ou pagando jabá no “Cassino do Chacrinha”, o Blues até que tentou – e conseguiu – um lugar ao sol no Hit Parade brazuca, nem que fosse através de seu filho bastardo mais famoso, o Rock’n’Roll. E quem deu nosso sotaque a este Rock com cheiro de Blues Elétrico foi o guitarrista carioca Celso Blues Boy, cujo nome artístico é uma homenagem à B.B King, seu ídolo confesso e com quem já tocou.
Na estrada desde os anos 70 acompanhando artistas conhecidos como Raul Seixas, Sá & Guarabira e Luiz Melodia, Celso foi guitarrista nas bandas Legião Estrangeira e Aero Blues antes de ter a chance de lançar seu primeiro álbum por uma grande gravadora em 1984, “Som na Guitarra”, cuja faixa “Aumenta que Isso Aí é Rock’n’Roll” se tornou um sucesso naqueles tempos. Outras músicas desse disco se tornariam conhecidas e constantes em seu repertório: ”Blues Motel”, “Fumando na Escuridão”, “Tempos Difíceis” e “Brilho da Noite”. No decorrer dos anos 80 outras músicas de sua discografia se tornariam conhecidas do grande público de então: “Marginal”, “Damas da Noite” e “Sempre Brilhará”.
No início dos anos 90, grava seu primeiro disco ao vivo, porém o mercado fonográfico dessa década não é nada generoso com o velho rock brazuca, que é relegado às prateleiras empoeiradas para dar espaço à música sertaneja e ao axé music. Mesmo em um cenário pouco favorável lança os álbuns “Indiana Blues”, “Nuvens Negras Choram” e “Vagabundo Errante”, que contém poucas inéditas misturadas a regravações de seus sucessos com outros arranjos e alguns covers. Meu disco preferido é exatamente o “Nuvens Negras Choram”. Nesse disco, Celso soa mais gutural em sua voz, e a execução das músicas está excelente. Além de ótimas inéditas, como a música que dá título ao disco e “Sucata”, há uma revisita mais lenta, melódica e – por que não dizer – melhor a duas de suas mais conhecidas músicas, “Brilho da Noite” e “Fumando na Escuridão”, além de dois covers, um de “Bring it on Home to Me” e o outro do clássico de Cartola, “As Rosas Não Falam”, que ficou excelente nesse formato. No geral, este disco é menos festivo e mais melancólico e melódico, se comparado aos de sua discografia da década anterior.
Durante os anos 2000, o guitarrista não lançou nenhum disco de estúdio e se estabeleceu em Santa Catarina, afastando-se das gravadoras, porém mantendo uma agenda de apresentações. Ainda gravaria um CD e seu primeiro DVD ao vivo em 2008, “Quem Foi que Falou que Acabou o Rock’n’Roll”, provando que dinossauro que anda ainda faz o chão tremer.
Vivendo em Joinville nestes últimos anos, ele pode se dedicar a compor e criar novos arranjos sem a urgência de gravar e lançar novos trabalhos. Pelas informações dos releases e entrevistas concedidas, Blues Boy explica este longo hiato como uma maneira de tentar recuperar o frescor da época de lançamento de seu primeiro álbum, fugindo das pressões oriundas das gravadoras e do cenário artístico carioca, que por vezes o fazia entrar em estúdio meio que a contragosto.
Todavia, Blues Boy “culpa” o vocalista Tico Santa Cruz, da banda Detonautas, por arrancá-lo desse exílio auto-imposto, pois em um encontro casual, o jovem roqueiro e fã confesso do trabalho de Celso o convenceu a voltar a gravar, usando sua banda como apoio, e cujo resultado é o CD “Por um Monte de Cerveja”, lançado há algumas semanas, sendo seu primeiro trabalho em estúdio após longos 12 anos.
O resultado é um disco bem-humorado e contagiante, com letras por vezes irônicas ou melancólicas, acrescidos de ótimos solos de guitarra, e corre o risco de tomar o lugar de “Nuvens Negras Choram” como meu preferido. A música-título, onde predomina o piano na introdução, é forte candidato a se tornar o hino oficial de muito conhecido meu. Há ironia de sobra em “Odeio Rock’n’Roll” e “A Vida Faz Mal à Saúde”, e uma gozação misturada com homenagem na divertida “Beth Carvalho Quer Comprar o meu Fuscão”, cuja letra faz referência a música “Coisinha do Pai”. Há tons mais tristes e uma gaita que remete a Neil Young em “Ele Sabia que as Luzes se Apagam”, uma levada Country em “Toneladas de Solidão” e uma homenagem nostálgica a cidade de Blumenau, onde foi criado, em “Conversando com Horácio Braun”. Ainda estou digerindo as 13 faixas, mas posso garantir que gostei bastante, já que o escuto ad nauseaum há dias e não consegui enjoar. Au contraire. E para quem quiser apreciar sem moderação, no site oficial as faixas do álbum estão disponíveis para ouvir on-line, e abaixo deixo para ouvirem “Por Um Monte de Cerveja”, que aconselho ouvir regado com sua cerveja preferida. Com sorte, seu vizinho gritará “Aumenta que isso aí é Rock’n'Roll, porra!”
Eric Clapton: Back (in your) Home

Dicas de excelentes DVD’s ao vivo do deus da guitarra
Após 10 anos desde sua última passagem pelo Brasil, o guitarrista inglês Eric Clapton vai arrastar sua carcaça veterana novamente por terras Tupiniquins nas próximas semanas. E como de costume quando grandes nomes da música pop aportam por aqui, o valor dos ingressos é de deixar preocupada a vida de qualquer fã, por mais que ele prometa não se preocupar mais na vida algum dia
Mas você não precisa negociar sua alma em uma encruzilhada com Robert Johnson para apreciar as músicas de Eric Clapton ao vivo. Caso você não tenha tempo ou grana para prestigiar aquele que muitos chamam de deus, não fique triste nem se zangue com o que vou lhe sugerir: assistir entre as diversas opções de shows ao vivo registradas em DVD. Com sorte, quem sabe você acaba se instigando e dando um jeito de ir vê-lo ao vivo e a cores.
E justamente por conta de sua iminente vinda, percebi nas últimas semanas uma maior oferta de títulos com Eric Clapton no título. Claro que há muita coisa oportunista e cuja qualidade não faz jus ao artista, com DVD´s com mero som Stereo e imagem de menor qualidade. Para garantir que sua grana – ou sua conexão de Internet – sejam bem empregadas, eis-me aqui com três dicas de DVD´s de apresentações ao vivo.
24 Nights
Esse é antigo e relativamente fácil de encontrar, inclusive em lojas de departamentos, e a preço bem convidativo. Justamente por ser um registro antigo, o som é apenas Stereo 2.0, e a qualidade da imagem (com aspecto 4×3) não é tão boa se comparada as mais recentes. Não obstante estas limitações técnicas, este DVD se destaca de outros registros mais antigos lançados em mídia digital, sendo seu primeiro álbum ao vivo desde 1980, e que abrange tanto sua faceta roqueira quanto a de bluesman. Produzida no início dos anos 90, a gravação contempla as apresentações de Clapton no Royal Albert Hall, em Londres. Durante as diversas noites que lá tocou, o músico foi acompanhado por 4 formações diferentes de músicos. Dessas formações, três foram bandas, denominadas “4 pieces”, “blues” e “9 pieces”, respectivamente. O quarto acompanhamento foi a National Philarmonic Orchestra regida pelo maestro Michael Kamen. Phil Collins aparece em algumas faixas ajudando na percussão. Também disponível em Cd Duplo.
One More Car, One More Rider
Coincidentemente esta foi a última turnê de Clapton que passou no Brasil, cujas músicas são uma mistura de sucessos antigos e do então lançado CD “Reptile”, cuja música-título é meio que uma homenagem a João Gilberto, e à época Clapton declarou sua admiração pelo trabalho do artista brasileiro.
E falando em “Reptile”, ele merece um breve parêntesis. Este disco, lançado no início dos anos 2000, na minha modesta opinião foi um retorno à qualidade meio perdida nos lançamentos dos anos anteriores, nos quais Eric chegou a flertar hereticamente até com a música eletrônica no disco “Pilgrim”. Há músicas com levada blues e rock, bem como baladas mela-cueca. O disco inteiro tem canções legais, com aquelas letras simples e sem muitas firulas. ”Got You On My Mind”, “Superman Inside” e a minha preferida “Broken Down” são músicas que não cansei de ouvir até hoje. Há até um excelente cover de James Taylor, “Dont’t Let me Be Lonely Tonight”. Está entre os meus preferidos, ao lado do velho “Slowhand” e do excelente e mais recente trabalho “The Road to Escondido”.
Mas voltemos ao DVD, que registra a turnê mundial de “Reptile”, que seria a última de Clapton conforme ele declarara. E como sabemos, ele não cumpriu sua promessa, para satisfação dos seus acólitos. Infelizmente não tem “Broken Down”, porém as mais de duas horas de música compensam, incluindo as clássicas de sua carreira – sem trocadilhos, please – como “Cocaine”, “Wonderfull Tonight”, “Tears in Heaven” e “Layla”, com uma banda excelente.
E falando em “Layla”, após esta faixa a banda some do palco sem maiores explicações e retorna logo depois para tocar as últimas faixas. Minha esposa costuma fazer pilhéria com este fato, comentando que Eric e a banda vão tomar algum “estimulante”, e que o finado tecladista Billy Preston exagera na dose, já que na faixa seguinte ele está bem mais entusiasmado do que todos os demais integrantes enquanto canta a música de sua autoria “Will It Go Round In Circles“. Mando-a parar de maledicências e explico que esta música é a mais conhecida dele, o que justifica seu entusiasmo, e que pare de pensar besteira…
Por ser um registro mais recente, este claramente tem a vantagem de ser tecnicamente melhor trabalhado do que os lançamentos mais antigos em termos de imagem e som. A qualidade da imagem está ótima, em formato 16:9, e o som DTS o fará se sentir no próprio show ao vivo. Quando lançado era bem fácil encontrar o CD e o DVD, e ainda hoje ainda dá para encontrá-lo em lojas on-line brazucas com relativa facilidade, e com sorte até por um precinho razoável (hoje mesmo eu o vi em uma Saraiva por menos da metade do preço que paguei). Só não me pergunte o que diacho o símbolo do Linux Ubuntu está fazendo estampado em uma das guitarras Fender que Eric usa durante o show (viu, alan geek?)…
Crossroads Guitar Festival 2010
Há alguns anos Clapton criou a fundação Crossroads para a reabilitação de viciados em drogas, uma alusão clara a sua dependência que o acometeu e quase afunda sua carreira nos anos anteriores, e frequentemente promove shows e leilões para arrecadar grana para esta fundação. E uma dessas iniciativas é o Crossroads Guitar Festival, que reúne diferentes monstros da guitarra, incluindo o próprio, e contemplando diversos estilos de blues e rock. Há registros em DVD dos três festivais que ocorreram em 2004, 2007 e 2010. O último, realizado em Chicago, o berço do Blues Elétrico, está disponível nos formatos DVD e BD, ambos duplos. Para quem aprecia o estilo, o show é um desfile de veteranos, como Robert Cray, Buddy Guy, Jimmie Vaughan, Johnny Winter e Jeff Beck, junto com novos talentos, como o John Mayer Trio, além de rostos mais conhecidos do pop, como Sherryl Crown e os barbudos do ZZ Top. E o veterano ator Bill Murray faz às honras como um bem-humorado mestre-de-cerimônias
E quando eu uso o termo “veteranos” não é exagero, já que o não tão novo Clapton parece um menino, se comparado a seus colegas mais “experientes”, com alguns precisando até de oxigênio ou cadeira de rodas!
Na última música, o lendário B.B King dá as caras para cantar “The Thrill is Gone” em uma Jam Session com Clapton, Cray e Vaughan. Mesmo octogenário e trazido ao palco em cadeira de rodas, o dono da Lucille dá sua palhinha e ainda contribui com sua anuência a cada solo de seus colegas, como se aprovasse suas técnicas. Por fim, todos que participaram do festival entram no palco para fechar com estilo a noite.
Por aqui você consegue encontrar o DVD ou o BD em lojas especializadas ou em lojas on-line, mas por ser importado, o preço é bem salgado. Vez por outra o BD entra em promoção na Amazon inglesa, e acaba sendo mais vantagem pedi-lo, e os prazos costumam ser mais céleres do que a loja americana, podendo levar de 10 a 15 dias. E nesses dias devido a “frebre Clapton”, os DVD’s das duas edições anteriores também podem ser encontrados com relativa facilidade em lojas especializadas.
Minha parte eu já fiz. Agora cabe a você providenciar o Bourbon ou a cerveja e curtir com os amigos que compartilhem dessa mesma devoção.



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