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Não Cometa Essa Loucura!

No auge do revival dos anos 80, nós fizemos um artigo sobre os motivos para esquecer aquela década, e reeditamos aqui. Mas havia um motivo mais forte que todos : a passagem do cometa Halley. Nada contra cometas, mas esse cometa em especial trouxe mais do que poeira das estrelas.
Momento “Cosmos”
A propósito, vocês sabem o que é um cometa? Bem, antes que corram para a Wikipédia, uma rápida explicação. Cometas podem ser considerados fragmentos que sobraram durante a formação dos planetas do sistema solar. Tais fragmentos acabaram agrupados em dois grandes cinturões, o cinturão de Oort, localizado bem nos cafundós do sistema solar, e o cinturão de Kuiper, mais pertinho, logo ali após a órbita de Netuno. Basicamente pedaços de poeira e gelo, vez por outra alguns desses fragmentos são tirados de seus respectivos cinturões e acabam entrando em uma órbita elíptica em torno do sol. A cauda se forma ao se aproximar do sol, cujo calor acaba vaporizando seu material, e o chamado “vento solar” cuida de soprar este material e formar a sua característica cauda.
Desde os tempos antigos, a súbita aparição de um desses no céu era considerado de mau agouro, e muitos acontecimentos catastróficos ficaram associados à ocorrência de cometas.
Na idade média, os observadores dos céus acreditavam que este era imutável, e que fenômenos como meteoros e cometas seriam essencialmente atmosféricos. Só a partir do século XVI, com o dinamarquês Tycho Brahe, é que os cometas foram considerados fenômenos celestes. Copérnico já tirara a Terra do Centro do Universo, e depois de Brahe, Kepler e Newton completaram o conhecimento astronômico. Kepler imaginava que os cometas seguiam em linha reta, e que nunca voltavam. Newton, o menino criado por vó, e seu amigo Edmund Halley é que acabaram concluindo que, como os planetas, os cometas eram corpos celestes que seguiam em órbitas regidas pelas leis da gravitação universal. Halley provou que o cometa que apareceu em 1682 era o mesmo que aparecera anteriormente em 1607 e 1531. Calculando o período de sua órbita em 75 anos e meio, previu sua volta para 1758, obviamente acertando. Esse cometa seria batizado de Halley.
Mas essa iluminação científica não tirou o verniz supersticioso em torno da aparição dos cometas. Aliás, a separação entre ciência, religião e superstição ainda demoraria muito a se concretizar, e as aparições dos cometas ainda despertavam pânico entre as pessoas. Bem, desgraça acontece o tempo todo, reis caíam, pestes surgiam, terremotos devastavam cidades, e a aparição de um cometa não tinha nada com isso.
Na aparição do Halley em 1910, alguns apressados disseram que sua cauda entraria em contato com a atmosfera terrestre, e como esta supostamente conteria cianogênio, se temia o envenenamento da atmosfera. Algum escroto aproveitou e vendeu comprimidos e máscaras de gás como se vende bolo em feira. Claro que ninguém comentou que os traços de cianogênio eram muito pequenos para oferecerem perigo. Pelo menos naquela época, o cometa ofereceu um senhor espetáculo no céu, e a exploração comercial deve ter se limitado à venda de máscaras e comprimidos.
E Lá Vem o Golpe!
Eis que o cometa estaria previsto para voltar em 1986. Dessa vez dificilmente alguém entraria em pânico o suficiente para comprar máscaras e comprimidos. Mas havia muitas maneiras de se ganhar dinheiro com o cometa. E o melhor, sem pagar direitos autorais ao astro celeste.
Por isso, desde 1985, os meios de comunicação foram invadidos e bombardeados pelo cometa Halley. Pelo menos aqui no Brasil, a TV Globo capitaneou um esquema de merchandising pesado, o que envolvia programas de TV diários com informações científicas, especiais do Globo Repórter e atrações infantis relacionadas ao Halley.
Na linha infantil, se criou personagens baseados no Halley, a Família Halley, que era um grupo de exploradores espaciais, em sua maioria oriundos do planeta Hydron, cuja civilização era tecnologicamente avançada, mas que foi dizimada por uma guerra nuclear. Do planeta sobrara apenas a sua calota polar, a qual se tornou o cometa Halley. Como únicos sobreviventes, eles passaram a acompanhar a trajetória do cometa pelo universo, e fizeram contato com o planeta Terra, com o qual se identificaram, tanto que resolveram adotar o nome que os terrestres deram ao cometa. Em sua missão pelo universo, eles procuravam passar uma mensagem alertando para o risco das guerras e da degradação ao meio ambiente.
Na época, a Globo exibia especiais infantis, que narravam histórias intercaladas por números musicais. Um desses especiais foi “A Era dos Halley”, exibido na semana da criança de 1985. Nele, a Família Halley chegava a Terra e tentava passar sua mensagem de paz e ecologia a três crianças. Como era de praxe, grandes nomes da música brasileira cantavam as músicas desse especial. Uma curiosidade é ver Renato Russo e o Legião Urbana interpretando a música “O Senhor da Guerra” como personagens “do mal”. Essa música ficaria conhecida entre os fãs da banda, pois foi regravada com outro arranjo no disco “Música Para Acampamentos”.
A mascote da Família Halley, o robô Halleyfante (na realidade interpretado por Ferrugem), se tornou personagem fixo no programa infantil Balão Mágico, além de virar brinquedo, para alegria da meninada e desespero dos pais, já que era caro pra cacete! Mas havia Halley para todos, estampando capas de caderno, álbuns de figurinhas, iogurtes, lunetas e binóculos, e tudo mais que o merchandising poderia alcançar.
No final daquele ano, a Editora Abril lança a revista mensal “A Era dos Halley”, contando as aventuras da família passando por diversas civilizações. O roteiro das histórias era escrito por Luiz Antônio Aguiar, e os desenhos ficaram a cargo de Roberto Kussumoto. Além das histórias, textos de informação sobre cometas ocupavam algumas páginas, cuja autoria era do Dr. Ives do Monte Lima. Também se anunciou a produção de um longa-metragem para o cinema com a Família Halley, em clima de superprodução, para os padrões do cinema brasileiro.
Mas a alegria (dos vendedores) durou pouco. A aproximação do cometa estava prevista para o fim de 1985 e idos de maio de 1986, quando o dito puxaria o carro para a casa do chapéu para voltar apenas em 2062. Não obstante toda informação científica divulgada pela imprensa nesses dias, só um detalhe foi omitido ou pouco evidenciado: ao contrário da última aparição de 1910, o cometa passaria a uma distância grande da Terra, e mesmo em seu momento mais próximo de nós, o espetáculo não seria essas coisas todas. Como não foi. Só era possível ver o puto com tempo bom, em um senhor telescópio, o que não deveria ser o caso daquelas lunetas de brinquedo vendida aos montes. E mesmo assim, não era lá um grande espetáculo, pelo menos para o grande público, que deveria estar esperando uma verdadeira apoteose celeste devido à divulgação maciça. Pensem em uma decepção da porra. Todo mundo ficou com cara de cu, se sentindo enganado pelos marqueteiros do Halley. Claro que se ainda havia algum produto com a marca Halley, esse encalhou bonito. Incluindo a revista da Abril, que durou menos de dez números. E filme, que é bom, nunca mais ouvi falar. Provavelmente caiu no mesmo sumidouro que a produção de “Chatô”.
Concluindo…
Mas nem tudo tava perdido, e naquele ano de 1986 haveria Copa do Mundo. Mas não preciso dizer que, pelo menos no Brasil, a galera quebrou a cara de novo…
Ágora

O Fim de uma Era e o Início da Idade das Trevas
Vi pela primeira vez sobre a fascinante e trágica história da destruição da biblioteca de Alexandria e a morte de sua última guardiã no livro “Cosmos”, de Carl Sagan, mais especificamente no capítulo “Quem Responde Pela Terra?”, onde o cientista apresenta a cidade de Alexandria como o centro cultural do mundo antigo, cuja biblioteca continha o repositório de todo conhecimento humano acumulado desde a sua fundação, três séculos antes de Cristo,nas cinzas do império de Alexandre, o Grande, cujo general Ptolomeu assumiu a parte do Egito e originou uma dinastia que se findaria com a célebre rainha Cleópatra. A biblioteca, além de conter cópias de preciosos documentos científicos e artísticos, encorajava a busca pelo conhecimento, incentivando o pensamento lógico. A título de exemplo, não deixa de ser assombroso sabermos que, centenas de anos antes de Cristo, um sábio chamado Erastótenes conseguiria, usando apenas o raciocínio lógico, sombras e um desocupado que contasse a distância entre Siena e Alexandria em passos, conseguiria medir a circunferência da Terra com espantosa precisão. Mesmo quando o Império Romano estendeu seu braço para o Egito, a biblioteca manteve seu trabalho, coletando informação e formando pensadores. Infelizmente, nos anos em que o Império Romano se desfazia e o cristianismo ascendia para formar a poderosa igreja de Roma, séculos de saber acumulado foram carbonizados. Perdeu-se muito em ciência e cultura. Das pouco mais de cem tragédias de Sófocles, apenas sete chegaram aos nossos dias, e o conhecimento em astronomia foi retomando apenas durante o Renascimento.
Tão trágico episódio da história ganha uma versão cinematográfica nas mãos do talentoso diretor espanhol Alejandro Almedábar no recente filme “Ágora”, lançado ano passado na Espanha, trazendo a premiada atriz Rachel Weisz no papel da filosofa Hipátia. O filme mostra, na primeira parte, Hipátia ensinado filosofia e discutindo teorias sobre a movimentação dos astros, despertando a atenção e afeição dos homens, mas ignorando as investidas para dedicar sua vida à busca do conhecimento. Mas não é exatamente uma época boa para se mostrar erudição, principalmente se você for mulher, em pleno crescimento do movimento cristão afrontando as crenças milenares dos egípcios em Alexandria, numa crescente tensão que culmina em uma insurreição sangrenta e na destruição do acervo da biblioteca. Mesmo com os líderes da cidade aderindo à nova religião, Hipátia ainda consegue manter seus estudos, mas as tensões aumentam, com as facções cristãs mais extremadas gaugando o poder e perseguindo seus antagonistas, iniciando com os sacerdotes até um clímax inevitável.
O roteiro, escrito pelo próprio diretor, parece fazer pequenas concessões para tornar a história mais palatável ao público em geral, sendo o mais visível o destino de Hipátia, que é “amaciado” no filme, poupando o espectador de testemunhar a morte horrível descrita pelos registros históricos. Há uma tensão romântica por parte de alguns personagens, como o governador romano Orestes e o escravo Davus, ambos apaixonados e encantados pela personalidade forte de Hipátia, que renuncia à eventuais romances e casamentos em prol de sua ciência e filosofia. Mas isso não chega a atrapalhar o filme. O diretor usa um recurso narrativo interessante para intercalar algumas partes do filme, afastando a câmera até o espaço, onde vemos o planeta flutuando no infinito e a cidade de Alexandria como um pequeno ponto no globo, mostrando simultaneamente aquilo que Hipátia buscava e a insinificância da cidade perante o universo. Rachel Weiz está ótima como Hipátia, e nós nos pegamos torcendo para ela desvendar os mistérios sobre as órbitas celestes tanto quento torceríamos para qualquer mocinho desvendar um segredo que nós já sabemos de antemão, tendo ela pouquíssimas ferramentas à disposição, além do seu próprio raciocínio lógico. Na história, Almédabar especula sobre uma possível descoberta de teorias heliocêntricas e órbitas elípticas, algo que se revelaria verdadeiro, mas que só viria a ser provado e aceito quando Johannes Kepler criou suas três leis no século XVII.
Os cristãos mais ortodoxos podem se ofender e achar que o filme é uma propaganda anticristã, mas é tão anticristão quanto qualquer filme que
fale sobre a inquisição ou caça às bruxas. O filme critica mais a intolerância e a ignorância humanas do que uma religião específica. Mas claro que qualquer religioso fundamentalista não se sentirá à vontade ao ver a palavra de Deus sendo usada para queimar conhecimento e lançar a humanidade na obscuridade. O filme conseguiu me comover mais do que algum melodrama apelativo e açucarado, e garanto que qualquer um que admire e aprecie o conhecimento e pensamento humanos irá lamentar os atos cometidos no passado e relembrados por Almédabar.
E voltando à “Cosmos”, a mais chocante observação de Sagan a respeito desse episódio é que, apesar de hoje virmos quão trágico e relevante ele foi, a época praticamente não houve ninguém entre a população que pranteasse a queima do acervo e a inexorável trajetória da história humana rumo à era das trevas. Sagan atribui isso ao fato de que o conhecimento acumulado e desenvolvido ali pouco ou nada tinha com o povo, que não usufruiu de nenhum benefício ou conhecimento advindo da biblioteca e de seus sábios, o que os deixou totalmente indiferentes ao fatídico destino. Hoje, em uma perspectiva histórica, podemos dimensionar a extensão do episódio, cuja consequência maior foi uma estagnação de praticamente mil anos, já que o conhecimento humano só retomou os trilhos fixados naqueles tempos muitos séculos depois, quando nomes como Copérnico, Giordano Bruno, Galileu Galilei e Kepler arriscaram o próprio rabo para fazer avançar a ciência. Podemos apenas especular como estaria o desenvolvimento do saber humano hoje se tal conhecimento não tivesse sido destruído, E se Newton humildemente afirmou que enxergou tão longe porque se debruçou sobre o ombro de gigantes, nada mais justo do que colocar Hipátia entre tais gigantes.
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