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Histórias dos Quadrinhos que Não estão no Gibi – Parte 1

Quem realmente curte história em quadrinhos e os acompanha há um bom tempo conhece, por vias diretas ou indiretas, alguns aspectos e detalhes do mundo editorial, de como esta arte evoluiu ao longo das décadas, deixando de ser diversão descartável para adquirir status de arte respeitável. Mas para aqueles que não conhecem a história ou são curiosos por mais detalhes sórdidos, por assim dizer, há bons livros no mercado que abordam competentemente o tema. Destaco dois títulos em especial, os quais já li, mesmo que tardiamente, mas que poderia rotular de “obrigatórios” para todo amante da arte sequencial que quer se aprofundar mais no assunto.
Primeiro, falemos da origem de tudo, que é os Estados unidos, onde a indústria dos quadrinhos se tornou uma peça importante na bilionária estrutura dos conglomerados que produzem entretenimento. O ex-roteirista de quadrinhos Gerard Jones caiu em campo e executou uma senhora pesquisa para desvendar a aurora das editoras. E correndo contra o tempo, já que como bem disse Stan Lee, muitos dos que testemunharam esse início já beiravam idades avançadas, respeitáveis senhores octogenários, nonagenários e até centenários que poderiam levar muita informação para o túmulo.
Mas Gerard Jones conseguiu fazer uma excelente reconstituição da cena do crime em seu livro “Homens do Amanhã”. Mesmo abordando a história até praticamente os anos 00, a foco principal é entre os anos 30 e 50. Para contar a gênese dessa indústria bilionária, o fio condutor da narrativa é um assunto até hoje espinhoso no meio editorial: a luta pelos direitos do personagem Super-Homem, o primeiro super-herói e fulcro de uma das maiores editoras do gênero, a atual DC Comics, que faz parte do conglomerado AOL-Time-Warner. Originalmente criado por dois jovens judeus, Jerry Siegel e Joe Shuster, o personagem rendeu uma fortuna aos editores da DC, enquanto os criadores lutavam por migalhas na justiça. Partindo de um manifesto à imprensa escrito por Siegel nos anos 70, quando ele e seu colega mal ganhavam o suficiente para se manter enquanto a Time-Warner se preparava para produzir “Superman-O Filme”, Gerard volta bem no passado, para contextualizar a história, tecendo detalhes sobre a geração de judeus imigrantes que tomou de assalto os bairros pobres das grandes cidades americanas. Isso é importante, pois os grandes criadores, desenhistas e editores que viriam a ser tornarem famosos eram, em sua grande maioria, da geração de judeus que se estabeleceu nos States naqueles anos difíceis. E ao reconstituir a história de muitos desses personagens, se descobre detalhes absurdos, bizarros e por vezes nem um pouco lisonjeiro à “lenda pessoal” de muitos desses ícones.
O absurdo maior é saber que o alicerce das editoras e distribuidoras de quadrinhos que se tornaram gigantes editoriais foi cimentado com pornografia, literatura apelativa, contrabando de bebidas, financiamento do crime organizado, tapetão financeiro em sócios ou proprietários de empresas menores, processos judiciais por acusação de plágio ou pura e simplesmente pilantragem e safadeza. Não era incomum um dos fundadores da futura DC, Harry Donenfeld, estar associado a figuras como os gangsteres Frank Costello ou Luck Luciano. E era prática notória um empresário fazer pressão indireta em um concorrente através de seus credores, até que quebre e seja obrigado a vender seu negócio.
Do outro lado dessa equação estava um grupo de jovens socialmente desajustados cujo maior interesse comum eram as histórias de ficção científica de revistas como “Amazing Stories”., que criaram os primeiros “famdom’s”. Eles eram o que poderia se chamar de “nerds” ou “geeks”, caso os termos existissem naqueles tempos. Essa força criativa e jovem se tornou a mão-de-obra necessária às editoras, quando surgiu o promissor negócio de quadrinhos de super-heróis, e essa rapaziada devidamente influenciada pela literatura fantástica e as pulp magazine dos anos 30 começou a criar os heróis da chamada “Era de Ouro” dos quadrinhos, sendo o divisor e águas um personagem diversas vezes recusado e aproveitado quase que de improviso para protagonizar a revista “Action Comics” 1, um tal de Super-Homem. Depois de seu sucesso, uma enxurrada de super-heróis com superpoderes encheu as revistinhas, que eram vendidas aos milhões.
Enquanto desenha um retrato dessa época inicial do mundo dos super-heróis, Jones começa a destrinchar também a personalidade de alguns de seus criadores. Se Joe Shuster e Jerry Siegel eram tímidos e de uma ingenuidade enorme, outros como Bill Kane tinham malandragem de sobra. Este costumava terceirizar boa parte de seu trabalho a artistas anônimos, recebendo o crédito por todo o trabalho. O próprio Bill Finger, co-criador do Batman, em vida nunca recebeu o devido reconhecimento por sua participação nas histórias iniciais do Homem-Morcego. Kane também usou das armas que seus patrões costumavam usar, forçando a DC a renegociar seu contrato sob a alegação de que era de menor quando o assinara. Outros personagens foram pintados com tintas fortes, como Jack Liebowitz, o manda-chuva da DC durante décadas, responsável por dar um verniz sério e respeitável ao empreendimento e de manter com mão de ferro os direitos sobre os personagens criados para a editora. Mort Weisinger é visto como um manipulador, carrasco de seus subalternos e um malandro capaz de queimar o próprio amigo para lhe tomar uma função.
Gerard Jones acompanha com lupa esta indústria, desde o seu nascimento, passando pela II Guerra Mundial e o surgimento de revistas de Terror e Policiais, que temporariamente desbancaram os Super-Heróis da preferência popular até que a paranóia dos anos 50 trouxesse à tona as teorias do psicólogo Fredric Wertham e a sua “Sedução do Inocente”, colocando os quadrinhos nos bancos dos réus. Testemunha também surgir uma nova geração de super-heróis anos depois, tanto na DC quanto na concorrência, principalmente os que saem da mente de um rapaz que estava meio que por acaso nessas editoras e que atendia pelo nome de Stanley Lieber, mas que assinava suas criações como Stan Lee. O mercado muda, e o que era uma empresa fechada e familiar abre seu capital, e em poucos anos a DC se torna parte do grupo Time-Warner, chegando dessa maneira os nossos dias e sobrevivendo à perseguição de “especialistas” que insistiam que quadrinhos tornam os jovens mais tapados ou criminosos. Nesse ínterim, Siegel e Shuster processam a DC várias vezes, mas sem sucesso, até que o apelo mencionado no início do livro acaba caindo no conhecimento público, o que causa um certo alvoroço e trás algum resultado positivo, por pressão de muitos profissionais do ramo e do próprio público. Mas mesmo isso não conseguiu dar uma definição ao termo, e até hoje os herdeiros dos criadores do Homem de Aço ainda lutam na justiça contra a DC para reaver os direitos sobre um personagem mundialmente conhecido e que rendeu uma imensa fortuna aos donos de seus direitos nessas décadas todas. Decisões recentes favoreceram a esposa e filha do finado Siegel, mas ainda há muita água para correr sob a ponte.
Esse livro foi lançado no Brasil pela Conrad em 2006, mas acabei só lendo-o há poucas semanas. Em parte por desconhecer o tema abordado até pouco tempo, não obstante o título “Homens do Amanhã” ser uma alusão a um dos primeiros apelidos do personagem Super-Homem. Porém, boa parte dessa culpa eu posso atribuir à capa do livro. Alguém poderia me fazer a gentileza de explicar a relação dessa capa com o tema? Tudo bem que a capa da edição americana não é exatamente um primor, mas está diretamente relacionada ao assunto do livro. Imagino quantos leitores este livro ainda não tem devido a esta capa, digamos, equivocada…
(o resto desse artigo sai amanhã, para vocês não se empanturrarem com tanta informação)
Alguém Ainda Vigia os Vigilantes?

Entre setembro de 1986 e outubro de 1987, a DC lança a minissérie “Watchmen”, que acabou se tornando um clássico do gênero, e junto com outras obras como Cavalheiro das Trevas, redefiniu o gênero de super-heróis nos quadrinhos. Para se ter uma ideia de sua relevância e importância, ganhou diversos prêmios concedidos à indústria de quadrinhos, como o Kirby e o Eisner, além de ser a primeira obra em quadrinhos a receber o prêmio Hugo, destinado a obras de ficção científica, e estar incluído na lista dos 100 romances mais importantes do século XX elaborada pela revista Time.
Mas qual o segredo de uma história que, mesmo em um contexto tão diferente, consegue se manter ainda atual e com o mesmo impacto de quando lançado? Não há uma resposta fácil, e explorar todos os elementos dessa história não caberia nesse espaço. Mesmo assim, tentaremos explicar.
Leia Tudim... »
Planetary

É um mundo estranho, e eles fazem questão de mantê-lo assim.
O grupo Planetary se autodenomina “arqueólogos do impossível”, e é formado por três pessoas: Jakita Wagner, uma mulher dotada de força, resistência e velocidade sobre-humanas, além de um humor irascível; o Baterista, que tem o dom de interagir com qualquer sistema de informação, e Elijah Snow, um senhor nascido em primeiro de janeiro de 1900, uma das “crianças do século”, que segundo a concepção de Warren Ellis, são pessoas superdotadas e não afetadas pelo envelhecimento, quase imortais, que seriam um “mecanismo de defesa” produzido pelo planeta Terra. Elijah pode diminuir a temperatura de objetos e elementos com o poder da mente, mas seu principal talento é o de coletar e registrar o conhecimento oculto do século XX. Todos os três trabalham para o “quarto homem”, que supostamente financia a Organização Planetary, organização essa que possui escritórios e empregados por toda a parte do mundo. Inclusive no Brasil, que aparece no número 24.
A Organização Planetary objetiva justamente descobrir os fatos e fenômenos ocultos da humanidade. Mas contra eles está o perigoso grupo conhecido como “os quatro”, composto por pessoas que adquiriram poderes após uma viagem espacial. Seu líder, Randall Dowling, é um brilhante e maquiavélico cientista, que se tornou capaz de esticar diversas partes de seu corpo. Sua companheira Kim Suskind adquiriu o poder de gerar campos de força e de se tornar invisível. Jacob Greene foi transmutado em uma criatura disforme e fisicamente forte, e Willian Leather consegue gerar e controlar chamas. Qualquer semelhança com o Quarteto Fantástico não é mera coincidência. Essa é só uma das inúmeras referências que Ellis deliberadamente insere em suas histórias. Esse quarteto maligno objetiva justamente o oposto que os heróis do Planetary: descobrir e ocultar de todas as formas todo e qualquer conhecimento ou tecnologia que ajude a raça humana a evoluir.
A primeira aparição dos “arqueólogos do impossível” se deu em setembro de 1998 no nº 23 da revista Gen13, e teriam título próprio meses depois, em abril de 1999, numa série bimestral. Cada número normalmente possui uma história fechada em si, mas que forma uma trama maior na série como um todo. Essa é outra virtude da série, que ao contrário de outras séries de quadrinhos e TV, não enrola o leitor com arcos quase intermináveis e jogando migalhas de informação de forma quase aleatória. Tanto que o autor originalmente concebera que a série não teria mais do que 24 números. Porém Ellis resolveu dar uma “esticada”, e a série passou a ser concebida com 27 números. Desde 1999 até outubro de 2009 foram lançados os 27 números, sem uma periodicidade muito regular, já que entre 2001 e 2003 a série não foi publicada. Mas todas sob a batuta de Ellis e com a pena de John Cassaday, que garantiu um ótimo nível a série. O número 26 praticamente conclui a história, e o 27 é praticamente um epílogo, que resolve a única pendência que Elijah considera importante. A série saiu pelo selo Wildstorm, que atualmente faz parte do cast da DC Comics.
Além da série regular, o trio de arqueólogos apareceu em edições isoladas: um crossover com o Authority, outro com o Batman, onde Elijah e companhia confrontam diversas versões do Cavaleiro das Trevas, e um com a Liga da Justiça, onde o Planetary se torna o vilão da história à imagem e semelhança dos “quatro”, e versões do Batman, Super-Homem e Mulher-Maravilha é que precisam enfrentá-los. Essa última não tem qualquer relação com a cronologia oficial do grupo.
Um Poço de Referências
O grande trunfo da série é ser recheada de diversas referências a personagens do cinema, da literatura pulp, de ficção científica, dos quadrinhos e da vida real, algo tão magistral quanto o trabalho de Alan Moore na série “A Liga dos Cavalheiros Extraordinários”. A já citada versão maligna do Quarteto Fantástico é apenas uma das mais óbvias. Logo na primeira história, os três arrancam de um velho general a história de um brilhante cientista que, durante uma experiência, acidentalmente é transformado em um monstro. Isso deve lembrar aos leitores de quadrinhos um certo gigante esmeralda.
Já o primeiro número apresenta a versão de Ellis para diversos personagens da literatura Pulp americana, como Doc Savage, Fu Manchu, Spider e Tarzan. No número 2 faz menção aos monstros do cinema japonês da produtora Toho, como Godzilla, Gidorah e Mothra. O terceiro número é uma aventura em Hong Kong em busca de um espectro vingativo de um policial traído, que lembra os filmes de ação daquele país, principalmente os do diretor John Woo com o ator Chow Yun-Fat. No quarto surge o personagem Jim Wilder, que é transformado em um poderoso ser que lembra o Capitão Marvel da Fawcett Comics. Já os “Quatro” surgem no número 6. O número 7 é protagonizado por um mago claramente inspirado em John Constantine, e mostra praticamente todos os elementos das histórias da chamada “invasão britânica” que ocorreu nos quadrinhos americanos na segunda metade dos anos 80, como o Monstro do Pântano e Sandman, por exemplo. O número 8 lembra os filmes de ficção científica dos anos 50, protagonizado por uma jovem inspirada no visual de Marilyn Monroe. O 10 mostra três seres similares ao Super-Homem, Mulher-Maravilha e Lanterna Verde. Na edição 11 somos apresentados ao espião John Stone, uma mistura de James Bond com Nick Fury…
E por aí vai. Outros personagens aparecem como eles mesmos, como, por exemplo, o detetive Sherlock Holmes, que parece fazer parte de uma espécie de “Liga Extraordinária” ao lado do Drácula e outros personagens da literatura fantástica do século XIX, e se torna o mentor do jovem Elijah Snow. O autor de contos de terror H.P.Lovecraft também dá as caras em um crossover do Authority e Planetary. Mas não vamos entregar tudo de bandeja, para não privá-lo da diversão. Mas além das referências à cultura pop, Ellis é ótimo para compor diálogos e personagens. O que sai da boca deles é carregado de ironia e humor. E os conceitos apresentados nas histórias são criativos e ousados, misturando teorias científicas, misticismo e esoterismo.
Planetary no Brasil
No Brasil, os primeiros números de “Planetary” saíram junto com os primeiros números de “Authority” pela editora Pandora Books, que publicou cinco revistas em idos de 2002. A Devir lançou dois encadernados – “Mundo Estranho” e “O Quarto Homem” – reunindo os doze primeiros números da série. A editora Pixel publicou algumas histórias do “Planetary” na revista mensal Pixel Magazine, partindo do número 13. Mas para quem não tem nenhuma paciência para a instabilidade editorial do mercado brasileiro, é só dar um pulinho no fórum do FARRA e seus problemas estarão devidamente sanados.

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