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Pequeno Guia de Educação Nerd – Parte 1

- Seu filho ainda não assistiu a esse filme? Você não tem vergonha não?
Em suma, estou sendo rotulado de pai negligente por não dar a devida atenção à educação do meu filho mais velho. E quando falo em educação, é educação em cultura pop. Além de ouvir críticas aos meus métodos, ele ainda cata algum dos seus DVD´s e coloca o petiz para assistir a filmes, trilogias, tetralogias ou temporadas inteiras de velhas séries. Ele já se auto-proclamou padrinho cultural de meu filho.
Diante de tanta pressão, faço aqui um “mea culpa”, e infelizmente admito que delegara esta função educacional a velha “Sessão da Tarde”, e até imaginei que boa parte dos “clássicos” ainda fosse exibida nesse prestigiado horário, que aprontou altas confusões com suas reprises de ótimos filmes oitentistas que moldaram o caráter de um bocado de marmanjo. Mas os filmes que atualmente passam nesse horário eu não recomendaria nem para os meus piores desafetos. Não deixe seu filho a mercê da programação nefasta da TV aberta, nem tampouco nas mãos de alguma tia velha. O pobre pode acabar gostando de novela mexicana e reality shows toscos.
Por isso, em conjunto com o compadre Washington Alan, monto este pequeno guia educacional para que seu filho aprenda o básico da cultura nerd e que seja capaz de entender todo o referencial cultural que norteia boa parte das obras modernas, de filmes, quadrinhos, séries e desenhos animados. Como o material é vasto, foi luta selecionar apenas alguns tópicos para este breve texto, o qual muitos acharão bem incompleto, e corremos o risco disso gerar uma série de outros textos similares. Para não estender muito o assunto nesse primeiro artigo, nos concentramos em filmes e trilogias mais importantes, a grande maioria da década de 80, cujos anos praticamente formataram a cultura nerd contemporânea no cinema, tentando lembrar o que os inspirou e o que foi inspirado por eles, o que pode servir de “lição de casa”. Mas lembrem-se que é apenas um material introdutório para não iniciados. Se sobrar tempo e fígado, voltemos ao tema de forma mais profunda, digna de uma pós-graduação em nerdismo cultural.
Trilogia De Volta Para o Futuro
Viagens no tempo são mote para a ficção científica desde “A Máquina do Tempo”, de H.G.Wells, com histórias que sempre brincam com a possibilidade de mudar o passado ou vislumbrar o futuro, ora utópico, ora apocalíptico. Com 25 anos de lançado o primeiro filme da série, essa trilogia ainda consegue prender a atenção de jovens espectadores, como pude comprovar recentemente com meus dois filhos. As aventuras de Marty McFly e Doc Brown, viajando no tempo em um DeLorean tunado com um capacitor de fluxo e um reator nuclear – atualizado para um de fusão logo em seguida – carregam um apelo universal e, ao que parece, atemporal, com perdão do trocadilho. E após assistir a este filme, seu herdeiro terá aprendido alguns fundamentos sobre futuros alternativos e paradoxos temporais, além de descobrir a verdadeira inspiração de Chuck Berry para compor “Johnnie B Goode”, aprender a evitar ser paquerado pela própria mãe e a ignorar provocações gratuitas. E, por fim, terá a curiosidade atiçada para histórias envolvendo viagens temporais, o que nos leva a próxima sugestão.
Tetralogia O Exterminador do Futuro
Além de abordar o tema viagens no tempo de modo bem mais sombrio, a série de filmes retoma outro arquétipo da ficção científica: o temor que máquinas criadas pelo homem sejam responsável pela dominação ou aniquilação da raça humana, algo recorrente desde a peça de 1921 “Robôs Universais de Rossum”, de Karel Capek, que criou o termo “robô”. Desde e
ntão androides, robôs e computadores invariavelmente entram em choque com seus criadores. Cavocando outros filmes, podemos citar “Colossus:The Forbin Project”, de 1970, onde os EUA criam um supercomputador e lhe entregam o controle do seu arsenal nuclear, e a partir de então o computador coloca a raça humana como refém de seus desígnios. Todos estes temas voltam aglutinados em “O Exterminador do Futuro”, a série de filmes sobre um provável futuro distópico no qual as máquinas dominam o mundo e tentam eliminar o líder da resistência humana, John Connor, enviando androides ao passado para exterminar a mãe de John, Sarah, ou o próprio John ainda jovem. O primeiro filme, violento e com um final fatalista, digno de um conto de ficção científica, ganhou ares de superprodução em suas três continuações e uma série de TV- “As Crônicas de Sarah Connor” – com duas temporadas. Mas se não quiser entortar a cabeça do jovem logo de cara, ignore a série com seu samba do Terminator com bug e os quiprocós temporais que são acrescentados ao conjunto como um todo.
Depois de assistir a estes dois exemplos, seu filho já estará iniciado no tema viagens no tempo, paradoxos temporais e realidades alternativas. Em breve ele poderá assistir a filmes como “Efeito Borboleta” e “FAQ About Time Travel”, ficará fã de carteirinha do “Dr Who” e vocês dois estarão discutindo e tentando entender juntos filmes como “Donnie Darko” e “Primer”.
Guerra nas Estrelas
Praticamente um dos responsáveis pelo início da era dos Blockbusters, ao lado de “Tubarão”, de Spielberg, a saga criada por George Lucas em 1977 criou uma mitologia que não se limita ao cinema, se estendendo por praticamente todo tipo de mídia. Só no cinema são duas trilogias. Sua estrutura segue fielmente o arquétipo mitológico identificado pelo mitólogo americano Joseph Campbell, “A Jornada do Herói”, que é praticamente a matriz de todas as histórias de aventura. O sucesso da trilogia “Uma Nova Esperança”, “O Império Contra-Ataca” e “O Retorno de Jedi” foi tanto que, anos depois, o criador retomou a história e produziu mais três filmes – “A Ameaça fantasma, “O Ataque dos Clones” e “A Vingança de Sith” – que seriam cronologicamente anteriores à trilogia clássica. Ao assistir a queda e redenção dos Cavaleiros Jedis protagonizada pelo clã Skywalker, nosso padawan de cultura pop logo irá querer devorar
todo e qualquer material a respeito, e estará apto a entender uns 70% de referências e piadinhas contidas na maioria dos desenhos e filmes recentes, principalmente aquelas envolvendo a paternidade de Luke Skywalker. A dúvida é se devemos exibir os filmes na ordem em que foram lançados – já que o filme de 1977 seria o “capítulo 4” de uma grande saga – ou na ordem cronológica da história. Na verdade tem fã que preferiria ignorar a segunda trilogia por causa de um nome infame: Jar Jar Binks, e prefere passar a comédia “Fanboys”, cujo pré-reuisito é justamente assistir aos filmes da série para entender uns 97% das piadas e referências. Só tenha cuidado para que ele não siga o lado negro da Força e se torne um fã chato xiita da série e adepto da religião jedaísta – ou um tarado por mulheres em biquínis dourados acorrentadas. E lembre-se: Han Solo atirou primeiro!
Tetralogia Indiana Jones
Frustrado por nunca dirigir um filme de James Bond, Spielberg trouxe a vida em 1981 o personagem Indiana Jones, um arqueólogo em busca de relíquias e aventuras nos anos pré – II Guerra, um personagem que deu fama ao ator Harrison Ford. Em seu primeiro filme, “Os Caçadores da Arca Perdida”, Indiana vai à procura da Arca da Aliança, o artefato bíblico no qual Moisés guardou as tábuas dos 10 Mandamentos, lutando contra nazistas que também ambicionam usar o poder do objeto sagrado. Após o sucesso de bilheteria, seguiram-se mais dois filmes nos anos seguintes: “Indiana Jones no Templo da Perdição”, de 1984, e “Indiana Jones e a Última Cruzada”, de 1989. Desde então, qualquer filme com aventureiros em busca de tesouros é moldado sobres os clichês contidos nesses filmes, com direito a armadilhas clássicas no caminho para o tesouro e uma trilha sonora que chupa os acordes de John Williams. Lara Croft, dos jogos e filmes da série Tomb Raider, é um claro exemplo. E sempre que seu filho vir em um desenho ou série alguém fugindo de uma pedra rolando ou se desviando de setas envenenadas após meter a mão onde não devia já entenderá a referência.
Pode parecer incrível, mas a fonte de inspiração para tanta aventura e inverossimilhança, além dos velhos seriados exibidos nas matinês de cinema na era pré-televisão, são os quadrinhos de Tio Patinhas escritos por Carl Barks, cujo falecimento completou 10 anos em agosto último. Em tais aventuras, Tio Patinhas e seus sobrinhos Donald, Huguinho, Zezinho e Luizinho se metiam em busca de tesouros de civilizações perdidas nos rincões mais isolados do planeta. Estas histórias também inspiraram a série de animação dos anos 80, “Duck Tales”, e o quadrinista Don Rosa deu continuidade ao legado de Barks, inclusive procurando seguir uma cronologia dentro das velhas histórias. Eis uma ótima leitura complementar ao moleque que se agradar de Indiana Jones.
Após muito lenga-lenga, uma quarta parte da série saiu quase vinte anos após “Indiana Jones e a Última Cruzada”, de 1989, intitulada “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”, mostrando um Indiana Jones mais velho nos anos 50 se vendo a volta com russos em busca de um objeto extraterrestre, a tal caveira de cristal do título. Mesmo com toda movimentação e reviravoltas na trama, o filme não conseguiu recriar o climão de matinê dos primeiros filmes da série. Por isso, exiba por sua conta e risco. Ainda não me conformo com a cena na qual Indiana escapa de uma explosão atômica dentro de uma geladeira revestida de chumbo…
Trilogia Matrix
Outra trilogia que dividiu águas na cultura pop foi Matrix. Mais uma vez as máquinas estão em guerra contra os humanos, que são aprisionados para servirem de fonte de energia e vivem em uma ilusão criada por computador, a “Matrix”. Um grupo de resistência busca o Enviado que libertará a humanidade, “hackeando” a realidade virtual na qual a maior parte da raça humana vive, e o encontram na forma de Neo, um programador que está destinado a decifrar o código da Matrix e a derrubar este sistema.
No fim dos anos 90, este filme conseguiu a proeza de trazer a estética do cyberpunk para o cinema Mainstream, algo tentado antes sem muito êxito por filmes como “Johnny Mnemonic”. Além das referências bíblicas à histórias messiânicas, o filme é diretamente inspirado na bíblia do gênero, o livro “Neuromancer”. A obra dos irmãos Wachowski misturou o cyberpunk, filosofia e filmes de artes marciais chinesas com um ritmo que influenciou praticamente todos os filmes de ação feitos desde então. Mas o filme vai além do que efeitos “Bullet Time” e ação desenfreada. O questionamento do que é real, de fato, remete a “Alegoria da Caverna”, de Platão, o próprio conceito de “matrix”, foi criado por Wiliam Gibson em “Neuromancer”, e as sequencias de lutas belamente coreografadas são a marca registrada dos filmes de Honk Kong.
Após o filme de 1999, os irmãos Wachowski retomaram a história em mais dois filmes: “Matrix Reloaded” e “Matrix Revolutions”. Infelizmente o último filme da trilogia não fecha a história a contento, mas ao menos tem uma coisa boa: Monica Belluci, o que será um ótimo material para seu filho pesquisar durante a adolescência…
That’s All Folks! Aqui já há material o bastante para ir entretendo seu filho pelas próximas semanas (ou dias, a depender do afã dele). Na verdade este texto deveria ter saído antes do Dia das Crianças, mas meu compadre não é muito afeito a prazos, pelo que pude perceber pela longa convivência. Mas como ainda estamos na semana da criança, tá valendo.
De Volta Para a Blodega Sem-Futuro

- Ontem se comemorou os 25 anos do lançamento do filme “De Volta Para o Futuro”. Como há muitos que ainda não assistiram este clássico dos anos 80, sugiro enfaticamente que sane esse erro o mais rápido possível. Se eu tivesse um DeLorean equipado com Capacitor de Fluxo resolveria ligeirinho os problemas de prazo dessa blodega, e finalmente publicaria o texto sobre filmes cujo tema são viagens temporais, mesmo que leve uma década para escreve-lo. Para homenagear essa data tão relevante para a geração Tela Quente, um trecho do primeiro filme da trilogia, no qual o personagem Marty McFly, em pleno ano de 1955, cria o mais famoso paradoxo temporal da música popular americana: interpreta “Johnnie B.Goode” anos antes da música ser composta, e indiretamente “inspira” o seu criador, Chuck Berry, a compô-la.
- Dizia Bertold Brecht que triste era a nação que precisava de heróis. Mas pior é a nação que precisa ver outra se foder todinha para ter um resquício de alegria. Mas se os argentinos se lembrarão do dia 3 de julho por muito tempo, o 4 de julho é igualmente triste para eles, ao menos para os amantes da música, já que o grande Astor Piazzolla foi fazer um Jam Session com os anjos nessa data no ano de 1992. Se muitos brasileiros têm ojeriza pelos hermanos do cone sul, só o fato de eles terem presenteado o mundo com Piazzolla – e a Keyra Agustina, diga-se de passagem – os redime de qualquer pecado.
Entre suas centenas de composições, a mais conhecida é “Adiós Nonino”, uma elegia em homenagem ao seu pai falecido, que tem inúmeras versões, já que ao longo de sua carreira o músico experimentou várias formações, passando por quartetos, quintetos, nonetos com guitarras elétricas e eventualmente acompanhado por orquestras. Esta versão do vídeo já é nos últimos anos de sua carreira, e é a minha formação preferida. Esqueça a porra das vuvuzelas e do seu ódio atávico pela Argentina e aprecie sem moderação.
E pra não dizer que não falei da copa: Larissa Riquelme é uma teteiazinha, hein? Primeiro ela prometeu desfilar nua em praça pública se o Paraguai ganhasse a copa. Depois reconsiderou e diminuiu a exigência, bastando sua seleção chegar as semifinais. Por fim, mesmo após a derrota para a Espanha, ela disse que posaria nua assim mesmo. Pelo visto, com uma conversa boa e alguma insistência, acho que ela se deixaria convencer por 50 Guaranis e um celular MP7.
Agora com licença. Vou alugar um De Lorean para tentar assistir a uma apresentação de Piazzolla ao vivo, e no caminho tento atropelar o Dunga e o Felipe Melo. Allons-y!


Se Ligue na Blodega!