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Saxofonistas da Blodega: Kenny G(arrett)

Um Kenny G que toca feito homem
Mesmo quem não seja fã de Jazz já deve ter ouvido falar de Kenny G, o sax soprano mais popular do mundo. Ele se tornou bem conhecido após participar da trilha sonora do filme “Tudo Por Amor“. É um músico que desperta paixões, já que é igualmente amado e odiado mundo afora. Os fãs mais ortodoxos do Jazz o execram, criticando desde seu repertório até a sua embocadura, o acusam de não ter personalidade em suas execuções feitas para agradar o grande público, além de achar exibicionismo gratuito sua técnica de respiração circular para sustentar longos solos. Muitos mais radicais acham até heresia chamar o que ele toca de Jazz. Ora, mas bem que o bom moço tentou há alguns anos gravar alguns Standarts do Jazz no disco “Classics in The Key of G“. Se a intenção era calar a boca dos críticos, a emenda saiu pior que o soneto, já que suas versões para clássicos do Jazz deram úlcera em alguns fãs. Há quem afirme que John Coltrane e Duke Ellington rolaram na tumba após Kenny G gravar “In a Sentimental Mood”.Ah, mas tergiverso, pois não é dele nem desta polêmica gratuita que falaremos aqui.
Há cerca de uns quinze anos, durante uma pausa para o almoço durante um curso que fazia em São Paulo, estava fazendo um de meus passatempos favoritos, que era caçar pérolas em lojas de CD. E por acaso encontrei uma ótima quando, por curiosidade, resolvi escutar o CD de um saxofonista do qual eu nunca ouvira falar. Mas seu estilo me pegou pela orelha e comprei o disco sem hesitação, e acabei convertido instantaneamente em admirador dele. O disco em questão é “Pursuance”, e o saxofonista é Kenny Garrett.
O nome é uma coincidência. Por não ser tão popular ou conhecido por estas bandas, não era tarefa fácil encontrar discos dele (normalmente só encontramos os importados). E sempre que eu procurava em alguma loja, corria o risco de ouvir o vendedor perguntar “Não seria Kenny G?”. Claro que apenas sorria e dizia que não, apesar da vontade de dar uma voadora nos peitos do infeliz. Os dois só compartilham a coincidência do nome. O Kenny G. mais conhecido é branco, toca sax soprano e seu estilo mela-cueca é inconfundível. Já este Kenny G(arrett) é negro (ou afroamericano, como preferem os politicamente corretos), toca sax alto e seu estilo está mais próximo do jazz tradicional, de agrado dos fãs mais puristas, tocando acompanhado da tradicional formação piano, bateria, baixo e, eventualmente, guitarra.
Este relativamente jovem saxofonista é certamente um dos mais talentosos talentos que surgiram no grupo de Miles Davis, como também é um dos grandes saxofonistas da atualidade. Nascido em Detroit no ano de 1961, Garrett começou sua carreira na sua terra natal, tocando com Marcus Belgrave e se juntando a orquestra de Duke Ellington (sob a liderança de Mercer Ellington). Em 1982 ele se muda para Nova Iorque, e sua primeira gravação é de 1984 (Criss Cross). Ele toca com o grupo Out of the Blue antes de se juntar aos músicos de Miles Davis. Após a morte do célebre jazzista no início dos anos 90, Kenny formou seu próprio grupo e iniciou a sua carreira, gravando diversos álbuns para a Warner
Se você tiver que ter apenas um disco de Kenny Garret este disco deve ser “Pursuance: The Music of John Coltrane“, no qual reverencia o grande saxofonista americano. São dez músicas do grande nome do Jazz, além de uma faixa de Garrett, “Latifa”. Sua versão para “Lonnie´s Lament” é intensa e linda, com destaque para o auxílio luxuoso da guitarra de Pat Metheny nesta e nas demais faixas. “Equinox”, “Dear Lord”, “Alabama” e “Giant Steps” também respeitam o original, mas carregam a identidade de quem as executa.
Mas se você se render ao sax deste talentoso músico, não terá apenas um disco dele. Caso queira pelo menos mais um, este é o disco “Songbook”, de 1997, com todas as composições de sua autoria. Os solos finais de “She Waits for The New Sun” são um deleite para os ouvidos, e “Before It´s Time to Say Goodbye” transmite tristeza na medida certa, com o piano solando no início para abrir caminho para o sax alto de Kenny.
Seu trabalho solo mais recente é o CD ao vivo “Sketches of MD:Live at the Iridium”, e ao seu lado outro saxofonista das antigas, Pharoah Sanders, com quem já gravara antes o CD de 2006 “Beyond the Wall”. Ele também está presente no registro de sua turnê mundial ao lado de feras Chuck Corea, John McLaughin, Herbie Hancock e Christian McBride, o CD “Five Peace Band – Live”, o qual ganhou um prêmio Grammy no ano passado.
Em suma, se você curte um bom Jazz e um sax alto bem executado, Kenny Garret é uma ótima sugestão. Dê este presente aos seus ouvidos. E se sua namorada quiser ouvir Kenny G, ponha o bom e velho Garrett para ela ouvir. Quem sabe você acaba salvando mais uma alma?
No Youtube tem bastante material dele. A título de palhinha, as duas partes do vídeo onde ele executa “Sing a Song of Song”: Parte 1 e Parte 2. Para ouvir aqui, sua versão de “Lonnie’s Lament”. Senta o dedo no play!
Saiba mais no seu site oficial

Clark After Dark Vuvuzelas

Se você, caro leitor ou amada leitora, já está de saco cheio de ouvir Galvão Bueno, copa do mundo, e principalmente o nome VUVUZELA, chegou à b(l)odega certa. Sinceramente não sei o que é mais irritante: chamar uma corneta de plástico de vuvuzela ou o som da dita. Aliás, até o som da pronúncia de “vuvuzela” dói no meu ouvido. E para meu azar, esse “neologismo” caiu no gosto da imprensa por conta da copa na África do Sul, e todos os estagiários de jornalismo adoram mencioná-la sem moderação.
Mas já que estamos falando em instrumentos de sopro com nome estranho, citemos um mais interessante: flugelhorn. E que diacho é um flugelhorn? Digamos que seja uma espécie de trompete mais gordinho, e que produz um som mais, podemos dizer, aveludado. E alguns artistas do Jazz o preferiram ao popular trompete. E para purgar o diacho das vuvuzenas de meus pavilhões auditivos resolvi apelar para um dos grandes mestres deste instrumento: Clark Terry, um verdadeiro jazzista antediluviano e que ainda está na ativa no alto de seus quase 90 anos, tendo tocado ao lado de feras como Duke Ellington, Count Basie e Quincy Jones, além de ter influenciando músicos ao longo das décadas.
Mesmo não tendo conspirado para virar o Jazz do avesso por várias vezes, como Miles Davis, ou se tornado um arauto do tradicionalismo como Winton Marsalis, a obra de Clark Terry resistiu à prova do tempo, e meio que comendo pelas beiradas, já que não é tão lembrado ou citado quanto outros monstros, como Chet Baker. E com a vantagem de ter sobrevivido à maioria de seus colegas de ofício contemporâneos. Tanto que este ano ele foi um dos homenageados pelo Grammy agraciados com o Lifetime Achievement Award, prêmio também concedido postumamente à Michael Jackson na mesma cerimônia. Também estou vendo que este camarada enterrou muito musico, e ainda está com fôlego para enterrar mais alguns.
Por isso ignorem as vuv…Ah, dane-se que não vou mais citar este nome. Apenas escutem esta versão de “Angel Eyes”, do disco “Clark After Dark”, de 1978. E aproveite o Dia dos Namorados para rolar um clima com a patroa.
Mais sobre o coroa do flugelhorn em seu site oficial


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