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Meu Nome é Ninguém

O gênero faroeste é americano por excelência. Mas uma ramificação desse gênero são os filmes produzidos na Itália, que se tornaram conhecidos como Western Spaghetti, ou bangue-bangue à italiana. Ao contrário do tom épico e “bom-mocista” de boa parte dos filmes americanos, os filmes italianos normalmente apresentavam anti-heróis e elementos não tão bonzinhos como protagonistas. E um dos pais desse gênero é o italiano Sérgio Leone, que dirigiu ótimos exemplos do gênero, como a trilogia “Três Homens em Conflito”, “Por um Punhado de Dólares” e “Por Uns Dólares a Mais”, onde elevou a categoria de protagonista o então jovem ator Clint Eastwood.
Mas se Sérgio Leone é considerado o pai do Western Spaghetti, ele tinha muitos filhos da puta, como ele mesmo costumava afirmar, já que para cada clássico, surgiam uns três filmes não tão bons, pois muitos tentaram imitá-lo, sem muito sucesso nesse intento.
E um de seus “filhos legítimos” foi o filme “Meu Nome é Ninguém“, uma co-produção entre França, Alemanha e Itália datada de 1973. Por nessa época o diretor almejava dirigir filmes de gênero mais “sérios”, mas não queria largar o filão dos filmes de faroeste. Por isso nos créditos iniciais vemos que a Sérgio Leone é creditada a “idéia” do filme, que foi dirigido por Tonino Valerii, assistente de Sergio em outros trabalhos.
Um filme com nome de música do Agnaldo Timóteo presta? Ô se presta! Nessa película, o veterano pistoleiro Jack Beauregard (Henry Fonda), cansado de guerra e de impor a lei nos cafundós do oeste, está de mala e cuia pronta para se mandar para a Europa no final do século XIX, mas antes parece ter assuntos pendentes com os antigos sócios de seu irmão falecido. E em seu encalço aparece o hilário jovem que se auto-intitula “Ninguém” (Terence Hill), que admira e conhece toda a história de Jack Beauregard. Jack só quer resolver essa pendência da maneira mais limpa possível, mas “Ninguém” insiste que ele encerre sua carreira de forma gloriosa, encarando o “bando selvagem” com seus 150 pistoleiros. A relação entre “Ninguém” e Jack alterna entre rivalidade e amizade, simbolizada pela hilária anedota que “Ninguém” conta sobre o pássaro que cai do ninho e é salvo do frio pelo estrume de uma vaca, mas é tirado do estrume por um coiote que o limpa para comê-lo em seguida. E por mais que não queira, Jack acaba sendo conduzido a confrontar os poderosos locais e de encarar o destino armado por “Ninguém”.
A história mistura elementos cômicos e sérios. O lado mais leve é dado pelo ator Terence Hill, protagonista dos faroestes hilários da série “Trinity” ao lado de Bud Spencer. Já o contraponto sério fica por conta do ator Henry Fonda, que já fora dirigido por Sérgio Leone em “Era Uma Vez no Oeste”, outro clássico do gênero. Enquanto Terence Hill faria qualquer um cair na gargalhada com suas presepadas, Henry Fonda consegue se manter impassível diante de qualquer situação, mesmo quando tem que encarar 150 homens com apenas duas Winchesters e um revólver Colt. Pense num cabra arrochado!
O ponto negativo do filme é que a história é meio confusa, e dá a impressão que o roteiro seria uma desculpa para o diretor aglutinar boas sequências de ação e comédia, justamente os pontos fortes do filme. Terence rouba a cena, desarmando os meliantes com seus trejeitos. A cena no bar, onde ele esbofeteia um pistoleiro é de rolar de rir, como também a da sala de espelhos.
Mesmo não tendo Leone como diretor, sua marca está lá. O início do filme é a cara do diretor: uma longa sequência sem diálogos, com closes nos rostos dos pistoleiros, elevando a tensão até o máximo, quando finalmente o tiroteio irrompe. Leone faz referência e presta homenagem a um colega de ofício, o diretor americano Sam Peckimpah, cujos filmes ficaram conhecidos por sua violência explícita e coreografada. Uma delas é na cena onde “Ninguém” e Jack Beauregard se encontram em um cemitério índio, e entre as cruzes, “Ninguém” vê o nome “Sam Peckimpah” e comenta ser um nome estranho para um índio. E o nome “bando selvagem” dado aos 150 bandidos que “Ninguém” quer ver Jack confrontar é uma referência ao título original de um clássico de Peckimpah, “Meu Ódio Será Tua Herança“.
A trilha sonora é assinada por Ennio Morricone, que praticamente criou a marca registrada das trilhas dos faroestes à italiana, que normalmente incluía a presença de coral, flautas e guitarras aos temas. A música do personagem “Ninguém” é leve e alegre, e inclusive era muito usada em vinhetas televisivas até início dos anos 80. Mas épico mesmo é o tema usado nas cenas em que aparece o “Bando Selvagem”, com direito a coral feminino e referência à “Cavalgada das Valquírias”, de Richard Wagner.
Lembro-me desse filme dos velhos tempos em que a Globo exibia filmes de faroeste nas tardes de sábado. Mas não precisa esperar uma eventual reprise em algum canal perdido, já que este filme está disponível em DVD pela Paris Filmes, que mesmo sem extras, é uma excelente pedida para os apreciadores do gênero.
Os Felas da Puta sem Glória de Tarantino

“E aí, seu nazista, prefere uma suástica gravada na testa ou “I Love Brad Pitt” na bunda?”
Na cena final de “Bastardos Inglórios”, o tenente Aldo Laine, personagem interpretado por Brad Pitt, solta o último dialogo, “…acho que isso pode ser muito bem minha obra-prima”, se referindo a suástica que marcaria com sua Bowie na fronte de um vilão nazista. Seria Quentin Tarantino falando através de seu personagem? E seria “Bastardos Inglórios” sua obra-prima, uma suástica gravada à ponta de faca na testa dos críticos de seu trabalho?
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