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Relembrando Clifford

Ano passado o site Mínimo Múltiplo, do colega Lucas Colombo, publicou este meu texto sobre o trompetista Clifford Brown. Para relembrar o aniversário de sua morte, republico aqui na Blodega o texto, principalmente nestes tempos de vuvuzela estuprando nossos tímpanos.

Se o pop decidir elevar o 25 de junho a dia santo devido à recente morte de Michael Jackson, os acólitos do Jazz têm prerrogativa e preferência pela data, pois em 1956, na fatídica madrugada de 25 para 26, morria em um acidente de carro o jovem trompetista Clifford Brown, que contava com 26 anos incompletos e estava em plena atividade. Mais do que um futuro promissor não cumprido, sina de muitos artistas mortos precocemente, ele já era mais do que uma promessa e já havia deixado sua marca no gênero, tanto por seu talento com o instrumento quanto por seu perfil incomum. Se hoje o consumo de drogas está associado à “atitude” dos artistas de rock e congêneres, devo abrir um parêntesis para lembrar que, há décadas, muitos artistas de Jazz consumiam doses industriais das drogas então disponíveis, muitos em busca de inspiração e combustível para longos solos e improvisos. Por exemplo, se Tim Maia costumava praticar sua versão de Triatlon (maconha, uísque e cocaína), Billie Holiday, em certa época, praticava uma espécie de “pentatlon” toda noite: fumava ópio, seguido de maconha, engolia vários comprimidos (provavelmente anfetaminas e barbitúricos) com a ajuda de generosas doses de uísque e, antes de dormir, enchia as veias de heroína. Só metade disso derrubaria um dinossauro. Do rock, inclusive.

Mas não é de Lady Day que estamos falando agora. Citei-a apenas para contextualizar o ambiente do Jazz naquelas décadas e lembrar que as drogas ceifaram muitos talentos, como Charlie Parker e Fats Navarro, só para citar instrumentistas de sopro, além de comprometer a carreira de alguns, levando-os a problemas legais ou a perder a licença de músico, como John Coltrane. Num ambiente desses, em que os grandes acreditavam que era necessário se entupir de drogas até o coração pedir falência para poderem alcançar o nirvana artístico, Clifford Brown era uma aberração, no bom sentido, pois consta que ele era totalmente limpo. Não fumava, não cheirava, não injetava (e não mentia, até onde se sabe), e a bebida mais forte que bebera provavelmente foi leite maltado. Também não era um deslumbrado com a fama e a grana, sendo de uma humildade quase desconcertante, além de ter um bom senso para negócios pouco comum aos do ramo, e tido como um doce de pessoa por seus pares. Era uma verdadeira avis rara no meio jazzístico. Só tinha um azar danado com automóveis, já que se envolveu em três acidentes sérios, sendo o último fatal. E por acaso não era ele quem dirigia naquela noite, e sim a esposa do pianista Richie Powell, que também estava com eles. Ironicamente, enquanto outros de seus pares sucumbiam às drogas, ele morreu dessa forma tão casual e absurda.

Além do péssimo histórico com veículos, poderia se dizer que as circunstâncias conspiraram contra as possibilidades artísticas de Brown, desde começar tarde a aprender música, passar a juventude escondido nos cafundós do Delaware, ganhar uma bolsa de música para uma universidade sem departamento de música (é sério!) e ficar fora de cena por meses devido a um (adivinhem) acidente de carro pouco depois de alguns medalhões passarem a prestar atenção em seu talento. São “coisas” que poderiam comprometer irremediavelmente a carreira de muitos artistas, ou no mínimo protelar tudo para um reconhecimento tardio.

Encorajado por Dizzie Gillespie, Brown foi persistente e começou, de fato, sua carreira profissional apenas em 1951, e nos meses seguintes tocaria nos grupos de Chris Powell e Tadd Dameron, até se juntar a Lionel Hampton em uma turnê europeia e ser “descoberto” por músicos do velho continente, que o convidaram a gravar com eles, em idos de 1953. No ano seguinte estaria solto o suficiente para o consagrado baterista bebop Max Roach lhe fazer a indecorosa proposta de comporem um quinteto, tendo o trompetista como líder. Daí pra frente foi história, infelizmente curta. E boa parte dessa história foi registrada pela gravadora EmArcy. E essa fase pode ser conhecida no box “Brownie”, lançado pela Polygram e que faria esse que vos fala muito feliz caso uma boa alma lhe desse de presente.

Clifford Brown era de uma versatilidade a toda prova, já que não se acanhava em dedilhar nervosamente cada nota em uma formação de quinteto ou de se suavizar ao ser acompanhado por orquestra de cordas, algo que costumava assombrar outros que ousassem fazê-lo. Também serviu de auxílio luxuoso a vozes femininas de estilos tão distintos quanto Sarah Vaughan, Dinah Washington e Helen Merrill.

Não deixa de ser um exercício interessante imaginar como seria o cenário do Jazz se Brown não morresse tão prematuramente ou se fosse notado anos antes. Herdeiro do estilo de Fats Navarro, em poucos anos se tornaria tão importante que chegava a eclipsar outros trompetistas de seu tempo, como Chet Baker e Miles Davis. A propósito, Miles soube aproveitar o hiato deixado pela ausência de Brown. Não que o substituísse, mas sem um talento como Brown atraindo a atenção para si ou um sucessor tão bom quanto, a metamorfose ambulante do Jazz encontrou o caminho aberto e nas décadas seguintes reinventaria o gênero de várias formas, tornando-o cool ou misturando-o ao rock e à música eletrônica (depois de levar um par de chifres do Jimi Hendrix, dizem as más línguas).

Na prática, porém, Clifford não deixou herdeiros imediatos, mas sua importância para o gênero é constantemente lembrada. Uma das mais singelas homenagens é o standard “I Remember Clifford”, de Benny Golson. Helen Merrill e Arturo Sandoval dedicaram álbuns a essa figura ímpar do Jazz. E ainda hoje alguns artistas lhe devem um mínimo de influência, como Ray Hargrove. Mas nada do que eu fale se compara a escutar o próprio. E no Youtube ainda tem alguns bons registros do “Brownie” em ação. Relembremos.

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Saxofonistas da Blodega:Edgar Duvivier

Em mais um episódio de série “saxofonistas da blodega”, essa semana apresento aos frequentadores o senhor Edgar Duvivier, um carioca que desistiu da advocacia para se dedicar as artes plásticas e à música. Sua discografia não é tão extensa, infelizmente, sendo 3 4 discos solo, onde passeou por ritmos como o Jazz e o Chorinho, além de colaboração com outros artistas como a cantora Olivia Byington ou o violonista Guinga.  Também se fez presente em trilhas sonoras para curtas, programas de TV e peças de teatro. Uma recente participação é no espetáculo musical “Versão Brasileira”, dos diretores Charles Möeller e Carlos Claudio Botelho, que se tornou um DVD. Para que quiser conhecer mais o artista, seu site oficial e seu twitter.

Para mostrar o talento do Duvivier, “Queixa Antiga”, a minha faixa preferida do excelente  “Sax Brasileiro”, disco lançado em 1998 com o Choro predominando nas faixas. Enjoy, cambada!

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Saxofonistas da blodega: Marcelo Martins

Para quem não sabe, isso aqui é um senhor foco de Jazz, doença para a qual a medicina ainda não encontrou cura, graças à Deus. Por isso para tapar buraco voltar ao tema mais frequentemente, acho justíssimo rememorar a performance de grandes instrumentistas do saxofone, instrumento pelo qual tenho considerável apreço, nem que seja para indicar o caminho, a verdade e a vida aos incréus desconhecedores de tão bela melodia e sujeitos aos ataques inomináveis do Funk Carioca ou da atual música pop americana.

Pois que seja. Se você também sente ganas de comprar um lancha-chamas no E-Bay para poder argumentar com aquele seu vizinho que insiste que Dejavú é música e que 105 decibéis é o que o ser humano tolera e suporta como som, compre bons fones de ouvido e passe a maltratar menos os seus ouvidos. Para lhe dar sossego, inicio nesta tarde de sábado nosso espaço especial aos grandes instrumentistas que resolveram adotar o famoso filho de Adolphe Sax.

Para iniciar este bate-papo ao pôr-do-sol, que venha Marcelo Martins, grande saxofonista brazuca. Como de praxe, este acaba fazendo parte das bandas dos medalhões da música brasileira, que de bestas não tem nada e preferem ser acompanhados de ótimos músicos. Mesmo que não conheças o trabalho de Marcelo Martins com certeza teve os ouvidos inundados pelo som se seu instrumento se você já ouviu o álbum duplo de Djavan ao vivo . Quando não serve de auxílio luxuoso à medalhões da MPB ele costuma compor o grupo Foco. Porém eu realmente vim a conhece-lo após assistir o filme “Pequeno Dicionário Amoroso”, de Sandra Werneck, cuja excelente trilha sonora ficou a cargo de Ed Mota e João Nabuco, e a mais bela faixa instrumental –” Lucia’s Theme “– é executada por este moço.

Nem vou enrolar muito. Para os frequentadores da blodega, segue abaixo uma pérola deste saxofonista de Niterói:sua performance na trilha sonora do filme “Pequeno Dicionário Amoroso”. Quem quiser conhece-lo, basta acessar a sua página no MySpace, ou ouvir sua participação na banda Foco, que tem 2 CD’s gravados, ou  ainda garimpar suas inúmeras participações em discos e projetos diversos. Este blodegueiro ainda aguarda seu CD solo. Curtam.

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Natal bem Tropical

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Repertório pra fazer o espírito de Natal entrar em você

Músicas de Natal, ao menos aqui no Brasil, parecem ser audíveis apenas nesse período do ano, soando totalmente deslocadas em qualquer outra época. Antes mesmo da chegada do ano-novo, enquanto ainda se curte a ressaca do Natal, o repertório natalino já se torna anacrônico e, como um pobre empregado contratado temporariamente pelos Shoppings, é educadamente defenestrado. E aí só reaparecem no Natal do ano seguinte, tão tradicionais quanto os pratos da ceia natalina.

Ao contrário daqui, lá nos States músicas de Natal são menos descartáveis, e é comum cantores dedicarem discos aos temas natalinos. Sendo um tradicional feriado americano por excelência, é mais do que natural que na terra do Natal branco e do Papai Noel da Coca-Cola as músicas natalinas sejam mais do que uma instituição. Aliás, grande parte das canções de Natal que embalam o imaginário popular é de origem americana, como “White Christmas“, “Count Your Blessins Instead of Sheep”, ambas de Irving Berlin, “Christmas Song”, de Mel Tormé, “Silent Night”, de Franz Gruber ou “Let it Snow”, de Jule Styne, muitas delas com versões em português.

Music_album_record_white_christmas.jpg“White Christmas”, composta por Irving Berlin e gravada por Bill Crosby, é um verdadeiro fenômeno, passando vinte anos nas parada da Billboard, entre 1942 e 1962, deu título a um filme do diretor Michael Curtiz de 1954, é o segundo single mais vendido do mundo e vendeu mais de 100 milhões de cópias no decorrer dessas décadas, das quais 50 milhões são da versão original, o que rendeu royalties ao autor até o fim de sua vida (Berlin morreu em 1989, com mais de 100 anos).

E respeitáveis cantores, principalmente de Jazz, dedicam álbuns inteiros as cantigas de fim de ano, como Frank Sinatra, Ella Fitzgerald ou Chet Baker . Dean Martin, entre suas doses habituais de uísque, foi uma das vozes mais associadas à estas canções em décadas passadas. E o resultado normalmente não faz feio, sendo excelentes peças do cancioneiro popular americano, com sofisticados arranjos e interpretações por vezes pungentes, mesmo quando ouvidas no meio do ano. E seguindo a tradição, artistas contemporâneos como Kenny G e, mais recentemente, Diana Krall dedicaram alguns ao tema. Esse ano, o trompetista que quer salvar o Jazz, Winton Marsalis, lançou seu “Christmas Jazz Jam”, recriando alguns desses clássicos de feriado com sua característica leitura sofisticada.

Fora do Jazz, praticamente todo gênero de música tem sua contribuição para as músicas natalinas com suas versões. Blues, Rock, Pop, Reggae, Bolero, todos se incorporam do espírito natalino, desde o mito Elvis Presley e seu “Christmas Album”, passando pelo veterano B.B.King, os três tenores,o latino Luis Miguel, o tenor Andrea Bocelli, e até a banda Twisted Sisters. Uma música de natal moderna que virou clássica foi “Happy Xmas” de John Lennon”. Esse ano o veterano Bob Dylan gravou “Christmas In The Heart”, acabado de sair do forno.

Cantando o Natal em bom português

Como a nossa tradição natalina é praticamente uma importação literal dos costumes americanos, no Brasil tentou meio que se copiar também essa tradição musical, mas nunca estabelecemos uma tão forte quanto a americana. A primeira canção natalina que me lembro de ouvir em disco é uma versão em português de “White Christmas” na voz de Nelson Gonçalves, resgatada diretamente dos velhos LP´s mono de meus pais. Mas é difícil engolir pinheiros brancos de neve como torres de uma catedral sob uma Lua tropical, uma visão quase tão artificial quanto as ornamentações dos Shoppings. E morando em um lugar que faz calor de derreter catedrais, quiçá pinheiros brancos de neve, a visão de um Natal branco sempre foi tão alienígena quanto o desenho dos Jetsons.

Mas mesmo entre os trópicos de Câncer e Capricórnio, nas priscas eras até que havia uma certa tradição musical natalina aqui na Terra Brasilis. Um dos cantores veteranos que certamente mais gravou canções de Natal foi Carlos Galhardo. Seu primeiro grande sucesso natalino foi a música “Boas Festas”, de Assis Valente, que pensava ser todo mundo filho de Papai Noel. Esse clássico foi lançado em 1933 e regravado diversas vezes, inclusive pelo próprio Galhardo, até os dias de hoje. Galhardo ainda emprestaria sua voz para “Papai Noel” em 1935, “Sonho de Natal” em 1942, “Feliz Natal” em 1950, “Natal das Crianças” e “O Velhinho” em 1957 e “Não Mudou o Natal”, em 1967. Algumas dessas músicas são relembradas e regravadas até os dias atuais, fazendo parte de nosso cancioneiro natalino.

A gravação de “Boas Festas” em 1933 fez cantores e gravadoras apostarem nesse gênero, como Francisco Alves, Orlando Silva e Elizeth Cardoso, mas sem alcançar o sucesso obtido por Carlos Galhardo. Nas décadas que se seguiram vez por outra algum artista lançava uma música ou compacto. Até artistas da Jovem Guarda, como os Golden Boys, Lafayette e Celly Campelo, gravaram músicas natalinas. Mas o sucesso que persistiu por décadas foi um disco instrumental lançado no início dos anos 60. Desde então o disco “A Harpa e a Cristandade“, de Luis Bordon, ressurge nos finais de ano, servindo de trilha sonora para a correria nas lojas e gerando inúmeros seguidores que gravam discos instrumentais no mesmo estilo. Forçando a memória, os colegas que visitam essa bodega devem lembrar dos temas instrumentais juntamente com o stress das compras de última hora com a sua mãe.

Cantores e gravadoras praticamente deixaram de gravar e lançar temas de Natal por muitos anos. Antigamente o artista poderia lançar um compacto simples ou duplo de vinil, com no máximo quatro músicas. Mas na era do CD ou se enfiava a música natalina no meio de um CD ou se fazia um álbum inteiro com o tema. E como é uma música sazonal, um trabalho desses só vende no fim do ano, encalhando bonito nos demais meses. Não obstante, há uma grande oferta de CD´s gravados com temas natalinos e sacros, normalmente por corais infantis ou instrumentistas pouco conhecidos.

Simone - 25 de Dezembro.JPGMesmo com essas limitações, esse gênero meio que ressurgiu nas prateleiras de CD nos últimos anos pelas mãos de artistas mais conhecidos. Quem enveredou nessa seara natalina foi a cantora Simone, que gravou nos anos 90 o CD “Simone – 25 de dezembro“, que contém a versão “Então é Natal” para a original de John Lennon, como também versões para antigas gravações “Natal Branco”, “Bate o Sino”, “Noite Feliz”, “Natal das Crianças” e “Boas Festas”, essa em versão bem baticum. E desde seu lançamento que ressurge todos os anos com a proximidade das festas de Natal, para desespero dos pobres vendedores que, além de suar em bicas e trabalhar como jumentos, precisam aturar essa trilha sonora ad nauseaum pelo mês todo. Para eles o disco da Simone deve ser o som-ambiente do inferno. Só que ela já se tornou parte do folclore natalino brazuca. Deve ser por isso que o blog “Ora Piulas” está promovendo a campanha Natal sem Simone.

Após o sucesso de fim de ano da Simone, outros famosos lançaram seus discos de Natal. Eis um apanhado de alguns Cd´s que você pode encontrar pelas prateleiras das lojas:

- Em 2004 foi lançado “Samba de Natal“, reunindo dos pagodeiros do Negritude Jr, Exaltasamba, Artpopular e Só Preto sem Preconceito cantando temas natalinos no ritmo mais que brasileiro. Nesse mesmo estilo a finada gravadora Velas lançara em 2000 o álbum “Um Samba de Natal”, reunindo sambistas tradicionais como Zeca Pagodinho, João Nogueira, Almir Guineto e o grupo Fundo de Quintal.

- Em 2005, o fenômeno musical daquele ano, Caio Mesquita, cujo estilo de tocar saxofone é mais do que açucarado o bastante para tocar músicas natalinas, lança um CD instrumental exclusivo para as festas de Noel, Caio Mesquita – Natal:

- O instrumentista Valmar Amorim parece ser o herdeiro de Luis Bordon, só que substituindo as dezenas de cordas da harpa pelas quatro cordas do cavaquinho. Seus temas instrumentais natalinos em ritmo de samba e choro vem disputando espaço na trilha sonora das lojas com o longevo Bordon. Ele já lançou dois discos: “Natal com Samba” e “Samba de Papai Noel”. Há outros CD´s instrumentais nessa linha, procurando acrescentar tempero brasileiro aos temas natalinos, como o “Natal Feliz – Natal de Cavaquinho” e o “Natal Brasileiro” de Waldir Silva.

- Em 2006 até o decano conjunto Roupa Nova investiu no filão, gravando o disco “Roupa Nova – Natal Todo Dia“. Outro veterano que incorporou o espírito natalino musical foi Ivan Lins com “Um Novo Tempo – CD de natal”.

No Natal do ano passado, a Biscoito Fino, gravadora conhecida por produzir música brasileira de excelente qualidade, lançou “Natal Bem Brasileiro“, reunindo um elenco de cantores brasileiros interessantes: Maria Betânia, Jane Duboc, Zezé Mota, Maria Alcina, Wanderléia, Dominguinhos, Marcos Sacramento, Olivia Hime, Miúcha, Célia, Leila Pinheiro, Francis Hime, Toquinho e Vinícius (que declama seu “Poema de Natal” ao som do violão de Toquinho).

Agora você está apto a escolher a sua música de Natal. Divirtam-se com o Chester, a Sidra e as piadas prontas sobre peru e entrada de anos.

P.S – Apesar de tio Xiko me imputar mais idade do que tenho, fazendo alegações suspeitas de que eu teria servido vinho na Santa Ceia, não sou tão velho a ponto de me lembrar das músicas de Carlos Galhardo. Por isso agradeço ao site Brasileirinho pelas informações “arqueológicas” obtidas lá.

 

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I Remember Clifford

Senhoras e senhores, andei colaborando com o colega de ofício Lucas Colombo e enviei-lhe um texto sobre o trompetista Clifford Brown. Nunca ouviu falar? Então vá lá no Mínimo Múltiplo e descubra, oras! All That Jazz!

Chet Baker: Demasiado Humano

Retrato em Branco e Preto do artista, quando jovem e quando decrépito

Hoje, 13 de maio de 2009, faz exatamente 21 anos que o trompetista Chet Baker deu o fatal mergulho da janela de seu quarto em Amsterdã, enfiando sua fuça já desdentada na calçada, saindo da sobrevida para entrar no panteão dos deuses pagãos do Jazz, consolidando um mito no melhor estilo James Dean e criando um dos ícones do gênero, se tornando mais um lendário empunhador do instrumento musical que celebrizara Miles Davis, Clifford Brown, Dizzy Gillespie em um longo etc, e morrendo de forma trágica igual a outros mártires do gênero como Billie Holliday ou John Coltrane. Só que, ao contrário desses, Chet não é uma unanimidade, e nem todos concordam em pô-lo no mesmo nível de tais monstros divinos.

Jazz é assunto mais polêmico do que receita de Dry Martini ou Caipirinha. Já começa pela própria definição, pois se você conseguir encontrar duas pessoas que concordem com o mesmo conceito do que é Jazz já é milagre de São Coltrane. E Chet Baker é justamente uma dessas questões polêmicas. A maioria dos críticos nunca o levou muito a sério, mesmo quando era um símbolo sexual naqueles anos antediluvianos da década de 50. A crítica o via mais como um golpe de publicidade da Costa Oeste, uma versão branca e publicável dos ícones negros, como Miles Davis, apenas um vertedor de baladas simples vendido como música romântica para ajudar os jovens a concretizarem seus encontros, tão pré-fabricado quando uma Britney Spears ou Backstreet Boys. Outros questionam seu talento, comparando-o a outros gênios e reduzindo sua importância real. Tais críticas teriam fundamento ou seria tudo despeito com o rapaz que saiu dos cafundós do interior e Oklahoma pra viver na Califórnia e ser uma sensação do Cool Jazz, representante mais popular da sofisticação do gênero, principalmente com sua interpretação de “My Funny Valentine”, música que praticamente tomou pra si?

Quando pré-iniciado nesse fascinante mundo do Jazz, muito ouvi falar de Chet, e comprei o peixe vendido pelos acólitos dessa quase religião. Mas confesso que entre aquelas coletâneas sem maiores critérios e gravações diversas as quais adquiria ou apenas ouvia, havia um misto de satisfação e decepção ao ouvir Chet, já que em muitos desses “greatest hits” que encontramos vida afora o critério de seleção das músicas é, no mínimo, estranho, por juntar em um balaio só distintas fases e estilos de um mesmo músico. E se ouvirmos um Chet dos anos 50 e na faixa seguinte algum registro dele nos anos 80 nos questionamos se é o mesmo intérprete em ambas. Ao menos Chet me ensinou a não perder tempo com isso e procurar o produto original, ou ao menos alguma coletânea decente, para evitar maiores decepções.

E falando em decepção, talvez a maior delas seja em “Let’s Get Lost”, a trilha-sonora de um documentário sobre o próprio, e um dos últimos registros dele em vida, que foi lançado pouco depois de sua morte. Durante um tempo penei em busca desse CD, principalmente após ouvir em uma excelente coletânea da RCA Victor, “Jazz at Midnight”, a faixa “Imagination”, extraída justamente de “Let’s Get Lost”. Também vi que ele interpretava alguns standarts, como “My One and Only Love” e “Retrato em Branco e Preto”. Quando finalmente consegui comprar o CD e ouvi-lo, fiquei com aquela estranha sensação de dinheiro rasgado. Seria isso o Chet?

Deixando de lado o papel de fã e analisando os fatos, acabamos sendo obrigados a concordar com os críticos, ao menos em parte. Talvez eles estejam certos em decretar que Chet morrera décadas antes daquele mergulho holandês, ao menos uns trinta anos de assombração em vida. Assombração essa que penava mais pela Europa do que em sua própria terra, já que era mais bem recepcionado pelo público do Velho Mundo, tentando soprar o instrumento tibiamente, mas sem lembrar seus registros de anos anteriores, muito em parte devido a ter perdido os dentes, provavelmente apanhando de algum traficante. E também não dá para negar que nas últimas décadas de vida ele era apenas um rascunho do que era. Ou pior, do que poderia ter sido ou daquilo que seus fãs achavam que era. Quando esteve no Brasil no Free Jazz Festival de 1985, aqueles que nunca tiveram chance de ouvi-lo ao vivo provavelmente se decepcionaram com sua burocrática presença. Sua imagem entre os admiradores se conservou até hoje, mas ele se acabou em corpo e alma, um Dorian Gray às avessas. Se Chet tinha 58 anos ao enfiar as fuças no chão em 1988, seu rosto aparentava o dobro. E por dentro seu organismo já devia ter entrado no cheque especial da morte há muito tempo por tanto abuso, principalmente o consumo de heroína.

O jornalista Ruy Castro, quando da morte do trompetista lá nos Países Baixos, lançou a pá de cal com um artigo desmistificando a lenda em torno do mais famoso representante do Cool Jazz e do West Coast. já imaginando o grau de beatificação ao qual ele seria colocado pelos fãs. E como em uma estranha missa do primeiro aniversário de sua morte, escreve outro artigo para completar o serviço quase um ano depois. E desfaz alguns mitos, sendo o principal desses mitos é que o seu jeito de sussurrar suave e baixinho as melodias ao cantar teria influenciado diretamente João Gilberto e a Bossa Nova. Aliás, há quem defenda exatamente o contrário, de que João Gilberto é que teria influenciado Chet. Não obstante a Bossa Nova ter sido claramente influenciada pelo Jazz e este ter uma dívida para com a Bossa Nova, principalmente o West Coast, Ruy deixa bem claro que essa de sussurrar baixinho ao microfone antecede tanto Chet quanto Gilberto, apontando Joe Mooney como um dos que já usavam esse recurso anos antes e que teria realmente influenciado o jeito de cantar dos cariocas “desafinados”, além de outros sussurrantes como Page Cavanaugh e Matt Dennis entre os cantores, e Peggy Lee ou Blossom Dearie entre as mulheres. Muito do mito também é desfeito na biografia escrita por James Gavin, “No Fundo de um Sonho – A Longa Noite de Chet Baker”, por sinal prefaciado por Ruy Castro.

Mas seria polêmica barata ou iconoclastia oportunista simplesmente sapatear em seu túmulo e reduzir a pó a obra desse músico, além de ser uma bruta sacanagem com ele e seus fãs. Apenas estamos lembrando que Chet era humano, demasiado humano, com suas limitações e defeitos. Mesmo assim, ainda não trocaria o mais decadente Chet por uma orquestra inteira de Kenny G’s ou Caios Mesquitas.

Mesmo que os críticos se recusem a pô-lo no mesmo patamar de outros gênios, seus seguidores não ligam. E seu instrumento, seja a voz ou o trompete, sempre remeterá a um clima romântico e sofisticado. Muito provavelmente Chet ajudou a abater muitas presas indefesas entre doses de Martini, e ainda ajuda. E a isso lembremos o velho Chet, e se quiser homenageá-lo decentemente apenas ouça algumas de suas velhas gravações. Garimpando sua vasta obra há belas e pungentes músicas, tanto pelo seu trompete quanto por sua voz. Por exemplo, enquanto redijo essa esculhambação de texto escuto o disco “Chet”, de 1959, o qual é excelente. Também posso citar suas parcerias com o sax tenor Zoot Sims, como no disco “Chet Baker & Strings”, que tem pérolas românticas como “You Don’t Know What Love Is” e “The Wind”. Parece mais fácil encontrar gemas preciosas em sua produção dos anos 50, mas com cuidado podemos descobrir maravilhas espalhadas pelas décadas seguintes. Pessoalmente gosto de sua leitura de “Once Upon a Summertime” (versão americana de “La Valse des Lilas”, de Michel Legrand), que é de 1977.
Sim, Chet Baker era imperfeito em vida e obra. Mas talvez isso o torne mais passível de ser admirado e seguido pelos motivos certos.

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Essas Meninas (1)

As Vozes femininas que animam a Blodega

Particularmente meu instrumento musical preferido é a voz feminina, e quando a serviço de boas e melódicas músicas, melhor ainda. E o que não falta no Brasil é voz de mulher prestando bons serviços à música. E não falo apenas das cantoras e intérpretes mais conhecidas do grande público. E ao contrário do que acham muitos, provavelmente pela invasão de músicas de qualidade duvidosa nas paradas de sucesso, há talento novo na praça. Na realidade há muita coisa boa sendo produzida, apenas não aparecem na grande mídia e raramente são beneficiados com algum esquema de marketing e divulgação pesados. Anualmente são dezenas de CD’s impregnados de progesterona e cromossomos XX que chegam ao mercado. Infelizmente grande parte destas é ignorada pelo grande público. Mas mesmo não entrando em trilha sonora de novelas ou participando de turnês milionárias, muitas acabam cativando um pequeno, mas fiel séquito de admiradores.

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