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Saxofonistas da Blodega: Kenny G(arrett)

Um Kenny G que toca feito homem
Mesmo quem não seja fã de Jazz já deve ter ouvido falar de Kenny G, o sax soprano mais popular do mundo. Ele se tornou bem conhecido após participar da trilha sonora do filme “Tudo Por Amor“. É um músico que desperta paixões, já que é igualmente amado e odiado mundo afora. Os fãs mais ortodoxos do Jazz o execram, criticando desde seu repertório até a sua embocadura, o acusam de não ter personalidade em suas execuções feitas para agradar o grande público, além de achar exibicionismo gratuito sua técnica de respiração circular para sustentar longos solos. Muitos mais radicais acham até heresia chamar o que ele toca de Jazz. Ora, mas bem que o bom moço tentou há alguns anos gravar alguns Standarts do Jazz no disco “Classics in The Key of G“. Se a intenção era calar a boca dos críticos, a emenda saiu pior que o soneto, já que suas versões para clássicos do Jazz deram úlcera em alguns fãs. Há quem afirme que John Coltrane e Duke Ellington rolaram na tumba após Kenny G gravar “In a Sentimental Mood”.Ah, mas tergiverso, pois não é dele nem desta polêmica gratuita que falaremos aqui.
Há cerca de uns quinze anos, durante uma pausa para o almoço durante um curso que fazia em São Paulo, estava fazendo um de meus passatempos favoritos, que era caçar pérolas em lojas de CD. E por acaso encontrei uma ótima quando, por curiosidade, resolvi escutar o CD de um saxofonista do qual eu nunca ouvira falar. Mas seu estilo me pegou pela orelha e comprei o disco sem hesitação, e acabei convertido instantaneamente em admirador dele. O disco em questão é “Pursuance”, e o saxofonista é Kenny Garrett.
O nome é uma coincidência. Por não ser tão popular ou conhecido por estas bandas, não era tarefa fácil encontrar discos dele (normalmente só encontramos os importados). E sempre que eu procurava em alguma loja, corria o risco de ouvir o vendedor perguntar “Não seria Kenny G?”. Claro que apenas sorria e dizia que não, apesar da vontade de dar uma voadora nos peitos do infeliz. Os dois só compartilham a coincidência do nome. O Kenny G. mais conhecido é branco, toca sax soprano e seu estilo mela-cueca é inconfundível. Já este Kenny G(arrett) é negro (ou afroamericano, como preferem os politicamente corretos), toca sax alto e seu estilo está mais próximo do jazz tradicional, de agrado dos fãs mais puristas, tocando acompanhado da tradicional formação piano, bateria, baixo e, eventualmente, guitarra.
Este relativamente jovem saxofonista é certamente um dos mais talentosos talentos que surgiram no grupo de Miles Davis, como também é um dos grandes saxofonistas da atualidade. Nascido em Detroit no ano de 1961, Garrett começou sua carreira na sua terra natal, tocando com Marcus Belgrave e se juntando a orquestra de Duke Ellington (sob a liderança de Mercer Ellington). Em 1982 ele se muda para Nova Iorque, e sua primeira gravação é de 1984 (Criss Cross). Ele toca com o grupo Out of the Blue antes de se juntar aos músicos de Miles Davis. Após a morte do célebre jazzista no início dos anos 90, Kenny formou seu próprio grupo e iniciou a sua carreira, gravando diversos álbuns para a Warner
Se você tiver que ter apenas um disco de Kenny Garret este disco deve ser “Pursuance: The Music of John Coltrane“, no qual reverencia o grande saxofonista americano. São dez músicas do grande nome do Jazz, além de uma faixa de Garrett, “Latifa”. Sua versão para “Lonnie´s Lament” é intensa e linda, com destaque para o auxílio luxuoso da guitarra de Pat Metheny nesta e nas demais faixas. “Equinox”, “Dear Lord”, “Alabama” e “Giant Steps” também respeitam o original, mas carregam a identidade de quem as executa.
Mas se você se render ao sax deste talentoso músico, não terá apenas um disco dele. Caso queira pelo menos mais um, este é o disco “Songbook”, de 1997, com todas as composições de sua autoria. Os solos finais de “She Waits for The New Sun” são um deleite para os ouvidos, e “Before It´s Time to Say Goodbye” transmite tristeza na medida certa, com o piano solando no início para abrir caminho para o sax alto de Kenny.
Seu trabalho solo mais recente é o CD ao vivo “Sketches of MD:Live at the Iridium”, e ao seu lado outro saxofonista das antigas, Pharoah Sanders, com quem já gravara antes o CD de 2006 “Beyond the Wall”. Ele também está presente no registro de sua turnê mundial ao lado de feras Chuck Corea, John McLaughin, Herbie Hancock e Christian McBride, o CD “Five Peace Band – Live”, o qual ganhou um prêmio Grammy no ano passado.
Em suma, se você curte um bom Jazz e um sax alto bem executado, Kenny Garret é uma ótima sugestão. Dê este presente aos seus ouvidos. E se sua namorada quiser ouvir Kenny G, ponha o bom e velho Garrett para ela ouvir. Quem sabe você acaba salvando mais uma alma?
No Youtube tem bastante material dele. A título de palhinha, as duas partes do vídeo onde ele executa “Sing a Song of Song”: Parte 1 e Parte 2. Para ouvir aqui, sua versão de “Lonnie’s Lament”. Senta o dedo no play!
Saiba mais no seu site oficial

Isso non ecxiste!

Relembrando o Padre Levedo
Para o internauta que adentra no atual cenário da blogosfera brasileira verá a predominância de blogs de entretenimento, que basicamente repostam vídeos e imagens cômicas. Mas a blogosfera (e antes dessa, os sites pessoais) daqueles primeiros anos normalmente tinha bem mais conteúdo para se ler, e muitos bons praticantes do saudável hábito da escrita mantinham homepages e blogs, e alguns chegaram a se tornar celebridades no meio. Desses, muitos se profissionalizaram no ofício de blogar e se mantém até hoje, mesmo que em um ritmo bem menor de postagens. Outros simplesmente encheram o saco e largaram a atividade ou nem chegaram a ter blogs ou sites, se contentando em colaborar com terceiros esporadicamente. A certeza era achar textos bem escritos e ideias sensacionais que levariam um roteirista do Zorra Total a cometer suicídio. E foi por culpa desses elementos que o incontrolável impulso de escrever besteiras me dominou, e posso dizer que tenho uma dívida de gratidão a eles por hoje ser dono dessa blodega.
Um desses elementos que dedicava sua prosa elaborada era alguém que atendia pelo singelo nome de Padre Levedo. Nos primeiros anos que comecei a vasculhar os sites e blogs por acaso, me topei com seu site e sua prosa, e é claro que se tornou parada obrigatória, tanto quanto seria um boteco que vendesse cerveja Antártica Original e tira-gostos excelentes a um preço honesto. Até porque cerveja Kaiser é a ira de Deus engarrafada, por definição do próprio Levedo, que se mostrava entendido do riscado. Sabe Deus quem ele era, de fato, mas criou um personagem para si mesmo – um padre dedicado à servir o divino e a salvar almas através dos prazeres terrenos, o que fatalmente envolvia birita, literatura de primeira, música boa, pois a salvação da alma passava pela palavra sagrada do Jazz e do Blues. Seres como Roy Buchanan ou John Coltrane eram verdadeiros santos padroeiros de sua congregação. E claro, muita putaria a embalar tudo isso.
Ele entretia seus fiéis com histórias de boteco sensacionais, reminiscências de farras e noitadas, dicas de música, livros, filmes, bebidas e comidas. Lendo seus causos etílicos e aventuras amorosas pelas noites dos botecos paulistanos pregando a palavra era quase como beber com ele ouvindo tais relatos. Além disso, ele também escrevia contos hilários, como as aventuras surreais do cowboy e astronauta Klauxo Walker, o irmão de Johnnie Walker. E falando em Johnnie Walker, sua narrativa sobre os prazeres de um legítimo uísque 24 anos é uma verdadeira epifânia.
Mas sua grande contribuição para o léxico nacional foi o seu fabuloso gerador de lero-lero. Graças a ele, com simples toques do mouse você tem a disposição um texto inédito com uma laudatória digna de um artigo científico, tese de mestrado ou pauta de reunião corporativa. E há versões aperfeiçoadas circulando pela Internet.
Infelizmente a última postagem do nobre eclesiástico cibernético é 30 de outubro de 2006. Ou seja, a exatos quatro anos que Levedo sumiu sem deixar notícias. O que será que houve com o sacerdote? Teria ele entrado para uma ordem de monges e feito um voto de silêncio eletrônico? Teria saído em uma peregrinação derradeira para salvar algumas almas da vida noturna paulista? Ou simplesmente encheu o saco de escrever um blog e está até hoje enxugando garrafas de uísque?
Para desgraça das almas desgarradas, grande parte do que Levedo escreveu estava hospedado em um domínio do Geocities, que foi para o vinagre junto com todos os sites movidos a vapor que ele hospedava. O que ainda resta de seus ensinamentos ainda sobrevive em seu blog no Ig. Infelizmente sua palavra faz falta aos jovens, que precisam perceber que estria e celulite é irrelevante quando a trepada é de primeira, algo que muito onanista de hoje em dia ignora ao admirar tanto as mulheres de plástico das revistas em detrimento de mulher de verdade. Faz falta alguém que resgate as almas desgarradas que escutam Restart e Cine com solos de guitarra como aqueles de “Sneaking Godzilla Thru The Alley”, do Buchanan.
Na ausência de sua palavra nestes últimos anos, o que fica aqui a homenagem a este sacerdote virtual, onde quer que ele esteja. E para completar a homenagem, convido os meus leitores a lerem os textos arquivados em seu blog. De preferência acompanhado de uma boa cerveja. Saúde.
My One and Only Love

Para aplacar este clima beligerante das eleições, um pouco de Jazz para os leitores e leitoras da Blodega. Essa música foi apresentada ao mundo em 1953, sendo cantada por Frank Sinatra, e acabou se tornando um Standard do Jazz, reinterpretada por inúmeros cantores, cantoras e instrumentistas. Para citar alguns nomes: Ella Fitgerald, Sarah Vaughan, John Coltrane , Sting, Jamie Cullum e Sonny Rollins emprestaram seu talento para interpretar este clássico do romantismo sofisticado. Na humilde opinião deste que vos escreve, a versão da veterana cantora inglesa Cleo Laine é uma mistura de libido e beleza, com a gaita de Toots Thielemans fazendo bom par com a voz da cantora. Para quem não o conhece, este senhor de 90 anos ainda está na ativa, e entre outros grandes trabalhos, ele se uniu a Elis Regina em 1969 para gravar o disco “Aquarela Brasileira”, e recentemente lançou o álbum “One More For The Road” e “Toots Thielemans – European Quartet Live”.
Então aqui vai a dica: escolha uma versão dessas e mande ver naquele sofisticado xaveco. Frases como “eu sinto seus lábios tão quentes e ternos”, “o toque de suas mãos é como o paraíso” ou “cada beijo que você me dá incendeia minha alma” derretem o coração da mulher mais gélida. Junto com um Dry Martini, o efeito pode ser tão devastador quanto uns comprimidos de Viagra. Para acompanhar, abaixo posto as versões de Cleo Laine e a do Sting, usada na trilha sonora do filme “Despedida em Las Vegas”. Enjoy!
The very thought of you makes
My heart sing
Like an
April breeze
On the wings of spring
And you appear in
all your splendour
My one and only love
The
shadows fall
And spread their mystic charms
In the
hush of night
While you’re in my arms
I feel your
lips so warm and tender
My one and only love
The
touch of your hand is like heaven
A heaven that I’ve
never known
The blush on your cheek
Whenever I
speak
Tells me that you are my own
You fill my
eager heart with
Such desire
Every kiss you give
Sets my soul on fire
I give myself in sweet surrender
My one and only love
The blush on your cheek
Whenever I speak
Tells me that you are my own
You
fill my eager heart with
Such desire
Every kiss you
give
Sets my soul on fire
I give myself in sweet
surrender
My one and only love
My one and only
love
Relembrando Clifford

Ano passado o site Mínimo Múltiplo, do colega Lucas Colombo, publicou este meu texto sobre o trompetista Clifford Brown. Para relembrar o aniversário de sua morte, republico aqui na Blodega o texto, principalmente nestes tempos de vuvuzela estuprando nossos tímpanos.
Se o pop decidir elevar o 25 de junho a dia santo devido à recente morte de Michael Jackson, os acólitos do Jazz têm prerrogativa e preferência pela data, pois em 1956, na fatídica madrugada de 25 para 26, morria em um acidente de carro o jovem trompetista Clifford Brown, que contava com 26 anos incompletos e estava em plena atividade. Mais do que um futuro promissor não cumprido, sina de muitos artistas mortos precocemente, ele já era mais do que uma promessa e já havia deixado sua marca no gênero, tanto por seu talento com o instrumento quanto por seu perfil incomum. Se hoje o consumo de drogas está associado à “atitude” dos artistas de rock e congêneres, devo abrir um parêntesis para lembrar que, há décadas, muitos artistas de Jazz consumiam doses industriais das drogas então disponíveis, muitos em busca de inspiração e combustível para longos solos e improvisos. Por exemplo, se Tim Maia costumava praticar sua versão de Triatlon (maconha, uísque e cocaína), Billie Holiday, em certa época, praticava uma espécie de “pentatlon” toda noite: fumava ópio, seguido de maconha, engolia vários comprimidos (provavelmente anfetaminas e barbitúricos) com a ajuda de generosas doses de uísque e, antes de dormir, enchia as veias de heroína. Só metade disso derrubaria um dinossauro. Do rock, inclusive.
Mas não é de Lady Day que estamos falando agora. Citei-a apenas para contextualizar o ambiente do Jazz naquelas décadas e lembrar que as drogas ceifaram muitos talentos, como Charlie Parker e Fats Navarro, só para citar instrumentistas de sopro, além de comprometer a carreira de alguns, levando-os a problemas legais ou a perder a licença de músico, como John Coltrane. Num ambiente desses, em que os grandes acreditavam que era necessário se entupir de drogas até o coração pedir falência para poderem alcançar o nirvana artístico, Clifford Brown era uma aberração, no bom sentido, pois consta que ele era totalmente limpo. Não fumava, não cheirava, não injetava (e não mentia, até onde se sabe), e a bebida mais forte que bebera provavelmente foi leite maltado. Também não era um deslumbrado com a fama e a grana, sendo de uma humildade quase desconcertante, além de ter um bom senso para negócios pouco comum aos do ramo, e tido como um doce de pessoa por seus pares. Era uma verdadeira avis rara no meio jazzístico. Só tinha um azar danado com automóveis, já que se envolveu em três acidentes sérios, sendo o último fatal. E por acaso não era ele quem dirigia naquela noite, e sim a esposa do pianista Richie Powell, que também estava com eles. Ironicamente, enquanto outros de seus pares sucumbiam às drogas, ele morreu dessa forma tão casual e absurda.
Além do péssimo histórico com veículos, poderia se dizer que as circunstâncias conspiraram contra as possibilidades artísticas de Brown, desde começar tarde a aprender música, passar a juventude escondido nos cafundós do Delaware, ganhar uma bolsa de música para uma universidade sem departamento de música (é sério!) e ficar fora de cena por meses devido a um (adivinhem) acidente de carro pouco depois de alguns medalhões passarem a prestar atenção em seu talento. São “coisas” que poderiam comprometer irremediavelmente a carreira de muitos artistas, ou no mínimo protelar tudo para um reconhecimento tardio.
Encorajado por Dizzie Gillespie, Brown foi persistente e começou, de fato, sua carreira profissional apenas em 1951, e nos meses seguintes tocaria nos grupos de Chris Powell e Tadd Dameron, até se juntar a Lionel Hampton em uma turnê europeia e ser “descoberto” por músicos do velho continente, que o convidaram a gravar com eles, em idos de 1953. No ano seguinte estaria solto o suficiente para o consagrado baterista bebop Max Roach lhe fazer a indecorosa proposta de comporem um quinteto, tendo o trompetista como líder. Daí pra frente foi história, infelizmente curta. E boa parte dessa história foi registrada pela gravadora EmArcy. E essa fase pode ser conhecida no box “Brownie”, lançado pela Polygram e que faria esse que vos fala muito feliz caso uma boa alma lhe desse de presente.
Clifford Brown era de uma versatilidade a toda prova, já que não se acanhava em dedilhar nervosamente cada nota em uma formação de quinteto ou de se suavizar ao ser acompanhado por orquestra de cordas, algo que costumava assombrar outros que ousassem fazê-lo. Também serviu de auxílio luxuoso a vozes femininas de estilos tão distintos quanto Sarah Vaughan, Dinah Washington e Helen Merrill.
Não deixa de ser um exercício interessante imaginar como seria o cenário do Jazz se Brown não morresse tão prematuramente ou se fosse notado anos antes. Herdeiro do estilo de Fats Navarro, em poucos anos se tornaria tão importante que chegava a eclipsar outros trompetistas de seu tempo, como Chet Baker e Miles Davis. A propósito, Miles soube aproveitar o hiato deixado pela ausência de Brown. Não que o substituísse, mas sem um talento como Brown atraindo a atenção para si ou um sucessor tão bom quanto, a metamorfose ambulante do Jazz encontrou o caminho aberto e nas décadas seguintes reinventaria o gênero de várias formas, tornando-o cool ou misturando-o ao rock e à música eletrônica (depois de levar um par de chifres do Jimi Hendrix, dizem as más línguas).
Na prática, porém, Clifford não deixou herdeiros imediatos, mas sua importância para o gênero é constantemente lembrada. Uma das mais singelas homenagens é o standard “I Remember Clifford”, de Benny Golson. Helen Merrill e Arturo Sandoval dedicaram álbuns a essa figura ímpar do Jazz. E ainda hoje alguns artistas lhe devem um mínimo de influência, como Ray Hargrove. Mas nada do que eu fale se compara a escutar o próprio. E no Youtube ainda tem alguns bons registros do “Brownie” em ação. Relembremos.
Chet Baker: Demasiado Humano

Retrato em Branco e Preto do artista, quando jovem e quando decrépito
Hoje, 13 de maio de 2009, faz exatamente 21 anos que o trompetista Chet Baker deu o fatal mergulho da janela de seu quarto em Amsterdã, enfiando sua fuça já desdentada na calçada, saindo da sobrevida para entrar no panteão dos deuses pagãos do Jazz, consolidando um mito no melhor estilo James Dean e criando um dos ícones do gênero, se tornando mais um lendário empunhador do instrumento musical que celebrizara Miles Davis, Clifford Brown, Dizzy Gillespie em um longo etc, e morrendo de forma trágica igual a outros mártires do gênero como Billie Holliday ou John Coltrane. Só que, ao contrário desses, Chet não é uma unanimidade, e nem todos concordam em pô-lo no mesmo nível de tais monstros divinos.
Jazz é assunto mais polêmico do que receita de Dry Martini ou Caipirinha. Já começa pela própria definição, pois se você conseguir encontrar duas pessoas que concordem com o mesmo conceito do que é Jazz já é milagre de São Coltrane. E Chet Baker é justamente uma dessas questões polêmicas. A maioria dos críticos nunca o levou muito a sério, mesmo quando era um símbolo sexual naqueles anos antediluvianos da década de 50. A crítica o via mais como um golpe de publicidade da Costa Oeste, uma versão branca e publicável dos ícones negros, como Miles Davis, apenas um vertedor de baladas simples vendido como música romântica para ajudar os jovens a concretizarem seus encontros, tão pré-fabricado quando uma Britney Spears ou Backstreet Boys. Outros questionam seu talento, comparando-o a outros gênios e reduzindo sua importância real. Tais críticas teriam fundamento ou seria tudo despeito com o rapaz que saiu dos cafundós do interior e Oklahoma pra viver na Califórnia e ser uma sensação do Cool Jazz, representante mais popular da sofisticação do gênero, principalmente com sua interpretação de “My Funny Valentine”, música que praticamente tomou pra si?
Quando pré-iniciado nesse fascinante mundo do Jazz, muito ouvi falar de Chet, e comprei o peixe vendido pelos acólitos dessa quase religião. Mas confesso que entre aquelas coletâneas sem maiores critérios e gravações diversas as quais adquiria ou apenas ouvia, havia um misto de satisfação e decepção ao ouvir Chet, já que em muitos desses “greatest hits” que encontramos vida afora o critério de seleção das músicas é, no mínimo, estranho, por juntar em um balaio só distintas fases e estilos de um mesmo músico. E se ouvirmos um Chet dos anos 50 e na faixa seguinte algum registro dele nos anos 80 nos questionamos se é o mesmo intérprete em ambas. Ao menos Chet me ensinou a não perder tempo com isso e procurar o produto original, ou ao menos alguma coletânea decente, para evitar maiores decepções.
E falando em decepção, talvez a maior delas seja em “Let’s Get Lost”, a trilha-sonora de um documentário sobre o próprio, e um dos últimos registros dele em vida, que foi lançado pouco depois de sua morte. Durante um tempo penei em busca desse CD, principalmente após ouvir em uma excelente coletânea da RCA Victor, “Jazz at Midnight”, a faixa “Imagination”, extraída justamente de “Let’s Get Lost”. Também vi que ele interpretava alguns standarts, como “My One and Only Love” e “Retrato em Branco e Preto”. Quando finalmente consegui comprar o CD e ouvi-lo, fiquei com aquela estranha sensação de dinheiro rasgado. Seria isso o Chet?

Deixando de lado o papel de fã e analisando os fatos, acabamos sendo obrigados a concordar com os críticos, ao menos em parte. Talvez eles estejam certos em decretar que Chet morrera décadas antes daquele mergulho holandês, ao menos uns trinta anos de assombração em vida. Assombração essa que penava mais pela Europa do que em sua própria terra, já que era mais bem recepcionado pelo público do Velho Mundo, tentando soprar o instrumento tibiamente, mas sem lembrar seus registros de anos anteriores, muito em parte devido a ter perdido os dentes, provavelmente apanhando de algum traficante. E também não dá para negar que nas últimas décadas de vida ele era apenas um rascunho do que era. Ou pior, do que poderia ter sido ou daquilo que seus fãs achavam que era. Quando esteve no Brasil no Free Jazz Festival de 1985, aqueles que nunca tiveram chance de ouvi-lo ao vivo provavelmente se decepcionaram com sua burocrática presença. Sua imagem entre os admiradores se conservou até hoje, mas ele se acabou em corpo e alma, um Dorian Gray às avessas. Se Chet tinha 58 anos ao enfiar as fuças no chão em 1988, seu rosto aparentava o dobro. E por dentro seu organismo já devia ter entrado no cheque especial da morte há muito tempo por tanto abuso, principalmente o consumo de heroína.
O jornalista Ruy Castro, quando da morte do trompetista lá nos Países Baixos, lançou a pá de cal com um artigo desmistificando a lenda em torno do mais famoso representante do Cool Jazz e do West Coast. já imaginando o grau de beatificação ao qual ele seria colocado pelos fãs. E como em uma estranha missa do primeiro aniversário de sua morte, escreve outro artigo para completar o serviço quase um ano depois. E desfaz alguns mitos, sendo o principal desses mitos é que o seu jeito de sussurrar suave e baixinho as melodias ao cantar teria influenciado diretamente João Gilberto e a Bossa Nova. Aliás, há quem defenda exatamente o contrário, de que João Gilberto é que teria influenciado Chet. Não obstante a Bossa Nova ter sido claramente influenciada pelo Jazz e este ter uma dívida para com a Bossa Nova, principalmente o West Coast, Ruy deixa bem claro que essa de sussurrar baixinho ao microfone antecede tanto Chet quanto Gilberto, apontando Joe Mooney como um dos que já usavam esse recurso anos antes e que teria realmente influenciado o jeito de cantar dos cariocas “desafinados”, além de outros sussurrantes como Page Cavanaugh e Matt Dennis entre os cantores, e Peggy Lee ou Blossom Dearie entre as mulheres. Muito do mito também é desfeito na biografia escrita por James Gavin, “No Fundo de um Sonho – A Longa Noite de Chet Baker”, por sinal prefaciado por Ruy Castro.
Mas seria polêmica barata ou iconoclastia oportunista simplesmente sapatear em seu túmulo e reduzir a pó a obra desse músico, além de ser uma bruta sacanagem com ele e seus fãs. Apenas estamos lembrando que Chet era humano, demasiado humano, com suas limitações e defeitos. Mesmo assim, ainda não trocaria o mais decadente Chet por uma orquestra inteira de Kenny G’s ou Caios Mesquitas.
Mesmo que os críticos se recusem a pô-lo no mesmo patamar de outros gênios, seus seguidores não ligam. E seu instrumento, seja a voz ou o trompete, sempre remeterá a um clima romântico e sofisticado. Muito provavelmente Chet ajudou a abater muitas presas indefesas entre doses de Martini, e ainda ajuda. E a isso lembremos o velho Chet, e se quiser homenageá-lo decentemente apenas ouça algumas de suas velhas gravações. Garimpando sua vasta obra há belas e pungentes músicas, tanto pelo seu trompete quanto por sua voz. Por exemplo, enquanto redijo essa esculhambação de texto escuto o disco “Chet”, de 1959, o qual é excelente. Também posso citar suas parcerias com o sax tenor Zoot Sims, como no disco “Chet Baker & Strings”, que tem pérolas românticas como “You Don’t Know What Love Is” e “The Wind”. Parece mais fácil encontrar gemas preciosas em sua produção dos anos 50, mas com cuidado podemos descobrir maravilhas espalhadas pelas décadas seguintes. Pessoalmente gosto de sua leitura de “Once Upon a Summertime” (versão americana de “La Valse des Lilas”, de Michel Legrand), que é de 1977.
Sim, Chet Baker era imperfeito em vida e obra. Mas talvez isso o torne mais passível de ser admirado e seguido pelos motivos certos.




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