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A Montanha de Abutres da Imprensa

"Uma estudante foi hostilizada por usar uma roupa inadequada na faculdade? pode deixar que eu escrevo a matéria!"
Nota do blodegueiro: esse texto é mais um dos que publicamos no finado Busilis, e como as coisas não melhoraram muito -aliás, pioraram – republicamos o dito, com poucas mudanças, em homenagem a todos que caíram em um buraco durante o último apagão.
Todo estudante de jornalismo já ouviu falar do filme “A Montanha dos Sete Abutres“. Dirigido por Billy Wilder em 1951, conta a história do repórter sem escrúpulos Chuck Tatum, que está trabalhando no cu do Judas, mas aguardando a chance de publicar uma senhora história que o levará de volta aos grandes jornais. E essa chance aparece quando Leo Minosa, um trabalhador, fica preso em um buraco na montanha do título. Ele transforma o ocorrido em um verdadeiro circo, ameaça autoridades locais na intenção de prolongar ao máximo o resgate do pobre para extrair até o tutano aquele fato. Até a esposa do infeliz que está no buraco se aproveita da eventual fama. O filme é usado como crítica a imprensa sensacionalista e irresponsável, e como exemplo a não ser seguido pelos alunos de jornalismo.
Obviamente quando se formam e vão estagiar em alguma redação de um grande jornal, os jovens descobrem que o que ocorreu no filme é fichinha se comparado à realidade atual, e Chuck Tatum é uma moça perto de alguns redatores e editores da chamada grande imprensa, que devem achar que o clássico de Billy Wilder é uma comédia leve. Com isso em mente e sem absolutamente nada mais importante a fazer, maquinamos um exercício mental e imaginamos como seria o episódio retratado no filme nos dias atuais e se passando no Brasil. O cenário da coisa seria mais ou menos o seguinte:
- O repórter Chuck Tatum, além de cobrir o fato para um grande jornal, manteria uma conta do twitter atualizada constantemente, além de um videolog e uma comunidade no orkut
- Leo Minosa não estará preso em uma caverna, e sim em um túnel de fuga de uma cadeia paulista, e ficaria soterrado por causa das obras do metrô de São Paulo ou do Rodoanel.
- O repórter nem precisará chantagear autoridades para que atrasem o resgate. As autoridades envolvidas seriam tão incompetentes e as equipes de resgate tão mal equipadas que o resgate demorará dias ao invés de horas
- A esposa de Minosa começa a aparecer na mídia, e logo recebe um convite para posar para a Revista Playboy e atuar em uma produção da “Brasileirinhas”
- Uma garota de programa que mantém um blog afirmará que Leo Minosa largou a esposa pra ficar com ela, e depois escreverá um livro sobre o assunto;
- A equipe do Pânico aparecerá no local e perturbará o repórter escroto com perguntas infames, como “Em buraco que Minosa cava, Tatum caminha dentro?”. O repórter Vesgo levará uns cascudos e o vídeo fará sucesso no Youtube
- Simony aparece na Rede TV! afirmando estar grávida de Leo Minosa, e fecha um contrato de exclusividade com a Luciana Gimenez para filmar e transmitir o parto
- Gugu Liberato cobriria o evento em seu programa e ainda tentaria promover o encontro do prisioneiro com sua família que reside em São José da Lagoa Tapada, interior da PB. Esses não queriam vê-lo nem pintado de ouro, mas com a grana entrando, claro que estariam esperando de braços abertos;
- Sairá uma matéria na Revista Veja culpando o governo Lula e implicando Dilma Roussef na confusão. Diogo Mainardi inventará um factóide ligando a prisão de Minosa a um esquema de corrupção de prefeituras petistas
- Leo Minosa já seria convidado a participar de Reality Shows, Talkshows, programas de auditório, uma participação no “Zorra Total” e para posar para a revista “G Magazine”. Com sorte, ele não escaparia vivo e seria poupado de tudo
- E mesmo que, após quinze dias esperando ser retirado do buraco, Leo Minosa ainda estivessea vivo, haveria uma grande chance de que ele morra vítima de uma bala perdida, arrastado durante uma tentativa de assalto a ambulância, atropelado por um avião que derrapou da pista de Congonhas, assassinado pela polícia ou no corredor de um hospital esperando atendimento durante uma greve dos funcionários da saúde
- Agora multiplique isso por 5 se por acaso ele estivesse usando um vestido curto rosa-choque em uma universidade do ABC paulista antes de cair no buraco. Aí o título do filme deveria mudar para “A Faculdade dos 700 Abutres”…
O Destrutor de Intestino de Spider Jerusalém

E a arte de causar incontinência nos poderosos
Nota do Blodegueiro: Esse texto foi escrito originalmente para participar do Blog Carnival organizado por Hiroshi, o Carnaval de Quadrinhos das Quartas , na sua terceira edição, honrosamente convidado pelo Quadrideko. Cada edição trazia um tema diferente do mundo dos quadrinhos, e cada blog participante postava algo a respeito. Para o primeiro que participei, o tema eram armas dos quadrinhos, coisas como o anel do Lanterna Verde, o Martelo de Thor ou o escudo do Capitão América. Escolhi algo não muito óbvio ou conhecido: uma pistola de raios que produz incontrolável caganeira. Sim, é sério. E achei pertinente trazer este texto de volta, já que andei falando de jornalismo em alguns textos recentes, já que o portador dessa “arma” é o jornalista Spider Jerusalem.
“E quem cacete é o Spider Jerusalém, cazzo?” pode perguntar algum leitor mais desavisado. Se você não o conhece, não sabe o que está perdendo, mas vamos tentar dar uma ideia. Num visual e linguagem pra lá de cyberpunk, o insano Warren Ellis criou em 1997 a série “Transmetropolitan” cujo protagonista é o repórter Spider Jerusalém, uma mistura de H.L.Mencken e Hunter S.Thompson, um escroto, misantropo, porra-louca e ermitão que se vê obrigado a abandonar seu isolamento e voltar a trabalhar em um jornal na “Cidade”, uma Babel caótica e futurista onde religiões novas surgem constantemente para se unir as dezenas de milhares já existentes, as propagandas invadem os sonhos das pessoas, há milhares de canais de TV disponíveis, convivem diversas mutações genéticas e estéticas alienígenas, pessoas transferem suas consciências para nuvens de nano dispositivos e humanos conservados criogenicamente são despertos apenas para serem rejeitados pela sociedade. Nesse mundo a mentira é notícia e a verdade é obsoleta. A principal arma de Jerusalém é a verdade. Como ele mesmo afirma, aponte a verdade para o alvo e mande tudo pelos ares. E como repórter polêmico, a máxima de Spider é a busca pela verdade, mesmo que para alcançá-la e divulgá-la ele precise atropelar a própria mãe com um tanque M1 Abrams.
Menos metaforicamente, ele também usa como arma uma curiosa pistola chamada “destrutor de intestino”, a estrela dessa matéria. Não estamos falando de um Cubo Cósmico, escudo de adamantium ou Nulificador Universal. É simplesmente uma pistola que provoca diarréia no coitado que estiver do lado errado do dispositivo, e na intensidade que se desejar, desde um simples desarranjo até um prolapso retal. Dá até medo tentar imaginar o princípio de funcionamento de uma bagaça dessas e o que diabos ele supostamente faz no sistema nervoso de alguém pra provocar um repentino tsunami intestinal totalmente involuntário.
À primeira vista essa arma não parece tão glamourosa ou ter o mesmo apelo que uma manopla Witchblade, as garras do Wolverine ou o anel de energia de um Lanterna Verde. Aliás, nem a segunda ou terceira vista. O martelo de Thor pode invocar tempestades e rachar o chão, a cara de pau do Constantine engana o próprio capeta e as cápsulas de gás do Batman podem derrotar até o Galactus. Cadê o apelo de uma arma cujo poder é fazer alguém borrar as calças? Está mais para o ridículo.
Todavia, por mais absurdo que possa parecer, um repórter com uma arma capaz de causar caganeira nos outros é mais uma ótima sacada do Ellis. Realmente um jornalista é capaz de causar incontinência em muita gente dado o poder que tem em mãos. Basta lembrar os grandes magnatas da imprensa. Assis Chateaubriant se queria comprar um colar de diamantes para presentear a Rainha da Inglaterra simplesmente reunia o maior numero de empresários e levantava a grana. E ai daquele que não entrasse na vaquinha. Todos tinham medo de ter seu nome difamado nos Diários Associados, independente se era verdade ou não. E o paraibano Chatô nem se importava em exagerar ou inventar fatos quando queria lascar um. E isso deveria dar uma disenteria em muito cabra. Isso sem citar outros poderosos, como Roberto Marinho ou Willian “Cidadão Kane” Randolph Hearst. Em menor escala, repórteres podem derrubar presidentes ou acabar guerras. Basta lembrar a dupla de repórteres do Washington Post que denunciou o esquema Watergate e levou o presidente Richard Nixon a renunciar. Bem parecido com Spider disparando sua arma contra o próprio Presidente dos Estados Unidos, que deve ter transformado o piso do banheiro em algo parecido com um quadro do Pollock.
Obviamente que no mundo real quem detém o poder de fazer políticos, empresários e poderosos cagarem de medo não necessariamente usa tal poder para nobres causas ou tenham um maior compromisso com a verdade. Aliás, a grande maioria que usa dessa prerrogativa é tão ou mais escrota quanto nosso anti-herói Spider Jerusalém, por estarem comprometidos com causas menos louváveis e cagarem para a verdade.
Posto isso, nada mais adequado que um profissional da imprensa usar uma arma que provoque diarreia em políticos e poderosos em geral que se enquadrem em sua alça de mira.
Intrigas de Estado: jornalismo às antigas
Filmes sobre jornalismo costumam dar resultados variáveis, a depender da abordagem adotada. Normalmente o protagonista central vai até as últimas consequências para revelar a verdade ao público, arriscando a vida ou a reputação, como em “Todos os Homens do Presidente“, de Alan J.Pakula, ou é um escroto de marca maior para o qual a verdade é um mero detalhe a se adequar às necessidades da linha editorial, me ocorrendo diversos exemplos de filmes que adotam essa linha, sendo o escroto Chuck Tatum do excelente “A Montanha dos Sete Abutres“, de Billy Wilder, o primeiro exemplo que me ocorre, e passando por outros filmes, como “Ausência de Malícia” ou “Quinze Minutos“. Há ainda aqueles que satirizam e expõe ao ridículo certos arquétipos do jornalismo ao mesmo tempo em que o homenageia, como “A Caçada“, com Richard Gere.
Ontem finalmente assisti em DVD ao filme “Intrigas de Estado“, do diretor Kevin MacDonald, de “O Último Rei da Escócia”, e ao realizar este filme (baseado em uma série da BBC), MacDonald preferiu seguir a primeiro exemplo que citei. Aliás, o filme inteiro parece fazer referência ao clássico de Pakula sobre o escândalo Watergate, com direito a participação especial do edifício Watergate como cenário de mais uma conspiração política.
A história começa com um assassinato de um viciado nas ruas de Washington, que começa a ser investigado pelo veterano repórter Cal McAffrey (Russel Crowe), um digno representante da velha guarda jornalística, sem maiores preocupações financeiras ou estéticas, mas com contatos e informantes em todos os lugares necessários para se obter a informação que precisar. Seu contraponto é a jovem repórter Della Frye (Rachel McAdams), que edita o blog do “Washington Globe” alimentando-o com notícias e matérias mais imediatistas e sensacionalistas, e está cobrindo o suposto suicídio de uma funcionária do Congresso, assistente do político em ascensão Stephen Collins (Ben Afleck), e o episódio revela um suposto romance extraconjugal entre ambos. Coincidentemente, o congressista é amigo de faculdade de McAffrey, e este já teve um caso com a esposa do colega. Não preciso falar que o assassinato investigado por MacAffrey está relacionado com a morte da amante de Collins, ambos ligados a uma conspiração envolvendo a privatização de serviços militares e de segurança investigados no congresso e envolvendo bilhões de dólares.
A editora do Washington Globe, Cameron Lynne (Herren Miller) oscila entre o jornalismo investigativo e bem trabalhado do veterano repórter e o imediatismo e superficialidade exigido pelos novos acionistas do jornal. O roteiro trabalha bem a conspiração, sem cair nos clichês inverossímeis do tema, e ainda abordando de forma sutil o dilema entre a “velha escola” de jornalismo e o modelo de jornalismo dos tempos de Internet e blogs. O personagem do Russel Crowe é mostrado como um jornalista à moda antiga, daqueles que ainda manda flores vão às ruas, chafurdam em locais pouco recomendáveis e pressionam suas fontes até o talo, não se furtando de omitir informações importantes à polícia. Inclusive há um recado implícito (ou bem explícito, sei lá) para os adeptos do “novíssimo jornalismo” praticado por blogueiros, bem ao modo como Gay Talese recentemente comentou quando esteve no Brasil: que é preciso sair da frente do notebook, mover o rabo e correr atrás da notícia. E a novata, antes relutante, acaba seguindo os conselhos da “puta velha” do jornalismo.
No final não é o tipo de filme no qual você exclama “puta que pariu!” ao final, seja por admiração ou por raiva. Mas é um bom filme, com a trama bem conduzida, atuações boas e personagens bem construídos, mas com uma pequena e desnecessária reviravolta ao fim da trama. Mas a mensagem final mesmo é que, se você quer jornalismo de verdade, procure os jornais, apesar de todas as suas limitações e defeitos.
Grandes Bebedores: H.L.Mencken

Como passei o último fim-de-semana enxugando hectolitros de cerveja na companhia de amigos, enquanto curto a ressaca resolvo homenagear os famosos colegas de copo com uma categoria nova na blodega: bêbados famosos. E para inaugurar a Sala Vip dessa blodega, uma figura pra lá de ilustre e elegante, o jornalista H.L.Mencken, que bem podia reivindicar a posição de santo padroeiro do jornalismo, se ele acreditasse nessas coisas.
E quem, por cargas d’aguardente foi Mencken?
Henry Louis Mencken, ou H.L.Mencken foi um jornalista, ensaísta, crítico e editor americano, nascido em Baltimore em setembro de 1880, cujo estilo influenciou gerações de jornalistas e escritores americanos e mundo afora. Seu modus operandi iconoclástico basicamente se resumia a expor ao ridículo idéias e argumentos, com floreio e estilo, mostrando que o rei além de estar pelado, tinha o pau pequeno. E nada era sagrado para ele. E sua arma demolidora era o humor rebuscado, além de uma série de frases e referências de entortar o juízo de um eventual antagonista. O “American Way of Life” foi empenado a marretadas retóricas. Mencken desprezava o chamado homem de classe média americano, classe a qual se referia pejorativamente como “Booboisie”, normalmente lhe reservando adjetivos pouco louváveis, de “besta” pra baixo. O próprio regime democrático era por ele definido como “a arte de gerir o circo a partir da jaula dos macacos”.
Era assumidamente elitista, não defendendo a supremacia de uma raça, nacionalidade ou credo sobre outra, e sim a superioridade intelectual de poucos indivíduos em relação a grande maioria. Para Mencken, o ser humano é, em grande parte, um grande embusteiro, covarde e incompetente na maioria de suas atribuições. Ele foi um dos mais acirrados ateus de seu – e de outro –tempo. E para ele religião alguma merecia maior reverência. Os grupos fundamentalistas americanos como os puritanos, a igreja Batista e os metodistas eram alguns de seus alvos preferidos. Seus artigos frequentemente desconstruíam com fina ironia e elegância todo e qualquer argumento que sustentasse dogmas religiosos, desqualificando a existência de Deus e ridicularizando seus representantes, carinhosamente chamados de “cambistas do paraíso”. O artigo “Cerimônia Memorial” enterra todas as divindades na mesma vala comum e a cobre com uma pá de cal. Isso décadas antes de Richard Dawkins começar sua rixa pessoal com o Todo-Poderoso. E com mais finesse e graça do que o professor inglês. Sorry, Dawkins. Nem sua terra natal, Baltimore, era poupada, já que, segundo ele, “trocava de moda a cada estação e de preconceito a cada geração”. E muito menos sua profissão. O famoso artigo de 1920, “Sobre Jornalismo” traça um retrato sem retoques da imprensa à sua época. E nesses tempos de gripe suína, o ofício de vender bichos-papões à população não mudou muito nesses quase noventa anos.
Com todos esses predicados politicamente incorretos, Mencken era de uma popularidade incrível nos anos 20 e 30. A partir de seu bunker no Baltimore Sun, distribuía petardos e obuses verbais a torto e a direito, e seus artigos, ensaios, contos e críticas eram devorados por todos, inclusive pelo homem médio a quem tanto esculhambava. Um mistério inescrutável, já que a concorrência procurou emular o jeitão de Mencken, tentando criar seus clones em cativeiro e devidamente domesticados, o que normalmente se revelava um fiasco, já que as imitações baratas nem chegavam aos pés do original.
Mencken se tornou célebre ao cobrir o “Julgamento do Macaco”, quando um professor do Tenessee foi processado por ensinar a Teoria da Evolução em 1925. Em seus artigos, Mencken desqualificou os criacionistas com tiradas como afirmar que os macacos é quem deveriam processar os homens ou de que os criacionistas acreditariam que Jonas engolira uma baleia se isso estivesse na Bíblia. Esse episódio inspirou a peça “O Vento Será Tua Herança”, cujo personagem E. K. Hornbeck era visivelmente o próprio Mencken. Na primeira versão para o cinema, foi vivido por Gene Kelly.
Ele e seu sócio da esnobe revista “Smart Set”, George Jean Nathan, eram dois fanfarrões que espalharam o terror entre os autores da época, já que as críticas de ambos poderiam reduzir a pó as pretensões literárias de algum pobre candidato a escritor. A dupla era implacável e irônica, e nem autores consagrados ou clássicos eram perdoados. Dostoiévsk encabeçou a sua lista de escritores mais chatos de todos os tempos. Em compensação, quando gostava de um artista, movia céus e pedras para exaltá-lo. Mencken elevou a categoria de gênio escritores como Joseph Conrad, Edgar Allan Poe, Mark Twain e Ambrose Pierce. Admirava o filósofo Friedrich Nietzsche, idolatrava a música clássica, principalmente Beethoven. Poesia e artes plásticas ele considerava como “menores”, e gêneros musicais mais populares, como o Jazz recém-nascido e ainda cru, coisa indigna de civilizados. Mesmo temido, circulou livremente no meio da elite cultural americana daqueles anos.
Alguns de seus artigos eram pura gozação, como aquele famoso sobre o “dia da banheira”, onde ele criava uma ficcional, enciclopédica e absurda história da invenção da banheira que, durante um bom tempo, foi citada em outras publicações como verdadeira. Imagina isso hoje em dia em tempos de Internet e hoaxes fáceis.
Sua popularidade caiu um pouco durante e após a II Guerra Mundial, já que era assumidamente germanófilo, além de ser contra o presidente Roosevelt e a política do New Deal. Em 1948 teria um derrame que o deixou incapaz de ler ou escrever, o que deve ter deixado muita gente aliviada. Morreria – ou melhor, foi “assumir suas funções públicas no inferno” – em 26 de janeiro de 1956. Para quem quiser conhecer mais sobre o trabalho do sujeito não falta material. Em português, o jornalista Ruy Castro organizou uma coletânea de artigos, frases e pensamentos de H.L. Mencken em “O Livro dos Insultos”. Há também “O Diário de H.L.Mencken”, escrito por Charles A. Fecher. Todavia essa biografia não é tão bem vista por alguns por tentar rotular algumas declarações e posições de Mencken como racistas e anti-semitas. Uma biografia mais recente – “Mencken, The American Iconoclast” – foi escrita por Marion Elizabeth Rodgers em 2005, mas ainda não está disponível em português. E na rede não faltam sites e reproduções de seus textos mais famosos.
E o porquê de Mencken estar inaugurando essa galeria de grandes bebedores? Bem, pelo que consta, Mencken não era o tipo que bebia como se o estoque de etanol do mundo fosse acabar nas próximas horas, se compararmos a outros que, certamente, freqüentarão esse cantinho de nosso boteco. Mas ele apreciava bastante o precioso líquido, já que para ele uma noite perfeita poderia se resumir a ouvir música clássica e encher a cara com um amigo enquanto ambos frescavam de Deus e do mundo. Além do mais, em plena vigência da Lei Seca, ele defendia abertamente a liberação do consumo de bebidas alcoólicas. Um de seus mais famosos artigos, “O Periélio da Proibição”, era um ataque bem fundamentado à emenda constitucional que – teoricamente – privava os americanos de molharem suas gargantas com algo mais substancial do que água ou suco de uva, mostrando seus pontos fracos e que era, no frigir dos ovos, um retumbante fracasso, até porque todo mundo estava pouco se fodendo pra Lei Seca e enchia a cara do mesmo jeito. Em outro divertidíssimo texto, também escrito nesse período negro para os bebuns, ele defendeu a teoria de que as pessoas seriam melhores se a atmosfera estivesse borrifada com álcool, “obrigando” a todos de se manterem levemente altos, sem o perigo de ninguém ficar sóbrio o suficiente para cometer desvarios como iniciar guerras. Ou seja, motivo mais do que suficiente para freqüentar nosso pé-sujo virtual.