Posts Tagged ‘Miles Davis’

Relembrando Clifford

Ano passado o site Mínimo Múltiplo, do colega Lucas Colombo, publicou este meu texto sobre o trompetista Clifford Brown. Para relembrar o aniversário de sua morte, republico aqui na Blodega o texto, principalmente nestes tempos de vuvuzela estuprando nossos tímpanos.

Se o pop decidir elevar o 25 de junho a dia santo devido à recente morte de Michael Jackson, os acólitos do Jazz têm prerrogativa e preferência pela data, pois em 1956, na fatídica madrugada de 25 para 26, morria em um acidente de carro o jovem trompetista Clifford Brown, que contava com 26 anos incompletos e estava em plena atividade. Mais do que um futuro promissor não cumprido, sina de muitos artistas mortos precocemente, ele já era mais do que uma promessa e já havia deixado sua marca no gênero, tanto por seu talento com o instrumento quanto por seu perfil incomum. Se hoje o consumo de drogas está associado à “atitude” dos artistas de rock e congêneres, devo abrir um parêntesis para lembrar que, há décadas, muitos artistas de Jazz consumiam doses industriais das drogas então disponíveis, muitos em busca de inspiração e combustível para longos solos e improvisos. Por exemplo, se Tim Maia costumava praticar sua versão de Triatlon (maconha, uísque e cocaína), Billie Holiday, em certa época, praticava uma espécie de “pentatlon” toda noite: fumava ópio, seguido de maconha, engolia vários comprimidos (provavelmente anfetaminas e barbitúricos) com a ajuda de generosas doses de uísque e, antes de dormir, enchia as veias de heroína. Só metade disso derrubaria um dinossauro. Do rock, inclusive.

Mas não é de Lady Day que estamos falando agora. Citei-a apenas para contextualizar o ambiente do Jazz naquelas décadas e lembrar que as drogas ceifaram muitos talentos, como Charlie Parker e Fats Navarro, só para citar instrumentistas de sopro, além de comprometer a carreira de alguns, levando-os a problemas legais ou a perder a licença de músico, como John Coltrane. Num ambiente desses, em que os grandes acreditavam que era necessário se entupir de drogas até o coração pedir falência para poderem alcançar o nirvana artístico, Clifford Brown era uma aberração, no bom sentido, pois consta que ele era totalmente limpo. Não fumava, não cheirava, não injetava (e não mentia, até onde se sabe), e a bebida mais forte que bebera provavelmente foi leite maltado. Também não era um deslumbrado com a fama e a grana, sendo de uma humildade quase desconcertante, além de ter um bom senso para negócios pouco comum aos do ramo, e tido como um doce de pessoa por seus pares. Era uma verdadeira avis rara no meio jazzístico. Só tinha um azar danado com automóveis, já que se envolveu em três acidentes sérios, sendo o último fatal. E por acaso não era ele quem dirigia naquela noite, e sim a esposa do pianista Richie Powell, que também estava com eles. Ironicamente, enquanto outros de seus pares sucumbiam às drogas, ele morreu dessa forma tão casual e absurda.

Além do péssimo histórico com veículos, poderia se dizer que as circunstâncias conspiraram contra as possibilidades artísticas de Brown, desde começar tarde a aprender música, passar a juventude escondido nos cafundós do Delaware, ganhar uma bolsa de música para uma universidade sem departamento de música (é sério!) e ficar fora de cena por meses devido a um (adivinhem) acidente de carro pouco depois de alguns medalhões passarem a prestar atenção em seu talento. São “coisas” que poderiam comprometer irremediavelmente a carreira de muitos artistas, ou no mínimo protelar tudo para um reconhecimento tardio.

Encorajado por Dizzie Gillespie, Brown foi persistente e começou, de fato, sua carreira profissional apenas em 1951, e nos meses seguintes tocaria nos grupos de Chris Powell e Tadd Dameron, até se juntar a Lionel Hampton em uma turnê europeia e ser “descoberto” por músicos do velho continente, que o convidaram a gravar com eles, em idos de 1953. No ano seguinte estaria solto o suficiente para o consagrado baterista bebop Max Roach lhe fazer a indecorosa proposta de comporem um quinteto, tendo o trompetista como líder. Daí pra frente foi história, infelizmente curta. E boa parte dessa história foi registrada pela gravadora EmArcy. E essa fase pode ser conhecida no box “Brownie”, lançado pela Polygram e que faria esse que vos fala muito feliz caso uma boa alma lhe desse de presente.

Clifford Brown era de uma versatilidade a toda prova, já que não se acanhava em dedilhar nervosamente cada nota em uma formação de quinteto ou de se suavizar ao ser acompanhado por orquestra de cordas, algo que costumava assombrar outros que ousassem fazê-lo. Também serviu de auxílio luxuoso a vozes femininas de estilos tão distintos quanto Sarah Vaughan, Dinah Washington e Helen Merrill.

Não deixa de ser um exercício interessante imaginar como seria o cenário do Jazz se Brown não morresse tão prematuramente ou se fosse notado anos antes. Herdeiro do estilo de Fats Navarro, em poucos anos se tornaria tão importante que chegava a eclipsar outros trompetistas de seu tempo, como Chet Baker e Miles Davis. A propósito, Miles soube aproveitar o hiato deixado pela ausência de Brown. Não que o substituísse, mas sem um talento como Brown atraindo a atenção para si ou um sucessor tão bom quanto, a metamorfose ambulante do Jazz encontrou o caminho aberto e nas décadas seguintes reinventaria o gênero de várias formas, tornando-o cool ou misturando-o ao rock e à música eletrônica (depois de levar um par de chifres do Jimi Hendrix, dizem as más línguas).

Na prática, porém, Clifford não deixou herdeiros imediatos, mas sua importância para o gênero é constantemente lembrada. Uma das mais singelas homenagens é o standard “I Remember Clifford”, de Benny Golson. Helen Merrill e Arturo Sandoval dedicaram álbuns a essa figura ímpar do Jazz. E ainda hoje alguns artistas lhe devem um mínimo de influência, como Ray Hargrove. Mas nada do que eu fale se compara a escutar o próprio. E no Youtube ainda tem alguns bons registros do “Brownie” em ação. Relembremos.

Enhanced by Zemanta

Clark After Dark Vuvuzelas


Se você, caro leitor ou amada leitora, já está de saco cheio de ouvir Galvão Bueno, copa do mundo, e principalmente o nome VUVUZELA, chegou à b(l)odega certa. Sinceramente não sei o que é mais irritante: chamar uma corneta de plástico de vuvuzela ou o som da dita. Aliás, até o som da pronúncia de “vuvuzela” dói no meu ouvido. E para meu azar, esse “neologismo” caiu no gosto da imprensa por conta da copa na África do Sul, e todos os estagiários de jornalismo adoram mencioná-la sem moderação.

Mas já que estamos falando em instrumentos de sopro com nome estranho, citemos um mais interessante: flugelhorn. E que diacho é um flugelhorn? Digamos que seja uma espécie de trompete mais gordinho, e que produz um som mais, podemos dizer, aveludado. E alguns artistas do Jazz o preferiram ao popular trompete. E para purgar o diacho das vuvuzenas de meus pavilhões auditivos resolvi apelar para um dos grandes mestres deste instrumento: Clark Terry, um verdadeiro jazzista antediluviano e que ainda está na ativa no alto de seus quase 90 anos, tendo tocado ao lado de feras como Duke Ellington, Count Basie e Quincy Jones, além de ter  influenciando músicos ao longo das décadas.

Mesmo não tendo conspirado para virar o Jazz do avesso por várias vezes, como Miles Davis, ou se tornado um arauto do tradicionalismo como Winton Marsalis, a obra de Clark Terry  resistiu à prova do tempo, e meio que comendo pelas beiradas, já que não é tão lembrado ou citado quanto outros monstros, como Chet Baker. E com a vantagem de ter sobrevivido à maioria de seus colegas de ofício contemporâneos. Tanto que este ano ele foi um dos homenageados pelo Grammy agraciados com o Lifetime Achievement Award, prêmio também concedido postumamente à Michael Jackson na mesma cerimônia. Também estou vendo que este camarada enterrou muito musico, e ainda está com fôlego para enterrar mais alguns.

Por isso ignorem as vuv…Ah, dane-se que não vou mais citar este nome. Apenas escutem esta versão de “Angel Eyes”, do disco “Clark After Dark”, de 1978. E aproveite o Dia dos Namorados para rolar um clima com a patroa.

Mais sobre o coroa do flugelhorn em seu site oficial

Enhanced by Zemanta

Chet Baker: Demasiado Humano

Retrato em Branco e Preto do artista, quando jovem e quando decrépito

Hoje, 13 de maio de 2009, faz exatamente 21 anos que o trompetista Chet Baker deu o fatal mergulho da janela de seu quarto em Amsterdã, enfiando sua fuça já desdentada na calçada, saindo da sobrevida para entrar no panteão dos deuses pagãos do Jazz, consolidando um mito no melhor estilo James Dean e criando um dos ícones do gênero, se tornando mais um lendário empunhador do instrumento musical que celebrizara Miles Davis, Clifford Brown, Dizzy Gillespie em um longo etc, e morrendo de forma trágica igual a outros mártires do gênero como Billie Holliday ou John Coltrane. Só que, ao contrário desses, Chet não é uma unanimidade, e nem todos concordam em pô-lo no mesmo nível de tais monstros divinos.

Jazz é assunto mais polêmico do que receita de Dry Martini ou Caipirinha. Já começa pela própria definição, pois se você conseguir encontrar duas pessoas que concordem com o mesmo conceito do que é Jazz já é milagre de São Coltrane. E Chet Baker é justamente uma dessas questões polêmicas. A maioria dos críticos nunca o levou muito a sério, mesmo quando era um símbolo sexual naqueles anos antediluvianos da década de 50. A crítica o via mais como um golpe de publicidade da Costa Oeste, uma versão branca e publicável dos ícones negros, como Miles Davis, apenas um vertedor de baladas simples vendido como música romântica para ajudar os jovens a concretizarem seus encontros, tão pré-fabricado quando uma Britney Spears ou Backstreet Boys. Outros questionam seu talento, comparando-o a outros gênios e reduzindo sua importância real. Tais críticas teriam fundamento ou seria tudo despeito com o rapaz que saiu dos cafundós do interior e Oklahoma pra viver na Califórnia e ser uma sensação do Cool Jazz, representante mais popular da sofisticação do gênero, principalmente com sua interpretação de “My Funny Valentine”, música que praticamente tomou pra si?

Quando pré-iniciado nesse fascinante mundo do Jazz, muito ouvi falar de Chet, e comprei o peixe vendido pelos acólitos dessa quase religião. Mas confesso que entre aquelas coletâneas sem maiores critérios e gravações diversas as quais adquiria ou apenas ouvia, havia um misto de satisfação e decepção ao ouvir Chet, já que em muitos desses “greatest hits” que encontramos vida afora o critério de seleção das músicas é, no mínimo, estranho, por juntar em um balaio só distintas fases e estilos de um mesmo músico. E se ouvirmos um Chet dos anos 50 e na faixa seguinte algum registro dele nos anos 80 nos questionamos se é o mesmo intérprete em ambas. Ao menos Chet me ensinou a não perder tempo com isso e procurar o produto original, ou ao menos alguma coletânea decente, para evitar maiores decepções.

E falando em decepção, talvez a maior delas seja em “Let’s Get Lost”, a trilha-sonora de um documentário sobre o próprio, e um dos últimos registros dele em vida, que foi lançado pouco depois de sua morte. Durante um tempo penei em busca desse CD, principalmente após ouvir em uma excelente coletânea da RCA Victor, “Jazz at Midnight”, a faixa “Imagination”, extraída justamente de “Let’s Get Lost”. Também vi que ele interpretava alguns standarts, como “My One and Only Love” e “Retrato em Branco e Preto”. Quando finalmente consegui comprar o CD e ouvi-lo, fiquei com aquela estranha sensação de dinheiro rasgado. Seria isso o Chet?

Deixando de lado o papel de fã e analisando os fatos, acabamos sendo obrigados a concordar com os críticos, ao menos em parte. Talvez eles estejam certos em decretar que Chet morrera décadas antes daquele mergulho holandês, ao menos uns trinta anos de assombração em vida. Assombração essa que penava mais pela Europa do que em sua própria terra, já que era mais bem recepcionado pelo público do Velho Mundo, tentando soprar o instrumento tibiamente, mas sem lembrar seus registros de anos anteriores, muito em parte devido a ter perdido os dentes, provavelmente apanhando de algum traficante. E também não dá para negar que nas últimas décadas de vida ele era apenas um rascunho do que era. Ou pior, do que poderia ter sido ou daquilo que seus fãs achavam que era. Quando esteve no Brasil no Free Jazz Festival de 1985, aqueles que nunca tiveram chance de ouvi-lo ao vivo provavelmente se decepcionaram com sua burocrática presença. Sua imagem entre os admiradores se conservou até hoje, mas ele se acabou em corpo e alma, um Dorian Gray às avessas. Se Chet tinha 58 anos ao enfiar as fuças no chão em 1988, seu rosto aparentava o dobro. E por dentro seu organismo já devia ter entrado no cheque especial da morte há muito tempo por tanto abuso, principalmente o consumo de heroína.

O jornalista Ruy Castro, quando da morte do trompetista lá nos Países Baixos, lançou a pá de cal com um artigo desmistificando a lenda em torno do mais famoso representante do Cool Jazz e do West Coast. já imaginando o grau de beatificação ao qual ele seria colocado pelos fãs. E como em uma estranha missa do primeiro aniversário de sua morte, escreve outro artigo para completar o serviço quase um ano depois. E desfaz alguns mitos, sendo o principal desses mitos é que o seu jeito de sussurrar suave e baixinho as melodias ao cantar teria influenciado diretamente João Gilberto e a Bossa Nova. Aliás, há quem defenda exatamente o contrário, de que João Gilberto é que teria influenciado Chet. Não obstante a Bossa Nova ter sido claramente influenciada pelo Jazz e este ter uma dívida para com a Bossa Nova, principalmente o West Coast, Ruy deixa bem claro que essa de sussurrar baixinho ao microfone antecede tanto Chet quanto Gilberto, apontando Joe Mooney como um dos que já usavam esse recurso anos antes e que teria realmente influenciado o jeito de cantar dos cariocas “desafinados”, além de outros sussurrantes como Page Cavanaugh e Matt Dennis entre os cantores, e Peggy Lee ou Blossom Dearie entre as mulheres. Muito do mito também é desfeito na biografia escrita por James Gavin, “No Fundo de um Sonho – A Longa Noite de Chet Baker”, por sinal prefaciado por Ruy Castro.

Mas seria polêmica barata ou iconoclastia oportunista simplesmente sapatear em seu túmulo e reduzir a pó a obra desse músico, além de ser uma bruta sacanagem com ele e seus fãs. Apenas estamos lembrando que Chet era humano, demasiado humano, com suas limitações e defeitos. Mesmo assim, ainda não trocaria o mais decadente Chet por uma orquestra inteira de Kenny G’s ou Caios Mesquitas.

Mesmo que os críticos se recusem a pô-lo no mesmo patamar de outros gênios, seus seguidores não ligam. E seu instrumento, seja a voz ou o trompete, sempre remeterá a um clima romântico e sofisticado. Muito provavelmente Chet ajudou a abater muitas presas indefesas entre doses de Martini, e ainda ajuda. E a isso lembremos o velho Chet, e se quiser homenageá-lo decentemente apenas ouça algumas de suas velhas gravações. Garimpando sua vasta obra há belas e pungentes músicas, tanto pelo seu trompete quanto por sua voz. Por exemplo, enquanto redijo essa esculhambação de texto escuto o disco “Chet”, de 1959, o qual é excelente. Também posso citar suas parcerias com o sax tenor Zoot Sims, como no disco “Chet Baker & Strings”, que tem pérolas românticas como “You Don’t Know What Love Is” e “The Wind”. Parece mais fácil encontrar gemas preciosas em sua produção dos anos 50, mas com cuidado podemos descobrir maravilhas espalhadas pelas décadas seguintes. Pessoalmente gosto de sua leitura de “Once Upon a Summertime” (versão americana de “La Valse des Lilas”, de Michel Legrand), que é de 1977.
Sim, Chet Baker era imperfeito em vida e obra. Mas talvez isso o torne mais passível de ser admirado e seguido pelos motivos certos.

Enhanced by Zemanta

A Encruzilhada

Em se estando no inferno, chame o capeta pra tomar uma, mas sem gelo

Leia Tudim... »

Receba a Blodega

Digite seu email:

Desenvolvido por FeedBurner

Bate-Boca

  • Moziel T.Monk: Vejo que esse “travamento” já alcançou proporção de ser classificado como síndrome....
  • Emilia Vaz: (Eu peço fiado,mas pago viu?) Não me acho uma escritora,mas eu juro que tento…rsrs É bom saber...
  • André: Adorei,sempre escutava essa filosofia do meu pai !!!!!!Branchu.
  • suzilene: caraca o coelhinho é´loco e tarado e lindinho*-* fiado e´bom de mais. 100% play boy
  • Vampira Dea: Ótimo blog e post, parabéns. Os caras eram burros mesmo rsrrs

Olha o Passaralho!

RSS

Blogueiros do Brasil

Clientela