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Campo de Batalha: Hollywood


O Cinema Americano Vai à Guerra

A cerimônia do Oscar 2010 consagrou o filme “Guerra ao Terror”, da diretora Kathryn Bigelow, contrariando as expectativas de que James Cameron – ex-marido de Bigelow – repetisse o feito de “Titanic” ao levar um balaio de prêmios. Ironicamente o filme foi lançado ano passado apenas em DVD, sem maiores divulgações, ao contrário de “Avatar”, que está há meses em cartaz, e recebeu um lançamento em cinema oportunista há poucas semanas, quando este se tornou candidato sério a ganhar algum Oscar. Obviamente a imprensa explora a vitória de Bigelow sobre seu ex com um clima de picuinha, mas cá entre nós, o próprio James Cameron deu a maior força para ex-esposa neste filme, e ele deve estar inconsolável por não ter ganho tantos prêmios enquanto nada na banheira com os milhões de dólares lucrados com “Avatar”…

“Guerra ao Terror” é mais um filme que aborda a campanha militar americana no Iraque, e nem é o mais recente, sendo este “O Mensageiro”, que foi lançado no Brasil há poucas semanas e chegou a concorrer ao Oscar na categoria ator coadjuvante com Woody Harrelson, cujos personagens principais são dois oficiais com a missão nada agradável de comunicar aos parentes de soldados mortos em combate as más notícias. Mas ambos são filmes de guerra, um gênero que Hollywood explora há décadas, mas com as mais variadas facetas. Os Estados Unidos já participaram de muitas guerras, conflitos e intervenções militares, tanto no passado como em décadas mais recentes,  o que rende bastante material para roteiristas. Mas de longe os conflitos que mais renderam – e rendem – filmes foram a II Guerra Mundial e a Guerra do Vietnã.

No decorrer da II Guerra Mundial Hollywood aproveitou o veio patriótico para explora-lo, e praticamente todos os filmes desta época produzidos nos Estados Unidos mostravam seus atores preferidos ganhando o conflito em nome dos americanos. Se os filmes produzidos durante a guerra podem ser hoje considerados estereotipados e claramente pró-militarismo americano, no pós-guerra surgiram filmes mais propensos a explorar o drama das pessoas afetadas pelo conflito ou com fortes críticas ao militarismo e a guerra. Mas esse tema ainda é um ciclo em aberto, pois todo ano saem filmes que se passam durante o conflito, sendo os mais recentes “Bastardos Inglórios”, “Operação Valkíria” e “Um Ato de Liberdade”. E a lista de filmes sobre o tema, americanos ou não, é imensa, e caso queira saber mais a respeito, sugiro uma visitinha ao site de Oriza Martins.

Já no conflito do Sudeste Asiático Hollywood explorou o tema durante os anos 70 e 80, porém enquanto durou a guerra pouco se abordou diretamente o conflito em filmes, sendo o exemplar típico desta época o filme de John Wayne “Os Boinas Verdes”, de 1968, no qual ele fazia apologia à participação americana na Guerra do Vietnã, com toda pompa, heroísmo e patriotismo, pois John Wayne já ganhara a II Guerra várias vezes sozinho e certamente faria o mesmo chutando a bunda de Ho Chi Min. Há também M.A.S.H, de Robert Altman, uma sátira impagável à guerra, que se passava no conflito da Coréia, mas que era facilmente associado à vigente guerra do Vietnã. Mas no pós-guerra a abordagem dos filmes foi extremamente contrária e crítica à guerra, mostrando seus efeitos  indeléveis naqueles que sobreviveram aos seus anos, e filmes como “O Franco-Atirador”, “Amargo Regresso”, “Platoon” e “Nascido Para Matar” mostram as batalhas e suas consequências sem glamorizar a violência. Obviamente teve muita bomba, com perdão do trocadilho, se passando no Vietnã, principalmente nos anos 80, em plena era dos filmes de ação, sendo a série “Rambo” o exemplo mais clássico.

Porém o que se observa nestes filmes de guerra é que as produções que ousavam mostrar o lado mais sombrio dos combates foram produzidos após o fim das guerras, e nunca durante. E é essa a mais óbvia característica desse novo ciclo de filmes que abordam como tema a ocupação militar no Iraque e Afeganistão iniciada durante o governo Bush e em represália aos atentados de 11 de setembro de 2001. Mesmo no calor da batalha, diretores e roteiristas não evitam o campo minado dos temas polêmicos, apesar dos jovens americanos ainda estarem tombando em solo estrangeiro. Os soldados americanos ainda estão lá, e nos últimos anos diversas produções sobre a guerra foram lançadas, como “Leões e Cordeiros”,  “No Vale das Sombras” e “O Reino”.  E antes de Kathryn Bigelow se aventurar a dirigir um filme sobre a Guerra do Iraque, outra mulher o fez em “Stop Loss”, no qual a diretora Kimberly Peirce abordou o dilema dos soldados que são reconvocados após servir o período obrigatório por falta de contingente e daqueles que se recusam a voltar e se tornam desertores.

Em “Guerra ao Terror”, Bigelow mostra os últimos dias de uma equipe do exército especializada em desarmar explosivos, após o sargento Matt Thompson morrer durante uma missão e ser substituído pelo sargento William James, alguém que não se furta em expor e arriscar a sua vida e a de seus subordinados mais por necessidade de adrenalina do que por coragem. E ao contrário do que muitos desavisados que leem o título em português e imaginam mais um filme de ação pró-belicista, o foco do roteiro é nos desajustes sociais que os militares sofrem por meses em ação e sob pressão e a dificuldade em se adaptar à vida civil devido ao seu “vício” em adrenalina. Aliás, a abertura do filme já deixa isso claro ao apresentar uma citação de Chris Hedges, “O calor da batalha é frequentemente um potente e mortal vício, na guerra é uma droga” destacando o fragmento “guerra é uma droga”. Há algumas cenas de ação, porém o suspense é mais marcante nos tensos momentos que antecedem o desarme ou detonação de algum explosivo plantado por guerrilheiros iraquianos. A edição do filme usa da linguagem do documentário, dando um viés realista e cru à ação, e obrigando o espectador à permanecer ao lado dos soldados, prendendo a respiração (e o esfícter) enquando espera se conseguirá desarmar a bomba ou ser feito em pedaços. Não há pressa ou edição ágil estilo videoclipe.

Pessoalmente achei o filme bom, com cenas bem filmadas e ritmo adequado, que tem o mérito de se apoiar em uma boa história e boas atuações menos do que em caros efeitos especiais. Mas tenho minhas reservas de que se imponha como um clássico do gênero ao longo dos anos vindouros, como os já citados “Platoon” ou “Nascido Para Matar”. Mas talvez acabe se tornando, já que desta safra de filmes sobre a guerra do Iraque este é que acabou ganhando mais destaque. Também é matéria de especulação imaginar que a Academia tenha preterido “Avatar” como um recado à indústria de que  o futuro do cinema não se resume a orçamentos astronômicos e efeitos 3D. Isso o tempo e o público decidirão, uma escolha bem mais simples do que saber qual fio cortar para se desarmar uma bomba em poucos segundos.

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O Segredo dos Argentinos

Sabem aquela piadinha infame e bairrista anti-portenha que lhe pergunta sobre o que os argentinos tem mais que os brasileiros, cuja resposta normal é “eles tem mais que se lascar!”? Ora pois, os ufanistas que me perdoem, mas os argentinos tem mais do que isso em relação à nós, brazucas. E uma dessas “coisas” que os argentinos “têm mais” é o cinema, como um dia o colega de blog Lucas Colombo estava comentando comigo por e-mail, citando bons exemplos da cinemateca portenha.

E ontem, enquanto os cinéfilos do mundo estavam assistindo ao Oscar, preferi conferir o mais recente e elogiado trabalho cinematográfico dos hermanos: “O Segredo dos Seus Olhos”. E concluí definitivamente que o cinema nacional, salvo ocasionais exceções, ainda está levando de goleada dos conterrâneos de Maradona. Claro que nosso cinema melhorou nos últimos anos, e há exemplos excelentes de bom uso dos recursos e linguagem que o meio oferece, como “Cidade de Deus”. Mas no geral o que temos por aqui são, muitas vezes, de um amadorismo de cair o queixo se comparados à produção internacional.

Mas deixemos a tarefa de salvar o cinema nacional para a dupla Tizuka Yamazaki e Xuxa e voltemos para o filme em questão. O protagonista de história é o oficial de justiça aposentado Benjamín Espósito (o ator Ricardo Darín, do qual me lembro de outras produções argentinas, incluindo o excelente “Nove Rainhas”), que tenta resolver as pendências de seu passado escrevendo uma versão romanceada de uma investigação sobre o estupro e morte de uma jovem ocorrido há cerca de 3 décadas, quando ele trabalhava com a jovem advogada Irene Menéndez, tendo como colega e “escudeiro” o alcoólatra Pablo Sandoval.  Aparentemente um caso de rápida resolução, com a polícia logo incriminando dois suspeitos, Espósito se envolve e descobre uma pista que muda os rumos da investigação. Porém ele precisa ir contra a burocracia e aparente incompetência do sistema jurídico no qual trabalha, pouco interessado em prender o principal suspeito.

O diretor Juan José Campanella fez bem o dever de casa, e sua experiência dirigindo episódios em séries como “Lei e Ordem – SVU” ou “Dr.House” lhe deram um senhor know-how. Mesmo se tratando de um roteiro que se relaciona com a história recente da Argentina, a maneira como foi escrito e conduzido torna a história universal, permitindo a qualquer público acompanhar e se envolver com ela. Não obstante a brutalidade do crime – mostrado em poucos segundos no início do filme – a história flui leve, de início, com uma leve pitada de humor nas situações e diálogos, bem como um clima de romance entre a jovem Irene e o mais maduro Espósito, nunca plenamente desenvolvido ou resolvido. Porém conforme a história avança, o filme se torna mais pesado e sombrio, e a trama sofre uma reviravolta quando há interferência do poder executivo no caso em plena era da ditadura argentina, sutilmente fazendo referência àqueles anos de chumbo. No final das contas, Espósito se vê, anos depois, impelido à dar um desfecho em todos estes fatos para que seu romance possa também ser concluído. Admito que a conclusão me surpreendeu, sem apelar para clichês comuns nestas histórias, e com reviravoltas que fluíram no roteiro sem parecerem forçadas.

E falando em conclusões, hoje acordei com a boa notícia de que ele ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Não assisti ainda aos seus concorrentes, mas de antemão posso dizer que houve justiça aqui.  Melhor ainda se os cineastas brasileiros descobrirem com os hermanos o segredo de um bom filme.

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