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Poesias de Boteco – O Peido que a Nêga Deu

Já estou eu aqui brechando as atividades da Blodega, mas ainda me recuperando da viagem, o que demanda cama e muito chá de boldo. Em breve as anotações do meu inseparável caderno preto devem se transformar em posts novos. Enquanto não volto ao ritmo normal de postagem, mais um “clássico” do cancioneiro, dessa vez um mote imortalizado por Otacílio Batista Patriota, “o peido que a nega deu quase não passa no cu”. Sintam a fineza do assunto.

A “nêga” tinha comido
Da panela de um cigano
Pimenta, sebo e tutano
Cebola e peba dormido
Foi tão grande o estampido
Que se ouviu no Pajeú
Toda praga de urubu
Da caixa prego desceu
O “peido” que a “nêga” deu
Quase não passa no “cú”

Na fazenda Gado Brabo
Num casamento que havia
Comeu tanto nesse dia
Mocotó, feijão, quiabo
Meia noite abriu do “rabo”
Defecando o que comeu
Toda prega se rompeu
Na porteira do baú
Quase não cabe no “cú”
O “peido” que a “nêga” deu

Quando o “peido” quis fugir
As tripas se revoltaram
E o “cú” do “peido” vedaram
Para o “peido” não sair
O “peido” não quis pedir
Mas o “cú” se arrependeu
O “peido” inchou e cresceu
Do jeito de um cururu
Quase não cabe no “cú”
O “peido” que a “nêga” deu

“Cú” seboso e vagabundo
O “peido” tinha razão
Um fundo fazer questão
De um “peido” passar no fundo
Mais veloz como um segundo
Esse “peido” endoideceu
Fez finca-pé no “suru”
Quase não cabe no “cú”
O “peido” que a “nêga” deu

Depois da grande explosão
A “nêga” se aliviou
A meninada apanhou
“Caco” de “cú” pelo chão
Pano de fundo e botão
Caroço e casca de umbu
Uma chibata de angu
Do entre perna desceu
O “peido” que a “nêga” deu
Quase não passa no “cú”

Não foi brincadeira não
Quando o “rabo” estremeceu
O “peido” que a “nêga” deu
Ribombou como um trovão
Ela firmou-se no chão
No tronco de um mulungu
Levantou o mucumbu
Abriu a tripa gaiteira
Quando o “peido” fez carreira
Quase não passa nu “cú”

Ela não tem cerimonha
De “peidar” seja onde for
Me disse Joaquim, senhor
Que essa “nêga” senvergonha
Viciou-se na maconha
Mocotolina e pitu
Bebe mais do que timbu
No samba de Zé Bedeu
O “peido” que a “nêga” deu
Quase não passa no “cú”

Quase não pode passar
O chefe da caganeira
O “peido” encontrou barreira
Deu vontade de voltar
Pois quem quer se libertar
Enfrenta até canguçu
Depois do maracatu
A dona do “cú” gemeu
O “peido” que a “nêga” deu
Quase não passa no “cú”

Eu não conheço valente
Por muito brabo que seja
Que não “peido” na peleja
Vendo o perigo na frente
Com o medo que a gente sente
Mais ligeiro o “peido” vem
Empurrado por xerém
Cebola, feijão, quiabo
Dizer na porta do “rabo”
O valor que o “peido” tem

No mundo não há ninguém
Pra saber mais do que eu
O valor que o “peido” tem
E o “peido” que a “nêga” deu

A “nêga” “peidou” peidou num trem
Que ficou de bunda pensa
Um “nego” pediu licença
Soltou um “peido” também
A “nêga” disse meu bem
“Peido” grande só o meu
Vale por trinta do teu
“Peidei” melhor do que tu
Quase não cabe no “cú”
O “peido” que a “nêga” deu

Assim que o “peido” passou
Fez a “nêga” uma careta
A bunda ficou mais preta
O “cú” abriu-se e fechou
Um chifrudo perguntou
O que foi que aconteceu?
Um veado respondeu:
Ainda não sabes tu!
Quase não cabe no “cú”

O “peido” que a “nêga” deu
O “peido” é coisa comum
Chega para todo mundo
Mas de não passar no fundo
Talvez não haja nenhum
Quando a “nêga” soltou um
Fedendo a defunto nu
Não escapou urubu
Quem tinha venta perdeu
O “peido” que a “nêga” deu
Quase não passa no “cú”

“Peido” não sabe o que faz
É comum cego sem guia
Quase o “peido” não saía
O volume era demais
Para passar por detrás
Foi tão grande o sururu
Entre castanha e caju
O caju foi quem venceu
O “peido” que a “nêga” deu
Quase não passa no “cú”

Assim que o “peido” gritou
Na chapeleta do fundo
Na quadratura do mundo
A voz do “peido” estrondeou
Velho Amazonas deixou
De lutar contra o Xingu
A preta cor do muçu
Disse ao “peido” o mundo é teu
O “peido” que a “nêga” deu
Quase não passa no “cú”

Se famoso quis ficar
Dante sofreu na comédia
Shakespeare, na tragédia
Camões em Goa a nadar
Teve Homero de cantar
Os feitos da raça grega
A que ponto o mundo chega
Um peido eterno ficou
Depois que imortalizou
Uma “nêga” e o “cú” da “nêga”.

Poesias de Boteco: O Plantador de Milho

Enquanto cumpro minhas obrigações contratuais aqui sob o sol do Nordeste, venho rapidinho aqui na Blodega para, nesse espírito de nordestinidade, entreter a clientela com esse ótimo exemplo da poesia popular, a já clássica criação de Daudeth Bandeira. Divirtam-se e até mais. Preciso enxugar algumas ampolas de cerveja no mais breve tempo possível.

O Plantador de Milho

Sou eu caboclo da roça
Criado dentro da mata
Nunca calcei um sapato
Nunca usei uma gravata
Moro perto da cidade
Mas pra falar a verdade
Só vou lá de feira em feira
Ou quando há precisão
De batizar um pagão
Ou buscar uma parteira

No dia que registrei
O meu filhinho mais novo
O juiz estava nervoso
Brigando no meio do povo
Me chamou de maltrapilho
Sujo, plantador de milho
E disse mais uma piada
Dessas que a boca não cabe:
Matuto pobre só sabe
Fazer menino e mais nada.

O juiz não tinha filhos
Que enfeitassem sua vida
Eu conhecia a história
E fui direto na “ferida”:
O senhor está zangado,
Tem dez anos de casado
E a mulher não tem um filho;
A sua comida fina
Não contém a vitamina
Que há na massa do milho.

A minha família é grande
Dez filhos e a mulher.
Sua família é pequena
Mas é porque você quer.
A sua mulher lhe embroma
Quase todo dia toma
Anticoncepcional
Lhe vicia em novela
Dorme tarde e faz tabela
E esquece do “principal”.

Ouvi o senhor dizer
Que está gastando por mês
Mas de dez salários mínimos
Só com perfume francês
Diz que a vida é uma bomba
Que foi não foi leva tromba
Com mercadoria falsa
Comprar perfume estrangeiro
É pra quem possui dinheiro
Nos quatro bolsos da calça

Caro doutor, lá em casa
Ninguém nem conversa em luxo
A fora uma simples roupa,
O resto é encher o bucho
Não acostumei meu povo
Exigir sapato novo
Para as festas de São João
Ao invés de um colar de ouro
Compro a rabada de um touro
Pra se comer um pirão.

Lá ninguém fala em perfume,
O que há na minha casa
É cheiro de carne assada
Pingando em cima da brasa
Minha cabocla Maria,
Gorda, disposta e sadia,
Pra toda vez que eu quiser
Botar fogo na geléia
Para isso a minha “véia”
É mulher, sendo mulher.

Como, é galinha caipira
E não galeto de granja
Ao invés de coca-cola
Tomo suco de laranja
Com rapadura de mel.
E escute aqui, bacharel,
Conversa longa me atrasa.
Quer ver a mulher Ter filho?
Bote um plantador de milho
Pra dormir na sua casa.

Poesias de Boteco – Parte 1

Mesa de Bar - João Werner - Foto Digital

Mesa de Bar - João Werner - Foto Digital

Quando sentamos para tomar uma, as conversas vão longe, e geralmente recaem sobre a porcaria da política, ou o último assunto da moda. No meu caso, procuro sempre molhar o bico, e todo o resto do sistema digestivo, regado a cervejas (litrão, já tomou?) e a uma boa conversa de boteco, que quase sempre, são sobre estórias do interior ou ainda poesias populares do qual eu dou um extremo valor.

Agora peguei a manha de gravar essas poesias declamadas em mesa de bar para que não fiquem perdidas num esquecimento profundo causado pelo álcool. Com um velho celular sobre a mesa pego algumas dessas piadas, poesias, prosas, contos e causos e os gravo, numa qualidade ruim de lascar, mas que dá pra transcrever. Agora com algumas na mão, resolvi colocá-las na Blodega e compartilhar com vocês, em doses homeopáticas, pois sei que não é a mesma graça e emoção que elas tem quando são declamadas após alguns copos. Para tentar contornar esse problema,  vai uma dica: leiam embreagados!

A que se segue é de um poeta desconhecido do interior da Paraíba, cujo o declamador melado não lembrou o nome. Lembrou apenas que ele era o barbeiro de uma cidade pequena, e descobrindo que tinha uma doença que fatalmente o levaria a morte escreveu:

Sou um vivo semimorto no leito da desventura
Meu remédio é amargura e a tristeza é meu conforto
Remando o barco pro porto da esperança perdida
E a matéria convencida desiludida da sorte
Só esperando que a morte parta a corrente da vida
De viver tenho vontade, me esforço, luto e pelejo
Mas olho atrás e não vejo os dias da mocidade
Ja descambei da metade estou chegando ao fim
Nada pra mim é ruim, nem a saudade me afronta
E brevemente tira a conta dos dias que faltam a mim

De acordo com o declamador, que em outra oportunidade falarei mais sobre ele, quando era menino escutava isso do seu pai, que sempre se lembrava do velho barbeiro. Se alguém souber a autoria dos versos ou tiver algo a acrescentar fique a vontade em comentar.

Estou gravando mais coisas, e com certeza voltarei a postar tudo que for interessante, pois conversa de bebo também é cultura.

Filho do carbono e do amoníaco

 

Uma homenagem a Augusto dos anjos

(publicado originalmente em Abril de 2007)


Hoje, dia 20 de abril, é aniversário de Augusto dos Anjos, que nasceu no engenho Pau d’Arco em 1884, na época município de Cruz do Espírito Santo (atualmente a área é do município de Sapé). Aproveitamos a efeméride para homenagear o poeta.

Leia Tudim... »

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  • Moziel T.Monk: Vejo que esse “travamento” já alcançou proporção de ser classificado como síndrome....
  • Emilia Vaz: (Eu peço fiado,mas pago viu?) Não me acho uma escritora,mas eu juro que tento…rsrs É bom saber...
  • André: Adorei,sempre escutava essa filosofia do meu pai !!!!!!Branchu.
  • suzilene: caraca o coelhinho é´loco e tarado e lindinho*-* fiado e´bom de mais. 100% play boy
  • Vampira Dea: Ótimo blog e post, parabéns. Os caras eram burros mesmo rsrrs

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