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Poesias de Boteco – O Peido que a Nêga Deu

A “nêga” tinha comido
Da panela de um cigano
Pimenta, sebo e tutano
Cebola e peba dormido
Foi tão grande o estampido
Que se ouviu no Pajeú
Toda praga de urubu
Da caixa prego desceu
O “peido” que a “nêga” deu
Quase não passa no “cú”
Na fazenda Gado Brabo
Num casamento que havia
Comeu tanto nesse dia
Mocotó, feijão, quiabo
Meia noite abriu do “rabo”
Defecando o que comeu
Toda prega se rompeu
Na porteira do baú
Quase não cabe no “cú”
O “peido” que a “nêga” deu
Quando o “peido” quis fugir
As tripas se revoltaram
E o “cú” do “peido” vedaram
Para o “peido” não sair
O “peido” não quis pedir
Mas o “cú” se arrependeu
O “peido” inchou e cresceu
Do jeito de um cururu
Quase não cabe no “cú”
O “peido” que a “nêga” deu
“Cú” seboso e vagabundo
O “peido” tinha razão
Um fundo fazer questão
De um “peido” passar no fundo
Mais veloz como um segundo
Esse “peido” endoideceu
Fez finca-pé no “suru”
Quase não cabe no “cú”
O “peido” que a “nêga” deu
Depois da grande explosão
A “nêga” se aliviou
A meninada apanhou
“Caco” de “cú” pelo chão
Pano de fundo e botão
Caroço e casca de umbu
Uma chibata de angu
Do entre perna desceu
O “peido” que a “nêga” deu
Quase não passa no “cú”
Não foi brincadeira não
Quando o “rabo” estremeceu
O “peido” que a “nêga” deu
Ribombou como um trovão
Ela firmou-se no chão
No tronco de um mulungu
Levantou o mucumbu
Abriu a tripa gaiteira
Quando o “peido” fez carreira
Quase não passa nu “cú”
Ela não tem cerimonha
De “peidar” seja onde for
Me disse Joaquim, senhor
Que essa “nêga” senvergonha
Viciou-se na maconha
Mocotolina e pitu
Bebe mais do que timbu
No samba de Zé Bedeu
O “peido” que a “nêga” deu
Quase não passa no “cú”
Quase não pode passar
O chefe da caganeira
O “peido” encontrou barreira
Deu vontade de voltar
Pois quem quer se libertar
Enfrenta até canguçu
Depois do maracatu
A dona do “cú” gemeu
O “peido” que a “nêga” deu
Quase não passa no “cú”
Eu não conheço valente
Por muito brabo que seja
Que não “peido” na peleja
Vendo o perigo na frente
Com o medo que a gente sente
Mais ligeiro o “peido” vem
Empurrado por xerém
Cebola, feijão, quiabo
Dizer na porta do “rabo”
O valor que o “peido” tem
No mundo não há ninguém
Pra saber mais do que eu
O valor que o “peido” tem
E o “peido” que a “nêga” deu
A “nêga” “peidou” peidou num trem
Que ficou de bunda pensa
Um “nego” pediu licença
Soltou um “peido” também
A “nêga” disse meu bem
“Peido” grande só o meu
Vale por trinta do teu
“Peidei” melhor do que tu
Quase não cabe no “cú”
O “peido” que a “nêga” deu
Assim que o “peido” passou
Fez a “nêga” uma careta
A bunda ficou mais preta
O “cú” abriu-se e fechou
Um chifrudo perguntou
O que foi que aconteceu?
Um veado respondeu:
Ainda não sabes tu!
Quase não cabe no “cú”
O “peido” que a “nêga” deu
O “peido” é coisa comum
Chega para todo mundo
Mas de não passar no fundo
Talvez não haja nenhum
Quando a “nêga” soltou um
Fedendo a defunto nu
Não escapou urubu
Quem tinha venta perdeu
O “peido” que a “nêga” deu
Quase não passa no “cú”
“Peido” não sabe o que faz
É comum cego sem guia
Quase o “peido” não saía
O volume era demais
Para passar por detrás
Foi tão grande o sururu
Entre castanha e caju
O caju foi quem venceu
O “peido” que a “nêga” deu
Quase não passa no “cú”
Assim que o “peido” gritou
Na chapeleta do fundo
Na quadratura do mundo
A voz do “peido” estrondeou
Velho Amazonas deixou
De lutar contra o Xingu
A preta cor do muçu
Disse ao “peido” o mundo é teu
O “peido” que a “nêga” deu
Quase não passa no “cú”
Se famoso quis ficar
Dante sofreu na comédia
Shakespeare, na tragédia
Camões em Goa a nadar
Teve Homero de cantar
Os feitos da raça grega
A que ponto o mundo chega
Um peido eterno ficou
Depois que imortalizou
Uma “nêga” e o “cú” da “nêga”.

Poesias de Boteco: O Plantador de Milho

Enquanto cumpro minhas obrigações contratuais aqui sob o sol do Nordeste, venho rapidinho aqui na Blodega para, nesse espírito de nordestinidade, entreter a clientela com esse ótimo exemplo da poesia popular, a já clássica criação de Daudeth Bandeira. Divirtam-se e até mais. Preciso enxugar algumas ampolas de cerveja no mais breve tempo possível.
O Plantador de Milho
Criado dentro da mata
Nunca calcei um sapato
Nunca usei uma gravata
Moro perto da cidade
Mas pra falar a verdade
Só vou lá de feira em feira
Ou quando há precisão
De batizar um pagão
Ou buscar uma parteira
No dia que registrei
O meu filhinho mais novo
O juiz estava nervoso
Brigando no meio do povo
Me chamou de maltrapilho
Sujo, plantador de milho
E disse mais uma piada
Dessas que a boca não cabe:
Matuto pobre só sabe
Fazer menino e mais nada.
O juiz não tinha filhos
Que enfeitassem sua vida
Eu conhecia a história
E fui direto na “ferida”:
O senhor está zangado,
Tem dez anos de casado
E a mulher não tem um filho;
A sua comida fina
Não contém a vitamina
Que há na massa do milho.
A minha família é grande
Dez filhos e a mulher.
Sua família é pequena
Mas é porque você quer.
A sua mulher lhe embroma
Quase todo dia toma
Anticoncepcional
Lhe vicia em novela
Dorme tarde e faz tabela
E esquece do “principal”.
Ouvi o senhor dizer
Que está gastando por mês
Mas de dez salários mínimos
Só com perfume francês
Diz que a vida é uma bomba
Que foi não foi leva tromba
Com mercadoria falsa
Comprar perfume estrangeiro
É pra quem possui dinheiro
Nos quatro bolsos da calça
Caro doutor, lá em casa
Ninguém nem conversa em luxo
A fora uma simples roupa,
O resto é encher o bucho
Não acostumei meu povo
Exigir sapato novo
Para as festas de São João
Ao invés de um colar de ouro
Compro a rabada de um touro
Pra se comer um pirão.
Lá ninguém fala em perfume,
O que há na minha casa
É cheiro de carne assada
Pingando em cima da brasa
Minha cabocla Maria,
Gorda, disposta e sadia,
Pra toda vez que eu quiser
Botar fogo na geléia
Para isso a minha “véia”
É mulher, sendo mulher.
Como, é galinha caipira
E não galeto de granja
Ao invés de coca-cola
Tomo suco de laranja
Com rapadura de mel.
E escute aqui, bacharel,
Conversa longa me atrasa.
Quer ver a mulher Ter filho?
Bote um plantador de milho
Pra dormir na sua casa.
Poesias de Boteco – Parte 1

Mesa de Bar - João Werner - Foto Digital
Quando sentamos para tomar uma, as conversas vão longe, e geralmente recaem sobre a porcaria da política, ou o último assunto da moda. No meu caso, procuro sempre molhar o bico, e todo o resto do sistema digestivo, regado a cervejas (litrão, já tomou?) e a uma boa conversa de boteco, que quase sempre, são sobre estórias do interior ou ainda poesias populares do qual eu dou um extremo valor.
Agora peguei a manha de gravar essas poesias declamadas em mesa de bar para que não fiquem perdidas num esquecimento profundo causado pelo álcool. Com um velho celular sobre a mesa pego algumas dessas piadas, poesias, prosas, contos e causos e os gravo, numa qualidade ruim de lascar, mas que dá pra transcrever. Agora com algumas na mão, resolvi colocá-las na Blodega e compartilhar com vocês, em doses homeopáticas, pois sei que não é a mesma graça e emoção que elas tem quando são declamadas após alguns copos. Para tentar contornar esse problema, vai uma dica: leiam embreagados!
A que se segue é de um poeta desconhecido do interior da Paraíba, cujo o declamador melado não lembrou o nome. Lembrou apenas que ele era o barbeiro de uma cidade pequena, e descobrindo que tinha uma doença que fatalmente o levaria a morte escreveu:
Sou um vivo semimorto no leito da desventura
Meu remédio é amargura e a tristeza é meu conforto
Remando o barco pro porto da esperança perdida
E a matéria convencida desiludida da sorte
Só esperando que a morte parta a corrente da vida
De viver tenho vontade, me esforço, luto e pelejo
Mas olho atrás e não vejo os dias da mocidade
Ja descambei da metade estou chegando ao fim
Nada pra mim é ruim, nem a saudade me afronta
E brevemente tira a conta dos dias que faltam a mim
De acordo com o declamador, que em outra oportunidade falarei mais sobre ele, quando era menino escutava isso do seu pai, que sempre se lembrava do velho barbeiro. Se alguém souber a autoria dos versos ou tiver algo a acrescentar fique a vontade em comentar.
Estou gravando mais coisas, e com certeza voltarei a postar tudo que for interessante, pois conversa de bebo também é cultura.
Filho do carbono e do amoníaco

Uma homenagem a Augusto dos anjos
(publicado originalmente em Abril de 2007)
Hoje, dia 20 de abril, é aniversário de Augusto dos Anjos, que nasceu no engenho Pau d’Arco em 1884, na época município de Cruz do Espírito Santo (atualmente a área é do município de Sapé). Aproveitamos a efeméride para homenagear o poeta.
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