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O Surreal Zé Limeira

O Surreal Zé Limeira

“Eu me chamo Zé Limeira
Da Paraíba falada,
Cantando nas Escritura,
Saudando o pai da coalhada,
A lua branca alumia,
Jesus, José e Maria,
Três anjos na farinhada.”

O repente, a cantoria e a literatura de cordel são tradições que remontam da Idade Média e que teria sido trazida ao Brasil pelos portugueses lá pelo século XIX, se popularizando no Nordeste, mas especificamente nos Estados da Paraíba, Pernambuco e Ceará. Muitos cantadores se tornaram famosos, mas um deles se destacou por seu comportamento esdrúxulo, um tropicalista pré-cambriano entre os tradicionais cantadores. Eis um pouco da história de Zé Limeira, o poeta do absurdo.

O senhor dos anéis do sertão

Quem viu Zé Limeira ao vivo e a cores testemunhou uma figura ímpar em comportamento e aparência. Usava diversos anéis nos dedos, uma bengala de aroeira, óculos escuros estilo “ray-ban” e um lenço colorido em volta do pescoço. Carregava sempre seu violão adornado com dezenas de fitas multicores, costumava beber “zinebra”, que carregava em seu matulão. Percorria as estradas do sertão a pé, morria de medo de trem – o “embuá de ferro” – e o único veículo no qual subia era carro de boi, que era “abençoado por Deus”. Era de uma excentricidade digna de um astro de rock.

Todavia, o que realmente destacava Zé Limeira dos demais cantadores que freqüentavam feiras e festas era, além de uma voz poderosa, o seu estilo surreal e anárquico, que davam nó em qualquer violeiro que pelejasse com ele, e divertia os presentes. Em suas rimas misturava personagens e cenários bíblicos e históricos com os elementos do sertão, inventando palavras e termos. Natural do município de Teixeira, no sertão da Paraíba, era um verdadeiro pop-star do Nordeste, popular entre os humildes e poderosos, que se divertiam nas pelejas entre ele e o infeliz que o encarasse, já que normalmente o pobre ficava eclipsado pela língua felina e os improvisos malucos do cantador. Ele afirmava que era necessário o fôlego de sete gatos para acompanhá-lo, tanto na cantoria quanto no caminhar – consta que ele caminhava sessenta quilômetros por dia, embreado na caatinga.

O biógrafo do poeta

Orlando Tejo, poeta, advogado e jornalista, natural de Campina Grande, testemunhou ainda jovem muitos dos desafios do qual Limeira participou. Tejo chegou a registrar algumas dessas pelejas em fita, porém todo e qualquer registro feito por ele ou por seus colegas acabou se perdendo, e atualmente não existem gravações da voz de Zé Limeira. Mesmo assim, ele memorizou muito do que ouviu e transcreveu para o papel, garantindo a imortalidade do bardo sertanejo. Seu livro “Zé Limeira – Poeta do Absurdo” é editado desde o início dos anos oitenta.

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