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O Destrutor de Intestino de Spider Jerusalém

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E a arte de causar incontinência nos poderosos

Nota do Blodegueiro: Esse texto foi escrito originalmente para participar do Blog Carnival organizado por Hiroshi, o Carnaval de Quadrinhos das Quartas , na sua terceira edição, honrosamente convidado pelo Quadrideko. Cada edição trazia um tema diferente do mundo dos quadrinhos, e cada blog participante postava algo a respeito. Para o primeiro que participei, o tema eram armas dos quadrinhos, coisas como o anel do Lanterna Verde, o Martelo de Thor ou o escudo do Capitão América. Escolhi algo não muito óbvio ou conhecido: uma pistola de raios que produz incontrolável caganeira. Sim, é sério. E achei pertinente trazer este texto de volta, já que andei falando de jornalismo em alguns textos recentes, já que o portador dessa “arma” é o jornalista Spider Jerusalem.

“E quem cacete é o Spider Jerusalém, cazzo?” pode perguntar algum leitor mais desavisado. Se você não o conhece, não sabe o que está perdendo, mas vamos tentar dar uma ideia. Num visual e linguagem pra lá de cyberpunk, o insano Warren Ellis criou em 1997 a série “Transmetropolitan” cujo protagonista é o repórter Spider Jerusalém, uma mistura de H.L.Mencken e Hunter S.Thompson, um escroto, misantropo, porra-louca e ermitão que se vê obrigado a abandonar seu isolamento e voltar a trabalhar em um jornal na “Cidade”, uma Babel caótica e futurista onde religiões novas surgem constantemente para se unir as dezenas de milhares já existentes, as propagandas invadem os sonhos das pessoas, há milhares de canais de TV disponíveis, convivem diversas mutações genéticas e estéticas alienígenas, pessoas transferem suas consciências para nuvens de nano dispositivos e humanos conservados criogenicamente são despertos apenas para serem rejeitados pela sociedade. Nesse mundo a mentira é notícia e a verdade é obsoleta. A principal arma de Jerusalém é a verdade. Como ele mesmo afirma, aponte a verdade para o alvo e mande tudo pelos ares. E como repórter polêmico, a máxima de Spider é a busca pela verdade, mesmo que para alcançá-la e divulgá-la ele precise atropelar a própria mãe com um tanque M1 Abrams.

Menos metaforicamente, ele também usa como arma uma curiosa pistola chamada “destrutor de intestino”, a estrela dessa matéria. Não estamos falando de um Cubo Cósmico, escudo de adamantium ou Nulificador Universal. É simplesmente uma pistola que provoca diarréia no coitado que estiver do lado errado do dispositivo, e na intensidade que se desejar, desde um simples desarranjo até um prolapso retal. Dá até medo tentar imaginar o princípio de funcionamento de uma bagaça dessas e o que diabos ele supostamente faz no sistema nervoso de alguém pra provocar um repentino tsunami intestinal totalmente involuntário.

À primeira vista essa arma não parece tão glamourosa ou ter o mesmo apelo que uma manopla Witchblade, as garras do Wolverine ou o anel de energia de um Lanterna Verde. Aliás, nem a segunda ou terceira vista. O martelo de Thor pode invocar tempestades e rachar o chão, a cara de pau do Constantine engana o próprio capeta e as cápsulas de gás do Batman podem derrotar até o Galactus. Cadê o apelo de uma arma cujo poder é fazer alguém borrar as calças? Está mais para o ridículo.

Todavia, por mais absurdo que possa parecer, um repórter com uma arma capaz de causar caganeira nos outros é mais uma ótima sacada do Ellis. Realmente um jornalista é capaz de causar incontinência em muita gente dado o poder que tem em mãos. Basta lembrar os grandes magnatas da imprensa. Assis Chateaubriant se queria comprar um colar de diamantes para presentear a Rainha da Inglaterra simplesmente reunia o maior numero de empresários e levantava a grana. E ai daquele que não entrasse na vaquinha. Todos tinham medo de ter seu nome difamado nos Diários Associados, independente se era verdade ou não. E o paraibano Chatô nem se importava em exagerar ou inventar fatos quando queria lascar um. E isso deveria dar uma disenteria em muito cabra. Isso sem citar outros poderosos, como Roberto Marinho ou Willian “Cidadão Kane” Randolph Hearst. Em menor escala, repórteres podem derrubar presidentes ou acabar guerras. Basta lembrar a dupla de repórteres do Washington Post que denunciou o esquema Watergate e levou o presidente Richard Nixon a renunciar. Bem parecido com Spider disparando sua arma contra o próprio Presidente dos Estados Unidos, que deve ter transformado o piso do banheiro em algo parecido com um quadro do Pollock.

Obviamente que no mundo real quem detém o poder de fazer políticos, empresários e poderosos cagarem de medo não necessariamente usa tal poder para nobres causas ou tenham um maior compromisso com a verdade. Aliás, a grande maioria que usa dessa prerrogativa é tão ou mais escrota quanto nosso anti-herói Spider Jerusalém, por estarem comprometidos com causas menos louváveis e cagarem para a verdade.

Posto isso, nada mais adequado que um profissional da imprensa usar uma arma que provoque diarreia em políticos e poderosos em geral que se enquadrem em sua alça de mira.

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