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O Segredo dos Argentinos

E ontem, enquanto os cinéfilos do mundo estavam assistindo ao Oscar, preferi conferir o mais recente e elogiado trabalho cinematográfico dos hermanos: “O Segredo dos Seus Olhos”. E concluí definitivamente que o cinema nacional, salvo ocasionais exceções, ainda está levando de goleada dos conterrâneos de Maradona. Claro que nosso cinema melhorou nos últimos anos, e há exemplos excelentes de bom uso dos recursos e linguagem que o meio oferece, como “Cidade de Deus”. Mas no geral o que temos por aqui são, muitas vezes, de um amadorismo de cair o queixo se comparados à produção internacional.
Mas deixemos a tarefa de salvar o cinema nacional para a dupla Tizuka Yamazaki e Xuxa e voltemos para o filme em questão. O protagonista de história é o oficial de justiça aposentado Benjamín Espósito (o ator Ricardo Darín, do qual me lembro de outras produções argentinas, incluindo o excelente “Nove Rainhas”), que tenta resolver as pendências de seu passado escrevendo uma versão romanceada de uma investigação sobre o estupro e morte de uma jovem ocorrido há cerca de 3 décadas, quando ele trabalhava com a jovem advogada Irene Menéndez, tendo como colega e “escudeiro” o alcoólatra Pablo Sandoval. Aparentemente um caso de rápida resolução, com a polícia logo incriminando dois suspeitos, Espósito se envolve e descobre uma pista que muda os rumos da investigação. Porém ele precisa ir contra a burocracia e aparente incompetência do sistema jurídico no qual trabalha, pouco interessado em prender o principal suspeito.
O diretor Juan José Campanella fez bem o dever de casa, e sua experiência dirigindo episódios em séries como “Lei e Ordem – SVU” ou “Dr.House” lhe deram um senhor know-how. Mesmo se tratando de um roteiro que se relaciona com a história recente da Argentina, a maneira como foi escrito e conduzido torna a história universal, permitindo a qualquer público acompanhar e se envolver com ela. Não obstante a brutalidade do crime – mostrado em poucos segundos no início do filme – a história flui leve, de início, com uma leve pitada de humor nas situações e diálogos, bem como um clima de romance entre a jovem Irene e o mais maduro Espósito, nunca plenamente desenvolvido ou resolvido. Porém conforme a história avança, o filme se torna mais pesado e sombrio, e a trama sofre uma reviravolta quando há interferência do poder executivo no caso em plena era da ditadura argentina, sutilmente fazendo referência àqueles anos de chumbo. No final das contas, Espósito se vê, anos depois, impelido à dar um desfecho em todos estes fatos para que seu romance possa também ser concluído. Admito que a conclusão me surpreendeu, sem apelar para clichês comuns nestas histórias, e com reviravoltas que fluíram no roteiro sem parecerem forçadas.
E falando em conclusões, hoje acordei com a boa notícia de que ele ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Não assisti ainda aos seus concorrentes, mas de antemão posso dizer que houve justiça aqui. Melhor ainda se os cineastas brasileiros descobrirem com os hermanos o segredo de um bom filme.
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