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Sherlock

Não costumo acompanhar séries de TV, até por falta de tempo e paciência com o formato e trama da maioria delas, salvo quando algum amigo me encosta uma arma na cabeça e me obriga a uma maratona, ao fim da qual estou irremediavelmente viciado (troque a arma na cabeça por algumas latas de cerveja garganta abaixo e terá um cenário mais exato).
A mais recente série – ou minissérie, dado seu formato e brevidade – a qual decidi me viciar conferir foi a recente produção da BBC, “Sherlock”. As séries inglesas costumam trazer boas surpresas, e nos últimos meses me dediquei a acompanhar as temporadas de “Dr Who” e “Torchwood”. Coincidentemente um dos responsáveis por essa série é Steven Moffat, também “culpado” por alguns ótimos episódios de Dr.Who.
Se a produção do Ritchie Guy para o cinema recria o personagem e o cenário com uma linguagem cinematográfica moderna, a proposta dessa série da BBC é transpor os elementos das histórias de Conan Doyle para os dias atuais. E consegue, sem sombra de dúvida, incluindo as parafernálias modernas à história sem destoar do que for mais elementar, mantendo o espírito intacto.
Nessa versão século XXI do Sherlock, John Watson (Martin Freeman) também é um médico veterano de guerra que combateu no Afeganistão e que voltou para casa ferido e reformado. Envolto em problemas financeiros e por um suposto stress pós-traumático, Watson tenta manter um blog como parte de sua terapia. Nesse ínterim, por meio de um amigo em comum, Watson é apresentado a Sherlock Holmes (Benedict Cumberbatch) para que ambos dividam um imóvel sito à Baker Street 221B. Logo o veterano descobre as sensacionais habilidades dedutivas de seu pretenso colega de quarto, que se diz o único consultor detetive do mundo, ajudando os agentes da Scotland Yard sempre que estes se veem em alguma sinuca de bico dedutiva. E logo também está envolvido no frenesi insano dos casos aparentemente insolúveis em que seu colega se mete, e descobre que sente falta da adrenalina do combate.
O personagem principal é um ser socialmente deslocado, altamente esnobe e por vezes prepotente, sem maiores relacionamentos, desprezado por muitos policiais que se sentem idiotas diante dele, além de ser considerado praticamente um psicopata por sua mórbida obsessão por crimes violentos e insolúveis. Mas ao contrário dos livros – que costumam mostrar um Watson quase subserviente a Holmes – a amizade entre ambos é um tanto conturbada, com Watson tendo que lidar com as excentricidades de seu amigo investigador, nem sempre satisfeito ou sem atritos. Isso sem mencionar as eventuais insinuações de homossexualidade entre ambos, que ele procura rebater enfaticamente.
Afora este aspecto da personalidade de Watson – algo que também ocorreu na versão cinematográfica recente – os demais elementos foram bem adaptados ou atualizados. Temos alguns coadjuvantes, como a senhoria Mrs. Hudson e o inspetor Lestrade, e a quase insuportável mania de Sherlock tocar violino para melhor pensar, bem como a linha de pensamento em ignorar conhecimentos os quais ele considere inúteis à sua “arte”, como astronomia. Podemos perceber também o ator Cumberbatch se esforçando para caracterizar o personagem, principalmente nos cacoetes de quando ele está raciocinando sobre os casos, sendo o principal o que cruzar os dedos sob o queixo e apoiar os cotovelos sobre os joelhos. E, não poderia deixar de faltar, a contraparte criminosa de Holmes, o misterioso Professor Moriarty.
Já outros aspectos precisaram ser atualizados. Por exemplo, a mania que Sherlock tem em enviar telegramas e bilhetes é substituída por sua obsessão em enviar mensagens de SMS. Ao invés de Landaus e Hansons puxados a cavalo, os indefectíveis táxis londrinos estão disponíveis para transportar o detetive e seu por vezes relutante escudeiro. Se necessário, Holmes tem a disposição todo equipamento forense que precisar no laboratório. Holmes mantém um site ao invés de ter escrito um livro sobre a arte da dedução, e Watson, narrador da maioria quase absoluta das histórias do detetive, conta os casos em seu blog.
O formato da série é incomum, com episódios de uma hora e meia, em uma temporada de apenas 3 episódios, deixando um senhor gancho ao fim do terceiro. A BBC já confirmou a produção de uma segunda temporada, mas apenas para o ano que vem.
Para quem já conhece o detetive dos contos e romances, a diversão extra é justamente encontrar as diversas referências espalhadas pelo roteiro dos três episódios lançados até o momento. Eu os assisti de uma forma muito rápida, e muitos detalhes podem ter passado desapercebidos, algo que corrigirei numa segunda sessão – na qual tentarei cooptar mais algum “cúmplice”.
- O primeiro episódio “A Study in Pink” é uma alusão bem óbvia a “Um Estudo em Vermelho”, primeiro romance do personagem. Inclusive há uma brincadeira em cima da pista encontrada junto a vítima, a inscrição “RACHE”, cuja solução dada no romance é ironizada pelo Holmes contemporâneo. Aparece o irmão de Holmes, Mycroft, que nos contos é descrito como um senhor obeso e tão inteligente quanto o irmão, porém avesso ao trabalho de campo, preferindo trabalhar para algum órgão do governo britânico. Ou, nas palavras de Holmes, por vezes ele É o governo britânico; há uma cena que pode ser considerada uma menção ao vício em cocaína que o personagem literário possui, mas que aqui não passa de adesivos de nicotina, algo mais aceitável para um protagonista de série de TV
- O segundo episódio, “The Blind Banker”, enquanto investiga uma invasão e vandalismo em uma instituição financeira, Holmes se envolve em um caso de duplo homicidio envolvendo tongs chinesas e um código a ser decifrado, talvez uma menção ao conto “Os Dançarinos”. O próprio Holmes menciona, ao longo do episódio, seitas que enviam sementes à possíveis vítimas, uma alusão a outro conto “As Cinco Sementes de Laranja”.
- No último episódio da temporada, “The Great Game”, enquanto Holmes participa de um jogo mórbido, seu irmão Mycroft deseja que ele investigue o sumiço de planos secretos do governo relacionados à morte de um funcionário, sendo praticamente uma adaptação quase literal de “Os Planos do Bruce-Partington”. Originalmente eram papeis de um projeto de submarino, e na série é um pen drive com informações sobre um sistema de misseis.
Em suma, o que você, que é fã de uma boa série ou do detetive mais famosos do mundo, está esperando? Que apareça alguém apontando uma arma para sua cabeça?
O Espírito de Sherlock Holmes

Apresentado ao mundo em 1887 no romance “Um Estudo em Vermelho”, Sherlock não é o primeiro detetive do gênero policial, mas se tornou o mais famoso, e mesmo quem nunca tenha chegado perto de alguma das histórias do Arthur Conan Doyle já ouviu falar dele, e a mística envolvendo o personagem é tão grande que muitos devem imaginar que ele realmente existiu, e a imagem criada pelo ilustrador Sidney Paget e o teatrólogo William Gillete já está devidamente gravada em nosso inconsciente coletivo. E mesmo criado há mais de um século, Sherlock Holmes reencarnou inúmeras vezes na cultura popular nestas décadas todas, nunca saindo de moda para seus fãs e ressurgindo para o grande público vez por outra ,lhe garantindo mais seguidores.
Para alguém que,eventualmente não conheça nada sobre o personagem, uma rápida biografia: Sherlock Holmes é um consultor e detetive londrino que emprega a observação, dedução e método científico para resolver casos de difícil resolução para a Scotland Yard ou para clientes com muitos esqueletos no armário e que precisam de discrição. Seus insólitos casos são narrados pelo médico e veterano de guerra Watson, que o conheceu quando ambos dividiam um imóvel à Baker Street, 221B, e que o acompanha em seus casos, quase sempre se surpreendendo com as conclusões quase sobrenaturais de seu amigo. Além de sua incrível capacidade de observação e profundo conhecimento de qualquer assunto que possa ser usado na dedução dos crimes, consta que Sherlock Holmes seja um hábil pugilista e adepto de uma variante do jiujitsu, o baritsu, apesar de raramente apelar para violência física. Também toca violino e é usuário de cocaína. Nascido provavelmente em 1856, provavelmente teria morrido em fins dos anos 20. Mas morreu pra você, fã ingrato, pois para muitos Sherlock existe e ainda está vivo. E o maior argumento para isso é que, sendo uma personalidade tão ilustre, a sua morte deveria ter sido noticiada no Times de Londres, algo que até hoje não ocorreu, por isso certamente ainda está vivo. Elementar, ora pois!
Arrisco a afirmar que o que mais exerce fascínio no imaginário dos fãs não é o que foi registrado nos contos e romances escritos por Conan Doyle, e sim justamente o que NÃO está escrito. Mesmo devidamente registrados, os casos nos quais Holmes se envolveu, há muitos aspectos nebulosos referentes à biografia do detetive, algumas contradições ou supostas incongruências nas narrativas, eventuais correlações entre a ficção e os fatos reais. Isso é mais do que suficiente para que especialistas no assunto desenvolvessem todo tipo de teoria para preencher estas lacunas. Há inúmeros estudos e tratados nos quais se especula sobre tais questões, levantando hipóteses das mais plausíveis às mais inverossímeis. E talvez esse seja o principal combustível que mantenha acesa a chama do interesse popular.
Há muito material a se especular. Qual universidade Holmes teria frequentado: Oxford ou Cambridge? O que o moldou em sua juventude para que se tornasse tão obstinado em seus estudos criminalísticos e se tornasse tão isolado e quase misantropo? Teria tido mesmo um caso secreto com Irene Adler, de “Escândalo na Boêmia”? Seu irmão Mycroft seria mesmo um agente do governo britânico ou aliado do maior inimigo de Holmes, o professor Moriarty? O que teria feito durante o período de três anos em que foi dado como morto? Seria Holmes homossexual, ou até mesmo uma mulher travestida? Teria descoberto, em suas inúmeras pesquisas, um elixir para prolongar a vida e estaria vivo até hoje? É desses e outros assuntos que estudiosos e sócios das dezenas de sociedades sherlockianas do mundo costumam tratar.
Se nos limitarmos ao universo escrito, há uma miríade de possibilidades. Um dos grandes estudiosos do assunto, Leslie S. Klinger, é responsável pela organização da mais recente edição “definitiva” do personagem, que além de reunir os romances e os contos originalmente publicados pela revista “Strand Magazine”, oferece informações adicionais de peso, frutos de pesquisa entre artigos e livros já publicados a respeito do personagem, espalhados em um ótimo texto introdutório que recapitula a biografia do criador e das criaturas e fornece uma crônica da era vitoriana, contextualizando bem o leitor de primeira viagem, além de centenas de notas de rodapé espalhadas ao longo dos contos e romances. E estas notas nos trazem boa parte das conjecturas e teorias tecidas nas últimas décadas especulando sobre os aspectos menos conhecidos do famoso inquilino de Baker Street. No Brasil essa versão está sendo publicada pela Jorge Zahar Editora.
Ao extrapolarmos o câ
none oficial e nos estendermos por outras mídias, incluindo adaptações oficiais, paródias ou simples influências, teremos uma ideia do quão amplo é o universo sherlockiano. Aliás, estas mídias é quem mais contribuiram para perpetuar a imagem coletiva do Holmes, lhe atribuindo características não mencionadas nos textos, como o tradicinal chapéu de caçador – o qual raramente usava nos contos – e a frase “Elementar, meu caro Watson”, que não consta nos escritos de Doyle. Desde 1905 que o personagem aparece em algum filme, animação ou série de TV, sendo os atores mais famosos e marcantes que o encarnaram William Gilette (teatro e cinema mudo), Basil Rathbone (seriado para o cinema dos anos 40) e Jeremy Brett (série de TV dos anos 90). Tais releituras não se limitam à Inglaterra vitoriana. Sherlock já combateu nazistas durante a II Guerra Mundial, foi ressucitado no século XXII para combater mais uma vez Moriarty, perseguiu o temível Jack, o estripador e até já esteve no Brasil para recuperar um violino roubado de D.Pedro II e desvendar uma série de assassinatos. Mais recentemente, Robert Dowley Jr “baixou” sua versão do espírito sherlockiano no novo filme do diretor Guy Ritchie, mostrando um personagem mais adaptado ao gosto dos fãs de blockbusters do século XXI.
Se formos listar os personagens de ficção que adotam o mesmo método de dedução científica, sendo inspirados, direta ou indiretamente em Sherlock Holmes, teríamos mais outra imensa e enciclopédica lista de “reencarnações”, como vários detetives da literatura policial do naipe de Hercule Poirot ou inspetor Maigret, alguns outros detetives do cinema e TV, como Columbo ou Adrian Monk, passando pelo Dr. House e chegando ao Batman, o maior detetive dos quadrinhos (ao menos na opinião da DC).
O fato é que Sherlock Holmes ainda se manterá na imaginação e no inconsciente coletivo dos fãs ainda por longa data, seja em suas inúmeras releituras, encarnações ou influências, nas mais diversas mídias, se tornando maior que seu criador. Aliás, se tornou consenso entre os fãs que Sherlock e Watson realmente existiram, e este último apenas usava Conan Doyle para reproduzir seus manuscritos. De saco cheio do sucesso de seu personagem, Arthur Conan Doyle decidira matá-lo em um confronto final com seu inimigo Moriarty em “O Problema Final”, no qual ambos trocam sopapos à beira de um penhasco, sobre as cataratas Reichembach, na Suíça, e despencam para a morte. O que ele não contava era com a pressão dos fãs irados que deixaram de comprar a “Strand Magazine” e que exigiam a volta de Holmes. E Conan Doyle precisou trazê-lo dos mortos, ressuscitando-o na história “A Casa Vazia”. Maior prova de sua capacidade de sobrevivência não há,e até hoje ele continua voltando dos mortos para assombrar mais uma geração com sua capacidade de dedução.
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