Narrativa e Roteiro

"Vou desistir de Hollywood e escrever novela para a Globo"
Estava lendo o que Tio Xiko andou postando nesse meu período de ausência e li o texto sobre o filme “Anjos e Demônios”, onde ele desce o malho na adaptação do livro de Dan Brown. Nesse meio tempo de volta ao século XIX também aproveitei para atualizar minha leitura e diminuir a eterna pilha de livros pendentes, e um desses foi o “Manual do Roteiro”, do americano Syd Field. E aproveito o mote para falar sobre este livro.
Syd Field é um dos mais respeitados teóricos da narrativa cinematográfica hollywoodiana. No fim dos anos 70 ele escreveu o “Manual do Roteiro”, no qual ensina de forma bem didática a estrutura típica dos roteiros americanos que funcionam, algo que “amadureceu” ao longo de décadas de produção de filmes. Em pouco mais de duzentas páginas, o velho mestre ensina, sem firulas ou rodeios, como o pequeno gafanhoto dos roteiros deve agir para escrever um roteiro decente, com conselhos e dicas práticas, desde o processo criativo até sobre a formatação do texto, apresentação do roteiro, registro e direitos autorais ou de como fazer o roteiro chegar às mãos certas ao invés de ir direto pra reciclagem de papel. Na edição que li, há um último capítulo dedicado a informática, certamente acrescentado nas edições mais atuais, onde o autor sugere ao futuro roteirista que não sabe chongas de informática onde investir sua grana em hardware e editores de texto específicos para elaboração de roteiros. Sim, isso existe, e com a vantagem de já estruturar o roteiro dentro dos padrões, e de hoje em dia haver opções, algumas gratuitas, disponíveis para download. Alguns desses editores praticamente escrevem a história sozinhos, ou quase isso. Quanto ao hardware, hoje não dá pra dizer que é útil, já que esse capítulo reflete a realidade do meio dos anos 90. Ou alguém ainda se lembra do processador Power PC?
Mas o mais interessante do livro é a descrição e identificação da estrutura de um roteiro, a qual ele batizou de “paradigma”. Para sintetizar as idéias de Syd Field, a estrutura de um roteiro típico é dividida em três partes, e em média cada página do roteiro corresponderia a um minuto de filme. Em um filme de 2 horas teríamos um roteiro de 120 páginas, em média. A divisão entre as três partes ou atos – início, meio e fim – se daria por pontos de virada, que servem para dar uma guinada na história, Dentro dessa estrutura, os primeiros trinta minutos de filme mostram o protagonista, seu ambiente, seus conflitos e objetivos. Pouco antes dos trinta minutos de filme deve haver obrigatoriamente o primeiro ponto de virada na trama, direcionando o protagonista ao segundo ato (confrontação), que contém os obstáculos para atingir seu objetivo. A hora seguinte os conflitos são desenvolvidos, e aos 90 minutos deve ter o segundo ponto de virada, que encaminha a história ao terceiro ato e a sua conclusão.

O Paradigma de Syd Field
Há dicas importantes, como prender o interesse do espectador nas primeiras 10 páginas de roteiro, sob o risco de não “fisgar” o público. E dentro dessa estrutura o roteirista deve criar um protagonista com personalidade e biografia bem definidas, com objetivos e conflitos claros para que a ação se torne viável e interessante. Ou, nas palavras do autor: “Todo drama é conflito. Sem conflito não há personagem; sem personagem, não há ação; sem ação, não há história; e sem história, não há roteiro”. Em outras obras posteriores, como em “Os Exercícios do Roteirista” e “Quatro Roteiros”, Syd retomaria a estrutura do paradigma e acrescentaria outros elementos, como as pinças e o ponto central.
Muitos acusam essa estrutura de rígida e de engessar a criatividade. Mas devemos lembrar que esse paradigma é voltado à realidade da indústria de cinema americana, e que produções independentes ou filmes avant-garde, experimentais ou simplesmente de arte não estariam “obrigados” a seguir tal forma. Coincidência ou não, a edição original do livro é de 1979, a maioria dos filmes que Syd cita como exemplo para ilustrar suas teorias é dos anos 70, com alguns exemplos mais antigos. E os críticos costumam apontar essa década como uma das mais prolíficas em termos de criatividade dos filmes americanos, uma época de orçamentos mais simples e que filmes de qualidade, com atuações memoráveis, idéias ousadas e originais e roteiros bem estruturados, e na qual diretores tinham maior liberdade criativa. Foi o tempo áureo de Martin Scorcese, Francis Ford Copolla, Jack Nicholson, Dennis Hopper, Peter Bdganovich e Roman Polanski. O primeiro “Guerra nas Estrelas” já havia sido lançado, mas a era dos Blockbusters começaria pra valer nos anos seguintes. Isso é tema do livro e documentário “Easy Riders, Raging Bull- Como a geração sexo, drogas e rock’n’roll salvou Hollywood”. E o próprio Field avisa e enfatiza em seu livro que isso é uma forma, não uma fórmula, e apesar dessa estrutura rígida, há infinitas variações em cima desse modelo, e é possível ser criativo sem necessariamente sair do paradigma. E uma das principais lições do autor é justamente não confundir forma com fórmula, já que ele ensina a estruturar o roteiro e a compor os personagens, sem “receitas de bolo” para clichês e arquétipos.
Mas vá dizer isso aos produtores de Hollywood, mais interessados em fórmulas de sucesso garantido e retorno financeiro que justifique o investimento na ordem de sete ou oito dígitos de doletas, algo que se tornou comum a partir da década de 80. O problema é que tem filmes que seguem tão fielmente a fórmula que exatamente aos 27 minutos de projeção se identifica claramente o primeiro ponto de virada, por exemplo, e se tornam extremamente previsíveis, pois além de seguirem uma estrutura rígida, são recheados de clichês repetitivos que supostamente agradariam o público. Um exemplo são os desenhos Disney dos anos 90, que seguem fielmente os parâmetros do “memorando de Vogler”. Mais regular que isso só as horas do dia nas quais a minha Internet 3G me faz sentir saudades da Internet discada.
Outras dicas relevantes de Syd Field são sobre roteiro adaptado, de como escrever um roteiro em parceria sem matar o parceiro durante o processo e de alguns erros a se evitar durante a criação do roteiro.
Quanto a adaptações, Syd lembra que um roteiro e um livro são completamente distintos. Claro que podemos extrapolar isso para outras mídias, como fatos reais, históricos ou os quadrinhos, tão em voga nas produções cinematográficas recentes. Há coisas que funcionam em certas mídias, outras não. Nem sempre o que fica bem em uma narrativa literária pode ser fielmente transposto para um filme, o que explicaria, em parte, o porquê de um filme muitas vezes não ser tão fiel ao livro que o inspirara. O tamanho do texto já é um empecilho. Se considerarmos que um roteiro tem em média 90 a 120 páginas, e a maioria dos best-sellers normalmente beiram as quinhentas páginas, já devemos imaginar que há muito a ser “enxugado” para caber em um roteiro. Tudo bem que, a depender do escritor, muito da narrativa serve para descrever o ambiente, como por exemplo, nos livros de Tolkien da trilogia “O Senhor dos Anéis”. No caso de filmes, as imagens falam por si, o que já nos economiza algumas páginas do roteiro. Porém é muito comum omitir situações, personagens, tramas paralelas ou simplesmente simplificar idéias ao passarmos um texto para um roteiro. Às vezes funciona, às vezes resulta em uma porcaria, ou por não agradar os fãs do original ou simplesmente por, mesmo com eventuais adaptações e mudanças, termos um roteiro que não funciona e não agrada ao público. Um ótimo exemplo de fiel adaptação é a do romance de Dashiel Hammet, “O Falcão Maltês”, que teve 3 adaptações cinematográficas, sendo as duas primeiras completamente dispensáveis, bons exemplos de que mesmo nos anos 30 Hollywood já conseguia pegar uma boa idéia e transformá-la em bosta. Mas em sua estréia como diretor, o roteirista John Huston resolveu respeitar o texto original. Tanto que ele costumava contar em tom de piada que o roteiro do filme foi escrito por sua secretária, a quem teria orientado a datilografar o texto do livro e dividi-lo em cenas. Brincadeiras à parte, “Relíquia Macabra” é um ótimo exemplo de fidelidade ao original. Com exceção da descrição física do protagonista Sam Spade e de um personagem a menos (a filha de Gutman), o filme é praticamente idêntico ao livro. Resultado? Sucesso de público e crítica em 1941. Mas a estrutura do livro ajuda, bem como a narrativa enxuta e contida em pouco mais de cem páginas, bem mais fácil de adaptar do que um livro com mais de 400 páginas.
Outra dica: um roteiro não deve conter todos os detalhes relacionados a iluminação, figurino, iluminação, movimentos e ângulos de câmera, um erro comum a muitos iniciantes. Como Syd lembra, Jean Renoir não considerava o cinema uma arte como outras devido a não envolver apenas uma única pessoa em todo o processo criativo. E cinema, principalmente o americano, é uma indústria, e como tal envolve dezenas ou centenas de pessoas. O roteirista é apenas uma dessas pessoas. E um erro comum de um candidato a roteirista é imaginar que precisa por todos esses detalhes em seu roteiro. Para ilustrar um (contra) exemplo de parceria e de como (não) escrever um roteiro lembremos uma anedota do folclore hollywoodiano: quando o escritor de romances policiais Raymond Chandler foi convidado para co-roteirizar a adaptação do romance “Pacto de Sangue” com o roteirista e diretor Billy Wilder, este sugeriu que ambos lessem o livro e preparassem um argumento para um provável roteiro. Ainda verde em Hollywood, Chandler teria se trancado por três semanas e voltou com um roteiro completo, incluindo descrições detalhadas de iluminação, câmera e efeitos sonoros. Segundo o crítico Ruy Castro, só faltou as instruções para o pipoqueiro e o lanterninha. E obviamente Billy Wilder achou tudo uma merda. Depois disso, o roteiro e o filme saíram meio a fórceps, mas o resultado foi excelente, melhor até que o próprio livro, segundo alguns, incluindo o próprio autor do livro, James M.Cain. Só não foi tão boa pra relação entre Chandler e Wilder, que dificilmente poderiam ser vistos nos mesmos churrascos em alegre troca de idéias após essa parceria.
Mas e no frigir dos ovos e no piar dos pintos, o que tudo isso tem com a recente adaptação do livro de Dan Brown? Como ainda não li ao livro e não assisti ao filme, fico com a opinião do compadre Tio Xiko. E acrescento a sua sugestão de adaptarem outro livro de Dan Brown que, quem o fizer, que o faça decentemente. Ou ao menos volte a ler os livros de Syd Field. Apesar de que sabemos que um roteiro ruim nem sempre é culpa do roteirsta, e que um filme ruim nem sempre é por culpa do roteiro. Mas isso veremos na continuação (se a bilheteria justificá-la)…
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