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O Mundo Surreal dos Produtores de Hollywood

Ou Como Um Fim de Semana Pode Estragar um Filme

Neste fim de semana estreou o novo filme do “visionário diretor de 300” Jack Snyder, a ficção “Sucker Punch – Mundo Surreal”, cuja história da protagonista Baby Doll mistura elementos reais de suas desventuras em um manicômio com imagens criadas em sua psique, com cenas de ação que se passam em uma realidade alternativa Steampunk/Dieselpunk, com beldades mandando bala em nazistas ou samurais gigantes, um deleite visual e uma narrativa que remonta a linguagem dos gibis, bem ao gosto do diretor, e que tem criado bastante expectativa no meio nerd desde que os primeiros trailers apareceram na rede. Afinal, o que mais quer um jovem nerd tarado do que ver um bando de gostosas em roupas fetichistas trocando tapa e tiros com caras maus? Nem precisava de história mais elaborada:)

Comentários jocosos à parte, a notícia é que a estreia desse filme esteve aquém do esperado, e o resultado em vil metal ficou abaixo de produções mais modestas, como a sequência do filme “Diário de um Banana”. Para quem conhece a mecânica de Hollywood, esse tipo de resultado costuma colocar a reputação do diretor em cheque, o que pode ser decisivo para definir sua participação em projetos futuros e o seu poder de decisão criativa em tais projetos. Famoso por impor suas idiossincrasias e estilo em filmes como “Watchmen”, preocupa os fãs a possibilidade de produtores imporem sua visão de projeto em detrimento das ideias de Snyder no seu futuro filme que retomará a franquia do Superman no cinema. E tudo que ninguém quer é um projeto natimorto como foi o “Superman Lives” nos anos 90.

Porém não é do filme novo do Snyder que quero falar, até porque ainda não tive o prazer de assisti-lo ainda, nem tampouco dissertarei acerca do impacto da bilheteria em seus projetos futuros. Muitos já devem ter se perguntado como os produtores de um filme que estreou há três dias já o consideram um fracasso de bilheterias.

Antes uma rápida lição de história de Hollywood. Em décadas passadas, o esquema de distribuição de um filme era bem diferente do que é visto atualmente. Filmes costumavam estrear em poucas salas e em poucas cidades, e aos poucos o filme era distribuído para outras praças, ao longo de semanas. Nesse meio tempo o público que o assistiu fazia o boca a boca e críticas favoráveis ajudavam na divulgação do filme, e se demorava semanas ou meses até saber se um filme seria um “sucesso” ou um “fracasso” de bilheterias. Também preciso lembrar que nesses tempos os filmes não custavam tanto, até porque não havia um pesado esquema de marketing, salários de mega estrelas ou efeitos caríssimos para inflacionarem o orçamento. E por incrível que pareça, anúncio em TV era heresia numa época em que os estúdios consideravam a televisõ como o grande adversário das bilheterias.

Mas isso mudou ao fim dos anos 70, quando filmes como “Tubarão”, “Star Wars” e “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” ajudaram a moldar o modelo de negócios que se tornou Hollywood nos anos recentes. Os produtores e executivos de estúdio estavam tomando mais uma vez as rédeas do processo criativo, que nos anos 70 esteve nas mãos dos diretores. E como sabemos, executivos de estúdio lidam com cinema com a mesma paixão que lidariam se estivessem gerenciando uma rede de supermercados ou um puteiro: visando exclusivamente os número$$$.

Quem começou pra valer com essa putaria foi a Paramount, que nessa época estava sob o comando de ex-executivos de TV. Eles impuseram um critério bem simples para a produção de um filme: se você não pudesse resumir o conceito do filme em um comercial de TV de meio minuto, esse filme seria inviável, já que sua divulgação massiva seria impossível. Era o nascimento dos filmes-eventos, ou “hight-concept”, filmes de premissa simples e visivelmente caça-níqueis. O público-alvo também mudou nessa época, e as grandes produções se voltaram para a parcela mais jovem do público. Os outros estúdios foram na onda, e os custos se tornaram astronômicos, em parte porque os esquemas de distribuição e divulgação para criar a expectativa no público e lançar milhares de cópias em um fim de semana podem facilmente chegarem a um quinto do orçamento total de um filme de dezenas, por vezes centenas de milhões de dólares. Os estúdios e os empresários de atores, principalmente a agência de talentos CAA, de Michael Ovitz, criaram uma ciranda inflacionária que catapultou o cachê dos atores, criando o star-system vigente até hoje.

Com um orçamento tão alto, a pressão por um retorno financeiro é grande, o que dá pouca margem a riscos, riscos estes que incluem ideias novas, ousadas e não testadas antes com o grande público. Grandes produções se prendem a fórmulas consolidadas de sucesso garantido. E, no frigir dos ovos, nesse esquema o resultado no lançamento do filme em uma sexta-feira já é o termômetro que define o sucesso ou fracasso do empreendimento. Antes das bilheterias fecharem na sexta a noite, o produtor já sabe se haverá um retorno financeiro ou se ele terá que fritar os bagos do diretor pra arcar com os prejuízos.

“Prejuízos”, na verdade é uma palavra forte, e mal usada. Raramente um estúdio tem real prejuízo com um filme, na prática, apenas não lucra o que almeja. A polêmica e influente crítica americana Pauline Kael escreveu, há muitos anos,  um artigo onde disseca em pormenores o esquema mercadológico dos estúdios de Hollywood. Esse artigo pode ser encontrado no livro “Criando Kane e Outros Ensaios”, o qual infelizmente não tenho em mãos para maiores detalhes sobre o artigo em questão.

Em linhas gerais, ela mostra que, antes mesmo do filme ser concluído e montado, o estúdio negocia uma série de acordos com redes de distribuição de cinema, redes de TV aberta e por assinatura, distribuição de home vídeo, além de licenciamentos com produtos derivados, como brinquedos ou jogos eletrônicos. Em suma, segundo Pauline e à época em que escreveu o artigo, o filme já tiraria seu lucro antes do pipoqueiro estourar o milho na pré-estreia do filme.

Não sei se com as cifras de hoje essa verdade permanece atual, mas com certeza o sistema não deve ter mudado muita coisa, e quando algum produtor chora suas pitangas amargando uma fraca bilheteria, dificilmente o estúdio ficou no prejuízo, e sim não lucrou tanto quanto planejava. É idêntico aquela empresa em que muitos de nós trabalhamos, que quando continua lucrando, mas não no ritmo que almejava ou projetara, já fala em “prejuízo”. E o que é pior, já ameaça soltar o temível passaralho. Te cuida, Jack Snyder. This is Holywood!!!

Quem Tem Bogart, Tem Medo


Ontem, no turbilhão de informações que me chega quando me disponho a acessar a rede, vi este link sobre uma nova biografia de Humphrey Bogart, antigo protótipo do machão hollywoodiano. O detalhe picante, por assim dizer, dessa nova biografia, escrita por Darwin Potter, é de que o ator teria se tornado um namorador compulsivo por medo de se tornar homossexual. Ou seja, segundo o autor, ele passava o rodo geral no mulherio com um medo atávico de um belo dia acordar com uma vontade irresistível de dar ré no quibe. E aí teria que mudar o nome para Humpfrey Bóga. Além desse medo, o livro também revela que Bogart “carcou” mais de 1000 mulheres, se tornou impotente e chegou a pensar em suicídio.
Pessoalmente desconfio de biografias que apelam para detalhes sensacionalistas no intuito de atrair os holofotes de uma mídia ávida por factóides e fofocas, além de estar escaldado com este tipo de “revelação”. Nos anos 90 se tornou comum surgirem “evidências” de que símbolos de masculinidade atracavam de popa. Convenientemente os “acusados” estavam mortos, em sua maioria. De John Wayne a Lampião, passando por Robin Hood e até pela múmia, todos se tornaram suspeitos de praticar o amor uranista  de forma totalmente camuflada. Quem te viu quem te vê. Isso parece até uma conspiração, principalmente nestes tempos em que Robert Pattinson é galã. Porra, com certeza o Sam Spade de Bogart daria uns sopapos no vampiro purpurinado de “Crepúsculo” e o ensinaria a catar mulher feito homem.

Mas voltemos ao Bogart, um ator que só foi conhecer o sucesso e o estrelato quando tinha mais de 40 anos, após os filmes “Relíquia Macabra” e “Casablanca”, do início dos anos 40. Antes disso costumava ser o bandido que morria na antepenúltima cena dos filmes. Infelizmente ele pouco aproveitou do sucesso, já que morreria de câncer em 1957. A imagem que o acompanhou pelo resto da carreira foi a do personagem bronco e cínico, com frases ríspidas e irônicas e um soco certeiro na agulha, mas que no fundo (epa!) era um sentimental enrustido. E de vez em quando alguns espertinhos resolviam duvidar de sua masculinidade nos botecos da vida, e aí tome porrada. E apesar da declaração do biógrafo, não consta em biografias anteriores que Humphrey fosse do tipo que passasse a craquete em todas, tendo uma folha corrida bem mais modesta, ao menos quando comparado a outros picões famosos, como Frank Sinatra, Gary Cooper ou Spencer Tracy. Ainda assim conseguiu fôlego para se casar umas quatro vezes, todas com atrizes. Do primeiro casamento, com Helen Mencken,  levou um bolo, do segundo um par de chifres de Mary Philips, e do terceiro – e mais complicado – levou algumas garrafadas da ciumenta esposa Mayo Methot. E dizem que sempre chorava – tanto nas  cerimônias de casamento quanto nos divórcios. Seu último casamento foi com a bela e famosa Lauren Bacall, que foi sua amante nos últimos anos de casamento com Mayo.

Ironicamente essa história de Bogart sentir medo de virar bicha me lembrou uma história interessante sobre a produção do filme “Casablanca”, que li pela primeira vez na coluna “Hollywood Boulevard” da revista “Set”, da saudosa jornalista Dulce Damasceno de Brito, que foi correspondente em Hollywood durante seus áureos anos. Nessa matéria em especial ela levantava a ficha do elenco masculino de “Casablanca”, que era predominantemente homossexual, praticamente só isentando o protagonista Bogart e o diretor húngaro Michael Curtiz da gaiola das loucas. Provavelmente o diretor deve ter tido uma crise ao ver o elenco com o qual trabalharia, tendo dito algo do tipo “puta que pariu, vou trabalhar com um bando de viados!”. Como nem todo mundo entendia húngaro, provavelmente deve ter entrado para os anais (epa!) do anedotário hollywoodiano alguma versão mais suave da frase, a qual não me recordo.

Na verdade, mesmo naqueles tempos mais conservadores, quando o cara tinha que ser muito macho pra se assumir gay, em Hollywood o homossexualismo era bastante comum e tolerado, e muitos atores com pinta de galã e pose de macho costumavam colar os bigodes entre si. A única ressalva era a imagem, que tinha que ser mantida para o grande público. Ou você imaginava que Tyrone Power, homem todo em “A Marca do Zorro”, tinha um caso tórrido com Cesar Romero?

Mas tergiverso. Voltemos à “Casablanca” e seu elenco florido. Teria sido daí, então, que Boga Bogart teria começado a temer queimar a rosca, já que estava cercado por um monte de homossexuais? E, para complicar, ao fim do filme (sim, lá vem spoiler, ao menos para o infiel que ainda não assistiu a este clássico), o durão Rick, dono do botequim mais badalado daquelas bandas do Marrocos, renuncia ao amor de sua vida em prol de uma causa maior, deixando-o ir nos braços do líder da resistência francesa Victor Laslo, terminando o filme ao lado do corrupto e cínico capitão Renault (Claude Rains),  iniciando aquilo que poderia se tornar uma bela amizade, segundo as palavras do próprio Rick. Significa?

No frigir dos ovos, o que Bogart deve ter tido não foi medo de virar gay. O que deve ter acontecido é que ele deve ter se enchido de ouvir todo tipo de piadinha em relação ao final do filme “Casablanca”, e mandado à puta que pariu seus colegas de copo que perguntavam se o francês beijava direitinho ou se os dois eram os “suspeitos de sempre”.

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Espetáculo de Velhas Novidades

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Com toda esta conversa sobre a suposta revolução tecnológica promovida pelo filme “Avatar”, estava lembrando as outras “revoluções” técnicas anteriores que aconteceram em Hollywood, as quais foram criadas e implementadas mais como uma tentativa de atrair o público e tentar reverter a queda na arrecadação com bilheteria…Hã, eu acho que já falei isso antes, mas agora é (quase) sério, já que é óbvio para todos que essa nova tecnologia 3D está aí para combater o inimigo da vez que ameaça o cinema: a distribuição digital dos filmes e a pirataria. Se hoje o que faz os produtores arrancarem os cabelos são os DVD’s piratas vendidos pelos camelôs ou a distribuição de filmes pela Internet antes mesmo deles chegarem às salas de cinema, a indústria de filmes enfrentou coisas piores no passado, e nem por isso morreu, apenas se adaptando à nova realidade. Se olharmos em perspectiva a evolução do cinema americano, desde que os estúdios se mudaram de Nova Iorque e se estabeleceram na Califórnia que novas tecnologias foram tornando o cinema mais atrativo. Alguns desses avanços foram incorporados paulatinamente, outros foram vendidos como grandes inovações para aumentar a bilheteria frente a alguma ameaça ou concorrência ao cinema. Alguns  foram adotados em definitivo, outros demoraram a ter aceitação total e muitos não vingaram ou foram suplantados por técnicas mais modernas.
Por exemplo, lembremos do som. A era dos grandes estúdios foi consolidada em cima do cinema em preto e branco e mudo durante os anos 20, mas no fim desta década o som já começava a desempregar os músicos que tocavam durante a projeção, sendo o primeiro a usar uma trilha sonora gravada em discos para acompanhar o filme foi “Don Juan,” de 1926, uma aplicação da tecnologia Vitaphone, que permitia sincronizar o som com o filme. Já no ano seguinte a Warner lançou “O Cantor de Jazz“, considerado o primeiro filme falado, que empregava trilha sonora e alguns diálogos, aplicando o sistema desenvolvido pela Western Eletric, o qual teve rápida aceitação entre os estúdios. O advento do som no cinema provocou grandes mudanças e desempregos, desde os músicos necessários em cada sala de projeção quanto os letreiristas que “escreviam” os breves diálogos que eram exibidos entre as cenas, até atores e atrizes que, por conta de problemas de dicção ou sotaque se viram sem carreira do dia pra noite, como a húngara Vilma Banks ou o estridente John Gilbert. Mas criou uma demanda por roteiristas de talento que escrevessem diálogos e histórias que atraíssem o público, e na década seguinte o cinema amadureceu, com o nascimento dos musicais. Mas nem todos aderiram de pronto a novidade. Charles Chaplin relutou em adotar a nova tecnologia, e só o fez de forma plena em “O Grande Ditador“, de 1940, quando seu sucesso já era inegável.
Outra tecnologia bem sucedida foi o cinema em cores. Mesmo o crack de 1929 não afetou tanto a indústria de cinema, que se recuperou da crise econômica, mas a Grande Depressão fez diminuir a arrecadação com bilheterias, e fez surgir os filmes “B” para sessões duplas, como chamariz para mais público pagante. A grande novidade tecnológica da década era o cinema em cores através do Technicolor. A tecnologia começou a ser criada ainda nos anos 1910, mas só se mostrou promissora e adequadamente desenvolvida nos anos 1930. Mesmo quando a empresa Technicolor Motion Picture Corporation conseguiu aperfeiçoar a tecnologia, utilizando as três cores, os estúdios não aderiram em massa, principalmente devido aos custos de se filmar nesta técnica. Inicialmente adotado mais em animações, como as de Walt Disney, foi necessário esperar o fim da década para uma maior aceitação da técnica. O primeiro longa-metragem live-action a empregar a a técnica das trễs cores foi “Vaidade e Beleza”, de 1935. O ano de 1939, um dos mais prolíficos deste tempo e que legou clássicos às gerações seguintes, teve duas grandes produções que se tornaram ótimos veículos para as cores: “E O Vento Levou” e “O Mágico de Oz“, este último combinando imagens monocromáticas com as coloridas. Aos poucos as produções aderiram as cores, mas a fotografia em preto e branco nunca foi totalmente abandonada, voltando a ser utilizada esporadicamente.
Já outras tecnologias não tiveram tanta aceitação para garantir tanta longevidade quanto as cores e o som tiveram. Nos anos 40 não houve o surgimento notável de nenhuma tecnologia nova, apenas a consolidação das já desenvolvidas. No pós-guerra, os estúdios começaram a sentir um decréscimo na arrecadação de bilheteria, algo que piorou nos anos 50 com a televisão invadindo grande parte dos lares americanos, oferecendo entretenimento gratuito às famílias. O cinema sentiu o baque, pois parafraseando um produtor daqueles tempos, se as pessoas podiam ver lixo de graça, porque pagariam para vê-lo? A TV se tornou “o adversário”, já que ameaçava a galinha dos ovos de ouro dos estúdios, que por mais que esperneassem, tiveram que dar adeus a sua era de ouro dos anos passados. E nesse clima de desespero e concorrência que Hollywood voltou a investir em tecnologia para inovar seus filmes. E uma das novidades foi o emprego de técnicas 3D em suas produções, também conhecida como Natural Vision. O primeiro filme foi “A Sombra e a Escuridão“, de 1952, que prometia ao público um leão em seu colo. Mas a tecnologia, mesmo sendo empregada em diversas produções, não era madura o suficiente para produzir resultados satisfatórios ou regulares. Se comparado a atual tecnologia 3D digital, o 3D destes tempos produziam imagens com cores irregulares e causavam desconforto visual ao público, obrigado a usar aqueles óculos de papelão e plástico celofane. Vendido como uma novidade tecnológica e usado de maneira indiscriminada por Hollywood, a novidade teve um “boom” de público breve, sendo considerada a “era de ouro do 3D” o período entre 1952 e 1955, no qual se produziu cerca de 30 filmes por ano em 3D. Alguns destes filmes seriam relançados de forma “convencional” pouco depois quando o modismo esfriou. Antes das atuais tecnologias, o 3D voltaria de forma esporádica nos anos 60, 70 e 80.
Além do 3D, frente à concorrência com a televisão, outras tecnologias lançadas nos anos 1950 foram o Cinerama , que empregava telas curvas com quase 180 graus, som estéreo e 3 projetores para passarem a sensação espacial do filme, o Todd-AO, que usava películas de 70mm e seis canais de som estéreo e o VistaVision, no qual o filme em 35mm era rodado na vertical, conseguindo uma qualidade fotográfica superior sem distorção da imagem. Mas entre as inovações da década que efetivamente “pegaram” uma delas foi o Cinemascope, não obstante seu custo total. Basicamente a imagem era distorcida e alongada com o uso de lentes anamórficas, ocupando toda a tela do cinema e obtendo uma largura com quase o dobro obtido por filmes 35mm convencionais. Isso impulsionou produções épicas, grandes espetáculos visuais, como “O Manto Sagrado“, primeiro filme que empregou esta técnica, a qual foi licenciada pela Fox aos demais estúdios, com exceção da Paramount, que já usava o processo VistaVision, lançando em 1954 o filme “Natal Branco” neste formato. Apesar de relativa aceitação, tais formatos se tornariam obsoletos nos anos seguintes, sendo substituídos por técnicas mais avançadas, como o Panavision.
Mas nem toda a tecnologia e inovação salvou o regime vigente desde os anos 20, e o tempo dos grandes estúdios chegou ao fim no inicio dos anos 60. Reivindicações trabalhistas por parte de roteiristas e atores, além da concorrência dos filmes europeus só pioravam a situação, e os outrora grandiosos estúdios, que mantinham grandes cadeias de cinemas, foram adquiridos por multinacionais e se tornaram apenas meras empresas entre tantas em conglomerados financeiros. A face de Hollywood mudava para permanecer igual, ou quase. E até o fim dos anos 70 o que realmente se inovou foi na qualidade dos roteiros e na liberdade artística dada aos diretores, antes meros funcionários a serviço dos produtores. Mas entre as obras-primas desta época ainda havia espaço para experimentalismos técnicos, sendo alguns explorados pelo marketing do filme. Nos anos 70, auge do cinema-catástrofe, “Terremoto” prometia passar a sensação dos tremores através do sistema de som Sensurround, desenvolvido pelos estúdios Universal, o que seria o equivalente acústico em 1974 ao estardalhaço que “Avatar” está produzindo hoje. Mas poucos filmes subsequentes adotaram este sistema de som, que quase derruba alguns velhos cinemas com sua intensidade sonora, principalmente nos sons graves, além de interferir no som de salas adjacentes exibindo outros filmes. Na prática, o padrão de som que passou a ser ditado nas produções atendia pelo nome de Dolby, que aos poucos começou sua hegemonia técnica justamente nos anos 70, evoluindo até os sistemas de som digitais utilizados hoje.
E qual a moral da história? Aí você decide se a tecnologia 3D vingará e mudará a forma como vemos filmes, sendo a salvação da indústria ou se é apenas um modismo passageiro, e caso Hollywood queira realmente continuar vendendo filmes que passe a ser mais ousada e aposte em histórias criativas que não ofendam a inteligência do público.
Update: Até James Cameron está reclamando do modismo 3D (via Ambrosia)!
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Quando Mundos Colidem (Parte 2)

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Conclusão do artigo sobre os filmes que Hollywood comete sobre a obra do inglês barbudo Alan Moore. Caso ainda não tenha lido a primeira parte, fique à vontade para fazê-lo
A mais recente produção baseada na obra de “Alan Moore é “Watchmen“, que foi lançada no cinema há cerca de um ano. E quem prestar atenção nos créditos de abertura, verá que só é mencionado o nome de Dave Gibbons, o desenhista. Mais uma vez Alan Moore fez questão de não ver seu nome associado a uma produção, não obstante ter sido esta obra de 1986 que consolidou seu nome entre os grandes roteiristas do gênero. Mas também foi praticamente seu último trabalho para a DC antes dele puxar o carro da editora, que ficou com o direito dos personagens por ele criado para a maxi-série em 12 partes que revolucionou os quadrinhos de super-heróis no meio dos anos 80. Desde o fim daquela década que boatos referentes a uma possível produção baseada na série circulam. O ex Monty Python Terry Gillian chegou a ter o projeto em mãos, mas reza a lenda que o próprio Alan Moore o convenceu que boa parte dos conceitos apresentados na revista não funcionariam no cinema. Os fãs sempre esperavam o pior de uma possível adaptação, com ótimas ideias se convertendo em bobagens hollywoodianas. Muitos anos depois, finalmente a produção caiu nas mãos do diretor Jack Snider.

Jack Snider é um caso à parte, já que ganhou um certo respaldo e respeito dos fãs dos quadrinhos após transpor o álbum “300 de Esparta”, do Frank Miller, no filme “300“. O que impressionou a muitos foi justamente que algumas cenas seguiram fielmente várias páginas dos quadrinhos, como se estes fossem storyboards da produção. Robert Rodriguez já fizera isso em Sin City. Só que ao contrário de Rodriguez, que se manteve fiel ao roteiro e às imagens, o que se percebe é que Snyder optou por reproduzir fielmente o visual dos quadrinhos de Frank Miller, porém não foi tão fiel ao roteiro, introduzindo pequenas mudanças que , na verdade, modificavam substancialmente o texto como um todo, além de inserir uma história totalmente nova envolvendo a rainha de Esparta e uma trama política nos bastidores. Resumindo, num primeiro olhar podemos até achar que a adaptação de Snyder é fiel, mas se observarmos os detalhes, dá pra perceber que aspectos muito importantes do texto original foram pervertidos, muito provavelmente para adequar a produção à alguma “receita de bolo” dos produtores.

E foi isso que aconteceu com “Watchmen“. Já no trailer ficou claro que muitas das cenas reproduziriam na tela as cenas desenhadas por Dave Gibbons, o que alegrou os fãs temerosos por mais uma bomba hollywoodiana baseada em Alan Moore. E quanto a isso não há sombra de dúvida de que muitas sequências antológicas foram transpostas para o filme, o que por si só já é um senhor mérito, provocando um frisson voyerista em qualquer um que já tenha lido e relido ad infinitum a maxi-série.

Mas as boas notícias param por aí. O que vou falar a seguir pode até parecer aquele papo nerd xiita de se exigir fidelidade absoluta aos detalhes da obra, e talvez até seja. Mas quando falo em detalhes não estou me referindo ao tom certo de verde para o Hulk ou o tamanho dos chifres na máscara do Demolidor. Por isso não vou reclamar da mudança dos uniformes, pois isso é perfumaria. Até gostei de algumas mudanças, como os uniformes da Silk Spectre. A original é uma tremenda referência visual às pinups, e o uniforme de sua filha Laurie ficou mais interessante, por assim dizer, agradando a qualquer tarado por mulheres em latex.

Como Moore previa, não dava para levar tudo para a tela, mas até aí tudo bem, é aceitável. Mas aí dou ponto a Snider, que na abertura do filme faz um resumo dos anos 30 até 1985, quando se passa a história, usando referências visuais excelentes e citando fatos que são mencionados ao longo dos quadrinhos de forma indireta.

Um dos pontos fracos, na minha subjetiva e sincera opinião, é a caracterização dos personagens e a interpretação dos atores. O Comediante e o Rorcharsch até que foram OK, apesar de poderem ter sido ainda melhor explorados. Porém senti falta uma Sally Jupiter sexualmente liberal quando jovem e uma senhora amarga “esperando a morte” em um asilo. Tampouco vi a personalidade forte e zangada de sua filha, Laurie, frustrada por ter que realizar as fantasias da mãe. O o Ozymandias, então? Nos quadrinhos Adrian Veidt era um senhor loiro de meia idade, com uma expressão carismática, natural liderança e presença marcante, mas carregando uma amargura e o peso dos seus atos. No filme se tornou um personagem distante e apático, com maneirismos quase afetados. Uma bichona, como diria Paulo Silvino. Tudo bem que Rorscharch insinua uma possível homossexualidade do personagem no gibi, mas daí a levar isso a sério é sacanagem. Em suma, faltou dar uma personalidade aos personagens, estavam quase todos apáticos. Culpa do elenco, do diretor, do roteiro? Não sei dos outros atores, mas a Carla Gugino sabe ser bem safada quando quer…

watchmen1.jpgE falando em roteiro, este é o principal calcanhar de aquiles do filme. O forte da obra é justamente a história, que explorou praticamente todas as possibilidades narrativas da mídia quadrinhos, com flashbacks, metalinguagem e metáforas visuais e narrativas excelentes, incluindo as citações, referências e diálogos, em sua maioria com sutileza que exige uma segunda leitura pra ser percebido. Obviamente não seria viável transpor TUDO para um filme, mas bem que poderiam manter a essência da obra. Personagens secundários acabaram se fundindo entre si, os aspectos-chaves da trama foram simplificados, os diálogos se tornaram menos brilhantes, e o que é pior, a sutileza foi pro saco, com inclusão de cenas com violência gráfica, algo que não existia tão explicitamente nos original. Não sei se subestimaram por demais o público, mas não deixaram muito espaço para a imaginação do espectador. Tudo bem que os produtores de Hollywood não costumam perder dinheiro ao nivelar por baixo a inteligência de seu público, mas acho que exageraram. Como exemplo posso invocar a cena que eu mais aguardava, o relato de Rorscharch ao psicólogo da prisão sobre o seu passado, principalmente o caso de sequestro da garotinha, que perdeu todo o clima. Claro que nos quadrinhos houve tempo para desenvolver uma tensão entre os personagens, mas o pior é que no filme o diretor queria deixar tudo bem claro, no melhor estilo “estou desenhando para você entender direitinho”, e onde haviam dois cães brigando por um osso – que se revelaria uma tíbia humana após um olhar mais atento – ficou uma perna de criança destroçada e ainda com o sapatinho na boca de dois pastores alemães. E nem vou comentar a diferença do modo como ele mata o assassino nos quadrinhos e no filme.

Esteticamente o filme agrada, mas como narrativa e caracterização dos personagens deixa a desejar, e muito, ao texto original. Talvez eu venha a mudar de opinião quando vir a assistir a versão integral do diretor, com cenas acrescentadas e os extras, como os “Contos do Cargueiro Negro”. Mas duvido muito.

A moda de adaptar histórias em quadrinhos para o cinema ainda está rendendo, e veremos muitos filmes deste gênero pelos próximos anos. Mesmo afastado da indústria de quadrinhos, ainda há algum material escrito por Moore que ainda não foi tocado pelos obtusos produtores do cinema, como “Tom Strong”, “Promethea” ou “Lost Girls”. Resta saber se algum dia teremos no cinema algo fiel à obra do mago inglês, ou se Hoolywood vai perceber que Moore lançou uma urucubaca das brabas pra qualquer filme baseado em sua obra dar com os burros n’água.

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